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Entre a literatura e a imprensa: percursos de Maria Archer no Brasil por Elisabeth Batista - Versão HTML

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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE LETRAS CLÁSSICAS E VERNÁCULAS

Entre a Literatura e a Imprensa:

Percursos de Maria Archer no Brasil

T ese apresentada à Faculdade de Letras da

Uni versidade de São Paulo co mo requisito

parcial exigido para obtenção de título de

Doutor e m Letras.

Ár ea de co ncentração: Estudos

Co mpara dos de Literaturas de Lín gu a

Portuguesa.

Or ientadora Profa. Dr a. B enilde J usto

Lacorte Caniato

ELISABETH BATISTA

2007

ELISABETH BATISTA

Entre a Literatura e a Imprensa:

Percursos de Maria Archer no Brasil

T ese apresentada à Faculdade de Letras da

Uni versidade de São Paulo co mo requisito

parcial exigido para obtenção de título de

Doutor e m Letras.

Ár ea de co ncentração: Estudos

Co mpara dos de Literaturas de Lín gu a

Portuguesa.

Or ientadora Profa. Dr a. B enilde J usto

Lacorte Caniato

São Paulo

2007

Dedicatória

À Adênia Joana, Fernanda, Felipe e Jônatas

que aguardam

o momento da desconcentração.

3

Agradecimentos

Muitas foram os que participaram deste percurso. Apoios de pessoas e

institucionais, aos quais, neste momento, cumpre endereçar meus cordiais

agradecimentos.

De maneira especial, desejo agradecer às professoras doutoras

Benilde Justo Lacorte Caniato e Elza de Assumpção Miné pelas

recomendações metodológicas, suas orientações de leitura e o zelo pela

correção minuciosa do trabalho. Ao professor Ricardo Ianacce pelas

sugestões por ocasião do Exame de Qualificação.

Aos professores do programa de Pós-Graduação da Área de Estudos

Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa da Universidade de São

Paulo, nas pessoas dos professores Doutores Benjamin Abdala Júnior, Hélder

Garmes, Marly Fantini, Maria Aparecida Santilli, Nely Novaes Coelho, Tania

Macêdo, Rita Chaves, e Yudith Rosembaun.

À UNEMAT - Universidade do Estado de Mato Grosso -, na pessoa do

Reitor Taisir Mahamud karin, pelo apoio à qualificação profissional.

À CAPES, pela bolsa de estudos através do PQI - Programa de

Qualificação Institucional.

Sou grata à amizade das integrantes do Clã do Jabuti da UNEMAT-

Vera Maquêa, cujo convívio foi um estímulo ao aprofundamento, Ana Lúcia

Rabecchi, Olga Castrillon, Aguinaldo Rodrigues da Silva, Suzanne Castrillon, Marinei Almeida Lima, Isaac Newton, Antonio Mantovani, Genivaldo Sobrinho.

Do outro lado do Atlântico tenho a agradecer à família da autora nas

pessoas do Professor Fernando de Pádua, sobrinho da escritora; Olga Archer

Moreira, sobrinha-neta e Dina Maria Botelho pelo acesso generoso às

informações sobre a escritora.

Ao Alberto Jorge Leite, Esmeralda Pinto Leite e José Carlos Leite,

família lusitana com quem pude contar com o carinho e a remessa de fontes e apoio bibliográfico, imprescindíveis à concretização deste trabalho.

À Maria Albertina Mitello Monteiro, amizade que logrei angariar na

pesquisa em Portugal, pela revisão atenta e graciosa.

Ao Sr. Fernando Marques de Almeida e Dr. Antonio Barreto Archer,

amigos portuenses, pela solicitude com que acolheram o tema da pesquisa,

enviando fontes e sinalizando caminhos.

4

A Getúlio Gracelli pelos depoimentos romanceados e a

disponibilização do acervo de Maria Archer.

À Ana Paula Ferreira Professora em Irvaine – Universidade da

Califórnia, pela fortuna crítica.

Ao Grêmio 25 de Abril na pessoa do Sr. Alexandre Pereira pela

disponibilização do jornal Portugal Democrático.

Aos meus estimados colaboradores, pelo estímulo no decorrer do

percurso: Eliane Junqueira, bibliotecária da Casa de Portugal, Genivaldo

Gomes Sobrinho pela digitalização de imagens do Portugal Democrático, Sra.

Tamico, Chefe da Biblioteca Mário de Andrade e Luiz Gervazoni do Arquivo do Estado de São Paulo.

