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Elogio da Madrasta por Mario Vargas Llosa - Versão HTML

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MARIO VARGAS LLOSA

Elogio da madrasta

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Tradução

Ari Roitman e Paulina Wacht

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Créditos

Copyright © Mario Vargas Llosa, 1988

Todos os direitos reservados, incluindo o direito de qualquer tipo de reprodução completa ou parcial, à

EDITORA OBJETIVA LTDA.

Rua Cosme Velho, 103

Rio de Janeiro — RJ — Cep: 22241-090

Tel.: (21) 2199-7824 — Fax: (21) 2199-7825

www.objetiva.com.br

Título original

Elogio de la madrastra

Capa

Raul Fernandes

Imagem de capa

Tim Macpherson / Getty Images

Preparação de originais

Elisabeth Xavier de Araújo

Revisão

Ana Julia Cury

Eduardo Carneiro

Coordenação de e-book

Marcelo Xavier

Conversão para e-book

Abreu’s System Ltda.

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE

SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

V426e

Vargas Llosa, Mario

Elogio da madrasta [recurso eletrônico] / Mario Vargas Llosa ; tradução Ari Roitman, Paulina Wacht. - Rio de Janeiro : Objetiva, 2012

recurso digital

Tradução de: Elogio de la madrastra

Formato: ePub

Requisitos do sistema: Adobe Digital Editions

Modo de acesso: World Wide Web

120p. ISBN 978-85-7962-177-2 (recurso eletrônico)

1. Romance peruano. 2. Livros eletrônicos. I. Roitman, Ari. II. Wacht, Paulina. III. Título.

12-5751 CDD: 868.99353

Dedicatória

A Luis G. Berlanga,

com carinho e admiração.

Epígrafe

Il faut porter ses vices comme un manteau royal, sans hâte. Comme une auréole

qu’on ignore, dont on fait semblant de ne pas s’apercevoir.

Il n’y a que les êtres à vice dont le contour ne s’estompe dans la boue hialine de

l’atmosphère.

La beauté est un vice, merveilleux, de la forme.

CÉSAR MORO, Amour à mort

O aniversário de dona Lucrecia

No dia em que fez quarenta anos, dona Lucrecia encontrou em cima do travesseiro uma

missiva de traço infantil, caligrafada com muito carinho:

Feliz aniversário, madrasta!

Não tenho dinheiro para lhe dar nada, mas vou estudar muito, tirar o primeiro

lugar e isso vai ser o seu presente. Você é a melhor e a mais bonita de todas e eu

sonho toda noite com você.

Feliz aniversário outra vez!

Alfonso

Já era depois de meia-noite e don Rigoberto estava no banheiro entregue às suas

abluções de antes de dormir, que eram complicadas e lentas. (Depois da pintura

erótica, a limpeza corporal era seu passatempo favorito; a espiritual não o inquietava

tanto.) Emocionada com a carta do menino, dona Lucrecia sentiu o impulso irresistível

de procurá-lo, de agradecer. Aquelas linhas eram, na verdade, sua aceitação na

família. Estaria acordado? Não havia problema! Caso contrário, beijaria sua testa com

muito cuidado para não incomodá-lo.

Enquanto descia a escadaria atapetada da mansão às escuras rumo ao quarto de

Alfonso, pensava: “Eu consegui, ele já gosta de mim.” E seus velhos temores em

relação ao menino começaram a se evaporar como uma névoa ligeira corroída pelo sol

do verão limenho. Tinha esquecido de vestir o roupão, estava nua por baixo da leve

camisola de seda preta e suas formas brancas, abundantes, ainda duras, pareciam

flutuar na penumbra entrecortada pelos reflexos da rua. Estava com a longa cabeleira

solta e ainda não tinha tirado os brincos, anéis e colares da festa.

No quarto do menino — é verdade, Foncho sempre ficava lendo até tardíssimo! —

havia luz. Dona Lucrecia bateu com os nós dos dedos e entrou: “Alfonsito!” No cone

amarelado que a lâmpada do abajur irradiava, por trás de um livro de Alexandre

Dumas, apareceu, assustada, uma carinha de Menino Jesus. Os cachos despenteados

de cabelo dourado, a boca entreaberta por causa da surpresa mostrando a dupla fileira

de dentes branquíssimos, os grandes olhos azuis arregalados tentando resgatá-la das

sombras da soleira. Dona Lucrecia permanecia imóvel, observando-o com ternura. Que

menino bonito! Um anjo de nascença, um desses pajens daquelas gravuras galantes

que seu marido escondia e trancava a quatro chaves.

— É você, madrasta?

— Que cartinha mais linda você me escreveu, Foncho. É o melhor presente de

aniversário que já me fizeram, juro.

O menino tinha dado um pulo e estava já de pé em cima da cama. Sorria, de braços

abertos. Enquanto avançava para ele, também risonha, dona Lucrecia surpreendeu —

adivinhou? — nos olhos do enteado um olhar que passava da alegria ao desconcerto e

se fixava, atônito, em seu busto. “Meu Deus, você está quase nua”, pensou. “Como foi

se esquecer do roupão, sua boba. Que espetáculo para o pobre menino.” Tinha bebido

mais taças do que devia?

