Ensaios Vol.II por Montaigne - Versão HTML

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Consilium retegis Lyaeo”

”Ó Baco, é teu alegre vinho que arranca aos sábios seus mais secretos pensamentos” [Lucrécio]

Conta Josefo que, em o fazendo beber além da medida, induziu certo embaixador enviado por seus inimigos a confiar-lhe tudo o que tinha interesse em saber. Entretanto Augusto, que se abrira com Lúcio Piso, o conquistador da Trácia, nunca teve a oportunidade de se arrepender; nem Tibério foi jamais traído por Cássio a quem tudo contava; e sabemos de fonte segura que Piso e Cássio gostavam tanto de beber que mais de uma vez foi preciso retirá-los do Senado por estarem inteiramente embriagados:

“Hesterno inflatum venas ut semper, Lyaeo”

”Inchados, como de costume, pelo vinho bebido na véspera” [Virgílio]

Com igual confiança Cássio, bebedor de água, comunicou a Amber, que se embebedava continuamente, sua intenção de acabar com César. Ao que respondeu o bêbedo: ”como queres que vença o tirano quem não pode sequer vencer o vinho?” E

vemos os alemães saturados de vinho lembrarem-se de seus quartéis, da palavra de ordem e de seus lugares nas fileiras:

“Nec facilis victoria de madidis, et

Blaesis, atque mero titubantibus”

”E não é fácil vencê-los, ainda que embriagados, gaguejantes e titubeantes” [Juvenal]

Nunca acreditara que pudesse haver embriaguez tão profunda e aniquiladora, se não houvesse lido na história que Átalo convidou Pausânias a cear, no intuito de cometer com ele grave indignidade, esse mesmo Pausânias que pelo mesmo motivo matou mais tarde Filipe da Macedônia, notável pela educação que recebeu de Epaminondas e de sua família. Átalo deu tanta bebida a seu conviva que pôde converter-lhe insensivelmente o corpo no de uma prostituta de baixa extração a entregar-se aos criados e mais abjetos arrieiros da casa. Da mesma ordem de idéias é o fato que me foi referido por uma senhora que muito honro e aprecio: perto de Bordéus, para o lado de Castres onde tem propriedade, uma viúva da aldeia, de uma castidade a toda prova, sentindo alguns sintomas estranhos dizia a sua vizinha que se fosse casada acreditaria estar grávida. Os sintomas, dia a dia mais precisos, tornaram-se afinal evidentes, levando-a a declarar ao cura do lugar que a quem se confessasse culpado de a ter posto naquele estado, não somente ela perdoaria como o desposaria se concordasse. Um de seus lacaios, encorajado pela proclamação, confessou então que de uma feita, ao vê-la bêbada e profundamente adormecida, e em posição indecorosa, dela abusara sem a acordar. Casaram e continuam casados.

É sabido que na antiguidade esse vício não era muito condenado. Chegam mesmo alguns filósofos a referir-se com muita indulgência à embriaguez; e entre os próprios estóicos houve quem recomendasse beber de vez em quando à vontade, até a embriaguez, a fim de alegrar o espírito:

“Hoc quoque virtutum quondam certamine, magnum

Socratem palmam promeruisse ferunt”

”Dizem mesmo que nessa nobre justa venceu por vezes o grande Sócrates” [Pseudo Galo]

Ao severo Catão, censor dos demais, censurou-se a tendência para este vício:

“Narratur et prisci Catonis

Saepe mero caluisse virtus”

”Conta-se também que Catão, o Ancião, aquecia sua virtude no vinho” [Horácio]

Ciro, príncipe de tão grande renome, cita entre outras provas de superioridade sobre seu irmão Artaxerxes, o fato de suportar melhor a bebida. Nas nações mais bem administradas e governadas era habitual exercitar-se em beber. E ouvi de Sílvio, excelente médico parisiense, que a fim de conservar a eficiência do estômago é útil acordá-lo e estimulá-lo uma vez por mês com excessos dessa natureza. Diz-se ainda que os persas discutiam seus negócios depois de beber.

Mais por gosto e temperamento do que pela razão, sou inimigo de tais excessos, pois, conquanto de bom grado acomode minhas opiniões à autoridade dos antigos e considere a embriaguez um vício vergonhoso e estúpido, acredito-o menos perverso e nefasto do que os outros, os quais prejudicam diretamente a sociedade. Se, como afirmam, não há prazer que não nos custe algum sacrifício, é esse vício o menos pesado à nossa consciência; é, por outro lado, o de mais fácil realização, o que precisa ser ponderado. Um senhor já de idade e de certa condição social dizia-me contá-lo entre os três prazeres principais de que ainda podia gozar na vida. E, de fato, onde encontrar satisfações preferíveis às que a própria natureza nos oferece? Mas essa pessoa não agia com bom senso, pois o requinte não é de rigor em tais circunstâncias e é supérfluo escolher vinhos finos para tanto. Se gostais de saborear o que bebeis, experimentareis no caso em apreço o desgosto de beber em condições diferentes, porquanto para ser beberrão é necessário um paladar mais grosseiro, menos requintado. Os alemães bebem qualquer vinho com igual prazer, não pensam senão em engolir. Têm-no assim mais barato, mais copioso e fácil.

Beber como os franceses somente às refeições e moderadamente é restringir demasiado os favores de Baco. A tal exercício 14

cumpre consagrar mais tempo e constância. Os antigos consagravam-lhe noites inteiras e às vezes os dias também; é preciso, pois, dar-lhe lugar mais importante na vida cotidiana. Conheci um grande senhor ao qual missões de responsabilidade foram confiadas e cujos êxitos são conhecidos, que bebia regularmente e sem incômodo às refeições seus cinco lots [cerca de 20 litros]

de vinho e que ao levantar da mesa não se mostrava menos clarividente e precavido nos negócios, o que nos foi dado comprovar em nosso detrimento. É necessário dedicar-se mais a esse prazer, se se deseja que conte na vida; é necessário fazer como esses caixeiros e operários que nunca recusam uma oportunidade de beber e têm esse desejo sempre em mente.

Dir-se-ia que o prazer da mesa vai diminuindo dia a dia em nossa terra; parece-me que no meu tempo de infância os almoços, os jantares, as ceias. eram mais freqüentes e mais comuns do que hoje. Estaremos, em algo pelo menos, nos corrigindo?

Por certo que não, mas talvez nos inclinemos mais do que nossos pais para a libertinagem, e o vinho e as mulheres são coisas que levadas ao exagero se prejudicam mutuamente. A libertinagem debilita o estômago. Por outro lado a sobriedade faz-nos mais galantes, mais requintados no amor.

É admirável o que ouvi de meu pai acerca da castidade de seu século. E cabia-lhe dizê-lo pois tudo tinha, por natureza e educação, para ser muito querido das mulheres. Falava pouco e bem, e entremeava sua conversação com reminiscências dos livros mais afamados, principalmente espanhóis, entre os quais Marco Aurélio [de Antônio de Guevara] era o que mais prezava.

Era de uma gravidade suave, discreto, muito modesto, de uma polidez esquisita, sempre bem vestido e cuidado, a pé como a cavalo. Escravo de sua palavra, e tão devoto em matéria religiosa que tendia para a superstição. De estatura pequena, bem proporcionado, andava sempre bem aprumado e era muito vigoroso. Agradável de rosto, moreno de pele, era hábil e sobressaía em todos os exercícios a que se entregam as pessoas de categoria. Para fortalecer os braços fazia esgrima, lançava pedras e erguia barras de ferro. Ainda cheguei a ver os bastões chumbados que serviam para o treinamento e os sapatos de solas de chumbo com que se exercitava na corrida e no salto. A esse respeito deixou a lembrança de feitos espantosos. Vi-o aos sessenta anos, desafiando nossa agilidade, saltar num cavalo com suas vestimentas forradas de pele e fazer a volta da mesa sobre as mãos.

Quando se retirava para seus aposentos, amiúde subia a escada de três em três degraus. Quanto à boa opinião que tinha das mulheres, dizia que em uma província inteira havia apenas uma senhora distinta de reputação duvidosa, e narrava também casos singulares de galanteria, seus em geral, em que andara na companhia de mulheres honestas, sem se comprometer de modo algum. E jurava que se casara virgem, embora muito depois de ter tomado parte nas guerras além Alpes, guerras a respeito das quais deixou um diário em que relata ponto por ponto tudo o que ocorreu e que testemunhou. No entanto tinha trinta e três anos em 1528 quando em voltando da Itália se casou.

Tornemos agora às nossas garrafas...

Os incômodos da velhice, que exigem de nós algum alívio, podiam com razão excitar em mim o desejo de beber, último dos prazeres de que nos privam os anos. O calor natural, dizem os galhofeiros, sente-se primeiramente nos pés, durante a infância; daí sobe para a parte média do corpo onde permanece longo tempo, dando-nos os únicos verdadeiros prazeres da vida animal e ao lado dos quais os outros são insignificantes; finalmente, como o vapor que sobe sempre e se exala, chega à garganta onde faz a última parada.

