Emiliano Queiroz: Na Sobremesa da Vida por Maria Letícia - Versão HTML

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“Inestimável é o valor da Coleção

Aplauso - editada pela Imprensa Oficial,

“Emiliano vê o mundo através do teatro.”

Esta é uma das definições da autora, também LETICIA

que já colocou nas livrarias dezenas de

biografias, ou perfis, de artistas de

sua esposa, a respeito de Emiliano Queiroz.

teatro, cinema e televisão. Publicados

Segundo Maria Letícia, Emiliano “tornou-se

ator em sua essência”.

MARIA

em pequeno formato, com pouco mais

de 200 páginas, letras graúdas, muitas

fotos, de leitura rápida e saborosa,

VIDA

trazem depoimentos quase sempre em

Este título da Coleção Aplauso conta a DA

primeira pessoa, escritos a partir de

trajetória do menino ingênuo de Aracati,

entrevistas concedidas a jornalistas,

Ceará, que começou a interpretar ainda na

artistas ou historiadores. À primeira

escolinha infantil e fez de sua vida uma

vista, podem parecer apenas curiosos

crescente carreira, com personagens

ou, para o olhar mais atento,

inesquecíveis na televisão; como o Dirceu

SOBREMESA

importante registro de memória.

Borboleta, de O bem

,

amado de Dias Gomes;

no teatro, Tonho, de Dois perdidos numa QUEIROZ Porém,acabamporrevelaradimensão

Maria Letícia nasceu no Rio de Janeiro NA

histórica do teatro brasileiro e têm

em 1947. Formou-se em Diteiro em

noite suja, de Plínio Marcos; e também do valor ímpar.”

1970, foi por quatro anos professora da

cinema, como Seu Chico do Sal, do recente

O Estado de S. Paulo

Faculdade de Direito da UFRJ. Em 1976,

Casa de areia, de Andrucha Waddington.

graduou-se em Artes Cênicas no

QUEIROZ

“A memória cultural de um país

Conservatório de Teatro da FEFIERJ.

é tão necessária quanto a própria

Além de escrever os roteiros, é a

Este é o primeiro registro da história de

existência da arte. Quem não

produtora e diretora de seus filmes,

tendo atuado como atriz em alguns

Emiliano Queiroz, ator de mais de cinqüenta registra não é dono. A Coleção

deles. Em teatro, produziu e atuou em

novelas e minisséries ( A moreninha, Selva de EMILIANO

Aplauso, editada pela Imprensa

,

Feira-livre de Plínio Marcos e Vejo um Oficial do Estado de São Paulo,

pedra, Alma gêmea, Hilda Furacão) e vulto na janela, me acudam que eu sou

leva ao grande público depoimentos

quarenta peças. Mais um trabalho de

donzela, de Leilah Assunção, que

biográficos e testemunhos de nossa

pesquisa e resgate da Imprensa Oficial do originou seu primeiro longa-metragem

produção artística a preços populares

PERFIL

.

Estado

PERFIL

1º de abril,

,

Brasil tendo arrematado o

contribuindo, com sucesso, para a

prêmio da melhor Direção no Festival de

preservação da memória do nosso

Curitiba e os de Melhor Atriz (Rosamaria

patrimônio artístico e cultural.”

Murtinho) e Melhor Montagem no

http://ultimosegundo.ig.com.br

APLAUSO

Festival de Gramado. Fez os curtas Deus lhe

,

pague que ganhou o Prêmio

“Uma coleção a ser aplaudida de pé.”

COLEÇÃO

EMILIANO

Especial da Secretaria de Cultura no

Jornal do Brasil

Festival de Niterói e Água morro

,

acima

que foi premiado como Melhor Filme

“Para fazer a cabeça do público

APLAUSO

pelo júri popular do Festival de Brasília.

NA

DA

SOBREMESA VIDA

Dirigiu ainda, o documentário

funcionar.”

O sonho

de Dom

.

Bosco Escreveu o livro O amigo Jornal do Comércio - Porto Alegre

MARIALETICIA

,

invisível que tranformou em filme de longa-metragem apresentado no Festival

COLEÇÃO

Internacional do Cinema Infantil.