5

SUMÁRIO

Pala vras ini ci ais. ...... ...... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... 09

Capítulo I

1.0– Literatura e imprensa..........................................................................13

1.1 – Chronos – a fábula do princípio... ....................................14

1.2 – Imprensa escrita no Brasil................................................15

1.3 – Jornalismo feminino ou imprensa de autoria

feminina?...................................................................................16

1.4 – Entre a norma e o estilo no gênero periodístico. ...........23

Capí tulo II

2.0 – Apresentação da Escritora......................................................................28

2.1 – Partida para África..................................................................................29

2.1.2– Da sua formação escolar.....................................................32

2.1.3 – A estada em Guiné: Entre Bolama e Bissau.....................32

2.1.4 – Das núpcias de Maria Archer............................................35

2.1.5 – A dissolução do matrimônio..............................................36

2.1.6 – Estréia literária em Luanda................................................37

2.1.7– Tentativa de resgate do sentimento de “império”: um contexto

lusitano............................................................................39

2.2 – De Luanda para Lisboa: o regresso...................................................40

2.2.1 – A política cultural em Portugal.....................................41

2.3 – A produção criativa em Portugal......................................................42

2.3.1 – Maria Archer: A crítica de Raul Rego...........................45

2.3.2 – Recepção da obra no seio familiar ................................46

2.3.3 – Adesão ao MUD, a Censura e a 1ª apreensão................47

2.3.4 – Participação sócio-político-cultural em Lisboa.............48

2.3.5 – Atuação jornalística e a PIDE ........................................49

Capí tulo III

3.0 – Exílio: Recuperação do passado..............................................................52

3.1 – Ceres- o exílio na mitologia ....................................................................55

3.2 – Exílio (in) voluntário: uma inevitável opção..........................................56

3.2.1– A vinda para o Brasil...........................................................58

3.2.2 – Recepção em idioma fraterno................................ ...........59

3.3. – O trânsito intelectual em São Paulo......................................................60

3.3.1 – Estréia literária no Brasil: Terras Onde se Fala

Português.................................................................................................. ..61

3.3.2 – O DEOPS e a escritora em São Paulo........................................62

3.3.3 – 1ª Conferência Sul-Americana pró-Anistia .............................63

3.3.4 – Imigração portuguesa e a atuação dos intelectuais

exilados.......................................................................................................65

3.3.5 – Presença de Maria Archer em campanhas político-

partidárias.................................................................................................66

3.4 – O cotidiano em Santana, um bairro paulistano...............................................67

6

3.4.1 – A resistência a dupla ditadura: a portuguesa e a

brasileira....................................................................................................68

3.4.2 – Depoimento de um exilado político: Edgar Rodrigues .........70

3.5. – As duas fases no exílio.......................................................................................72

3.5.1 – Carta reveladora..........................................................................74

3.5.2 – Do regresso a Lisboa...................................................................76

Capítulo IV

4.0 – Maria Archer e o Jornalismo no Brasil....................................................78

4.1 – Os imigrantes e o jornalismo em São Paulo...........................................79

4.2 – Contribuição para a imprensa de Língua Portuguesa no

exílio..........................................................................................................80

4.2.1 – Contribuição inaugural de Maria Archer: em defesa da

Literatura........................................................................................82

4.2.2 – Entrevistas.........................................................................84

4.3 – Jornais em que Maria Archer colaborou no Brasil.................................85

4.3.1– O Estado de S. Paulo..............................................................85

4.3.1.1– A Contribuição de Maria Archer para O Estado de S.

Paulo..........................................................................................88

4.3.2 – Índice cronológico das colaborações para O Estado de S.

Paulo................................................................................................90

4.3.3 – Índice temático das colaborações para o O Estado de S.

Paulo.................................................................................................9

9

4.3.4 – Portugal

Democrático..........................................................110

4.3.4.1 – Maria Archer: jornalismo de resistência......................118

4.3.4.2 – Índice cronológico das colaborações para o Portugal

Democrático....................................................................................119

Capítulo V

5.0. – Maria Archer e o território da escrita...................................................134

5.1. – Crônicas da memória.............................................................................126

5.1.2 – Crônicas Painel Africano..................................................157

5.1.3 – Crônicas Brasil e África....................................................163

5.1.4 – Outras Crônicas............ ...................................................167

5.2 – Contribuição ao Portugal Democrático. ..................................................180

Considerações

Finais.....................................................

............................................187

Referências

Bibliográficas..........................................

.....................................190

7

Entre a Li teratura e a Imprens a: P ercursos de Maria Arc her n o B rasil RES UMO

A literatura de autoria feminina nos países que se comunicam através da

língua portuguesa conta com excelentes representantes. Um olhar, ainda que

superficial sobre essa produção revela que notadamente a partir da última

metade do século passado, década de 40-50, ela veio gradativamente

chamando a atenção de pesquisadores e conquistando, cada vez mais, o

prestígio do público-leitor. Maria Archer, no entanto, parece encontrar-se em quase completo esquecimento De 1955 a 1977, Maria Archer (1899-1982),escritora portuguesa, veio cumprir um largo exílio em terras brasileiras.

Aqui, como nos continentes luso-africano, tornou-se um dos nomes de mulher

mais importantes pela contribuição à imprensa de Língua Portuguesa. O

objetivo primeiro deste trabalho é ressaltar as experiências e a contribuição desta escritora para a imprensa de Língua Portuguesa, problematizando-as à

luz da hegemonia masculina que marcou a produção de conhecimentos e a

reflexão pública sobre a resistência dos portugueses à ditadura do regime

salazarista vigente no Portugal da época.

