Ensaios Vol.I por Montaigne - Versão HTML

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Dionísio (o velho), depois de tomar a cidade de Reggio através um tedioso assédio e sobrepujar enormes dificuldades, e sendo Phyton, seu governador, um homem muito valente que havia oposto tão obstinada defesa, resolveu dar-lhe um exemplo trágico da sua vingança: em seqüência, primeiro lhe falou: “Que no dia anterior fez afogar o filho dele e todos de sua família”.

Ao qual Phyton não devolveu outra resposta além disto: “Então eles estavam mais felizes do que ele adiantados por um dia”.

Depois disso o despiram e entregaram nas mãos dos carrascos; Phyton não só foi por eles arrastado pelas ruas da cidade, ignominiosa e cruelmente chicoteado, mas também difamado com as mais amargas e insolentes expressões: mas ainda manteve sua inteira coragem por todo o caminho, com a voz forte e o semblante destemido proclamando a causa honrada e gloriosa de sua morte; a saber, que ele não entregaria sua cidade nas mãos de um tirano, ao mesmo tempo pronunciando contra ele um veloz castigo dos deuses ofendidos. Lendo nos olhares dos seus soldados que em vez de ficarem zangados pelas palavras atrevidas do inimigo conquistado, desdenhavam seu capitão e seu triunfo, e não só ficaram pasmos de admiração por tão rara virtude, mas além disso inclinados a se rebelar e estavam mesmo a ponto de arrancar o prisioneiro das mãos do carrasco, Dionísio ordenou que parassem a tortura e depois o lançassem no mar reservadamente [segundo Deodoro da Sicília].

O homem (com sinceridade) é sujeito maravilhosamente fútil, inconstante e instável, de quem é muito difícil formar qualquer juízo uniforme e correto. Pois Pompeu haveria de perdoar toda a cidade dos Mamertinos, sendo furiosamente incensado contra isso, por conta da virtude e magnanimidade de um único cidadão, Zenão, o qual assumia completamente as faltas do povo; nem sequer pediu outro favor, senão sofrer sozinho o castigo de todos: e ainda o anfitrião de Sila, tendo na cidade de Perugia manifestado a mesma virtude, nada obteve por ela, para si mesmo ou para os seus concidadãos.

E, diretamente contrário aos meus primeiros exemplos, o mais valente de todos os homens e que gozava da reputação de ser muito cortês entre todos aqueles a quem havia superado, Alexandre, tendo depois de dificuldades muito grandes forçado a cidade de Gaza e nela entrando, encontrou Betis que lá comandava e de cujo valor no período desse assédio existiam as provas do mais manifesto prodígio, sozinho, abandonado por todos os seus soldados, sua armadura fendida e reduzida a pedaços, por toda parte coberto de sangue e ferimentos e ainda lutando contra a multidão de inumeráveis Macedônios que o cercavam por todos os lados, disse-lhe, ressentido por uma vitória comprada a um preço tão alto (pois além de outros danos ele havia recebido recentemente dois ferimentos em seu próprio corpo): “Tu não morrerás, Betis, como pretendeste; estejas seguro de sofrer todos os tormentos que podem ser infligidos a um cativo”. A tal ameaça o outro não devolveu nenhuma outra resposta senão um único olhar feroz e desdenhoso. “O quê”, diz Alexandre, observando o seu silêncio arrogante e obstinado, “ele tem dificuldade para dobrar um joelho! É muito orgulhoso para proferir uma palavra de súplica! Realmente, hei de conquistar esse silêncio; e se não puder forçar uma palavra da sua boca, vou pelo menos extrair um gemido do seu coração”. E logo a seguir, convertendo a raiva em fúria, mandou perfurarem seus calcanhares e que, enquanto ainda vivo, fosse arrastado, mutilado e desmembrado, amarrado à cauda de um carro [Quinto Cúrcio. Esse ato de crueldade foi questionado, apesar da declaração de Cúrcio]. Era tanta a altura da coragem, tão natural e familiar a esse conquistador, para que ele não pudesse admirá-la e ao menos respeitá-la? Ou entendia a bravura uma virtude tão peculiar a ele mesmo que seu orgulho não pôde, sem inveja, suportá-la em outro? Ou na impetuosidade natural da sua fúria era incapaz de tolerar oposição? Certamente, se tivesse sido capaz de moderação, seria de acreditar que no saque e destruição de Tebas, ver tantos homens valorosos totalmente perdidos e destituídos de qualquer chance de defesa, cruelmente massacrados diante dos seus olhos, o teria satisfeito: onde houve mais de seis mil eliminados à espada, dos quais nenhum foi visto fugir ou pedir asilo; mas, pelo contrário, cada um correndo daqui para lá, procurando e provocando o inimigo vitorioso para se permitirem um fim honrado. Não se viu ninguém que, embora debilitado pelos ferimentos, ainda não fizesse em seu último suspiro um esforço para se vingar, e com todas as armas de um valente desespero, adoçar a própria morte com a morte de um inimigo. A bravura deles não logrou gerar nenhuma piedade e a extensão de um dia não foi suficiente para saciar a sede de vingança do conquistador; a matança continuou até a última gota de sangue que eram capazes de verter, não parando até que restassem nada mais além de pessoas desarmadas, homens velhos, mulheres e crianças, entre os quais levaram um número de escravos acima de trinta mil.

CAPÍTULO II

Sobre a tristeza

Sou dos que menos sentem essa disposição de espírito; não a aprecio nem a valorizo, embora de um modo geral, e preconceituosamente, os homens a respeitem e estimem. Com ela enfeitam a sabedoria, a virtude, a consciência, mas o adorno é pobre e feio. Os italianos com muito mais razão deram seu nome à maldade, pois ela é sempre nociva, sempre insensata, e também covarde e desprezível: os estóicos a proíbem aos sábios.

Diz-nos a história [Heródoto] que Psamético, rei do Egito vencido por Cambises, rei da Pérsia, vendo passar a filha, como ele próprio cativa, e que ia buscar água vestida de serva, permaneceu mudo, olhos voltados para o chão, enquanto choravam todos os seus amigos. Vendo logo depois o filho, que conduziam para a morte, conservou a mesma atitude. No entanto, diante de um criado que levavam à tortura, juntamente com outros prisioneiros, pôs-se a golpear a cabeça demonstrando extrema aflição.

Pode-se comparar esse fato ao que ocorreu recentemente com um de nossos príncipes, o qual recebeu em Trento a notícia da morte do irmão mais velho, sustentáculo da honra e da manutenção da família. Logo depois sabia do falecimento do segundo irmão para o qual, desaparecido o primeiro, voltavam todas as esperanças. Ambas as desgraças ele as suportou com coragem exemplar. Eis que dias mais tarde vem a morrer um dos seus amigos, ao que não pôde resistir. Sua resolução o abandona e ele se desfaz em lágrimas e lamentações, a ponto de observarem que somente ao último acontecimento se mostrara realmente sensível. Na verdade a medida estava cheia e uma coisa de nonada bastara para abater-lhe a energia e provocar um transbordamento de tristeza. Poder-se-ia, creio, assim explicar igualmente a atitude de Psamético, se não acrescentasse a história que Cambises, 12

tendo-lhe perguntado por que motivo ele, que tão pouco se mostrara perturbado com a infelicidade da filha e do filho, tanto se afetara ante a de um amigo, recebeu esta resposta: ”É que só esta última tristeza é suscetível de se exprimir por lágrimas; a dor sofrida nos dois primeiros casos está além de qualquer expressão”.

