Enigma por K.N. - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub para obter uma versão completa.

index-1_1.jpg

index-2_1.jpg

DADOS DE COPYRIG HT

Sobre a obra:

A presente obra é disponibilizada pela equipe Le Livros e seus diversos parceiros, com o obj etivo de oferecer conteúdo para uso parcial em pesquisas e estudos

acadêm icos, bem com o o sim ples teste da qualidade da obra, com o fim

exclusivo de com pra futura.

É expressam ente proibida e totalm ente repudiável a venda, aluguel, ou quaisquer

uso com ercial do presente conteúdo

Sobre nós:

O Le Livros e seus parceiros disponibilizam conteúdo de dom inio publico e propriedade intelectual de form a totalm ente gratuita, por acreditar que o

conhecim ento e a educação devem ser acessíveis e livres a toda e qualquer

pessoa. Você pode encontrar m ais obras em nosso site: LeLivros.site ou em qualquer um dos sites parceiros apresentados neste link.

"Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando

por dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo

nível."

O thriller épico de Katherine Neville, que inaugurou um gênero e

fascinou leitores durante vinte anos, agora sai pela Rocco. Para ler de um fôlego

só até o xeque-m ate.

O ENIG MA DO OITO

1790 No auge da Revolução Francesa, a abadessa de Montglane entrega

a duas ingênuas noviças um a m issão: proteger o lendário xadrez de Carlos

Magno. O tabuleiro, que perm aneceu escondido durante séculos na abadia,

esconde um a fórm ula alquím ica m ilenar de grande poder. Para evitar que o

segredo caia em m ãos erradas, as j ovens Mireille e Valentine entregam a vida à

tarefa de espalhar as preciosas peças pelo m undo. 1972. A especialista em

inform ática Cat Velis é enviada à Argélia a trabalho, m as o destino, traçado nas

linhas de sua m ão, a envolve m isteriosam ente na busca pelas peças do antigo

j ogo. Tal com o as noviças dois séculos antes, ela terá de enfrentar tentações,

adversários com j ogadas inesperadas, conspirações, m istérios e assassinatos —

tudo para ganhar a partida e decifrar o código da im ortalidade. Cruzando eventos

históricos e três continentes, O enigm a do oito é um a intrincada tram a de

personagens apaixonantes, que se m ovem , dissim uladas e surpreendentes, com o

peões num tabuleiro. Napoleão, Robespierre, m ercadores j udeus, m estres russos

do xadrez e cientistas m odernos estão interligados neste rom ance de suspense e

m agia, no qual cada reviravolta é um a j ogada de m estre.

O ENIG MA DO OITO

Katherine Neville

Tradução de Elizabeth e Dj alm ir Mello

Título original THE EIGHT

Esta é um a obra de ficção. Nom es, lugares e incidentes são produtos da

im aginação da autora e foram usados de form a fictícia.

Copy right 1988 by Katherine Neville Todos os direitos reservados.

Agradecim entos são feitos à Harcourt Brace Jovanovich, Inc., pela

autorização de reproduzir excerto de "The Wasteland" proveniente de Collected

Poem s 1909-1962y de T. S. Eliot. Copy right 1936 by Harcourt Brace Jovanovich,

Inc., copy right © 1963, 1964 by T. S. Eliot. Direitos m undiais da língua inglesa,

excluindo Estados Unidos, adm inistrados pela Faber and Faber Ltd. Reproduzido

com a autorização da Harcourt Brace Jovanovich, Inc., e Faber and Faber Ltd.

Poem a de Jorge Luis Borges, na página 635, extraído de O Fazedor,

tradução de Josely Vianna Baptista, São Paulo: Com panhia das Letras, 2008, pp.

66-69.

Direitos para a língua portuguesa reservados com exclusividade para o

Brasil à EDITORA ROCCO LTDA. Av. Presidente Wilson, 231 — 8o andar

20030-021 - Rio de Janeiro - RJ Tel.: (21) 3525-2000-Fax: (21) 3525-2001

rocco@rocco.com .br www.rocco.com .br

Printed in Brazil/im presso no Brasil

CIP-Brasil. Catalogação na fonte. Sindicato Nacional dos Editores de

Livros, RJ.

N43e Neville, Katherine, 1945—

O enigm a do oito / Katherine Neville; tradução de Elizabeth e Dj alm ir

Mello. — Rio de Janeiro: Rocco, 2010.

Tradução de: The eight ISBN 978-85-325-2431-7

1. Ficção norte-am ericana. I. Mello, Elizabeth. II. Mello, Dj alm ir. III.

Título.

09-1705 CDD-813

CDU-821.111(73)-3

Xadrez é vida.

- BOBBY FlSCHER

A vida é um a espécie de xadrez. - Benj am in Franklin

A DEFESA

As personagens tendem a ser contra a m issão ou a favor dela. Se a

aj udam , são idealizadas com o bravas e puras; se a atrapalham , são

caracterizadas sim plesm ente com o vilanescas ou covardes.

Disso resulta que toda personagem típica [...] tende ao confronto com

seu oposto em term os m orais, com o as peças pretas e brancas no j ogo de xadrez.

- NORTHROP FRYE,

Anatom ia da crítica

ABADIA DE MONTG LANE FRANÇA, PRIMAVERA DE 1790

Um grupo de freiras vinha pela estrada, com seus capelos engom ados

parecendo flutuar em torno das cabeças com o asas de algum a ave m arinha.

Quando atravessaram o grande portão de pedra da cidade, galinhas e gansos

fugiram apressadam ente, batendo as asas e tropeçando nas poças lodosas.

Todas as m anhãs, as freiras atravessavam o nevoeiro escuro que

recobria o vale, cam inhando, em pares silenciosos, na direção do cham ado grave

do sino que dobrava na m ontanha.

