Entre os monges do Tibete por Lobsang Rampa - Versão HTML

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TIBETE

* * * * 3 * * * *

A VERDADE INACREDITÁVEL

Poucos livros deram origem a uma controvérsia tão grande, nos últimos anos do que

“A TERCEIRA VISÃO”, de Lobsang Rampa, e os demais trabalhos por ele escritos.

O motivo para tal é bastante simples. Quando um cidadão inglês afirma que o seu corpo foi tomado pelo espírito de um Lama Tibetano, certamente poderá contar com acérrimas criticas.

E quando, além disso, ele narra factos e acontecimentos extraordinários, e os narra com muitos detalhes, o que leva à suposição da posse de faculdades pessoais inteiramente fora das leis da natureza como as conhecemos hoje, nesse caso a reacção se transforma num grande clamor, o que não é de estranhar.

Clamores deste tipo, entretanto, advêm às vezes da ignorância, pois entrever de relance o que antes não conhecíamos é algo sempre perturbador. O facto de que o Dr. Rampa tenha, hoje, milhares de leitores por todo o mundo, constitui uma indicação de que nem todos os espíritos se encontram fechados e nem são contra o que é desconhecido.

E para esse grande número de leitores - e não menos para os cépticos que não conseguiram provar ou desmentir a sua narrativa, ou explicar como terá obtido esses conhecimentos, se a mesma não for verídica - que o Dr. Rampa escreveu este terceiro livro.

ENTRE OS MONGES DO TIBETE, de Lobsang Rampa, é a sua resposta a todos os críticos, e cada página traz a sua garantia inflexível da verdade.

PREFÁCIO DO AUTOR

— Não fique sentido — disse o Sr. Editor.

“Pois muito bem”, pensava eu, “mas por que motivo haveria de ficar? Estou apenas a procurar realizar o meu trabalho, que é escrever um livro conforme determinaram que o fizesse.”

— Nada contra a imprensa! — disse o Sr. Editor. — Nada! “Ora, ora”, pensava eu. “Por quem julga ele que me está a tomar?” E assim será: nada contra a imprensa. Afinal de contas, os jornalistas pensam estar a cumprir a sua tarefa, e se recebem dados e informação incorrectos, nesse caso não lhes cabe toda a responsabilidade pelo que dizem. Ainda assim, o leitor quer conhecer a minha opinião a respeito da imprensa? Ah, bem...

Vamos ficar por aqui. Este livro é o terceiro, vindo após “A Terceira Visão” e o “O Médico de Lhasa”. Logo de início vou-lhes dizer que esta é a Verdade, não ficção. Tudo quanto escrevi nos dois livros anteriores é verdadeiro e regista a minha própria vivência pessoal.

O que vou contar, desta vez, diz respeito às ramificações da personalidade humana e ao ego humano, assunto este no qual nós, do Extremo Oriente, somos muito profundos.

Basta de prefácio, portanto. Este livro é a coisa em si, e o que tenho a narrar.

1

CAPITULO 1

Os picos escarpados do Himalaia rasgavam com decisão o púrpura vivo dos céus tibetanos, ao cair da tarde. O sol poente, encoberto por aquela cordilheira poderosa, atirava cores cintilantes e iridescentes sobre a capa branca de neve que desce permanentemente dos pontos mais altos.

O ar mostrava-se cristalinamente claro, revigorante, permitindo uma visibilidade quase limitada.

À primeira vista, a paisagem desolada e congelada parecia inteiramente destituída de vida.

Nada se mexia, nada se agitava, senão o pendão comprido de neve que se balançava, lá em cima. Aparentemente nada podia viver naqueles ermos montanhosos e inóspitos, nenhuma vida pudera instalar-se ali, desde o início do próprio Tempo.

Apenas quem soubesse, apenas aqueles a quem fora repetidamente mostrado, podiam

perceber — com dificuldade — os leves traços a indicar que ali viviam seres humanos.

Somente o conhecimento anterior poderia guiar os passos de alguém, naquele lugar agreste e interdito. Nesse caso, a pessoa veria a entrada encoberta por sombra, a entrada de uma caverna profunda e sombria, caverna essa que era apenas o vestíbulo de uma miríade de túneis e câmaras subterrâneas, estendidas no seio daquela austera cordilheira.

Muitos meses antes, os lamas merecedores da maior confiança, agindo como trabalhadores braçais, haviam penosamente percorrido as centenas de quilómetros desde Lhasa, levando os Segredos antigos para aquele lugar, onde estariam para sempre a salvo dos vândalos chineses e dos traidores tibetanos comunistas. Também para lá, com labuta e sofrimento infinitos, haviam sido levadas as Figuras Douradas das Encarnações passadas, para serem instaladas e veneradas, no coração de uma montanha. Os Objectos Sagrados, as escrituras antiquíssimas e os sacerdotes mais veneráveis e eruditos ali se encontravam a salvo. Anos atrás, com pleno conhecimento da invasão comunista que se avizinhava, os fiéis Abades haviam-se reunido periodicamente em solene conclave, a fim de submeterem à prova, e seleccionar, aqueles que deveriam seguir para o distante Novo Lar. Um após outro, os sacerdotes tinham sido examinados e postos à prova, e sem terem conhecimento disso, e examinados os seus registos, de modo que apenas os mais excelentes e os mais espiritualmente adiantados fossem

escolhidos. Homens cujo preparo e fé possibilitassem, se surgisse a necessidade, suportar as maiores torturas que os chineses pudessem infligir, sem deixarem transpirar dados

informativos que fossem de importância vital.

Assim é que, com o tempo, saindo de uma Lhasa dominada pêlos comunistas, eles haviam chegado a seu Novo Lar. Nenhuma aeronave portadora de cargas bélicas atingiria aquela altitude. Nenhum soldado inimigo conseguiria sobreviver naquela região árida, destituída de solo, rochosa e traiçoeira, com enormes pedras instáveis e abismos tremendos. A terra era tão alta e tão pobre que até o oxigénio do ar só podia ser respirado por um povo montanhês resistente. E ali, finalmente, no abrigo das montanhas, estava a Paz.

Paz para trabalhar a fim de resguardar o futuro, preservar o Conhecimento Antigo e aguardar, preparados, a ocasião em que o Tibete se levantaria outra vez, libertando-se do agressor.

Milhões de anos antes aquilo fora uma cordilheira de vulcões a vomitar fogo e a derramar rochas eruptivas e lava sobre a face do jovem planeta que era a Terra. O mundo mostrava-se semi plástico, porque sofria as dores de parto de uma nova era. Por um número incontável de anos, as chamas foram-se acalmando e as rochas semi derretidas tinham arrefecido. A lava havia passado pela última vez e os jactos gasosos vindos do interior da Terra tinham expulsado a matéria remanescente para o ar livre, deixando um número imenso de canais e túneis vazios. Alguns tinham sido soterrados por desabamento de rochas, mas outros haviam permanecido intactos, duros como vidro e listrados com traços de metais anteriormente em fusão. De algumas paredes internas desciam nascentes de montanha, puras e cristalinas e mais um qualquer raio de luz.

2

Por séculos consecutivos os túneis e cavernas permaneceram sem vida, abandonados,

conhecidos apenas pelos lamas em viagem astral, que podiam visitar qualquer lugar e ver tudo.

Os viajantes astrais haviam varrido o país, procurando um refúgio assim, e agora, com o terror rondando a terra do Tibete, os corredores antigos encontravam-se povoados pela elite de um povo espiritual, povo destinado a erguer-se novamente quando chegasse o momento.

Enquanto os primeiros monges cuidadosamente escolhidos seguiam rumo ao norte, a fim de preparar um lar dentro da rocha viva, outros, em Lhasa, acondicionavam os artigos mais preciosos e faziam os preparativos para saírem sem ser percebidos. Dos mosteiros lamaístas e conventos vinha um número pequeno, composto por aqueles que haviam sido escolhidos.

Em grupos pequenos, e sob a calada da noite, eles viajaram para um lago distante e ali montaram acampamento, aguardando os demais.

No Novo Lar, fora fundada uma Nova Ordem, a Escola de Conservação do Conhecimento, e o Abade encarregado da mesma, velho e sábio monge com mais de cem anos de idade, havia com sofrimento indescritível viajado para as cavernas no interior das montanhas. Com ele tinham vindo os mais sábios da Terra, os Lamas Telepatas, os Clarividentes e os Sábios de Grande Memória. Devagar, no decurso de muitos meses, tinham ascendido cada vez mais às cordilheiras, com o ar a tornar-se cada vez mais escasso à medida que subiam. Havia vezes em que menos de dois quilómetros era o máximo que seus corpos idosos podiam percorrer por dia, aos tropeços sobre rochedos e penhascos enormes, o vento eterno das altitudes a inflar-lhes os hábitos, ameaçando arrebatá-los. E de outras vezes, fendas profundas no terreno obrigavam a uma volta árdua e prolongada. Durante quase uma semana o antigo Abade foi obrigado a permanecer no interior de uma tenda hermética, feita com couro de iaque, enquanto ervas e poções estranhas exalavam oxigénio para aliviar-lhe pulmões e coração torturados. E depois, com decisão sobre-humana, ele prosseguiu na espantosa jornada.

O que finalmente chegou ao seu destino, era um grupo reduzido, pois muitos haviam caído pelo caminho. Gradualmente eles se habituaram à vida diferente, os Escribas registraram com cuidado o relato da jornada, e os Entalhadores prepararam devagar os blocos para imprimir manualmente os livros. Os Clarividentes olharam o futuro, predizendo, predizendo o futuro do Tibete e de outros países. Esses homens, de pureza absoluta, estavam em contacto com o Cosmo e com o Registro Akáshico, o Registro que narra tudo com relação ao passado e presente imediato, em qualquer parte, e mais todas as probabilidades para o futuro. Também os Telepatas se encontravam ocupados, enviando mensagens a outros no Tibete, mantendo-se em contacto com os membros da sua Ordem por toda parte — mantendo-se em comunicação comigo!

