Ensaios Vol.III por Montaigne - Versão HTML

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Ensaios

Michel Eyquem de Montaigne

Livro III

1

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2

Índice

Prefácio ............................................................................... 4

A vida de Montaigne .......................................................... 5

Capítulo I – Sobre a vantagem e a honestidade .......................... 11

Capítulo II – Sobre o arrependimento ......................................... 16

Capítulo III – Sobre os três comércios ......................................... 22

Capítulo IV – Sobre a diversão .................................................... 26

Capítulo V – Sobre alguns versos de Virgílio ............................... 30

Capítulo VI – Sobre as carruagens ............................................... 54

Capítulo VII – As inconveniências da grandeza ........................... 62

Capítulo VIII – A arte da conferência ........................................... 63

Capítulo IX – Sobre a vaidade...................................................... 72

Capítulo X – O controle da vontade ............................................ 95

Capítulo XI – Sobre os aleijados ................................................ 105

Capítulo XII – Sobre a fisionomia .............................................. 109

Capítulo XIII – Sobre a experiência ........................................... 120

Apologia.......................................................................... 142

3

PREFÁCIO

A presente publicação pretende suprir uma reconhecida deficiência em nossa literatura – a edição completa dos Ensaios de Montaigne.

Esse grande escritor francês é digno de ser considerado um clássico, não somente em sua terra natal, mas em todos os países e em todas as literaturas. Os Ensaios, que são imediatamente a mais célebre e a mais permanente das suas produções, constituem um repositório ao qual mentes como as de Bacon e Shakespeare não desdenharam recorrer; e, realmente, como observa Hallam, a importância da literatura francesa é em grande medida resultado do compartilhamento em que a mente dele influenciou outras mentes, contemporâneas e subseqüentes.

Mas, ao mesmo tempo, calculando o valor e a categoria do ensaísta, não podemos deixar de levar em conta as desvantagens e as circunstâncias do período: o estado imperfeito da educação, a comparativa escassez de livros e as limitadas oportunidades de relacionamento intelectual. Montaigne livremente emprestou de outros e achava que os homens podiam emprestar livremente dele. Não precisamos nos maravilhar pela reputação que ele parece com facilidade ter alcançado. Montaigne foi, sem se dar conta disso, o líder de uma nova escola de letras e moralidade.

O seu livro era diferente de todos os outros que naquela época circulavam pelo mundo. Ele desviou as antigas correntes de pensamento em novos canais, transmitindo aos leitores a opinião do autor sobre os homens e as coisas com uma franqueza sem precedentes, lançando o que deve ter parecido um novo enfoque de um tipo estranho sobre muitos temas ainda obscuramente compreendidos. Acima de tudo o ensaísta descascou-se a si mesmo, tornando propriedade pública o seu organismo físico e intelectual. Ele levou ao mundo as suas confidências sobre todos os assuntos. Seus Ensaios foram uma espécie de anatomia literária de onde obtemos um diagnóstico da mente do escritor, feito por ele mesmo a diferentes níveis e sob uma grande variedade de influências operacionais.

De todos os egotistas Montaigne foi, se não o maior, o mais fascinante, talvez porque fosse o menos afetado e o mais verdadeiro.

O que ele fez, e tinha professado fazer, era dissecar sua mente e mostrá-la para nós, o melhor que conseguisse (como realmente fez), e a sua conexão em relação aos objetos externos. Ele investigou sua estrutura mental como um estudante que desmonta o próprio relógio em partes para examinar o funcionamento do mecanismo; e o resultado, acompanhado por ilustrações abundantes de força e originalidade, entregou aos confrades da raça humana na forma de um livro.

Eloqüência, efeito retórico, poesia, nada se afastava do seu desígnio. Ele não escreveu por necessidade; talvez apenas pela notoriedade.

Mas desejou deixar à França, não, ao mundo, algo para se lembrar, algo que pudesse contar que tipo de homem ele fora – o que sentia, pensava, sofria – e alcançou um êxito, receio, muito além das suas expectativas. Seria bastante razoável Montaigne esperar que seu trabalho obtivesse alguma celebridade na Gascônia, e até mesmo, com o tempo, através da França; mas é pouco provável que pudesse prever como o seu renome se espalharia pelo mundo; como ele haveria de ocupar uma posição praticamente única como homem de letras e moralista; como os seus Ensaios seriam lidos em todos os principais idiomas da Europa por milhões de seres humanos inteligentes que nunca ouviram falar de Perigord ou da Liga; os quais, se forem interrogados, ficarão em dúvida se o autor viveu no século XVI ou no século XVIII.

Essa é verdadeira fama. O homem de gênio não pertence a nenhum período ou país. Ele fala a linguagem da natureza, que é sempre a mesma em toda parte.

O texto destes volumes foi retirado da primeira edição da versão de Cotton, impresso em três volumes entre 1685 e 1686, em oitavo, e republicado em 1693, 1700, 1711, 1738 e 1743, no mesmo número de volumes e com o mesmo formato. Nas primeiras publicações os erros de imprensa foram corrigidos somente até a página 240 do primeiro volume, e todas as edições seguem aquele padrão. A de 1685-6 foi a única que o tradutor viveu para ver. Ele faleceu em 1687, deixando para trás uma interessante e pouco conhecida coleção de poemas que veio à luz postumamente, em 1689, impressa em oitavo.

Foi considerado imperativo corrigir cuidadosamente a tradução de Cotton intercalada com o variorum da edição original (Paris, 1854, em 4 volumes) e empreenderam inserir ocasionalmente nos pés de página as passagens paralelas de Florim do texto primitivo. Também foi recuperada uma Vida do Autor e todas as suas Cartas, em número de dezesseis; mas, em vista da correspondência, é difícil duvidar que esteja num estado meramente fragmentário.

Fazer mais que fornecer um esboço dos principais incidentes da vida de Montaigne parecia, diante da encantadora e competente biografia de Bayle St. John, uma tentativa tão improvável quanto inútil.