Palavras-chave

Maria Archer, autoria feminina, imprensa de língua portuguesa, exílio.

Between the literature AND the press : Courses as of Maria Archer at the Brazil Abbreviation

The literature as of authorship female at the countries that if communicated via the Portuguese language account along as good as gold delegates. Um look , Although amateurish on the subject of that creation reveals than it is to notadamente from the última half as much from the century bygone , decade as of 40-50, she came

gradativamente calling the attention as of browsers AND acquiring , further and further

, the prestige from the audience - lecturer. Maria Archer , all the same , it looks encounter - in case that by nearly all-inclusive forgetfulness As of 1955 the one 1977, Maria Archer (1899-1982,escritora) Portuguese , he came abide by um broad exílio well into lands Brazilians. Herein , as a at the continents luso - African , lathe - in case that one of names as of chick more important pela contribution at the inaccurate as of Portuguese language. THE ONE objetivo first one of this I work is jut the experiences AND the contribution of this female writer for the inaccurate as of Portuguese language problematizando - the at the light from the hegemonia masculine than it is to he marked the creation as of background AND the reflection public above the endurance of the Portuguese at the dictatorship from the regime salazarista vigente at the Portugal of the time.

Key words Maria Archer , authorship female , inaccurate as of Portuguese language exílio.

8

Palavras iniciais

A literatura de autoria feminina nos países que se comunicam através

da língua portuguesa conta com excelentes representantes. Um olhar, ainda

que superficial sobre essa produção revela que notadamente a partir da última metade do século passado, década de 40-50, ela veio gradativamente

chamando a atenção de pesquisadores e conquistando, cada vez mais, o

prestígio do público-leitor. Não há como negar a produção feminina na literatura contemporânea. Grande tem sido o número de escritoras que se vêm

destacando pelo inegável talento na poesia, na prosa e na narrativa de ficção em Portugal, tais como Agustina Bessa-Luís, Lídia Jorge, Natália Correia,

Sophia de Mello Breyner, Fernanda de Castro, Yvete K. Centeno, Marta de

Lima, Clara Pinto Correia, Irene Lisboa, Fernanda Botelho, Maria Judite de

Carvalho, Maria Velho da Costa, Maria Tereza Horta, Maria Isabel Barreno e

tantas outras.

Maria Archer, no entanto, parece encontrar-se em quase completo

esquecimento. Tal constatação é surpreendente, sobretudo após tomarmos

conhecimento da variedade e do grande número de livros e artigos escritos,

além de uma série de conferências proferidas por esta autora. É farto o

repertório de sua produção literária entre 1935 e 1963. Os seus livros

atualmente, exceto Ela é apenas mulher, reeditado em 2001 e Nada lhe será perdoado, reeditado em 2006, só pudemos encontrar nos alfarrabistas de Portugal.

Em Portugal a escrita de Maria Archer tem pouca visibilidade, mesmo

a família não se preocupou, na época, em preservar a “memória” da autora.

Assim é o caso para se refletir por que essa autora e as suas obras de inegável qualidade foram apagadas na memória de um tempo crivado de silêncio e

relegadas ao mais completo esquecimento. Acreditamos que uma pesquisa

através de suas publicações em periódicos, de depoimentos de familiares e

pessoas que conviveram com a autora, permitirá acrescentar novos subsídios

às informações do nosso trabalho. Há, contudo, um período enigmático em sua vida: o período em que a escritora veio em exílio para o Brasil, nos anos de 9

Salazar e, essa é uma das razões que nos inclinam a nos deter também no

“corpus” estabelecido para este trabalho.

De meados de 1955 a abril de 1979 a escritora e jornalista Maria

Emília Archer Eyrolles Baltazar Moreira, nome marcante da vida e cultura

portuguesas, veio cumprir um longo exílio no Brasil. Através da vida da

escritora passa também, necessariamente, a vida de uma época: o espaço

humano, existencial, cultural e geográfico do qual Maria Archer é, para este trabalho, o centro.

Partimos de um diversificado painel de pontos de interesses,

aparentemente divergentes no conjunto da produção literária da autora, cujas obras transcendem as fronteiras nacionais e étnicas, África, Brasil e Portugal.

Assim, pudemos encontrar um farto repertório temático à disposição dos

leitores, consubstanciado na maior riqueza de gêneros, desde livros infantis, novelas de cunho sentimental, romances, ensaios, crônicas, artigos, relatos de viagens, até teatro e traduções.

Em sua prolongada escala em terras brasileiras Maria Archer realizou,

pelo intrincado território da escrita para jornais, uma conexão entre o Índico e o Atlântico interligando-os pelo horizonte da literatura. A vocação informativa do gênero jornalístico enraizado na ordem da escrita despertou sempre o

interesse em todos os ambientes culturais, pela acessibilidade, pela

instantaneidade da leitura e faz dele um gênero adequado à necessidade de

auto-investigação sempre presente no horizonte da literatura. E ter a literatura como fonte de orientação possibilita-nos entender o que se sucedia do outro lado do Atlântico, tanto nas terras africanas, como em Portugal, de como se deu o encontro do olhar estético da escritora na captação da “alma de um

povo” possibilitada pelas suas incursões literárias entre o Índico e o Atlântico.