Aquela foi a cham ada Le Printem ps Sanglant — "A Prim avera de

Sangue". As cerej eiras floresceram m ais cedo em 1790, m uito antes que a neve

dos picos m ais altos se derretesse. Seus frágeis ram os vergaram -se ao peso das

flores verm elhas e encharcadas. Houve quem visse no fenôm eno um bom

presságio, um sím bolo de renascim ento, depois do longo e rigoroso inverno. Mas,

em seguida, as chuvas frias congelaram as flores nas árvores, deixando todo o

vale coberto de m anchas verm elhas entrem eadas pelo m arrom da geada, qual

feridas cobertas de sangue coagulado. E isso foi interpretado com o augúrio de

algo bem diferente.

Muito acim a do vale, a abadia de Montglane se proj etava com o um a

enorm e extensão rochosa, bem no alto da m ontanha. A construção, sem elhante a

um a fortaleza, atravessara quase m il anos sem receber nenhum a interferência

externa. Suas paredes consistiam de seis ou sete cam adas. À m edida que as

pedras cediam à erosão, ao longo dos séculos, paredes novas eram sobrepostas às

anteriores, pilastra sobre pilastra. Em decorrência disso, tornou-se um a

am eaçadora m istura arquitetônica, contribuindo para os boatos que corriam

sobre o lugar. A abadia era a m ais antiga construção religiosa ainda em pé em

toda a França e, diziam , guardava em si um a m aldição antiquíssim a, que logo

seria reativada.

Quando o som rouco do sino ecoou pelo vale, as freiras pararam o

trabalho; cada um a largou seu ancinho ou sua enxada e dirigiu-se, através das

fileiras com pridas e sim étricas de cerej eiras, para a estradinha íngrem e que

levava à abadia.

No final da procissão, duas noviças — as j ovens Mireille e Valentine —

iam de braços dados, escolhendo o cam inho com as botinas enlam eadas.

Constituíam um estranho com plem ento para a fila disciplinada das freiras. A alta

e ruiva Mireille, de pernas longas e om bros largos, m ais parecia um a saudável

cam ponesa. Usava um avental pesado, de açougueiro, sobre o hábito. Cachos

ruivos lhe escapavam do capelo. A seu lado, Valentine parecia frágil, em bora

tivesse quase a m esm a altura. Ondas de seu cabelo, quase branco de tão loiro, lhe

escorriam pelos om bros e acentuavam a palidez da pele sem itransparente. O

capelo fora guardado no bolso do hábito e ela andava j unto a Mireille de form a

relutante, chapinhando com as botinas na lam a.

As duas m oças, as m ais j ovens ocupantes da abadia, eram prim as por

parte de m ãe e haviam se tornado órfãs bem cedo, graças à terrível peste que

flagelara a França. O velho conde de Rem y, avô de Valentine, confiara as duas à

Igrej a, deixando, ao m orrer, a considerável renda de suas propriedades para lhes

garantir o futuro.

As circunstâncias em que haviam crescido geraram um a forte ligação

entre as duas j ovens, que agora esbanj avam a alegria farta e irreprim ível da

idade. A abadessa j á ouvira inúm eras reclam ações, de freiras m ais idosas, sobre

o com portam ento das prim as, inadequado para a vida do claustro, m as

com preendia que era m elhor vigiar e disciplinar o espírito da j uventude do que

tentar sufocá-lo.

Além disso, a abadessa nutria pelas prim as órfãs um a especial sim patia

— um sentim ento tão raro em sua personalidade quanto em sua posição. As

freiras m ais antigas ficariam surpresas se pudessem descobrir que a própria

abadessa tivera, na j uventude, um a am iga íntim a e querida — um a am iga de

quem m uitos anos e m uitos m ilhares de quilôm etros a m antinham agora

separada.

Durante a subida íngrem e, Mireille, tentando aprisionar sob o capelo

alguns cachos rebeldes de cabelo ruivo, alertava a prim a:

— Se você se atrasar de novo, a m adre reverendíssim a vai nos dar outra

penitência.

Valentine livrou-se de seu braço e entregou-se a um alegre rodopio. — A

Terra está transpirando prim avera! — gritou, e quase caiu no precipício

traiçoeiro que ladeava a trilha.

Mireille teve de sustentá-la para evitar a queda.

— Por que tem os de ficar trancadas naquela abadia abafada quando

tudo aqui fora transborda de vida?

— Porque som os freiras — respondeu Mireille, com os lábios cerrados,

concentrada em equilibrar a outra e fazê-la apressar o passo. — E nosso dever é

orar pela hum anidade.

Mas o nevoeiro que subia do vale trazia em si um a fragrância tão densa,

saturando o ar com o arom a das flores de cerej eiras, que Mireille precisou de

esforço para ignorar os efeitos que aquilo causava em seu próprio corpo.

— Ainda não som os freiras, graças a Deus — retrucou Valentine. —

Som os apenas noviças, até que façam os os votos. Ainda não é tarde dem ais para

um resgate. Ouvi as freiras m ais velhas cochichando que há soldados espalhados

por toda a França, saqueando os m onastérios e arrebanhando os padres,

m andando-os todos para Paris. Quem sabe se alguns soldados não vão aparecer

por aqui e m e m andar para Paris, tam bém ? Eles m e levarão à ópera, toda noite,

e beberão cham panhe em m eu sapato...

— Os soldados nem sem pre são gentis e encantadores com o você pensa.

Afinal, a profissão deles é m atar as pessoas, e não levá-las à ópera.

— Mas não é só isso que eles fazem .

A voz de Valentine baixou para um cochicho m isterioso. Já haviam

chegado ao topo da m ontanha, onde a estradinha se tornava plana e bem m ais

larga, pavim entada com pedras lisas e regulares, parecidas com as am plas ruas

das cidades grandes. Em am bos os lados, enorm es ciprestes, erguendo-se m uito

acim a do m ar de cerej eiras, pareciam im ponentes e am eaçadores e, com o o

próprio prédio da abadia, estranham ente fora de lugar.

— Ouvi dizer que fazem coisas horríveis com as freiras! — continuou a

j ovem . — Se um soldado encontra um a freira num lugar deserto, num bosque,

por exem plo, ele logo tira um a coisa de dentro das calças, enfia essa coisa dentro

da freira e fica pondo e tirando. Quando term ina, a freira tem um bebê!