O pecado de todos os tradutores que atacaram Montaigne parece ter sido uma tendência de reduzir o idioma e a fraseologia dele ao idioma e fraseologia da época e país aos quais pertenciam, e, além disso, a inserção de parágrafos e palavras, não somente aqui e ali, mas constante e habitualmente, por um evidente desejo e propósito de elucidar ou fortalecer o pensamento do autor. O resultado era geralmente desafortunado; sinto-me compelido, no caso de todas essas interpolações sobre as disposições de Cotton – onde não as cancelei – a descartar as notas, por julgar incorreto permitir que Montaigne seja responsabilizado por coisas que jamais escreveu; e relutante, por outro lado, de suprimir completamente essas matérias intrometidas, onde parecem possuir valor próprio.

Não é redundância ou paráfrase a única forma de transgressão em Cotton, pois há lugares na sua tradução que ele mesmo pensou em omitir, e certamente é desnecessário dizer que a restauração completa de todo o texto seja considerada essencial para sua integridade e perfeição.

O mais caloroso agradecimento é devido a meu pai, Mr. Registrar Hazlitt, autor da excelente e bem conhecida edição de Montaigne publicada em 1842, pela importante contribuição que ele fez na verificação e retradução das citações – que estavam no mais corrompido estado e das quais as versões inglesas de Cotton estavam singularmente desatadas e inexatas – e pelo zelo com que cooperou comigo no cotejo do texto em inglês, linha por linha e palavra por palavra, com a melhor edição francesa.

Pela gentileza de Mr. F. W. Cosens eu pude dispor, enquanto trabalhava neste projeto, do exemplar de 1650 do Dicionário Cotgrave, in folio, que pertenceu a Cotton. Ele está autografado e copiosamente anotado, e não é exagero presumir que tenha sido o mesmo livro empregado por ele em sua tradução.

W.C.H. Kensington, novembro de 1877.

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A VIDA DE MONTAIGNE

Este anexo foi livremente traduzido e

anteposto ao variorum da edição de 1854 (Paris,

4 volumes, em oitavo). Esta biografia é a mais

proveitosa, contendo tudo o que é realmente

interessante e importante no diário da Excursão

à Alemanha e Itália o qual, como foi escrito

somente sob ditado de Montaigne, está na

terceira pessoa e mereceu escassa divulgação,

como um todo, numa roupagem inglesa.

O autor dos Ensaios nasceu, como ele

próprio nos informa, no castelo de St. Michel

de Montaigne, entre onze e doze horas do

último dia de fevereiro de 1533.

O pai dele, Pierre Eyquem, escudeiro, foi

sucessivamente primeiro Conselheiro da cidade

de Bordéus em 1530, Sub-Prefeito em 1536,

Conselheiro pela segunda vez em 1540,

Procurador em 1546 e finalmente Prefeito de

1553 a 1556. Era um homem de austera

probidade, dotado de uma “particular consi-

deração pela honra e pelo decoro em sua pessoa

e vestuário... uma vigorosa boa fé em sua

palavra, uma consciência e um sentimento

religioso inclinados à superstição e não a outro

extremo” [Ensaios, II, 2]. Pierre Eyquem deu

grande atenção à educação dos filhos, especial-

mente quanto ao seu aspecto prático. Para

associar intimamente o filho Michel ao povo e

vinculá-lo àqueles que necessitavam de

assistência, assegurou-se que ele fosse desde a

infância influenciado por pessoas de condição

humilde; subseqüentemente o colocou para

alimentar-se com um aldeão pobre e então,

num período posterior, fez com que se

habituasse ao gênero de vida mais comum,

tomando cuidado, não obstante, de cultivar sua

mente e dirigir o seu desenvolvimento sem o exercício de constrangimento ou de rigor impróprio. Michel, que nos dá o mais minucioso relato dos seus primeiros anos, narra de modo encantador como era despertado ao som de alguma música agradável, e como aprendeu o latim antes do francês sem passar pela palmatória ou verter uma lágrima, graças ao professor alemão que o pai havia colocado próximo dele, o qual nunca se dirigiu a ele senão no idioma de Virgílio e Cícero.

O estudo do grego teve precedência. Aos seis anos o jovem Montaigne foi para o College de Guienne em Bordéus, onde teve como preceptores os mais eminentes estudiosos do século XVI: Nicolas Grouchy, Guerente, Muret e Buchanan. Aos treze anos ele havia passado por todas as classes e, como era destinado ao direito, deixou a escola para dedicar-se àquela ciência. Tinha então quase quatorze anos, mas esses anos precoces de sua vida estão envoltos em obscuridade. A próxima informação disponível é que em 1554 ele recebeu o cargo de conselheiro no Parlamento de Bordéus; em 1559 ele foi a Bar-le-Duc com a corte de Francisco II e no ano seguinte estava presente em Rouen para testemunhar a declaração de maioridade de Carlos IX. Não sabemos de que maneira ele estava envolvido nessas ocasiões.

Entre 1556 e 1563 ocorreu um importante incidente na vida de Montaigne: o começo da sua fantástica amizade com Etiènne de la Boetie a quem encontrou, como ele mesmo nos diz, por mera casualidade, na celebração de alguma festividade na cidade. Desde esse primeiro encontro os dois se acharam irresistivelmente atraídos um pelo outro; durante seis anos essa aliança teve primazia no coração de Montaigne e permaneceu depois em sua memória, quando a morte os separou.

Embora em seu próprio livro [Ensaios, I, 27] ele acuse severamente aqueles que, contrários à opinião de Aristóteles, contraem núpcias antes dos trinta e cinco, Montaigne não aguardou o período determinado pelo filósofo de Estagira e em 1566, aos trinta e três anos, casou-se com Françoise Chassaigne, filha de um conselheiro do Parlamento de Bordéus. A história da sua vida de casado compete em obscuridade com a de sua fase juvenil. Os biógrafos de Montaigne não estão de acordo; na mesma medida em que esclarecem nossa visão de tudo aquilo concernente aos seus pensamentos mais secretos e aos mecanismos íntimos de sua mente, guardam muitas reticências a respeito de suas funções públicas e administrativas, bem como de suas relações sociais.