A nossa opção por examinar as contribuições de Maria Archer para a

imprensa, privilegiando os artigos publicados no Brasil, se dá pela capacidade que o gênero periodístico tem de incorporar elementos da realidade cotidiana, mesclando-os com ingredientes da ficcionalização criadora. Tal propriedade, que alberga textualmente o desejo esteticizante da obra, é fator de

predominante imprescindibilidade para seduzir o leitor, estimular o hábito da assiduidade, além de conquistar novos leitores a cada edição.

Ao adentrar no território do gênero periodístico laborado por Maria

Archer no exílio e publicado durante a permanência no Brasil, temos em vista a classificação e descrição analítica de sua produção criativa para a imprensa.

10

Tal procedimento permitirá identificar se as suas contribuições à imprensa

local, bem como o seu conteúdo podem ser considerados essenciais ou

subsidiários. Seus artigos serão estudados, tendo em vista sua organização, entrelaçamento e complementaridade.

Pretendemos levantar dados biográficos da escritora, fatos de sua vida

ainda não conhecidos e razões do seu exílio para o Brasil. Este percurso, que tem em seus primeiros passos a intenção de catalogação de toda contribuição da autora à imprensa brasileira, levar-nos-á conseqüentemente a um inventário de sua atuação junto ao núcleo de exilados portugueses.

Certos da importância da reconstituição de parte da biografia da

escritora, os fatos de sua vida ainda não difundidos, as razões do seu exílio, a escolha do Brasil como destino são questões que urge aprofundar.

O estudo aprofundado de sua contribuição para o desenvolvimento da

imprensa de autoria feminina nos países que se comunicam através da Língua

Portuguesa levará ao entendimento da forma como a escritora, a partir do exílio se adapta à realidade cultural portuguesa e brasileira.

Em boa medida, para a realização desta pesquisa, nos baseamos na

produção criativa da autora, nas entrevistas, em microfilmes de sua

contribuição jornalística, em depoimentos de quem conviveu com a escritora na situação da diáspora. E ainda, em consultas a trabalhos como o da Professora portuguesa Ana Paula Ferreira1 que leciona na Universidade da Califórnia, da antropóloga Leonor Pires Martins2 do Instituto Superior de Ciências do

Trabalho e da Empresa da Fundação para a Ciência e Tecnologia. e do

1 FERREIRA. Ana Paula. “‘ Continentes negros’ com nome de Portugal: O ‘Feitiço’

c o l o n i a l i s t a d a M a r i a A r c h e r ” . I n D i s c u r s o s E s t u d o s d e L í n g u a e C u l t u r a P o r t u g u e s a . L i t e r a t u r a , N a c i o n a l i s m o s , I d e n t i d a d e . 1 9 9 6 , n º 1 3 , p . 8 5 -9 8 .

_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ . M a r i a A r c h e r e a “ S e x u a l i d a d e F e m i n i n a ” . p . 1 5 5 -1 6 4 .

_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ . H o m e B o u n d : T h e C o n s t r u c t o f F e m i n i n i t y i n E s t a d o N o v o . P o r t u g u e s e S t u d i e s . 1 9 9 6 , v o l u me 1 2 , p . 1 3 3 -1 4 4 .

_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ . N a t i o n a l i s m a n d F e m i n i s m a t t h e t u r n o f t h e N i n e t e e n t h C e n t u r y : C o n s t r u c t i n g t h e “ O t h e r ” ( W o m a n ) o f P o r t u g a l . 1 9 9 6 . S a n t a B á r b a r a P o r t u g u e s e S t u d i e s , V o l u me I I I , p . 1 2 3 -1 4 2 .

_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ . A ‘ C o m é d i a d a F e m i n i l i d a d e ’ n o t e m p o d e M a r i a A r c h e r : D e u m m e r c a d o e m q u e a s m u l h e r e s n e g o c i a m . C e n t r e d e R e c h e r c h e e m Li t t é r a t u r e d e L a n g u e P o r t u g a i s e . U n i v e r s i t é P a u l – V a l é r y , M o n t p e l i e r I I I . 1 9 9 7 . Q u a d r a n t , n º . 1 4 , p . 1 3 3 -1 4 5 .

2 MART INS, Leo nor P ires. Men ina e Moça em África.R evue Lu sotop ie XII, (1 -2), 7 7 -9 1 .

M A R T I N S , Le o n o r P i r e s . C a d e r n o s d e M e m ó r i a s C o l o n i a i s . I d e n t i d a d e s d e “ R a ç a ”

d e c l a s s e e d e G ê n e r o e m M a r i a A r c h e r . D i s s e r t a ç ã o d e M e s t r a d o e m Li t e r a t u r a C o mp a r a d a , L i s b o a , U n i v e r s i d a d e d e Li s b o a , F a c u l d a d e d e L e t r a s , 2 0 0 2 .

