Ensaio Histórico sobre as Letras no Brasil por Francisco Adolfo de Varnhagen - Versão HTML

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Eram também grandes oradores e tanto apreciavam esta qualidade que aos melhores faladores aclamavam muitas vezes por chefes. Os missionários jesuítas, conhecendo estas tendências, trataram de empregar a música e a poesia como meios de catequese. Nos seus colégios, começavam logo a ensinar a cantar aos pequenos catecúmenos filhos da terra e, mais tarde, compunham até comédias, ou autos sacros, para eles representarem; daí proveio o primeiro impulso da poesia e do teatro no Brasil. Assim, a respeito deste último, sucedeu neste país o mesmo que nos séculos anteriores se passara na Europa, pois, como é sabido, o teatro na Idade Média se conservou e se aperfeiçoou depois, ocupando-se exclusivamente de assuntos religiosos, como até se depreende da lei das Partidas.

Na América Espanhola sucedeu diversamente. A Espanha não tinha Áfricas, nem Ásias, as suas Índias eram só as ocidentais. Do território hispânico não havia já mouros que expulsar e às Índias tinham de passar os que queriam ganhar glória. Assim, enquanto Camões combatia em África e se inspirava em uma ilha dos mares da China, Ercilla, soldado espanhol no Ocidente, deixava gravada uma oitava sua no arquipélago de Chiloe, e, quando Os Lusíadas viam a luz (1572), havia já três anos que corria impressa a primeira parte da Araucana. Os passos de Ercilla eram, no Chile, seguidos por Diego de Santistevan Osório e Pedro dÓña (já filho dÁmérica), que, em 1605, publicou em dezenove cantos o seu Arauco Domado. Já então se tinha organizado em Lima uma Academia Antártica e havia, na mesma cidade, uma tipografia na qual, em 1602, Diogo dÁvalos y Figueroa imprimiu sua Miscelanea Austral y Defensa de Damas, obra que faz lembrar a Miscelanea Antártica y origen de Índios, que o presbítero Miguel Cabello Balboa deixou manuscrita. Da mencionada Academia Antártica nos transmite, em 1608, os nomes de muitos sócios a introdução, feita por uma senhora, às Epístolas dÓvídio, por Pero Mexia. Aí se mencionam, como mais distintos árcades, Mexia e os mencionados Oña, Cabello e Duarte Fernandes. Por esse tempo, compunha, também em Lima, fr. Diego de Hojeda a sua épica Christiada, publicada em 1611, e Fernando Alvarez de Toledo o seu Puren Indomito, que nunca se imprimiu. A regularmo-nos pelos tons dos cantos do berço, estes montuosos países da América Ocidental deveriam ter que representar um importante papel no desenvolvimento futuro da literatura americana.

O México não deixava também de participar do estro ibérico, mas aqui, com ar de conquistador, e não com formas nacionais, como no Chile, onde o próprio poeta soldado é o primeiro, não só a confessar, mas até a exaltar generosamente as proezas do mesmo Arauco que ele combatia com armas. Com razão diz a tal respeito d. Gabriel Gomes: Al valiente Araucano

Alonso venció y honró: la ira

Recompensó la lyra.

Nem sequer um canto de bardo se levantou a favor do, por enganado, não menos herói, tão simpático, Montezuma.

Com o título de elegias canta Juan de Castelhanos, em milhares de fluentes oitavas, a história dos espanhóis que, desde Colombo, mais se ilustraram na América.

Gabriel Lasso (1588) e Antonio Saavedra imaginaram epopéias a Cortez, mas foram tão mal sucedidos como século e meio depois o mexicano Francisco Ruiz de León.