A propósito, vem-me à memória o caso daquele pintor antigo [Cícero] que, no sacrifício de Ifigênia, teve de representar o sofrimento dos diversos personagens segundo o grau de interesse que cada um votava à bela e inocente jovem, e que ao chegar ao pai da virgem já havia esgotado todos os recursos de sua arte. Diante da impossibilidade de dar-lhe uma atitude em relação com a intensidade da dor, pintou-o de rosto coberto, como se nenhuma expressão pudesse ilustrar semelhante desespero. Eis por que os poetas imaginam a miserável Niobé, que depois de perder seus sete filhos viu morrerem as sete filhas, transmudada em rochedo pela sobrecarga de desventura:

“Diriguisse malis,“

”Petrificada pela dor” [Ovídio]

,a fim de exprimir essa espécie de embrutecimento sombrio, surdo e mudo que se apodera de nós quando as ocorrências nos esmagam ultrapassando o que nos é dado suportar. E, efetivamente, sua dor excessiva, exatamente porque excessiva, deve estupidificar a alma a ponto de paralisar qualquer gesto, como acontece quando recebemos inesperadamente uma péssima notícia. Somos tomados de espanto, penetrados de pavor ou de aflição e como tolhidos em nossos movimentos até que à prostração suceda o relaxamento. Surdem então as lágrimas e os lamentos que aliviam a alma e como que lhe permitem mover-se mais à vontade:

“Et via vix tandem voci laxata dolore est.”

”É com dificuldade que afinal recupera a voz e pode exprimir sua dor” [Virgílio].

Durante a guerra do Rei Fernando contra o rei da Hungria perto de Buda [Budapeste] um dos guerreiros mostrou-se particularmente valente nos combates que se verificaram. Ninguém o reconhecera e todos o elogiavam e lhe lamentavam a sorte porquanto sucumbira na refrega. E ninguém mais do que um Senhor de Raisciac, fidalgo alemão, o engrandecia, entusiasmado com tão rara coragem. Recolhido o corpo, Raisciac aproximou-se como os demais para ver quem era, e ao lhe tirarem a armadura reconheceu o filho. A emoção dos presentes aumentou mais ainda; só ele permaneceu impassível, sem dizer palavra, sem pestanejar, de pé, contemplando fixamente o corpo até que a violência da dor tendo atingido o próprio princípio da vida o derrubasse para sempre.

“Chi puo dir com’ egli arde, a in picciol fuoco,”

”Quem pode dizer a que ponto arde, arde bem pouco” [Petrarca],

Dizem os amantes que querem exprimir insuportável paixão ou:

“Misero quod omneis

Eripit sensus mihi: nam simul te,

Lesbia, aspexi, nihil est super mi,

Quod loquar amens.

Lingua sed torpet: tenuis sub artus

Flamma dimanat; sonitu suopte

Tintinant aures; gemina teguntur

Lumina nocte.”

“Quão miserável sou! O amor perturba-me os sentidos. À tua vista, ó Lésbia, perco a razão. Falar está acima de minhas forças, minha língua engrola, uma chama sutil percorre-me as veias, mil ruídos confusos soam-me aos ouvidos e o véu da noite estende-se sobre os meus olhos” [Catulo].

Não é no auge de nossos transportes quando nos ferve o sangue nas veias que somos mais capazes de encontrar o tom que comove e persuade. Nesses momentos a alma está por demais absorvida em seus pensamentos, o corpo demasiado abatido e lânguido de amor; daí, por vezes, a inesperada e fortuita impotência que surpreende o amante tão fora de propósito; daí esse gelo que o envolve, em virtude do extremo ardor, na própria fonte de seu gozo. A paixão que se deixa saborear e digerir mal merece ser assim nomeada.

“Curae leves loquuntur, ingentes stupent.”

”Os prazeres leves são loquazes, as grandes paixões silenciosas” [Sêneca].

Da mesma forma nos comove a surpresa de um prazer inesperado:

“Ut me conspexit venientem, et Troja circum

Arma amens vidit, magnis exterrita monstris,

Diriguit visu in medio, calor ossa reliquit,

Labitur, et longo vix tandem tempore fatur.”

”Logo ao ver-me, ao perceber de todos os lados as armas de Tróia,

fora de si, como golpeada por pavorosa visão, se imobiliza. Seu sangue

gela, desmaia e só muito tempo depois pode enfim falar” [Virgílio].

Além daquela romana que morreu de alegria ao ver o filho escapar da derrota de Canes; além de Sófocles e Dionísio, o tirano, que também morreram de alegria ao receberem uma boa notícia; e Talma que faleceu na Córsega ao saber das honras que o Senado de Roma lhe conferira; vimos neste século o Papa Leão X que, ao ter notícia da tomada de Milão, tão ardentemente desejada, experimentou tal carga de alegria que a febre o assaltou, levando-o à morte. E mais um testemunho comprovador da fraqueza humana tirado dos antigos: Deodoro, o dialético, vendo-se em suas aulas públicas incapaz, de repente, de 13

responder às objeções que lhe faziam, sentiu tamanha vergonha que morreu na hora. Quanto a mim, sou pouco predisposto a essas paixões violentas; tenho uma sensibilidade naturalmente grosseira e a torno mais espessa ainda e empedernida mediante raciocínios diários.

CAPÍTULO III

Nossas inclinações nos levam além do que desejamos

Os que censuram aos homens sempre se preocuparem com as coisas futuras e nos ensinam a gozar os bens presentes, e com eles nos contentarmos, observando que não mandamos no que está por vir, talvez, menos ainda do que no passado, referem-se ao mais corriqueiro dos erros humanos, se é que se pode chamar erro a essa tendência que, embora a ela sejamos impelidos pela própria natureza no afã da continuidade de sua obra, falseia a nossa imaginação, mais exigente de ação que de ciência, ainda que ignoremos aonde nos leva. Nunca estamos em nós; estamos sempre além. O temor, o desejo, a esperança jogam-nos sempre para o futuro, sonegando-nos o sentimento e o exame do que é, para distrair-nos com o que será, embora então já não sejamos mais.

“Calamitosus est animus futuri auxius.”

”Todo espírito preocupado com o futuro é infeliz” [Sêneca].

”Faze aquilo para que és feito e conhece-te a ti mesmo”, eis um grande preceito amiúde citado em Platão. E cada um dos membros dessa proposição já nos aponta nosso dever, e traz em si o outro. Quem se aplicasse em fazer aquilo para que é feito perceberia que lhe é necessário adquirir antes de mais nada o conhecimento de si próprio e daquilo a que está apto. E quem se conhece não erra acerca de sua capacidade, porque se aprecia a si mesmo e procura melhorar, recusando as ocupações supérfluas, os pensamentos e os projetos inúteis. Da mesma forma que a loucura não se satisfaz ainda que cedamos a seus desejos, a sabedoria, sempre satisfeita com o presente, nunca se descompraz consigo mesma. A ponto de Epicuro considerar que nem a previdência nem a preocupação com o futuro são peculiares ao sábio.

Entre as leis relativas ao homem depois da morte, das mais justificáveis se me afigura a que submete as ações dos príncipes a um julgamento póstumo [Deodoro de Sicília]. Os príncipes com efeito devem submeter-se às leis, pois não pairam acima delas. E por não poder a justiça nada contra eles, quando vivos, natural me parece que ao desaparecerem deva ela agir sobre sua reputação e os bens legados, coisas que não raro preferimos à vida. É um uso que não acarreta senão vantagens às nações que o adotam. E os bons príncipes, que poderiam queixar-se de ver tratada a memória dos maus como a sua, hão de desejá-lo.

Devemos disciplina e obediência aos reis, bons ou maus; isso é indispensável para que desempenhem seu papel. Mas nossa estima e nossa afeição, não lhas devemos, a não ser que as mereçam. Admitamos que as necessidades políticas nos obriguem a suportá-los com paciência por mais que sejam indignos, a dissimular-lhes os vícios, a endossar-lhes os atos quaisquer que sejam, na medida de nossas forças e desde que de tal endosso necessite a sua autoridade. Mas, cumprindo esse dever, não há razão para que nos recusemos a julgá-los e não tenhamos a liberdade de exprimir nossos ressentimentos se for o caso, nem que nos neguemos a honrar esses bons servidores que, embora conhecendo as imperfeições do senhor, o serviram com respeito e fidelidade, exemplo útil a ser transmitido à posteridade. Aqueles que, em virtude de obrigações pessoais, defendem sem razão a memória de um príncipe indigno, fazem ato de justiça privada em prejuízo da justiça pública. Tito Lívio anda certo ao observar que a linguagem dos homens enfeudados à realeza é sempre cheia de vãs ostentações e falsos testemunhos, encarando cada qual o seu rei independentemente de seus méritos como um soberano cujo valor e cuja grandeza não podem ser ultrapassados.

