Ensaios de Geografia Crítica. História, Epistemologia e (Geo)Política por José William Vesentini - Versão HTML

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Ensaios de

Geografia Crítica

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José William Vesentini

Ensaios de Geografia Crítica

História, epistemologia e (geo)política

EP

Editora Plêiade

São Paulo

2009

Copyright © 2009, José William Vesentini

Direitos Reservados. Proibida a reprodução, mesmo parcial, por qualquer processo, sem

autorização expressa do autor e do editor.

Capa: Débora Gomes Déscio.

Revisado pelo autor.

Ficha de Catalogação

Vesentini, José William

V575e Ensaios de geografia crítica: história, epistemologia e

(geo)política / José William Vesentini. - São Paulo: Plêiade, 2009.

220 p.

ISBN: 978-85-7651-111-3

1. Geografia – História 2. Geografia - Filosofia I. Título

CDU 91

(Bibliotecária responsável: Elenice Yamaguishi Madeira – CRB 8/5033)

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Fones: (11) 2579-9863 – (11) 2579-9865

2009

Impresso no Brasil

SUMÁRIO

Apresentação ...........................................................................................7

Uma ciência periférica? Reflexões sobre a história e a

epistemologia da geografia ...................................................................11

Controvérsias geográficas: epistemologia e política .............................53

O que é crítica? Ou qual é a crítica da geografia crítica? ..................101

Geografia crítica no Brasil: uma interpretação depoente ....................127

A questão da natureza na geografia e no seu ensino ...........................158

A atualidade de Kropotkin, geógrafo e anarquista ..............................173

A crise da geopolítica brasileira tradicional:

existe hoje uma “nova geopolítica brasileira”? ...................................197

Golbery do Couto e Silva, o papel das forças armadas

e a defesa do Brasil .............................................................................211

APRESENTAÇÃO

Os escritos aqui reunidos foram elaborados em distintas ocasiões –

alguns em 2001 e outros mais recentemente – e abordam, sob diversos

prismas, a história, a epistemologia e a política da/na geografia, além

da geopolítica brasileira. Alguns são inéditos e outros foram publicados

anteriormente em revistas acadêmicas e/ou eletrônicas, mas, em geral,

foram lidos por poucos em função da fraca tiragem e da escassa

penetração desse tipo de periódico. A ordem em que se encontram foi

uma escolha subjetiva. De fato, cada um deles é autônomo e pode ser

lido independentemente dos demais.

Os dois primeiros textos desta coletânea tratam da história e da

epistemologia da geografia. O primeiro discute o que é cientificidade,

qual é a natureza epistemológica da geografia e em que sentido se pode

afirmar que as ciências humanas, como também a geografia, são

ciências periféricas. Esse ensaio na verdade procura evidenciar como o

projeto epistemológico da geografia, no século XIX – em especial com

Humboldt –, ficou à margem tanto da crescente especialização nas

ciências naturais, que abandonaram o ideal grego de um estudo

integrado da natureza, como também da noção historicista – o homem

como um produto do tempo histórico, e não mais das condições

naturais, que através de revoluções atinge a sua maioridade – que

estruturou as ciências humanas nesse período.

O segundo ensaio versa sobre aqueles que provavelmente foram os três

mais importantes debates ocorridos na história da geografia: a polêmica

sobre o determinismo, deflagrada por autores franceses a partir da

leitura de uma obra de Ratzel; a discussão a respeito do

7

José William Vesentini

excepcionalismo da geografia ou sobre que tipo de ciência ela é,

ocorrido nos Estados Unidos nos anos 1950; por fim, o embate entre

Kropotkin e Mackinder, na Inglaterra vitoriana, sobre o que é ou o que

deveria ser a geografia. Procuramos demonstrar que essas três

polêmicas se entrecruzam e continuam atuais, ou seja, prosseguem

sendo questões epistemológicas e políticas cruciais da ciência

geográfica.

