Ensaio Histórico sobre as Letras no Brasil por Francisco Adolfo de Varnhagen - Versão HTML

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MINISTÉRIO DA CULTURA

Fundação Biblioteca Nacional

Departamento Nacional do Livro

ENSAIO HISTÓRICO SOBRE AS LETRAS NO BRASIL [1847]

Francisco Adolfo de Varnhagen

Ao descobrir-se a América, ou antes, ao colonizar-se ela, durante o século XVI, achavam-se no seu maior esplendor as duas nações do extremo ocidental da Europa, que nisso se empenhavam: assim as línguas e literatura, sempre em harmonia com a ascendência e decadência dos estados, como verdadeira decoração que são de seus edifícios, tocavam então o maior auge.

Com efeito, o castelhano e o português, que tiveram a sorte de passar primeiro que outras línguas do velho ao novo continente, subiam então pelas suas literaturas à categoria de línguas, graças ao impulso que lhes davam os respectivos centros governativos.

O português poliu-se sem degenerar quase nada de sua filiação galego-asturiana, nem corromper o valor das articulações latinas. O castelhano, procedente da mesma filiação, só chegou àquele resultado, depois de arabizar-se muito, de adotar o gutural árabe, e de alterar insensivelmente outras articulações latinas. O português de hoje é o mais legítimo representante do antigo castelhano e do domínio romano na Espanha; e o castelhano moderno serve a comprovar quanto o domínio de uma nação estrangeira pode fazer variar um idioma já bastante formado.

Mas, apesar desse polimento da língua e literatura portuguesa, na época em que se colonizava o Brasil, como se as letras se encolhessem com medo do Atlântico, não passam elas com os novos colonos. Não era no Brasil que os ambiciosos de glória tratavam de buscar louros para colher, pois que essa ambição elevada se satisfazia melhor na África ou na Ásia. Ao Brasil, ia-se [sic] buscar cabedais, fazer fortuna; e as miras do literáto alcançam mais alto, não é aos gozos, nem mesmo às glórias terrenhas a que aspira: é à glória imortal.

Os troncos colonizadores não trazem, pois, da árvore-mãe seiva poética bastante para produzirem frutos com ajuda do clima e da terra. A atividade intelectual que emigrava da metrópole nem bastava toda para se estender pelos Algarves d’Além e pela Índia, onde feitos heróicos se passavam. Os acontecimentos, que na Ásia e na África se representavam, eram eternizados em versos por um Camões, um Corte-Real, um Vasco Mousinho; e em prosa por um Gaspar Corrêa, um Castanheda e um Barros. A única obra que nesse primeiro século se escreveu com mais extensão sobre o Brasil, só ultimamente se imprimiu: referimo-nos à do colono Gabriel Soares, cujo trabalho, feito em 1587, foi o fruto da observação e residência de dezessete anos na Bahia; tantos como como passara na Pérsia o naturalista Ctésias, que foi quem primeiro fez conhecer aos gregos as riquezas naturais da Ásia. Ao Brasil não passavam poetas; é, pois, necessário esperar que ele se civilize e que os poetas aí nasçam e vigorem seus frutos. Os indígenas tinham um gênero de poesia que lhes servia para o canto; os seus poetas, prezados até pelos inimigos, eram os mesmos músicos ou cantores que em geral tinham boas vozes, mas eram demasiadamente monótonos; improvisavam motes com voltas, acabando estas no consoante dos mesmos motes. O improvisador, ou improvisadora, garganteava a cantiga e os mais respondiam com o fim do mote, bailando ao mesmo tempo e ao mesmo lugar em roda, ao som de tamborins e maracás. O assunto das cantigas era em geral as façanhas de seus antepassados; e arremedavam pássaros, cobras e outros animais, trovando tudo por comparações, etc.