Emiliano Queiroz

Na sobremesa da vida

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Emiliano Queiroz

Na sobremesa da vida

Maria Letícia

São Paulo, 2006

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Governador Cláudio Lembo

Secretário Chefe da Casa Civil

Rubens Lara

Imprensa Oficial do Estado de São Paulo Diretor-presidente

Hubert Alquéres

Diretor Vice-presidente

Luiz Carlos Frigerio

Diretor Industrial

Teiji Tomioka

Diretora Financeira e

Administrativa

Nodette Mameri Peano

Chefe de Gabinete

Emerson Bento Pereira

Coleção Aplauso Perfil

Coordenador Geral

Rubens Ewald Filho

Coordenador Operacional

e Pesquisa Iconográfica

Marcelo Pestana

Projeto Gráfico

Carlos Cirne

Assistência Operacional

Andressa Veronesi

Editoração

Aline Navarro

Tratamento de Imagens

José Carlos da Silva

Revisor

Débora Guterman

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Apresentação

“O que lembro, tenho.”

Guimarães Rosa

A Coleção Aplauso, concebida pela Imprensa Oficial, tem como atributo principal reabilitar e resgatar a memória da cultura nacional, biogra-fando atores, atrizes e diretores que compõem a cena brasileira nas áreas do cinema, do teatro e da televisão.

Essa importante historiografia cênica e audio-visual brasileiras vem sendo reconstituída de maneira singular. O coordenador de nossa cole-

ção, o crítico Rubens Ewald Filho, selecionou, criteriosamente, um conjunto de jornalistas especializados para realizar esse trabalho de aproximação junto a nossos biografados. Em

entrevistas e encontros sucessivos foi-se estrei-tando o contato com todos. Preciosos arquivos de documentos e imagens foram abertos e, na maioria dos casos, deu-se a conhecer o universo que compõe seus cotidianos.

A decisão em trazer o relato de cada um para a primeira pessoa permitiu manter o aspecto de tradição oral dos fatos, fazendo com que a memória e toda a sua conotação idiossincrásica aflorasse de maneira coloquial, como se o biografado estivesse falando diretamente ao leitor.

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Gostaria de ressaltar, no entanto, um fator importante na Coleção, pois os resultados obtidos ultra-passam simples registros biográficos, revelando ao leitor facetas que caracterizam também o artista e seu ofício. Tantas vezes o biógrafo e o biografado foram tomados desse envolvimento, cúmplices dessa simbiose, que essas condições dotaram os livros de novos instrumentos. Assim, ambos se colocaram em sendas onde a reflexão se estendeu sobre a formação intelectual e ide-ológica do artista e, supostamente, continuada naquilo que caracterizava o meio, o ambiente e a história brasileira naquele contexto e momento. Muitos discutiram o importante papel que tiveram os livros e a leitura em sua vida.

Deixaram transparecer a firmeza do pensamento crítico, denunciaram preconceitos seculares que atrasaram e continuam atrasando o nosso país, mostraram o que representou a formação de

cada biografado e sua atuação em ofícios de linguagens diferenciadas como o teatro, o cinema e a televisão – e o que cada um desses veículos lhes exigiu ou lhes deu. Foram analisadas as distintas linguagens desses ofícios.

Cada obra extrapola, portanto, os simples relatos biográficos, explorando o universo íntimo e psicológico do artista, revelando sua autodeter-minação e quase nunca a casualidade em ter se Emiliano Queiroz miolo.indd 6

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tornado artista, seus princípios, a formação de sua personalidade, a persona e a complexidade de seus personagens.

São livros que irão atrair o grande público, mas que – certamente – interessarão igualmente aos nossos estudantes, pois na Coleção Aplauso foi discutido o intrincado processo de criação que envolve as linguagens do teatro e do cinema.

Foram desenvolvidos temas como a construção dos personagens interpretados, bem como a

análise, a história, a importância e a atualidade de alguns dos personagens vividos pelos biografados. Foram examinados o relacionamento dos artistas com seus pares e diretores, os processos e as possibilidades de correção de erros no exercício do teatro e do cinema, a diferenciação fundamental desses dois veículos e a expressão de suas linguagens.

A amplitude desses recursos de recuperação

da memória por meio dos títulos da Coleção Aplauso, aliada à possibilidade de discussão de instrumentos profissionais, fez com que a Imprensa Oficial passasse a distribuir em todas as bibliotecas importantes do país, bem como em bibliotecas especializadas, esses livros, de grati-ficante aceitação.

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Gostaria de ressaltar seu adequado projeto

gráfico, em formato de bolso, documentado

com iconografia farta e registro cronológico completo para cada biografado, em cada setor de sua atuação.