Os escritos quarto e cinco encetam uma discussão sobre o que é crítica,

como esta vem sendo entendida na geografia crítica e quando e como

esta se instalou no Brasil. Isso significa que também eles têm um

caráter histórico e epistemológico, além de sua evidente expressão

política. O quinto ensaio enfoca a questão da natureza na geografia e no

seu ensino. Também é uma contribuição para o que deve ser afinal uma

geografia crítica, ou melhor, sobre como ela deve incorporar a questão

da natureza, embora neste caso circunscrita à atividade educativa.

O sexto texto é um longo comentário sobre a obra do geógrafo e

anarquista Kropotkin, o grande marginalizado nos estudos relativos à

história do pensamento geográfico. Procuramos demonstrar a inegável

atualidade das ideias desse pensador avant-garde do final do século

XIX e inícios do XX. Apesar de a primeira versão desse artigo ter sido

redigida em 1986, como introdução a uma antologia de textos do

intelectual russo, reescrevemos e ampliamos o escrito para incluí-lo

nesta obra, o que significa que em grande parte ele é original.

Finalmente, os dois últimos ensaios desta antologia tratam da

geopolítica brasileira. Um deles discute o significado da escola

geopolítica brasileira e porque ela ingressou numa crise a partir dos

anos 1980. O outro aborda determinadas ideias de Golbery do Couto e

Silva, o mais célebre dessa plêiade de pensadores geopolíticos que

desde a década de 1920 procurou (re)pensar os rumos do Brasil.

Qual seria a unidade deste conjunto de ensaios? Eles representam

tentativas, em diversos assuntos – embora não tão afastados –, de

construir uma geografia crítica a partir do significado moderno e

kantiano desse adjetivo. Crítica que não se confunde meramente com

“falar mal” dos objetos enfocados, entendimento amiúde encontrável

entre alguns geógrafos autoproclamados radicais ou críticos. Por sinal,

8

Ensaios de geografia crítica

procuramos também mostrar as diferenças, mesmo que relativas, entre

uma atitude crítica e uma radical. Objetivamos construir uma geografia

crítica, antes de mais nada, democrática e pluralista no sentido

epistemológico apontado, por exemplo, por Habermas1. Pluralismo

epistemológico que dialoga com várias correntes do pensamento, que

aproveita elementos de cada uma, embora sempre procurando manter

uma coerência teórica e uma correspondência com os fatos. Pode-se,

ainda, recordar da leitura de Edgar Morin da complexidade

epistemológica2, na qual não se trata mais de ser positivista (embora

tenha algo aqui a ser resgatado), nem dialético (idem), tampouco

apenas fenomenológico, estruturalista ou historicista, mas aceitar a

complexidade do real e a validade, pelo menos parcial, de cada uma

dessas perspectivas em determinados itens ou aspectos.

Incoerência? Pontos de vista contraditórios e irreconciliáveis, como

diriam os dogmáticos? De maneira nenhuma. Até poderia ser um

discurso incoerente se não houvesse uma coesão teórica interna e,

principalmente, uma preocupação em se adequar aos fatos. Sem a

menor intenção de nos igualarmos e estes, cabe lembrar que, conforme

esclareceu Hannah Arendt3, todo grande pensador utiliza ideias

aparentemente contraditórias, fazendo uso, à sua maneira, de autores

clássicos variados e que construíram teorias por vezes tidas como

antinômicas.

Se esta obra suscitar a crítica e o debate estaremos plenamente

satisfeitos. Este é precisamente o seu objetivo: apresentar outros

olhares, outras falas sobre determinados temas onde vem imperando, no

Brasil, nos últimos anos, uma visão unilateral e hegemônica.

Acreditamos no espírito acadêmico e científico, isto é, de livre debate,

de crítica fundamentada, de crescimento a partir do diálogo com os

outros. A construção do conhecimento, inclusive nas ciências, é uma

atividade social alicerçada numa racionalidade comunicativa. Dessa

forma, quod scripsi, scripsi; e urbi et orbi. Que venham agora as

críticas, exceto – como ironizaram dois intelectuais alemães que viviam

1 HABERMAS, J. A ética da discussão e a questão da verdade. São Paulo, Martins Fontes, 2007.

2 MORIN, E. Introduction à La pensée complexe. Paris, Seuil, 2005.

3 ARENDT, H. Entre o passado e o futuro. São Paulo, Perspectiva, 1979.

9

José William Vesentini

na Inglaterra vitoriana – aquelas roedoras dos ratos. Que venham enfim

os reclames, as correções, as discordâncias, os adendos, os acréscimos,

a complementação... Não existe um destino melhor para qualquer obra

intelectual do que ter sido útil para o avanço de algum tipo de

conhecimento.