Não consigo, entretanto, compreender como se encontra ainda satisfação em beber sem ter sede e a criar pela imaginação um desejo artificial contrário à natureza. Meu estômago não resistiria, pois já tem dificuldade em dar cabo do que toma dentro dos limites de suas necessidades. Minha constituição faz que só tenha vontade de beber depois de comer, por isso mesmo é o gole final o mais copioso. Na velhice o nosso paladar se vicia com defluxos e corrompe-se com outras deficiências de nosso organismo; parece-nos então melhor o vinho na medida em que vai desobstruindo e lavando os nossos poros; é pelo menos a sensação que tenho e raramente percebo o gosto do vinho quando começo a bebê-lo. Anacársis espantava-se com ver os gregos beberem ao fim da refeição em copos maiores do que no início. Creio que isso provém da mesma causa que leva os alemães a agirem da mesma maneira, porque é no fim que se põem a ver quem bebe mais.

Platão determina que não bebam as crianças antes dos dezoito anos; e aos homens que não se embriaguem senão aos quarenta. Aos que ultrapassam esta idade admite que se comprazam nisso e que reservem maior parte a Baco em suas refeições, essa boa divindade que devolve a alegria ao homem, e ao ancião, a mocidade; que suaviza as paixões da alma, tira-lhes a agudeza como o fogo amolece o ferro. Em suas leis, concorda em que reunir-se para beber tem sua utilidade, conquanto sejam as reuniões presididas por alguém que as regule e as mantenha dentro dos limites do razoável, sendo a embriaguez, diz ele, uma maneira eficiente de ressaltar a natureza do indivíduo, e também eminentemente adequada a dar às pessoas idosas a coragem de participar dos prazeres da dança e da música, recreações úteis que não ousarão buscar se não estiverem algo excitadas.

Platão reconhece igualmente a virtude que tem o vinho de temperar as agitações da alma e conservar a saúde do corpo. Aprova contudo as seguintes restrições copiadas em parte dos cartagineses: proibição de vinho aos soldados na guerra ou em expedição: aos magistrados quando no exercício de seus cargos; durante o dia a todo mundo, bem como nas noites em que pretendam unir-se a suas mulheres no intuito de procriar. Dizem que o filósofo Estílpon, acabrunhado pela velhice, apressou voluntariamente seu fim bebendo vinho puro. Agindo de igual maneira, embora não deliberadamente, o filósofo Arcesilau viu abaladas as poucas forças que ainda lhe restavam.

É antiga e graciosa pergunta a que indaga se o espírito do sábio é capaz de resistir à força do vinho, ”no caso em que o vinho ataque o sábio” [Horácio]. A vaidade incita-nos por demais a ter boa opinião de nós mesmos. A alma mais ponderada, mais perfeita, já precisa esforçar-se muito para se sustentar de pé e evitar de ser derrubada pela sua própria fraqueza. Não há uma só em mil que durante um minuto de sua existência se mantenha estável e a prumo; a julgar pela nossa própria natureza, podemos duvidar de que isso aconteça; e se acontecesse, e de modo constante, seria o supremo grau de perfeição. Mas para tanto fora necessário que nenhum choque a abalasse, coisa que mil acidentes podem provocar. Que adiantou a Lucrécio, esse grande poeta, filosofar e observar-se? Um filtro amoroso enlouquece-o. A apoplexia tanto pode atingir um carregador como Sócrates.

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Há quem esqueça o próprio nome em conseqüência de uma doença, outros em virtude de um ferimento perdem a razão. Por mais sábio que seja, o sábio não passa afinal de um homem; e haverá algo mais caduco, mais miserável, mais insignificante do que um homem? Não é capaz a sabedoria de melhorar nossas condições naturais:

“Sudores itaque, et pallorem exsistere toto

Corpore, et infringi linguam, vocemque aboriri,

Caligare oculos, sonere aures, succidere artus,

Demque concidere, ex animi terrore, videmus”

”Sob a influência do medo o corpo torna-se lívido e molhado de suor, a língua embaraçada; extingue-se a voz, perturba-se a vista, zumbem os ouvidos, todo o organismo se relaxa e desmantela” [Lucrécio]

Não pode o sábio, mais do que qualquer um, impedir que instintivamente se fechem os olhos à ameaça de um golpe, nem que lhe tremam as pernas à beira de um precipício, tal qual ocorreria com uma criança. A natureza quis reservar para si esses pequenos sinais de seu poder a que não escapam nossa razão nem a virtude dos estóicos, e assim o quis porque nos lembra que somos mortais, e pouco pesamos. O medo fá-lo empalidecer, a vergonha corar, a cólica gemer ao menos em surdina, senão desesperadamente:

“Humani a se nihil alienum putet”

”Jamais poderia imaginar que está livre de qualquer acidente” [Terêncio]

Os poetas que tudo acomodam à sua fantasia não ousam cantar heróis incapazes de chorar:

“Sic fatur lacrymans, classique immittit habenas”

”Assim falava Enéias debulhado em lágrimas enquanto a frota vogava a toda vela” [Virgílio]

Que o sábio se contente, pois, com conter e moderar seus instintos; aniquilá-los não está em seu poder.

O próprio Plutarco, juiz perspicaz, ao considerar que Bruto e Torquato mandaram matar os próprios filhos, duvida que a virtude possa levar a tanto e pergunta se alguma paixão não os terá movido. Todos os atos humanos que saem fora do comum prestam-se a más interpretações, tanto mais quanto não admitimos nem o que se acha acima nem o que se coloca abaixo do que aprovamos.

Sem buscar nossos exemplos nessa seita que professa expressamente a altivez [os estóicos], atentemos para a outra que dizem mais fraca [os epicuristas] e ouçamos as fanfarronadas de Metrodoro:”Dominei-te, ó destino, e te reduzi à impotência, barrei todas as avenidas pelas quais podias chegar a mim”. Quando Anaxarco, por ordem de Nicocreonte, tirano de Chipre, deitado em leito de pedra, esmagado a marteladas repete sem cessar: ”Batei, quebrai, não é Anaxarco que estais macetando, é seu invólucro”; quando vemos o mártir proclamar na fogueira: ”este lado já está bem assado, passemos ao outro agora”; quando Josefo assinala aquela criança que, com o corpo rasgado pelas torqueses e traspassado pela sovela de Antíoco, o desafiava ainda clamando com voz firme: ”Tirano, perdes o teu tempo; sinto-me à vontade. Onde essa dor de que me ameaçavas? Onde os tormentos? É tudo o que sabes fazer? Minha tenacidade aborrece-te mais do que me causa pena a tua crueldade. Covarde imbecil! Cansas-te e eu estou cada vez mais decidido. Faze com que me queixe, me lamente, me renda, se o podes. Reanima a coragem de teus satélites e de teus carrascos. Não podem mais. Carecem de nervos. Dá-lhes novos instrumentos de tortura e que se encarnicem”; quando vemos semelhantes fatos, somos por certo levados a reconhecer que essas almas têm algo errado e estão presas de uma espécie de frenesi, o qual, por santo que seja, continua sendo frenesi.

Quando deparamos com essas saídas da escola estóica: ”prefiro ser louco furioso a ser voluptuoso”, como diz Antístenes, ou como observa Sêxtio: ”prefiro o abraço da dor ao abraço da volúpia”; quando Epicuro parece deleitar-se com a gota e recusando alegremente repouso e saúde desafia o mal que pode atingi-lo, e desdenhando as dores que suporta não as combate, antes as conclama maiores e mais dignas dele,

“Spumantemque dari, pecora inter inertia, votis

Optat aprum, aut fulvum descendere monte leonem:”

”Não se preocupando com esses animais tímidos, desejaria que um javali furioso o atacasse ou que um leão de ruiva juba descesse das montanhas” [Virgílio]

, logo percebemos que tais invectivas provêm de uma coragem exasperada pela própria superexcitação.

Nossa alma em condições normais não poderia erguer-se tão alto. É preciso que ela saia de seu estado habitual, que se eleve e, tomando o freio nos dentes, arraste o seu homem tão longe que, em voltando a si, ele próprio se espante do que fez. É o que ocorre na guerra onde o calor do combate empurra os valentes soldados a tão ousadas aventuras que, voltando a si, são os primeiros a tremer de susto. Fato análogo se observa nos poetas que, transportados de admiração por suas próprias obras, não compreendem como puderam produzi-las, o que se denomina neles estro e entusiasmo poéticos. Um homem sério, diz Platão, baterá em vão à porta da poesia. Por seu lado Aristóteles pretende que, por perfeita que seja, a alma não está isenta de uma pitada de loucura, e chama com razão loucura a esses vôos que, embora louváveis, ultrapassam nossa inteligência e nossa razão.