Pode-se reprovar a altivez dos soldados que responderam a Nero, o qual perguntara a um deles por que lhe queria mal e ao outro por que o desejava matar: ”Gostava de ti quando eras digno desse sentimento”, respondeu o primeiro; ”desde, porém, que te tornaste parricida, incendiário, histrião, cocheiro, odeio-te como o mereces”. E o segundo afirmou: ”Porque não vejo outro remédio para teus contínuos desmandos” [Tácito]. Mas quem há de reprovar os testemunhos públicos e universais que depois de sua morte foram obtidos contra esse príncipe, seus tirânicos e odiosos entusiasmos, testemunhos que o estigmatizaram para sempre – e como ele todos os maus? Lamento que entre os usos e costumes tão sábios da Lacedemônia se tenha introduzido uma hipócrita cerimônia, por ocasião da morte dos reis. Todos os confederados e os povos vizinhos, juntamente com os hilotas, homens e mulheres, feriam a fronte em sinal de luto, proclamando entre gritos e lamentações que o defunto (bom ou mau tivesse sido) fora o melhor dos reis que haviam tido. Davam, assim, à condição os louvores que ao mérito deveriam caber, e relegavam para o último lugar aquilo que em primeiro deveria estar. Aristóteles, que trata de todos os assuntos, indaga, a propósito das palavras de Sólon: ”ninguém se pode dizer feliz antes de morrer”, se quem viveu e morreu segundo seus desejos, mas deixou má reputação ou os seus pósteros na miséria, deve qualificar-se como feliz. Enquanto vivemos temos a faculdade de fazer com que nosso pensamento se pouse onde queremos; quando deixamos de existir acabam as possíveis comunicações com o mundo vivo. Eis por que Sólon teria dito melhor se houvesse afirmado que o homem não é nunca feliz, porquanto só o é quando já não mais existe.

“Quisquam

Vix radicitus e vita se tollit, et eicit;

Sed facit esse sui quiddam super inscius ipse,

Nec removet satis a projecto corpore sese, et

Vindicat.”

”Encontra-se com dificuldade um sábio capaz de fugir da vida e a repelir: ignorante do futuro, o homem imagina que parte de seu ser sobrevive e

não pode libertar-se desse corpo que perece e cai” [Lucrécio].

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Bertrand du Guesclin morreu no sítio do castelo de Randon em Puy, na Auvergne. Tendo os sitiados capitulado depois da morte dele, viram-se obrigados a depor as chaves da cidade sobre o seu cadáver. Barthélemy de Alviane, general do exército veneziano, tendo morrido na batalha perto de Brescia, tornou-se necessário, a fim de transportar o corpo para Veneza, atravessar o território inimigo de Verona. Os chefes venezianos em sua maioria eram de opinião que se pedisse um salvo-conduto aos veroneses. Théodore Trivulce a isso se opôs, preferindo passar à força, ainda que fosse preciso combater, pois não era decente, disse, que quem em vida jamais temera o inimigo parecesse amedrontar-se depois de morto [Brantôme]. –

As leis gregas apresentam-nos algo semelhante: quem solicitava do inimigo um corpo para inumá-lo renunciava à vitória e não mais a podia consagrar com um troféu; e aquele a quem a solicitação era feita considerava-se vencedor. Nícias assim perdeu as vantagens nítidas que conseguira contra os coríntios e, inversamente, Agesilas desse modo assegurou um êxito mais do que duvidoso sobre os beócios. Tais fatos poderiam parecer estranhos, se desde sempre não juntassem os homens à preocupação do além a crença de que as bênçãos celestes o acompanham ao túmulo e se estendem a seus restos. E tantos são os exemplos antigos a esse respeito – sem falar nos de hoje – que não se faz preciso insistir. Eduardo I, rei da Inglaterra, tendo observado nas suas intermináveis guerras contra Roberto, rei da Escócia, a que ponto sua presença contribuía para o êxito, cabendo-lhe a vitória lá onde ele se encontrava, no momento de render o último suspiro obrigou o filho, mediante juramento solene, a mandar ferver-lhe o corpo depois de morto para que, separando-se as carnes dos ossos, se enterrassem aquelas e se transportassem estes com o exército sempre que marchassem contra os escoceses. Como se o destino houvesse fatalmente subordinado a vitória à presença dos ossos. – Jean Ghiska, que perturbou a Boêmia na defesa dos erros de Wiclef, exigiu que depois o esfolassem e com a pele fizessem um tambor que usariam quando pegassem em armas contra os inimigos, imaginando que dessa maneira ajudaria a manter as vantagens obtidas nas guerras anteriores. Certas tribos de índios também levavam para o combate contra os espanhóis os ossos de um de seus chefes por causa dos êxitos que tivera em vida. Outras tribos desse mesmo continente carregam com elas, na guerra, os corpos dos seus guerreiros que se tenham distinguido pela valentia e morrido na luta, pois os consideram suscetíveis de darem sorte e servirem de estímulo. Mostram-nos os primeiros exemplos a recordação de nossos feitos honrosos acompanhando-nos ao túmulo; os últimos atribuem, ademais, a essa recordação, um sentido afetivo.

O caso de Bayard é mais admissível. Esse chefe, ao sentir-se mortalmente ferido por um tiro de arcabuz no corpo, e instado a retirar-se da luta, respondeu que não era no momento de findar que iria começar a virar as costas ao inimigo. E continuou a pelejar enquanto as forças o permitiram. E, não podendo mais permanecer a cavalo porque se sentia desmaiar, mandou a seu escudeiro que o deitasse ao pé de uma árvore, porém de maneira a morrer com o rosto voltado para o inimigo. E assim se fez.

Acrescentarei outro exemplo, tão interessante no gênero quanto os precedentes. O Imperador Maximiliano, bisavô do Rei Filipe, atualmente no trono, foi um príncipe dotado de numerosas e eminentes qualidades e notável pela sua beleza física. Entre as suas singularidades havia a de não se assemelhar a esses príncipes que para tratar dos negócios mais importantes fazem de sua retrete um trono. Nunca teve criado por mais familiar a quem permitisse vê-lo em trajes menores. Escondia-se para urinar e tão pudibundo quanto uma virgem, nem ao médico nem a ninguém mostrava as partes do corpo que costumamos cobrir. Eu, que tão impudente tenho a língua, sou entretanto, por temperamento, igualmente inclinado a semelhante discrição. E, a menos que a tanto seja levado por necessidade ou volúpia, não exponho aos olhos de ninguém as partes de meu corpo ou os atos íntimos que nossos costumes recomendam se soneguem à vista; e faço disso uma obrigação talvez maior do que convém a um homem, e em particular de minha profissão. Mas o Imperador Maximiliano a tal exagero chegara que ordenou expressamente em testamento que lhe pusessem ceroulas depois de morto, acrescentando que a pessoa encarregada dessa missão a desempenhasse de olhos vendados. O desejo expresso por Ciro a seus filhos de que nem eles nem ninguém lhe tocassem o corpo depois da morte, provém, imagino, de alguma prática devota, pois tanto ele como seu historiador, entre outras grandes qualidades, mostraram-se durante a vida especialmente dedicados à religião.

Desagrada-me o que me contou certo indivíduo altamente colocado e diz respeito a pessoa de minhas relações íntimas, assaz conhecida pelos cargos que ocupou na paz como na guerra. Esta personagem, que morreu em sua Corte em idade avançada e após cruéis sofrimentos devidos a cálculos, passou suas últimas horas regulando com exagerados cuidados a cerimônia de seu enterro de modo a dar-lhe o maior relevo. Pedia aos nobres visitantes que se comprometessem sob palavra de honra a tomar parte no cortejo fúnebre. Ao próprio príncipe que me narrou o caso, pediu ele insistentemente mandasse vir o seu séquito, e citava exemplos e argumentava para provar que tanto se devia a um homem de sua condição. E, tendo arrancado tal promessa e estabelecido de acordo com suas idéias a distribuição e a ordem da parada, expirou aparentemente satisfeito. Não creio ter jamais visto tão persistente vaidade.