São Paulo, abril de 2009.

10

Uma ciência periférica?

Reflexões sobre a história e a epistemologia da geografia

A ciência, as ciências. Se dizemos ‘a ciência’, acabamos

fazendo um discurso completamente abstrato que esquece

a diversidade entre as ciências [...] É ingênua a ideia que o

conhecimento científico é reflexo do real; ele é uma

atividade construída com todos os ingredientes da

atividade humana [...] A ideia de certeza teórica, enquanto

certeza absoluta, deve ser abandonada. Outra conclusão: a

ciência é impura. A ideia de encontrar uma demarcação

nítida e clara da ciência pura, de fazer uma demarcação

entre o científico e o não científico, é errônea. Também

dizemos que não existe uma fronteira nítida entre ciência e

filosofia [...] A ciência deve ser considerada como um

processo recursivo autoecoprodutor. Nada ilustra melhor

essa ideia que a ideia de objetividade: é o produto último

da atividade científica e esse produto se torna a causa

primeira e o fundamento de onde ela vai partir novamente

[...] O desenvolvimento das ciências da terra e da ecologia

revitalizam a geografia, ciência complexa por princípio,

uma vez que abrange a física terrestre, a biosfera e as

implantações humanas. Marginalizada pelas disciplinas

vitoriosas, privada do pensamento organizador [...] a

geografia reencontra suas perspectivas multidimensionais,

complexas e globalizantes. Desenvolve seus pseudópodes

geopolíticos e reassume sua vocação originária. (EDGAR

MORIN).

11

José William Vesentini

Não é fácil definir o que é ciência – ou ciências, no plural. Ela possui

certa unidade e, outrossim, uma grande diversidade. É diferente e, ao

mesmo tempo, tem similaridades e inúmeros pontos de contato com

outras modalidades do conhecimento humano: o senso comum, as

doutrinas religiosas, a filosofia, as expressões artísticas, os mitos, o

folclore e as tradições etc. Existe, praticamente, um consenso entre os

epistemólogos, os historiadores e os filósofos da ciência, sobre haver

uma diferença perceptível – uma ruptura e também, num certo sentido,

uma continuidade – entre a ciência moderna e os saberes clássicos, na

verdade filosóficos, que são vistos como a ciência tradicional. A

ciência moderna nasceu ou começou a ser construída no século XVII. É

certo, ela fez e continua a fazer uso de muitos elementos herdados

daqueles saberes clássicos, tais como certo rigor e espírito sistemático

(encontráveis, por exemplo, num Aristóteles), além da lógica e da

matemática existentes desde a antiguidade. Alguns chegam até mesmo

a afirmar que “a ciência nada mais é que o senso comum refinado e

disciplinado”1.

Provavelmente sim, especialmente nos seus albores, com a ciência

tradicional, e também nas inúmeras teorias e classificações científicas

mais simples existentes até os dias de hoje. Em todo o caso, a ciência

moderna é vista como algo diverso da tradicional, apesar de essa

diversidade ser objeto de polêmicas. A ciência moderna é mais

empírica, dizem alguns; ou tem como base a indução, afirmam outros;

ou é plena de experimentações, de testes que confirmam ou desmentem

hipóteses, com um permanente confronto das teorias com os fatos ou

com a realidade. Estabelecer essa diferença entre a ciência moderna e a

tradicional passa pelo entendimento do que é científico, do que é

cientificidade, enfim pela definição de ciência moderna.