A sabedoria não é outra coisa senão uma orientação regular dada à nossa alma, a fim de a conduzir com medida e equilíbrio. E

assim sustenta Platão a sua tese: ”Sendo a faculdade de profetizar superior às nossas luzes, necessário se faz que nos encontremos fora de nós quando a praticamos; o sono, a doença, paralisam então nossa inteligência ou uma inspiração divina a domina”.

Capítulo III

Um costume da ilha de Ceos

Dizem que filosofar é duvidar. Com maior razão ainda fantasiar e divagar. Cabe porém aos aprendizes inquirir e indagar; e só aos mestres resolver. O meu mestre é a autoridade da vontade divina, a qual sem contestação possível nos rege, 16

pairando acima das vãs indagações humanas.

Tendo Filipe entrado no Peloponeso com seu exército, disse alguém a Damidas que os lacedemônios muito iriam sofrer se não pedissem mercê. ”Poltrão”, exclamou Damidas, ”que podem sofrer os que não temem a morte?” Perguntaram a Ágis como devia fazer um homem para viver livre: ”desprezando a morte”, respondeu. Tais palavras, e outras semelhantes, que se ouvem a esse respeito, implicam evidentemente outra coisa que não apenas aguardar a chegada da morte, pois há na vida numerosos acidentes que fazem sofrer mais do que a morte. Haja vista aquele menino da Lacedemônia feito prisioneiro por Antígono e vendido como escravo. Instado a um trabalho abjeto, respondeu: ”Vais ver quem compraste; seria uma vergonha fazê-lo, tendo a liberdade a meu alcance”. E precipitou-se do alto da casa. Antípatro ameaçava duramente os lacedemônios a fim de os obrigar a atender a uma de suas exigências: ”Se tu nos ameaças”, responderam eles, ”com coisas piores do que a morte, preferimos morrer”. A Filipe, que os advertia de que faria malograr tudo o que empreendessem, observaram: ”Quererás impedir-nos de morrer?” Eis por que se diz que o sábio vive quanto deve e não quanto o poderia; e o que de melhor recebemos da natureza e que nos tira todo direito de queixa, foi a possibilidade de desaparecer quando bem quisermos. Criou ela um só meio de entrar na vida, mas cem de sair. Podemos carecer de terras para viver; não faltam para morrer, como diz Boiocatus em sua resposta aos romanos:

“Ubique mors est; optime hoc cavit deus.

Eripere vitam nemo non homini potest;

At nemo mortem; mille ad hanc aditus patent”

”Por que te queixas deste mundo? Não te convém? Vives infeliz? Culpa

apenas a tua covardia. Para morrer basta desejá-lo; a morte está em toda parte, devemo-la à bondade dos deuses; podem tirar a vida a um homem:

não lhe podem tirar a morte. Mil caminhos abertos a ela conduzem” [Sêneca]

E não se trata de receita para uma só doença. A morte é um remédio para todos os males, é um porto de inteira segurança que não é de se temer jamais e sim de se procurar não raro. Tudo consiste nisto: que o homem decida acabar, que corra à frente de seu fim ou o aguarde, é sempre ele que está em causa: em qualquer ponto que se rompa o fio, ei-lo fora do jogo. É a extremidade do rojão que arrebenta ao ser atingida pelo fogo. A morte voluntária é a mais bela. Nossa vida depende da vontade de outrem; nossa morte, da nossa. Em nenhuma coisa, mais do que nesta, temos liberdade para agir. A reputação não atinge tal empresa, é tolice pois qualquer respeito. Viver é ser escravo, sem a liberdade de morrer.

De costume a cura só se obtém em detrimento da vida; fazem-nos incisões, cauterizam-nos, privam-nos de alimento, tiram-nos sangue; um passo a mais e eis-nos curados para sempre. Por que não teríamos a liberdade de nos cortar a garganta, como temos a de proceder a uma sangria? Quanto mais grave a doença tanto mais exigente de remédio enérgico. Sérvio, o gramático, sofrendo de gota, não achou solução melhor do que tomar um veneno que lhe paralisou as pernas. Conquanto se tornassem insensíveis, pouco lhe importava ficassem impotentes. Deus muito faz por nós em nos dando a possibilidade de agir como entendemos desde que julguemos ser a vida pior do que a morte. Ceder ao mal é sinal de fraqueza, mas entretê-lo é loucura.

Consideram os estóicos que o sábio obra de acordo com a natureza quando abandona a vida, ainda que se sinta feliz, desde que a deixe no momento oportuno; e é próprio do louco aferrar-se à existência quando ela é insuportável. Assim como não violo as leis contra os ladrões quando carrego meus haveres e tomo minha bolsa a mim mesmo; nem as leis contra os incendiários quando queimo a minha lenha; não desobedeço tampouco às que punem o assassínio quando me tiro a vida. Hegésias dizia que, dependendo de nós as condições de nossa vida, devemos dispor igualmente das condições de nossa morte. Diógenes, ao encontrar de liteira o filósofo Espeusipo de há muito atacado de hidropisia, exclamou: ”Não te desejo nada, já que desejas viver no estado em que estás”. Algum tempo depois, cansado de tão penosa existência, Espeusipo suicidou-se.

Mas quantas objeções a isso! Alguns consideram que não podemos abandonar este mundo em que estamos aquartelados, sem ordem expressa de quem nele nos colocou; e a Deus, que para cá nos enviou não apenas para nosso prazer mas para Sua glória e serviço de nossos semelhantes, cabe despedir-nos quando Lhe agradar e não quando nós o desejarmos. Não nascemos apenas para nós, mas também para a nossa terra. As leis, em seu próprio interesse, exigem que prestemos contas de nós e podem punir-nos como homicidas; por outro lado, no outro mundo seremos castigados por deserção:

“Ubique mors est; optime hoc cavit deus.

Eripere vitam nemo non homini potest;

At nemo mortem; mille ad hanc aditus patent”

”Além, mantêm-se acabrunhados de tristeza os que, embora não hajam cometido crime nenhum, se deram a morte por ódio à luz e para rejeitar o fardo da vida” [Virgílio]

Há mais coragem em esperar que caiam por aí, roídos pelo uso, os ferros de nosso cativeiro, do que em os quebrar nós mesmos. Régulo foi mais forte de ânimo que Catão. São a falta de discrição e a impaciência que nos induzem a apressar o momento fatal. A virtude realmente digna desse nome não cede ante nenhum acidente, qualquer que seja; males e doenças são por assim dizer seu alimento; ela os procura. As ameaças dos tiranos, os tormentos, os carrascos animam-na e a fortalecem:

“Duris ut ilex tonsa bipennibus

Nigrae feraci frondis in Algido,

Per damma, percmdes, ab ipso

Ducit opes, animumque ferro”

”Assim o carvalho nas negras florestas do Álgido; desbastado pelo machado, apesar de suas perdas e chagas, recobra novo vigor sob o ferro que o talha” [Horácio]

Pode-se ainda dizer com esses autores:

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“Non est, ut putas, virtus, pater,

Timere vitam; sed malis ingentibus

Obstare, nec se vertere, ac retro dare”

”A virtude, meu pai, não consiste como pensas em temer a vida,

mas em nunca fugir dela e em enfrentar a adversidade” [Sêneca]

“Rebus in adversis facile est contemnere mortem

Fortius ille facit, qui miser esse potest”

”Na desgraça é fácil desprezar a morte; e há mais coragem em saber ser infeliz” [Marcial]

É sinal de covardia, e não de virtude, ir agachar-se em um buraco sob o túmulo maciço, a fim de escapar aos golpes do destino. Por maior que seja a tempestade, a virtude não modifica seu caminho nem seu passo:

“Si fractus illabatur orbis,

Impavidum ferient ruinae”

”Que o universo partido se desmantele, sem temor ela ficará sob as ruínas” [Horácio]

O mais comum é que cheguemos à morte para fugir de outros inconvenientes; por vezes mesmo é para fugir desta que vamos a ela:

“Hic, rogo, non furor est, ne moriare, mori?”

”Digam-me, peço, morrer de medo de morrer não será loucura?” [Marcial]

Assim fazem os que com receio do precipício nele se atiram:

“Multos in summa pericula misfit

Venturi timor ipse mali: fortissimus ille est,

Qui promptus metuenda pati, si cominus instent,

Et differre potest”

”O pavor do perigo faz que nos atiremos ao perigo. O homem corajoso

é o que enfrenta o perigo se preciso e o evita se possível” [Lucano]

“Usque adeo, mortis formidine, vitae

Percipit humanos odium, lucisque videndae,

Ut sibi consciscant moerenti pectore lethum

Obliti fontem curarum hunc esse timorem”

”O homem temeroso da morte desgosta-se da vida, fica com horror à luz; mata-se ele próprio, esquecido de que a fonte dos males é o medo de morrer” [Lucrécio]

Platão em suas leis ordena que uma sepultura ignominiosa se reserve a quem prive da vida seu parente mais próximo e seu melhor amigo, em outras palavras, ele próprio, e assim interrompa o curso do destino, sem a tanto ser constrangido pela opinião pública, por algum triste e inevitável acidente da sorte, por uma insuportável vergonha, tendo tido apenas como móvel a covardia ou a fraqueza de um espírito temeroso. Desdenhar a vida é ridículo, porque afinal de contas a vida é nosso ser, nosso tudo. As coisas de essência mais rica e nobre podem acusar nossa vida; é porém ir de encontro à natureza desprezar-se a si mesmo e odiar-se; é uma doença de gênero especial que não se depara em nenhuma outra criatura senão o homem. É também vaidade desejarmos ser diferentes do que somos; um tal desejo não leva a nada: contradiz-se e traz em si o obstáculo à sua realização. Quem deseja que o homem se faça anjo, não trabalha por si; se seu desejo se realizasse, não o aproveitaria, pois não mais existindo não poderia regozijar-se com a transformação e sentir-lhe os efeitos.