O título de Cavalheiro da Ordem do Rei, que é concedido por Henrique II em uma carta e ele assume num preâmbulo; o que conta sobre as comoções das cortes onde passou uma parte de sua vida; as Instruções que ele escreveu sob ditado de Catarina 5

de Médici ao Rei Carlos IX; e sua nobre correspondência com Henrique IV, contudo, não deixam nenhuma dúvida quanto ao papel que ele desempenhou nos negócios públicos daquela época e acatamos, como prova incontestável da profundidade da estima em que ele era considerado pelos personagens mais exaltados, uma carta que foi a ele endereçada por Carlos na ocasião em que foi agraciado com a Ordem de St. Michael, a qual constituía, como ele próprio nos informa, a honra mais elevada da nobreza francesa.

De acordo com Lacroix du Maine, depois da morte do seu irmão primogênito Montaigne renunciou ao cargo de Conselheiro para dedicar-se à carreira militar; porquanto, se pudermos dar crédito ao Presidente Bouhier, ele nunca desempenhou qualquer atividade ligada ao exército. Contudo, várias passagens nos Ensaios parecem indicar que ele não somente assumiu o serviço militar, mas de fato participou de numerosas campanhas com os exércitos católicos. Deixe-me adicionar que em seu monumento ele é representado em cota de malha, com um elmo e manoplas do lado direito e um leão aos pés, tudo indicando, na linguagem dos emblemas funerários, que o falecido esteve engajado em algumas importantes proezas militares.

Sejam quais forem essas conjeturas é certo que nosso autor, chegando aos trinta e oito anos, resolveu devotar o tempo de vida restante ao estudo e contemplação; em seu aniversário, no último dia de fevereiro de 1571, criou uma inscrição filosófica em latim para ser gravada em uma das paredes do castelo (onde ainda pode ser vista) e cuja tradução tem este sentido: “No ano de Cristo… no seu trigésimo oitavo aniversário, às vésperas das Calendas de março, Michel Montaigne, já cansado das funções na Corte e das honrarias públicas, retirou-se completamente para conversar com as virgens instruídas onde ele pretende despender o quinhão restante que reservou para um tranqüilo recolhimento”.

Na ocasião de que tratamos, Montaigne era desconhecido para o mundo das letras, exceto como tradutor e editor.

Em 1569 Montaigne publicou uma tradução da Teologia Natural de Raymond de Sebonde, trabalho que havia empreendido apenas para agradar o pai. Em 1571, fez imprimir em Paris um certo ‘opúsculo‘ de Etiènne de la Boetie; essas duas realizações, inspiradas num caso pelo dever filial e noutro pela amizade, atestam que as razões afetivas predominavam sobre a mera ambição pessoal de um literato.

Podemos supor que Montaigne começou a compor os Ensaios logo após seu afastamento dos compromissos públicos; pois, de acordo com sua própria avaliação, observa o Presidente Bouhier, ele não quis caçar, construir, o trabalho de jardinagem ou a atividade agrícola; ocupava-se exclusivamente em leitura e reflexão, dedicando-se com satisfação à tarefa de fixar no papel seus pensamentos assim que eles ocorriam. Esses pensamentos transformaram-se num livro cuja primeira parte, que haveria de conferir imortalidade ao escritor, veio à luz em Bordéus no ano de 1580. Montaigne tinha então quarenta e sete anos; no passado ele havia sofrido durante alguns anos de cólicas e cálculos renais; tinha necessidade de distrair-se de suas dores e a esperança de obter algum alívio das águas medicinais, e nessa época empreendeu uma grande viagem. Como os relatos dessas viagens através da Alemanha e da Itália compreendem algumas particularidades altamente interessantes de sua vida e de sua história pessoal, parece valioso fornecer um esboço ou análise deles.

“A Viagem de que regressamos teve um curso simples de descrever”; diz o editor do Itinerário, “de Beaumont-sur-Oise a Plombieres, em Lorraine, nada foi suficientemente interessante para nos deter… devemos de ir mais longe, até Basle, da qual temos uma descrição, familiarizando-nos com sua situação física e política naquele período, bem como com o caráter de seus banhos. A passagem de Montaigne pela Suíça não é desprovida de interesse, pois ali vemos nosso viajante filosófico acomodar-se em todos os lugares aos costumes do país. Os hotéis, as provisões, a cozinha suíça, tudo lhe era agradável; parece como se ele realmente preferisse aqueles aos gostos e modos franceses nos lugares que estava visitando, e cuja simplicidade e liberdade (ou franqueza) concordava mais com seu próprio modo de vida e pensamento. Nas cidades onde ficou, Montaigne preocupou-se em observar os clérigos protestantes, para se familiarizar com todos os seus dogmas. Teve até mesmo algumas disputas ocasionais com eles.

“Deixando a Suíça ele foi para Isne, então um império sobre Augsburgo e Munique. A seguir prosseguiu para até o Tirol, onde ficou agradavelmente surpreso, depois das advertências que havia recebido; as inconveniências superficiais que sofreu deram-lhe ocasião de observar que por toda a sua vida tinha desconfiado das afirmações de outros com respeito aos países estrangeiros, que os gostos das pessoas estão de acordo com as noções do local de nascimento de cada um; e que, por conseguinte, ele havia aproveitado muito pouco do que lhe foi contado anteriormente.

“De chegada a Botzen, Montaigne escreveu a François Hottmann para dizer que ficara muito satisfeito com a visita à Alemanha e que a deixava com grande pesar, conquanto fosse agora para a Itália. Então atravessou Brunsol, Trent (onde se hospedou na Rosa), indo dali para Rovera; e aqui ele primeiro lamentou a escassez de lagostim, mas compensou a perda compartilhando trufas cozidas em óleo e vinagre, laranjas, cidras e azeitonas; e com tudo se deliciou. Depois de passar uma noite inquieta, quando levantou pela manhã ele apostou que havia alguma cidade ou distrito novo para ser visto, e ficamos conversando, com prazer e vivacidade”.

O secretário, a quem Montaigne ditou o seu Diário, assegura-nos que nunca o viu interessar-se tanto pelas pessoas e cenas das vizinhanças, e acredita que a completa mudança ajudou a mitigar os seus sofrimentos, concentrando sua atenção em outros pontos. Quando havia alguma reclamação de que ele tinha conduzido o seu grupo para fora da rota batida e então voltava para muito perto do ponto onde começaram, respondia que não tinha nenhum trajeto determinado; somente se propunha a visitar os lugares que não havia visto, e desde que não pudessem convencê-lo a trilhar o mesmo caminho duas vezes ou voltar a um lugar já visitado, não podia perceber nenhum prejuízo no seu plano.