O pequeno poema Grandeza Mexicana, publicado no México em 1604 pelo ao depois bispo Balbuena, autor da epopéia El Bernardo, é, apesar de suas hipérboles e exagerações sempre poéticas, o primeiro trecho de boa poesia que produziu a vista desse belo país, que logo se começou a corromper: primeiro, com falsidades na guerra; depois, com a sede do ouro. Força é confessar que a obra de Balbuena é, de todas as que temos mencionado, a que mais abunda em 3

cenas descritivas, por se haver ele inspirado, mais que todos os outros, de um dos grandes elementos que deve entrar em toda a elevada poesia americana: a majestade de suas cenas naturais. Todos os demais poetas queriam ser demasiado historiadores, no que caiu algum tanto o próprio Ercilla e muito mais outros que chegam a ter a sinceridade de assim o declarar. Deste número, foi Saavedra e o capitão Gaspar de Villagra que, em 1610, publicou em Alcalá ( em trinta e quatro cantos de verso solto, aos quais melhor chamara capítulos) a sua História de la Nueva (sic) Mexico , e nesta descreve os feitos do Adiantado Oñate e seus companheiros. Mais poeta nos parece que seria o pe. Rodrigo de Valdés, de quem possuímos a Fundação de Lima, mas, infelizmente, escrito em quadras, que deviam ser a um tempo espanholas e latinas, é, às vezes, obscuro e, com mira de fazer heróico o panegírico, o deixa aparecer antes, a trechos, demasiado empolado.

Buenos Aires, de si terra pouco hospitaleira, ocupou as atenções de Martín del Barco Centenera. Mas a Argentina é também mais uma dessas histórias em verso que um poema.

Não cabe aqui seguirmos a história das produções poéticas nos países que hoje constituem as diferentes repúblicas hispano-americanas, contudo, deixaremos consignado que tanta seiva emprestada de pouco lhes valeu, por secarem, talvez, as árvores antes que as raízes fossem assaz vigorosas para nutrir novos rebentões. Por nossa parte, fazemos votos para que uma tal literatura se eleve à eminência de que é suscetível: o altíloquo Heredia e o mimoso Plácido abriram caminho, não há mais que segui-lo. Haverá quem o siga? Quanto a nós, temos nisso inteira fé; quando as ambições se cansem por si mesmas, quando chegue o desengano de que a política atual quebranta a alma e deixa um vago no coração, o gênio terá que buscar, na cultura do espírito, o mais seguro e mais glorioso refúgio.

Lancemos as vistas para o nosso Brasil. Deus o fade igualmente bem, para que aqui venham as letras a servir de refúgio ao talento, cansado dos esperançosos enganos da política!

Deus o fade bem, para que os poetas, em vez de imitarem o que lêem, se inspirem da poesia que brota com tanta profusão do seio do próprio país e sejam, antes de tudo, originais - americanos.

Mas que por este americanismo não se entenda, como se tem querido pregar nos Estados Unidos, uma revolução nos princípios, uma completa insubordinação a todos os preceitos dos clássicos gregos e romanos, e dos clássicos da antiga mãe-pátria. Não. A América, nos seus diferentes estados, deve ter uma poesia, principalmente no descritivo, só filha da contemplação de uma natureza nova e virgem, mas enganar-se-ia o que julgasse que para ser poeta original havia que retroceder ao abc da arte, em vez de adotar e possuir-se bem dos preceitos do belo, que dos antigos recebeu a Europa. O contrário podia comparar-se ao que, para buscar originalidade, desprezasse todos os elementos da civilização, todos os preceitos da religião que nos transmitiram nossos pais. Não será um engano, por exemplo, querer produzir efeito e ostentar patriotismo, exaltando as ações de uma caterva de canibais que vinha assaltar uma colônia de nossos antepassados só para os devorar?Deu-nos Deus a inspiração poética para o louvarmos, para o magnificarmos pela religião, para promover a civilização e exaltar o ânimo a ações generosas, e serão amaldiçoados, como diz o nosso poeta religioso: (...) os vates em metro perigosos

Que abusaram da musa (...)

(Assumpção, c. 2o )

Infeliz do que dela se serve para injuriar sua raça, seus correligionários e, por ventura, a memória de seus próprios avós!

