Equador por Miguel Sousa Tavares - Versão HTML

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Miguel Sousa Tavares

Equador

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Oficina do Livro

Digitalização e Arranjo, revisão

Rosa Branca Henriques

Agostinho Costa

título: Equador

autor: Miguel Sousa Tavares

2003, Miguel Sousa Tavares

Pesquisa e documentação: Ana Xavier Cifuentes

Revisão: Oficina do Livro

Composição: Oficina do Livro,

em caracteres Sabon, corpo 11

Capa: António Belchior sobre postal antigo da cidade de São Tomé da colecção particular de

João Loureiro

Fotografia: Luís Vasconcelos

1a edição: Maio, 2003 - 30000 exemplares

ISBN 989-555-013-8

Depósito Legal nº 196362/03

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Equador:

linha que divide a terra em hemisfério norte e sul. Linha simbólica

de demarcação, de fronteira entre dois mundos. Possível contracção da

expressão «é com a dor» («é-cum-a-dor», em português antigo)

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I

Depois de as coisas acontecerem, é quase irresistível reflectir sobre o que teria sido a

vida, se se tem feito diferente. Se soubesse o que o destino lhe reservava nos próximos

tempos, talvez Luís Bernardo Valença nunca tivesse apanhado o comboio, naquela chuvosa

manhã de Dezembro de 1905, na estação do Barreiro.

Mas agora, recostado na confortável poltrona de veludo carmim da 1a classe, Luís

Bernardo via desfilar tranquilamente a paisagem através da janela, observando como aos

poucos se instalava o terreno plano, semeado de sobreiros e azinheiras, tão característico

do Alentejo, e como o céu de chuva que deixara em Lisboa ia timidamente abrindo

clareiras pelas quais espreitava já um reconfortante sol de Inverno. Procurava ocupar

aquelas preguiçosas horas de viagem até Vila Viçosa na leitura sonolenta do Mundo, o seu

jornal de todos os dias, vagamente monárquico, assumidamente liberal e, como o nome

indicava, preocupado com o estado do mundo e com «as elites que nos governam».

Naquela manhã, o Mundo noticiava uma crise aberta no Governo francês devido ao

aumento dos custos de construção do Canal de Suez, que o engenheiro Lesseps não se

cansava de escavar, como um louco furioso e sem prazo de conclusão à vista. Havia

também notícia de mais um aniversário do Rei Eduardo VII, passado na intimidade da

Família Real e com mensagens recebidas de todos os reis, rajás, sheiks, régulos e chefes

tribais desse imenso Império onde, recordava o Mundo, o Sol nunca se punha. No que se

referia a Portugal, havia novas de mais uma expedição punitiva contra os nativos do

interior leste de Angola, mais um episódio daquela imensa trapalhada em que parecia

sobreviver a custo a colónia. E, em São Bento, registara-se nova algazarra entre os

deputados do Partido Regenerador, de Hintze Ribeiro, e os Progressistas, de José Luciano

de Castro, a propósito da «lista civil» do Paço - o orçamento público reservado ao

funcionamento da Casa Real, o qual nunca parecia ser suficiente para os gastos. Luís

Bernardo largou o jornal no lugar vazio ao lado e preferiu antes meditar no que o fizera

apanhar aquele comboio.

Tinha 37 de idade, era solteiro e tão mal comportado quanto as circunstâncias e o

berço lho permitiam - algumas coristas e bailarinas de fama equivalente a todas as suspeitas,

ocasionais empregadas de balcão da Baixa, duas ou três virtuosas senhoras casadas de

sociedade, e uma muito falada e disputada soprano alemã que estagiara três meses em São

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Carlos e de que constava não ter sido o único frequentador. Era, pois, um homem dado a

aventuras de saias mas também a melancolias. Aos 22 anos deixara o curso de Direito em

Coimbra mas, para grande desgosto do seu já falecido pai, a sua projectada carreira na

advocacia não fora além de um curto estágio no escritório de um reputado advogado de

Coimbra, do qual saíra esbaforido e para sempre aliviado daquela suposta vocação.

Regressara à sua Lisboa de sempre, onde se ocupara de dispersos ofícios, até ter herdado

do pai a posição de sócio principal da Companhia Insular de Navegação: três navios, de

cerca de doze mil toneladas cada um, transportando carga e passageiros entre a Madeira e

as Canárias, o arquipélago dos Açores e as ilhas de Cabo Verde. A Insular tinha os

escritórios situados num prédio ao fundo da Rua do Alecrim, os seus trinta e cinco

empregados espalhados pelos quatro andares do edifício pombalino e ele próprio instalado

num amplo salão, com duas janelas rasgadas sobre o Tejo, que vigiava com a atenção de

um faroleiro, ao longo dos dias, dos meses, dos anos. Ao princípio, Luís Bernardo criara a

ilusão de que dali controlava uma armada atlântica e quase uma parte dos destinos do

mundo: conforme os telexes ou as comunicações-rádio dos seus únicos três navios iam

chegando, assim ele ia actualizando o seu paradeiro com pequenas bandeirinhas que

espetava no imenso mapa de toda a costa ocidental da Europa e de África, que preenchia a

parede do fundo. Depois, aos poucos, foi-se desinteressando do paradeiro diário do

Catalina, do Catarina e do Catavento, deixou de espetar diligentemente as bandeirinhas no

mapa, embora continuasse a comparecer religiosamente às partidas e chegadas dos navios

da Insular, na Rocha Conde de Óbidos. Só uma vez lhe ocorrera, por espírito de

descoberta ou por dever de ofício, embarcar num dos seus navios: fora de ida e volta até ao

Mindelo, em São Vicente, numa viagem tormentosa e desconfortável, para encontrar uma

terra que lhe parecera desolada e absolutamente despida de qualquer coisa que pudesse

interessar a um europeu do seu tempo. Explicaram-lhe que aquilo não era bem África,

antes um pedaço de lua caído ao mar, mas ele não se motivou a ir mais além, ao encontro

dessa tal África de que lhe chegavam tantos relatos extasiados.