Quanto a Roma, ele não se preocupou menos de visitar, já que todo o mundo faz isso; disse que nunca houve lacaio que não pudesse lhe contar tudo sobre Florença ou Ferrara. Também disse que se parecia com aqueles que estão lendo alguma história agradável ou um livro refinado, que temem acabar: ele sentia tanto prazer em viajar que antecipava com receio o momento de chegar ao lugar onde deveriam parar durante a noite.

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Vemos Montaigne viajando, da mesma forma que ele descreveu, completamente à vontade, sem o menor constrangimento; trilhando, da maneira que imaginou, as estradas ordinárias e comuns tomadas pelos turistas. As boas hospedarias, as camas macias e os panoramas agradáveis atraíam a sua atenção em todos os lugares, e nas observações sobre os homens e as coisas ele se limita principalmente ao lado prático. A consideração da saúde estava constantemente diante dele; foi por causa disto que, enquanto em Veneza (que o desapontou) aproveitou a oportunidade para observar, em benefício dos leitores, que sofreu um ataque de cólica e expeliu duas grandes pedras depois da ceia. Ao deixar Veneza ele foi sucessivamente para Ferrara, Rovigo, Pádua, Bolonha (onde teve uma dor de estômago) e Florença; e em todos os lugares, antes de desembarcar, instituiu como regra enviar alguns dos criados para averiguar onde seria obtida a melhor acomodação. Ele manifestou que as mulheres florentinas são as melhores do mundo, mas não teve uma opinião igualmente favorável da comida, que era menos abundante que na Alemanha e não tão bem servida. Ele nos faz perceber que na Itália lhe serviram pratos insossos, enquanto na Alemanha foram muito melhor temperados e servidos com uma variedade de molhos e condimentos. Mais adiante observou que os copos eram singularmente pequenos e os vinhos insípidos.

Depois de jantar com o Grão-Duque de Florença, Montaigne ignorou o interior do país – que não teve nenhuma fascinação para ele – e chegou rapidamente a Roma no último dia de novembro, entrando pela Porta del Popolo e hospedando-se no Bear.

Mas depois alugou, a vinte coroas por mês, quartos finamente mobiliados na casa de um espanhol, que incluía no preço a utilização do fogo da cozinha. O que mais o aborreceu na Cidade Eterna foi o número de franceses que encontrou, e todos o saudaram em sua língua nativa; mas quanto ao restante estava muito confortável e sua permanência estendeu-se por cinco meses. Uma mente como a dele, plena de elevadas reflexões clássicas, não deixou de ficar profundamente impressionada na presença das ruínas de Roma, e ele entesourou numa magnífica passagem do Diário os sentimentos do momento:

“Ele disse”, escreve o secretário, “que em Roma nada mais se vê que o céu debaixo do qual ela havia sido construída e um esboço do local onde se encontrava: que o conhecimento que dela tivemos era abstrato, contemplativo, não palpável aos sentidos atuais; que aqueles que disseram ter visto as ruínas de Roma foram pelo menos muito longe, pois a ruína de tão gigantesca estrutura deve ter inspirado maior reverência – nada mais era que o sepulcro dela. O mundo, invejoso dela e da sua prolongada dominação, foi compelido em primeiro lugar a quebrar em pedaços aquele corpo admirável; então, quando percebeu que os restos ainda atraíam adoração e temor, havia realmente enterrado a própria destruição. Quanto a esses pequenos fragmentos que ainda podiam ser vistos à superfície, apesar das agressões das intempéries e de todos os outros ataques, seguidamente repetidos, haviam sido favorecidos pela fortuna para constituir uma insignificante evidência daquela infinita grandeza que nada pôde extinguir completamente. Mas é provável que esses restos desfigurados tivessem menos direito a atenção e que os inimigos daquele renome imortal, em sua fúria, tenham se empenhado em primeiro lugar na destruição do que estava muito bonito e mais digno de preservação; e que os edifícios dessa Roma bastarda, erguidos sobre as antigas construções, embora pudessem estimular a admiração da era presente, traziam à sua lembrança os ninhos de corvos e pardais embutidos nas paredes e arcos das igrejas velhas, destruídas pelo Huguenotes. Novamente ele [o mundo] fica apreensivo, vendo o espaço que essa sepultura ocupa, que não seria capaz de recobrir inteiramente aquele poder, e que o próprio enterro havia sido enterrado. Além disso, ver um miserável monte de lixo com cacos de azulejo e cerâmica crescer (como faz desde a antiguidade) até a altura do Monte Gurson [em Perigord] e uma largura equivalente, parecia demonstrar uma conspiração do destino contra a glória e a preeminência daquela cidade, ao mesmo tempo propiciando uma prova moderna e extraordinária de sua passada grandeza.

Ele [Montaigne] observou ser difícil acreditar que tantos edifícios estivessem no local, considerando a área delimitada por quaisquer das sete colinas e particularmente pelas duas mais favoráveis, os montes Capitolino e Palatino. Julgando apenas pelo que restou do Templo da Concórdia, ao largo do Forum Romanum, cujo desabamento parece bem recente – como uma enorme escarpa de montanha em horríveis rochedos – não parece que mais de dois edifícios tais pudessem ter encontrado espaço no Capitolino, sobre o qual no período havia de vinte e cinco a trinta templos, além de habitações particulares.

“Mas, de fato, há pouquíssimas probabilidades de que as visões que temos da cidade estejam corretas: seu traçado e forma têm mudado infinitamente; por exemplo, o Velabrum, devido ao nível rebaixado, recebeu os esgotos da cidade, tornou-se um lago, foi elevado por acumulação artificial a uma altura similar à das outras colinas, e Monte Savello tem, a bem da verdade, simplesmente crescido sobre as ruínas do teatro de Marcellus. Ele acreditava que um romano antigo não reconheceria novamente o local. Acontecia freqüentemente que ao cavar a terra os operários descobrissem o capitel de alguma coluna alta que, embora enterrada, mantinha-se na vertical. As pessoas do povo não têm nenhum recurso além dos alicerces dos arcos e abóbadas das casas antigas sobre os quais, como em lajes de pedra, erguem os seus modernos palácios. É fácil constatar que várias das ruas antigas estão trinta pés abaixo daquelas em uso no momento”.