Alguns – poderíamos dizer, os positivistas lato sensu (categoria na qual

se pode incluir boa parte dos marxistas) – argumentam que o que

caracteriza a ciência moderna é o método científico2. Sabemos que essa

1 G. Myrdal apud ALVES, R. Filosofia da Ciência. São Paulo, Loyola, 2000.

2 “Dentre as ideias maiores da filosofia positivista [encontra-se] a fé na unidade fundamental

do método da ciência. Na sua forma mais geral, trata-se da certeza de que os modos de

aquisição de um saber válido são fundamentalmente os mesmos em todos os campos da

12

Ensaios de geografia crítica

ênfase no método, o método da ciência, começou com René Descartes.

Esse filósofo e matemático do século XVII procurou teorizar, à sua

maneira, os procedimentos de Galileu Galilei, tido como o primeiro

cientista na acepção moderna do termo e, provavelmente, o introdutor

do empirismo e da experimentação na pesquisa científica3. Para

Descartes, o método consistia numa série de regras simples – a dúvida,

a decomposição em partes menores (análise), a hierarquia do simples

até o complexo e a sistematização4. Simples e ao mesmo tempo

inovadoras para a sua época porque tinham como pressuposto a razão

humana – amplamente escorada na lógica e na matemática – e não a

escolástica, a interpretação dos textos sagrados e inquestionáveis. É

evidente que esse método preconizado por Descartes nunca cobriu

plenamente – hoje menos ainda – os requisitos mínimos para se definir

a cientificidade de algum saber. Sequer entre aqueles que continuam

apregoando o “método científico” como a essência da ciência moderna

existe um mínimo consenso sobre o que exatamente seria esse suposto

método unitário. Um desses adeptos desse soi-disant método científico

como definidor da cientificidade afirma o seguinte:

Nem todos concordam com o que seja método científico. E

nem todos acreditam que ele possa estender seu braço

além do seu berço, a ciência da natureza. Seu pai, Galileu,

não se conforma com a observação pura e tampouco com a

conjectura arbitrária. Galileu propõe hipóteses e as

submete à prova experimental. Galileu engendra o método

científico moderno, mas não enuncia seus passos e nem

faz sua propaganda [...] A partir de Galileu introduziram-

se várias modificações no método científico. Uma delas é

o controle estatístico dos dados [...] Uma investigação

procede de acordo com o método científico se cumpre as

seguintes etapas: (1) Descobrimento do problema ou

experiência, como são igualmente idênticas as principais etapas da elaboração da experiência

através da reflexão teórica.” (KOLAKOWSKI, L. La filosofia positivista. Madrid, Catedra, 1966).

3 Cf. DESANTI, J. T. Galileu e a nova concepção de natureza, in CHÂTELET, F. História da

Filosofia, volume 3. Rio de Janeiro, Zahar, 1974, pp. 61-112; e BEYSSADE, J. M. Descartes, in

Idem, p. 81-114.

4 Cf. DESCARTES. Discurso do método. In: Os Pensadores – Descartes. São Paulo, Abril

Cultural, 1979, p. 29-71.

13

José William Vesentini

lacuna num conjunto de conhecimentos. (2) Colocação

precisa do problema. (3) Procura de conhecimentos ou

instrumentos relevantes ao problema. (4) Tentativa de

solução do problema com auxílio dos meios identificados.

(5) Invenção de novas ideias. (6) Obtenção de uma

solução. (7) Investigação das consequências da solução

obtida. (8) Prova (comprovação) da solução. (9) Correção

das hipóteses5.

Percebe-se

nessa

fala

de

um

epistemólogo

reconhecido

internacionalmente que não existe, entre os especialistas, uma

concordância sobre no que exatamente consiste esse método e

tampouco se ele pode ser aplicado às ciências que não estudam a

natureza, isto é, as ciências sociais e as formais. Na verdade essas nove

etapas do “método científico” mencionadas pelo autor são de sua lavra,

como ele faz questão de afirmar inclusive como contraponto a uma

série de teóricos da ciência6. Por sinal, algumas páginas após ter

explicitado suas etapas do método científico, Bunge ameniza um pouco

a sua crença num método unitário e afirma: “O nome é ambíguo [...] a

expressão método científico é enganosa, pois pode induzir a crer que

consiste num conjunto de receitas exaustivas e infalíveis que qualquer

um pode manejar para inventar ideias e pô-las à prova [...] O que existe

é uma estratégia de investigação científica. Há também um sem

número de táticas ou métodos especiais característicos das diversas

ciências e tecnologias particulares. Nenhuma dessas táticas é infalível

[...] A pessoa de talento cria novos métodos e não o contrário”7.