Ficara-se para sempre pelo escritório da Rua do Alecrim e pela casa em Santos, onde

vivia sozinho com uma velha governanta que herdara de casa dos pais e que sentenciava,

volta e meia, que «o menino precisa de se casar», além de uma ajudante de cozinha, uma

moça da Beira Baixa, feia como um porco-espinho. Almoçava invariavelmente no seu clube

de sempre, no Chiado, jantava no Bragança ou no Grémio ou pacatamente em casa, fazia

serões de cartas com os amigos ou visitas sociais em casas de família, ocasionalmente o São

Carlos, festas no Turf ou no Jockey. Era bem relacionado, espirituoso, inteligente, bom

conversador. Tinha a paixão do estado do mundo, que acompanhava com a assinatura de

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uma revista inglesa e outra francesa e era, correspondentemente, fluente nas duas línguas,

coisa rara na Lisboa desse tempo. Interessara-se pela Questão Colonial, lera tudo sobre a

Conferência de Berlim e, quando a questão ultramarina começou a ser objecto de

apaixonadas discussões públicas, ainda como sequela do Ultimatum inglês, publicara dois

artigos no Mundo, que foram amplamente citados e discutidos pela sua análise de uma rara

frieza e equilíbrio, por entre o furor patriótico e antimonárquico dominante nos espíritos,

em contraste com a aparente condescendência do Senhor D. Carlos. Defendia ele um

colonialismo moderno, de matriz mercantil, centrado na exploração efectiva das coisas que

Portugal tivesse capacidade para levar a cabo, através de empresas vocacionadas para a

actividade em África, geridas com espírito profissional e «atitude civilizacional», e não mais

«entregue aos desígnios dos que aqui não sendo ninguém, lá se comportam como sobas,

piores do que os que encontraram, e não como europeus, idos da civilização do progresso,

ao serviço do seu país».

Os seus artigos foram objecto de acaloradas discussões entre «europeus» e

«africanistas» e a fama de que beneficiou então aliciou-o a ir mais além, publicando um

opúsculo, onde reuniu os números referentes aos últimos dez anos de comércio de

importação das colónias de África, para sustentar a sua conclusão de que esse comércio era

incipiente para a Europa, insuficiente para as necessidades do país e logo um profundo e

instalado desperdício das possibilidades oferecidas por uma exploração racional e

inteligente das riquezas ultramarinas. «Não basta apregoar ao mundo que se tem um

Império - concluía ele - é também necessário explicar porque se merece tê-lo e

conservá-lo.» O debate que se seguiu foi violento e intenso e, do outro lado da trincheira, o

«africanista» Quintela Ribeiro, dono de extensas fazendas em Moçâmedes, resolveu ripostar

no Clarim, perguntando «que conhecimentos tem de África o licenciado Valença?”, e

virando a frase contra o seu criador, concluía: «Não basta apregoar ao mundo, como este

Valença, que se tem uma cabeça. É também necessário explicar por que se merece tê-la e

conservá-la.»

A frase de Quintela Ribeiro e a própria discussão pública suscitada pelas intervenções

de Luís Bernardo tornou-se uma espécie de cartão de visita do destinatário, porque a

verdade é que muita Lisboa comentava ser também um desperdício que um homem com a

sua idade e os seus talentos de inteligência e informação gastasse o melhor da sua vida a

olhar o Tejo por uma janela e a cirandar pela cidade em busca de conquistas amorosas.

Tudo isso ficara para trás, há já uns meses. Luís Bernardo regressara, não sem alívio,

à sua pacata e habitual vida de todos os dias: o incómodo de ser o centro de uma polémica

pública parecera-lhe maior do que a eventual fama e admiração que daí colhera, traduzida

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num aumento de convites para jantares onde, invariavelmente, tinha de ouvir debitar

estúpidas opiniões sobre a «questão ultramarina», sempre rematadas com a pergunta da

praxe:

- E você que pensa sobre isto, Valença?

Naquele instante precisamente, no comboio de Lisboa para Vila Viçosa, Luís

Bernardo pensava na estranha convocação que El-Rei lhe tinha feito, através do seu

secretário particular, o conde de Arnoso, para que comparecesse a almoçar, nessa

quinta-feira, no Paço de Vila Viçosa. Bernardo de Pindela, o conde de Arnoso, um dos

integrantes do célebre grupo dos «Vencidos da Vida», que tanto agitara a vida intelectual do

país uns anos antes, e que lhe dera a inesperada honra de o visitar no seu escritório da

Insular, limitara-se a transmitir-lhe o convite, e apenas acrescentara:

- Desculpar-me-á, meu caro, mas, como compreende, eu não posso revelar o que Sua

Majestade pretende dizer-lhe. Sei que o assunto é de importância e El-Rei pede que o

encontro seja mantido em segredo. No mais, verá que um passeio até Vila Viçosa só lhe faz

bem para desanuviar desta atmosfera de Lisboa e, além disso, posso garantir-lhe que se

almoça lá muito bem.