“Debet enim, misere cui forti, aegreque futurum est,

Ipse quoque esse in eo turn tempore, cum male possit

Accidere”

”Nada há que temer de um mal futuro, se não devemos existir quando esse mal ocorrer” [Lucrécio]

A segurança, a indolência, a impassibilidade, a isenção dos males da vida, que compramos pelo preço da morte, não se nos tornam de nenhuma vantagem. É por nada que evita a guerra quem não pode gozar a paz; por nada que foge da pena quem não pode saborear o repouso.

Entre os que pensam seja lícito suicidar-se, um ponto é controvertido: quando as circunstâncias justificam suficientemente que um homem se mate? Embora admitam que causas insignificantes possam muitas vezes motivar semelhante resolução, tendo tudo na vida importância relativa, cabe estabelecer uma medida. Há disposições de espírito inteiramente desprovidas de sentido e lógica que levaram não somente homens, mas também povos, à autodestruição. Citei exemplos, mas eis mais outro: em seguida a um entendimento nascido de loucura furiosa, as jovens de Mileto puseram-se a enforcar-se umas após outras, o que só terminou quando o magistrado, intervindo, determinou que arrastassem pela cidade, inteiramente nuas e com a corda ao pescoço, as que assim haviam morrido.

Tericião instava junto a Cleômenes para que se matasse, dado o mau estado de seus negócios. Visto que escapara a uma morte honrosa no combate perdido, aceitasse outra, a qual, embora o sendo menos, privaria o vencedor de lhe impor uma morte – ou uma vida – vergonhosa. Cleômenes, com uma coragem bem lacedemônia e realmente estóica, recusou o conselho por considerá-lo covarde e efeminado: ”eis” disse ”um recurso que não me faltará nunca e de que não me valerei enquanto houver a menor parcela de esperança; viver é por vezes dar prova de ânimo e valentia; quero que minha própria morte seja útil a meu país, seja um ato que testemunhe minha coragem e me honre”. Tericião, coerente com suas idéias, matou-se.

Cleômenes também, mais tarde, mas somente depois de ter tentado até o fim vencer a sorte. Nenhum dos males da vida justifica que nos suicidemos para o evitar. Ademais, as coisas humanas estão sujeitas a tais reviravoltas, que se faz difícil julgar 18

em que momento nos cumpre renunciar a qualquer esperança:

“Sperat et in saeva victus gladiator arena,

Sit licet infesto pollice turba minax”

”Estendido na arena, o gladiador vencido espera ainda viver, quando

já a multidão ameaçadora faz o gesto da morte” [Pentádio]

O homem tem o direito de tudo esquecer enquanto vive, diz um aforismo antigo. Sim, atalha Sêneca, mas por que dizer que a sorte tudo pode para quem está vivo, em vez de afirmar que ela nada pode contra quem sabe morrer? Conhecido é o caso de Josefo que, achando-se em grave perigo por se haver sublevado o povo inteiro contra ele, não podia, razoavelmente, esperar qualquer salvação; aconselhado por alguns de seus amigos a matar-se, seguiu o caminho de se obstinar na esperança. Contra toda previsão humana, a sorte mudou e Josefo se viu salvo sem ter sofrido dano algum. Não perderam Cássio e Bruto os últimos restos da liberdade romana, de que eram os sustentáculos, pela precipitação que mostraram em se matar antes que as circunstâncias o exigissem realmente?

Na batalha de Cerísoles, o Senhor de Enghien tentou por duas vezes atravessar a garganta com sua espada, no desespero de ver o combate perder-se no lugar em que se encontrava. E com essa precipitação quase deixou de gozar uma bela vitória. Vi cem lebres fugirem quando estavam quase nos dentes dos cães.

“Aliquis carnifici suo superstes fuit”

”Há quem tenha sobrevivido ao seu carrasco” [Sêneca]

“Multa dies, variusque labor mutabilis nevi

Rettulit in melius; multos alterna revisens

Lusit, et in solido rursus fortuna locavit”

”O tempo, os diversos acontecimentos podem acarretar mudanças felizes; não raro em seus jogos a sorte caprichosa volta àqueles que enganou e os eleva” [Virgílio]

Plínio disse que há três espécies de doença em virtude das quais temos o direito de nos matar para as evitar, e cita como a mais dolorosa de todas a pedra quando obstrui a bexiga e ocasiona retenções de urina. Sêneca só admite as que comprometem durante muito tempo as funções do espírito. Outros são de parecer que para abreviar uma morte dolorosa podemos matar-nos quando o julgamos conveniente. Demócrito, chefe dos etólicos, levado em cativeiro para Roma, descobriu certa noite um meio de fugir; perseguido pelos guardas e a ponto de lhes cair nas mãos, atravessou o próprio corpo com a espada. Antínoo e Teódoto, cidadãos do Epiro, vendo sua cidade prestes a ser destruída pelos romanos, aconselharam a todos que se matassem.

Tendo vencido a idéia da rendição, decidiram-se eles pela morte e, a fim de a buscar, atiraram-se contra o inimigo, esforçando-se unicamente por atacar, sem se preocuparem com a própria segurança. Quando há poucos anos a ilha de Gozo caiu em poder dos turcos, um siciliano que aí se achava e tinha duas belas filhas em idade de casar, matou-as com as próprias mãos, bem como a mulher que acorrera para as socorrer; isso feito, saiu à rua com uma besta e um arcabuz e, ao se aproximarem os turcos, descarregou suas armas matando os dois primeiros. Em seguida, de espada na mão, precipitou-se contra os outros. Imediatamente cercado, foi picado em pedaços, escapando da escravidão depois de haver livrado os seus do mesmo risco. As mulheres judias, a fim de fugir à crueldade de Antíoco, jogavam-se em um precipício com os filhos depois de os mandar circuncidar. Contaram-me que estando na prisão certo senhor de elevada condição social, seus parentes, avisados de que seria seguramente condenado à morte, para obviar a vergonha do suplício pediram a um padre que lhe transmitisse o meio certo de se libertar: que se recomendasse a tal ou qual santo com tal ou qual promessa e que ficasse oito dias sem tomar o menor alimento, por mais fraco que se sentisse. Acreditou ele nisso e assim, sem pensar, libertou-se da vida e do perigo em perspectiva. Escribônia aconselhou seu sobrinho a suicidar-se antes que se desse a intervenção da justiça, mostrando que era precisamente ir ao encontro da vontade dos outros conservar a vida para a entregar nas mãos dos que dentro de três ou quatro dias o viriam buscar. E que guardar seu sangue para que o bebessem seus inimigos era em verdade servi-los.

Lê-se na Bíblia que Nicanor, perseguindo os fiéis, mandou alguns guardas se apoderarem de Razias, ancião de grande virtude, por todos respeitado e apelidado o ‘Pai dos judeus’. Vendo-se perdido, queimada a sua casa e quase em mãos do inimigo, esse homem de bem procurou matar-se com sua espada, preferindo morrer nobremente a sofrer um tratamento indigno de sua condição. Com a pressa o golpe falhou e ele correu a jogar-se de cima de um muro sobre os assaltantes e, em tendo estes se afastado, caiu de ponta cabeça. Conservando entretanto um resto de vida, mediante terrível esforço levantou-se e, ensangüentado e ferido, forçou o cerco a fim de alcançar um rochedo a pique. Mas exausto, obrigado a parar, arrancou com as mãos as entranhas por um dos ferimentos, despedaçando-as e as jogando à cara dos perseguidores. E invocava o testemunho dos céus para a justiça de sua causa, apelando para a vingança divina.

Entre as violências perpetradas contra a consciência, as que mais se devem evitar, a meu ver, são as que dizem respeito à castidade das mulheres, tanto mais quanto envolvem o prazer físico, razão pela qual a resistência não pode ser total, unindo-se necessariamente à força certa aquiescência inconsciente da vítima. A história eclesiástica venera a memória de muitas santas que preferiram a morte aos ultrajes que os tiranos infligiram à sua religião e à sua consciência. Pelágia e Sofrônia, ambas canonizadas, mataram-se, a primeira jogando-se ao rio com sua mãe e suas irmãs a fim de evitar a brutalidade dos soldados, e a segunda, para escapar à insistência do Imperador Maxêncio.