Mas, voltando aos tempos em que deixamos as letras e a poesia entregues aos desvelos dos jesuítas, é, sem dúvida, que dos colégios destes que se haviam apoderado da instrução da 4

mocidade, saíram os primeiros humanistas e os primeiros poetas que produziu o Brasil.

Nessas aulas se educaria primeiro o franciscano, Vicente do Salvador, nascido na Bahia, em 1564, e autor de uma história do Brasil que existe manuscrita; nas mesmas estudaria o seu compatriota, o pe. Domingos Barbosa, que escreveu em latim um poema da Paixão. Delas sairiam os dois amigos de Vieira, Martinho e Salvador de Mesquita, dos quais o primeiro imprimiu obras em Roma (1662-1670), e o segundo deixou tragédias e dramas sacros. Delas saiu, finalmente, o escritor paulistano Manoel de Moraes, queimado em estátua pela Inquisição.

Mas é singular como a atividade literária só começa depois que a guerra dos holandeses, despertando, por assim dizer, os ânimos, os distraiu da exclusiva ocupação de ganhos e interesses mesquinhos, para ocupar-se mais em apreciar as artes do engenho. Toda a guerra de alguns anos, quando bem dirigida, convém , de tempos a tempos, às nações, para as despertar de seu torpor. O

sangue é fecundo, quando bem derramado, e a conquista de glórias é tão necessária a um povo-nação como o aumento de suas rendas.

O pe. Vieira, com seu gênio vivo e grande eloqüência, foi, por meio de seus sermões, um dos mais poderosos agentes que contribuíram para a regeneração moral, e até literária, da nova colônia. As suas lições e os seus estímulos deram ainda aos púlpitos, além de outros pregadores brasileiros, Antônio de Sá e Eusébio de Mattos. Este foi, além disso, o primeiro brasileiro que se deu à poesia religiosa. E, por uma notável singularidade, a guerra contra os holandeses, que foi um tônico para o povo, que serviu de motivo de inspiração a Vieira de muitos de seus rasgos mais eloqüentes, que lembrou mais uma comédia ao imortal Lope de Vega, essa mesma guerra foi a causa de que passasse ao Brasil um dos maiores homens, que contam nos anais de literaturas Portugal e Castela: referimo-nos a d. Francisco Manoel de Mello que, como testemunha de vista, escreveu por esta ocasião a Epanáfora bélica, sobre a expulsão dos mesmos holandeses de Pernambuco.

Algum tempo depois da aclamação do duque de Bragança, um filho do Brasil, Diogo Gomes Carneiro, foi nomeado cronista geral deste país, a quem o novo monarca brindou com o título de principado na pessoa do herdeiro do trono.

Antes de passarmos adiante, diremos, em poucas palavras, as nossas opiniões acerca do acento do Brasil que, não obstante variar em algumas entoações e cacoetes segundo as províncias, tem sempre certo amaneirado, diferente do acento de Portugal, pelo qual as duas nações se conhecem logo reciprocamente; a não ser que os nascidos em uma passassem a outra em tenra idade, sobretudo desde os oito aos dezesseis anos. Alguma observação a este respeito nos chegou a convencer que as diferenças principais que se notam na pronunciação brasileira procedem de que a língua portuguesa no Brasil, desde o princípio, se acastelhanou muito. Estas diferenças que, principalmente, consistem na transposição dos possessivos, no fazer ouvir abertamente o som de cada uma das vogais, sem fazer elisões no e final, nem converter o o em u e em dar ao s no fim das sílabas o valor que lhe dão os italianos, e não o do sh inglês, ou do sch alemão, esta alteração na pronúncia, que se estende até a alguns modismos e usos, procedeu não só de que os primeiros descobrimentos e colonização foram feitos com ajuda de castelhanos, como de que , para a recuperação da Bahia contra os holandeses, passaram outros muitos que aí ficaram estabelecidos; além disso, no interior da província do Rio Grande, fala-se hoje, pelo menos, tanto espanhol como português e o contato dos negociantes de gados e tropeiros com estes países fez que se adotasse deles quase tudo quanto é nomenclatura da gineta, por exemplo: lombilho, etc.