Ei-lo, pois, de caminho até ao Paço Ducal dos Braganças, no meio dessa coisa

nenhuma que era o Alentejo, onde o Senhor D. Carlos passava todos os anos o melhor do

Outono e do Inverno nesse sport da caça em que, segundo as línguas republicanas da

capital, se entretinha a descansar dos poucos momentos que desdenhava ocupar-se dos

assuntos da governação. Luís Bernardo era quase da idade do Rei, mas, ao contrário deste,

era um homem magro e elegante, que se vestia com aquela sobriedade só aparentemente

distraída que é característica dos verdadeiros gentleman. D. Carlos de Bragança parecia um

pacóvio fardado de Rei; ele parecia um príncipe disfarçado de burguês. Tudo, na sua figura,

na maneira como se vestia, na sua forma de andar, denunciava a sua atitude perante a vida:

cuidava da aparência, mas não tanto que isso se transformasse num incómodo; estava a par

da moda, do que se passava lá fora, mas não prescindia do seu próprio critério; passar

despercebido era motivo de angústia, ser demasiado notado, apontado a dedo, era-lhe

constrangedor. A sua qualidade era não alimentar demasiadas ambições, o seu defeito o de

não alimentar, provavelmente, ambição alguma. E, todavia, quando se examinava a si

próprio, tentando manter uma distância razoável para análise, Luís Bernardo reconhecia,

sem excesso de vaidade, que estava vários planos acima do meio da sua frequência: era mais

bem-educado do que os imediatamente abaixo, mais inteligente e culto, menos fútil do que

os acima. E assim se foram passando os anos e a sua juventude deslizando ao longo deles.

Fora no amor como na vida: as mulheres que verdadeiramente achava irresistíveis

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pareciam-lhe sempre para além do alcance; as que achava disponíveis pareciam-lhe sempre

decepcionantes. Estivera noivo, uma vez, de uma menina muito nova, bonita, dotada, com

um devastador peito de adolescente que lhe subia acima dos decotes onde ele se prendia

em contemplação e onde, por duas vezes, passeara as mãos, encostara o nariz e destapara

para melhor o devassar com os olhos e sem pudor. Chegara a oferecer-lhe o anel de

noivado, houve data apalavrada entre a sua tia Guiomar, que fazia as vezes de mãe, e o

putativo sogro, mas ele tropeçara finalmente na ignorância da noiva, que confundia Berlim

com Viena e supunha que a França ainda vivia em monarquia. Imaginou os anos todos pela

frente ao lado daquele peitinho de rola, a pasmaceira dos serões, a imbecilidade da

conversa, o desfastio dos almoços de domingo em casa do sogro, e bateu em retirada, sem

elegância nem circunstância, insultado aos gritos pelo pai do peitinho de rola em pleno

Grémio, saindo de mansinho, vexado mas aliviado, pensando para consigo, e com razão,

que tudo se resolveria com quinze dias de maledicência de que ele seria o alvo e depois,

outra vez, a vida inteira à sua frente. E a tanto se resumiram as suas tentativas daquilo a que

os outros chamam «uma vida a dois».

Ali, no comboio para Vila Viçosa, dava graças à Providência por ser um homem só,

livre e senhor do seu destino. Esticou as compridas pernas até ao lugar da frente, sacou do

bolso do casaco a cigarreira de prata e, de dentro dela, um cigarro açoriano, esguio e longo,

procurou no bolso do colete a caixa de fósforos e acendeu o cigarro, aspirando lenta e

sensualmente. Era um homem livre: sem casamento, sem partido, sem dívidas nem

créditos, sem fortuna nem apertos, sem o gosto da futilidade nem a tentação do

desmedido. O que quer que El-Rei tivesse para lhe dizer, para lhe propor, para lhe ordenar,

a última palavra seria sempre sua. Quantos homens conhecia ele que se pudessem gabar do

mesmo?

Nessa noite, por exemplo, tinha o seu habitual jantar de amigos, no Hotel Central.

Uma tertúlia heterogénea, de homens entre os 30 e os 50 anos, que todas as quintas-feiras

se reuniam ao jantar, celebrando a apurada cozinha do Central e discutindo as novidades

do mundo e os males do Reino. Um ritual de homens, à imagem do próprio Luís Bernardo:

sérios sem serem maçudos, despreocupados sem serem levianos.

Nessa noite, porém, ele tinha uma razão muito especial que o fazia aguardar ansioso

pelo jantar e por isso marcara o regresso no comboio das cinco, esperando que os habituais

atrasos dos comboios não o impedissem de chegar ainda a tempo ao Central. Luís

Bernardo esperava que João Forjaz, um dos membros do grupo das quintas-feiras e seu

amigo de sempre, desde o colégio de infância, lhe trouxesse uma mensagem da sua prima

Matilde. Conhecera Matilde nesse Verão, na Ericeira, num serão em casa de amigos

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comuns, numa noite de luar, como nos romances de amor. Quando viu João atravessar o

salão e na sua direcção, caminhando com Matilde pelo braço, Luís Bernardo sentiu um

estremecimento, uma premonição de perigo iminente.

- Luís, esta é a minha prima Matilde, de quem já te falei em tempos. Este é o Luís

Bernardo Valença, o espírito mais céptico da minha geração.

Ela sorriu à observação do primo e olhou Luís Bernardo a direito, nos olhos. Era

quase tão alta como ele, que já era bastante alto, gestos e sorriso de menina. Não mais de

26 anos, pensou ele. Mas já era mãe e casada - isso ele sabia. Também sabia que o marido

estava em Lisboa a trabalhar e que ela passava férias ali, com os dois filhos. Inclinou-se e

beijou-lhe a mão estendida. Ele gostava de olhar para as mãos, quando as beijava: viu que

tinha uns dedos longos e esguios e foi aí que depositou um beijo ligeiramente mais longo

do que aconselhava a simples cortesia.

Levantou os olhos e ela continuava a sustentar o seu olhar. E, de novo, sorriu:

- O que é isso de um espírito céptico? É o mesmo que um espírito cansado?