Talvez os séculos vindouros venham a louvar esse sábio parisiense [Henri Estienne, autor de ‘Apologia de Heródoto’] que se esforça por persuadir as mulheres de não tomarem tão desesperada resolução em casos análogos. Lamento que esse autor não tenha conhecido, a fim de reforçar sua argumentação, as palavras que ouvi de uma senhora de Tolosa, a qual passara pelas mãos de alguns soldados: ”Louvado seja Deus, pois ao menos uma vez em minha vida me fartei sem pecar”. Matar-se por causa de semelhante aventura é, em verdade, uma crueldade indigna da doçura dos costumes franceses. Graças a Deus, depois de tais 19

conselhos vemo-nos vingados dessas crueldades, pois basta que as mulheres digam ‘não’ enquanto sofrem a violência, segundo a regra do bom Marot [Clement Marot, poeta francês contemporâneo de Montaigne, autor de epístolas muito espirituosas]:

“Un doulx nenny, avec un doulx sourire

Est tant honneste”

A história está cheia de exemplos de pessoas que trocaram pela morte uma vida difícil de se suportar. Lúcio Arúncio matou-se, dizem, ”a fim de fugir do passado tanto quanto do futuro”. Grânio Silvano e Estácio Próximo, a quem Nero perdoara, mataram-se para não dever a vida a um homem tão cruel, e não se expor a um segundo perdão, em virtude da facilidade com que esse indivíduo desconfiado ouvia as acusações aos homens de bem. Spargapizes, filho da Rainha Tômiris, feito prisioneiro por Ciro, aproveitou a primeira oportunidade que lhe deu o monarca, para se matar, pois da liberdade não queria senão a possibilidade de punir-se pelo fato de se ter deixado aprisionar. Boges, governador de Eione, no tempo de Xerxes, estando sitiado pelos atenienses sob as ordens de Címon, recusou as propostas de retirada em segurança, não podendo resignar-se a sobreviver à perda daquilo que seu senhor lhe confiara. Depois de defender a cidade até esgotar os últimos recursos, e já sem víveres, mandou jogar no rio Estruma o ouro e tudo o que pudesse ser aproveitado pelo inimigo. Acendeu em seguida imensa fogueira em que jogou suas mulheres, seus filhos, suas concubinas e seus servidores previamente degolados e na qual se precipitou então ele próprio.

Ninachetuen, senhor indiano, tendo ouvido que o vice-rei português, sem motivo aparente, premeditava destituí-lo do cargo que ocupava em Málaca a fim de dá-lo ao rei de Campar, tomou a seguinte resolução: mandou erguer um palanque mais comprido do que largo, sustentado por colunas, ricamente atapetado, ornamentado de flores e impregnado de perfumes. Vestiu uma túnica bordada de ouro, guarnecida de pedras preciosas, saiu à rua e subiu ao tablado a uma das extremidades do qual ardia uma fogueira de madeiras aromáticas. Acudiu o povo para ver a que se destinavam tais preparativos inesperados, e Ninachetuen expôs então, com semblante corajoso, mas sem esconder seu ressentimento, os serviços prestados por ele à nação portuguesa. Disse da eficiência com que desempenhara os cargos que tivera e acrescentou que tendo demonstrado sempre de armas na mão ser para ele a honra mais preciosa do que a vida, não falharia agora. E tendo-lhe a sorte recusado qualquer outro meio de se opor à injúria que lhe era feita, sua coragem ordenava-lhe não sobreviver à desonra, não constituir motivo de mofa para o povo nem colaborar para o triunfo de gente de pouco valor. E, assim dizendo, precipitou-se na fogueira.

Sextília, mulher de Escauro, e Páxea, mulher de Labeo, a fim de encorajar os maridos a evitar, com a morte, os perigos que os ameaçavam e cujas conseqüências elas só sentiriam como esposas, sacrificaram voluntariamente a vida, querendo com isso não somente dar o exemplo, mas ainda acompanhá-los. O que essas heroínas fizeram com seus consortes, fê-lo por sua pátria Coceio Nerva, menos utilmente por certo mas com igual determinação. Esse grande jurisconsulto, que tinha saúde, riqueza, reputação e prestígio junto ao imperador, matou-se unicamente por considerar lamentável a situação do governo de Roma.

Nada porém pode ultrapassar em estranheza a morte da mulher de Fúlvio, que era amigo de Augusto. Tendo este percebido que Fúlvio divulgara um segredo importante, acolheu-o muito mal certa manhã. Fúlvio voltou para casa desesperado e disse à mulher que ante tão grande desgraça estava resolvido a suicidar-se, ao que ela respondeu de imediato: ”Fazes bem, pois já tendo verificado várias vezes que eu não sei calar, não tomaste nenhuma precaução; mas deixa que me mate em primeiro lugar”. E sem nada acrescentar mergulhou uma adaga no seio.

Quando do cerco de Cápua pelos romanos, Víbio Viro, descrente de salvar a cidade bem como da generosidade do inimigo, depois de discutir longamente no Senado as medidas possíveis de defesa, chegou à conclusão de que a morte era o melhor meio de lutar contra a má sorte; que os inimigos os respeitariam mais e Aníbal compreenderia melhor quão fiéis eram os amigos que abandonara. Convidou os que o aprovavam para um festim em sua casa, onde, depois de lauto banquete, beberiam algo que livraria seus corpos dos tormentos físicos, suas almas das aflições, seus olhos e ouvidos do espetáculo que aos vencidos seria imposto por vencedores cruéis e despeitados . ”Providenciei, acrescentou, para que logo depois de nossa morte nossos corpos sejam queimados diante de minha residência”. Muitos concordaram com essa resolução de um grande caráter, mas poucos a seguiram. Vinte e sete senadores somente juntaram-se a ele, os quais, após buscarem no vinho o esquecimento, acabaram por tomar a bebida fatal. Abraçando-se então, e lamentando o destino do país, retiraram-se alguns e ficaram os demais com o anfitrião a fim de serem incinerados. A morte de todos foi lenta, pois o vinho perturbou o efeito do veneno e muitos correram o risco de ver o inimigo entrar em Cápua, no dia seguinte, e de suportar as misérias que procuravam evitar.

Voltando o cônsul Fúlvio da terrível carnificina em que por sua causa pereceram duzentos e vinte e cinco senadores, foi orgulhosamente interpelado por Táurea Jubélio, cidadão de Cápua, o qual lhe disse: ”manda trucidar-me como os demais, e depois poderás vangloriar-te de teres matado alguém mais valente do que tu”. Fúlvio desdenhou essas palavras que se lhe afiguravam de um louco, e também porque acabava de receber de Roma uma censura à sua crueldade ordenando que sustasse a matança.

Mas Jubélio continuou: ”Visto que meu país já está vencido, que meus amigos morreram, que matei minha mulher e meus filhos para lhes evitar as calamidades que acarreta a nossa ruína, e que não posso morrer como meus concidadãos, que a coragem me ajude a deixar esta vida odiosa”. E puxando a espada que escondera enfiou-a no peito, vindo a morrer aos pés do cônsul.

Assediava Alexandre uma cidade indiana. Vendo-se sem mais recursos, os sitiados resolveram privá-lo do prazer da vitória mediante um gesto viril. Incendiaram a cidade e pereceram todos nas chamas, apesar do sentimento de humanidade que reconheciam no vencedor. E viu-se o fato inédito de uma batalha em que os assaltantes se esforçavam por salvar os sitiados, os quais para não serem salvos tudo puseram em prática como se lutassem pela vida.

Não tendo a cidade de Ástapa, na Espanha, fortificações sólidas nem meios de defesa contra os romanos, juntaram os habitantes os seus móveis e riquezas na praça pública, colocaram em cima suas mulheres e filhos, cercando tudo de lenha e outros materiais combustíveis. Encarregando cinqüenta jovens da execução de seus projetos, saíram todos para o ataque, jurando morrer desde que não lhes era possível vencer. Enquanto isso os cinqüenta jovens procediam à matança dos seres vivos 20

que encontravam, precipitando-se em seguida no fogo. Sua liberdade chegava ao fim e assim não se impressionavam com essa perspectiva, graças ao ato generoso que lhes poupava a dor e a vergonha de perdê-la, ato pelo qual mostravam que, se a sorte não lhes tivesse sido contrária, poderiam ter tido a coragem de tirar-lhes a vitória, como também torná-la frustrada e horrenda, e até mortal, pois numerosos eram os adversários que, atraídos pela isca do ouro em fusão, se aproximavam demasiado das chamas sufocando-se e se queimando, porquanto não podiam recuar sob a pressão dos outros que vinham atrás.

Os habitantes de Abido, em idêntica situação, tomaram igual resolução. Tarde demais, porém. O Rei Filipe, a quem repugnava assistir a tão cruel e precipitada carnificina, depois de apreender todos os tesouros e móveis que queriam queimar ou deitar ao mar, retirou seus soldados e concedeu-lhes três dias para que pudessem pôr em execução com mais ordem e serenidade o projeto de matança em massa. Durante esses três dias o sangue correu e verificaram-se cenas que ultrapassaram tudo o que o mais cruel inimigo poderia cometer. Ninguém sobreviveu.