A Coleção Aplauso, que tende a ultrapassar os cem títulos, se afirma progressivamente, e espera contemplar o público de língua portuguesa com o espectro mais completo possível dos artistas, atores e diretores, que escreveram a rica e diver-sificada história do cinema, do teatro e da televisão em nosso país, mesmo sujeitos a percalços de naturezas várias, mas com seus protagonistas sempre reagindo com criatividade, mesmo nos anos mais obscuros pelos quais passamos.

Além dos perfis biográficos, que são a marca da Coleção Aplauso, ela inclui ainda outras séries: Projetos Especiais, com formatos e características distintos, em que já foram publicadas excepcionais pesquisas iconográficas, que se ori-ginaram de teses universitárias ou de arquivos documentais pré-existentes que sugeriram sua edição em outro formato.

Temos a série constituída de roteiros cinematográficos, denominada Cinema Brasil, que publicou o roteiro histórico de O Caçador de Diamantes, de Vittorio Capellaro, de 1933, considerado o Emiliano Queiroz miolo.indd 8

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primeiro roteiro completo escrito no Brasil com a intenção de ser efetivamente filmado. Parale-lamente, roteiros mais recentes, como o clássico O caso dos irmãos Naves, de Luis Sérgio Person, Dois Córregos, de Carlos Reichenbach, Narradores de Javé, de Eliane Caffé, e Como Fazer um Filme de Amor, de José Roberto Torero, que deverão se tornar bibliografia básica obrigatória para as escolas de cinema, ao mesmo tempo em que documentam essa importante produção da

cinematografia nacional.

Gostaria de destacar a obra Gloria in Excelsior, da série TV Brasil, sobre a ascensão, o apogeu e a queda da TV Excelsior, que inovou os proce-dimentos e formas de se fazer televisão no Brasil.

Muitos leitores se surpreenderão ao descobrirem que vários diretores, autores e atores, que na década de 70 promoveram o crescimento da TV

Globo, foram forjados nos estúdios da TV Excelsior, que sucumbiu juntamente com o Grupo Simonsen, perseguido pelo regime militar.

Se algum fator de sucesso da Coleção Aplauso merece ser mais destacado do que outros, é o interesse do leitor brasileiro em conhecer o percurso cultural de seu país.

De nossa parte coube reunir um bom time de

jornalistas, organizar com eficácia a pesquisa Emiliano Queiroz miolo.indd 9

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documental e iconográfica, contar com a boa vontade, o entusiasmo e a generosidade de nossos artistas, diretores e roteiristas. Depois, apenas, com igual entusiasmo, colocar à disposição todas essas informações, atraentes e acessíveis, em um projeto bem cuidado. Também a nós

sensibilizaram as questões sobre nossa cultura que a Coleção Aplauso suscita e apresenta – os sortilégios que envolvem palco, cena, coxias, set de filmagens, cenários, câmeras – e, com referência a esses seres especiais que ali transitam e se transmutam, é deles que todo esse material de vida e reflexão poderá ser extraído e disseminado como interesse que magnetizará o leitor.

A Imprensa Oficial se sente orgulhosa de ter criado a Coleção Aplauso, pois tem consciência de que nossa história cultural não pode ser negligenciada, e é a partir dela que se forja e se constrói a identidade brasileira.

Hubert Alquéres

Diretor-presidente da

Imprensa Oficial do Estado de São Paulo

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Prefácio

Quando Emiliano me levou para conhecer sua mãe, Donana me falou com seu humor cearense:

– Já tinha apelado a Santo Antonio para Emiliano encontrar uma moça boa e que gostasse dele

para casar, como você.

Disse a ela que eu também andei rezando para o santo, de modo que não chegava a ser um milagre de Santo Antonio, que só fez juntar os pedidos.

Nem me surpreendi quando Rubens Ewald

Filho – editor da Coleção Aplauso – disse que 11

eu era a pessoa certa para escrever o livro de Emiliano Queiroz.

Emiliano vê o mundo através do teatro; sua

formação, desde o princípio, se fez seletiva, cul-turalizando o que lhe chegou pela via do faz-de-conta. Tornou-se um ator em sua essência.

Quando em 1977 demos a volta ao mundo, seu

interesse e sua compreensão foram norteados pela óptica do teatro. Ainda criança Emiliano transformava o quintal de sua casa em teatro.