Preocupar-se com regular os funerais ou de maneira original ou com excessiva parcimônia, como, por exemplo, reduzindo o acompanhamento a um simples servidor carregando uma lanterna, são singularidades inversas das precedentes, embora da mesma ordem e de que também encontro exemplos na minha família. Há entretanto quem aprove tais gestos, como aprovam a proibição de Marco Lépido a seus herdeiros de empregar o cerimonial adequado ao seu caso. Se assim agindo imaginamos fazer ato de temperança e austeridade, evitando uma despesa e uma satisfação que não gozaremos e cuja percepção nos será impossível, tal atitude em verdade não será muito meritória. Se me coubesse resolver quanto ao assunto, eu diria que nessas como em todas as demais circunstâncias da vida, cada qual deve orientar-se pela sua situação na sociedade, e o filósofo Lícon demonstrou sabedoria quando prescreveu a seus amigos que o enterrassem como achassem melhor, organizando funerais que não fossem nem supérfluos nem miseráveis. No que me diz respeito, que obedeçam aos usos em vigor; confio na discrição daqueles a quem caberá então tal incumbência.

“Neque sepulcrum, quo recipiatur, habeat: portum corporis,

Ubi, remissa human, vita, corpus requiescat a malis.”

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”Eis um cuidado que é preciso desprezar para si próprio e não negligenciar para os outros” [Cícero].

Santo Agostinho fala uma linguagem digna de um santo quando diz: – ”A organização dos funerais, a escolha da sepultura, a pompa das exéquias, são menos necessárias à tranqüilidade dos mortos do que ao consolo dos vivos”. – No mesmo espírito, Sócrates ao morrer respondia a Críton que lhe perguntava como queria ser enterrado – ”como quiserdes”. Se eu devesse atentar mais completamente para a coisa, ser-me-ia agradável imitar os que, ainda em vida e na plena posse de suas faculdades, empreendem gozar antecipadamente as homenagens fúnebres que lhes serão prestadas, deleitando-se na contemplação de sua efígie reproduzida no mármore do túmulo. Felizes aqueles para quem ver o que serão, quando não forem mais é um prazer, e que vivem de sua própria morte.

Embora eu considere a soberania do povo a mais natural e racional, por pouco não me torno seu inconciliável adversário, tal aversão me infunde a atitude injusta e inumana dos atenienses que condenaram à morte e imediata execução, sem sequer lhes ouvir a defesa, os valentes capitães que acabavam de vencer os lacedemônios junto às ilhas Arginusas na batalha naval mais árdua e considerável que os gregos jamais tiveram. E por quê? Porque esses chefes após a vitória tinham procurado tirar partido de suas vantagens, de acordo com a arte da guerra, em vez de se atardarem em recolher os mortos e lhes darem sepultura. A odiosidade da execução ainda maior relevo apresenta ante a atitude de Diomedonte, um dos condenados, soldado e homem político de grande mérito. Depois de ouvir a sentença e diante da calma restabelecida na assembléia, adianta-se para falar e em lugar de usar a palavra em defesa da causa, pondo em evidência a iniqüidade de tão cruel veredicto, não pensa senão nos juízes e pede aos deuses que os recompensem e lhes comunica que tais eram os votos dele próprio e de seus companheiros, temerosos de que a ira celeste despertada pela não observância dos deveres funerários se desviasse deles próprios, os beneficiários de tão brilhante êxito. E sem mais nada acrescentar, sem nenhuma recriminação, marchou corajosamente para o suplício.

Alguns anos mais tarde, o destino puniu os atenienses por onde haviam pecadosusurro. Chabrias, comandante de sua frota, tendo vencido perto da ilha de Naxos, a Polis, almirante espartano, perdeu o fruto da vitória, de importância capital, receoso de idêntica condenação. Para não deixar sem sepultura os corpos de alguns dos seus homens, que flutuavam sobre as ondas, deixou que fugissem inúmeros inimigos, os quais, voltando-se ao depois contra ele, fizeram-no pagar caro a observância tão inoportuna dessa superstição.

“Quaeris, quo jaceas, post obitum, loco?

Quo non nata jacent.”

”Queres saber onde estarás depois de morto? Irás para onde

se encontram as coisas ainda por nascerem” [Sêneca].

Outros concedem em princípio o repouso ao corpo que a alma abandona.

“Neque sepulcrum, quo recipiatur, habeat: portum corporis,

Ubi, remissa human, vita, corpus requiescat a malis.”

”Que não tenha túmulo para recebê-lo e onde, aliviado do

peso da vida, seu corpo possa repousar em paz” [Ênio].

Tudo nos leva a crer que a morte não é o fim último. A própria natureza nos fornece exemplos de misteriosas relações entre o que não mais existe e o que vive ainda. Não experimenta o vinho nas adegas modificações correspondentes às que as estações imprimem às vinhas? E dizem também que a carne dos animais mortos na caça e conservada em salgadeiras se modifica e muda de gosto tal qual acontece com a desses mesmos animais quando vivos.

CAPÍTULO IV

A alma desperdiça suas paixões em falsos objetos, buscando os verdadeiros Um fidalgo de nossa sociedade, sujeito a ataques de gota, tinha por hábito responder, gracejando, aos médicos que lhe recomendavam abster-se de carnes salgadas, que lhe apetecia responsabilizar alguém ou alguma coisa quando o mal o visitava e seu sofrimento aumentava. E aliviava-lhe a dor poder atribuir a causa disso ora ao chouriço, ora à língua de boi ou ao presunto que comera, mandando-os ao diabo.

Em verdade, assim como nos dói o braço erguido para bater, se o golpe não alcança o alvo e atinge o vácuo, e assim como para tornar uma paisagem agradável é preciso que ela não se isole no espaço mas antes se apóie a um fundo apropriado e seja vista a distância suficiente,

“Ventus ut amittit vires, nisi robore densa

Occurrant sylvae, spatio diffusus inani.”

”Assim como o vento, se espessas florestas não se erguem a sua frente como obstáculos, perde sua força e se dissipa; assim a alma perturbada e agitada se confunde quando lhe falta um objetivo. Em seus transportes, exige ela, sempre, algo a que culpar e contra o que agir”

[Lucano].

Plutarco [na ‘ Vida de Péricles’] diz, a propósito dos que se afeiçoam a macacos e cãezinhos, que a nossa necessidade de amar em não se exercitando normalmente em vez de permanecer insatisfeita projeta-se sobre objetos ilícitos ou indignos dela. Vemos igualmente a alma tomada pela paixão, de preferência a não se entregar a ela, enganar-se a si própria criando um objetivo falso ou fantasista, ainda que a expensas de suas próprias convicções. É o que leva os animais feridos a voltar-se contra a pedra ou o ferro que os feriu ou a morder-se a si mesmos para se vingarem da dor sentida.

“Pannonis haud aliter, post ictum saevior ursa,

Cui jaculum parva Lybis amentavit habena,

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Se rotat in vulnus, telumque irata receptum

Impetit, et secum fugientem circuit hastam.”

”Assim a ursa de Panônia se faz mais feroz quando atingida pelo dardo que retém a fina correia de Líbia; furiosa, procura morder a lança que a rasga e persegue o ferro que com ela gira” [Lucano].

Que causas não inventamos para as desgraças que nos afligem? A quem ou a que, com razão ou sem ela, não culpamos a fim de ter algo contra que nos havermos? Em teu desespero arrancas as loiras tranças, rasgas o peito a ponto de o sangue manchar-lhe a brancura; são eles a causa da morte desse bem-amado irmão que uma bala mortal tão cruelmente atingiu? Não, volta-te, pois, contra outros.

A propósito do exército romano que, na Espanha, acabava de perder seus dois chefes, Públio e Cneu Cipião, ambos grandes guerreiros, diz Tito Lívio:

“Flere omnes repente, et offensare capita.”

”Em todo o exército cada qual se pôs imediatamente a derramar lágrimas e a dar pancadas na cabeça”.