A história relata bom número de resoluções análogas, tomadas por populações inteiras. Impressionam tanto mais quanto atingem todos sem exceção, e no entanto são menos difíceis de ocorrer com multidões do que com indivíduos isolados, pois o raciocínio que não fariam sozinhos aceitam-no quando coletivo. A febre que nos agita, reunidos, obnubila a razão de cada um em particular.

No tempo de Tibério os condenados à morte, quando executados pelo carrasco, perdiam seus bens e eram privados de sepultura. Os que se adiantavam e se matavam a si próprios, eram inumados e podiam, mediante testamento, dispor de suas riquezas.

Deseja-se às vezes a morte, na esperança de um bem futuro: o desejo de morrer, disse São Paulo, ”para estar com Jesus no outro mundo”. E de outra feita: ”quem me romperá os laços que aqui me retêm?” Tendo lido o Fedon, de Platão, Cleômbroto de Ambrácia viu-se presa de tal desejo da vida futura que, sem motivo, se precipitou no mar. Vemos por esses exemplos quanto erramos em atribuir ao desespero certas mortes voluntárias, a que nos induz por vezes uma esperança radiosa e que também são, não raro, conseqüência de determinações tomadas com calma, maduramente refletidas.

Jacques de Chatel, Bispo de Soissons, que acompanhara São Luís em uma de suas expedições de além-mar, vendo que a volta do rei com seu exército era coisa decidida, quando os interesses religiosos que a fizeram empreender não tinham sido ainda atendidos, resolveu apressar sua entrada no Paraíso. Disse adeus aos amigos e sozinho, às vistas de todos, caminhou contra o inimigo, sucumbindo. Em um reino desse continente recém-descoberto, em certos dias de procissão solene o ídolo que adoram é levado em triunfo sobre enorme carro. Durante a procissão numerosas pessoas cortam pedaços de sua carne para os oferecer em homenagem, enquanto outras, prosternando-se, deixam-se esmagar sob as rodas, a fim de conquistar uma reputação de santidade que as torne veneradas depois da morte. A morte desse bispo comparada a tais sacrifícios demonstra mais grandeza, porém o sentimento religioso parece menor, mascarado em parte pelo entusiasmo na luta.

Houve governos que estabeleceram os casos em que a morte voluntária era justificável e oportuna. Em nosso país mesmo, em Marselha, conservava-se outrora à custa do tesouro e sempre à disposição do público um pouco de cicuta para os que quisessem abreviar seu fim. Era necessário que antes o conselho dos seiscentos, que representavam o Senado, aprovasse as razões do suicida. Não era permitido matar-se sem a autorização do magistrado ou sem motivos legais. Esta lei existiu também alhures.

Sexto Pompeu, a caminho da Ásia, passava pela ilha de Ceos no Negroponto. Aí, relata um membro de seu séquito, aconteceu que uma senhora da alta sociedade, que advertira seus concidadãos de seu suicídio, explicando-lhes os motivos, solicitou de Pompeu que a honrasse com sua presença. Ele aceitou o convite e depois de ter longamente e em vão tentado demovê-la, empregando todos os recursos de sua maravilhosa eloqüência, consentiu em que ela agisse como decidira. Tinha ela mais de noventa anos e se achava em pleno gozo de suas faculdades físicas e mentais. Estendida sobre um leito magnificamente ornamentado, apoiando-se sobre o cotovelo, assim falou: ”a Sexto Pompeu, que os deuses, antes os que deixo nesta terra do que os que vou encontrar, te protejam por não teres desdenhado ser meu conselheiro dos últimos instantes e testemunha de minha morte. Sempre fui favorecida pela fortuna, mas com receio de que me abandone em se prolongando demasiado a minha vida, renuncio em circunstâncias felizes aos poucos dias que ainda poderia viver; e parto, deixando duas filhas e uma legião de sobrinhos!” Isso dito, deu alguns conselhos aos seus, exortando-os a viverem unidos e em paz, procedeu à partilha de seus bens, recomendou seus deuses domésticos à sua filha mais velha, e, segurando com mão firme a taça, solicitou de Mercúrio que a conduzisse a algum lugar agradável do outro mundo e, de uma só vez, engoliu o veneno. A partir de então, não cessou de se entreter com os presentes acerca da marcha da intoxicação, indicando as diferentes partes do corpo que se iam finando até o momento em que, sentindo os efeitos nas entranhas e no coração, chamou suas filhas para os derradeiros ritos e a fim de lhe cerrarem os olhos.

Conta Plínio que em certa nação hiperbórea o clima é tão ameno que a vida dos habitantes só termina por vontade própria.

Cansados de viver, fartos da existência, ao alcançar uma idade avançada, depois de um bom jantar, arrojam-se ao mar do alto de um rochedo destinado a esse uso.

Somente a insuportável dor ou a certeza de uma morte pior do que o suicídio se me afiguram motivos justificáveis para abandonar a vida.

Capítulo IV

Amanhã é um novo dia

Entre todos os nossos escritores franceses, coloco em primeiro lugar, e com razão, creio, Jacques Amyot. Não somente pela simplicidade e clareza de seu estilo (no que ultrapassa os demais), não apenas pela persistência que precisou ter para levar a cabo tão longo trabalho como a tradução de Plutarco, mas também pelos conhecimentos aprofundados que lhe permitiram, 21

com tamanha felicidade, exprimir um amor tão difícil e conciso, pois digam o que disserem, embora eu nada entenda de grego, vejo sua tradução apresentar um sentido tão adequado e seguro, que sou impelido a concluir que, ou ele lhe apreendeu admiravelmente as idéias ou praticou tão amiudadamente o autor que delas se impregnou – e tão fortemente – que nada lhe acrescenta suscetível de o desmentir ou contradizer. E lhe sou grato ainda por ter escolhido, entre muitas, uma obra de tal mérito e atualidade.

Nós outros, ignorantes, estaríamos perdidos se esse livro não nos houvesse arrancado do tremedal em que andávamos mergulhados. Graças a ele, ousamos hoje falar e escrever, e até as mulheres podem dar lições aos mestres-escola. É nosso breviário. Se esse excelente homem ainda vivesse, eu lhe indicaria Xenofonte como igualmente digno de ser traduzido. Seria tarefa mais fácil e mais adequada à sua idade avançada. E depois, parece-me que, apesar da facilidade e da precisão que evidencia nos trechos difíceis, seu estilo é mais pessoal e natural quando não tem pressa e escreve à vontade.

Estava naquele trecho em que Plutarco, falando de si mesmo, conta que Rústico, assistindo em Roma a uma de suas conferências, recebeu uma mensagem do imperador e aguardou o fim da palestra para abri-la, discrição que valeu a esse personagem a calorosa aprovação da assistência. A anedota é contada a propósito da curiosidade, essa paixão ávida e insaciável de notícias, de novidades, que nos impele a tudo abandonar com indiscrição e impaciência, para nos entretermos com o recém-chegado; e que nos induz a abrir sem mais demora as cartas recebidas, onde quer que estejamos. Plutarco tem razão em louvar a reserva de Rústico; podia ter acrescentado o elogio de sua polidez e cortesia, porquanto assim agiu com o fim de não perturbar o conferencista. Não creio, porém, que lhe devesse elogiar a prudência, pois quando se recebem cartas inesperadas e em particular do imperador, diferir a leitura talvez se torne realmente grave.

O defeito contrário é a displicência, a que me inclino por temperamento, e conheci quem a levasse a ponto de guardar no bolso, sem abrir, as cartas que recebera três ou quatro dias antes. Quanto a mim, nunca abri as que me confiaram nem as que o acaso me pôs nas mãos, e perturba-me a consciência deitar sem querer o olhar sobre algum escrito de importância que porventura alguém leia perto de mim. Nunca houve quem se preocupasse menos com as coisas alheias.

No tempo de nossos pais, M. de Boutières quase perdeu Turim porque, jantando em boa companhia, adiou a leitura de uma advertência que lhe entregaram acerca da traição tramada na cidade sob seu comando. Plutarco afirma que Júlio César se houvera salvo se, a caminho do Senado, no dia em que foi morto pelos conjurados, tivesse lido o relatório que lhe apresentaram.

O mesmo autor nos conta que na noite em que se executou o projeto arquitetado por Pelópidas para matar Árquias, tirano de Tebas, e devolver a liberdade à sua pátria, um ateniense homônimo lhe escreveu uma missiva relatando o que se tramava.

Árquias recebeu a carta durante a ceia e deixou de abri-la, dizendo estas palavras que se tornaram proverbiais em Atenas:

”fiquem para amanhã os negócios”.