Lobsang. Lobsang!

O pensamento repercutiu na minha cabeça, fazendo com que eu saísse do devaneio. As mensagens telepáticas nada tinham de estranho para mim, eu as achava mais comuns do que uma chamada telefónica, mas aquela mostrava-se insistente. Por algum motivo, ela se mostrava um tanto ou quanto diferente das demais. Eu logo afrouxei o corpo, sentando-me na posição de lótus, abrindo a mente e colocando o corpo à vontade. E então, receptivo às mensagens telepáticas, aguardei. Por algum tempo não houve coisa alguma, apenas uma sondagem delicada, como se “Alguém” estivesse espiando através dos meus olhos e vendo.

Vendo o quê?

O enlameado rio Detroit, os grandes arranha-céus da cidade de Detroit. A data na folhinha à minha frente, 9 de abril de 1960.

E, de novo... nada. De repente, como se o “Alguém” houvesse chegado a uma decisão, a Voz veio novamente.

— Lobsang. Você tem sofrido muito. Você tem andado bem, mas não há tempo para

vangloriar-se. Você ainda tem uma tarefa a executar.

Houve uma pausa, como se quem falasse fosse inesperadamente interrompido, e eu fiquei à espera, abatido e inteiramente apreensivo. Eu já tivera padecimentos e sofrimentos mais do 3

que suficientes naqueles últimos anos. Mais do que o bastante com mudanças de local, em ser perseguido e caçado. Enquanto esperava, recebi pensamentos telepáticos fugazes de pessoas próximas, embora separadas de mim por paredes. A rapariga que batia impacientemente com a ponta do pé no chão, aguardando na paragem das camionetas diante da minha janela, pensando: “Oh, esta companhia de transportes é a pior do mundo! Será que ele não vem?” Ou o homem que entregava uma encomenda na casa ao lado: “Tenho de pedir um aumento ao patrão. A Millie vai ficar uma fera, se eu não arranjar mais algum dinheiro para ela!”

Enquanto eu suponha e imaginava quem seria essa “Millie”, assim como uma pessoa pensa em qualquer outra coisa enquanto aguarda ao telefone, a voz interna e insistente retornou.

— Lobsang! Tomamos uma decisão. Chegou a hora de você escrever novamente. O livro

seguinte será uma tarefa de máxima importância. Você deverá escrever frisando o tema de que uma pessoa pode apoderar-se do corpo de outra, tendo o inteiro consentimento da última.

Movi-me em sobressalto, desanimado, e quase rompi o contacto telepático. Eu escrever outra vez? E sobre isso? Já me tornara uma “figura controversa” e a cada instante detestava isso.

Eu sabia ser verdade tudo quanto antes afirmara, sabia que tudo quanto escrevera era a verdade absoluta, mas de que serviria causar alvoroço na imprensa, que estava mergulhada numa temporada de tolices? Não podia entender e fiquei confuso e muito desalentado, como um homem à espera da pena capital.

— Lobsang! — e a voz telepática agora estava cheia de severidade, com uma aspereza que pareceu aplicar um choque eléctrico no meu cérebro estupidificado. — Lobsang! Nós estamos em melhor posição para julgar, pois você encontra-se imerso nas coisas do Ocidente. Nós podemos avaliar, estando de fora. Você tem apenas as notícias locais. Nós as temos de todo o mundo.

Permaneci em humilde silêncio, aguardando a continuação da mensagem e concordando, no meu íntimo, que “Eles” obviamente sabiam o que era mais certo. Após algum intervalo, a Voz voltou:

— Você sofreu muito, injustamente, mas foi por uma boa causa. O seu anterior trabalho levou a muitos um grande bem, mas você está doente, e o seu juízo já está a ficar defeituoso e distorcido acerca da matéria do livro seguinte.

Enquanto ouvia, estendi a mão para apanhar o meu cristal muito antigo e segurei-o diante de mim, sobre o seu pano negro e opaco.

Rapidamente o vidro se nublou e tornou-se leitoso. Surgiu uma fresta e as brancas nuvens se afastaram, como cortinas, deixando entrar a luz da aurora. Eu vi e ouvi. Uma distante visão do imponente Himalaia, com os seus cumes cobertos de neve. Uma sensação acentuada de

queda, tão forte que senti o estômago subir.

A paisagem tornou-se maior e, então, surgiu a Caverna, o novo Lar do Conhecimento. Vi um Velho Patriarca, uma figura muito antiga, sentado sobre um tapete dobrado e feito com lã de iaque.

Embora fosse um Alto Abade, estava vestido em simples hábito descolorado e esfarrapado, que parecia quase tão antigo quanto ele próprio. A sua cabeça alta e abobadada brilhava como pergaminho antigo, e a pele das suas velhas e enrugadas mãos mal encobria os ossos que as sustentavam. Era uma figura venerável, com uma forte aura de poder e a serenidade inefável que o conhecimento verdadeiro proporciona. Ao seu redor, formando um círculo do qual ele era o centro, estavam sentados sete lamas de elevado grau, em atitude de meditação, tendo as palmas das mãos voltadas para cima e os dedos entrelaçados na imemorial posição simbólica.

As suas cabeças, levemente inclinadas para à frente, apontavam todas para mim. No cristal, era como se eu estivesse na mesma caverna vulcânica em que eles se encontravam, como se estivesse à sua frente. Conversávamos como se estivéssemos em real contacto físico.

— Você envelheceu muito — disse um.

— Os seus livros levaram alegria e luz a muitos. Não fique desanimado por causa de uns poucos que têm inveja e disposição perversa — disse outro.

4

— O minério de ferro pode achar-se inutilmente torturado na fornalha, mas quando a lâmina temperada do mais fino aço recorda a sua formação, ela sabe que valeu a pena — disse um terceiro.

— Estamos a perder tempo e energia — disse o Velho Patriarca. — O coração dele no seu peito está doente e ele encontra-se à sombra do Outro Mundo. Não devemos sobrecarregar as suas forças ou a sua saúde, pois ele tem essa tarefa a cumprir.

Formou-se novamente um silêncio, desta vez um silêncio curativo, enquanto os Lamas Telepáticos despejavam em mim energia vital, energia essa que muitas vezes me faltava, desde que tivera o segundo ataque de trombose coronária. O quadro à minha frente, e do qual parecia fazer parte, tornou-se mais brilhante, quase mais brilhante do que a realidade. Foi quando o Ancião olhou e falou:

— Meu Irmão — principiou, o que certamente constituía uma honra, embora eu também fosse um Abade —, temos de levar ao conhecimento de muitos a verdade de que um Ego pode

abandonar voluntariamente o seu corpo e permitir que outro Ego se apodere do corpo abandonado e o reanime. É essa a sua tarefa, a de transmitir esse conhecimento.

Aquilo era certamente uma surpresa. Minha tarefa? Eu jamais desejara fazer publicidade sobre essas questões, preferindo continuar silencioso até mesmo quando auferiria vantagens materiais em dar informações. Acreditava que, no esotericamente cego Ocidente, a maioria das pessoas estaria melhor se não tivesse conhecimento dos mundos ocultos.

Tantos “ocultistas” que eu havia encontrado possuíam, na verdade, um conhecimento tão pequeno!

E o conhecimento insuficiente é algo muito perigoso. A minha introspecção foi interrompida pelo Abade. — Como você bem sabe, estamos no limiar de uma Nova Era, uma Era aonde se pretende que o Homem seja purificado da escória, e viva em paz com os ademais e consigo próprio. As populações serão estáveis, sem aumentar ou diminuir, e isso sem os intuitos bélicos, pois um país em que a população aumente, tem de recorrer à guerra para obter mais espaço. Nós queremos que as pessoas saibam como um corpo pode ser abandonado, como fosse um velho e inútil traje, pode ser passado a outro, que necessita desse corpo para algum propósito especial.

Tive um sobressalto involuntário. Sim, eu sabia isso tudo, mas não contara ter de escrever a seu respeito. O plano assustava-me.

O velho Abade sorriu por instante, enquanto dizia:

— Vejo que a ideia, a tarefa, não encontra a sua simpatia, meu Irmão. Mas até mesmo no Ocidente, no que chamam crença cristã, existe o registro de numerosos exemplos de

“possessão”.

Que tantos casos sejam encarados como males, ou resultado de magia negra, é um facto deplorável e demonstra, apenas, a atitude dos que pouco sabem a respeito. A sua tarefa será a de escrever, de modo que quem tenha olhos possa ler, e os que estejam prontos fiquem a saber.

“Suicidas”, pensei. “As pessoas correrão a suicidar-se, quer seja para fugirem às dívidas e problemas ou então para favorecerem outras, na obtenção de um corpo”.

— Não, não, meu Irmão — disse o Velho Abade. — Você está enganado.

Ninguém pode escapar às suas dívidas pelo suicídio, e ninguém pode deixar um corpo por outro, ainda, a menos que prevaleçam as circunstâncias especiais que o permitam. Temos de aguardar o advento da Nova Era, e ninguém poderá abandonar justamente o seu corpo, senão quando transcorrido o tempo que lhe foi dado. Por enquanto, apenas quando as Forças Maiores o permitirem é que isso poderá ser realizado.

Olhei para os homens à minha frente, observando a palpitação de luz dourada ao redor das suas cabeças, o azul eléctrico da sabedoria nas suas auras e o intercâmbio de luz vinda dos seus Cordões Prateados. Era um quadro em cores vivas, formado por homens sábios e puros, homens austeros, ascetas, separados do mundo, controlados e confiantes.