Não é esse um costume generalizado? E não andava certo o filósofo Bion quando, a propósito do rei que no arrebatamento de sua dor arrancava barba e cabelos, dizia gracejando: ”Pensa ele realmente que a pelada amorteça a tristeza do luto?”

[Cícero]. E quem não viu jogadores rasgar ou mastigar cartas, ou engolir dados, para se vingarem de um prejuízo? – Xerxes mandou fustigar o mar e desafiou o monte Atos; e Ciro divertiu seus exércitos durante muitos dias a querer vingar-se do rio Gindus pelo medo que tivera ao atravessá-lo. Calígula destruiu um magnífico palácio por causa do desgosto que sua mãe ali experimentara.

Dizia o povo, na minha mocidade, que um rei dos nossos vizinhos [Afonso XI, de Castela], castigado por Deus, jurou vingar-se. Para tanto ordenou que durante dez anos não se rezasse, nem se Lhe mencionasse o nome, nem mesmo, na medida em que a autoridade pode pretendê-lo, se acreditasse n’Ele. E com isso não procurava o povo apontar a tolice do soberano mas sim a glória da nação cujo rei assim agia. Presunção e estupidez andam juntas, Porém tais atos mais se explicam pelo primeiro do que pelo segundo defeito. O Imperador Augusto, tendo enfrentado violenta tempestade no mar, pôs-se a desacatar Netuno, e, como vingança, mandou retirar a estátua dessa divindade durante as festas circenses, extravagância menos desculpável ainda que as precedentes [Suetônio]. Mais absurdo ainda se mostrou quando Quintilio Varus foi derrotado na Alemanha. Tomado de cólera e desespero, batia a cabeça contra os muros e gritava: ”Varus, Varus, devolve minhas legiões!” Semelhantes insanidades ultrapassam a loucura, principalmente quando a elas se junta a impiedade e elas se voltam contra Deus ou contra a sorte como se esta nos pudesse ver e ouvir. Agem assim como as traças diante dos relâmpagos e trovões e que, a exemplo dos Titãs, pensavam reduzir Deus à razão, intimidando-o com flechas desfechadas contra o céu [Heródoto]. Ora, como diz um poeta antigo, em Plutarco,

“Point ne se faut couroucer aux affaires,

Il ne leur chault de toutes nos choleres.”

”Não nos devemos encolerizar contra os acontecimentos,

porquanto não se preocupam com as nossas iras”.

Mas nunca criticaremos demasiado essa desordem de nosso espírito.

CAPÍTULO V

Se o comandante de uma praça sitiada deve sair para parlamentar

Lúcio Marco, que comandou os romanos durante a guerra contra Perseu, rei da Macedônia, desejoso de ganhar tempo a fim de reorganizar seus exércitos, fez ao rei propostas de paz que lhe amoleceram a prudência e o levaram a conceder uma trégua de alguns dias, dando ao inimigo azo e tempo para se armar, de que resultou a ruína do monarca. Em Roma alguns senadores imbuídos dos costumes de seus antepassados condenaram essa maneira de proceder por contrária ao que antes se fizera e que consistia em combater com coragem e não com astúcia, não se recorrendo nem à surpresa, nem aos ataques noturnos, nem aos simulacros de fuga seguidos de inesperadas cargas. A guerra só se iniciava depois de declarada e, não raro, após terem sido marcados o lugar e a hora da batalha. A tais sentimentos obedeceram quando entregaram a Pirro o médico que o traíra e aos faléssios [povo da Arcádia] seu desleal mestre-escola. Nisso agiam como verdadeiros romanos e não como esses astuciosos cartagineses e esses gregos sutis que dão maior valor ao êxito obtido pela malícia do que ao alcançado pela força. O embuste pode servir na hora, mas o adversário só se sente realmente vencido quando o foi em guerra leal e justa em que a vitória sorri ao mais valente, e não pela manha nem pela sorte. Os senadores que falavam essa honesta linguagem não conheciam evidentemente ainda esta bela máxima de Virgílio:

“Dolus, an virtus, quis in hoste requirat?”

”Contra o inimigo, como escolher entre o ardil e a coragem?”

Aos acaianos [habitantes da Grécia], diz Pólibo, repugnava o emprego da astúcia na guerra, só se considerando vitoriosos quando o ânimo do inimigo era abatido. O homem sábio e virtuoso deve saber que a única vitória é a que pode proclamar sua boa-fé e honra. E diz outro autor [Ênio]:

“Vosne velit, an me, regnare hera, quidve ferat,

fors virtute experiamur.”

”Que nosso valor decida se é a vós ou a mim que a sorte, senhora dos

acontecimentos, destina o império”.

No reino de Ternate, uma dessas tribos a que sem hesitação chamamos bárbaras tem por costume só iniciar as hostilidades após uma prévia declaração de guerra à qual se acrescenta a enumeração precisa dos meios que pretende utilizar: número de 17

guerreiros, natureza das armas ofensivas e defensivas, munições. Isso feito, se o adversário não se decide a entrar na batalha, julgam-se esses bárbaros no direito de empregar, para o êxito, todos os meios a seu alcance. E outrora em Florença pensavam tão pouco em vencer pela surpresa que preveniam o inimigo um mês antes de marchar para o combate, tocando sem descontinuar um sino a que apelidavam Martinela.

Quanto a nós, menos supersticiosos, consideramos que as honras da guerra cabem a quem com ela se beneficia e estimamos, depois de Lisandro, que, se a pele do leão não basta, cumpre juntar um pedaço da pele da raposa. Ora, como acontece que é quando se parlamenta que ocorrem as surpresas, nesse momento em particular deve o chefe pôr-se de sobreaviso. Daí a regra em vigor entre os homens de guerra de nossa época, a saber, que o governador de uma praça sitiada nunca saia a fim de parlamentar.

Nossos pais censuraram os senhores de Montmord e de l’Assigny, que defendiam Pont-à-Mousson contra o Conde de Nassau, por terem contravindo a tais princípios. Entretanto, é desculpável quem sai da praça a parlamentar, desde que tome todas as medidas para, em caso de perigo, ter por si uma vantagem. Assim o fez o Conde Guy de Rangon que defendia Reggio.

Tendo-se apresentado o Senhor de l’Eut a fim de parlamentar, afastou-se Guy de Rangon tão pouco da praça que, em se verificando uma escaramuça durante as negociações, não somente o Senhor de l’Eut e sua escolta (à qual pertencia Alexandre Trivulce que foi morto) se acharam dominados, como também o Senhor de l’Eut, para segurança própria, se viu obrigado a entrar na cidade sob a proteção do conde. É o que nos conta Du Bellay, mas Guicciardin o relata igualmente atribuindo-se a glória do acontecimento.

Antígono, assediando Êumenes em Nora e insistindo para que saísse a fim de pessoalmente parlamentar com ele e alegando que a Êumenes cabia fazê-lo por ser ele, Antígono, mais forte e de mais alta condição, ouviu do sitiado esta nobre resposta: ”Não reconhecerei ninguém acima de mim enquanto tiver a faculdade de brandir uma espada” [Plutarco]. E só consentiu em encontrar-se com Antígono quando este lhe entregou Ptolomeu, seu sobrinho, como refém.

No entanto houve quem se saísse bem em semelhante ocorrência confiando na palavra do adversário. Testemunho disso temo-lo em Henry de Vaux, de Champagne, sitiado pelos ingleses no castelo de Commercy. Barthélemy de Bonnes [Froissart]

que os comandava, tendo conseguido sapar boa parte do castelo e dispondo-se a mandar incendiá-lo para esmagar os defensores sob os escombros, intimou Henry de Vaux (o qual já lhe havia enviado três emissários) a ir pessoalmente parlamentar, no seu próprio interesse. Este foi, e, percebendo a iminência da catástrofe a que não escaparia, demonstrou sua gratidão ao inimigo entregando-se, com seus homens, incondicionalmente. Pôs-se fogo então na mina escavada, cederam os esteios que sustentavam os muros e o castelo esboroou-se. Quanto a mim, confio facilmente nos outros, mas não confiaria se viessem a supor tratar-se de um ato de fraqueza ou covardia e não por ser eu franco e acreditar na lealdade de meu adversário.