Mas Alfonsito já a abraçava: “Feliz aniversário, madrasta!” Sua voz, fresca e

despreocupada, fazia a noite rejuvenescer. Dona Lucrecia sentiu aquela silhueta

delgada de ossinhos frágeis contra o seu corpo e pensou num passarinho. Imaginou

que se o apertasse com muito ímpeto o menino se quebraria como um bambu. Assim,

ele em pé sobre o leito, ficavam da mesma altura. Tinha enroscado seus magros

braços no seu pescoço e a beijava amorosamente na bochecha. Dona Lucrecia

também o abraçou e uma das suas mãos, deslizando por baixo do paletó do pijama

azul-marinho com filetes vermelhos, passeou pelas costas do menino, apalpando e

sentindo na gema dos dedos a delicada escadaria da sua espinha dorsal. “Amo muito

você, madrasta”, sussurrou a vozinha junto ao seu ouvido. Dona Lucrecia sentiu dois

breves lábios que se detinham ante o lóbulo inferior da sua orelha, aqueciam-no com

seu hálito e depois o beijavam e mordiscavam, brincando. Teve a impressão de que,

enquanto a acariciava, Alfonsito ria. Seu peito transbordava de emoção. E pensar que

suas amigas tinham vaticinado que aquele enteado seria seu maior obstáculo, que por

culpa dele jamais chegaria a ser feliz com Rigoberto. Comovida, beijou-o também, nas

bochechas, na testa, no cabelo desgrenhado, enquanto, vagamente, como que vindo de

longe, quase sem que ela se desse conta disso, uma sensação diferente ia se

infiltrando de um confim ao outro do seu corpo, concentrando-se principalmente

naquelas partes — os peitos, o ventre, o dorso das coxas, o pescoço, os ombros, as

bochechas — expostas ao contato com o menino. “Você me ama muito, de verdade?”,

perguntou, tentando se afastar. Mas Alfonsito não a soltava. E, ao contrário, enquanto

respondia, cantarolando, “Muitíssimo, madrasta, você é quem eu mais amo no mundo”,

pendurou-se nela. Depois, suas mãozinhas a pegaram pelas têmporas e puxaram sua

cabeça para trás. Dona Lucrecia sentiu-se bicada na testa, nos olhos, nas

sobrancelhas, na bochecha, no queixo... Quando aqueles lábios magros roçaram nos

seus, apertou os dentes, confusa. Será que Fonchito entendia o que estava fazendo?

Devia afastá-lo com um puxão? Mas não, não, como podia haver qualquer malícia na

revoada saltitante daqueles lábios travessos que, duas, três vezes, perambulando pela

geografia do seu rosto, pousaram por um instante sobre os seus, pressionando com

avidez.

— Bom, e agora é hora de dormir — disse afinal, escapando do menino. Fez um

esforço para parecer mais à vontade do que estava. — Senão, você não vai acordar

para ir ao colégio, pequenino.

O menino se deitou, concordando. Olhava risonho para ela, com as bochechas

rosadas e uma expressão de entusiasmo. Como podia haver malícia nele! Aquela

carinha límpida, os olhos regozijados, o pequeno corpo que se apertava e se encolhia

sob os lençóis não eram a personificação da inocência? Podre é você, Lucrecia!

Agasalhou-o, ajeitou o travesseiro, beijou seu cabelo e apagou a luz do abajur. Quando

saía do quarto, ouviu-o piar:

— Vou tirar o primeiro lugar e lhe dar de presente, madrasta!

— Prometido, Fonchito?

— Palavra de honra!

Na intimidade cúmplice da escada, enquanto voltava para o quarto, dona Lucrecia

sentiu que estava ardendo dos pés à cabeça. “Mas não é febre”, pensou, aturdida.

Será possível que a carícia inconsciente de um menino a tivesse deixado assim? Você

está ficando depravada, mulher. Seria o primeiro sintoma de envelhecimento? Porque a

verdade é que estava encharcada, com as pernas molhadas. Que vergonha, Lucrecia,

que vergonha! E, de repente, cruzou pela sua cabeça a lembrança de uma amiga

licenciosa que, num chá em benefício da Cruz Vermelha, provocou rubores e risinhos

nervosos na mesa ao contar que, quando fazia a sesta nua com um afilhadinho de

poucos anos que coçava as suas costas, ficava acesa como uma tocha.

Don Rigoberto estava deitado de costas, nu em cima da colcha rubi com estampas

que pareciam escorpiões. No quarto sem luz, apenas ligeiramente clareado pelo

resplendor da rua, sua longa silhueta alva, hirsuta no peito e no púbis, permaneceu

imóvel enquanto dona Lucrecia tirava os sapatos e se deitava ao seu lado, sem tocá-lo.

Seu marido já estava dormindo?

— Onde você foi? — ouviu-o murmurar, com uma voz pastosa e arrastada de

homem que fala em pleno crepitar das vontades, uma voz que ela conhecia tão bem. —

Por que me abandonou, minha vida?

— Fui dar um beijo no Fonchito. Ele me escreveu uma carta de aniversário especial.

Por pouco não me fez chorar, de tão carinhosa.

Adivinhou que ele mal a ouvia. Sentiu a mão direita de don Rigoberto roçando em sua

coxa. Estava queimando, como uma compressa de água fervendo. Os dedos

escarvaram, desajeitados, por entre as dobras e redobras da sua camisola. “Vai notar

que estou encharcada”, pensou, incômoda. Foi um mal-estar fugaz, porque a mesma

onda veemente que a tinha sobressaltado na escada voltou ao seu corpo, arrepiando-o.

Sentiu todos os poros se abrirem, ansiosos, e aguardarem.

— Fonchito viu você de camisola? — fantasiou, excitada, a voz do marido. — Deve

ter dado umas ideias ao pequeno. Vai ter seu primeiro sonho erótico esta noite, quem

sabe.

Ouviu-o rir, excitado, e ela também riu: “O que está dizendo, seu bobo.” Ao mesmo

tempo, fingiu atacá-lo, deixando cair sua mão esquerda sobre a barriga de don

Rigoberto. Mas tocou foi numa haste humana levantando-se e pulsando.

— O que é isso? O que é isso? — exclamou dona Lucrecia, capturando-o,

esticando-o, soltando-o, recuperando-o. — Olhe só o que encontrei, ora, que surpresa.