Foi o João que respondeu por ele e lhe deu a deixa:

- Cansado, o Luís? Não, há coisas de que ele nunca se cansa, não é verdade, Luís?

- É. Não me canso nunca de ver uma mulher bonita, por exemplo.

Aquilo soou não como um elogio apenas, mas quase como uma declaração de

abertura de hostilidades. Ficou um silêncio embaraçoso no ar e João Forjaz aproveitou para

bater em retirada:

- Bem, estão apresentados. Esclareçam lá isso do cepticismo, enquanto eu vou à

procura de uma bebida. Mas, querida prima, cuidado, não sei se este céptico ambulante é

uma companhia muito recomendável para os olhos de salão. De qualquer maneira, eu volto

já, não vos abandono no aperto.

Ela ficou a vê-lo afastar-se e, apesar da sua ensaiada segurança, pareceu a Luís

Bernardo que havia de repente uma ligeira sombra no seu olhar, algum tom de

preocupação imprevista na voz com que se lhe dirigiu:

- Este é um momento de aperto?

Luís Bernardo sentiu que tinha sido inconveniente, que a assustara, com aquela frase

sobre as mulheres bonitas. Respondeu com doçura:

- Seguramente que não. Não é para mim e não vejo porque haveria de ser para si.

Não me conhece, claro, mas posso dizer-lhe que o meu objectivo de vida não é andar no

mundo para fazer mal aos outros. - A declaração soou tão sincera que ela pareceu relaxar

instantaneamente.

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- Óptimo, então. Mas diga-me lá, por curiosidade, por que é que o meu primo acha

que você pode ser uma companhia não muito recomendável?

- Aos olhos de salão, disse ele. E, como sabe, os olhos de salão nunca são inocentes,

mesmo quando é genuinamente inocente o que eles vêem. Neste caso concreto, suponho

que a inconveniência se resuma ao facto de você ser casada e eu ser solteiro e estarmos aqui

os dois à conversa numa noite tão fantástica como esta.

- Ah, pois! As conveniências, era isso que ele queria dizer. As eternas conveniências!

Afinal, a substância das coisas, ao que parece, no mundo em que vivemos.

Foi a vez de Luís Bernardo a olhar a direito e no fundo dos seus olhos. O olhar dele

perturbou-a, parecia impregnado de um súbito desalento, de uma solidão desamparada, que

atraía e assustava. E, quando falou, ele fê-lo outra vez no mesmo tom de absoluta

sinceridade que a desarmara antes.

- Oiça, Matilde. As conveniências e tudo o resto têm decerto um papel na sociedade

e eu não pretendo mudar o mundo nem as regras que, aparentemente, asseguram, se não

uma vida feliz às pessoas, pelo menos uma vida tranquila. Muitas vezes gostaria que as

regras não fossem tantas ou tamanhas que a vida chega a confundir-se com a sua aparência

Mas acho que, no limite, temos sempre escolha. Eu, pelo menos, tenho e, por isso,

considero-me um homem livre. Mas vivo no meio dos outros e aceito as suas regras, sejam

ou não as minhas. Vou-lhe dizer uma coisa: você é a prima, a mulher preferida do João, e o

João é o meu melhor amigo, desde sempre. É natural que já tenhamos falado de si e ele fala

sempre de si com entusiasmo e ternura. Não lhe vou esconder que, por isso, tinha

curiosidade em conhecê-la e, agora que a conheci, posso testemunhar que você é muito

mais bonita do que ele tinha descrito e que, além disso, me parece ser uma mulher tão

bonita por fora como por dentro. Feito o elogio, não quero de maneira nenhuma deixá-la

embaraçada: levo-a de volta ao João, tive muito prazer em conhecê-la e está uma noite

linda lá fora.

Inclinou a cabeça, com elegância, e deu um passo à frente, fazendo menção de

esperar que ela o acompanhasse na retirada. Mas, em vez disso, ouviu a sua voz quente,

ligeiramente abafada, mas inesperadamente firme.

- Espere aí! De que foge você? De que foge, afinal, um homem que se proclama

livre? Está a tentar proteger-me?

- Se calhar, estou. E, então, há algum mal nisso? - Quis parecer igualmente firme, mas

agora era Luís Bernardo que não se sentia seguro. Alguma coisa lhe estava a escapar.

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- Não, é muito cavalheiresco da sua parte. Agradeço-lhe muito. Mas não gosto que

me protejam de perigos que não existem. Desculpe, mas neste caso e no meio desta

conversa, a sua preocupação é quase ofensiva para mim.

«Meu Deus, mas onde é que isto vai parar?», pensou ele para consigo. Estava ali

especado sem saber o que dizer nem o que fazer. Devia ficar, devia ir-se embora? «Que

disparate, pareço um miúdo intimidado com um adulto. Por que é que o João não aparece

para me salvar desta trapalhada?»

- Diga-me uma coisa, Luís Bernardo. - Ela quebrara o silêncio, retomava o jogo, e ele

respondeu quase a medo: - Sim?

- Posso-lhe fazer uma pergunta pessoal? - Diga...

- Por que é que você nunca se casou?

«Diabos, isto vai de mal a pior, pensou ele.»

- Porque nunca calhou. Que eu saiba, não há nenhuma lei que obrigue toda a gente a

casar-se.

- Não, não há, mas, apesar de tudo, é estranho. Olhe, é a minha vez de lhe revelar um

segredo que, aliás, para si não deve ser grande segredo. Algumas amigas minhas também

me falaram de si, de vez em quando e em tom de mistério. Descreveram-no como um

homem bonito, inteligente, culto, boa companhia, bem na vida. Dizem que tem fama de

mulherengo, portanto por aí não há mistério. Qual é então o mistério do seu celibato?