Como se vê, um quiproquó. O recurso ao vocabulário militar (estratégia

e táticas) para tentar superar ou aperfeiçoar a ideia de um “método

científico” mais cria confusão do que esclarece e fica a impressão de

que o autor oscila entre a crença num método unificado e a aceitação da

pluralidade de métodos,

inclusive com a valorização das

individualidades (do insight ou intuição deste ou daquele cientista etc.).

5 BUNGE, M. Epistemologia. São Paulo, Edusp, 1987.

6 Idem, p. 32-5.

7 Idem, p. 34, grifos do autor.

14

Ensaios de geografia crítica

Lendo outros especialistas na temática fica ainda mais evidente o

desentendimento sobre esse hipotético método unitário. Um

epistemólogo egrégio propõe que na verdade esse método seja o de

“conjecturas e refutações”. Em suas palavras:

Quando deve ser considerada científica uma teoria? A

resposta comumente aceita é que a ciência se distingue da

pseudociência pelo seu método empírico, que é

essencialmente indutivo, ou seja, parte da observação ou

da experimentação [...] Na realidade, a crença de que

podemos começar com observações puras, sem nada que

se pareça com uma teoria, é absurda. A observação sempre

é seletiva. Necessita um objeto elegido, uma tarefa

definida, um interesse, um ponto de vista ou um problema

[...] O problema ‘O que vem primeiro, a hipótese ou a

observação?’, é solúvel como o problema ‘Quem vem

primeiro, o ovo ou a galinha?’. A resposta à última

interrogação é ‘Um tipo primitivo de ovo’, e a resposta ao

primeiro é ‘Um tipo primitivo de hipótese’ [...] A ciência,

assim, deve começar com mitos e com a crítica de mitos;

não com o resultado de observações nem com a invenção

de experimentos, mas, sim, com a discussão crítica de

mitos e de técnicas e práticas mágicas [...] É possível

resumir tudo o que foi dito afirmando que o critério para

estabelecer o status científico de uma teoria é a sua

refutabilidade ou sua testabilidade. O que temos proposto,

então, é que não existe um procedimento mais racional do

que o método do ensaio e erro, de conjecturas e refutações:

de propor teorias intrepidamente; de fazer todo o possível

para provar que estão erradas; e de aceitá-las

provisoriamente, se nossos esforços críticos fracassam8.