Don Rigoberto já a tinha puxado para cima de si e a beijava com deleite, sorvendo

seus lábios, abrindo-os. Por um bom tempo, de olhos fechados, enquanto sentia a

ponta da língua do marido explorando a cavidade da sua boca, passeando pelas

gengivas e o palato, sem pressa para saborear e conhecer tudo, dona Lucrecia

mergulhou num aturdimento feliz, sensação densa e palpitante que parecia amolecer

seus membros e aboli-los, fazendo-a flutuar, cair, girar. No fundo do turbilhão de prazer

que eram, ela, a vida, como que aparecendo e desaparecendo num espelho que perde

o seu azougue, vez por outra se delineava uma carinha intrusa, de anjo rubicundo. Seu

marido havia levantado a camisola e lhe acariciava as nádegas, num movimento circular

e metódico, enquanto beijava os peitos. Ouviu-o murmurar que a amava, sussurrar

meigamente que com ela tinha começado para ele a verdadeira vida. Dona Lucrecia

beijou seu pescoço e mordiscou os mamilos até ouvi-lo gemer; depois, lambeu

lentamente aqueles ninhos que tanto o exaltavam e que don Rigoberto tinha lavado e

perfumado cuidadosamente para ela antes de ir se deitar: as axilas. Ouviu-o ronronar

como um gato manhoso, contorcendo-se sob o seu corpo. Apressadas, suas mãos

separavam as pernas de dona Lucrecia com uma espécie de exasperação. Colocaram-

na de cócoras sobre ele, ajeitaram-na, abriram-na. Ela gemeu, dolorida e gozosa,

enquanto, num redemoinho confuso, divisava uma imagem de São Sebastião flechado,

crucificado e empalado. Tinha a sensação de ter levado uma chifrada no centro do

coração. Não se conteve mais. Com os olhos entrecerrados, as mãos atrás da cabeça,

avançando os seios, cavalgou naquele potro de amor que se balançava com ela, ao seu

compasso, ruminando palavras que mal podia articular, até sentir que ia desfalecer.

— Quem sou eu? — indagou, cega. — Quem você diz que eu fui?

— A esposa do rei da Lídia, meu amor — explodiu don Rigoberto, perdido no seu

sonho.

Candaules, rei da Lídia

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Figura 1

Sou Candaules, rei da Lídia, pequeno país situado entre a Jônia e a Cária, no coração

daquele território que séculos mais tarde irão chamar de Turquia. O que mais me

orgulha no meu reino não são suas montanhas rachadas pela secura nem seus

pastores de cabras que, quando é preciso, enfrentam os invasores frígios e eólios e os

dórios vindos da Ásia, derrotando-os, e os bandos de fenícios, lacedemônios e os

nômades escitas que vêm pilhar nossas fronteiras, mas sim a garupa de Lucrecia,

minha mulher.

Digo e repito: garupa. Não traseiro, nem bunda, nem nádegas nem rabo, e sim

garupa. Porque quando eu a cavalgo, a sensação que me arrebata é essa: a de estar

sobre uma égua musculosa e aveludada, puro nervo e docilidade. É uma garupa dura e

talvez tão enorme como dizem as lendas sobre ela, que correm pelo reino inflamando a

fantasia dos meus súditos. (Todas elas chegam aos meus ouvidos mas não me irritam,

antes me lisonjeiam.) Quando ordeno que ela se ajoelhe e beije o tapete com sua testa,

de maneira que eu possa examiná-la à vontade, o precioso objeto alcança o seu mais

feiticeiro volume. Cada hemisfério é um paraíso carnal; ambos, separados por uma

delicada fenda de pelo quase imperceptível que se afunda no bosque de brancuras,

negrumes e sedosidades embriagadoras que coroam as firmes colunas das coxas, me

fazem pensar num altar daquela religião bárbara dos babilônios que a nossa extinguiu.

É dura ao tato e doce aos lábios; vasta no abraço e cálida nas noites frias, um

travesseiro macio para repousar a cabeça e uma fonte de prazeres no momento do

assalto amoroso. Penetrá-la não é fácil; até doloroso, a princípio, e mesmo heroico

pela resistência que suas carnes rosadas opõem ao ataque viril. São necessárias uma

vontade tenaz e uma vara profunda e perseverante, que não esmorecem diante de

nada nem de ninguém, como as minhas.

Quando disse a Giges, filho de Dáscilo, meu guarda e ministro, que tenho mais

orgulho das proezas realizadas por minha vara com Lucrecia na suntuosa nau cheia de

velas do nosso leito que das minhas façanhas no campo de batalha ou da equidade

com que distribuo justiça, ele recebeu com gargalhadas o que pensava ser uma

brincadeira. Mas não era: tenho mesmo. Duvido que muitos habitantes da Lídia possam

me imitar. Certa noite — estava ébrio —, só por curiosidade chamei ao meu aposento

Atlas, o mais bem-armado dos escravos etíopes. Fiz com que Lucrecia se inclinasse à

sua frente e ordenei que ele a montasse. Não conseguiu, intimidado na minha presença

ou porque era um desafio excessivo para as suas forças. Várias vezes o vi avançar,

resoluto, empurrar, ofegar e depois se retirar, vencido. (Como o episódio mortificava a

memória de Lucrecia, mais tarde mandei decapitar Atlas.)

Porque, na verdade, eu amo a rainha. Tudo na minha esposa é doce, delicado, em

contraste com o esplendor exuberante da sua garupa: suas mãos e seus pés, sua

cintura e sua boca. Tem o nariz arrebitado e uns olhos lânguidos, feitos de águas

misteriosamente quietas que só o prazer e a cólera agitam. Eu a estudei como fazem

os eruditos com os velhos in-fólios do Templo, e mesmo acreditando sabê-la de cor,

todo dia — toda noite, melhor dizendo — descubro nela algo novo que me enternece: a

linha suave dos seus ombros, o ossinho travesso do cotovelo, a finura do peito do pé, a

redondeza dos seus joelhos e a transparência azul do bosquezinho das axilas.