Embora céptico como se exibe nos livros, Montaigne manifestou durante sua curta estada em Roma um grande respeito pela religião. Ele solicitou a honra de ser recebido para beijar os pés do Santo Padre, Gregório XIII e o Pontífice o exortou a prosseguir sempre na devoção até agora mostrados à Igreja e ao serviço do Mais Cristão dos Reis.

“Depois disto”, diz o editor do Diário, “vimos Montaigne despendendo todo o seu tempo em excursões pelas redondezas, a pé ou a cavalo, em visitas e observações de toda natureza. As igrejas, as estações, até mesmo as procissões e os sermões; e depois os palácios, os vinhedos, os jardins, as diversões públicas como o Carnaval, etc – nada foi negligenciado. Ele presenciou a circuncisão de uma criança judia e colocou no papel o mais minucioso relatório da operação. Ele se encontrou em San Sisto com o embaixador moscovita, o segundo que tinha vindo para Roma desde o pontificado de Paulo III. Esse ministro fez despachos de sua corte para Veneza, endereçados ao Grande Governador de Signory. Naquele momento a corte de Moscou tinha limitadas relações com as outras potências da Europa e eram muito incorretas as suas informações, pensando que Veneza fosse um território dependente da Santa Sé”.

7

De todos os particulares com que ele nos abasteceu durante sua permanência em Roma, a seguinte passagem em referência aos Ensaios não é a menos singular: “O Mestre do Palácio Sagrado devolveu-lhe os Ensaios, corrigidos de acordo com os pontos de vista dos monges instruídos. ‘Ele só tinha conseguido formar um juízo deles‘, disse Montaigne, ‘através de certo monge francês, não compreendendo o próprio idioma francês‘“ – deixemos que o próprio Montaigne relate a estória – “e recebeu com tanta complacência as minhas escusas e explanações sobre cada uma das passagens que tinham sido censuradas pelo monge francês que acabou por me dar liberdade para revisar o texto tranqüilamente, sujeito apenas à minha própria consciência. Pelo contrário, eu lhe implorei que cumprisse o parecer das pessoas que haviam me criticado, confessando entre outras coisas, como, por exemplo, o meu emprego da palavra fortuna ao citar os poetas históricos, em minha apologia de Juliano, em minha reprovação da teoria de que aquele que reza deve estar naquele período isento de inclinações viciosas; item, quanto à minha estimativa da crueldade como alguma coisa além da simples morte; item, sobre o meu ponto de vista de que uma criança deve ser levada a fazer de tudo, e assim por diante; que essas eram as minhas opiniões e eu não as considerava injustas; quanto às outras coisas, disse-lhe que o revisor não alcançou o meu propósito. O Mestre, que é um homem sábio, apresentou-me muitas desculpas e deixou-me a conjeturar se ele não concordava com as melhorias sugeridas; e chegou até mesmo a defender-me engenhosamente em minha própria presença contra outra pessoa (um italiano, também) que se opôs aos meus sentimentos”.

Tal foi o que se passou entre Montaigne e esses dois personagens naquele instante; mas quando o Ensaísta estava de partida e foi despedir-se, usaram linguagem muito diferente com ele. “Eles me pediram”, ele diz, “para não dar nenhuma atenção à censura passada sobre o meu livro, no qual outros franceses informaram que havia muitas coisas tolas; acrescentando que eles reverenciavam a minha inclinação afetuosa pela Igreja e minha capacidade; e tinham tão elevado conceito de minha integridade e consciência que iriam deixar-me fazer as tais alterações no livro como era apropriado, quando fosse reimprimi-lo; entre outras coisas, a palavra fortuna. Para se desculparem pelo que haviam dito contra o meu livro, mencionaram como exemplo os recentes trabalhos de cardeais e outros clérigos de excelente reputação que tinham sido acusados por falhas similares, as quais de forma alguma afetaram as reputações dos autores ou da publicação como um todo; eles me pediram que emprestasse à Igreja o apoio da minha eloqüência (foram suas palavras literais) e fizesse uma permanência mais prolongada no lugar, onde eu deveria ficar livre de qualquer intrusão adicional por parte deles. Pareceu-me que nos apartamos realmente como bons amigos”.

Antes de deixar Roma, Montaigne recebeu o seu diploma de cidadania, pelo qual se sentiu amplamente lisonjeado; e depois de uma visita a Tivoli ele partiu para Loretto, parando em Ancona, Fano e Urbino. No começo de maio de 1581 chegou a Bagno della Villa, onde se estabeleceu, disposto a tentar as águas. Lá, encontramos no Diário, por sua própria vontade o Ensaísta viveu na mais rígida conformidade com o regime e daqui em diante só ouvimos falar da dieta, do efeito gradualmente ocasionado pelas águas em seu organismo, da maneira como as utilizou; em poucas palavras, ele não omite uma vírgula quanto às circunstâncias ligadas à sua rotina diária, seus hábitos corporais, seus banhos e tudo o mais. Não era mais nenhum diário de viajante que ele mantinha, mas o relatório de um inválido, atento aos mínimos detalhes da cura que ele se empenhava em concretizar: uma espécie de caderno de memorandos no qual anotava tudo que fez e sentiu, para benefício do médico de casa, a cujos cuidados ficaria a sua saúde quando do seu retorno, bem como o atendimento das suas fraquezas subseqüentes. Montaigne dá isso como razão e justificativa para aqui detalhar essa expansão, que para o seu pesar havia omitido, fazendo assim suas visitas a outros banhos que poderiam tê-lo poupado da dificuldade de agora escrever com tal verborragia; mas é talvez uma razão melhor aos nossos olhos do que ele dizer que escreveu para seu próprio uso.