L e o n o r M a r t i n s – a n t r o p ó l o g a d o D e p a r t a me n t o d e A n t r o p o l o g i a . I n s t i t u t o S u p e r i o r d e C i ê n c i a s d o T r a b a l h o e d a E mp r e s a d a F u n d a ç ã o p a r a a C i ê n c i a e T e c n o l o g i a .

11

trabalho da pesquisadora lisboeta Dina Botelho3 que se dedicou a pesquisar

Maria Archer em sua dissertação de Mestrado.

3 BOTELHO, Dina Maria dos Santos. Ela é apenas mulher. Universidade Nova de L i s b o a . D i s s e r t a ç ã o d e M e s t r a d o e m E s t u d o s A n g l o P o r t u g u e s e s , F a c u l d a d e d e C i ê n c i a s S o c i a i s e H u ma n a s , L i s b o a , 1 9 9 4 .

12

Capítulo I

1.0 Literatura e imprensa

1.1 – Chronos -a fábula do princípio

1.2 – Imprensa escrita no Brasil

1.3 – Jornalismo feminino ou imprensa de autoria feminina

1.4 – Entre a norma e o estilo no gênero periodístico

1.0 – Literatura e imprensa

Neste primeiro capítulo nos dedicaremos à discussão sobre as

circunstâncias que proporcionaram o surgimento da Imprensa no mundo

e no Brasil considerando as suas relações com o contexto do

desenvolvimento histórico e econômico da atividade mercantil.

Em sua contribuição para a imprensa no Brasil, Maria Archer

dedicou-se com intensidade à imprensa periódica escrita, dando conta

de uma sensível proximidade estilística entre jornalismo e literatura

fertilizando-o. Pois bem, faremos incursões sobre o papel que

circunscreve a participação feminina nos meios da imprensa escritos por

e dirigidos à mulher.

A imprensa periódica tem demonstrado a relevância crescente que

a crônica jornalística vem assumindo como gênero autônomo presente

em suas publicações. Na condição de gênero independente, a crônica

jornalística tem aproximado magistralmente os mecanismos estilísticos

da literatura com o quotidiano para a sua elaboração formal e temática.

Com isso, não pretendemos criar um “dossiê” teórico sobre o gênero

periodístico e suas especificidades, assuntos por demais complexos e

que não são o objetivo neste trabalho.

Nosso interesse em investigar aspectos relacionados à crônica

jornalística e ao gênero periodístico justifica-se tendo em conta que a

produção criativa de Maria Archer, laborada no exílio em terras

brasileiras, constitui-se exemplar positivo da relação íntima entre a

literatura e o jornalismo.

13

É, portanto, sob o olhar e a memória da crônica jornalística da

escritora que importa procurar os conteúdos orientadores sobre os quais

se deu o encontro do olhar estético na captação da “alma de um povo” a

partir do exílio.

1.1 – Chronos - a fábula do princípio

Chronos na mitologia grega e Saturno para os romanos. Castrou

seu pai Urano para poder governar o mundo. Considerado o senhor do

tempo e da razão, recebia o poder de sua mãe, Geia, assim como a

foice com a qual castraria Urano. Devorava os filhos para não perder o

trono para eles, mas foi derrotado por um deles, Zeus, sendo por este

aprisionado no Tártaro, região subterrânea abaixo do reino de Hades.

Quando Zeus já tinha consolidado o seu poder, libertou Chronos e

o enviou para a ilha dos Bem-Aventurados, onde passou a reinar sobre

os heróis, que nunca morriam. Coube a ele o papel de consolidador do

reino criado por Zeus: sem sua atuação nada tomaria forma definitiva,

descriminada e duradoura. No reino de Saturno, a Terra produzia com

abundância e não havia guerras.

Chronos (em grego Κρόνος, que significa "tempo"), o mais novo dos seis grandes Titãs, teve seis filhos com sua esposa-irmã, Réia:

Zeus, Deméter, Hades, Héstia, Poseidon e Hera. Era associado ao tempo

pelos gregos. Cronos representa a passagem da era dos deuses antigos

(Ciclopes e Titãs) para os deuses Olímpicos, assim chamados por serem

aqueles que habitavam o monte Olimpo, liderados por seu filho Zeus.

A mitologia nos auxilia a compreender a vastidão da experiência

humana, independente do momento ou da cultura em que se vive. O

sentido de humanidade está ligado à capacidade de reconhecimento de

si mesma, sem o que não se poderia reconhecer o outro, e os homens

não se poderiam reconhecer entre si. A sucessão marcada entre

passado e o presente é denominada tempo.

O tempo é uma das realidades mais complexas experimentadas

pelo homem, por sua dimensão ser múltipla. O tempo, na sua

multiplicidade, não é uma categoria que se constitui simplesmente de

14

passado, presente e futuro. Três momentos, três espaços cruzados, o

ontem, o hoje e o porvir: um reino cronotópico, o reino de cronos.