A meu ver um homem prudente, por educação, a fim de não cometer uma descortesia para com as pessoas em cuja companhia se encontra, como fez Rústico, ou a fim de não interromper algo importante de que se ocupe no momento, pode adiar para mais tarde o conhecimento de uma notícia que lhe enviam. Mas será indesculpável se não o fizer por interesse ou prazer pessoal, principalmente quando ocupa um cargo público, caso em que lhe cabe até interromper seu repouso e seu sono.

Outrora em Roma, havia, à mesa, o lugar dito consular, considerado o mais honroso, e era o de mais fácil acesso ou retirada, o que bem demonstra que, embora à mesa, não se desinteressava o seu ocupante dos demais negócios nem dos acontecimentos que pudessem ocorrer. Mas pode-se ter dito tudo acerca das ações humanas, sempre será difícil traçar uma regra de conduta que obvie às surpresas do acaso, por mais justa que pareça do ponto de vista da razão.

Capítulo V

Sobre a consciência

Achando-nos certa vez em viagem durante as nossas guerras civis, meu irmão, Senhor de la Brousse, e eu, encontramos um fidalgo de boa aparência. Era do partido contrário mas eu não o sabia, porquanto simulava ser dos nossos. Aí está um dos maiores percalços dessas guerras: as cartas tanto se misturaram que o inimigo não se distingue do amigo de um modo visível, nem pela língua nem pela conduta; condicionam-se a idênticos costumes e leis, têm igual aparência, sendo assim difícil evitar a confusão e a desordem. Isso me levava mesmo ao receio de encontrar os nossos exércitos em um lugar em que eu não fosse conhecido, do que resultaria ter dificuldade em provar minha identidade e expor-me assim aos piores vexames, como me aconteceu de uma feita, quando perdi homens e cavalos e um pajem, morto estupidamente, fidalgo italiano que eu vinha educando cuidadosamente e muito prometia.

Nosso companheiro de jornada estava tão apavorado, eu o via tão desnorteado cada vez que deparávamos com alguns grupos de cavaleiros ou que atravessávamos cidades do partido do rei, que acabei por adivinhar que seus temores provinham de uma consciência intranqüila. Parecia-lhe que, em sua fisionomia e através das cruzes que trazia ao casaco, se liam seus mais íntimos pensamentos, tal o efeito maravilhoso e irresistível da consciência. Obriga-nos a nos denunciarmos, a combatermo-nos a nós mesmos e, na ausência de outra testemunha, depõe contra nós:

“Occultum quatiens animo tortore flagellum”

”Servindo ela própria de carrasco e fustigando-nos com látego invisível” [Juvenal]

Eis uma anedota que está sempre na boca das crianças: um Senhor Besso, da Peônia, a quem censuravam por ter destruído, sem motivo plausível, um ninho de pardais e matado os filhotes, respondeu que não o fizera sem razão, pois as avezinhas não cessavam de acusá-lo erroneamente do assassínio de seu pai. Esse parricida permanecera até então ignorado, mas as fúrias vingadoras da consciência fizeram que fosse denunciado por quem devia arcar com a punição, isto é, por ele mesmo. Diz Platão que o castigo segue de perto o pecado. Hesíodo assim retifica o aforismo: nasce o castigo no momento mesmo em que 22

nasce o pecado. Quem quer que receie o castigo já o está recebendo. E quem o merece o apreende. A maldade engendra os próprios tormentos:

“Malum consilium consultori pessimum”

”O mal recai em quem o faz” [Aulo Gélio]

Assim a vespa, ao picar, perde o ferrão e com este as suas forças, para sempre:

“Vitasque in vulnere ponunt”

”Deixa a vida no ferimento que provoca” [Virgílio]

As cantáridas trazem em si o contraveneno de seu veneno. É o que também ocorre com quem se compraz no vício; engendra um desprazer que lhe atormenta a consciência, na vigília como no sono:

“Quippe ubi se multi, per somnia saepe loquentes,

Aut morbo delirantes, protraxe ferantur,

Et celata diu in medium peccata dedisse”

”Numerosos culpados revelam durante o sono ou o delírio

da febre, crimes de há muito escondidos” [Lucrécio]

Apolodoro via em sonhos os citas esfolarem-no, jogarem-no dentro de uma marmita, enquanto sua alma murmurava: sou a causa desses suplícios. O mau, diz Epicuro, não tem onde se esconder, porque não tem certeza de estar escondido, pois que sua consciência o denuncia a si próprio:

“Prima est haec ultio, quod se

Judice nemo nocens absohitur”

”O primeiro castigo do culpado está em não poder absolver-se a seus próprios olhos” [Juvenal]

Se a consciência nos inspira temor, dá-nos igualmente segurança e confiança. Posso afirmar que me conduzi em várias circunstâncias difíceis com muito maior decisão em virtude da convicção íntima em que estava da pureza de minhas intenções e de minha vontade de não desistir:

“Conscia mens ut cuique sua est, ita concipit intra

Pectora pro facto spemque metumque suo”

”Enche-se a alma de esperança ou temor segundo o

testemunho que damos de nós a nós mesmos” [Ovídio]

E há mil exemplos disso. Contentar-me-ei com três.

Estava Cipião certa vez sob grave acusação contra ele lançada diante do povo romano. Em vez de se desculpar ou procurar enternecer os juízes, disse-lhes: ”Não vos cabe, em verdade, julgar uma acusação capital contra quem vos deu o poder de julgar o mundo inteiro”. Outra vez, em lugar de se defender contra as imputações de que era alvo por parte de um tribuno do povo, exclamou: ”Cidadãos, como resposta, iremos render graças aos deuses pela vitória que me deram contra os cartagineses e cujo aniversário se festeja hoje”. Tendo Catão incitado Petílio a pedir-lhe que prestasse contas dos dinheiros postos à sua disposição para administrar a província de Antioquia, Cipião, no Senado, apresentou seu caderno de notas afirmando que receita e despesas aí se inscreviam com fidelidade. E como o instassem para que o depositasse no arquivo, recusou observando que não desejava impor a si mesmo semelhante humilhação; e o rasgou em pedaços. Não penso que alguém com a consciência suja pudesse demonstrar igual confiança em si. Cipião tinha naturalmente um belo caráter e estava habituado à fortuna, escreve Tito Lívio, para se rebaixar à defesa de sua inocência.

A tortura é uma invenção perigosa que parece antes pôr à prova a resistência à dor do que a sinceridade. Quem a não pode suportar esconde a verdade tanto quanto quem a suporta; pois por que a dor o levaria a confessar o que é mais do que o que não é? E, inversamente, se quem não cometeu o que lhe recriminam é bastante resistente para suportar a tortura, por que não o há de ser o culpado que em tal circunstância joga a vida? Penso que o emprego desse processo tem sua origem na ação da consciência; dir-se-ia que no culpado em a enfraquecendo ela colabora com a tortura e o induz à confissão, enquanto fortalece a determinação do inocente. Em verdade, trata-se de um meio cheio de incertezas e perigos, pois que não se há de dizer e fazer a fim de obviar a tais suplícios?

“Etiam innocentes cogit mentiri dolor”

”A dor obriga o próprio inocente a mentir” [Públio Siro]

Daí ocorre que aquele a quem o juiz inflige a tortura para não se expor a condenar um inocente, na realidade morre inocente e torturado. Muitos acusados sob os efeitos da tortura confessam o que não fizeram. Entre esses incluo Filotas, a julgar pelas circunstâncias do processo que lhe moveu Alexandre e os resultados das torturas a que foi submetido. Como quer que seja e embora se diga que é o que de menos falho encontrou o homem em sua fraqueza, para chegar à verdade, considero a tortura um processo inumano e bem pouco útil.

Muitos povos, menos bárbaros a esse respeito do que os gregos e os romanos que assim os chamavam, achavam horrível e cruel torturar alguém cuja culpabilidade não estivesse estabelecida. Que culpa terá ele de nossa ignorância? Não somos injustos em obrigá-lo a suportar coisa pior do que a morte, a fim de não matá-lo sem razão? E não se negará que assim seja, pois vemos muitos inocentes preferirem a morte a submeter-se a tal meio de informação mais penoso do que a execução e que pela sua violência não raro acarreta de antemão a morte. Não me lembro onde deparei com este caso; mas ele mostra bem como encarar esse processo justiceiro: diante de um general de exército muito rigoroso, uma camponesa acusava um soldado de ter roubado a seus filhos o pouco de sopa que lhes restava. Não havia prova. O general, depois de advertir a mulher acerca do alcance do que dizia e de chamar sua atenção para a responsabilidade que assumia, mandou abrir o ventre do soldado a fim de verificar o fundamento da acusação. E aconteceu que a camponesa tinha razão. Condenação instrutiva.