— Que blasfêm ia! — gritou Mireille, afastando-se da prim a e tentando

esconder o sorriso que teim ava em lhe aflorar aos lábios. — Acho que você é

atrevida dem ais para ser freira.

— Mas é isso m esm o o que eu vivo dizendo! Preferiria m il vezes ser

noiva de um soldado a ser noiva de Cristo.

Ao se aproxim arem da abadia, passaram pelas fileiras duplas de

ciprestes, dispostas em form a de cruz, que pareciam se fechar sobre elas,

adensando ainda m ais a névoa. Atravessaram o portão e o grande pátio, e

m esm o quando chegaram à alta porta de m adeira, o sino agourento continuava

batendo, com o se anunciasse a m orte. As prim as pararam para raspar a lam a

das botinas, fizeram um rápido sinal da cruz e entraram no prédio. Nenhum a das

duas olhou para cim a, onde se via a inscrição, em rústicas letras francas, que

decorava o pórtico de pedra. Am bas sabiam o que estava escrito ali, com o se as

palavras tivessem sido gravadas em seus corações:

Maldito sej a Aquele que puser ao Chão estas Paredes. Só a Mão de Deus

pode am eaçar o Rei.

Sob a inscrição, havia um nom e em grandes letras m aiúsculas:

CAROLUS MAGNUS. Pois fora este rei o arquiteto do prédio e o criador da

m aldição lançada sobre quem viesse a destruí-lo: Carlos Magno, o m aior líder do

Im pério Franco, conhecido — com o Charle m agne — em toda a França.

As paredes internas da abadia eram escuras, frias e úm idas de m usgo.

Já do sacrário se ouviam as vozes sussurradas das freiras em prece e os ruídos

breves das contas dos rosários em m ovim ento, m arcando o núm ero de ave-

m arias, salve-rainhas e pais-nossos. Valentine e Mireille atravessaram

rapidam ente a capela, quando a últim a freira a entrar j á fazia a genuflexão, e

seguiram na direção dos sussurros, até a pequena porta atrás do altar. Ali ficava a

sala da m adre reverendíssim a. Um a freira velha as apressou. As prim as

trocaram olhares ao passar por ela.

Parecia-lhes estranho serem convocadas à sala da abadessa daquela

form a. Poucas freiras j á haviam estado ali, e quase sem pre por questões

disciplinares. Valentine, sem pre infringindo algum a regra de disciplina, conhecia

bem o lugar. Mas o sino tocara para convocar todas as freiras. Seria possível que

a m adre as quisesse em sua sala ao m esm o tem po?

Quando entraram no aposento am plo, de teto baixo, Valentine e Mireille

puderam ver que era verdade: estavam ali m ais de cinquenta freiras. Sentadas

nos duros bancos de m adeira, arrum ados em fileiras, de frente para a

escrivaninha da abadessa. Algum as delas cochichavam . Todas estranhavam a

situação. Os rostos que se voltaram quando as duas noviças entraram refletiam

m edo. As prim as sentaram -se no últim o banco e Valentine agarrou a m ão de

Mireille.

— O que terá acontecido?

— Não parece nada de bom — respondeu Mireille, tam bém num

sussurro. — A m adre reverendíssim a parece preocupada. E há duas m ulheres

que nunca vi antes, lá na frente, com ela.

Atrás da pesada escrivaninha de cerej eira, a abadessa, de pele

ressecada e enrugada com o pergam inho, im punha a todas o poder que em anava

de sua im ponente função. Tinha sem pre um ar intem poral, um a postura sugestiva

de quem j á fizera as pazes com a própria alm a m uito tem po antes. Mas, naquele

dia, parecia ainda m ais séria do que as freiras eram capazes de lem brar.

As duas estranhas, m ulheres j ovens, corpulentas, de m ãos avantaj adas,

estavam em pé a seu lado, com o anj os da guarda. Um a delas tinha pele clara,

cabelos escuros e olhos lum inosos; a outra lem brava Mireille, pela coloração

leitosa, o cabelo só um pouco m ais acastanhado. Em bora tivessem am bas a

aparência de freiras, vestiam , em lugar de hábitos, roupas com uns de viagem .

A abadessa esperou que todas se acom odassem e que a porta fosse

fechada. Com a sala totalm ente silenciosa, com eçou a falar, naquela voz que

sem pre fazia Valentine pensar em folhas secas sendo am assadas:

— Durante quase m il anos, a Congregação de Montglane esteve aqui

nesta m ontanha — disse ela, j untando as m ãos em frente ao busto. — Aqui

cum prim os nossas obrigações para com a hum anidade e servim os a Deus.

Em bora segregadas do m undo, chegam até nós os ruídos de suas inquietudes. Em

nosso retiro, ouvim os notícias ruins de acontecim entos recentes que podem

alterar a situação de segurança que desfrutam os. As duas m ulheres que estão a

m eu lado são as portadoras dessas notícias. Apresento-lhes a irm ã Alexandrine

de Forbin — inclinou a cabeça para a m orena — e a irm ã Marie-Charlotte de

Corday, que j untas dirigem a Abay e-aux-Dam es de Caen, nas províncias do

Norte. Elas atravessaram , disfarçadas, toda a França. Um a viagem árdua, para

nos trazer um aviso. Peço, portanto, que prestem atenção ao que elas têm a dizer.

E da m aior im portância para todas nós.

A abadessa sentou-se. A m ulher que fora apresentada com o Alexandrine

de Forbin lim pou a garganta com um pigarro e com eçou a falar, tão baixo que as

freiras tiveram de se esforçar para ouvi-la. Mas as palavras foram bastante

claras:

— Irm ãs em Deus, a história que tenho para contar não é própria para

quem tem o coração fraco. Há m uitas de nós que buscaram Cristo na esperança

de salvar a hum anidade. Outras vieram à procura de um refúgio, de um lugar

para escapar do m undo. E existem , ainda, as que vieram contra a vontade, sem

terem sentido nenhum a vocação ou cham ado.