Há quem se canse logo da sua mulher legítima. A rotina do casamento mata o

desejo, filosofam, que encanto pode durar e fazer ferver as veias de um homem que

dorme, ao longo de meses e de anos, sempre com a mesma mulher. Mas, apesar do

tempo de casados que já temos, Lucrecia, minha senhora, não me cansa. Nunca me

cansou. Quando vou à caça do tigre e do elefante, ou à guerra, sua lembrança acelera

meu coração tal qual nos primeiros dias, e quando acaricio alguma escrava ou uma

mulher qualquer para distrair a solidão das noites na tenda de campanha, minhas mãos

sempre sentem uma dilacerante decepção: são apenas traseiros, nádegas, ancas,

bundas. Só a dela — ai, amada! — é garupa. Por isso lhe sou fiel de coração; por isso

a amo. Por isso componho poemas que recito ao seu ouvido e quando estamos a sós

me jogo de bruços no chão para beijar-lhe os pés. Por isso enchi seus cofres de joias e

pedrarias e mandei trazer para ela, de todos os recantos do mundo, calçados, vestes e

adornos que nunca vai conseguir estrear. Por isso a protejo e a venero como a mais

deliciosa possessão do meu reino. Sem Lucrecia, a vida para mim seria a morte.

A história real do que ocorreu com Giges, meu guarda e ministro, não se parece

muito com os falatórios sobre o caso. Nenhuma das versões que ouvi chega perto da

verdade. Sempre é assim: embora a fantasia e a verdade tenham um mesmo coração,

seus rostos são como o dia e a noite, como o fogo e a água. Não houve aposta nem

troca de nenhuma espécie; tudo ocorreu de improviso, por um súbito rompante meu,

obra da casualidade ou intriga de algum deusinho brincalhão.

Tínhamos assistido a uma interminável cerimônia no descampado vizinho ao Palácio,

onde as tribos vassalas que vieram me apresentar seus tributos ensurdeceram nossos

ouvidos com seus cantos selvagens e nos cegaram com a poeirada das acrobacias que

seus cavaleiros faziam. Vimos também um par desses feiticeiros que curam os males

com cinza de cadáveres e um santo que rezava girando sobre os calcanhares. Este

último foi impressionante: impulsionado pela força da sua fé e pelos exercícios

respiratórios que acompanhavam a dança — um ofegar rouco e crescente que parecia

sair-lhe das vísceras —, ele se transformou num redemoinho humano e, em dado

momento, sua velocidade tirou-o da nossa vista. Quando se corporizou de novo e se

deteve, estava suando como os cavalos depois de uma carga e com a palidez

abobalhada e os olhos aturdidos de quem viu um deus ou vários.

Meu ministro e eu estávamos falando dos feiticeiros e do santo enquanto

saboreávamos uma taça de vinho grego, quando o bom Giges, com a faísca maliciosa

que a bebida deposita em seu olhar, baixou a voz de repente para me sussurrar:

— A egípcia que comprei tem o traseiro mais belo que a Providência já concedeu a

uma mulher. O rosto é imperfeito; os peitos, miúdos, e ela sua em excesso; mas a

abundância e a generosidade do seu posterior compensam amplamente todos os

defeitos. Uma coisa cuja lembrança me provoca vertigem, Majestade.

— Mostre-me esse e eu te mostrarei outro. Compararemos e decidiremos qual é o

melhor, Giges.

Vi que ele se desconcertava, piscava e entreabria os lábios para não dizer nada.

Será que pensou que eu estava caçoando? Temeu ter ouvido errado? Meu guarda e

ministro sabia muito bem de quem falávamos. Formulei essa proposta sem pensar,

mas, uma vez feita, uma minhoquinha adocicada começou a roer meu cérebro e a me

causar ansiedade.

— Ficou mudo, Giges. O que foi?

— Não sei o que dizer, senhor. Estou confuso.

— É o que vejo. Enfim, responde. Aceita a minha oferta?

— Vossa Majestade sabe que seus desejos são os meus.

Assim começou tudo. Primeiro fomos à sua residência e, no fundo do jardim, onde

ficam as termas a vapor, enquanto suávamos e seu massagista rejuvenescia os nossos

membros, examinei a egípcia. Uma mulher muito alta, com o rosto avariado pelas

cicatrizes que sua raça faz nas moças púberes para consagrá-las ao seu sangrento

deus. Já tinha deixado a juventude para trás. Mas era interessante e atraente, admito.

Sua pele de ébano brilhava entre as nuvens de vapor como se tivesse sido envernizada,

e todos os seus movimentos e atitudes revelavam uma extraordinária soberba. Não

havia nela nem um resquício do abjeto servilismo tão frequente nos escravos para

ganhar o favor dos seus donos, mas sim uma elegante frieza. Não entendia o nosso

idioma mas decifrava imediatamente as instruções que seu amo lhe transmitia mediante

gestos. Quando Giges indicou o que queríamos ver, ela, envolvendo-nos os dois por

alguns segundos com seu olhar sedoso e depreciativo, deu meia-volta, inclinou-se e

levantou a túnica com ambas as mãos, oferecendo-nos seu mundo traseiro. Era

notável, de fato, e milagroso para quem não fosse o marido da rainha Lucrecia. Duro e

esférico, sim, de curvas suaves e uma pele imberbe e granulada, com reflexos azuis,

pela qual o olhar deslizava como sobre o mar. Felicitei-a e também felicitei o meu

guarda e ministro por ser proprietário de tão doce delícia.