No sentido dicionarizado, diz-nos Aurélio, FERREIRA (1999,

p.584) que Crônica vem do latim chronica. Narração histórica ou registro de fatos comuns feitos por ordem cronológica. Texto jornalístico redigido

de forma livre e pessoal. Que tem como tema fatos da atualidade de teor

artístico, esportivo. Cronos, o agente mediador entre a concepção e a

consolidação daquilo que foi concebido.

Cronos – para a mitologia conforma o sentido de tempo, o

consumador dos próprios filhos, o responsável pela consolidação da

obra concebida. Tal particularidade remete à imprensa periódica que,

diariamente, tem na redação do texto impresso o seu produto acabado.

Na acepção da palavra, o emprego do termo crônica para a designação de um gênero específico justifica-se, pois o exercício periodístico, para a consumação de sua tarefa diária é desafiado pelo tempo consumador de

seus filhos: a sua produção que tem no texto impresso, a sua forma

consumada, o seu produto final. Daí, a raíz latina trazer em seu bojo o

radical cronos.

1.2 – Imprensa escrita no Brasil

A imprensa escrita tem no periodismo um meio específico de

comunicação e expressão do pensamento. Pensar o contributo da

atividade criativa de Maria Archer para a imprensa periódica pode

sugerir também a busca de elementos sobre o surgimento desta

imprensa periódica no Brasil e no mundo.

Uma primeira demarcação para entender as circunstâncias que

proporcionaram o surgimento da Imprensa no mundo leva-nos a situar o

fato no contexto do desenvolvimento histórico e econômico do

mercantilismo, a partir das trocas de mercadorias e informações nas

cidades originárias do capitalismo – os burgos. Importante ressaltar que

estas práticas comerciais antes incipientes tiveram forte impulso com o

15

surgimento dos Correios e da Imprensa, esta última concebendo a

notícia como uma mercadoria que atraiu primeiramente quem se

dedicava ao comércio e ao transporte marítimo.

Os primeiros "jornais" interessavam somente a quem

comercializava, traziam informações sobre preços de mercadorias,

abastecimento, pólos de produção, etc. A imprensa surge, antes de

mais, como uma necessidade de suporte ao capitalismo e, como se

verifica, não deixou de sê-lo até hoje.

No Brasil, a Imprensa surge em 1808, a 1 de Junho, com o

primeiro número do "Correio Braziliense", editado em Londres por

Hipólito José da Costa Pereira Furtado de Mendonça, um cidadão

brasileiro, gaúcho de Canguçu. Até 1999 o Dia da Imprensa era

comemorado em 10 de setembro, em referência ao jornal Gazeta do Rio

de Janeiro, que também passou a circular em 1808, com a chegada da

Família Real ao Brasil, devido à invasão napoleônica na Península

Ibérica. D. João VI aporta na Bahia e assina a Carta Régia abrindo os

portos brasileiros às nações amigas, criando também o jornal oficial da

Corte.

Há uma grande movimentação no meio acadêmico e jornalístico,

em várias regiões do país, em torno da preparação do bicentenário da

Imprensa Brasileira, em 2008. Trata-se de uma iniciativa importante para

agendar o debate sobre um dos mais significativos fenômenos da

humanidade - a Imprensa e suas especificidades no Brasil.

Até 1808 eram proibidas a impressão e a circulação de qualquer

tipo de jornal ou livro no Brasil. O Correio Braziliense entrava

clandestinamente nos porões dos navios que transportavam mercadorias

e escravos. Todo o cerco da Coroa Portuguesa ao incipiente jornalismo

brasileiro se devia ao temor da propagação de ideais de liberdade,

igualdade e fraternidade que fervilhavam na Europa, especialmente na

França de então, com os quais Hipólito mantinha uma certa identidade.

Os dois jornais tinham posições ideológicas antagônicas.

Fortemente contrário à Inquisição, Hipólito pregava a libertação do Brasil

do domínio de Portugal, enquanto a Gazeta, dirigida por Frei Tibúrcio

José da Costa, funcionava como um diário oficial da Corte. Quando

nasce, 308 anos após o "descobrimento", a Imprensa tupiniquim já vem 16

cerceada, fato que vai marcá-la em vários períodos históricos,

culminando com a Lei da Mordaça, quase 200 anos depois.

1.3 – Jornalismo feminino ou imprensa de autoria

feminina?

Que tipo de imprensa faziam as mulheres naquele tempo? Pensar

o jornalismo de Maria Archer pode sugerir-nos a busca de elementos em

que se inscrevem opiniões, pontos de vista sobre o papel da mulher

jornalista e os modos como se desenvolvem, em seu tempo, as

atividades de imprensa periódica.

A idéia de uma condição feminina, naquele momento, permanecia

forte e delineava nas colunas as temáticas comuns às mulheres. O

binarismo dos gêneros era herança dos discursos científico e jurídico

construídos no século XIX, que desenvolveram a noção de posições e

papéis definidos pela condição de gênero.