- Não há mistério algum. Nunca me apaixonei, portanto nunca me casei. Tão simples

como isto.

- É estranho... - insistiu ela, como se aquilo, de repente, a deixasse verdadeiramente

perplexa.

- O que é que é estranho: que eu nunca me tenha apaixonado ou que nunca tenha

casado, mesmo não estando apaixonado?

Luís Bernardo tinha retomado a iniciativa e disse isto em tom de desafio. Ela acusou

o toque e corou, irritada consigo e com ele. Estaria ele a desafiá-la?

- Não, estranho é que nunca se tenha sentido apaixonado... por uma mulher por

quem se pudesse apaixonar, com quem pudesse casar.

As palavras saíram-lhe tão rápidas, o olhar dela que ele surpreendeu pareceu-lhe tão

inseguro, que Luís Bernardo se arrependeu imediatamente do que acabara de dizer. Mas

estava dito, e ficou um silêncio entre eles, como se, por acordo tácito, tivessem decidido

dar-se tréguas.

Foi João quem finalmente apareceu para os salvar daquele espesso silêncio que se

interpusera entre eles. Luís Bernardo aproveitou imediatamente para se pôr ao fresco,

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despediu-se rapidamente com uma frase de circunstância e um aceno de cabeça e saiu para

o luar que, cá fora, afastara a neblina habitual. O mar da Ericeira parecia ter-se acalmado,

também ele posto de tréguas, ao longe ouvia-se a música de um arraial popular e de uma

janela aberta sobre a avenida vinha o som de vozes e gargalhadas de um grupo familiar que

se adivinhava feliz. De repente, Luís Bernardo sentiu quase vontade dessa felicidade que

não se questiona. Apeteceu-lhe ir ao encontro da música do bailarico, escolher uma moça

de freguesia para dançar nos seus braços, senti-la rija e ligeiramente afogueada roçando-lhe

o corpo, cheirar-lhe a água de colónia barata nos cabelos, enquanto ele, de repente

iluminado por uma súbita lucidez, lhe segredava ao ouvido: «Queres casar comigo?» Sorriu

para consigo mesmo à ideia, pensou que no dia seguinte ia considerar melhor o assunto,

acendeu um cigarro no escuro e passou a ouvir só as suas passadas, dirigindo-se para o

hotel onde se hospedava.

As duas semanas seguintes, na Ericeira, passou-as entre as manhãs de praia, os

almoços nas boticas de pescadores, à beira-mar, onde se comia, sem pretensões algumas, o

melhor peixe do mundo, e as tardes no salão do hotel ou nas esplanadas da praça central da

vila, a ler jornais, a despachar correio ou à conversa com João Forjaz e mais dois ou três

amigos. À noite, se não tinha convites, jantava no hotel, pontualmente às oito e meia,

sozinho, na companhia do João ou de quem aparecesse sem programa. Havia de tudo, na

sala de jantar do hotel, tudo o que caracterizava a pacatíssima vida de sociedade num hotel

de Verão. Jovens casais, cujos filhos, se os havia, ficavam confiados à ama com quem

jantavam na copa, famílias inteiras - avós, filhos e filhas, genros e noras e netos

adolescentes - ocupando as duas mesas centrais da sala de jantar, e cavalheiros solitários,

alguns de passagem, outros ainda de férias como ele, outros oficiais de serviço à Rainha

Dona Amélia, que ali também veraneava. Luís Bernardo ficava fascinado com a capacidade

de imaginação do chefe de cozinha que, todos os dias e sem nunca repetir um prato,

apresentava na lista três sopas, três entradas, três pratos de peixe, três de carne e três

sobremesas. Findo o jantar, ele, como os outros cavalheiros, passava ao bar ou salão de

fumo, onde fumava também o seu charuto e rolava o cognac francês dentro do pesado

copo que segurava entre os dedos. Ficava sentado a olhar os outros ou acedia a um jogo de

dados ou um dominó, que, aliás, era jogo que o aborrecia de morte. A dado momento do

serão, os solteiros iam à vida e ficavam apenas os homens de família. Só havia um destino:

o casino, onde o programa era basicamente o mesmo - charutos, cognac, jogo, conversas,

uma rotina só quebrada pelos dois habituais bailes de Verão, no início e no final de Agosto.

Havia também uma alternativa, semiclandestina, semi-oficial, de que ninguém falava

abertamente e todos comentavam a meia-voz: a visita aos salões da Dona Júlia ou da Dona

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Imaculada. Dizia-se entre os cavalheiros que a Dona Júlia tinha mais novidades, mas que as

meninas da Dona Imaculada eram mais fiáveis. A frequência começava por volta da

meia-noite e estendia-se madrugada adentro. Casados e solteiros, gente de bem e

respeitável, até pais que levavam os filhos ainda semi-imberbes na nobre tarefa da sua

iniciação à condição masculina. As aventuras nocturnas dos cavalheiros da sociedade de

Verão da Ericeira eram, inevitavelmente, um dos motivos infalíveis da conversa sussurrada

entre as senhoras, pela manhã, nas barracas da praia.

- Dizem que ontem, só na Dona Imaculada, havia dois condes e um marquês! Onde

é que isto vai parar, Santo Deus? - perguntava, melíflua e do alto da sua intocada viuvez,

Mimi Vilanova, unanimemente tida como a voz da virtude nas praias da Ericeira.