Este livro conta a trajetória de um velho ator: desde o rapaz ingênuo que sonhava adotar um Emiliano Queiroz miolo.indd 11

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pseudônimo, mudando seu nome para Clayton,

até o artista consciente cuja vida se confunde com a história do teatro, da televisão e do cinema.

Como já conhecia essa história – vivi boa parte dela – organizei a escaleta em ordem cronológi-ca até o sucesso e sua afirmação como ator em Navalha na carne. Daí em diante, abordei os trabalhos mais importantes de que Emiliano participou, sempre buscando em seu depoimento uma

investigação sobre os métodos desenvolvidos nas montagens de peças, filmes e novelas; seus autores, diretores e intérpretes. Emiliano, em sua extensa galeria de personagens, interpretou os tipos mais variados.

12

Gravamos horas a fio. Contei com a inestimável colaboração de Adriano Espínola Filho. Muitas vezes Emiliano escreveu de próprio punho seus depoimentos.

Com a palavra o ator Emiliano Queiroz.

Maria Letícia

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Capítulo I

Vocação

Aracati, 1.1.36, meu berço.

Aracati era uma cidade com mistérios. Repleta de casarões, sobrados de paredes com azulejos, varandas, igrejas e sons de pianos. Parecia que a cada quadra havia um piano.

– Esse som vem da casa do Jacques Klein ou então do sobrado do Barão, na rua de trás.

Outro som familiar: as brigas por amor de Dona 13

Priscila com seu marido. Sempre que a loira vizinha começava a discutir, eu e minha irmã Terezinha levávamos nossas cadeirinhas de balanço para a calçada em frente e assistíamos, mais uma vez, a uma cena que era sempre igual. No final ela chorava muito, ele ia embora e ela desmaia-va. Dias depois, ele voltava. E daí a pouco tudo acontecia outra vez para meu deleite.

A poucos minutos dali, o rio doce-salgado e, mais à frente, Canoa Quebrada. Ali dei meu primeiro mergulho, levado por minha mãe.

O mar soprava, em moto-contínuo, um vento

doce, aromatizando o calor.

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Emiliano com um ano e seis meses.

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Diziam que anos atrás o oceano Atlântico era ali na nossa calçada. Contavam histórias. Uma aldeia fora tragada pelas dunas, sumiu do mapa. Era a lenda de Almofala. E um porto com entrada e saída de navios tinha desaparecido.

E dona Belinha, cujos longos cabelos haviam se tornado dois novelos, um de cada lado da cabe-

ça, que ninguém conseguia cortar. Foi preciso a interferência milagrosa de São Francisco de Canindé para os novelos, duros como arames, cederem às tesouras.

Devia ter três anos quando meu pai me levou ao cinema. Fiquei a maior parte do tempo de costas 15

para a tela, olhando o foco da projeção, para saber de onde vinham aquelas figuras. Assim meu pai me contava.

Com o teatro foi diferente. Abel Teixeira veio de Fortaleza com sua famosa montagem de O mártir do Golgota. Madalena recostada numa recambier e o vulto de Cristo passando atrás de arcos em tons dourados. Voltei para casa e, durante um bom tempo, representei todas aquelas cenas.

Sabia diálogos, seqüências, mas meu grande

momento era a Ressurreição. Anos depois, parti-ciparia de várias montagens da Paixão de Cristo, uma delas dirigida por Abel Teixeira, que havia me deslumbrado em Aracati. Com a proximidade Emiliano Queiroz miolo.indd 15

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do Natal começava o Pastoril e as vozes das pasto-rinhas chegavam até nossa casa todas as noites.

Borboleta bonitinha, venha aqui...

ela hoje canta um hino

hoje é noite de Natal

Depois, entrava o diabo e havia um grande alvoroço. O homem que fazia o diabo era quem

entregava verduras e carnes na nossa casa. Minha mãe recomendava a ele:

– Não faça tanto barulho quando entrar no palco.

O Emiliano acorda e fica querendo ir assistir ao Pastoril a todo custo.

16

Ele sorria e dizia:

– Leva o menino.

Era um homem grande, de pele morena e voz

tonitruante. Foi o primeiro ator que conheci.

Um dia, me levaram para assistir ao Pastoril. O

meu primeiro ator apareceu todo coberto de

azul, como um filho de Nossa Senhora. E eu gostei daquele diabo de voz grave, baixa e azul. De repente, folhas-de-flandres foram sacudidas pro-vocando um efeito de trovão. Luzes vermelhas piscaram. Vi raios e fumaça. O manto azul do meu Emiliano Queiroz miolo.indd 16

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ator foi jogado para o alto, revelando o outro lado daquela figura.