Encontramos nesses relatórios, todavia, muitos detalhes que são valiosas ilustrações dos costumes locais. A maior parte das entradas no Diário, dando conta dessas águas e das viagens até a chegada de Montaigne à primeira cidade francesa, em sua rota para casa, está em italiano, porque ele desejou exercitar-se naquele idioma.

A minuciosa e constante vigilância de Montaigne sobre sua saúde e sua pessoa poderia levar à suspeita daquele excessivo medo da morte que se degenera em covardia. Mas não era suficiente o medo da cirurgia de cálculos, naquele tempo realmente formidável? Ou talvez ele tivesse o mesmo modo de pensar do poeta grego, de quem Cícero nos dá esta declaração: “Eu não desejo morrer; mas o pensamento de estar morto me é indiferente”. Vamos ouvir, porém, o que ele diz a si mesmo e muito francamente quanto a esse ponto: “Seria muito fraco e efeminado de minha parte se, certo como estou de sempre me achar em posição de dever sucumbir naquele caminho [para a pedra ou cálculo renal] e da morte que vem mais e mais próxima de mim, eu não fizer algum esforço, antes de chegar o momento, para suportar a provação com firmeza. Pois a razão prescreve que devemos aceitar com jovialidade o que apraza a Deus nos enviar. Então o único remédio, a única regra e a exclusiva doutrina para evitar os males pelos quais os seres humanos estão rodeados, sejam quem forem, é a resolução de agüentá-os até onde nossa permita a natureza, ou acabar pronta e corajosamente com eles”.

Montaigne ainda estava no balneário de La Villa quando, no dia 7 de setembro de 1581, soube por carta que tinha sido eleito Prefeito da cidade de Bordéus no 1º de agosto precedente. Essa informação o fez apressar sua partida; e de Lucca prosseguiu para Roma. Novamente permaneceu algum tempo naquela cidade e lá recebeu uma carta dos conselheiros de Bordéus, notificando-o oficialmente da sua eleição para a Prefeitura e convidando-o a retornar tão rápido quanto possível. Montaigne partiu para a França acompanhado pelo jovem D‘Estissac e vários outros cavalheiros que o escoltaram por uma distância considerável; mas ninguém voltou para a França com ele, nem mesmo seu companheiro de viagem. Ele passou por Pádua, Milão, Monte Cenis e Chambery; dali foi para Lyons, e não perdeu nenhum tempo em refugiar-se em seu castelo depois de uma ausência de dezessete meses e oito dias.

Vimos há pouco que durante a sua ausência na Itália o autor dos Ensaios foi eleito prefeito de Bordéus. “Os cavalheiros de Bordéus”, diz ele, “elegeram-me Prefeito de sua cidade enquanto eu estava distante da França e longe de pensar em tal coisa.

Peço desculpas; mas eles deram a entender que eu estava fazendo algo errado em proceder assim, e que é também às ordens do rei que eu deveria ficar”. Esta é a carta que Henrique III escreveu a ele naquela ocasião: 8

Monsieur de Montaigne: – Visto que tenho grande apreço por sua fidelidade e zelosa devoção ao meu serviço, foi com prazer que soube de sua escolha para a prefeitura da minha cidade de Bordéus. Tive o agradável dever de confirmar a nomeação, e o fiz com a maior boa vontade, vendo o que foi feito durante sua prolongada ausência; portanto é meu desejo, e eu solicito e ordeno expressamente que você proceda sem demora e assuma os deveres para os quais recebeu tão legítima convocação. E

assim você agirá de modo que muito me agradará, enquanto o contrário será muito inapropriado. Rezo a Deus, M. de Montaigne, para conservá-lo em sua santidade.

“Escrito em Paris, 25 de novembro de 1581.

“Henrique.

“A Monsieur de Montaigne, Cavaleiro de minha Ordem, Cavalheiro Efetivo de minha Câmara, que no momento encontra-se em Roma”.

Montaigne, em seu novo emprego – o mais importante da província – obedeceu o axioma de que um homem não pode recusar um dever, embora absorva seu tempo e atenção e envolva até mesmo o sacrifício do seu sangue. Colocado entre dois partidos extremistas, já no ponto de exaustão, ele se mostrou na vida prática o que está em seu livro, um amigo da política moderada e mediadora. Tolerante por caráter e por princípio ele pertenceu, como todas as grandes mentes do décimo sexto século, àquela seita política que buscava melhorar as instituições sem destruí-las; e dele podemos dizer o que ele mesmo disse de La Boetie: “que possuiu aquela máxima indelével impressa em sua mente: obedecer e submeter-se religiosamente às leis sob as quais ele nasceu. Afetuosamente ligado à tranqüilidade do seu país e inimigo de mudanças e inovações, ele teria preferido empregar os meios de desencorajamento e supressão de que dispunha a promover o sucesso deles”. Tal era a plataforma de sua administração.

Montaigne aplicou-se de maneira especial à manutenção da paz entre as duas facções religiosas que naquele momento dividiam a cidade Bordéus; e ao fim dos dois primeiros anos de gestão (em 1583), seus reconhecidos concidadãos lhe outorgaram a prefeitura por outros dois anos, uma distinção que só havia sido desfrutada, como ele nos diz, em duas ocasiões anteriores. No término de sua carreira oficial, depois de quatro anos de exercício, ele bem poderia dizer que não deixou ódios para trás nem foi causador de injúrias.

Em meio às diligências de governo, Montaigne encontrou tempo para revisar e ampliar os Ensaios, que desde o seu aparecimento em 1580, recebiam contínuos acréscimos na forma de capítulos ou apontamentos adicionais. Mais duas edições foram impressas em 1582 e 1587; durante esse tempo o autor, enquanto fazia alterações no texto original, havia composto parte do Terceiro Livro. Ele foi a Paris fazer os arranjos para a publicação do seu trabalho ampliado, resultando numa quarta impressão, em 1588.

Nessa ocasião Montaigne permaneceu por algum tempo na capital e foi então que encontrou Mademoiselle de Gournay pela primeira vez. Dotada de um espírito ativo e inquisidor e, acima de tudo, possuindo um temperamento vivaz e saudável, em sua infância Mademoiselle de Gournay fora carregada para a controvérsia, a aprendizagem e o conhecimento por aquela maré iniciada no século XVI. Ela estudou latim sem um professor; e quando, aos dezoito anos, tornou-se acidentalmente possuidora de uma cópia dos Ensaios, foi transportada com deleite e admiração.