Temos aí uma concepção de método científico bem diferente do

entendimento comum, que enxerga principalmente o empirismo, com a

indução e a experimentação. Esse entendimento comum, por sinal, é

coerente com o nascimento da ciência moderna com Galileu – e, por

8 POPPER, K. El desarrollo del conocimiento científico. Buenos Aires, Paidos, 1967, p. 59-65.

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José William Vesentini

outro lado, a indução e a experimentação continuam procedimentos

válidos e utilizáveis em vários tipos de pesquisa científica. Mas a

epistemologia de Popper tem como principal alicerce as teorias da

relatividade de Einstein, na qual, ao invés da experimentação e da

indução, como em Galileu, existe uma sofisticada dedução. (Einstein

falava numa “experimentação imaginária”, na qual ele literalmente

fantasiava eventos tais como o de uma pessoa dentro de um elevador

quebrado em aceleração para o chão, que não sentia o peso do seu

corpo, procurando com isso evidenciar uma insuficiência na explicação

newtoniana da força da gravidade “puxando” o elevador e a pessoa para

baixo). Uma dedução “pura” no sentido de encontrar falhas ou lacunas

nas explicações anteriores – neste caso, na física newtoniana – e

procurar, com o uso da razão, estabelecer outras, que necessariamente

teriam de ser testadas pela observação posterior. Se não fossem

submetidas a testes, a experimentos para verificar a validade de suas

proposições, pouca diferença teriam da ciência tradicional e

especulativa. Como se sabe, os astrônomos após a Primeira Guerra

Mundial procuraram fotografar eclipses do Sol para verificarem se

existiria um efeito previsto por Einstein, uma curvatura no espaço ao

redor desse astro que faria a luz das estrelas se afastarem ou sofrerem

certo dobramento. É lógico que nem toda teoria científica vai atender a

esse requisito – isto é, hipóteses ou teorias construídas para sanar

lacunas nas ideias científicas dominantes, que devem ser testáveis ou

verificáveis pela observação ou experimentação posterior –, inclusive

porque os objetos são completamente diferentes. Em todo o caso, trata-

se de uma concepção de ciência (de Popper, inspirada em Einstein) que

valoriza mais a dedução e notadamente processo de uma crítica

permanente, com as conjecturas (ensaios) e as refutações (erros).

Continuando com a nossa seleção de opiniões sobre o “método

científico”, por meio da qual se procura evidenciar que na verdade ele é

um mito – não no sentido de não haver qualquer método científico

(existem vários) e, sim, pela inexistência de um método único –,

apresentamos, agora, o posicionamento de um assumido “anarquista

metodológico”, um influente físico que dialoga com os teóricos da

ciência. Segundo o seu ponto de vista:

16

Ensaios de geografia crítica

A ideia de que a ciência pode e deve ser elaborada com

obediência a regras fixas e universais é quimérica e

perniciosa [...] Torna a ciência menos plástica e mais

dogmática [...] Os cientistas não resolvem problemas por

possuírem uma varinha de condão – a metodologia ou uma

teoria da racionalidade – mas porque estudaram o

problema por longo tempo e conhecem bem a situação,

porque não são tolos (embora caiba duvidar disso hoje em

dia, quando quase qualquer pessoa pode tornar-se um

cientista) e porque os excessos de uma escola científica

são quase sempre contrabalançados pelos excessos de

alguma outra escola. Além disso, os cientistas só

raramente resolvem os problemas; eles cometem erros

numerosos

e

oferecem,

frequentemente,

soluções

impraticáveis [...] Se desejamos compreender a natureza,

devemos recorrer a todas as ideias, todos os métodos e

não apenas a um número reduzido deles. A asserção de

que não há conhecimento fora da ciência moderna nada

mais é que outro conto de fadas. As tribos primitivas

faziam classificações de animais e plantas mais minuciosas

que as da zoologia e da botânica de nosso tempo;

conheciam remédios cuja eficácia espanta os médicos (e a

indústria farmacêutica já aqui fareja uma nova fonte de

lucros); dispunham de meios de influir sobre os membros

do grupo que a ciência por longo tempo considerou

inexistentes; resolviam difíceis problemas por meios ainda

não perfeitamente entendidos (construção de pirâmides,

viagem dos polinésios)9.

Enfim, uma posição pluralista ou “pós-moderna”, na qual não existe

um método unitário e, sim, um grande número deles, que às vezes

podem até ser opostos ou alternativos, mas que funcionam (ou não)

neste ou naquele caso, na resolução (sempre provisória) deste ou

daquele problema, na constituição de teorias que parecem se ajustar aos

fatos ou pelo menos a uma série deles. Métodos nos quais pode-se

9 FEYRABEND, P. Contra o método. Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1977. Os grifos são do

autor.

17

José William Vesentini

incluir a aceitação (total ou parcial, dependendo do caso) de saberes

tradicionais, do senso comum, da indução e contra-indução, da dedução

e de “experimentos imaginários”, do ensaio e erro, de regras

provisórias e de sua violação como condição para um novo avanço, da

filosofia e das artes (por exemplo, literatura, poesia, música), da

intuição e da criatividade. Como diz o autor, “A ciência é um

empreendimento essencialmente anárquico [...] O único princípio que

não inibe o progresso é: vale tudo”10. Um ponto de vista que, mesmo

sem negar a importância da ciência moderna, relativiza o seu status

como o “conhecimento mais nobre ou racional”, ou como o “único

saber que deve ser ensinado nas escolas”.