Dadas estas razões, parece óbvio que a pronunciação ou acento peculiar ao Brasil, já na época de que nos vamos ocupar, seria a mesma que hoje. Havia de ser, pois, a do pe. Vieira, pelo menos criado no Brasil desde muito moço. Também sería a pronúncia de Eusébio de Mattos que nunca do Brasil saiu e, talvez, mesmo a de seu irmão, Gregório de Mattos, poeta satírico, de que 5

adiante trataremos com mais extensão.

Desejáramos agora dar algumas amostras das primeiras cantigas religiosas, ensinadas pelos jesuítas, ou de alguma modinha das que devia de entoar a bela colona, sentada junto ao rio, a gozar da suave viração da tarde! - Mas só o tempo poderá recolher esses monumentos da primitiva poesia nacional.

Quanto aos jesuítas, sabemos que, em 1575, fizeram representar em Pernambuco o Rico Avarento e Lázaro Pobre, que produziu o efeito de darem os ricos muitas esmolas. Nos anos de 1583 e seguintes não temos mais que ler a narrativa da visitação às diferentes províncias do pe.

Cristóvão de Gouvêa, escrita por Fernão Cardim, para nos convencermos dos muitos progressos que haviam feito os discípulos dos jesuítas que, na Bahia, tinham já um curso d’artes e duas classes de humanidades. Na obra de Cardim se lê, também (pág. 30) como ouviram os índios representar um diálogo pastoril em língua brasílica, portuguesa e castelhana, língua esta que falavam com muita graça.

Cardim nos dá notícia de uns versos compostos então ao martírio do pe. Inácio de Azevedo, além de muitos epigramas que se faziam sobre vários assuntos; também nos refere uma procissão das onze mil virgens em que estas iam dentro de uma nau à vela (por terra) toda embandeirada, disparando tiros, com danças e outras invenções devotas e curiosas, celebrando depois o martírio dentro da mesma nau, descendo a final uma nuvem do céu, e sendo as mártires enterradas pelos anjos, etc.; também o mesmo descreve a representação de certo diálogo (que se julgava composto por Álvaro Lobo) sobre cada palavra da Ave-Maria.

Os escassos fragmentos que chegaram a nós de poesias principalmente religiosas em língua guarani não pertencem à presente coleção.

Das modinhas, poucas conhecemos e, essas, insignificantes, e de época incerta, a não ser a baiana:

“Bangué, que será de ti!”

glosada por Gregório de Mattos; essa mesma sabemos ser antiga, mas não foi possível alcançá-la completa.

Não deixaremos de comemorar a do Vitu, que cremos ter o sabor do primeiro século da colonização, o que parece comprovar-se com ser em todas as províncias do Brasil tão conhecida.

Diz assim:

“Vem cá Vitu! Vem cá Vitu!

- Não vou lá, não vou lá, não vou lá! -

“Que é dele o teu camarada?”

- Água do monte o levou: -

“Não foi água, não foi nada,

Foi cachaça que o matou”

Igualmente antiga nos parece a modinha paulista: Mandei fazer um balaio,

Para botar algodão, etc.

Cabe agora ocupar-nos do primeiro poeta que se fez notável no Brasil. Foi o satírico Gregório de Mattos, que já em Coimbra, onde se formou, e depois em Lisboa, nas Academias dos Singulares e na dos Generosos, a que pertenceu, começara a manifestar as tendências de seu gênio. Passando ao Brasil, terra que, segundo ele, o criara para “mortal 6

veneno”, o descontentamento e mal-estar o irritaram a ponto tal que, em vez de satírico, era muita vez insolente. Se nas descrições das festas ou caçadas, em geral demasiado prolixas, nos entretém e diverte, nas sátiras pessoais temos sempre que lamentar que o poeta ultrapasse os limites da decência e que, algumas vezes, deixe de ser cavalheiro. A maledicência que emprega contra o governador Antônio Luís, a par dos elogios que de sua administração nos deixou Botelho, e principalmente Rocha Pitta, fazem acreditar, que não a justiça, mas a vingança o movia contra esse representante do poder.