Focalizou os olhos lum inosos na direção de Valentine, que enrubesceu

até a raiz dos cabelos.

— Sej a qual for o propósito de cada um a de vocês, ele terá de ser

m udado a partir de hoj e - continuou. — Em nossa j ornada, irm ã Charlotte e eu

percorrem os toda a extensão da França, atravessando Paris e todas as aldeias do

cam inho. O que constatam os não foi apenas fom e e m iséria. Vim os badernas nas

ruas, com pessoas tentando obter pão por m eio de saques. Deparam os com

m assacres, com m ulheres carregando pelas ruas cabeças decepadas e espetadas

em varas. Estão acontecendo estupros e coisas ainda piores. Crianças são

assassinadas, há gente sendo torturada nas ruas, trucidada por m ultidões

furiosas...

As freiras j á não conseguiam se m anter quietas. Vozes alarm adas

erguera-se quando Alexandrine tentou continuar o sangrento relato. Mireille

achou estranho que um a m ulher de Deus fosse capaz de contar tais coisas sem ao

m enos em palidecer. Na verdade, a narradora não alterara um a só vez o tom

calm o e m anso da voz nem gaguej ara ou hesitara. A j ovem procurou os olhos de

Valentine, que estavam arregalados de fascínio. Alexandrine de Forbin teve de

fazer um a pausa, esperando por silêncio, para prosseguir:

— Estam os em abril. Em outubro passado, o rei e a rainha foram tirados

de Versalhes por um a m ultidão furiosa e obrigados a voltar para as Tulherias, em

Paris, onde estão detidos. O rei viu-se forçado a assinar um docum ento, a

Declaração dos Direitos do Hom em , em que é proclam ada a igualdade de todos

os seres hum anos. O governo está, de fato, nas m ãos da Assem bleia Geral; o rei

não tem m ais nenhum poder, não pode interferir em nada. Nosso país j á está

além da Revolução. Vivem os num estado de anarquia. Para piorar as coisas, a

Assem bleia descobriu que não há ouro nos cofres do Tesouro. O rei levou o

Estado à bancarrota. Acredita-se, em Paris, que ele não deve chegar ao final do

ano com vida.

Um estrem ecim ento percorreu as fileiras de religiosas. Um m urm úrio

agitado, de choque, encheu a sala. Mireille apertou com carinho a m ão de

Valentine, as duas de olhos presos em Alexandrine. Nenhum a daquelas m ulheres

j am ais ouvira conceitos com o aqueles expressos em voz alta. Tortura, anarquia,

regicídio. Com o podia ser possível?

A abadessa bateu a m ão espalm ada sobre a escrivaninha para

restabelecer a ordem . As freiras silenciaram . Alexandrine sentou-se, e foi a vez

de irm ã Charlotte erguer-se. Com voz alta e forte, ela narrou:

— Existe na Assem bleia um hom em extrem am ente m au. Tem sede de

poder, em bora se diga pertencente ao clero. E o bispo de Autun. Na Igrej a de

Rom a, acreditam que ele sej a a reencarnação do Dem ônio. Há quem diga que

nasceu com um casco fendido no lugar do pé: a m arca do Diabo. Dizem tam bém

que bebe o sangue de criancinhas para se m anter j ovem ; que celebra a m issa

negra. Em outubro, esse hom em apresentou à Assem bleia um proj eto que

perm ite ao Estado confiscar todas as propriedades da Igrej a. No dia 2 de

novem bro, o proj eto foi defendido pelo grande estadista Mirabeau perante a

Assem bleia, que o aprovou. Em 13 de fevereiro, teve início o confisco. Todos os

religiosos que tentaram resistir foram encarcerados. E, no dia 16 de fevereiro, o

bispo de Autun foi eleito presidente da Assem bleia. Nada m ais pode detê-lo.

As freiras entraram em estado de agitação; as vozes se elevaram em

exclam ações e protestos. Mas Charlotte continuou, sobrepuj ando o tum ulto:

— Muito antes da aprovação da Lei do Confisco, o bispo de Autun j á

investigara a localização dos tesouros da Igrej a em toda a França. Em bora a lei

tenha especificado os padres com o prim eiras vítim as, e que as freiras deveriam

ser poupadas, sabem os que o bispo tem um interesse especial pela abadia de

Montglane. Foi nesta área que ele concentrou a m aior parte de suas

investigações. Por isso, correm os para cá com a notícia: o tesouro de Montglane

não poderá j am ais cair nas m ãos dele.

A abadessa levantou-se e pousou a m ão sobre o om bro forte de Charlotte

Corday. Abarcou com o olhar as fileiras de freiras de hábitos negros, com os

capelos agitados qual bando de gaivotas sobre o m ar, e sorriu. Eram seu rebanho,

as ovelhas que ela pastoreara por tanto tem po e que talvez nunca m ais revisse,

depois da revelação que faria.

— Agora vocês sabem tanto quanto eu a respeito da situação. Há m eses

eu conhecia nossa sina, m as não quis alarm á-las antes de escolher o rum o a

seguir. Na viagem que fizeram a m eu pedido, nossas irm ãs de Caen

confirm aram m eus piores tem ores.

As freiras se m antiveram caladas, com o em um velório. Só a voz da

abadessa se fazia ouvir, no silêncio absoluto:

- Sou um a m ulher velha, que pode ser cham ada pelo Senhor antes

m esm o do que im aginam . Os votos que fiz quando entrei para o serviço deste

convento não foram apenas os dirigidos a Cristo. Há quase quarenta anos, quando

m e tornei abadessa de Montglane, j urei tam bém m anter um segredo, preservá-lo

com a própria vida, se necessário. Chegou o m om ento de cum prir a j ura. Mas,

para isso, terei de repartir um a fração do segredo com vocês todas, em troca de

um j uram ento de silêncio. Minha história é longa, e peço paciência se a conto

devagar. Quando term inar, vocês entenderão por que cada um a de nós deverá

fazer o que tem de ser feito.