- Olhe, o meu marido é que não viram lá, que passa as noites a meu lado -

apressava-se logo a esclarecer alguma senhora casada, ainda pouco habituada aos costumes

da terra. E as senhoras calavam-se, abanando a cabeça em atitude de despeito. Mas nunca

passavam das insinuações, porque a verdade é que nem as «meninas» abriam jamais a boca,

cientes de que o segredo era a alma do negócio, nem os cavalheiros, mesmo os não

frequentadores, violavam jamais essa regra de ouro da solidariedade entre homens no que

toca a assuntos extraconjugais.

Luís Bernardo, sim, fora lá duas vezes, na companhia do João e de outros. Fora uma

vez à Dona Júlia e outra à Dona Imaculada, tranquilo e despreocupado, como poucos

nestas circunstâncias: não tinha satisfações a dar a ninguém, nem sequer à sua consciência.

E, se pudesse então dar satisfação aos desejos do corpo, sem mal algum de espírito,

avançava com a mesma naturalidade com que ia para um jantar de amigos.

Mas havia um tédio, instalado naqueles dias de Verão, que o incomodava mais ainda

do que tantas daquelas manhãs nubladas, que recolhiam as crianças e os banhistas na areia,

longe do mar. Os dias eram compridos demais para a ociosidade omnipresente. Era como

um vício sem prazer, uma tranquilidade tão estúpida e desprovida de sentido que o

enervava e o mantinha em permanente estado abúlico. Passeava-se de dia, arrastava-se de

noite, perguntava-se frequentemente o que fazia ali, a ver escoarem-se os dias, numa

secreta e absurda expectativa de qualquer coisa de indefinido que ele sabia que não iria

acontecer.

Naquelas duas semanas, só por duas vezes voltara a ver Matilde. Aliás, nem a vira:

entrevira-a, passara-lhe ao longe, fora de alcance. Da primeira vez fora num concerto, no

jardim público, depois do jantar. Ela vinha a caminhar com um grupo e ele estava com

João e mais dois amigos. Ela cumprimentara o João com um beijo efusivo e só depois

pareceu reparar nele: «Olá, por aqui? Então, ainda está de férias?» Ele limitou-se a

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responder estupidamente «pelos vistos», e ficou a desejar que ela ao menos lhe perguntasse

até quando. Mas Matilde seguiu caminho, com um meio sorriso de despedida, e perdeu-se

no meio da profusão de senhoras, crianças e cavalheiros. Da segunda vez, viu-a no baile do

casino, mal tinha acabado de entrar na sala de baile, vindo do bar e das mesmas conversas

de sempre com os mesmos de sempre. Tinha-se encostado à ombreira da porta para medir

a paisagem com um olhar circundante, quando a viu de chofre, imediatamente. Estava

deslumbrante, num vestido que arrastava pelo chão, amarelo e branco, de alças, o cabelo

apanhado em cima por uma tiara de brilhantes, a pele morena ligeiramente queimada pelo

sol. Parecia ainda mais alta e mais leve, a dançar nos braços do marido uma valsa muito

lenta. Estava a olhar na direcção de Luís Bernardo, mas ainda não o tinha visto. Sorria com

qualquer coisa que o marido lhe estava a dizer ao ouvido. Quando finalmente chocou com

o seu olhar fixo nela, perdeu-se por um instante, como se parecesse não o reconhecer, e

depois dirigiu-lhe, nem foi um aceno de cabeça, foi um imperceptível cumprimento com os

olhos. O seu par rodopiou, subitamente, e ela desapareceu do olhar de Luís Bernardo e

perdeu-se de vista, no meio do salão atulhado de pares felizes, que dançavam numa noite

de Verão.

Luís Bernardo virou as costas ao baile e ao casino e saiu para fumar um cigarro.

Tentou analisar o que sentia. Raiva, sim raiva - uma raiva estúpida, sem juízo nem

legitimidade.

Inveja, uma inveja irracional e que ele não controlava. E uma tristeza, um vazio,

vindo lá de dentro, de uma voz que lhe dizia «nunca serás feliz assim, nunca terás uma

mulher assim a quem possas chamar tua. Cada um faz o seu destino e tu fizeste o teu. Não

vives da tua felicidade, mas do que consegues roubar à felicidade dos outros». De repente,

sentia-se mal consigo mesmo. Mal com a sua vida, mal com a sua pessoa, mal com a sua

tão auto-admirada liberdade. O baile estava estragado. As férias tinham-se tornado

insuportáveis. Sentia-se um animal estranho, uma ave de rapina entre um rebanho feliz -

estúpida e incompreensivelmente feliz. Abandonou o baile à hora a que ele começava a

animar e veio de volta, caminhando apressado para o hotel. Na recepção pediu que lhe

tivessem a conta pronta na manhã seguinte, consultou o horário dos comboios, e foi-se

deitar, despindo apenas a casaca e dormindo vestido sobre a colcha da cama e de janela

aberta para o mar.

Acordou antes de todos os outros hóspedes, para apanhar o comboio das dez e meia,

em Mafra. As criancinhas tomavam o pequeno-almoço na copa, em companhia das amas,

os adultos dormiam ainda à conta da noitada do baile da véspera. Vinha distraidamente a

descer as escadas para o piso térreo, quando de repente o coração deu um pulo e ele parou

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estarrecido com o que via: no vão da escada, parada a olhar para ele e com o mesmo ar

petrificado, estava Matilde, vestida com um vestido branco cujo corpete, ligeiramente

decotado, lhe permitia ver, de cima para baixo, o peito dela que arfava como um animal

ferido.

Pareciam duas estátuas, a olhar um para o outro. Foi Luís Bernardo quem quebrou o

silêncio:

- Matilde! Por aqui, a estas horas da manhã!? Imaginá-la-ia a dormir, depois da

noitada de ontem! - E você, Luís, o que lhe aconteceu ontem?