5

“Fica muito bem para eles”, estava pensando. “Não têm de viver na confusão da vida ocidental”. Da outra margem do enlameado rio Detroit, o rugido do tráfego vinha em ondas sonoras. Um vapor navegando pêlos Grandes Lagos passava diante da minha janela,

quebrando a capa de gelo que encobria o rio à sua frente, com estalidos e estrondos. Vida ocidental? Barulho, ruído, estardalhaço. Rádios berrando e declarando os alegados méritos de uma agência de automóveis, e logo outra, e mais outra.

No Novo Lar havia paz, paz para trabalhar, paz para pensar, sem ser preciso imaginar quem pelas costas, apunhalaria o outro, a fim de obter apenas alguns dólares.

— Meu Irmão — disse o Ancião —, nós vivemos na “confusão” de um país invadido, onde a oposição ao opressor significa morrer após torturas lentas. O nosso alimento tem de ser trazido a pé por mais de cento e oitenta quilómetros de traiçoeiras trilhas montanhosas, onde um passo em falso, ou uma pedra solta, pode mandar o infortunado para uma imensa queda e à morte. Nós vivemos com uma tigela de tsampa, o suficiente para um dia. Para beber, temos as águas dos riachos da montanha. O chá é um luxo desnecessário, e aprendemos a viver sem ele, pois desfrutar prazeres que acarretam riscos para outros constitui um mal. Olhe mais atentamente para o cristal, meu Irmão, e procuraremos mostrar-lhe a Lhasa de hoje.

Ergui-me do assento perto da janela e verifiquei se as três portas do meu quarto estavam bem fechadas à chave. Não havia nenhum meio de silenciar o incessante rugido do tráfego, tráfego esse à beira do rio, no Canadá, e o zumbido mais abafado de Detroit, cidade ruidosa e movimentada. Entre mim e o rio havia a estrada principal, a mais próxima, e as seis pistas da ferrovia. Barulho? Não terminava! Dando um último olhar ao cenário moderno e agitado, fechei as persianas e retomei o lugar, de costas para a janela.

À minha frente, o cristal pulsava com luz azul, que se modificava e rodopiava quando eu me voltei para ele. Quando o agarrei e o encostei ao de leve na testa para novamente estabelecer contacto - ele pareceu estar quente nos meus dedos, o que era um sinal de que muita energia estava a ser dirigida para ele, provinda de uma fonte externa.

O rosto do Velho Abade estava voltado para mim com um ar benevolente, e um leve sorriso perpassou-lhe a fisionomia.

E logo pareceu ter ocorrido uma explosão. A visão tornou-se desorientada; um pano

remendado com miríade de cores sem relação umas com as outras e faixas agitavam-se.

De repente, foi como se alguém tivesse aberto uma porta, uma porta no céu, e eu estivesse de pé à beira daquela porta aberta. Desapareceu toda a sensação de estar a “olhar para um cristal”. Eu estava lá!

Abaixo de mim, brilhando suavemente à luz do sol poente, estava a minha terra, a minha Lhasa. Aninhada sob a protecção das cordilheiras imensas, tendo o Rio Feliz correndo velozmente pelo vale verde. Eu senti novamente as fortes dores de saudade pela minha pátria.

Todos os ódios e dificuldades da vida ocidental cresceram dentro de mim, e pareceu-me que o meu coração ia estourar. As alegrias e tristezas e a rigorosa preparação que eu tivera ali, a visão da minha terra natal, tudo isso levou os meus sentimentos a revoltarem-se perante a cruel falta de compreensão dos ocidentais.

Mas eu não estava lá apenas para satisfazer-me! Devagar, pareceu-me que estava a baixar pelo céu, baixando como se estivesse a bordo de um balão que descia com suavidade. A uns mil metros acima da superfície, tive uma exclamação de espanto horrorizado. Aeroporto?

Havia aeroportos ao redor da Cidade de Lhasa! Muitas coisas pareciam-me desconhecidas, e olhando ao redor, vi que haviam duas novas estradas passando sobre as cordilheiras e tornando-se menores em direcção à Índia. Havia tráfego, de veículos de rodas, que seguiam com rapidez por elas. Baixei mais, sob o controle daqueles que me haviam ali trazido. Mais baixo, e vi escavações onde escravos preparavam alicerces, sob o controle de chineses armados. Horror dos Horrores! Bem ao pé da gloriosa Potala estendia-se um feio

acampamento de barracas, servido por uma rede de estradas de terra. Fios ligavam aquelas construções e conferiam um ar desmazelado ao lugar. Olhei para a Potala, e... pelo Sagrado 6

Dente de Buda!... o Palácio fora profanado pela escrita de slogans dos chineses comunistas!

Com um soluço de revoltado desalento, voltei-me para olhar noutra direcção.

Um caminhão vinha pela estrada, passou através de mim — pois eu era um corpo astral, fantástico e sem substância — e parou pouco adiante, com um solavanco. Gritando, soldados chineses mal uniformizados saltaram dele, arrastando cinco monges na sua companhia.

Alto-falantes nas esquinas de todas as ruas começaram a funcionar, e em tom enérgico sob as suas ordens, a praça onde eu encontrava-me logo se encheu de gente. E encheu-se depressa, porque haviam fiscais chineses com chicotes e baionetas a açoitarem e a empurrarem quem não andasse depressa. A multidão, formada por tibetanos e colonos chineses, parecia abatida e mal nutrida. As pessoas tinham gestos nervosos, e pequenas nuvens de poeira erguiam-se do chão sob os seus pés, levadas pelo vento da tarde. Os cinco monges, magros e

ensanguentados, foram brutalmente atirados ao chão, de joelhos. Um deles tinha o globo ocular esquerdo fora da órbita, dependurado sobre a face, e eu o conhecia bem, pois fora um acólito no meu tempo como lama. A multidão taciturna tornou-se silenciosa e parada, enquanto um jipe de fabricação russa surgia disparado pela estrada, provindo de um edifício com o nome de “Departamento de Administração Tibetana”. Tudo ficou silencioso e tenso, enquanto o veículo fazia uma volta ao redor da multidão e parava a uns três metros atrás do caminhão. Os guardas puseram-se imediatamente em sentido, e um chinês autocrático

desembarcou do veículo, com plena atitude arrogante.

Um soldado apressou-se a ir ter com ele, desenrolando um fio enquanto andava. E diante do chinês autocrático, ele fez continência e ergueu a mão com um microfone. O Governador, ou Administrador, ou que nome e título julgasse ter, olhou desdenhosamente ao redor, antes de falar pelo instrumento.

— Vocês foram trazidos aqui — disse, então — para testemunharem a execução destes cinco monges reaccionários e subversivos. Ninguém poderá contestar a marcha do glorioso povo chinês, sob a competente direcção do Camarada Mao.

Dito isso, voltou-se, e os alto-falantes em cima do caminhão foram desligados. O Governador fez um gesto a um soldado, que empunhava uma comprida e curva espada. Ele foi ter com o primeiro prisioneiro ajoelhado à sua frente, e por momentos manteve as pernas abertas, verificando com o polegar o gume da espada. Satisfeito com o exame, retomou a posição e tocou ao de leve no pescoço do homem amarrado e indefeso. Erguendo a espada bem acima da cabeça e com o sol poente a rebrilhar na lâmina, ele a fez descer com estúpida e horrifica violência. Houve um ruído abafado, seguido instantaneamente por um forte estalo, e a cabeça do pobre homem saltou dos seus ombros, seguido por um jorro de sangue que pulsou, pulsou outra vez e se transformou numa caudal menor. Enquanto o corpo se contorcia no chão de poeira, o Governador rancorosamente cuspiu nele e exclamou:

— Assim morrerão todos os inimigos da comuna!

O monge com o olho arrancado da sua órbita ergueu a activamente cabeça, , e gritou:

— Viva o Tibete! Pela glória de Buda, ele se erguerá novamente.

Um soldado estava a ponto de atravessá-lo com a baioneta, quando o Governador

apressadamente interveio,. Com o seu rosto contorcido por raiva brutal e desmedida, ele berrou: — Insulta o glorioso povo chinês? Por isso morrerá lentamente!

Voltou-se para os soldados berrando atrozmente ordens. Os homens corriam para todos os lados, e dois deles foram a um edifício próximo e retornaram de lá com cordas enquanto outros cortavam as amarras do monge manietado, realizando cortes nos seus braços e nas pernas ao mesmo tempo. O Governador andava de um lado para o outro, gritando para que trouxessem mais tibetanos para assistir. Os alto-falantes voltavam a berrar, e caminhões cheios de soldados vieram carregados com mais homens, mulheres e inocentes crianças para

“assistir à justiça dos camaradas chineses”. Um soldado atingiu o monge no rosto com a coronha da espingarda, estourando o já pendente globo ocular e amassando-lhe o nariz. O

Governador, em pé e vendo aquilo, olhou os três outros monges ainda ajoelhados e

manietados no chão da estrada.

7

— Matem-nos a tiro! — ordenou. — Atirem atrás da cabeça e deixem os corpos por aí.

Um soldado adiantou-se e sacou o revólver. Pondo-o bem atrás da orelha de um monge, accionou o gatilho. O homem caiu para a frente, morto, os miolos espalhados no chão. Sem dar atenção a isso, o soldado foi ao segundo monge e rapidamente o matou também. Seguia para o terceiro, quando um jovem soldado interveio pedindo:

— Deixe-me fazer isso, camarada, pois ainda não matei.