CAPÍTULO VI

A hora das negociações é perigosa

Ultimamente, nas minhas vizinhanças, em Mussidan [a seis léguas do castelo de Montaigne], um destacamento inimigo que ocupava a cidade foi forçado a retirar-se. Clamavam os soldados, e outros de seu partido, que haviam sido traídos porque os tinham surpreendido e vencido durante as negociações, e antes que um acordo se assinasse. Tais recriminações se compreenderiam em outros tempos, mas, como disse no capítulo precedente, nossos processos atuais são diversos e é de se desconfiar de todos enquanto a assinatura definitiva não é aposta no tratado. E nem assim se imaginará tudo terminado. E sempre foi perigoso confiar em que um exército vencedor saiba cumprir a palavra dada e deixe de entrar, de imediato, na cidade que obteve condições vantajosas para render-se.

L. Emílio Reggio, pretor romano, tendo perdido muito tempo diante da cidade de Focéia da qual não conseguia apoderar-se em conseqüência da tenacidade que punham os habitantes em defendê-la, com eles conveio em considerá-los amigos do povo romano. E, tendo-os convencido de suas intenções pacíficas, obteve licença para entrar na cidade como o teria feito em qualquer cidade aliada. Mas logo que ali se encontrou com seu exército, de que se fizera acompanhar na maior solenidade, não mais pôde conter os seus, embora o tentasse, os quais saquearam tudo, sob as suas vistas, levados pelo espírito de vingança e o amor à pilhagem que sobrepujam o respeito à autoridade e a disciplina militar.

Cleômenes sustentava que o direito de guerra, no que concerne ao mal que se possa fazer ao inimigo, está acima das leis da justiça divina, bem como da justiça humana. Tendo concluído uma trégua de sete dias com os argenos, já na terceira noite os atacava durante o sono e os batia, alegando que na trégua não se mencionavam as noites [Plutarco]. Mas os deuses o puniram por sua má-fé. Estando ele em negociações, e já tendo os defensores abrandado a vigilância, foi a cidade de Casilinum conquistada de surpresa. E isso nos tempos em que Roma possuía o exército mais disciplinado, com chefes imbuídos do sentido da justiça.

Porque não está dito que em dadas circunstâncias não seja permitido nos prevalecermos da tolice do inimigo como nos prevalecermos de sua covardia. A guerra admite como lícitas muitas práticas condenáveis; o princípio de que

“Neminem id agere ut ex alte rius praedetur inscitia.”

”Ninguém deve procurar tirar proveito da estupidez alheia” [Cícero]

não vale. Entretanto Xenofonte, autor tão competente em tal matéria, grande chefe militar e filósofo, ele próprio discípulo dos mais distintos de Sócrates, nos propósitos que empresta a seu imperador perfeito, dá a essas prerrogativas uma extensão por assim dizer sem limites, o que posso admitir inteiramente.

O Senhor D’Aubigny sitiava Cápua, comandada por Fabrício Colona. Este, após sangrento combate em que levara a pior, pôs-se a parlamentar do alto de um torreão; mas durante as negociações, tendo os seus homens relaxado a vigilância, entraram os nossos na cidade e a saquearam. Mais recentemente, em Yvoy, o Senhor Juliano Romero, tendo tido a ingenuidade de sair da 18

cidade a fim de parlamentar com o Condestável, encontrou, ao voltar, a praça em poder do inimigo. Nós mesmos não estamos isentos de censura: o Marquês de Pescaire sitiando Gênova sob o comando de Otaviano Fregose, que nós sustentávamos, chegara a um acordo que ia ser assinado quando os espanhóis conseguiram entrar na cidade e aí agiram como se a tivessem tomado de assalto. Posteriormente, em Ligny, no Barrois, sob o comando do Conde de Brienne, e sitiada por Carlos V em pessoa, Bertheville, lugar-tenente do conde, tendo saído para negociar, a cidade foi tomada enquanto parlamentava. Dizem os italianos:

”Fu il vincer, sempre mai laudabil cosa,

Vincasi o per fortuna o per ingegno”.

”É sempre glorioso vencer, deva-se a vitória ao acaso ou ao engenho” [Ariosto].

O filósofo Crisipo não teria sido da mesma opinião, nem eu tampouco. Dizia ele que quem toma parte em uma corrida deve em verdade empregar todas as forças para ganhar, mas não lhe é permitido agarrar o competidor ou passar-lhe uma rasteira. E

Alexandre, o Grande, agiu de maneira mais generosa ainda quando respondeu a Poliperconte – que o instava a valer-se da escuridão da noite para atacar Dario: ”Não me parece digno roubar vitórias”;

”Malo me fortunae poeniteat, quam victoria pudeat”

”Prefiro queixar-me da sorte a envergonhar-me da vitória” [Quinto Cúrcio].

“Atque idem fugientem baud est dignatus Oroden

Sternere, nec jacta caecum dare cuspide vulnus

Obvius, adversoque occurrit, seque viro vir

Contulit, haud furto melior, sed fortibus armis.”

”Recusa-se a golpear Orode, lançar-lhe um dardo que fira por trás, corre a ele, e é de frente, homem a homem, que o ataca. Quer vencer, mas não pela surpresa e sim e unicamente pela força das armas” [Virgílio].

Capítulo VII

É pelas intenções que se julgam nossas atitudes

A morte, dizem, liberta-nos de todas as obrigações. Conheço quem haja interpretado essa máxima de maneira singular.

Henrique VIII, rei da Inglaterra, comprometera-se com D. Filipe, filho do Imperador Maximiliano, ou, mais honrosamente referido como pai de Carlos Quinto, a não atentar contra a vida de seu inimigo, o Duque de Suffolk, chefe do partido da Rosa Branca, que fugira da Inglaterra e se refugiara nos Países-Baixos onde Filipe o mandara prender, entregando-o ao rei mediante a promessa de respeito à vida do duque. Sentindo que ia morrer, Henrique VIII determinou a seu filho, em testamento, que logo depois de seu falecimento executasse o duque. Ultimamente nos acontecimentos trágicos que em Bruxelas provocaram o suplício dos Condes de Horn e de Egmont (decapitado em 4 de junho de 1568), ordenado pelo Duque de Alba, houve particularidades notáveis. Esta entre outras: o Conde de Egmont, em virtude de cujas promessas de garantias o Conde de Horn se entregara ao Duque de Alba, reivindicou com insistência que o matassem em primeiro lugar, a fim de que a sua morte o libertasse da obrigação assumida. Parece-me, no caso, que a morte não eximia o rei da obrigação de cumprir a palavra dada e que o Conde de Egmont, ainda que vivo, não faltava à sua. Nossas obrigações são limitadas pelas nossas forças e os meios de que dispomos; a execução e as conseqüências de nossos atos não dependem de nós; somente a nossa vontade depende. Nesta e nas necessidades assentam as leis que regulam os deveres do homem. Eis por que o Conde de Egmont, embora com a alma e a vontade amarradas à sua promessa, mas sem força para executá-la, a ela não estava amarrado, ainda que sobrevivesse ao Conde de Horn. Ao passo que o rei da Inglaterra, faltando intencionalmente à sua palavra, não pode ser culpado pelo fato de ter adiado o ato desleal para depois de seu falecimento. Idêntico é o caso do pedreiro de Heródoto que, tendo lealmente guardado segredo acerca do local em que se encontravam os tesouros do rei do Egito, ao morrer o seu senhor, o revelou aos filhos.