Várias foram as escritoras em que, a atividade literária corria

paralela à atuação jornalística. Clarice Lispector4 começou a trabalhar

como jornalista desde 1940 na Agência Nacional e publicou as primeiras

reportagens e entrevistas na revista Vamos Ler! e no jornal A Noite.

Outra escritora que também se articulou nesse mundo diferente da

escrita, foi Adalgisa Nery5. Entre 1954 e 1966 a escritora passou a

opinar como colunista do jornal carioca A Última Hora sobre inúmeras questões referentes à política e à economia nacionais.

A atuação feminina nos jornais tem no exercício jornalístico efetivo

de Maria Archer um exemplo modelar. Em suas contribuições para a

imprensa no Brasil, dedicou-se com intensidade à produção de crônicas

para o Suplemento Feminino d o ESP e não só. Soube aproveitar convenientemente o espaço aberto ao debate, à informação, e na

4 LISPECTOR, Clarice. Entrevistas. (0rganização de Claire Willians, notas bibliográficas de Tereza Montero). Rio de Janeiro: Rocco, 2007.

5 CANDELORO. Isabela. Entre a Literatura e o jornalismo. A Trajetória da escritora Adalgisa Nery. XI Seminário Nacional Mulhr e Literatura. II Seminário Internacional Mulher e Literatura. ANPOLL. 2005, p. 1016-1027 .

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criação de um público leitor feminino, quer brasileiro, quer português,

além de despertar o prazer no hábito de ler quotidianamente.

Para além das crônicas, os conteúdos orientadores de seus

artigos para os jornais destacaram, ainda, um dos traços mais

perceptíveis da presença portuguesa no Brasil: a capacidade do

associativismo. Os artigos voltados para o registro do surgimento das

associações beneficentes e de socorro mútuo demonstram que as

associações portuguesas no Brasil dialogam historicamente com os

traços de mudança que marcaram a história de Portugal e a identidade

projetada pelos regimes vigentes em cada época.

Ao longo do século XIX, por exemplo, após a independência do

Brasil, e principalmente em São Paulo, nas duas primeiras décadas do

séc. XX, as associações tenderam a uma defesa do migrante.

Aqui chegados os migrantes exilados dão conta da presença

portuguesa e da necessidade do associativismo que para Heloisa Paulo

(1995, p. 09) “para além de um fator de manutenção da identidade étnica

do grupo, é um traço revelador das cambiantes que marcam a

estruturação desta mesma identidade.”

Neste contexto, os escritos de Maria Archer dão-nos conta de dois

tipos de associações portuguesas em terras brasileiras: desde logo, um

grande número de associações beneficentes e de socorro mútuo,

ressaltando o surgimento das casas regionais; por outro lado, as

associações de cunho político são tão antigas quanto aquelas, e já

albergam exilados desde os liberais do século XIX, a exemplo do

Gabinete Real de Leitura, nascido em 1928.

Na metade anterior à Segunda Guerra estiveram maciçamente

presente os exilados do republicanismo, que fundaram Centros

Republicanos e jornais tanto no Rio de Janeiro como em São Paulo. É

neste momento que verificamos a presença ativa da autora estudada

nas publicações periódicas.

Ao fazer notar a presença da mulher na condição de imigrante

exilada, como produtora de conhecimentos e formadora de opinião nos

meios de imprensa, espaço dominado hegemonicamente por homens,

Maria Archer contribuiu para a composição do debate sobre o jornalismo

feminino.

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A capacidade extraordinária de transitar por diversos campos de

produção de conhecimento, verificada pelo conjunto de sua efetiva

contribuição para a imprensa de língua portuguesa demonstra que os

textos de Maria Archer não são meramente subsidiários. Distante da

prosa de circunstância, no seu exercício jornalístico, dispôs do espaço

dos periódicos para a formação de opinião tanto na área política como

na área cultural. Assim sendo, como classificar a contribuição da

escritora aos jornais? Jornalismo feminino ou imprensa de autoria

feminina?

Pensar no jornalismo de Maria Archer pode ainda levar-nos, a

partir da caracterização e avaliação de sua prática, no contexto dos

anos 50-60, a conjeturar possíveis pontos de permanência e

distanciamento relativamente a essa mesma prática do jornalismo tal

como nos dias atuais. O reconhecimento ou não de características

próprias do jornalismo nos textos da imprensa, como os de Maria Archer,

servirá para que façamos incursões em torno dos papéis que

circunscrevem o universo apresentado nos meios da imprensa escrita

por e dirigidos à mulher.

Nos textos de imprensa periódica qual seria a característica

dominante do jornalismo? A maioria dos autores aponta a atualidade

como a principal característica. Luiz Beltrão afirma ser o fator essencial:

“O jornalismo vive do quotidiano, do presente, do efêmero, procurando

nele penetrar e dele extrair o que há de básico, fundamental e perene,

mesmo que essa perenidade valha, apenas, por alguns dias ou algumas

horas BELTRÃO (1960: 220).