Interrom peu-se para tom ar um gole de água de um cálice de prata, e

depois continuou:

— Hoj e é o dia 4 de abril ao Anno Dom ini de 1790. Minha história

com eça em outro 4 de abril, há m uitos, m uitos anos. Ela m e foi contada por

m inha antecessora, com o foi contada a cada nova abadessa desde que esta

abadia com eçou a existir. Agora, preciso contá-la a vocês...

O RELATO DA ABADESSA

No dia 4 de abril do ano de 782, um m aravilhoso festival com em orou,

no Palácio Oriental de Aachen, o quadragésim o aniversário do grande rei Carlos

Magno. Toda a nobreza do Im pério foi convidada. Palm as im portadas e grinaldas

coloridas cobriam o grandioso paço central, com sua cúpula de m osaicos e suas

escadas e varandas circulares, enfileiradas até o teto. Harpas e alaúdes eram

tocados nos grandes salões, sob lanternas de ouro e de prata. Os cortesãos,

vestidos de roxo, escarlate e ouro, andavam por um reino de fadas, entre

m alabaristas, com ediantes e m arionetes. Ursos selvagens, leões e girafas, além

de gaiolas com pom bos, haviam sido trazidos para os pátios. Sem anas antes do

aniversário do rei, tudo j á era alegria.

O clím ax do festival, no entanto, coincidiu com o aniversário. Na m anhã

daquele dia, o rei chegou ao pátio principal, acom panhado de seus dezoito filhos,

sua rainha e seus cortesãos favoritos. Muito alto, Carlos Magno tinha a elegância

esbelta e graciosa do nadador e do cavaleiro. Sua pele era acobreada; o cabelo e

o bigode refletiam o dourado do sol. Cada detalhe de sua aparência denotava o

guerreiro e o regente do m aior reino do m undo. Vestia um a túnica sim ples, de lã,

sob um m anto j usto de peles de m arta, e trazia à cintura sua indefectível espada.

Percorreu toda a corte, cum prim entando um por um todos os súditos e

convidando-os a se servirem das delícias colocadas em m esas de tábuas grossas,

que vergavam ao peso das iguarias.

O rei preparara um a atração especial para aquele dia. Mestre da

estratégia das batalhas tinha especial preferência pelo j ogo da guerra ou j ogo dos

reis, a que hoj e cham am os de "xadrez". No quadragésim o aniversário, Carlos

Magno se propunha a enfrentar o m elhor j ogador de todo o reino, o soldado do

Exército ocidental conhecido com o Garin, o Franco.

Garin foi adm itido no pátio ao som das trom betas. Acrobatas fizeram

piruetas a sua frente, m oças cobriram seu cam inho com palm as e pétalas de

rosas. Garin, um j ovem esguio e pálido, de rosto grave e olhos acinzentados,

aj oelhou-se quando o rei se ergueu para recebê-lo.

Oito servos negros, em uniform es m ouros, trouxeram nos om bros o

tabuleiro e as peças. Aqueles hom ens, bem com o o xadrez que transportavam ,

foram um presente de Ibn-al-Arabi, o governador m uçulm ano de Barcelona, em

retribuição à aj uda que recebera de Carlos Magno na luta contra os bascos dos

Pireneus, quatro anos antes. Durante um a batalha m em orável, na retirada

através do passo de Roncesvalles, na Navarra, perdera a vida o guerreiro

Hruoland, tão querido do rei, im ortalizado na Canção de Rolando. Em resultado

da infeliz associação, o rei nunca j ogara com aquele xadrez e nunca o exibira a

seu povo.

Toda a corte se m aravilhou quando o m agnífico tabuleiro foi arm ado

sobre um a m esa no pátio. Apesar de feito por artesãos árabes, o conj unto

guardava ainda traços de suas origens hindu e persa. Havia quem acreditasse que

o j ogo dos reis j á era conhecido na índia quatrocentos anos antes do nascim ento

de Cristo e fora trazido para a Arábia, através da Pérsia, durante o dom ínio árabe

sobre aquele país, no ano de 640.

O tabuleiro, inteiram ente confeccionado em ouro e prata, form ava um

quadrado de m ais de um m etro de lado. As peças, de m etais preciosos

filigranados, tinham incrustações de rubis, safiras, diam antes e esm eraldas,

pedras não lapidadas, m as caprichosam ente polidas, algum as tão grandes quanto

ovos de codornas. Rebrilhando no pátio, pareciam ter um a luz própria, interior,

capaz de hipnotizar quem olhasse para elas.

A peça Shah (o Rei atual) m edia quinze centím etros de altura e

reproduzia a figura de um hom em coroado cavalgando um elefante. Ferz (a

Rainha ou Dam a de hoj e) reproduzia um a m ulher sentada em um palanquim

coberto, rendilhado de pedras preciosas. Os Bispos eram elefantes com selas

coruscantes de gem as; os Cavalos, selvagens garanhões árabes. As Torres — ou

Rukj ikh, palavra árabe que designa "carruagens" — equivaliam a grandes

cam elos com selas sem elhantes a cadeiras; e os Peões, a hum ildes soldados de

infantaria, de sete centím etros de altura, com olhos form ados por pequenas

pedras preciosas, com o as que decoravam os punhos de suas espadas.

Carlos Magno e Garin aproxim aram -se do tabuleiro. De repente, o rei

ergueu o braço e falou, de um a form a que confundiu e apavorou todos os

cortesãos, que o conheciam bem :

— Proponho um a aposta!

Sua voz soou estranha. Carlos Magno não gostava de apostas. Os

cortesãos se entreolharam , inquietos. O rei prosseguiu:

— Se m eu soldado Garin vencer o j ogo, dou-lhe toda porção de m eu

reino que vai de Aachen até os Pireneus bascos e m ais a m ão de m inha filha

m ais velha. Se perder, será decapitado neste m esm o pátio onde estam os, antes do

am anhecer.