Anuindo, o executante ficou ao lado, para permitir que o jovem soldado, tremendo de cruel avidez, tomasse o seu lugar. Sacando o seu revólver, o outro apontou para o terceiro monge, mas fechou os olhos e puxou o gatilho. A bala atravessou as faces do homem e atingiu um espectador tibetano no pé.

— Tente outra vez — disse o primeiro executante — e fique com os olhos bem abertos.

A esta altura, no entanto, o voluntário que errou por completo, com vergonha e medo tinha a mão a tremer tanto ao ver que o Governador o observava com desdém.

— Ponha o cano do revólver na orelha dele e atire! — disse o Governador.

Mais uma vez o jovem soldado foi ter com o monge condenado, enfiou selvaticamente o cano da arma na orelha dele e puxou o gatilho. O monge caiu para a frente, morto, ao lado dos companheiros.

A multidão aumentara, e enquanto eu por ali vi observava e vi que o monge meu conhecido fora atado pelo braço esquerdo e perna esquerda ao jipe. O braço e a perna direitos estavam atados ao caminhão. Um sorridente soldado chinês embarcou no jipe e ligou o motor.

Devagar, o mais vagarosamente possível, ele seguiu à frente. O braço do monge foi

arrancado, rígido como uma barra de ferro, com um ruído indescritível. O jipe prosseguiu, e com estalo alto o osso do quadril partiu-se e a perna esquerda do homem foi-lhe arrancada do corpo. O jipe parou, e o Governador embarcou. Logo depois, o veículo prosseguia na estrada pedregosa, fazendo saltar e sacudindo o corpo ensanguentado do monge moribundo. Os soldados embarcaram no caminhão e o mesmo partiu, arrastando atrás de si um braço e perna ensanguentados. Quando eu me voltava, nauseado, ouvi um grito de uma mulher, vindo de algum ponto por detrás de um edifício, seguido por uma brutal risada. Uma praga em chinês, pois era evidente que a mulher mordera quem a assaltara, e logo seguido de um grito borbulhante enquanto era apunhalada.

Acima de mim, o azul-escuro do céu da noite, literalmente pontilhado de pequeninas luzes coloridas que eram outros mundos. Muitos deles, eu o sabia, eram habitados. Quantos, fiquei pensando, seriam tão selvagens quanto a Terra? Ao redor havia cadáveres insepultos e conservados pelo ar frígido do Tibete, até que abutres e quaisquer animais selvagens os devorassem. Não havia cães para fazer isso, porque os chineses os tinham mortos a todos para os comer. Não havia mais gatos a guardar os templos de Lhasa, pois também tinham sido mortos para serem comidos pelos chineses. Quanto à morte?

Aos olhos dos comunistas invasores, a vida Tibetana não tinha mais nenhum valor mesmo além do que uma folha de relva.

A Potala estendia-se à minha frente. E agora, sob a luz fraca das estrelas, os cruéis slogans dos chineses combinavam-se com as sombras e não podiam ser vistos. Um farol, montado acima dos Túmulos Sagrados, percorria o Vale de Lhasa como se fora um olho maligno.

Chakpori, a minha Escola de Medicina, parecia desolada e esquecida, e do seu ponto mais alto vinham os fragmentos sonoros de uma obscena canção chinesa. Por algum tempo permaneci em profunda contemplação. De repente, sem que a esperasse, uma Voz disse:

— Meu Irmão, deve afastar-se agora, pois esteve ausente muito tempo. Ao subir, olhe bem ao redor.

Devagar, ergui-me no ar, como uma semente de dente de leão tocada pela brisa. A lua surgira, iluminando o Vale e picos montanhosos com a sua luz pura e prateada. Olhei, horrorizado, para os antigos mosteiros lamaístas, bombardeados e desertos, tendo espalhados ao seu redor os destroços dos bens terrenos do Homem. Os insepultos jaziam em grotescos montes, conservados pelo frio eterno, alguns agarrados a moinhos de oração, outros sem roupa e 8

transformados em farrapos de carne ensanguentada pela explosão de bombas e fragmentos de metal. Vi uma Figura Sagrada, intacta, que parecia fitar compadecidamente a loucura assassina da humanidade.

Nas encostas escarpadas, onde os eremitérios se prendiam às beiras dos montes em carinhosos abraços, vi um após outro eremitério destruído pêlos invasores. Os eremitas, ali encerrados por anos seguidos em escuridão solitária, procurando adiantamento espiritual, haviam ficado cegos no momento em que a luz do sol entrara nas suas celas. Quase sem excepção, o eremita se encontrava morto, ao lado do seu lar arruinado, tendo perto de si o amigo e servidor de toda a vida, morto também. Eu não podia olhar mais. Carnificina? Estúpido assassinato dos monges inocentes e indefesos? De que adiantava? Voltei-me e pedi aos que me guiavam para afastar-me daquele cemitério. A minha tarefa na vida, eu o soubera desde o início, estava relacionada com a aura humana, a radiação que cerca por completo o corpo do homem, e através das suas flutuações da cor o observador verifica se a pessoa é honrada ou não. A pessoa doente poderia ter a sua doença presente nas cores da sua aura. Todos devem ter já reparado na névoa em torno de uma lâmpada de rua, numa noite de nevoeiro. Alguns talvez tenham percebido a bem conhecida “descarga de coroa” que os cabos de alta tensão emitem de vez em quando.

A aura humana é um tanto semelhante a isso e demonstra a força vital do indivíduo. Os artistas de tempos idos, pintavam um halo ou nimbo ao redor da cabeça dos santos. Porquê?

Porque podiam ver a aura dessas pessoas. Desde que foram publicados os meus dois

primeiros livros, tenho recebido cartas de todo o mundo, e alguns dos missivistas são gente que também consegue ver a aura. Há anos que um Dr. Kilner, efectuando pesquisas num hospital londrino, verificou que podia, ver em certas circunstâncias, a aura humana. Escreveu um livro a esse respeito, mas a ciência médica não se encontrava pronta para tal descoberta, e tudo quanto ele verificara e havia aprendido foi encoberto. Eu também, a meu modo, estou realizando pesquisas, e visualizo um instrumento que tornará possível a qualquer médico ou cientista ver a aura de outra pessoa e curar doenças “incuráveis” mediante vibrações ultra-sónicas. Dinheiro, dinheiro, é esse o problema. A pesquisa sempre se mostrou cara!

E agora, estava pensando, eles querem que eu empreenda outra tarefa! A respeito da troca de corpos! Lá fora houve um estrondo que fez a casa estremecer.

“Oh”, pensei. “Os homens da ferrovia estão manobrando outra vez. Não haverá mais silêncio por bastante tempo”. No rio, um cargueiro a vapor apitou lamentosamente — como uma vaca a chamar o bezerro — e à distância veio a resposta de outra embarcação.

— Meu Irmão!

A Voz fez-se ouvir novamente, e voltei apressadamente ao cristal. Os velhos ainda estavam sentados em círculo, tendo o velho Patriarca no centro. Pareciam cansados, esgotados, pois haviam transmitido muita força a fim de tornarem possível aquela viagem improvisada e sem preparativos.

— Meu Irmão, você viu com muita clareza o estado em que se encontra o nosso país!

Você viu o que faz a mão cruel do opressor.

A sua tarefa, as suas duas tarefas, estão claramente à sua frente, e você poderá ter êxito em ambas, para a glória da nossa Ordem.

O ancião cansado tinha uma expressão aflita. Ele sabia — como eu — que eu poderia recusar-me, honrosamente. Eu fora muito mal compreendido devido aos relatos mentirosos

disseminados por um grupo com má disposição em relação a mim. No entanto, era um

clarividente de elevado grau e muito telepático. A viagem astral, para mim, era mais fácil do que andar. Escrever? Bem, sim, as pessoas poderiam ler o que eu escrevesse e, se não conseguissem acreditar em tudo, nesse caso aquelas que tivessem um grau suficiente de evolução acreditariam e saberiam a verdade.

—Meu Irmão — disse o Velho, suavemente —, embora os não-evoluídos, os

não-esclarecidos, finjam acreditar que você escreve ficção, uma parte suficiente da Verdade chegará aos seus subconscientes e... quem sabe?... a pequena semente da verdade poderá 9

vivificar nesta, ou na vida seguinte que tenham. Como o próprio Senhor Buda declarou na Parábola das Três Carruagens, o fim justifica os meios.

A Parábola das Três Carruagens! Que recordações vivas isso me trazia! Com que clareza eu recordei o meu amado guia o amigo, o Lama Mingyar Dondup, instruindo-me em Chakpori...

Um velho monge médico estivera a reduzir os receios de uma mulher muito doente, com algumas “mentiras brancas” inofensivas. Eu, jovem e inexperiente, exprimira, chocado, surpresa, em cómoda fatuidade (presunção ridícula), pelo facto de que um monge dissesse uma inverdade, ainda que em tal emergência. O meu guia aparecera, dizendo:

— Vamos ao meu quarto, Lobsang. Consultando as Escrituras, teremos muito a ganhar

Sorrira para mim, com sua aura cálida e com um benevolente descontentamento, voltando-se e seguindo a meu lado para o seu quarto lá em cima, de onde podíamos ver a Potala.

— Chá e bolos, sim. Devemos ter alguns alimentos, Lobsang, pois com eles você também poderá melhor digerir o conhecimento.

O monge servente, que nos vira entrar, apareceu sem ser chamado, trazendo as iguarias de que eu gostava e que somente conseguia mediante os bons ofícios de meu guia.

Por algum tempo estivemos sentados, conversando ociosamente, ou melhor, eu falei,

enquanto comia. E depois, quando terminara, o ilustre Lama disse:

— Há excepções em toda regra, Lobsang, e toda moeda ou símbolo tem dois lados. O Buda discorreu prolongadamente aos seus amigos e discípulos, e grande parte do que Ele disse foi escrito e conservado. Há uma narrativa muito adequada ao presente. Eu a apresentarei a você.