Não é, portanto, o método que define a ciência moderna. Sequer existe

um método científico unitário, como também, conforme reafirmou mais

um especialista na filosofia da ciência11, no fundo não existe “a”

ciência no singular – a não ser enquanto um conjunto de conhecimentos

objetivos e racionais diferenciados que buscam compreender o mundo

ou a realidade. De fato, existem ciências, no plural, com métodos

variados, que estudam objetos (que, por sinal, não são fixos e

invariáveis; eles variam no tempo, são entendidos de diversas maneiras

e muitas vezes deixam de existir ou se transformam completamente)

relativamente distintos, embora frequentemente sobrepostos, ou

ocupam-se de “regiões do saber” tidas como diferentes.

O que define, então, a ciência e a cientificidade?

O conhecimento científico é objetivo e racional. Esta é uma afirmação

axiomática, embora as ideias de racionalidade e de objetividade – como

quaisquer outras – sejam passíveis de discussões12. Como afirma com

pertinência Popper, a tarefa das ciências é encontrar explicações

causais e satisfatórias para qualquer coisa que tenha algum interesse13.

É evidente que causalidade não deve ser entendida como algo mecânico

10 Idem, grifos do autor.

11 Cf. GRANGER, G.G. A ciência e as ciências. São Paulo, Editora da Unesp, 1994.

12 Cf. CASTORIADIS, C. Reflexões sobre desenvolvimento e racionalidade. In: As

encruzilhadas do labirinto/2. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1987; e POPPER, K. Conhecimento

objetivo. Belo Horizonte, Itatiaia, 1999.

13 POPPER, K. Conhecimento objetivo. Op. Cit., p. 182, grifo do autor.

18

Ensaios de geografia crítica

e unilateral, na forma de um raciocínio simplista do tipo “causa é causa

e consequência é consequência”. Na verdade, a causa, ou na maioria

das vezes as causas – que consistem amiúde num número

indeterminado de fatores –, pode ser algo probabilístico e não um

fenômeno específico e totalmente delimitado; e a(s) consequência(s)

pode(m) virar causa(s) e vice-versa14.

Ipso facto, é pura fantasia desprovida de qualquer conteúdo a crença na

existência de uma “lógica dialética” que teria superado o pensamento

racional alicerçado na lógica formal e na causalidade. Como afirmou

Edgar Morin, a palavra dialética tornou-se apenas uma panacéia

utilizada para não enfrentar ou obnubilar as dificuldades teóricas e

práticas15. Outrossim, o mais famoso antropólogo do século XX já

tinha arrasado a pretensão de um filósofo (Sartre) de teorizar uma

“razão dialética” apartada e superior à “razão analítica”, ao demonstrar

com inúmeros exemplos que esse mesmo filósofo – como também

Marx e Hegel (pelo menos nos trechos onde este não é propositalmente

obscuro e especulativo) –, para explicar suas ideias, tinha

constantemente feito uso da classificação, da distinção, da oposição e

da definição, considerados – dentre outros – atributos da “superada”

lógica formal16.

Mas explicações causais e satisfatórias, objetivas e racionais, não

significam definitivas. Não existem – e provavelmente nunca vão

existir – explicações finais, isto é, definitivas. As explicações

científicas sempre são aproximações que explicam melhor, mas nunca

integralmente ou exatamente, um aspecto da realidade. O essencialismo

– isto é, a crença numa “essência” dos fenômenos, que seria captada

por alguma teoria – é uma doutrina filosófica (de Platão, Hegel, Marx e

outros) e não científica17. Só que não é possível separar com exatidão,

demarcando fronteiras rígidas, os conhecimentos científicos dos

filosóficos, daqueles do senso comum, dos saberes de povos

14 Cf. MORIN, E. Introduction à La pensée complexe. Paris, Seuil, 2005.

15 MORIN, E. Ciência com consciência. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2003, p. 190.

16 Cf. LEVI-STRAUSS, C. O pensamento selvagem. São Paulo, Cia Editora Nacional, 1976,

capítulo 9.