Agora, um macacão vermelho de seda brilhante, chifres e uma voz aterradora. Tomei um susto, dei uma risada, bati palmas. Naquele momento perdi o medo do diabo para sempre. Assim como para sempre foi o amor que senti pelo teatro.

Um fato curioso aconteceu por essa época. Todas as noites, na mesma hora, eu acordava chorando.

Eu chamava meus pais e dizia que um homem

de cabelos brancos e pijama listrado estava ali sentado num banquinho. Meus pais não eram de Aracati, não sabiam nada a respeito de antigos 17

moradores. Minha mãe, já preocupada com a

situação que se tornava incômoda, falou do fato a uma vizinha. A mulher teve um arrepio:

– Dona Ana, se mude dessa casa. Essa figura que o menino vê é de um antigo morador que se

matou. Foi encontrado enforcado usando pijama listrado e tinha cabelos brancos e...

No dia seguinte, mudamos para outra casa e

o fato mediúnico foi esquecido e nunca mais se repetiu.

Minha mãe foi preparada para alfabetizar

crianças e, assim, logo aprendi a ler e escrever.

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Ela lia histórias para mim. Eu adorava, era um ótimo ouvinte. Quando ia repetir as histórias para alguém, mudava as cenas e desfechos. Isso me encantava.

“Quem conta um conto aumenta um ponto”

Em casa tinha uma folhinha do Almanaque Capi-varol, com Shirley Temple na contracapa. Ela usava pijama, tinha cachinhos e eu me apaixonei.

Um dia, acordei e me disseram:

– Vamos nos mudar.

18

Atravessamos um trecho ou afluente do rio Ja-guaribe para chegar a Russas. O caminhão, com a mudança na carroceria e a família na boléia, foi colocado numa balsa que chamavam “pontão”.

Um relógio antigo de parede (que guardo até hoje) estava com meu pai, como uma preciosidade. E assim deixei Aracati para sempre, flutuando nas águas daquele rio veloz e ameaçador.

Meu pai, nascido para as bandas do Pará, como se dizia, registrado Henrique Queiroz, ganhou um acréscimo de Severino da avó paraibana. Cresceu em Campina Grande, conheceu os segredos da

ourivesaria, a alquimia do ouro derretido nos cadinhos. Seguiu os passos do avô que veio lá do Emiliano Queiroz miolo.indd 18

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Velho Mundo e que a família, carinhosamente, chamava “judeu errante”.

Meu pai era um homem bonito, de olhar manso.

Falava pouco e nunca de si mesmo. Não conheci ninguém da família de meu pai em toda a minha vida. Ele saiu da casa dos pais em lombo de mula, negociando, fazendo topografia de terrenos em pleno sertão, trabalhando em laboratório de pesquisa das febres da região. Subiu e desceu Norte e Nordeste sozinho até chegar ao Ceará.

Casou, teve e perdeu filhos e chegou ao segundo casamento trazendo a filha de sua adoração, a quem chamava com carinho de minha Terezinha.

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Era generoso e simples.

Minha mãe, ele conheceu em Russas.

Minha mãe e meu pai

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O pai dela, coronel Custódio Ribeiro de Guimarães, era descendente direto de seu Olsen, fotó-

grafo oriundo da Holanda, que chegou primeiro a Pernambuco e depois ao Ceará. Meu avô era brilhante, grande, de enormes olhos azuis e barba ancestral. Minha mãe herdou dele a pele muito branca, os olhos em tons azuis e a agilidade de raciocínio.

Coronel Custódio foi coletor federal, educador, juiz em causas especiais e um patriarca. Teve oito ou dez filhos do primeiro casamento e

mais oito ou dez do segundo. Quando minha

mãe nasceu, a família ainda tinha posses, uma 20

fazenda no Castanhão e poder na região. Meu avô perdeu um filho militar, político, numa revolução rastaqüera no Ceará, assassinado com um tiro em plena rua. Por conta disso, sua saúde foi abalada.