Dentro da noção de atualidade está o fato acontecido ou por

acontecer, e que tem uma dimensão temporal bastante precisa. Assim,

podemos dizer que um dos traços fundamentais considerados como

constitutivos dos textos de imprensa dá-se na relação com a atualidade,

com a imediatez do estímulo e a efemeridade do veículo em que se

inscreve; em suma, a conservação da informação do evento e com a

retenção do essencial dentro do fato acontecido.

Quando pensamos num relato jornalístico, somos imediatamente

levados a uma forma de texto objetiva em que a matéria ali narrada nos

remete a fatos ocorridos e presenciados, em geral, pelo relator. Ora, nos

textos decorrentes da atividade jornalística de Maria Archer verifica-se

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que estes não se limitam a conteúdos prosaicos. A temática por ela

usada conserva ainda hoje, a perenidade, pois excede o mero registro

de fatos quotidianos.

Vista deste prisma, será possível inferir que a colaboração de

Maria Archer para a imprensa periódica, no âmbito dos próprios textos

saídos no jornal O Estado de São Paulo não se vincula meramente ao

gênero periodístico. Sua produção criativa vai além, aproxima-se

estilisticamente da literatura, pois, em geral traz mais idéias do que

fatos. De fato, consolidaram-se laços que perduram até hoje entre as

duas linguagens, a do mundo real e a do mundo possível.

Nas suas colaborações pode-se dizer que não há uma

preocupação com a ancoragem temporal imediata. Os conteúdos

orientadores sobre os quais escreveu não se vincularam com

exclusividade aos acontecimentos do séc. XX em Portugal ou nos países

em que circulavam e se fizeram circular.

Concentrar-nos-emos na atividade jornalística da escritora,

colaboradora regular da imprensa periódica do Brasil no período de 1955

a 1963. As crônicas abrangem parte dos anos mais conturbados do

regime salazarista: o “corpus” significativo foi endereçado ao jornal O

Estado de São Paulo, de 1955 a 1957, e para o jornal de resistência ao regime salazarista no Brasil, o Portugal Democrático, de 1955 a 1963.

Nas crônicas para OESP as experiências emocionais são

contadas do ponto de vista de um narrador-observador, presente ou

ausente da história. Rapidamente o leitor identifica-se com o sentido

configurado. As palavras, frases, imagens que ele próprio viu, ouviu,

disse ou pensou de uma forma solta, fazem parte de uma história

verosímil. No fundo, o distanciamento da cronista perante o

acontecimento permite organizá-lo, enquanto unidade de sentido. Assim,

o conjunto de crônicas deixa transparecer unidades de sentido que

mostram uma gramática do imaginário partilhada entre leitores e

cronista. Ao explicitar essa gramática obtém-se uma pluralidade de

configurações que são testemunhos vivos dos comportamentos perante

os acontecimentos.

Um exemplo emana da crônica “Domingo no bairro” , São Paulo,

(06-01-1956, p.10). Crônica de cenas da vida conjugal de Alfredo e

Raquel. Em 1ª pessoa o narrador observador introduz “Habitei longo

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tempo bairro novo de Lisboa onde havia, em velhos prédios, para

demolir, uma colméia popular”. O bairro, segundo o narrador era de

“gente gritante sem recato” que traz à rua mazelas domésticas. O

casamento entre as personagens deu-se às pressas. Alfredo, afeito à

solteirice, impôs logo, as condições: sair aos domingos com os amigos.

Sem objeções, ela aceitou casar, pois estava “deformada”, ou seja,

estava grávida. Após o nascimento do filho, Raquel querendo se mostrar

ao lado do marido, rebela-se e a vizinhança assiste perplexa à ameaça

de suicídio da Raquel acompanhada do filho sob os trilhos do trem.

Alfredo num sombrio silêncio de revoltado, na cena crucial, sobe as

escadas do apartamento pobre. O narrador, entretanto adverte: Talvez a

Raquel se julgasse triunfadora. “Eu não confiava na duração daquele

triunfo”.

O cenário português em que a produção se dá, bem como a

ambiência social e econômica são de imediata identificação para o leitor

brasileiro que é captado logo às primeiras frases. Ela não se limita

apenas a contar como se sucedeu o fato saciando a curiosidade

imediatista do leitor com as perguntas básicas da arquitetura de um

texto para a imprensa periódica: Quem? O quê? Onde? Por quê?

Atendendo ao espaço que dispõe na coluna semanalmente, dentro

da concisão que deve pautar a criação, o texto é estilisticamente

investido de leveza e a autora se coloca como mediadora de duas

linguagens, a do mundo real e a do mundo ficcional. O breve juízo

explícito do narrador expressa uma advertência aos leitores(as) ante a

perplexidade do evento. O procedimento inusitado da personagem causa

pasmo. Ao final o narrador pronuncia-se, registrando-se uma regra da

técnica jornalística.

Contudo, observamos ainda, ao final da crônica um princípio