Para cumprir a parte que me correspondia da proposta, tivemos que agir com o

maior sigilo. Aquele episódio com Atlas, o escravo, tinha sido profundamente chocante

para a minha mulher, como já disse; Lucrecia se prestou a fazer aquilo porque atende a

todos os meus caprichos. Mas a vi tão envergonhada enquanto Atlas e ela

representavam inutilmente a fantasia que tramei, que jurei a mim mesmo nunca mais

submetê-la à prova semelhante. Ainda hoje, transcorrido tanto tempo desde aquela

ocorrência, quando do pobre Atlas só devem restar uns ossos polidos no hediondo

barranco cheio de abutres e falcões onde foram jogados seus restos, a rainha às vezes

acorda de noite, sobressaltada de angústia nos meus braços, pois no sonho a sombra

do etíope voltou a se inflamar em cima dela.

Portanto dessa vez fiz as coisas sem que minha amada soubesse. Pelo menos era a

minha intenção, se bem que, reconsiderando as coisas, fuçando nos resquícios da

minha memória o que aconteceu naquela noite, às vezes tenho dúvidas.

Fiz Giges entrar pela portinhola do jardim e o introduzi no aposento enquanto as aias

despiam Lucrecia e a perfumavam e a untavam com as essências que eu gosto de

cheirar e saborear sobre seu corpo. Indiquei ao meu ministro que se ocultasse atrás do

cortinado da varanda e que procurasse não se mexer nem fazer o menor ruído. Desse

ponto, ele tinha uma visão perfeita do belíssimo dossel de colunas lavradas, com

escadas e cortinas de cetim vermelho, cheio de almofadinhas, sedas e preciosos

bordados, onde toda noite a rainha e eu travamos nossos encontros amorosos. E

apaguei todas as lamparinas de maneira que o quarto ficou iluminado somente pelas

línguas crepitantes da lareira.

Lucrecia entrou logo depois, flutuando numa vaporosa túnica semitransparente de

seda branca, com filigranas de renda nos punhos, no pescoço e na bainha. Usava um

colar de pérolas, uma touca e, nos pés, sandálias de madeira e feltro, de salto alto.

Deixei-a assim por um bom tempo, degustando-a com os olhos e oferecendo ao meu

bom ministro aquele espetáculo dos deuses. E enquanto a contemplava e pensava que

Giges também o fazia, a maliciosa cumplicidade que nos unia subitamente me inflamou

de desejo. Sem dizer uma palavra avancei em sua direção, rodei seu corpo no leito e

montei em cima dela. Enquanto a acariciava, me aparecia na mente a cara barbada de

Giges e a ideia de que ele estava nos vendo me efervescia ainda mais, polvilhando meu

prazer com um tempero agridoce e picante até então ignorado por mim. E ela?

Adivinhava alguma coisa? Sabia de algo? Porque creio que nunca a senti tão fogosa

como dessa vez, nunca tão ávida na iniciativa e na réplica, tão temerária na dentada, no

beijo e no abraço. Quem sabe pressentia que, nessa noite, quem gozava naquela

habitação avermelhada pelo fogo e pelo desejo não éramos dois, e sim três.

Quando, ao amanhecer, Lucrecia já adormecida, eu me afastei do leito nas pontas

dos pés, para guiar o meu guarda e ministro até a saída do jardim, encontrei-o

tremendo de frio e de pasmo.

— Tinha razão, Majestade — balbuciou, extasiado e trêmulo. — Eu a vi, e é tão

extraordinária que não posso acreditar. Vi, mas até agora penso que sonhei.

— Esquece tudo o quanto antes e para sempre, Giges — ordenei. — Eu te concedi

esse privilégio num estranho arrebatamento, sem ter meditado antes, pelo apreço que

te tenho. Mas cuidado com a língua. Eu não gostaria que esta história virasse falatório

de taverna e mexerico de mercado. Posso me arrepender de tê-lo trazido aqui.

Ele jurou que nunca diria uma palavra.

Mas disse. Se não, como correriam tantas histórias sobre o fato? As versões se

contradizem, cada qual mais desatinada e mais falsa. Chegam até nós e, embora no

começo nos irritassem, agora nos divertem. É algo que passou a fazer parte deste

pequeno reino meridional daquele país que séculos mais tarde hão de chamar de

Turquia. Tal como suas montanhas ressecadas e seus súditos rústicos, tal como suas

tribos itinerantes, seus falcões e seus ursos. Afinal de contas, não me desagrada a

ideia de que, uma vez transcorrido o tempo, levando consigo tudo o que agora existe e

me rodeia, só perdure para as gerações do futuro, nas águas do naufrágio da história

da Lídia, redonda e solar, generosa como a primavera, a garupa da rainha Lucrecia,

minha mulher.

As orelhas da quarta-feira

“São como as conchas que capturam, no seu labirinto de madrepérola, a música do

mar”, fantasiou don Rigoberto. Suas orelhas eram grandes e bem-desenhadas; ambas,

embora principalmente a esquerda, tendiam a afastar-se da sua cabeça pelo alto e a

curvar-se sobre si mesmas, decididas a monopolizar todos os ruídos do mundo só para

elas. Quando era menino ele se envergonhava do seu tamanho e da sua forma caída,

mas tinha aprendido a aceitá-las. E agora, que dedicava uma noite por semana

exclusivamente a cuidar delas, até se sentia orgulhoso. Porque, ainda por cima, de

tanto experimentar e insistir, conseguiu que esses apêndices sem graça também

participassem, com a alacridade da boca ou a eficácia do tato, de suas noites de amor.

Lucrecia também gostava delas e, na intimidade, prodigalizava-lhes risonhos elogios.

No auge dos embates conjugais costumava apelidá-las: “Meus dumbinhos.”