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Capítulo VI

A perfeição adquire-se com a prática

É difícil que o raciocínio e o conhecimento, se bem que nossa convicção nos ajude, sejam assaz poderosos para nos levar à ação se, ademais, não nos exercitamos, e pela prática não adaptamos a alma ao que queremos. De outro modo, no próprio momento de agir ela se encontrará em dificuldade. Eis por que os filósofos que visaram à perfeição não se contentaram com aguardar na serenidade do repouso os rigores da sorte. De medo de que ela os achasse desprevenidos e inexperientes para a luta, foram-lhe ao encontro, enfrentando riscos e tormentos de moto próprio, renunciando uns a suas riquezas, a fim de se acostumarem a uma pobreza voluntária, exercitando-se outros por meio das mais duras tarefas e austeridades de uma vida de privações, em se calejarem. Outros ainda se mutilaram, privando-se de seus órgãos mais preciosos, como os olhos ou as partes genitais, com receio de que, sentindo exagerado prazer em seu uso, tivessem enfraquecido a alma.

Mas não nos é possível exercitar-nos a morrer, o que constitui entretanto a mais árdua tarefa que nos cumpre enfrentar.

Podemos, pelo hábito e a experiência, fortalecer-nos contra a dor, a vergonha, a indigência, etc. No que concerne à morte só a podemos experimentar uma vez, e quando chega não passamos todos nós de aprendizes.

Houve outrora homens tão ciosos de bem empregar seu tempo, que procuraram, ao passarem da vida à morte, fixar suas impressões e analisá-las. Mas nenhum deles voltou para nos comunicar o que pôde aprender:

“Nemo expergitus exstat,

Frigida quern semel est vitai pausa sequuta”

”Jamais acorda quem, uma vez, adormeceu no frio repouso da morte” [Lucrécio]

Um nobre romano, Cânio Júlio, dotado de notável coragem e caráter, entre outras provas espantosas de sua resolução, deu a seguinte: condenado à morte por esse monstro que se chamou Calígula, ao ser executado pelo carrasco e ouvindo de um filósofo seu amigo: ”Então, Cânio, qual o teu estado de alma neste momento? Em que pensas?”, respondeu: ”Penso em estar preparado para morrer e em procurar com todas as minhas forças, neste instante tão curto, verificar o que sentirá minha alma, se experimentará algum tremor ao separar-se do corpo, e se eu conseguir algo hei de voltar, em podendo, para dizê-

lo a meus amigos”. Eis um filósofo que continuou filósofo até durante a morte. Quanta coragem, quanta firmeza de ânimo em desejar que ela servisse de lição, em conservar uma tal liberdade de espírito, em poder pensar assim noutra coisa em semelhante ocasião!

“Jus hoc animi morientis habebat”

”Que domínio tinha sobre a alma na hora da própria morte!” [Lucano]

Parece-me contudo que haja possibilidade de nos familiarizarmos com a morte, de apreciá-la de perto. Podemos tentar a experiência, se não inteira e perfeita, ao menos em condições em que nos seja proveitosa, fortalecendo nossa coragem e dando-nos alguma segurança. Se não podemos alcançá-la, podemos aproximar-nos dela, reconhecê-la. Se não podemos penetrar no edifício, podemos palmilhar as avenidas de acesso. Não sem razão, comparam-na ao sono, que mui parecidos são. Com que facilidade adormecemos, perdemos a noção da luz e de nós mesmos, quase sem nos apercebermos. Talvez esse sono que nos priva momentaneamente de movimento e sensação, se nos afigurasse inútil e inexplicável se não víssemos nisso uma lição da natureza, a de que estamos destinados tanto a morrer como a viver. Para que nos acostumemos e não tenhamos receio, ela nos mostra no decurso da vida o estado que nos reserva para quando deixarmos a existência.

Quem, em conseqüência de algum acidente, desmaiou e perdeu por completo o conhecimento das coisas, esteve, imagino, bem perto da morte natural. Quanto ao instante preciso da passagem da vida à morte não há como temer que comporte esforço ou dor. Pois nada podemos sentir sem a presença do tempo. Nossas sensações precisam de tempo para serem sentidas e o tempo é demasiado curto no momento da morte. É a aproximação da morte que cabe temer, e essa aproximação é passível de estudo.

Muitas coisas parecem maiores quando pensamos nelas do que quando com elas deparamos. Passei boa parte de minha existência em perfeita saúde, não somente ignorando a doença, mas ainda cheio de vida e atividade. Esse estado de verdor e alegria fazia-me temer a tal ponto a enfermidade que, ao experimentá-la, a achei menos horrível do que imaginara. Eis um fato que se repete cotidianamente comigo: se me encontro comodamente aquecido no meu quarto durante uma noite de tempestade, tremo pelos outros e me apiedo deles. No entanto, se me acho eu próprio na tempestade não procuro sequer um refúgio. Estar constantemente fechado dentro de um quarto, parecia-me insuportável. Uma doença que muito me aborreceu, mudou-me e me enfraqueceu a ponto de me obrigar a guardar o leito durante cinco semanas. Verifiquei então que, quando estava com saúde, os doentes me pareciam muito mais dignos de pena do que eu em idêntica circunstância e que minha apreensão dobrava quase a desgraça real. Espero que ocorra o mesmo quanto à morte e que ela não valha em verdade todo o esforço que faço para me preparar a recebê-la dignamente, nem todos os recursos que tento juntar a fim de resistir a seu ataque. Em todo caso não convém negligenciar nenhum de seus aspectos.

Quando da terceira, ou segunda (não me lembro exatamente) guerra de religião, estando um dia a passear a uma légua de minha casa situada no centro do teatro das guerras civis e julgando-me em segurança, pensei não me ser necessário mais do que um cavalo ágil mas pouco resistente. Ao voltar, uma circunstância inesperada fez que me visse forçado a exigir dele mais do que podia dar. Procurando auxiliar-me, um de meus homens, grande e forte e que cavalgava um atlético rocim duro de boca, quis mostrar sua habilidade e chegar antes de seus companheiros, de modo que se precipitou a todo galope diante de mim e caiu com seu peso colossal sobre o homenzinho e o cavalinho que éramos nós, jogando-nos ambos de pernas para o ar. Assim ficou o cavalo atordoado e eu sem sentidos, a doze passos, de costas para o chão, todo machucado e esfolado, a espada ao longe, a cinta em pedaços. Foi, até agora, o único desfalecimento que tive. Os que me acompanhavam, depois de tudo fazer para que 24

voltasse a mim, acreditaram-me morto. Tomando-me então nos braços, transportaram-me com muita dificuldade durante cerca de meia légua francesa até a minha casa. No caminho, após duas horas durante as quais estive como morto, comecei a fazer alguns movimentos e a respirar. Tamanha quantidade de sangue se expandira em meu estômago que a fim de aliviá-lo teve a natureza de provocar uma reação. Puseram-me em pé e eu expeli em grandes golfadas um balde cheio de sangue puro. Várias vezes durante o caminho o fato ocorreu. Graças a isso comecei a recuperar minhas forças, mas aos poucos, e tanto tempo foi preciso que a princípio o que eu sentia participava mais da morte que da vida:

“Perche, dubbiosa ancor del suo ritorno,

Non s’assicura attonita la mente”

”Porque ainda incerta de sua volta, a alma atônita não pode afirmar-se” [Tasso]

Essa recordação, que se gravou fundamente em meu espírito, de um acidente em que a morte me apareceu por assim dizer com o aspecto que deve realmente ter, causando-me a impressão que devemos sentir, essa recordação reconcilia-me até certo ponto com ela. Quando comecei a ver de novo, minha vista estava tão turva, tão fraca, extinta, que não discerni a princípio senão um pouco de luz:

“Come quel ch’or apre, or’chiude

Gli occhi, mezzo tra’l sonno e l’esser desto”

”Como alguém que, meio acordado meio dormindo, ora abre os olhos e ora os fecha” [Tasso]

Quanto às funções do espírito, voltavam à vida juntamente com o corpo. Vi-me ensangüentado, com o gibão empapado de sangue perdido. O meu primeiro pensamento foi o de haver recebido um tiro de arcabuz na cabeça, pois ouviam-se tiros de quando em quando nos arredores. Parecia-me que a vida estava suspensa a meus lábios e eu fechava os olhos a fim de ajudá-la a desprender-se de mim, comprazendo-me nesse estado de langor e também em me sentir esvair. Em meu espírito ocorria a sensação vaga da volta da faculdade de pensar, mal definida ainda, mais suspeitada do que percebida, sensação terna e doce como tudo o que experimentava, não somente isenta de desprazer mas ainda lembrando a quietude que se apodera de nós ao sermos dominados pelo sono. Creio que é nesse estado que se devem sentir os que na agonia desfalecem de fraqueza. E julgo que deles nos apiedamos sem razão, pois imaginamos erroneamente que sua agitação provém de dores excessivas ou de pensamentos penosos. Sempre fui de opinião, contrariamente a outros, inclusive La Boétie, que os vemos assim perturbados e acabrunhados nos seus últimos instantes, seja em conseqüência de longa enfermidade, seja de ferimentos, de apoplexia ou epilepsia.

“Vi morbi saepe coactus

Ante oculos aliquis nostros, ut fulminis ictu,

Concidit, et spumas agit; ingemit, et tremit artus;