Poderíamos, acerca dos seus versos satíricos, dizer o que de outras cantigas análogas diz um ilustre contemporâneo: - “Eram verdadeiros fascininos [sic]; eram jambos de Arquiloco refinados; eram estocadas de varar até as costas, e catanadas de abrir em dois até aos arções; iam os nomes estendidamente; iam pelo claro as baldas públicas e secretas, até os defeitos involuntários: os do corpo e os da geração, isto tão sem resguardo nos termos, que até as obscenidades se despejavam com um desembaraço digno de Catulo, Marcial ou Beranger.”

Mattos, pelas tendências do seu caráter, fez-se, não discípulo, mas escravo imitador de Quevedo, portanto, assim como sucede a este, se muitos lhe acham graça e chiste, outros o acharão em oposição com o decoro de engenho, em vez de senhor e gracioso; o encontrarão truão e chocarreiro; quando quer ser filósofo, o acharão cínico. Como de Quevedo, o estilo é cortado e desigual; a par de um belo conceito, traz Mattos uma sandice, um disparate ou uma indecência. Sua imaginação era talvez viva, mas descuidada. O seu gênio poético faísca, mas não inflama; surpreende e não comove; salta com ímpeto e força, mas não voa nem atura na subida.

Com Quevedo e com os poetas portugueses dessa época, cultiva os assoantes, sobretudo nos romances. Os espanhóis ainda hoje em dia conservam essa meia rima; em português, foi ela inteiramente abandonada e, quanto a nós, com razão.

Não é este o lugar mais apropriado para entrar na questão da conveniência ou não conveniência do uso dos assoantes na poesia portuguesa; harmoniosa e bela é a nossa língua para, no heróico elevado, contentar-se com o solto. Os redondilhos, que são para poesia menos elevada, tornam-se monótonos se a rima os não abrilhanta e, nos líricos menores, até às vezes se requer que aquela seja aturada. Só aos ouvidos mais delicados é dado apreciar a arte do assoante e, por esta razão, nunca ele será popular.

Das poesias, que damos por litigiosas, entre os dois irmãos Mattos, confessamos que nos inclinamos a que sejam pela maior parte de fr. Eusébio. Há nelas em geral mais unção religiosa e mais viva crença, que é natural ao gênio do poeta satírico. Quando muito, será de Gregório a glosa à Salve-Rainha, entretenimento semelhante ao de Quevedo, glosando o Padre-Nosso.

Seguia-se neste lugar tratarmos de um poema descritivo dos sertões brasileiros - O

Descobrimento das Esmeraldas - obra composta em 1689 por Diogo Grasson Tinoco e da qual era herói Fernão Dias Paes. Infelizmente, de tal poema não conhecemos mais que as estâncias 4a

, 27a , 35a e 61a, que Cláudio Manuel da Costa transmite nas notas da sua Vila Rica. Fazemos votos para que o manuscrito que possuiu Cláudio ou algum outro venha a aparecer em Minas e seja dado ao prelo.

Bernardo Vieira Ravasco, filho da Bahia, irmão do padre Antônio Vieira, deixou muitas poesias manuscritas, mas parece haverem-se perdido. Outro tanto terá sucedido aos Autos Sacramentais que compôs seu filho, Gonçalo Ravasco, e à comédia A Constância e o Triunfo, de José Borges de Barros, ao depois vigário-geral da Bahia. Fazemos aqui, muitas vezes, resenha destas obras, que não conhecemos, para chamar sobre elas a importância a fim de que se publiquem, se se chegam a encontrar.