Vi outrora muitas pessoas que, sentindo pesar-lhes a consciência por se terem apropriado de bens alheios, se mostraram dispostas a inserir em seu testamento dispositivos em vista da restituição dos mesmos. Não são elas dignas de louvor, já porque atrasaram uma ação que devia ser imediata, já porque pretenderam reparar uma falta sem sofrimento nem sacrifício. Deviam ter acrescentado os próprios bens; a reparação do mal atendera melhor aos reclamos da justiça e mais mérito tivera quanto mais pesados e penosos os sacrifícios. A penitência exige algo mais do que a simples reparação do dano. Pior fazem ainda os que deixam para depois da morte a manifestação, contra o próximo, dos rancores que esconderam durante a vida. Mostram que pouco prezam a própria honra, não se incomodando com provocar a ira dos ofendidos contra a sua memória. E menos provas dão de consciência, não tendo sabido, nem sequer por respeito à morte, dominar a própria perversidade que se prolonga dessa maneira além de si mesmos. Tal qual fariam juízes iníquos que se pusessem a julgar sem ter mais a causa em mãos. Na medida de minhas forças, procurarei evitar de nada dizer após a morte que não haja dito em vida, e abertamente.

Capítulo VIII

Sobre a ociosidade

Nas terras ociosas, embora ricas e férteis, pululam as ervas selvagens e daninhas, e para aproveitá-las cumpre trabalhá-las e semeá-las a fim de que nos sejam úteis. Assim também vemos que as mulheres produzem sozinhas fluxos de matérias sem consistência, mas para que engendrem em condições favoráveis necessário se faz fecundá-las com a boa semente. Assim igualmente os espíritos: se não os ocupamos com certos assuntos que os absorvam e disciplinem, enveredam ao léu, sem peias, pelo campo da imaginação.

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“Sicut aqua tremulum labris ubi lumen ahenis,

Sole repercussum, aut radiantis imagine lunae,

Omnia pervolitat late loca; jamque sub auras

Erigitur, summique ferit laquearia tecti.”

”Assim, quando em um vaso de bronze uma onda agitada reflete

os raios do sol ou a imagem tênue da lua, a luz, dardejando incerta

de todos os lados, à direita e à esquerda, sobe, desce, fere o

forro com seus reflexos móveis” [Virgílio].

E nesse estado não há loucura nem devaneio que não concebam:

“Velut aegri somnia, vanae

Finguntur species.”

”Forjando vãs ilusões, semelhantes às quimeras de um doente” [Horácio].

Sem objetivo preciso, a alma se tresmalha, pois, como se diz, é

“Quisquis ubique habitat, Maxime, nusquam habitat.”

”Não estar em nenhum lugar, estar em toda parte” [Marcial].

Retirei-me há tempos para as minhas terras, resolvido, na medida do possível, a não me preocupar com nada, a não ser o repouso, e viver na solidão os dias que me restam. Parecia-me que não podia dar maior satisfação a meu espírito senão a ociosidade, para que se concentrasse em si mesmo, à vontade, o que esperava pudesse ocorrer porquanto, com o tempo, adquiria mais peso e maturidade. Mas percebo que:

“Variam semper dant otia mentem”

”Vã ociosidade, o espírito se dispersa em mil pensamentos diversos” [Lucano]

, e ao contrário do que imaginava, caracolando como um cavalo em liberdade, cria ele cem vezes maiores preocupações do que quando tinha um alvo preciso fora de si mesmo. E engendra tantas quimeras e idéias estranhas, sem ordem nem propósito, que para perceber-lhe melhor a inépcia e o absurdo, as vou consignando por escrito, na esperança de, com o correr do tempo, lhe infundir vergonha.

Capítulo IX

Sobre os mentirosos

Não há a quem convenha, menos do que a mim, apelar para a memória. Dessa faculdade careço por assim dizer totalmente e não creio que haja no mundo alguém menos bem aquinhoado a esse respeito. Quanto ao resto sou como o vulgo, mas nesse ponto meu caso merece ser assinalado e anotado. Além do inconveniente que disso resulta na vida comum (e por certo, tendo em vista sua importância, Platão tinha razão de qualificá-la entre as grandes e poderosas divindades), como na minha terra diz-se de quem não mostra bom-senso que não tem memória, quando me queixo da minha parece que me confesso maluco. Não me acreditam, contestam as minhas palavras, incapazes de distinguir a memória do discernimento, o que agrava ainda mais a coisa. Com isso cometem uma injustiça, pois vê-se na prática juntar-se comumente às memórias excelentes a falta de bom-senso. E me prejudicam ainda tais confusões porque em relação a meus amigos – e prezo a amizade acima de tudo – a falta de memória passa por ingratidão. Incriminam-me por um defeito físico: ”esquece”, dizem, ”tal pedido ou tal promessa; não se lembra dos amigos; sua afeição por mim não o impediu de dizer ou de calar tal coisa”. Sem dúvida tenho facilmente falhas de memória, mas nunca negligenciei deliberadamente a solicitação de um amigo. Basta a minha enfermidade, não é justo que ainda a transformem em uma espécie de má vontade, uma falta de franqueza em contraste absoluto com meu caráter. Eu me consolo até certo ponto pensando que devo a esse defeito não ter ao que me parece mal maior, e que por certo me houvera atacado: a ambição; pois os negócios públicos exigem boa memória. Com isso, entretanto, como ocorre amiúde na natureza, minhas outras faculdades se aguçam na medida em que essa se desgasta. Se tivesse sempre na memória o que os outros disseram e fizeram, em vez de julgar por mim mesmo ter-me-ia apegado, como acontece comumente, às apreciações alheias. Outra conseqüência é a concisão de meu falar, pois em geral a memória é mais prolixa do que a imaginação. Mais bem dotado a esse respeito, houvera atordoado os amigos com meu palavrório, tanto mais quanto já tenho tendência para me entusiasmar com qualquer assunto de conversação. E lamentável é ver, o que pude observar em alguns íntimos, o narrador levar tão longe a narrativa, à proporção que a memória lhe fornece material, e acompanhá-la de tanto pormenor inútil que se a história é boa lhe destrói o encanto e se não apresenta interesse fica-se a maldizer a memória do discursador ou a sua falta de discernimento. E é coisa difícil concluir convenientemente uma narrativa ou interrompê-la oportunamente uma vez iniciada. Ora, o vigor de um cavalo julga-se pela maneira brusca de estancar nos torneios. Mesmo entre os que possuem plenamente um assunto, poucos conheço capazes de sustar sua arenga à vontade; e enquanto procuram como fazê-lo, prosseguem se arrastando e como que pasmados em meio a frases vãs e insignificantes. Isso se acentua particularmente nos anciãos que se prendem às recordações do passado e não se lembram das repetições. Vi histórias muito agradáveis tornarem-se aborrecidas na boca de um alto personagem de quem todos já a tinham ouvido cem vezes.

Em segundo lugar a fraqueza de minha memória faz, como dizia um sábio da antiguidade, que guarde menos recordação das ofensas recebidas. Fora-me necessário alguém encarregado de mas lembrar. E assim procedia Dario, o qual, a fim de não esquecer a ofensa dos atenienses, cometera a um pajem a tarefa de repeti-la três vezes a seus ouvidos sempre que se punha à mesa: ”Senhor, lembrai-vos dos atenienses” [Heródoto]. E mais uma vantagem acho eu nisso: todos os sítios que revejo e todos os livros que releio me encantam pela sua incessante novidade. Não é sem razão que se afirma não dever meter-se a mentir 20

quem não tem memória. Sabe-se que os gramáticos estabelecem uma diferença entre dizer uma mentira e mentir. Dizer uma mentira é, na opinião deles, adiantar uma coisa falsa que a gente crê verdadeira, ao passo que na língua latina, da qual provém a nossa, mentir é falar contra a própria consciência. O que eu digo aqui se refere portanto somente aos que falam em desacordo com o que sabem. Tais pessoas ou inventam o que dizem, fundo e pormenores, ou se limitam a deturpar e alterar um fundo de verdade. Quando repetem, alterando-a, uma mesma história, é-lhes difícil não se contradizerem, porque a coisa se tendo alojado em sua memória, tal qual lha transmitiram ou, como a viram eles próprios, não lhes é possível, depois, contá-la várias vezes, e, cada vez com maior ou menor exatidão, rememorar todas as alterações nela introduzidas; ao passo que a impressão primeira lhes permanece sempre presente ao espírito, apagando da lembrança todas as falsidades enxertadas na verdade.