Ela deixou o castelo de Gournay para vir vê-lo. Com relação a essa jornada de simpatia, não podemos fazer melhor que repetir as palavras de Pasquier: “Aquela jovem senhora, ligada a diversas das maiores e mais nobres famílias de Paris, propôs a si mesma nenhum outro casamento a não ser com sua honra, enriquecida pelo conhecimento obtido de bons livros e, acima de todos os outros, dos Ensaios de M. de Montaigne, que no ano 1588 fez uma prolongada permanência na cidade de Paris, para onde ela foi com a finalidade conhecê-lo pessoalmente; sua mãe, Madame de Gournay, levou-os de volta consigo para o seu castelo onde, em duas ou três diferentes ocasiões, o autor passou três meses inteiros como a mais bem-vinda das visitas”. É dessa época que data a adoção de Mademoiselle de Gournay como filha de Montaigne, uma circunstância que tendeu a lhe conferir imortalidade numa medida muito maior que as próprias produções literárias dela.

Deixando Paris, Montaigne ficou em Blois por algum tempo para comparecer à conferência dos Estados-Gerais.

Desconhecemos a sua participação naquela assembléia: mas é sabido que no período ele estava comissionado para negociar entre Henrique de Navarre (depois Henrique IV) e o Duque de Guise. Sua vida política é praticamente um espaço em branco, mas De Thou nos assegura que Montaigne desfrutou da confiança das principais personalidades do seu tempo. De Thou – que o chama sem constrangimento de homem honesto – conta-nos que entrando com ele e Pasquier na corte do Castelo de Blois, ouviu-o pronunciar algumas opiniões muito notáveis sobre eventos contemporâneos, e adiciona que Montaigne tinha previsto que as dificuldades da França não poderiam terminar sem testemunhar-se a morte de Henrique de Navarre ou do Duque de Guise.

Ele havia se tornado completamente senhor dos pontos de vista desses dois príncipes, tanto que disse a De Thou que o Rei de Navarre estaria preparado para abraçar o Catolicismo se não tivesse receio de ser abandonado por seu partido, e que o Duque de Guise, de sua parte, não tinha nenhuma particular aversão pela Confissão de Augsburg, pela qual o Cardeal de Lorraine, tio dele, lhe havia inspirado alguma preferência, não fosse pelo perigo envolvido em abandonar a comunhão de Romish. Para Montaigne teria sido fácil maquinar – como nós hoje chamamos – uma grande influência na política e criar para si mesmo uma elevada posição, mas seu lema era: ‘Otio et Libertati’ [repouso e liberdade]; então voltou para casa tranqüilamente e compôs mais um capítulo para sua próxima edição, este sobre as inconveniências da Grandeza.

O autor dos Ensaios tinha agora cinqüenta e cinco anos. A enfermidade que o atormentava só fez evoluir cada vez pior com a idade; e ele ainda se ocupava continuamente em leitura, meditando e composição. Montaigne empregou os anos de 1589 a 1591 fazendo novas adições ao seu livro; e mesmo com a aproximação da velhice poderia razoavelmente prever muitos momentos felizes, quando então sofreu um ataque de amigdalite, privando-o da capacidade de expressão vocal. Pasquier, que nos deixou alguns pormenores das suas últimas horas, relata que ele permaneceu três dias em completa posse de suas faculdades, 9

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mas incapaz de falar, de forma que o compeliram a recorrer à escrita para tornar conhecidos os seus desejos; e como sentia o fim aproximar-se, implorou que a esposa chamasse certos cavalheiros que moravam nas imediações para possibilitar uma última despedida. Quando eles chegaram, Montaigne pediu que uma missa fosse celebrada no quarto; assim que o padre ergueu o anfitrião da cama, este caiu para a frente com os braços estendidos adiante, e então expirou. Ele estava em seu sexagésimo ano.

Era o dia 13 de setembro de 1592.

Montaigne foi sepultado perto de sua própria casa, mas alguns anos depois seus restos mortais foram removidos para a igreja de Santo Antônio em Bordéus, onde ainda hoje se encontram. Em 1803 o seu monumento fúnebre foi restaurado por um descendente.

Em 1595 Mademoiselle de Gournay publicou uma nova edição dos Ensaios, a primeira com as últimas emendas do autor, retiradas de uma cópia a ela apresentada pela viúva de Montaigne e a qual não foi recuperada, embora se saiba que investigaram a existência dela alguns anos depois da data da impressão, realizada com autorização.

Friamente como as produções literárias de Montaigne parecem ter sido recebidas pela geração que sucede imediatamente a sua própria época, o gênio dele cresceu na avaliação no século XVII, quando surgiram grandes espíritos tais como La Bruyère, Molière, La Fontaine e Madame de Sevigne. “Oh”, exclamou Chatelaine des Rochers, “que companhia fundamental ele é, minha nossa! Ele é meu velho amigo; e ele é assim apenas pela razão, ele sempre parece novo. Meu Deus! Como aquele livro é cheio de sentido!” Balzac afirmou que ele tinha levado a razão humana tão longe e tão alto quanto poderia ir, tanto em política quanto em moral. Por outro lado, Malebranche e os escritores de Port Royal estavam contra ele; alguns repreendiam a licenciosidade dos seus escritos; outros a sua impiedade, materialismo e epicurismo. Até mesmo Pascal, que havia lido cuidadosamente os Ensaios e não tinha obtido pouco aproveitamento deles, não poupou suas invectivas.

Mas Montaigne sobreviveu à difamação. Conforme o tempo passou, seus admiradores e ‘emprestadores‘ aumentaram em número; e o Jansenismo, que o encareceu no século XVIII, pode não ser a sua menor recomendação no século XIX. Certamente temos aqui, no geral, um homem de primeira classe; e uma prova do seu gênio magistral parece ser que os méritos e as belezas dele são suficientes para nos induzir a desconsiderar os seus defeitos e falhas, que seriam fatais num escritor inferior.