Armou-se melhor, pigarreou e prosseguiu:

— É o conto das Três Carruagens, assim chamado porque as carruagens despertavam um grande interesse entre os meninos daqueles dias, assim como acontece com as andas e bolos hoje em dia. O Buda falava com um dos seus seguidores, chamado Sariputra. Estavam

sentados à sombra de uma das grandes árvores indianas, debatendo a verdade e a inverdade, e como os méritos da primeira são, às vezes, superados pela bondade da ultima.

“O Buda disse: — Agora, Sariputra, vamos examinar o caso de um homem muito rico, tão rico que podia satisfazer todos os caprichos da sua família. Era idoso e tinha uma casa grande e com muitos filhos. Desde que os mesmos haviam nascido, ele tudo fizera para protegê-lo do perigo. Eles não conheciam o perigo e não haviam sentido a dor. O homem deixou a sua propriedade e foi a uma aldeia vizinha para tratar de negócios. Ao regressar, viu rolos de fumaça erguendo-se ao céu, pelo que apressou a marcha e, ao aproximar-se da casa, verificou que ela estava arder. Todas as quatro paredes estavam em fogo, e o telhado também. Dentro da casa, os filhos ainda brincavam, pois não compreendiam o perigo que corriam. Poderiam ter saído, mas não conheciam o significado da dor, por terem sido tão protegidos antes; e não percebiam o perigo do incêndio, porque o único fogo que tinham visto era o dos fogões nas cozinhas. O homem ficou muitíssimo preocupado, pois como podia, sozinho, entrar na casa e salvar os seus filhos? Se entrasse, talvez pudesse carregar apenas um dos filhos, e os demais teriam continuado a brincar, achando que se tratava de algum divertimento. Alguns eram muito novos, e poderiam ter andado e entrado nas chamas que não haviam aprendido a recear.

O pai foi ter à porta e chamou: — Meninos, meninos! Venham cá para fora. Venham para aqui, imediatamente!”

Os meninos, no entanto, não quiseram obedecer ao pai, queriam continuar a brincar, juntar-se no centro da casa, distantes do calor cada vez maior que não compreendiam. O pai pensou:

“Conheço bem os meus filhos, as diferenças dos seus caracteres, todas as subtilezas do temperamento; sei que apenas sairão se acharem que vão ganhar alguma coisa com isso, algum brinquedo novo que houvesse aqui fora”. E assim voltou à porta e chamou, em voz alta: — Meninos, meninos! Venham cá imediatamente. Eu tenho aqui brinquedos para vocês, perto da porta. São carruagens de bois, de bodes e uma carruagem tão ligeira quanto o vento, porque é puxada por um veado. Venham depressa, ou não as ganharão.”

Os meninos, sem recearem o fogo e os perigos do telhado incendiado e as paredes em chamas, mas receando apenas perderem os brinquedos prometidos, vieram às pressas. Vieram a correr, 10

um empurrando os outros para chegar em primeiro lugar ao local onde estariam os brinquedos a fim de escolher o melhor deles. E, quando o último deles saiu da casa, o telhado em chamas desabou no meio soltando uma chuvada de fagulhas e destroços. “Os meninos não deram qualquer atenção aos perigos de que haviam escapado e fizeram uma grande algazarra: —

Papá, papá! Aonde estão os brinquedos que o senhor prometeu? Aonde estão as três

carruagens? Nós viemos a correr, e elas não estão aqui. O senhor prometeu, papá!”

Para o homem rico, perder a casa não era grande perda, mas vendo que os filhos estavam a salvo, o pai saiu rapidamente com eles a fim de comprar-lhes os brinquedos, as carruagens, sabendo que o seu artifício salvara as vidas dos filhos.

“O Buda voltou-se para Sariputra e perguntou: — E agora, Sariputra, o artifício não foi justificado? Aquele homem, usando meios inocentes, justificou o fim visado? Sem o seu conhecimento, os filhos teriam perecido nas chamas. Sariputra voltou-se para o Buda e disse:

— Sim, ó Mestre, o fim justificou bem os meios porque causou um grande bem.”

O Lama Mingyar Dondup sorriu para mim, enquanto prosseguiu:

— Você foi deixado três dias fora de Chakpori, e pensou que a sua entrada fora barrada, mas estávamos em verdade a aplicar a você uma prova, um meio que se justificou no fim, pois você progrediu muito bem.

Também eu estou utilizando “um meio que no fim se justificará “. Estou a escrever isto, a minha verdadeira história (“A Terceira Visão” e “O Médico de Lhasa” também são absolutamente verídicos) para que possa prosseguir com o meu trabalho relacionado com a aura humana. Muitas pessoas escreveram a perguntar por que escrevo, e vou lhes dar a explicação: escrevo a verdade, para que as gentes ocidentais possam saber que a Alma do homem é maior do que esses sputniks ou foguetes sibilantes. Com o tempo, o homem irá a outros planetas por viagem astral, como eu o tenho feito!

Mas o homem ocidental não o conseguirá fazer enquanto todos os seus pensamentos forem os do lucro individual, vantagens individuais, sem qualquer consideração quanto aos direitos do próximo. Eu escrevo a verdade a fim de poder, mais tarde, adiantar mais a causa da aura humana. Pense o leitor no seguinte, que um dia acontecerá: um paciente entra no consultório do médico, e este não se dá ao trabalho de fazer qualquer indagação ou exame, mas

simplesmente agarra numa máquina fotográfica especial e fotografa a aura do paciente.

Em questão de minutos, mais ou menos, esse médico não clarividente terá nas suas mãos uma fotografia a cores da aura de o seu paciente. Ele a examinará, com suas estrias e tonalidades de cor, assim como um psiquiatra examina as ondas cerebrais registadas no

electroencefalograma. O clínico-geral, tendo comparado as cores dessa fotografia com mapas padronizados, receitará uma série de tratamentos com ultra-sons e espectro de cores, que corrigirá as deficiências na aura do paciente. Câncer? Será curado. Tuberculose? Também será curada. Parece ridículo?

Bem, não há muito que se considerava “ridículo” pensar em enviar ondas de rádio sobre o Oceano Atlântico. Era “ridículo” pensar em voar a mais de duzentos quilómetros por hora. O

corpo humano iria-se desintegrar, afirmavam então.

Era “ridículo” pensar em ir ao espaço exterior. Mas os macacos já foram, e quanto a esta minha ideia “ridícula”, eu já a vi em funcionamento!

Os ruídos de fora entravam em meu quarto, trazendo-me de volta ao presente. Ruídos?

Comboios que passavam em desvios, um barulhento carro de bombeiros, gente falando alto, seguindo às pressas para algum local de entretenimento. “Mais tarde”, pensei, “quando terminar esse clamor horrível, usarei o cristal e direi a Eles que farei o que me pedem”.

Uma sensação cálida e interna disse-me, então, que “Eles” já o sabiam, e que estão muito satisfeitos.

Por isso, como foi determinado, eis a verdade, a minha história.

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CAPITULO 2

No início do século, o Tibete encontrava-se tomado por muitos problemas. A Grã-Bretanha fazia alarido, gritando para o mundo todo que o Tibete mantinha demasiada amizade com a Rússia, em detrimento do imperialismo britânico. O Czar de todas as Rússias vociferava no seu palácio de Moscovo, queixando-se de que o Tibete se tornara demasiadamente amistoso para com a Grã-Bretanha. A Corte Real da China vibrava com as acusações que levantara contra o Tibete de que este país passara a ser mais amigo da Grã-Bretanha e Rússia, e certamente muito menos amigo da China.

Lhasa estava repleta de espiões de diversas nações, muito mal disfarçados como monges mendicantes ou peregrinos, ou missionários, ou sob qualquer capa que parecesse proporcionar um pretexto plausível para estarem no Tibete. Cavalheiros sortidos e de diversas raças reuniam-se sub-repticiamente sob a capa da noite a fim de ver como eles poderiam valer-se da perturbada situação internacional. O Grande Décimo-Terceiro, a Décima-Terceira Encarnação do Dalai Lama e grande estadista, mantinha a calma e a paz que haviam permitido ao Tibete esquivar-se às dificuldades. Mensagens polidas de amizade imorredouras e ofertas insinceras de “protecção” cruzavam os Himalaias Sagrados, enviadas pêlos chefes das principais nações do mundo.

Nessa atmosfera de dificuldades e inquietação é que eu nasci. Como a Avó Rampa dissera com tanta verdade, eu nasci para dificuldades e tenho estado nelas desde então, e quase nenhuma da minha própria iniciativa! Os Videntes e Ledores de Sorte tinham sido

entusiásticos nos seus louvores aos dons inatos de clarividência e telepatia sobre “o menino”.

“Um ego elevado”, dissera um deles. “Destinado a deixar nome na História”, afirmava outro.

“Uma Grande Luz para nossa Causa”, proclamava o terceiro. E eu, com tão pouca idade, ainda recém-nascido, erguera a voz em sentido de protesto por ter sido o bastante tolo para nascer mais uma vez. Os parentes, assim que pude entender-lhes a fala, valeram-se de todas as oportunidades para dizer-me do barulho que fizera, e declararam com satisfação que eu fora a voz mais estridente e menos musical que já tinham tido o infortúnio de ouvir.

O meu pai foi um dos homens mais destacados do Tibete.

Nobre de alto grau, exercia considerável influência nas questões do nosso País. Também a minha mãe, pelo seu lado da família, exercia uma grande autoridade em questões de política.

E agora, recordando os anos passados, eu me inclino a pensar que eles eram quase tão importantes quanto a minha mãe considerava, e isso não era dizer pouco.