Quando inventam inteiramente a narrativa, não existindo uma primeira impressão suscetível de perturbá-los, parecem menos expostos a erros; entretanto, uma coisa que não existe, que nada fixa, foge facilmente à memória, a menos que seja esta excepcional. Disso vi muitos exemplos, por vezes divertidos, em detrimento dos que, por profissão, falam no sentido de seu maior interesse ou para agradar aos grandes a quem se dirigem. Variando muito as circunstâncias a que devem adaptar sua consciência, cumpre-lhes modificar por igual a linguagem, chegando a dizer da mesma coisa ora branco ora preto, de um jeito a uns e de outro a outros. E se por acaso esses auditores se comunicam tais dizeres contraditórios, que resta do talento inventivo?

Além daquilo que por imprudência podem deixar escapar, qual a memória capaz de lembrar as formas tão diversas que imaginaram para sua história’! Tenho visto certas pessoas invejarem essa habilidade, sem perceberem que dessa reputação não se tira proveito real.

Em verdade, mentir é um vício odioso. Somente pela palavra é que somos homens e nos entendemos. Se compreendêssemos claramente o horror e o alcance da mentira, contra ela pediríamos o suplício da fogueira que, com menor razão, se aplica a outros crimes. Sou de opinião que castigam em geral as crianças por motivos fúteis, erradamente, que as admoestam por atos irrefletidos e de nenhuma conseqüência. A mentira somente, e um pouco menos a obstinação, parece-me, é que deveriam ser combatidas desde cedo, pois com a criança crescem e se desenvolvem. E bem difícil se torna extirpá-las quando se transformam em hábito. Daí o fato de muitos homens, pelos demais pontos de vista honestos, se abandonarem a tais vícios e a eles se escravizarem. Conheço um alfaiate, bom sujeito, a quem nunca ouvi dizer a verdade, mesmo quando lhe era útil. Se, como a verdade, tivesse a mentira uma só face, eu a poderia ainda admitir, pois bastaria considerar certo o contrário do que dissesse o mentiroso; mas há cem mil maneiras de exprimir o reverso da verdade e o campo de ação da mentira não comporta limites. Os pitagoristas tinham para eles que o bem é coisa certa e delimitada, o mal incerto e infinito. Mil caminhos desviam da meta, um só conduz a ela. Por certo não posso garantir que tenha força de vontade bastante para não perpetrar uma solene e desabusada mentira a fim de escapar a um perigo extremo e evidente. Disse um antigo prelado que é preferível a companhia de um cão à de um homem cuja linguagem desconhecemos.

“Ut externus alieno pene non sit hominis vice.”

“Não se pode dizer que um estrangeiro nos provê o lugar de um homem.” [Plínio].

E quanto é mais sociável o silêncio do que a linguagem mentirosa?

O Rei Francisco I vangloriava-se de ter, à força de questioná-lo, confundido a Francisco Taverna, embaixador de Francisco Sforza, Duque de Milão, homem com grande reputação de saber falar e que lhe fora enviado para justificar um ato grave de seu senhor. O rei, para continuar a manter contatos na Itália, de onde acabara de ser repelido, e contatos precisamente no ducado de Milão, imaginara colocar junto ao duque um de seus fidalgos, na realidade um embaixador, mas para todos os efeitos um simples cidadão em viagem de negócios. O duque tinha ele próprio grande interesse em não aparentar quaisquer relações conosco, estando muito mais sob a dependência do imperador do que sob a nossa, principalmente nesse momento em que negociava seu casamento com a sobrinha do soberano, filha do rei da Dinamarca e atualmente Duquesa de Lorena. Para isso escolheu o rei um Senhor Merveille, fidalgo milanês, seu escudeiro. Merveille partiu com instruções e cartas secretas, acreditando-o como embaixador, às quais cartas se juntaram outras que o recomendavam ao duque a respeito de seus negócios pessoais, destinadas estas últimas a serem apresentadas publicamente a fim de dissimular sua verdadeira missão. Mas Merveille permaneceu tão longo tempo junto do duque, que o imperador veio a desconfiar, o que, acredito, deu causa ao que segue: inculpando-o de assassínio, mandou o duque certa noite cortarem-lhe a cabeça, sendo o processo liquidado em dois dias. O rei, desejando reparação pelo ato, dirigiu-se a todos os príncipes da cristandade e ao próprio duque; e o Senhor Taverna, enviado a fim de expor o caso devidamente alterado para as necessidades da causa, foi recebido na audiência da manhã. Como base de seu arrazoado, depois de apresentar o fato da maneira mais favorável ao duque, disse que este sempre considerara Merveille um simples fidalgo, súdito seu aliás, vindo a Milão a negócios. E negou que o duque soubesse pertencer ele ao séquito do rei, e até que Sua Majestade o conhecesse, não tendo tido nunca a idéia de ver nele um embaixador. O rei, por sua vez, apertou-o com perguntas e objeções, atacando-o de todos os lados, e, chegando finalmente ao caso da execução, indagou por que se fizera ela à noite, como que às escondidas. Ao que o pobre homem confundido, pensando ser cortês, respondeu que o duque, dado o respeito que tinha por Sua Majestade, teria se aborrecido imenso com uma execução à luz do dia. Pode-se imaginar quanto terá sido repreendido depois de tamanho despropósito.

O Papa Júlio II enviara um embaixador ao rei da Inglaterra a fim de convencê-lo a agir contra aquele mesmo rei de França.

Tendo o enviado exposto sua missão, objetou o rei da Inglaterra mostrando, pormenorizadamente, as dificuldades que se opunham à reunião das forças contra tão poderoso adversário. Ao que replicou o embaixador, intempestivamente, que tais motivos também lhe tinham vindo ao espírito e os submetera à apreciação do papa.

Essas palavras, tão pouco hábeis no que dizia respeito à missão de convencer o rei, deram a pensar a este, o que depois se verificou ser exato, que o embaixador se inclinava pela França. Comunicou então sua dúvida ao papa, o qual confiscou os bens de seu representante e pouco faltou para que o mandasse executar [Erasmo].

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Capítulo X

Sobre os que improvisam e os que se preparam para discursar

“Onc ne furent a touts toutes graces donnees.”

”Nunca foi dado a ninguém cumular todos os dons da natureza” [La Boétie].

Assim acontece que entre aqueles a quem foi dado o dom da eloqüência, alguns há cuja palavra é pronta e fácil e têm a réplica tão viva que nunca falham, enquanto outros mais tardios só falam depois de longamente elaborado o tema de antemão escolhido.

Aconselham às mulheres que se dediquem de preferência à ginástica e aos jogos suscetíveis de valorizar sua graça; pois se me coubesse opinar acerca das vantagens desses tipos de eloqüência que parecem, em nosso século, ser apanágio de predicadores e advogados, diria que aos primeiros convém melhor a palavra meditada e aos segundos o contrário, pois ao predicador não falta tempo para preparar-se, e quando prega o faz de um fôlego sem que o interrompam, ao passo que o advogado precisa estar sempre pronto para o debate.

As réplicas imprevistas da parte contrária o mantêm na incerteza do que deve dizer e o obrigam a todo instante a modificar seu ponto de partida.

Foi entretanto o oposto que aconteceu quando da entrevista, em Marselha, do Papa Clemente com o Rei Francisco I. O

Senhor Poyet, que passara sua vida no tribunal e aí granjeara uma bela reputação, foi encarregado de arengar Sua Santidade.

Para tanto, preparara-se de longa data, tendo mesmo trazido, dizem, seu discurso pronto de Paris. No dia em que o ia pronunciar, o papa, receoso de vê-lo ventilar assunto suscetível de magoar algum dos embaixadores dos demais príncipes presentes, comunicou ao rei o tema que se lhe afigurava mais apropriado ao momento e ao lugar e que se verificou ser, infelizmente, bem diverso daquele em que trabalhara o Senhor Poyet. Assim, em não servindo a arenga preparada, cumpria-lhe fazer outra sem perda de tempo. Como ele se julgasse incapaz de fazê-lo, da coisa se encarregou o Cardeal Du Bellay. A tarefa do advogado é mais difícil que a do predicador e no entanto creio se encontrar em França número maior de bons advogados que de bons oradores sacros.