Houve um a verdadeira com oção na corte. Todos sabiam que o rei

am ava tanto suas filhas que lhes pedira que não se casassem enquanto ele

vivesse.

Seu m elhor am igo, o duque de Burgundy, tom ou-lhe o braço e afastou-o

para um canto.

— Que aposta é essa, Maj estade? Mais parece coisa de um bárbaro

em briagado!

Carlos Magno sentou-se à m esa, aparentem ente em transe.

O duque não sabia o que pensar. O próprio Garin m ostrava-se confuso.

Voltou o olhar para o duque e, sem um a palavra, sentou-se à frente do rei,

aceitando a aposta. As cores foram sorteadas e, porque o destino assim

determ inou, couberam a Garin as brancas e, com elas, o direito ao prim eiro

m ovim ento.

O j ogo teve início.

Talvez devido à tensão daquele m om ento, pareceu a todos os

presentes que os dois j ogadores m ovim entavam suas peças com um a

determ inação obstinada, que transcendia um m ero j ogo. Era com o se um a

terceira m ão, invisível, dirigisse os m ovim entos. As vezes, chegava a parecer que

as peças se posicionavam por conta própria. Os j ogadores estavam silenciosos e

pálidos, os cortesãos m oviam -se ao redor da m esa com o fantasm as.

Depois de cerca de um a hora, o duque de Burgundy observou que o rei

agia de form a ainda m ais estranha. Tinha o cenho franzido e parecia desatento,

distraído. Garin m ostrava um a atitude irrequieta, antinatural, com m ovim entos

rápidos e descoordenados. Gotas de suor frio cobriam sua testa. Os olhos dos

oponentes estavam presos ao tabuleiro, com o se nenhum dos dois fosse capaz de

desviar a atenção.

De repente, Carlos Magno deu um grito e levantou-se de um pulo,

desequilibrando o tabuleiro e derrubando todas as peças. Os cortesãos recuaram ,

abrindo um círculo. O rei, acom etido de um terrível acesso de raiva, puxava os

próprios cabelos e dava m urros no peito, com o um anim al feroz. Garin e o duque

de Burgundy tentaram se aproxim ar dele, m as Carlos em purrou-os com

violência. Foram necessários seis nobres para subj ugá-lo. Finalm ente,

conseguiram dom iná-lo. O rei olhou em volta, abism ado, com o se acabasse de

despertar de um sono profundo.

Abaixando-se para pegar no chão um a das peças e oferecê-la ao rei,

Garin fez um a sugestão:

— Talvez sej a m elhor desistirm os do j ogo, Maj estade. As peças saíram

todas de suas posições e não sou capaz de m e lem brar de um só dos m ovim entos

que fiz. Sire, tenho m edo dessas peças m ouras. Acho que estão possuídas por

um a força m aligna, que levou Vossa Maj estade a fazer um a aposta contra m inha

própria vida.

Carlos Magno, descansando num a cadeira, levou a m ão à testa, sem

responder.

— Garin — disse o duque de Burgundy, falando de m aneira cuidadosa

—, você sabe que o rei não dá crédito a superstições com o esta. Ele as considera

coisas de pagãos e bárbaros... Já proibiu a necrom ancia e as adivinhações na

corte...

O rei o interrom peu, com a voz fraca de quem estivesse totalm ente

exausto:

— Com o posso trazer a ilum inação cristã para a Europa, se os soldados

de m inhas próprias tropas acreditam em bruxarias?

— Essa m ágica tem sido praticada na Arábia e em todo o Oriente desde

o início dos tem pos, Maj estade — respondeu Garin. — Não acredito nela, nem a

com preendo. — O soldado inclinou o corpo para poder olhar no fundo dos olhos

de seu rei. - Mas Vossa Maj estade tam bém a sentiu — asseverou.

— Eu m e deixei consum ir pelas cham as da raiva — adm itiu Carlos. —

Não consegui m e controlar. Senti o que se sente na m adrugada das batalhas,

quando as tropas avançam para o encontro fatal. Não sei explicar m elhor o que

aconteceu.

— Todas as coisas entre o Céu e a Terra têm um a razão de ser.

A voz veio de alguém postado atrás de Garin: um dos m ouros, um dos

oito que haviam transportado o xadrez até ali. O rei fez sinal com a cabeça para

que ele prosseguisse.

— Em Watar, nossa terra de origem , houve um povo antiquíssim o, os

beduínos ou "habitantes do deserto". Eles consideravam a aposta de sangue o

m ais sagrado de todos os confrontos. Acreditavam que som ente ela seria capaz

de rem over o Habb, a m ancha negra no coração hum ano, que o arcanj o Gabriel

retirou do peito de Maom é. Vossa Alteza acabou de fazer um a aposta de sangue

sobre o tabuleiro. Apostou a vida de um hom em , o que constitui a form a m ais

elevada de j ustiça. Maom é disse que "o Reino tolera Kufr, a infidelidade contra o

Islã, m as o Reino não tolera Zulm , a inj ustiça".

— Um a aposta de sangue é sem pre um a aposta m aligna! — exclam ou

Carlos Magno.

Garin e o duque encararam -no surpresos: não fora ele próprio quem

propusera tal aposta, cerca de um a hora antes?

— Não — insistiu o m ouro, teim osam ente. — É pela aposta de sangue

que se pode atingir Ghutah, o oásis terrestre que é o próprio paraíso. Quando se

faz tal aposta sobre o tabuleiro de Shatranj , é Shatranj quem decide e executa o

Sar!

— Shatranj é o nom e que os m ouros dão ao j ogo dos reis, Maj estade —

esclareceu Garin.

— E o que quer dizer Sar? - quis saber Carlos Magno, erguendo-se

finalm ente da cadeira e olhando a todos de cim a, com o um a torre sobre a

planície.

— Significa "vingança" — respondeu o m ouro, sem nenhum a expressão.

Em seguida, fez um a reverência e se afastou.