Os meus primeiros dias foram passados no nosso lar feliz perto da Potala, no outro lado do Rio Kaling, ou Rio Feliz. “Feliz”, porque dava vida a Lhasa, enquanto seguia gargalhando por muitos córregos e em rumo sinuoso, passando pela cidade em forma de regato. O nosso lar era bem construído e dotado de empregados, e os meus pais viviam num esplendor principesco.

Eu...

Bem, eu havia sido sujeito a uma grande e dura disciplina. O meu pai ficara amargurado durante a ocupação chinesa no primeiro decénio do século e parecia ter adoptado um irracional desagrado a meu respeito. A minha mãe, como tantas mulheres da sociedade no mundo, não tinha tempo para os filhos, encarando-os como coisas das quais era preciso livrar-se o mais depressa possível, entregando-as a alguma pessoa contratada para isso.

O meu irmão Paljor não ficou muito tempo connosco, e antes do seu sétimo aniversário partiu para “Os Campos Celestes” e a Paz. Eu tinha quatro anos de idade nessa época, e o desagrado do meu pai por mim pareceu aumentar desde então. A minha irmã Yasodhara tinha seis anos quando o nosso irmão faleceu, e ambos deploramos, não a perda dele, mas a disciplina maior que foi imposta em seguida.

Hoje em dia, os meus parentes estão todos mortos, assassinados pêlos comunistas chineses. A minha irmã foi morta por resistir-lhes, os meus pais por serem donos de terras. O lar que eu observava com os olhos arregalados, o belo parque à frente, fora transformado em dormitórios para trabalhadores escravos. De um lado da casa encontram-se mulheres que trabalham, e do 12

outro os homens. São todos casados, e se marido e mulher se comportarem e executarem a sua quota de trabalho, têm licença para ver-se uma vez por semana, por meia hora, e depois disso são submetidos a exame médico.

Nos dias mais distantes do passado, entretanto, quando eu era um menino, tais coisas ainda estavam por suceder no futuro, eram coisas que nós sabíamos destinadas a acontecer mas que, como a morte ao final da vida, não incomodavam demasiadamente. Os Astrólogos haviam realmente previsto tais acontecimentos, mas nós dávamos prosseguimento embevecidos à vida diária, despreocupados do futuro.

Pouco antes de completar sete anos, idade em que o meu irmão deixara esta vida, houve uma grande festa cerimonial em que os Astrólogos do Estado consultaram os seus mapas e determinaram qual deveria ser o meu futuro. Todos quantos tinham alguma importância na sociedade ali se encontravam presentes, e muitos haviam surgido sem convites, subornando os empregados para que os deixassem entrar. O congestionamento de pessoas era tão grande que quase não havia espaço para andar, nos nossos amplos aposentos.

O sacerdote atrapalhou-se e meteu os pés pelas mãos, como é próprio dos seus colegas, e saiu-se com uma demonstração impressionante antes de anunciar os pontos mais destacados da minha carreira. A bem da verdade, devo dizer que eles estavam absolutamente certos em todas as coisas infortunadas que indicaram. Depois disso, informaram os meus pais que eu devia entrar para o Mosteiro Lamaísta de Chakpori, para tornar-me um Monge Médico.

A minha tristeza era intensa, pois tinha a sensação de que isso levaria a problemas e apuros.

Ninguém me deu ouvidos, no entanto, e não tardou para que eu tivesse de enfrentar a provação de ficar sentado três dias e três noites, diante do portão de entrada do Mosteiro, só para que verificassem se eu tinha a resistência necessária para tornar-me Monge Médico.

Passei pela prova, o que constitui prova mais do medo que sentia de ter de enfrentar o meu pai, caso fracassasse, do que da minha resistência física. Entrar para Chakpori foi a etapa mais fácil de todas. Os nossos dias eram compridos e era realmente duro iniciá-los à meia-noite.

Éramos obrigados a frequentar os serviços religiosos a intervalos que ocorriam em toda a duração da noite e do dia. Ensinaram-nos a matéria escolar comum, os nossos deveres religiosos, as questões do mundo metafísico e conhecimentos médicos, pois deveríamos tornar-nos monges médicos. As nossas curas orientais eram de tal modo que o pensamento médico ocidental ainda não as poderia compreender. Ainda assim, as firmas farmacêuticas ocidentais estão a procurar com afinco o meio de sintetizar os poderosos ingredientes que se encontram nas plantas por nós estudadas. E, então, o remédio oriental antiquíssimo, será produzido artificialmente em algum laboratório e receberá um nome altissonante, e será proclamado como um novo exemplo das realizações ocidentais. O progresso é assim.

Quando tinha oito anos de idade, fui submetido a uma operação que abriu minha “Terceira Vista”, aquele órgão especial de clarividência que se encontra agonizante na maioria das pessoas, porque as mesmas negam a sua existência. Com essa “vista” enxergando, eu

conseguia distinguir a aura humana e, deste modo, adivinhar a intenção dos que se

encontrassem por perto. Era — e ainda é! — altamente divertido ouvir as palavras vazias dos que fingiam amizade para ganharem algo com isso, mas que na verdade traziam nos corações o desejo negro de matar. A aura pode indicar toda a história médica de uma pessoa, e determinando-se o que falta nela, e corrigindo-se tais deficiências por meio de radiações, as pessoas podem ser curadas dos seus males.

Devido ao facto de possuir capacidade incomum de clarividência, era frequentemente chamado pelo Mais Precioso, a Grande Décima-Terceira Encarnação do Dalai Lama, a fim de examinar a aura dos que O visitavam “em amizade”. O meu amado guia, o Lama Mingyar Dondup, um muito grande clarividente, preparou-me bem. Ensinou-me, igualmente, os

maiores segredos da viagem astral, que para mim é mais fácil do que andar.

Praticamente qualquer pessoa, qualquer que seja o nome que dê ao que julga ser uma religião, acredita na existência de uma “alma” ou “outro corpo”. Na verdade, existem diversos

“corpos” ou “lâminas”, mas o número exacto não nos interessa aqui.

13

Nós acreditamos — ou melhor, sabemos! — ser possível deixar de lado o corpo físico comum (o que sustenta as roupas) e viajar a qualquer parte, até mesmo além da Terra, na forma astral.

Todos fazem viagens astrais, mesmo os que julgam isso “tudo invenções”! É uma coisa tão natural quanto o é respirar. A maior parte das pessoas faz isso enquanto dorme e por esse motivo, a menos que estejam preparadas, não sabem desse facto. Quantas pessoas, ao acordar de manhã, exclamam: “Oh! Tive um sonho formidável ontem à noite, pareceu-me que estava com fulana. Fomos muito felizes juntos, e ela disse que vai me escrever. Está claro que o sonho se tornou muito vago agora”.

E depois, geralmente dias depois, chega realmente uma carta. A explicação é que uma das pessoas viajou astralmente e foi ter com a outra, e por não estarem ambas preparadas ou treinadas, a coisa tornou-se um “sonho”. Quase todos podem fazer viagens astrais. Quantos casos documentados existem, de pessoas que morrem e visitam um ser amado, em sonho, a fim de se despedirem?

Trata-se, também, de uma viagem astral. A pessoa agonizante, tendo afrouxado os laços com este mundo, pode facilmente visitar um amigo, de passagem.

A pessoa preparada pode deitar-se e afrouxar o corpo, e depois os laços que prendem o ego, ou o corpo companheiro, ou alma, qualquer que seja o nome dado, pois é tudo o mesmo. E

então, quando a ligação única for o “Cordão Prateado”, o segundo corpo pode desligar-se, como um balão cativo no final da linha. Você pode ir a qualquer lugar que imagine, inteiramente consciente e alerta, quando preparado e treinado para isso. O estado de sonho, ou onírico, é quando uma pessoa viaja astralmente sem saber disso, e traz de volta uma impressão confusa e embaralhada. A menos que a pessoa esteja treinada, há uma multidão de impressões constantemente recebidas pelo “Cordão de Prata”, que confunde o “sonhador”

cada vez mais. No astral, podemos ir a qualquer lugar, até mesmo ultrapassar os confins da Terra, pois o corpo astral não respira, nem come. Todas as suas necessidades são supridas pelo “Cordão Prateado” que, durante a vida da pessoa, faz a sua ligação constante com o corpo físico.

O “Cordão de Prata” é mencionado na Bíblia Cristã: “Para que o “Cordão de Prata”, não seja rompido e a “Tigela de Ouro” “estraçalhada”. A “Tigela de Ouro” é o halo ou nimbo, em volta da cabeça de uma pessoa espiritualmente evoluída. As pessoas não-evoluídas têm um halo de cor muito diferente! Os artistas de antigamente pintavam um halo dourado ao redor das imagens de santos, porque realmente viam esse halo, pois de outra forma não o teriam pintado. O halo é apenas uma parte muito pequena da aura humana, sendo visto com mais facilidade porque se mostra, em geral, muito mais brilhante.

Se os cientistas quisessem investigar a viagem astral e as auras, ao invés de mexerem com foguetes ruidosos que tantas vezes deixam de entrar em órbita, encontrariam a chave completa para a viagem espacial. Mediante projecção astral, poderiam visitar outro mundo e assim determinar o tipo de nave espacial seria necessário para realizar a jornada no plano físico, pois a viagem astral tem um grande inconveniente: não se pode levar qualquer objecto material e, tampouco, regressar com ele. Pode-se, apenas, trazer conhecimento. Assim sendo, os cientistas necessitarão de uma nave espacial para trazerem espécimes vivos e fotografias, com que poderão convencer um mundo incrédulo, pois as pessoas não conseguem acreditar na existência de alguma coisa, a menos que a possam partir em bocados, a fim de provar que talvez ela seja possível, afinal de contas.