Minha mãe Ana, nome também de avó Naninha,

vivia em Russas, tinha excelentes amizades ali e em Fortaleza. Todos a achavam bonita e Pauri-lo Barroso, compositor e teatrólogo cearense, insistia para que ela fizesse teatro. Tinha uma bela voz e chegou a ensaiar uma opereta. Com mais de oitenta anos ainda sabia de cor A ceia dos cardeais, de Júlio Dantas, e As máscaras, de Menotti Del Picchia.

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– Loira como os trigais, os raios de sol e as moedas antigas – declamava.

Com o casamento, trouxe Anézia, sobrinha-filha que permaneceu com ela por toda a vida.

A cidade de Russas era plana, sem casarões ou sobrados, sem o vento do mar, sem o mistério da velha e gótica Aracati. Morávamos afastados da cidade. Nossa casa, na ocasião, não tinha sequer luz elétrica. Era nossa, embora meu pai estivesse acabando de construir. Eu via crescer verduras, a pequena roça, as laranjeiras que meu pai plan-tava e ajudava os patinhos a nascer, facilitando suas saídas das cascas. Terminei matando uma 21

ninhada ao precipitar-lhes o nascimento.

Na cidade de Russas, naquela época, as pessoas gostavam de teatralizar tudo que era evento.

De festa de colégio à chegada do Bispo. Assim, na festa do grupo escolar, depois de um tango coreografado, minha irmã Terezinha participou do bailado das vogais cantantes – A, E, I, O, U, Y

(Ipsilone). O auditório era grande, o palco então me parecia imenso do alto dos meus quase cinco anos. Entrei em cena vestindo fraque e cartola confeccionados por minha mãe, óculos e bengala feitos por meu pai, maquiagem e bigodes executados por Anézia, e despejei:

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– Cá estou eu, eu sou o avô, tenho oitenta anos e, ai!, as costas me doem, às vezes...

Foi uma consagração. Pouco depois, no meio da praça, trepado num palanque, eu fazia o discurso de boas-vindas ao Bispo que visitava a cidade.

– Excelentíssimo Reverendíssimo Senhor Bispo Diocesano – estava consolidada minha fama.

Meu pai me levou ao circo-teatro para ver a peça Os milagres de Santo Antonio, que me deixou hipnotizado. Um mar azul com ondas de papelão, peixes pulando, o homem vestido de Santo Antonio. Tudo era faz-de-conta. Dos bichos, do 22

trapézio, dos acrobatas não lembro nada.

As santas missões chegaram. Foi um chamado!

No catecismo, era o mais bem preparado. Para espanto de minha mãe, exigi fazer a Primeira Comunhão da noite para o dia. Minha roupa

azul-marinho de marinheiro, ainda por vestir, foi o figurino, acrescido de velas, laços e livrinho.

Todas as crianças de branco e só eu de azul-escuro. Na fila, um menino, uma menina. Eu, pela singularidade do figurino, à frente, ao lado de duas priminhas. Entrando na igreja, eu me senti o alvo das atenções. A vela acesa, o cortejo, as crianças, os fiéis, ou seja, o público. Durante a travessia da nave, eu tanto me virei para os lados, Emiliano Queiroz miolo.indd 22

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tanto me exibi, que acabei botando fogo no véu da prima Ailza. Estava com seis anos.

Os padres convocavam meninos para as obras

das vocações sacerdotais. Eles seriam levados primeiro a uma escola e, aos dez anos, para o Seminário, onde estudariam e se tornariam padres. O Seminário ficava em Fortaleza. Talvez motivado pela possibilidade da viagem, pela pompa teatral da igreja, atendendo ao apelo dos sinos da minha curiosidade, procurei um dos padres da Missão. Não lembro o que falei, mas o convenci direitinho. Ele achou comovente, disse que eu seria um Cordeiro de Deus.

24

Toda vez que ele falava em Cordeiro de Deus eu me lembrava do meu carneiro que eu montava

feito um cavalinho e que eu amava. Mas ele cresceu, ficou gordo e, para meu horror, foi abatido.

Ouvi seus berros desesperados, abri a porta da cozinha e vi meu “Bébé” pendurado, levando

marretadas na cabeça. Os longos momentos da sua agonia, eu acompanhei em transe.

– Agora, Emiliano, você avise a sua mãe para vir aqui pois a autorização dos pais é necessária

– disse o padre.

Não esperava por aquilo, pensava que era uma decisão só minha. Tentei explicar ao padre que Emiliano Queiroz miolo.indd 24

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minha mãe não era lá muito católica. Não adian-tou, e minha mãe foi à igreja comigo a tiracolo.