“Flores abertas, asas sensíveis, auditórios para a música e os diálogos”, poetizou

don Rigoberto. Examinava cuidadosamente com a lupa as bordas cartilaginosas da sua

orelha esquerda. Sim, já estavam aparecendo novamente as cabecinhas dos pelos

extirpados na quarta-feira passada. Eram três, assimétricos, como os pontos em que

se cortam os lados de um triângulo isósceles. Imaginou a escovinha escura em que

eles se transformariam se os deixasse crescer, se desistisse de exterminá-los, e foi

tomado por uma passageira sensação de náusea. Rapidamente, com a destreza de

uma prática assídua, apertou essas pontas pilosas entre os dentes da pinça e

arrancou-as, uma depois da outra. O puxão com cócegas que acompanhou a

extirpação lhe provocou um delicioso calafrio. Pensou então que dona Lucrecia

desembaraçava, acocorada, com seus dentes brancos e regulares, os pelos crespos

do seu púbis. Essa ideia lhe provocou uma meia ereção. Reprimiu-a no ato, imaginando

uma mulher peluda, com as orelhas cheias de madeixas lisas e um buço pronunciado

em cujas sombras tremeriam gotas de suor. Então lembrou que um colega do ramo de

seguros tinha lhe contado, certa vez, ao voltar de umas férias no Caribe, que a rainha

indiscutível de um prostíbulo de Santo Domingo era uma mulata robusta que exibia,

entre os seios, um inesperado penacho. Tentou imaginar Lucrecia com um atributo

semelhante — uma crina sedosa! — entre seus alvos peitos, e sentiu horror. “Sou cheio

de preconceitos em matéria amorosa”, confessou-se. Mas por ora não tinha intenção

de renunciar a nenhum deles. Cabelo é muito bom, um poderoso enfeite sexual, desde

que situado no lugar devido. Na cabeça e no monte de Vênus, bem-vindo e

imprescindível; nas axilas, tolerável uma que outra vez, para provar e conhecer de tudo

(era uma obsessão europeia, parecia), mas em braços e pernas decididamente não; e

entre os seios, jamais!

Empreendeu o exame da sua orelha esquerda, com a ajuda dos espelhos convexos

que usava para se barbear. Não, em nenhum dos ângulos, protuberâncias ou curvas do

pavilhão tinham brotado novos pelos, além daqueles três mosqueteiros cuja presença

um belo dia detectara, surpreso, alguns anos antes.

“Esta noite não vou fazer, vou ouvir amor”, decidiu. Era possível, tinha conseguido

outras vezes e Lucrecia também se divertia, pelo menos como preliminar. “Deixe eu

ouvir seus seios”, murmuraria, e, ajeitando amorosamente, primeiro um, depois o outro,

os bicos dos peitos da esposa na hipersensível gruta dos seus ouvidos — encaixavam

um na outra como um pé num mocassim —, escutaria de olhos fechados, reverente e

enlevado, concentrado como na elevação da hóstia, até ouvir que chegavam à

aspereza terrosa de cada botão, provenientes de subterrâneas profundidades carnais,

certas cadências sufocadas, talvez o arfar dos poros se abrindo, talvez o fervor do

sangue convulsionado pela excitação.

Estava depilando as excrescências capilares da orelha direita. Identificou de repente

um forasteiro: o pelo solitário se balançava, ignominioso, no centro da torneada

pontinha do lóbulo. Extirpou-o com um ligeiro puxão e, antes de jogá-lo na pia para que

a água o empurrasse pelo ralo, examinou-o com desagrado. Continuariam aparecendo

novos pelos, nos anos vindouros, em suas grandes orelhas? Em todo caso ele não

desistiria nunca; mesmo no seu leito de morte, se ainda tivesse forças, continuaria

destruindo-os (podando-os, melhor dizendo?). No entanto, depois, quando seu corpo

jazesse sem vida, os intrusos iriam brotar à vontade, crescer, enfear seu cadáver.

Aconteceria a mesma coisa com suas unhas. Don Rigoberto pensou que essa

deprimente perspectiva era um argumento irrebatível a favor da cremação. Sim, o fogo

impediria a imperfeição póstuma. As chamas o fariam desaparecer ainda perfeito,

frustrando os vermes. Esse pensamento o aliviou.

Enquanto enrolava umas bolinhas de algodão na ponta de um grampo e as umedecia

com água e sabão para limpar a cera acumulada no interior do ouvido, antecipou o que

aqueles limpos funis ouviriam dentro de pouco, descendo dos seios para o umbigo da

sua esposa. Ali não precisariam de esforço para surpreender a música secreta de

Lucrecia, pois uma verdadeira sinfonia de sons líquidos e sólidos, prolongados e

breves, difusos e nítidos, viria revelar-lhe a sua vida soterrada. Antecipou com gratidão

como se emocionaria ao captar, através desses órgãos que agora escarvava com

minucioso afeto, desembaraçando-os da película oleosa que periodicamente se

formava neles, algo da existência secreta do seu corpo: glândulas, músculos, vasos

sanguíneos, folículos, membranas, tecidos, filamentos, tubos, trompas, toda essa rica

e sutil orografia biológica que jazia sob a tersa epiderme do abdômen de Lucrecia.

“Amo tudo o que existe dentro ou fora dela”, pensou. “Porque tudo nela é ou pode ser

erógeno.”