Eu recordo-me, de um modo especial, de uma jornada no espaço que fiz. O que vou narrar é absolutamente verdadeiro, e aqueles que tenham evoluído saberão disso. Quanto aos demais, não importa, pois ficarão a sabê-lo quando alcançarem uma etapa mais elevada de madureza espiritual.

Trata-se de uma peripécia ocorrida à anos atrás, quando eu estava no Tibete, estudando no Mosteiro de Chakpori. Embora tenha acontecido há um bom número de anos, a recordação continua muito nítida, como se tivesse acontecido ontem.

14

O meu guia, o lama Mingyar Dondup, e um lama companheiro, na verdade um grande amigo meu, chamado Jigme, e eu, estávamos no telhado de Chakpori, sobre a Montanha de Ferro, em Lhasa, no Tibete. Era uma noite muito fria, com talvez quarenta graus abaixo de zero.

Enquanto ali estávamos, expostos no telhado, o vento gemia e comprimia os nossos hábitos contra os corpos tiritantes. No lado oposto àquele de onde vinha o vento, os hábitos esvoaçavam como Bandeiras de Oração, deixando-nos gelados até à medula dos ossos,

ameaçando atirar-nos pela encosta íngreme do morro.

Olhando ao redor, fortemente inclinados contra o vento para mantermos o equilíbrio em pé, vimos as luzes fracas da cidade de Lhasa, à distância, enquanto à direita as luzes da Potala aumentavam o ar místico da cena. Todas as janelas pareciam adornadas com lamparinas de manteiga, que embora protegidas pelas paredes grossas, oscilavam e dançavam ao vento.

À luz fraca das estrelas, o telhado dourado da Potala reflectia e piscava, como se a própria Lua houvera descido e estivesse brincando entre os pináculos e túmulos na parte superior da gloriosa construção.

Nós, entretanto, tiritávamos no frio intenso, desejando estar no calor do ar carregado de incenso, no templo abaixo. Estávamos no telhado para um objectivo especial, como o Lama Mingyar Dondup dissera, com um tom enigmático. E então, ele colocou-se entre nós,

parecendo tão firme quanto a própria montanha enquanto apontava para cima, para uma estrela distante — um mundo de aspecto vermelho — e disse:

— Meus irmãos, aquela é a estrela Zhoro, um planeta velho, muito velho, um dos mais antigos neste sistema. Está-se aproximar do final da sua longa vida.

Voltou-se para nós, dando as costas ao vento mordaz, e acrescentou:

— Vocês já estudaram muito em matéria de viagem astral.

Agora, juntos, vamos viajar no astral até aquele planeta. Deixaremos os corpos aqui, neste tecto varrido pelo vento, e subiremos além da atmosfera, além do próprio Tempo.

Assim dizendo, seguiu à frente no telhado, até onde encontrámos um ligeiro abrigo, oferecido por uma cúpula mais destacada. Deitou-se, acenando para que fizéssemos o mesmo.

Envolvemos os hábitos nos corpos, e demos as mãos. Acima de nós estava a abóbada

profunda e purpúrea do Céu, pontilhada pêlos leves alfinetes de luz colorida, porque todos os planetas têm luzes diferentes, quando vistos no ar claro das noites do Tibete. Ao redor havia o vento ululante, mas a nossa preparação sempre fora severa, e não dávamos qualquer

importância a estarmos naquele telhado. Sabíamos que não se trataria de uma jornada comum pelo astral, pois não era frequente deixarmos os corpos expostos assim ao tempo inclemente.

Quando o corpo fica numa situação desconfortável, o ego pode viajar mais longe, mais depressa, e lembra-se com mais detalhes. Apenas em pequenas viagens pelo mundo é que a pessoa afrouxa o corpo e o torna confortável.

Estávamos deitados, e o meu guia disse:

— Agora, agarremos as mãos e projectemo-nos juntos além desta Terra. Fiquem comigo e viajaremos para longe, e veremos coisas incomuns esta noite.

Deitámo-nos de costas e respirámos na forma adequada para a libertação da viagem astral. Eu tinha consciência do vento gemendo nas cordas das Bandeiras de Oração, que tremulavam loucamente acima de nós. E então, de repente, houve um solavanco, e não senti mais os dedos mordazes do vento gelado.

Vi-me flutuando, como em tempo diferente, por cima do meu corpo, e tudo era paz.

O Lama Mingyar Dondup já se pusera erecto na sua forma astral e então, olhando para baixo vi que o meu amigo Jigme também deixava o corpo. Ele e eu pusemo-nos em pé e formamos um elo para unir-nos ao nosso guia, o Lama Mingyar Dondup. O elo, chamado ectoplasma, é fabricado com base no corpo astral, pelo pensamento, sendo o material utilizado pêlos médiuns para produzir manifestações espíritas.

Completado o elo, subimos vertiginosamente, pelo céu da noite, e eu, sempre indagador, olhei para baixo. Sob nós, esticando-se por debaixo, estavam os nossos Cordões de Prata, aqueles liames sem fim que unem os corpos físico e astral durante a vida. Voamos mais e mais, 15

subindo. A Terra se afastava, e podíamos ver a corona solar surgindo pela orla terrestre, aquela que devia ser o mundo ocidental, pelo qual havíamos viajado tanto, no plano astral.

Subimos mais, e dava para ver os limites dos oceanos e continentes, e a parte do mundo iluminada pelo Sol. Da nossa distância, o mundo se assemelhava a uma lua em quarto crescente, mas com á Aurora Boreal, ou Luzes Setentrionais, brilhando sobre os pólos.

Prosseguimos na viagem, cada vez mais depressa, até havermos ultrapassado a velocidade da luz, pois éramos espíritos sem corpo, seguindo sempre, aproximando-nos à velocidade do pensamento. Olhando à frente, vi um planeta, enorme, ameaçador e vermelho, bem à nossa frente. Caímos na sua direcção, em velocidade impossível de calcular. Embora eu tivesse muita experiência em viagens astrais, senti-me alarmado. A forma astral do Lama Mingyar Dondup deu uma risada telepática e disse:

— Oh, Lobsang, se fôssemos bater naquele planeta, não sentiríamos nada. Passaríamos através dele sem nenhuma resistência.

Finalmente encontramo-nos a flutuar acima de um mundo vermelho e desolado; haviam

rochas vermelhas, areia vermelha e um mar vermelho e sem ondas. Enquanto descíamos à sua superfície, vimos criaturas estranhas, como enormes caranguejos que se moviam

letargicamente pela beira da água. Ficamos sobre aquela praia de rochas vermelhas e olhamos para a água, sem ondas, morta, com uma espuma vermelha sobre ela, espuma com mau

cheiro. Enquanto observávamos, a superfície líquida e turva com relutantes ondulações, e uma estranha criatura surgiu, também vermelha, de carapaça grossa e articulações notáveis. Emitiu um gemido, como se cansada e desanimada, e chegando à areia vermelha caiu ao lado do mar sem ondas. Acima de nós um sol vermelho tinha brilho mortiço, formando sombras temerosas e sanguinolentas, fantasmagórico e tenebroso. Ao redor não havia movimento, nenhum outro sinal de vida, senão as estranhas criaturas de carapaça, que jaziam semimortas no chão.

Embora eu estivesse no corpo astral, estremeci de apreensão, quando olhei ao meu redor. Um mar vermelho com espuma vermelha, rochas, areia e criaturas vermelhas, e acima de tudo um sol rubro, como as brasas finais de uma fogueira, que logo se apagaria e passaria ao nada.

O Lama Mingyar Dondup disse:

— Este é um mundo que morre. Já não tem rotação.

Este mundo flutua, solto, no mar do Espaço, satélite de um sol que agoniza e que logo deverá entrar em colapso, transformando-se numa estrela anã e sem vida, sem luz, uma estrela anã que mais tarde colidirá com outra, e das duas nascerá outro mundo. Eu os trouxe aqui porque há neste mundo uma vida maior, uma vida que se encontra presente para pesquisar e

investigar os fenómenos desta natureza. Olhem para além.

Voltou-se e apontou com a mão direita para uma certa distância, onde vimos três enormes torres que se erguiam ao céu vermelho, e por cima delas havia três bolas de cristal brilhando e pulsando com luz amarelo-clara, como se estivessem vivas.

Enquanto estávamos a olhar e pensando, uma das luzes modificou-se, uma das esferas mudou para uma cor viva azul eléctrica. O Lama Mingyar Dondup disse:

— Venham, estão-nos a chamar. Vamos descer ao chão, pois eles vivem em câmaras sob a superfície.

Juntos, seguimos para a base daquela torre e então, quando nos encontrávamos sob a estrutura, vimos que havia uma entrada fortemente guarnecida com algum metal estranho, que brilhava e se apresentava como uma cicatriz naquela região vermelha e estéril. Passamos por ela, pois metal, rochas ou coisa alguma constitui barreira para quem está no astral.

Atravessamos longos corredores de rocha morta, até chegarmos, finalmente, a um enorme salão, cercado de mapas e cartas, e máquinas e instrumentos estranhos. No centro do salão havia uma mesa comprida, à qual estavam sentados nove homens muito idosos, todos eles diferentes entre si. Um era alto e magro, com uma cabeça em formato cónico. Outro era baixo e atarracado. Cada um deles diferia dos demais, sendo claro que vinham de planetas e raças diferentes. Raça humana? Bem, talvez “humanóide” fosse uma expressão melhor com que designá-lo. Eram todos humanos, mas alguns mais do que outros.

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Percebemos que todos os nove olhavam fixamente na nossa direcção.