Manuel Botelho de Oliveira foi o primeiro brasileiro que, do Brasil, mandou ao 7

prelo um volume de poesias. Aí confessa ele a existência de outros poetas que haviam [sic] então no Brasil, e são seguramente, esses contemporâneos, de cujas poesias apenas se conhecem os títulos. Botelho de Oliveira talvez nascesse poeta, e não lhe falta imaginação, como se conhece quando segue sua natural inspiração, nos momentos em que não quer ser demasiado culto - como então se dizia - e nós hoje diríamos contorcido. O pior que ele fez foi querer demasiado imitar os poetas de Itália e Espanha (expressões suas) dessa época, pois, insensivelmente, toma por modelo a Gôngora, e Gôngora, apesar do seu grande talento, nunca podia imitar-se, pois coisas que ele diz, só ele as sabia dizer com arte. Botelho tinha nímia erudição para poder obedecer sempre às próprias inspirações e encher todo o seu extenso volume da Musica do Parnasso (que à imitação talvez de d. Francisco Manoel dividiu em choros), com mais composições semelhantes à silva, em que descreve a pitoresca ilha baiana da Maré. Quis passar pela vaidade de compor nas quatro línguas, portuguesa, castelhana, italiana e latina, e melhor fora ter-se estreado em uma bem. Ao seu castelhano, falta-lhe sempre o jeito de tal, nem que escrevesse primeiro em português e, depois, lhe cambiasse as terminações. No italiano e latim, a dificuldade da empresa prendeu-lhe a veia poética. Nas suas obras, se compreendem duas comédias, uma das quais Hay amigo para amigo já antes fora publicada anônima entre as Famosas. É o título da outra - Amor, enganos y zelos - três inimigos da alma, diz a comédia, que se dão nos amantes e no mundo todo. O enredo destas duas composições é mui insignificante, nem sequer o autor soube para elas inspirar-se com os socorros de Calderón e outros poetas dramáticos dessa época. Em ambas, fala-se de amor e mais amor, mas em ambas há pouca paixão. Na primeira, um amigo cede a outro a dama, por quem ambos estavam apaixonados. Nota-se, de uma e outra, que o autor possuía muito pouca arte, ou pouco conhecimento deste gênero de literatura dialogada; em vez de pôr em diálogo o que lhe convém, tira-se de cuidados e manda muita vez cada qual à cena dizer o que lhe aconteceu e o que intenta fazer. Além disso, as jornadas ou atos são, em geral, demasiado extensos. Em defensa, porém, do autor, cumpre-nos dizer que ele, por certo, nunca destinou para o teatro estas composições, a que chama Descante cômico reduzido em duas comédias, título que lhe quadra, pois vê-se uma certa forma para servir de pretexto a dizerem-se, segundo o gosto da época, descantes de trocadilhos e conceitos amorosos ou com pretensões de tais, pois mal das finezas amatórias que não foram inspiradas em algum sentimento ou alguma reminiscência da paixão do amor. Se existiu deveras a Anarda de Botelho, duvidamos que se enternecesse com tais declarações desenxabidas. Além da silva, acima mencionada, das comédias e das poesias amorosas, deixou-nos Botelho várias canções, um panegírico em 34 estâncias ao marquês de Marialva, que nos parece digno, com mais algumas outras suas composições, de ser condenado, para nos servirmos de uma expressão querida na época em que ele viveu, a afogar-se no Lethes.

Quase contemporâneo a Botelho de Oliveira deve ter sido o autor que, no Florilégio, designamos pelo nome de Anônimo Itaparicano e hoje temos a certeza que era o pe.

fr. Manuel de Santa Maria Itaparica, da ordem seráfica, e que ainda vivia em 1751, em que consagrou várias composições aos funerais do rei d. João V. Filho da baiana ilha de Itaparica, não só disso se prezou no seu nome, como nos seus versos, por pouco merecimento que se encontre nessa descrição da ilha de Itaparica. O Eustaquidos, tão recomendado pelo assunto e que tem sido escolhido para empresa de mais de um poeta, contém algumas belas oitavas, não inferiores às do moderno poema castelhano do pe. fr. Antônio Montiel , que começa com as três belas oitavas seguintes:

Divina Musa, inspira favorable

Conceptos à mi mente confundida:

Dime, ¿ quien fue el varon inimitable,

Que en paz y guerra, en la muerte y vida,