O padre explicou para ela a minha religiosidade, a minha vontade de ser seminarista. Minha mãe, serenamente, argumentou que não, que eu só

tinha seis anos e minha família me amava. O

padre insistia:

– A senhora precisa ver a fé desse menino diante do altar, o fervor com que reza.

E minha mãe:

– É exibição, padre, quando ele vê que tem al-guém olhando, fica fervoroso.

25

O padre, a essas alturas, vermelho de indignação, vociferou:

– A senhora está cortando uma vocação.

E minha mãe:

– A vocação dele é o teatro. Esse menino é artista, eu conheço.

Estava dado o aval e, por toda uma vida, ela foi cúmplice desse filho que viveu e vive do faz-de-conta. A partir daí, o teatro foi a única verdade da minha vida que eu nunca precisei maquiar.

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Conheci ou soube de tias com os nomes de Altina, Luthegardes, Tereza, Ruth, Rosa, Rachel, Lou, mas só uma era Maria. Era encantado com ela. Um dia teve um ataque provocado pela meningite na minha frente. Morreu pouco depois. Exigi luto e minha mãe pôs uma tarja preta no meu bolso. Naquela época as crianças no Nordeste participavam de todo o ritual da morte. Das velas, da agonia, do sepultamento, da saudade.

No primeiro domingo após sua morte, fomos

ao cemitério.

Naquele dia o Campo Santo me pareceu festivo.

As pessoas colocavam flores e velas nas covas simples, um monte de terra e uma cruz de madeira 26

com a identidade do morto. A de minha tia era uma dessas.

Enquanto os mais velhos ajoelhavam para

rezar, as crianças se relacionavam e, em dois tempos, brincavam de esconde-esconde entre

os poucos túmulos erguidos em forma de ca-

sinhas. Corri para cá, para lá, me escondi atrás da capela, esperei. Nenhum dos meninos me

encontrou. Tinha um parapeito atrás da capela, subi nele, fiquei vendo o movimento naquele precário cemitério.

Chegou um homem, começou a conversar e me

chamou para conhecer do outro lado. Me levou Emiliano Queiroz miolo.indd 26

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pela mão, fomos em direção ao muro, o portão de trás. Abrimos o portão e eu me deparei com um prado de quilômetros, tudo verde: a grama, as árvores e, ao fundo, um delicado caramanchão branco. Passavam vultos que a distância me impossibilitava de distinguir. Soprava um vento aromático como o de Aracati. Não era dali aquela brisa nem aquele verde. Minha irmã me chamou forte:

– Emiliano!

Dei um salto, estava em cima do parapeito.

Minha irmã reclamou:

27

– Onde você estava? Procuramos você por

toda parte.

– Estava aqui – respondi.

E ela, sincera:

– Passamos aqui duas vezes e não vimos você.

Então contei para ela meu passeio e que havíamos saído pelo portão dos fundos. Ela não se deixou impressionar, me levou até o portão dos fundos que estava trancado, me colocou nos ombros do meu primo, já um rapaz, para que eu pudesse Emiliano Queiroz miolo.indd 27

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ver por cima do muro. E eu vi: uma região árida, inóspita, com um ou outro casebre. Um calor

– segundo diziam – aumentado pelo fogo-fátuo.

Meus primos riram da minha esquisitice.

Ainda por essa época, embaixo de uma árvore, adormeci enquanto lia um livro que apanhei de meu pai e que a memória infantil teima em dizer que era Varenka Olesova, de Máximo Gorki.

Sonhei que estava numa barca grande que corria num estreito rio rodeado de igarapés. O perfu-me de água-pé, uma flor da época das chuvas, vinha da mata. Percorri sozinho a comprida

embarcação com cobertura, bancos, uma mesa

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e sem viva alma. Lá no fundo um quadro, lindo, luminoso. Uma mulher saía das águas, seu vestido branco colava em seu corpo mostrando suas formas. Os seios delicados estavam à mostra e o que me pareceu um manto eram seus cabelos longos, mas secos. Nele piscavam luzes de fugidios vaga-lumes. Das mãos, graças eram derramadas.

Contei para minha mãe que havia sonha-

do com Nossa Senhora das Graças com os

seios à mostra. Ela retrucou que não existia Varenka como a responsável. Voltei a ler o livro todos os dias no mesmo lugar, a mesma cena

do banho da heroína, mas o sonho com a santa nunca mais aconteceu.

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