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Capítulo I

Sobre a vantagem e a honestidade

Nenhum homem está livre de dizer disparates; mas o pior é quando alguém labuta para fazer-se de tolo:

“Nae iste magno conatu magnas nugas dixerit”

“É certo que ele, brevemente, dirá uma grande besteira com muito esforço” [Terêncio].

Isso não me diz respeito; os meus deslizam de mim com tão pouco cuidado quanto são de pouca importância e isso é o melhor para eles. Deles agora mesmo me separaria pelo que valem e não os compraria nem os venderia pelo que pesam. Eu os transmito ao papel, assim como faço à primeira pessoa que encontro; e que isto é verdadeiro, observe pelo que se segue.

Para quem a deslealdade não deve ser odiosa, quando Tibério rejeitou-a numa coisa de tão grande importância para ele? Da Alemanha recebeu pela palavra de um enviado que se pensasse em acordo eles o livrariam de Armínio através do veneno: este era o inimigo mais poderoso que os Romanos já tiveram, que tão ignominiosamente os havia derrotado sob Varus e o único a impedir o seu engrandecimento naquela região.

Ele retornou a resposta: “que o povo de Roma estava acostumado a vingar-se dos seus inimigos às claras e com suas espadas nas mãos, não clandestinamente e através de fraude”; em que renunciava ao lucrativo pelo sincero. Você dirá que ele era um arrogante; eu também o creio: e isso não é nada excepcional em homens da profissão dele. Mas o reconhecimento da virtude não é menos válido na boca daquele que a odeia, visto que assim como a verdade o compele, se ele não a receber em seu íntimo, pelo menos há de vesti-la como ornamento.

Nossas estruturas externa e interna estão cheias de imperfeições, mas não há nada inútil na natureza, nem mesmo inútil em si mesmo; nada se insinua neste universo que não tenha nele algum assento e lugar apropriado. Nosso ser é cimentado com qualidades doentias: ambição, ciúme, inveja, vingança, superstição e desespero têm em nós uma posse tão natural que sua imagem é discernida nas bestas; mais ainda, a crueldade, um vício tão antinatural; pois até mesmo no meio da compaixão nós sentimos por dentro não sei que titilação agridoce de natureza perversa no prazer em ver os outros sofrerem; e as crianças sentem isso:

“Suave mari magno, turbantibus aequora ventis,

E terra magnum alterius spectare laborem:”

“É doce, quando os ventos perturbam as águas do vasto oceano,

da terra testemunhar o perigo de outras pessoas” [Lucrécio]

nas sementes de qualidades que, sendo despidas pelo homem, destruiriam as condições fundamentais da vida humana.

Igualmente, em todos os governos há ofícios necessários, não apenas miseráveis mas também viciosos. Os vícios ajudam a compor as costuras das nossas emoções, assim como os venenos são úteis para a conservação da saúde. Se eles se tornam desculpáveis porque nos são úteis e a necessidade comum encobre suas verdadeiras qualidades, vamos resignar essa prenda aos cidadãos mais fortes e mais corajosos que sacrificam sua honra e consciência, como outros antigos sacrificaram suas vidas, pelo bem do seu país: nós, que somos mais fracos, admitimos que assim é mais fácil e menos perigoso. A prosperidade pública exige que os homens devam trair, mentir e massacrar; deixemos essa incumbência a homens que são mais obedientes e mais submissos.

Com sinceridade, fiquei aborrecido de ver freqüentemente os juízes, através de fraude e falsas esperanças de favoritismo ou perdão, persuadirem um criminoso a confessar seu delito, nisso fazendo uso de logro e impudência. Isso se torna legal e o próprio Platão, que encorajava essa maneira de agir, fornece outro meio mais satisfatório para minha própria preferência: essa é uma espécie de justiça maliciosa e eu a vejo como não menos ferida por si mesma que pelos outros. Não faz muito eu disse em discurso a algum acompanhante que dificilmente seria levado a trair o meu príncipe por um homem particular e que ficaria muito envergonhado de trair qualquer homem particular pelo meu príncipe; odeio não somente enganar alguém, mas que qualquer um venha a enganar-me; não disporei o assunto nem darei ocasião a qualquer coisa assim.

No pouco que tive de mediar entre nossos príncipes nas divisões e subdivisões pelas quais estamos neste momento rasgados em pedaços, fui muito cuidadoso para que eles não fossem enganados por mim e nem enganassem outros por meu intermédio.

As pessoas daquele tipo de comércio são muito reservadas; pretendem ter o máximo de moderação imaginável e as opiniões mais próximas daqueles com quem têm de lidar; eu exponho minha opinião formal e depois o meu método mais apropriado; um negociador brando, um aprendiz que antes falha em sua obrigação do que anseia para si mesmo. E ainda tive até agora tanta sorte (pois sem dúvida a Fortuna tem a maior participação nisso), que poucas daquelas coisas passaram de mão em mão com menor suspeita ou mais favoráveis à privacidade. Tenho um modo livre e aberto que na primeira reunião facilmente se insinua e obtém a convicção daqueles com quem devo negociar. A sinceridade e a pura verdade, que a idade de alguma forma torna correntes; e além disso a liberdade e a independência de um homem que trata sem qualquer interesse próprio nunca são odiosas ou suspeitas e ele pode muito bem empregar a resposta de Hipérides aos Atenienses que reclamaram do seu modo franco de falar: “Senhores, não considerem se sou ou não livre, mas se não estou sendo subornado ou não tenho alguma vantagem para meus próprios negócios”. Minha liberdade de falar também me livrou facilmente de toda a suspeita de acobertar por minha veemência, nada deixando de dizer, por mais expressiva e amarga que fosse (de forma que eu não poderia ter dito nada pior por trás deles) e assim prossegui numa exibição manifesta de simplicidade e indiferença. Não almejo nenhum outro fruto da ação além da própria ação e não acrescento a ela nenhum longo argumento ou proposições; cada ação joga seu próprio jogo e ganha se puder.

Quanto ao resto, não sou agitado por nenhuma paixão com respeito aos grandes, seja de amor ou de ódio, nem é minha vontade cativada por uma injúria ou compromisso em particular. Vejo nossos reis simplesmente com um afeto leal e respeitoso, 11