— Ah! — disse um deles, telepaticamente. — Temos visitantes vindos de longe. Vimos quando aqui pousaram, através da nossa estação de pesquisa, e enviamos a vós uma

mensagem de boas-vindas.

— Respeitáveis Pais — disse o Lama Mingyar Dondup —, eu vos trouxe dois jovens que acabaram de ingressar na Lamância (etapa atingida por quem se torna um Lama, vindo de etapas preparatórias. (N. T.)), e que são estudiosos, ansiosos, à busca de conhecimento — São certamente bem-vindos — disse o homem alto, que parecia ser o dirigente do grupo. —

Faremos o que for necessário para ajudar, como ajudamos anteriormente, com os outros.

Isto era uma novidade absoluta para mim, pois não fazia ideia de que o meu guia efectuasse viagens astrais tão extensas, pelos lugares celestiais.

O homem mais baixo olhava para mim, e sorriu, dizendo na linguagem universal da telepatia:

— Vejo, meu rapaz, que está muito intrigado pelas diferenças dos nossos aspectos.

— Respeitável Pai — respondi, um tanto intimidado pela facilidade com que ele adivinhara os meus pensamentos, que eu procurara esconder —, é um facto. Maravilho-me ante a

disparidade de tamanhos e formas entre vós, e ocorre-me que não podeis ser homens da Terra.

— Compreendeu correctamente — disse o homem de baixa estatura. — Todos nós somos

humanos, mas devido aos ambientes em que vivemos, as nossas formas e estatura foram se alterando um pouco.

Mas você poderá encontrar o mesmo no seu próprio planeta, onde, na terra do Tibete, há monges que vocês utilizam como guardas, e que têm mais de dois metros de altura. Noutro país do seu mundo, no entanto, há gente com metade dessa estatura, a quem chamam

pigmeus. Ambos são humanos e capazes de se reproduzir entre si, a despeito de qualquer diferença em estatura, pois todos somos humanos, nas moléculas de carbono. Aqui, neste Universo, tudo depende das moléculas básicas de carbono e hidrogénio, que são os elementos formadores da estrutura do mesmo. Nós, que viajamos por outros Universos, muito além deste ramo da nossa nebulosa, sabemos que os outros utilizam componentes diferentes. Alguns usam o silício, outros o gesso, mas eles se apresentam muito diferentes dos habitantes deste Universo, e verificamos com pesar que os nossos pensamentos nem sempre têm afinidade com o deles.

O Lama Mingyar Dondup disse:

— Eu trouxe estes dois jovens lamas para que eles possam ver as etapas de decadência e morte de um planeta que esgotou a sua atmosfera e na qual o oxigénio combinou-se aos metais para queimá-los e reduzir tudo a uma poeira impalpável.

— É assim — disse o homem alto. — Nós gostaríamos de indicar a esses jovens que tudo quanto nasce tem de morrer. Tudo vive pela duração permitida, e esse período é de um certo número de unidades de vida. Uma unidade de vida, em qualquer criatura, é uma batida do seu coração. A vida de um planeta é de 2.700.000.000 de batidas, após o que o planeta morre, mas da morte de um nascem outros. Também o ser humano vive por 2.700.000.000 de batidas cardíacas, e assim acontece com o insecto mais simples. Um insecto que vive por apenas vinte e quatro horas tem, durante esse tempo, ... 2.700.000.000 de batidas cardíacas. Um planeta...

eles variam, naturalmente... mas um planeta pode ter uma batida cardíaca a cada 27.000 anos, e então ocorrerá uma convulsão no seu mundo, quando ele se agita e prepara-se para a batida seguinte. Toda a vida, então — prosseguiu ele —, tem a mesma duração, mas algumas

criaturas vivem em proporções diferentes do que outras.

As criaturas sobre a Terra, o elefante, tartaruga, formiga e o cão, todas elas vivem pelo mesmo número de batidas cardíacas, mas em todas, os seus corações batem a ritmos

diferentes, de modo que parecem viver mais tempo, ou menos tempo.

Jigme e eu achamos isso extremamente fascinante, e que vinha explicar muita coisa que havíamos apercebido na nossa terra natal, o Tibete. Havíamos ouvido falar, na Potala, a respeito da tartaruga que vive tantos anos, e sobre insectos que viviam apenas pela duração de 17

um entardecer de verão, e víamos agora que as suas percepções deviam ser aceleradas, para poder acompanhar o ritmo dos seus rapidíssimos corações.

O homem baixo, que parecia fitar-nos com grande aprovação, disse então:

— Sim, e não é só isso, pois muitos animais representam funções diferentes do corpo. A vaca, por exemplo, como qualquer pessoa pode ver, é uma glândula mamaria ambulante, a girafa um pescoço, um cão... e também, sabemos em o que é que o cão está sempre a pensar... ao cheirar o vento para saber das coisas, porque a vista é tão fraca... e o cão pode, portanto, ser encarado como um nariz. Outros animais apresentam afinidades com as diferentes partes da anatomia do corpo humano. O tamanduá da América do Sul podia ser encarado como uma língua.

Por algum tempo conversamos telepaticamente, aprendendo muitas coisas estranhas, e aprendendo com a velocidade do pensamento, como acontece no plano astral. E, então, o Lama Mingyar Dondup ergueu-se e disse estar na hora de partirmos.

Por baixo de nós, quando voltávamos, os telhados dourados da Potala reluziam à luz solar frígida. Os nossos corpos estavam entorpecidos, pesados e difíceis de mover, com as articulações semi congeladas.

“E assim”, pensamos, enquanto cambaleávamos para ficarmos de pé, terminou outra

experiência, outra jornada. O que virá depois?”

Uma ciência em que os tibetanos se mostravam supremos era a cura por plantas, ou

herborização. Até então o Tibete estivera fechado aos estrangeiros, e a nossa fauna e flora jamais tinham sido exploradas por eles. Nos grandes planaltos crescem plantas estranhas. O

curare e a mescalina “recentemente descobertos” eram conhecidos no Tibete há séculos.

Poderíamos curar muitos dos males do mundo ocidental, mas antes disso o seu povo teria de apresentar um pouco mais de fé. A maioria dos ocidentais são de loucos, o que afinal de contas, o trabalho resultante não valeria a pena.

Todos os anos um grupo de nós, que se saíra melhor nos estudos, partia em expedições destinadas a colher plantas. Eram plantas e pólen, raízes e sementes, cuidadosamente colhidos, tratados e guardados em sacos feitos com couro de iaque. Eu adorava o trabalho, e estudava bastante. Agora, verifico que as plantas que conhecia tão bem não podem ser aqui obtidas.

Com o tempo, fui considerado capacitado para passar pela Cerimónia da Pequena Morte, sobre o que escrevi em “A Terceira Visão”. Com ritos especiais, muito abaixo da Potala, fui colocado num estado de morte cataléptica, e viajei ao passado, seguindo pelo Registro Akáshico. Viajei, também, para ver as paragens do Planeta Terra. Mas vou contar da maneira como o percebi por essa ocasião.

O corredor na rocha viva, a centenas de metros abaixo da terra congelada, era húmido, húmido e escuro como a treva do próprio túmulo. Segui por ele, vagando como fumaça na escuridão, e com uma familiaridade crescente com essa treva percebi de início, e de modo indistinto, a fosforescência esverdeada de uma vegetação borolenta que prendia-se às paredes rochosas. De vez em quando, onde a vegetação se mostrava mais prolífica e a luz mais forte, conseguia divisar um brilho amarelo do filão de ouro que percorria a extensão daquele túnel rochoso. Vaguei à frente sem ruído e sem consciência do tempo, sem pensar em coisa alguma, senão em que deveria prosseguir cada vez mais para o interior da terra, pois era um dia especial para mim, dia em que regressava de três outros, passados em viagem astral. O tempo decorria e eu me internava cada vez mais na câmara subterrânea, numa escuridão crescente, escuridão essa que parecia ter som, uma treva que parecia vibrar.

Na minha imaginação, visualizava o mundo acima de mim, mundo ao qual estava regressando agora. Antevia a cena conhecida, agora oculta por treva total. Esperei, pairando no ar como uma nuvem de incenso dentro de um templo.

Gradualmente, de uma forma tão gradual e lento que algum tempo transcorreu antes que o pudesse perceber, veio um som do corredor, o mais vago de todos os sons, mas que pouco a pouco aumentava de intensidade. Era o som de canto, o som de sinetas de prata, e o arrastar 18

abafado de pés calçados em couro. Finalmente, depois de uma longa espera, uma luz oscilante e fantasmagórica surgiu, brilhando nas paredes do túnel. O som tornava-se agora mais elevado. Esperei, pairando sobre uma lapa na escuridão.

Gradualmente... Oh, tão devagar, tão dolorosamente devagar, figuras surgiram cautelosamente pelo túnel, vindos na minha direcção. Ao se aproximarem, vi que eram monges de hábito amarelo, trazendo archotes acesos, archotes preciosos, vindos do templo acima, com madeiras resinosas raras e bastões de incenso reunidos e exalando um perfume com que se afastavam os odores da morte e deterioração, luzes fortes com que se amortecia e tornava invisível o mau brilho da vegetação luxuriante. Devagar, os sacerdotes entraram na câmara subterrânea.

Dois deles foram ter a cada uma das paredes próximas à entrada e mexeram nas arestas da rocha. E depois, uma após outra, fracas lamparinas de manteiga passaram a brilhar. Agora a câmara estava mais iluminada e eu podia olhar ao redor mais uma vez e ver, como não pudera fazer por três dias seguidos.

Os sacerdotes estavam em volta de mim e não me viam, de pé sobre um túmulo de pedra situado no centro da câmara.

O canto aumentou e, também, o repicar das sinetas de prata.