— Vam os j ogar de novo — disse o rei. — Desta vez, não haverá apostas.

Vam os j ogar pelo prazer do j ogo, de um sim ples j ogo. Não há nenhum

significado nessas superstições idiotas, criadas por bárbaros e por espíritos

infantis.

Os cortesãos rearrum aram as peças sobre o tabuleiro. Ouviram

m urm úrios de alívio em todo o pátio. Carlos tom ou o braço do duque de

Burgundy e o afastou.

— E m esm o verdade que fiz tal aposta? - perguntou, ao se distanciarem .

O duque olhou-o espantado:

- Sim , Maj estade! Não se lem bra?

- Não.

O rei pareceu triste.

Carlos Magno e Garin sentaram -se de novo em frente ao tabuleiro e

iniciaram outra partida. Depois de extraordinária batalha, Garin saiu vitorioso. O

rei lhe concedeu, com o prêm io, a propriedade de Montglane, nos Baixos

Pireneus, além do título de Garin de Montglane. Tão entusiasm ado ficou Carlos

Magno com o m agistral conhecim ento de xadrez de seu guerreiro, que lhe

ofereceu ainda a construção de um a fortaleza, para a proteção das terras que

acabara de ganhar. E, anos depois, o rei enviou para Garin, com o presente

especial, o m agnífico tabuleiro e as peças com que haviam disputado a célebre

partida. Dali em diante, o conj unto passou a ser conhecido com o o "Xadrez de

Montglane".

— É esta a história da abadia de Montglane — concluiu a abadessa, e

olhou outra vez para sua silenciosa congregação de freiras. — Muito tem po

depois, j á doente, à beira da m orte, Garin de Montglane doou para a Igrej a suas

propriedades, inclusive a fortaleza que se transform ou nesta nossa abadia e o

fam oso Xadrez de Montglane.

Fez um a longa pausa, com o se não estivesse certa do que dizer a seguir.

Finalm ente, prosseguiu:

— Mas Garin sem pre acreditou que havia um a terrível m aldição ligada

ao Xadrez. Muito antes de recebê-lo do rei, j á ouvira rum ores a respeito dos

m ales a ele associados. Dizem que Charlot, o Pequeno Carlos, sobrinho do

próprio Carlos Magno, foi assassinado durante um a partida disputada sobre

aquele tabuleiro. Há m uitas histórias de violência e derram am ento de sangue, e

até m esm o de guerras, em que o Xadrez aparece. Os oito m ouros que o haviam

transportado de Barcelona para as m ãos de Carlos Magno im ploraram a

perm issão do rei para acom panharem o Xadrez até Montglane, o que lhes foi

concedido. Logo Garin descobriu que, dentro de sua fortaleza, se realizavam

m isteriosas cerim ônias noturnas, rituais estranhos de que os m ouros

participavam . E acabou passando a tem er o presente que recebera, com o se se

tratasse de um instrum ento do Dem ônio.

Ordenou que o Xadrez fosse enterrado dentro da fortaleza e pediu a

Carlos Magno que inscrevesse na m uralha um a m aldição, para evitar que o

tabuleiro e as peças caíssem em outras m ãos. O rei procedeu com o se tudo não

passasse de um a grande com édia, m as aquiesceu ao desej o de Garin. Foi assim

que nasceu a inscrição que tem os até hoj e em nosso pórtico.

A abadessa calou-se, parecendo fraca e pálida, e procurou a cadeira.

Alexandrine levantou-se e aj udou-a a sentar-se.

— E o que aconteceu com o Xadrez de Montglane, m adre

reverendíssim a? — quis saber um a freira idosa, sentada na prim eira fila.

— Já lhes disse que nossas vidas correrão grande perigo se

perm anecerm os na abadia — respondeu a abadessa, após um sorriso. — Já lhes

disse que os soldados franceses saíram a cam po para confiscar os tesouros da

Igrej a, que estão fazendo isso neste exato m om ento. Já lhes disse que um tesouro

de im enso valor e, talvez, de igual im ensidade m aligna foi enterrado entre as

paredes desta abadia. Então, acho que não as surpreenderei m uito se lhes revelar

que o segredo que j urei guardar no coração, quando assum i a direção de nossa

casa, foi o segredo do Xadrez de Montglane. Ele continua oculto entre as paredes

e o chão desta sala em que estam os, e só eu sei a localização exata de cada peça

e do tabuleiro. É nossa m issão, m inhas filhas, rem over tais instrum entos do m al,

espalhá-los ao m áxim o, de form a que o conj unto nunca m ais sej a reunido e nem

chegue às m ãos de quem busque o poder. Porque o Xadrez contém um a força

que transcende as leis da natureza e a com preensão do hom em . Mas, ainda que

tivéssem os o tem po necessário para destruí-lo ou inutilizá-lo, eu não faria nada

disso. Algo dotado de tam anha força talvez tam bém possa ser usado com o

instrum ento do Bem . Por isso j urei não só guardar o Xadrez de Montglane com o

tam bém protegê-lo. Um dia, quando as circunstâncias históricas se m odificarem ,

talvez possam os reunir de novo todo o conj unto e revelar seu m istério som brio.

Em bora a abadessa conhecesse a localização exata de cada peça, foram

necessárias quase duas sem anas de trabalho de todas as freiras para que as peças

e o tabuleiro fossem exum ados, lim pos e polidos. Quatro freiras tiveram de unir

seus esforços para erguer do chão o tabuleiro. Depois de lim po, puderam ver que

ele apresentava sím bolos estranhos, entalhados ou incrustados em todas as casas.

Cada peça tinha tam bém , em sua base, um sím bolo sem elhante àqueles. Havia

ainda um a capa de pano, guardada em um a grande caixa de m etal de frestas

seladas com um a espécie de cera, sem dúvida para evitar a entrada da um idade.

A capa era de veludo, de um azul profundo, e ricam ente bordada com fios de

ouro e pedras preciosas, um a aparente reprodução dos sím bolos do zodíaco. No

centro, duas figuras sem elhantes a serpentes entrelaçavam -se de m odo a form ar

um 8. A abadessa acreditava que a capa servira para cobrir e proteger o Xadrez

de Montglane durante o transporte.