Não estava exagerando, levado pelo sentimento de ternura que a irrupção dela nas

suas fantasias sempre lhe provocava. Não, nem um pouco. Pois, graças à sua

perseverante obstinação, tinha conseguido se apaixonar pelo todo e por cada uma das

partes da sua mulher, amar todos os componentes desse universo celular por separado

e em conjunto. Sabia-se capaz de responder eroticamente, com uma pronta e robusta

ereção, ao estímulo de qualquer de seus infinitos ingredientes, até o mais ínfimo, até —

para o hominídeo comum — o mais inconcebível e repelente. “Aqui jaz don Rigoberto,

que chegou a amar o epigástrio tanto como a vulva ou a língua da sua esposa”,

filosofou que seria um justo epitáfio para o mármore do seu túmulo. Mentiria aquela

inscrição funerária? De modo algum. Pensou como ficaria aturdido, dentro em breve,

com os surdos deslocamentos aquosos que suas orelhas surpreenderiam quando se

espremessem avaras contra o flácido estômago e, agora, já estava ouvindo os

graciosos ruídos gorgolejantes daquele flato, o alegre peidinho estalante, o gargarejo e

o bocejo vaginal, o lânguido espreguiçar de sua intestina serpe. E já se ouvia

sussurrando, cego de amor e de luxúria, as frases com que costumava homenagear

sua esposa enquanto a acariciava. “Esses barulhinhos também são você, Lucrecia; são

o seu concerto, a sua pessoa sonora.” Tinha certeza de que poderia reconhecê-los

imediatamente, distingui-los dos sons produzidos pelo ventre de qualquer outra mulher.

Era uma hipótese que não teria oportunidade de verificar, pois nunca tentaria a

experiência de ouvir amor com alguma outra. Para que faria isso? Lucrecia não era um

oceano sem fundo que ele, mergulhador amante, jamais terminava de explorar? “Eu te

amo”, murmurou, sentindo novamente o amanhecer de uma ereção. Conjurou-a com um

peteleco que, além de dobrá-lo em dois, provocou-lhe um ataque de riso. “Quem ri a

sós, lembra das suas maldades!”, ouviu que, do quarto, sua mulher o repreendia. Ah,

se Lucrecia soubesse de que estava rindo.

Ouvir a voz dela, confirmar a sua proximidade e a sua existência, encheu-o de

satisfação. “A felicidade existe”, repetiu, como todas as noites. Sim, desde que fosse

procurada onde era possível. No corpo próprio e no da amada, por exemplo; a sós e

no banheiro; durante horas ou minutos numa cama compartilhada com o ser tão

desejado. Porque a felicidade era temporária, individual, excepcionalmente dual,

raríssima vez tripartida e nunca coletiva, municipal. Estava escondida, pérola em sua

concha marinha, em certos ritos ou práticas cerimoniais que ofereciam ao ser humano

lufadas e miragens de perfeição. É preciso se contentar com essas migalhas para não

viver ansioso e desesperado, apalpando o impossível. “A felicidade se esconde no

orifício das minhas orelhas”, pensou, de bom humor.

Tinha acabado de limpar os condutos de ambos os ouvidos e ali estavam, sob os

seus olhos, as bolinhas de algodão úmido, impregnadas do humor amarelo oleoso que

acabava de tirar. Faltava ainda enxugá-los, para que aquelas gotas de água não

cristalizassem alguma imundície antes de evaporarem. Enrolou mais duas bolinhas de

algodão no grampo e esfregou os condutos tão suavemente que parecia estar

massageando-os ou acariciando-os. Depois jogou as bolinhas no vaso e puxou a

descarga. Limpou o grampo e guardou-o na caixinha de aloé da sua mulher.

Olhou seus ouvidos no espelho para uma última inspeção. Sentiu-se satisfeito e cheio

de ânimo. Ali estavam aqueles cones cartilaginosos, limpos por fora e por dentro,

prontos para se inclinar e ouvir com respeito e incontinência o corpo da amada.

Olhos como vaga-lumes

“Fazer quarenta anos não é, então, tão terrível assim”, pensou dona Lucrecia,

espreguiçando-se no quarto às escuras. Sentia-se jovem, bela e feliz. A felicidade

existia, então? Rigoberto dizia que sim, “em certos momentos e para nós dois”. Não

era uma palavra oca, um estado que só os bobos atingiam? Seu marido a amava,

demonstrava isso diariamente com mil detalhes delicados e quase todas as noites

solicitava seus favores com ardor juvenil. Ele também parecia ter rejuvenescido desde

que, há quatro meses, decidiram se casar. Os temores que a inibiram durante tanto

tempo de fazê-lo — seu primeiro matrimônio tinha sido desastroso, e o divórcio, um

pesadelo aflitivo de rábulas gananciosos — se esfumaram. Desde o primeiro momento

tomou posse do seu novo lar com mão segura. A primeira coisa que fez foi mudar a

decoração de todos os aposentos para que nada lembrasse a falecida esposa de

Rigoberto, e agora governava a casa com desenvoltura, como se sempre tivesse sido a

patroa. Só a cozinheira anterior lhe demonstrou certa hostilidade e foi preciso substituí-

la. Os outros empregados se deram muito bem com ela. Principalmente Justiniana,

que, promovida por dona Lucrecia à categoria de aia, foi um achado: eficiente, esperta,

limpíssima e de uma devoção a toda prova.

Mas seu maior êxito era na relação com o menino. Era essa sua principal

preocupação, antes, algo que imaginava como um obstáculo insuperável. “Um enteado,

Lucrecia”, pensava, quando Rigoberto insistia que eles precisavam acabar com seus

amores semiclandestinos e se casar de uma vez. “Não vai funcionar nunca. Esse

menino vai me odiar para sempre, vai infernizar a minha vida e mais cedo ou mais tarde

vou terminar odiando-o também. Quando já se viu um casal feliz com filhos alheios?”

Nada disso aconteceu. Alfonsito a adorava. Sim, era este o verbo certo. Talvez

demais, até. Embaixo dos tépidos lençóis, dona Lucrecia se espreguiçou novamente,

esticando-se e encolhendo-se como uma lenta serpente. Não havia tirado aquele

primeiro lugar para ela? Lembrou do seu rostinho ruborizado, o triunfo dos seus olhos

cor de céu quando lhe estendeu o boletim com as notas:

— Aqui está o seu presente de aniversário, madrasta. Posso lhe dar um beijo?