Sumiu-se...

- É, não me dou muito bem com os bailes. Não estava lá a fazer nada e, por isso,

vim-me embora.

- Não estava lá a fazer nada? O que quer dizer com isso, o que é suposto fazer-se

num baile, senão dançar?

- Não vi ninguém com quem dançar...

- Ena, que homem exigente! Ninguém, mesmo?

- Vi-a a si e pareceu-me muito feliz.

- Sim, estava a dançar com o meu marido... - Em vão Luís Bernardo procurou

detectar qualquer sinal, bom ou mau, no tom com que ela disse isso. Nada: foi como se se

tivesse limitado a dar a resposta mais natural do mundo. Suspirou, chamando-se a si

próprio à realidade. Reviu-a, linda, com um ar despreocupado e feliz, nos braços do

homem com quem casara. Num mundo onde ele não estava e que não lhe pertencia.

- Bem, Matilde, só não me disse o que faz aqui tão cedo.

- Vim despedir-me de uma tia minha que vai agora no comboio das dez e meia para

Lisboa.

- Ah, então vamos juntos, eu também vou apanhar esse comboio.

- Vai para Lisboa, você?

- Vou, para mim as férias acabaram... - Hesitou e depois acrescentou: - ... com o baile

de ontem à noite.

Matilde ficou em silêncio. Olhou-o nos olhos e pareceu-lhe um olhar apiedado.

Sentiu-se desamparado, ridículo. Eram oito da manhã, num vão de escada escuro de um

hotel e ele estava ali, sem palavras, a olhar para uma mulher que o tinha enfeitiçado num

terraço, numa noite de luar. Estendeu-lhe a mão:

- Bom, resta despedirmo-nos, não é?

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Ela apertou-lhe a mão que ele estendia. A mão dela estava fria, a dele quente. Foi um

simples aperto de mão, que durou o tempo exacto das coisas banais. Ela não parecia ter

pressa nem demora...

- Adeus, Luís Bernardo. Até qualquer dia. - Bom resto de férias para si.

- Obrigada. - Ela começou a subir as escadas, dirigindo-se para onde ele estava.

Instintivamente, Luís Bernardo afastou-se para lhe dar passagem. Cruzaram-se sem

se olhar mas ele sentiu-a passar tão próximo como um arrepio deslizando-lhe ao longo do

corpo. Começou a descer as escadas, ouvindo os passos dela atrás de si, afastando-se.

Afastando-se para sempre da sua vida. Cada passo os afastava e agora um nó tinha vindo

apertar-lhe a garganta. Estava quase a chegar ao lance de escadas de onde já não

conseguiria vê-la nem ouvir mais os seus passos. Parou, de repente, girou sobre si mesmo

e, antes que conseguisse dominar-se, chamou-a, em voz surda:

- Matilde!

- Sim? - Ela parara, também. Agora estavam em posições inversas, ela olhava-o de

cima e ele levantava a cabeça para a ver.

- Nunca mais a vejo?

- A mim? Não sei. Quem sabe? Os que não morrem encontram-se, não é verdade?

«Desisto», pensou ele para consigo. «Esta mulher é um bloco de gelo. Esta conversa

é absurda, esta empreitada é uma loucura e só pode acabar no ridículo».

- Não, não basta estar vivo. Depende de como se está vivo. Não se encontra só o que

se encontra, mas também o que se procura. Nós não somos folhas levadas pelo vento, não

somos animais à deriva. Somos seres humanos, com uma vontade própria.

- E a sua vontade, Luís Bernardo, é voltar a encontrar-me?

- É, Matilde. A minha vontade é voltar a encontrá-la. - E para quê, posso perguntar?

- Nem eu sei bem para quê nem porquê. Talvez para retomar uma conversa

inacabada, numa noite de luar.

- Há tantas conversas que ficam inacabadas! Será que a sabedoria é tentar retomá-las

ou deixá-las para sempre no ponto em que ficaram?

- Você, Matilde, faz muitas perguntas, mas dá poucas respostas.

- Como se eu as tivesse, Luís! - O seu suspiro foi tão profundo, o seu som parecia vir

de tão longe que, por um instante, ele temeu absurdamente que aquele suspiro acordasse o

hotel adormecido e uma quantidade de cabeças de hóspedes assomassem às portas dos

quartos para descobrirem o que poderia causar aquele suspiro de mulher que os tinha

acordado. «De qualquer forma - pensou - já não há mais nada a dizer».

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Em certas alturas da sua vida, Luís Bernardo surpreendia-se a si mesmo com a

capacidade que descobrira para sair a disparar em frente, quando se sentia acossado,

quando as coisas caíam num impasse onde a razão já não conseguia abrir caminho. Naquele

instante, sem sequer se dar conta do que fazia, como se o corpo se movesse sozinho

independentemente da cabeça, ele encontrou-se a subir lentamente as escadas em direcção

a ela, sem despegar os olhos dos seus. Matilde não se mexeu nem um milímetro, viu-o

caminhar em sua direcção, sentiu-o chegar perto de si, pousar-lhe ambas as mãos nos

ombros, inclinar-se e pousar os lábios na sua boca. Fechou os olhos, sem se mexer,

continuou com uma mão pousada no corrimão da escada e o outro braço pendente ao

longo do corpo. Esperou que ele se afastasse logo da sua boca e de si, mas ele aumentou

suavemente a pressão do beijo e, sem que ela realizasse como, as bocas, que estavam secas,

estavam agora húmidas e sentiu a língua dele entrar devagar pela sua boca adentro,

encontrar a sua e a demorar-se nela o que lhe pareceu uma eternidade. Depois, enfim, ele

afastou-se, depositou-lhe um beijo muito suave na boca, ouviu-o dizer baixinho «adeus,

Matilde», ouviu os seus passos começarem a descer a escada até soarem no chão de lage do

piso térreo e desaparecerem. Só então abriu os olhos e lentamente sentou-se no degrau

cimeiro das escadas e ficou ali a olhar em frente, sem nada, um único pensamento na

cabeça, tanto tempo que não saberia dizer se teriam sido quinze minutos ou uma hora.