Quando o trabalho chegava ao fim , a abadessa m andou que as freiras se

preparassem para viaj ar. Avisou que daria a cada um a, em conversa reservada,

as instruções a respeito de seu destino, de m odo que nenhum a delas ficaria

sabendo a localização das dem ais. Isso, segundo ela, reduziria os riscos para

todas. Com o havia m ais freiras que peças, som ente ela própria ficaria sabendo

quais partiriam conduzindo partes do Xadrez de Montglane.

Quando chegou a vez de Valentine e Mireille, as prim as encontraram a

abadessa sentada à escrivaninha e foram convidadas a sentar-se, tam bém na

frente dela. Sobre o tam po estava o brilhante Xadrez de Montglane, parcialm ente

coberto pelo veludo azul bordado. A abadessa parou de escrever e encarou as

j ovens. As duas estavam de m ãos dadas, num a espera ansiosa. Valentine não

conseguiu se conter:

— Madre reverendíssim a, quero que a senhora saiba, agora que vou

partir que sentirei m uita saudade, e tam bém que com preendo que fui um

verdadeiro transtorno. Gostaria de ter sido um a freira m elhor e de não ter dado

tanto trabalho.

— Valentine — disse a abadessa, sorrindo ao perceber que Mireille dava

cotoveladas nas costelas da prim a, para que ela se calasse —, o que você quer

m esm o dizer? Que está com m edo de ser separada de sua prim a? E esta a razão

das desculpas atrasadas?

Valentine encarou-a espantada, sem entender com o a outra poderia ter

lido tão corretam ente seus pensam entos.

— Eu não ficaria tão preocupada — continuou a abadessa, entregando a

Mireille um a folha de papel. — Aí estão o nom e e o endereço da pessoa que se

responsabilizará por vocês. O que está abaixo são as instruções que preparei para

a viagem .

— Juntas! — gritou Valentine, quase sem conseguir continuar sentada.

— Oh, m adre reverendíssim a! A senhora satisfez m eu m ais profundo desej o!

— Se eu não m andasse as duas j untas, não tenho a m enor dúvida de que

você, sozinha, destruiria todos os planos que fiz com tanto cuidado para encontrar

um j eito de se j untar a sua prim a — com entou a abadessa, rindo. — Além disso,

tenho outras razões para m antê-las unidas. Ouçam com atenção: cada freira

desta abadia terá seu futuro assegurado. Aquelas cuj as fam ílias as aceitaram

serão m andadas de volta a suas casas. Em alguns casos, consegui localizar

parentes rem otos ou pessoas am igas para recebê-las. As que chegaram aqui

trazendo dotes receberão os m esm os valores que trouxeram , para que tenham

recursos suficientes. Aquelas que não têm posses serão enviadas para abadias de

m inha confiança em outros países. Todas as m inhas filhas terão recursos

garantidos para a viagem . Quero que façam a j ornada com conforto. — Juntou

as m ãos à frente do busto e continuou: — Mas você é afortunada de m uitas

m aneiras, Valentine. Seu avô lhe deixou um a renda generosa, que estou

designando para sua prim a Mireille tam bém . E m ais: em bora não tenha fam ília,

você tem um padrinho, que aceitou a tutela de am bas. Tenho com igo um

docum ento em que ele se com prom ete a aceitar tal responsabilidade. E isso m e

leva à segunda parte do que tenho a dizer, um assunto dos m ais graves.

Mireille olhou para a prim a, quando a abadessa falou no padrinho.

Então, voltando os olhos para a folha de papel, viu um nom e — "M. Jacques

Louis David, pintor" — seguido de um endereço em Paris. Nunca soubera que

Valentine tinha um padrinho.

— Im agino — prosseguiu a abadessa — que, quando correr a notícia de

que fechei a abadia, várias pessoas ficarão contrariadíssim as. Muitas de nós

correrem os perigo, principalm ente com gente com o o bispo de Autun, que vai

querer saber o que retiram os daqui e levam os conosco. Entendam bem : não será

possível apagar com pletam ente nossos rastros. Algum as freiras podem vir a ser

encontradas, e terão de fugir. Por isso, selecionei oito de nós. Cada um a dessas

oito freiras não só levará um a peça do Xadrez com o tam bém servirá de ponto de

apoio. Quem estiver fugindo poderá deixar com ela sua peça ou pelo m enos

instruções para encontrá-la. Você vai ser um a das oito, Valentine.

— Eu?! — A j ovem engoliu em seco, com o se sua garganta estivesse

cheia de pó. - Mas eu não sei... Eu não sou...

— Você está tentando dizer que não é propriam ente um pilar de

responsabilidade — com pletou a abadessa, sorrindo contra a vontade. — Sei bem

disso. Tanto assim , que conto com sua prim a, m ais m adura, para m e aj udar com

esse problem a. — Voltou-se para Mireille, que concordou com um gesto de

cabeça. — Escolhi as oito não pelas qualidades pessoais, m as pela localização

estratégica. Seu padrinho, Monsieur David, m ora em Paris, o coração deste

tabuleiro de Xadrez que é a França. Artista fam oso, ele tem o respeito e a

am izade da nobreza, m as tam bém integra a Assem bléia, e m uitos j ulgam -no

ardoroso revolucionário. Acredito que sua posição lhe perm ita proteger vocês

duas, caso se faça necessário. E, para m otivá-lo ainda m ais, fiz-lhe um

substancial pagam ento pela tutela. — Olhou bem para os olhos das m oças. —

Isso não é som ente um pedido, Valentine. Suas irm ãs podem correr perigo e você

vai estar num a posição em que poderá aj udá-las. Dei seu nom e e endereço para

algum as que j á partiram . Vá para Paris e faça o que estou m andando. Você está

com quinze anos, idade suficiente para saber que há coisas m ais im portantes na