— Claro que sim, Fonchito. Pode dar dez.

Ele pedia e dava beijos o tempo todo, com uma exaltação que, às vezes, fazia

Lucrecia ficar desconfiada. Seria verdade que o menino a amava tanto? Sim, ela o tinha

conquistado com todos aqueles presentes e mimos desde que pôs os pés nesta casa.

Ou será que, como fantasiava Rigoberto dando asas ao desejo nos seus afãs noturnos,

Alfonsito estava despertando para a vida sexual e as circunstâncias tinham dado a ela o

papel de inspiradora? “Que disparate, Rigoberto. Ele é ainda tão pequeno, acabou de

fazer a primeira comunhão. Que absurdos você diz.”

Mas, embora nunca fosse admitir tal coisa em voz alta, e muito menos na frente do

marido, quando ficava sozinha, como agora, dona Lucrecia se perguntava se o menino

não estava realmente descobrindo o desejo, a poesia nascente do corpo, valendo-se

dela como estímulo. A atitude de Alfonsito a deixava intrigada, parecia ao mesmo

tempo tão inocente e tão equívoca. Lembrou-se então — era um episódio da sua

adolescência que nunca mais esqueceu — daquele desenho casual que viu uma vez as

graciosas patinhas de uma gaivota riscarem na areia do Clube Regatas; ela se

aproximou para olhar, esperando encontrar uma forma abstrata, um labirinto de retas e

curvas, e o que viu lhe pareceu mais um falo giboso! Será que Foncho tinha consciência

de que, quando colocava os braços em volta do seu pescoço como fazia, quando a

beijava daquela maneira lenta, buscando seus lábios, infringia os limites do tolerável?

Impossível saber. O menino tinha um olhar tão franco, tão doce, que dona Lucrecia

achava impossível que a cabecinha rubicunda daquele primor que se vestia de

pastorzinho nos Natais do Colégio Santa María pudesse abrigar pensamentos sujos,

escabrosos.

“Pensamentos sujos”, sussurrou, a boca contra o travesseiro, “escabrosos. Rá-rá-

rá!”. Sentia-se bem-humorada e um calorzinho delicioso subia por suas veias, como se

seu sangue tivesse se transubstanciado em vinho morno. Não, Fonchito não podia

suspeitar que aquilo era brincar com fogo, suas efusões eram ditadas sem dúvida por

um instinto obscuro, uma reação inconsciente. Mas, mesmo assim, não deixavam de

ser brincadeiras perigosas, não é mesmo, Lucrecia? Porque quando o via, pequenino,

ajoelhado no chão, contemplando-a como se sua madrasta tivesse acabado de descer

do Paraíso, ou quando seus bracinhos e seu corpo frágil se soldavam nela e seus

lábios quase invisíveis de tão magros se aderiam em suas bochechas e roçavam nos

seus — ela nunca permitia que permanecessem ali mais de um segundo —, dona

Lucrecia não podia impedir que um golpe de excitação, uma lufada de desejo a

sobressaltasse às vezes. “Você é que tem pensamentos sujos e escabrosos, Lucrecia”,

murmurou, apertando-se contra o colchão, sem abrir os olhos. Será que um dia ia se

tornar uma velha estridente, como algumas de suas companheiras de bridge? Seria

isso o demônio do meio-dia? Acalme-se, lembre que você ficou viúva por dois dias —

Rigoberto, em viagem de negócios, por questões de seguros, não voltaria até domingo

— e, além do mais, chega de relaxar na cama. Levante-se, preguiçosa! Fazendo um

esforço para sacudir a agradável modorra, pegou o interfone e mandou Justiniana

trazer o café da manhã.

A moça entrou cinco minutos depois, com a bandeja, a correspondência e os jornais.

Abriu as cortinas e a luz úmida, tristonha e cinzenta do setembro limenho invadiu o

quarto. “Que feio é o inverno”, pensou dona Lucrecia. E sonhou com o sol do verão, as

praias de areias ardentes de Paracas e a carícia salgada do mar em sua pele. Faltava

tanto ainda! Justiniana pôs a bandeja sobre seus joelhos e ajeitou os almofadões para

lhe servirem de encosto. Era uma morena esbelta, de cabelo crespo, olhos vivazes e

voz musical.

— Tem uma coisa que não sei se lhe digo, senhora — murmurou, com uma careta

tragicômica, enquanto lhe entregava o roupão e punha os chinelos ao pé da cama.

— Agora tem que dizer porque já abriu meu apetite — respondeu dona Lucrecia,

enquanto mordia uma torrada e bebia um gole de chá puro. — O que houve?

— Estou com vergonha, senhora.

Dona Lucrecia observou-a, divertida. Ela era jovem e, sob o avental azul do uniforme,

as formas do seu corpinho se insinuavam frescas e elásticas. Que cara faria quando

seu marido fazia amor com ela? Era casada com o porteiro de um restaurante, um

negro alto e parrudo como um atleta que vinha trazê-la todas as manhãs. Dona

Lucrecia lhe havia aconselhado a não complicar sua vida com filhos ainda tão jovem e a

levara pessoalmente ao seu médico para que lhe receitasse anticoncepcionais.

— Outra briga entre a cozinheira e Saturnino?

— Não. É coisa do menino Alfonso — Justiniana baixou a voz, como se o menino

pudesse ouvi-la do seu longínquo colégio, e fingiu estar mais confusa do que estava. —

É que ontem à noite o peguei... Mas a senhora não vá dizer nada. Se o Fonchito souber

que eu contei, me mata.

Dona Lucrecia se divertia com essas manhas e exageros com que Justiniana

enfeitava tudo o que dizia.

— Onde o pegou? Fazendo o quê?

— Espiando a senhora.