17 POPPER, K. Conhecimento Objetivo, Op.Cit.

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José William Vesentini

tradicionais e de alguns aspectos das artes. Mesmo sendo relativamente

diferentes, todos esses conhecimentos ou saberes se imiscuem, se

influenciam mutuamente, são enfim parcialmente imbricados. Contudo,

isso não significa que a tarefa de definir o que é – e o que não é –

científico seja inútil18. Como também não significa que procurar

entender algo sem nunca encontrar uma explicação definitiva seja

estéril. Se o fosse, seria perda de tempo fazer ciência ou mesmo dar

qualquer explicação racional, pois esta sempre é contextualizada e

provisória, ao contrário dos dogmas que se apresentam como absolutos

e eternos. As explicações racionais e, em particular, as científicas são

extremamente úteis e amiúde eficazes, gerando resultados práticos, seja

pela sua aplicação (tecnologia ou ação mais eficiente sobre algo), seja

pelo convencimento, pela sua aceitação como verdade provisória, o que

é importante para as regras da sociedade.

Como sistematizou um filósofo da ciência, esta é, em primeiro lugar,

uma visão de uma realidade; é a busca de uma verdade (relativa), ou

seja, um empreendimento que procura descrever e explicar algo que

supostamente existe, que faz parte de um meta-conceito chamado

realidade; e também, assinala, é um conhecimento que constantemente

busca uma validação, isto é, um confronto permanente da teoria com os

fatos19.

Outro autor, num manual onde procura explicitar os cânones de uma

pesquisa científica, assinala que a ciência tem quatro requisitos: (1) é

um estudo sobre um objeto reconhecível e definido como tal pelos

outros; (2) é um estudo que diz algo novo sobre o objeto, algo que

ainda não foi dito ou uma nova perspectiva para o seu entendimento;

(3) o trabalho deve ser útil aos demais pesquisadores ou cientistas da

área; (4) deve fornecer elementos para a verificação ou comprovação

das hipóteses apresentadas, o que significa que ele pode ser continuado

18 Neste ponto discordamos de MORIN, E. Ciência com consciência, op.cit., que sugere ser

danosa a tentativa de separar, mesmo de forma relativa, a ciência da não ciência. Essa é a

principal crítica que ele faz a Popper, autor constantemente mencionado em seus trabalhos.

Se isso fosse verdade, nem teria sentido Morin escrever – como de fato escreveu – centenas

de páginas explicando o que é ciência, em que períodos ela atravessou “revoluções”, quais são

suas relações com a democracia, com a tecnologia etc.

19 GASTON-GRANGER, G. Op.Cit.

20

Ensaios de geografia crítica

de alguma maneira – refutado total ou parcialmente, prosseguido com

novas contribuições etc.20.

Em resumo, as ciências consistem num conjunto extremamente

heterogêneo. Elas não são iguais, sequer semelhantes em que pese o

fato de que, por princípio, todas buscam compreender racionalmente

algum aspecto do real, do mundo, de tudo o que existe afinal. Mas a

própria realidade é diversificada, heterogênea, multifacetada, passível

de ser perscrutada neste ou naquele aspecto com princípios ou lógicas

distintos. Basta atentarmos para a coexistência do determinismo com o

indeterminismo, do acaso com a necessidade, da ordem com o caos.

Podemos até especular se a unidade que conferimos ao real não é

apenas uma crença, um produto de nossas mentes. É lógico que não se

está advogando algum tipo de idealismo que denega a existência de

uma realidade exterior. Mas nada garante que esse real – ou realidades

– seja algo unívoco. Acreditamos que o construtivismo

epistemológico21 representa uma ultrapassagem da antiga querela entre

os realistas ou materialistas e os idealistas. Nem o mundo é produto de

nossas mentes e nem é uma realidade externa que se impõe a nós, como

se fosse algo que apenas observássemos de fora, num sobrevôo. Num

certo sentido, são as duas coisas concomitantemente, ou melhor, uma

síntese das duas. Na verdade, o mundo ou o real – que só apreendemos

pelas nossas teorias, nossas imagens, nosso conhecimento enfim – é

construído pelo intelecto humano, embora não no sentido de ser uma

fantasia, de não existir fora deste, mas, sim, pelo fato de só dispormos

de aproximações e nunca verdades exatas ou uma correspondência

perfeita entre as coisas e as nossas representações. Sei que muitos

argumentam que os cometas – ou o relevo de uma área, ou os gases na