Évora. Meio-dia. O comboio tinha parado na estação, em pleno coração do Alentejo.

Cerca de vinte passageiros tinham-se apeado e uns dez tinham entrado. Vendedores de

refrescos e de comida percorriam as carruagens do lado de fora, apregoando os seus

produtos. Vendiam queijos de ovelha, enchidos, mel, fruta e ervas medicinais. Uma cigana,

com três filhos esfarrapados e sujos, estendia a mão para as janelas de onde os passageiros,

incomodados, se afastavam. Mais além, uma velha toda vestida de preto dos pés à cabeça

montara uma banca em pleno chão, com frutos secos arrumados em caixinhas de madeira.

Dois homens, encostados à parede da estação e apoiados em cajados, olhavam em silêncio,

como se nada houvesse de mais interessante do que assistir à paragem do comboio que

vinha do Barreiro.

«Eis a Pátria no seu esplendor!», pensou para consigo Luís Bernardo. Também ele

estava em pé à janela da sua carruagem. Esticou-se todo, braços e pernas, sacudindo o

torpor que se apoderara de si, ao fim de quatro pachorrentas horas de viagem. Faltava

apenas mais uma hora e pouco de caminho até Vila Viçosa, no ramal recentemente

inaugurado - segundo as más-línguas, para o serviço exclusivo do Senhor D. Carlos e

família. Já lera os jornais todos que trouxera de Lisboa, já adormecera uma breve meia

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hora, já não sabia em que ocupar mais o tempo. Voltou a sentar-se e acendeu um cigarro,

no mesmo instante em que, com um solavanco brusco, o comboio arrancou outra vez,

lentamente, deixando para trás, aos poucos, o casario branco de Évora. Regressou nos seus

pensamentos a Matilde e aos três meses já passados desde a sua despedida no vão de escada

do Grande Hotel da Ericeira. Um Outono inteiro interpusera-se desde então entre eles.

Matilde vivia numa quinta da família do marido, em Vila Franca de Xira, próximo de

Lisboa. Para todos os efeitos, era como se vivesse na província. Em circunstâncias normais,

poderia passar-se mais de um ano sem se encontrarem, por acidente: não se encontra o que

não se procura. Ele escrevera-lhe uma carta em Outubro, que confiara à discrição e entrega

do primo João e de que logo se arrependera. João protestara, e sinceramente, por aquele

papel de alcoviteiro que Luís Bernardo lhe destinara. Argumentou que a prima era casada e

que respeitava muito o marido dela. Perguntou o que queria Luís Bernardo com aquele

jogo, infantil e perigoso. Dera-lhe muito trabalho convencê-lo a entregar a carta e, o pior de

tudo, é que sentira que o resultado não valera a exposição de ambos. Escrevera-lhe uma

carta sem rasgo, sem alma, sem sentido, e, quando perguntara a João qual tinha sido a

reacção dela ao recebê-la, ele respondeu, com um encolher de ombros: «Nenhuma.

Guardou-a no bolso, sem comentários e nem sequer perguntou que era feito de ti». No dia

1 de Novembro, dia dos mortos, lembrava-se bem da data, era um domingo, o dia de folga

do pessoal e ele estava sozinho em casa, vendo a chuva que caía sem parar do lado de fora

das janelas. Vagueou pela casa com a sensação nítida da inutilidade absoluta do tempo,

imaginou-se naquela mesma casa daí a vinte anos, os mesmos móveis com uma película

fina de poeira que nada desentranhava, a olhar-se ao espelho e ver-se de cabelo já branco,

rugas de preocupação alguma, as tábuas do soalho rangendo à sua passagem, o retrato dos

pais na sua moldura de prata interpelando-o desde o fundo dos tempos, o escritório à sua

espera segunda-feira de manhã, o Catalina, o Catarina e o Catavento ano a ano mais lentos,

e sentou-se à secretária do escritório com uma resma de folhas em branco e pôs-se a

escrever a Matilde longamente. Entregou-se de alma e coração, disse tudo, correu todos os

riscos e, no fim, pediu desculpa e escreveu que, se nenhuma resposta recebesse, nunca

mais, nunca mais, a incomodaria.

Ela respondeu no fim desse mês. O João veio entregar-lhe a carta ao escritório da

Rua do Alecrim.

- Toma lá. É uma carta da Matilde que pediu que ta entregasse. Palpita-me que tudo

isto vai acabar mal e que eu nunca mais me vou perdoar por este papel de pombo-correio.

Ele não disse nada. Deveria ter dito alguma coisa para o tranquilizar, alguma coisa

que defendesse Matilde e que disfarçasse a importância daquela carta para si, mas não disse

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nada. Esperou, quase sem se conseguir conter, que ele se fosse embora e então deu-se ao

prazer de abrir a carta, sem pressas, atento a todos os detalhes, como a consistência do

papel, a dobra que ela tinha feito, o cheiro que o papel tinha.

«Luís Bernardo

Respondo à sua segunda carta, não à primeira. Respondo ao beijo que me deu na

escada, não aos jogos de palavras com que procurou atordoar uma pobre pateta, longe

destas armadilhas em que você parece perito. Respondo não aos seus dotes de sedução,

mas ao seu lado perdido que - presunção minha! - me pareceu tão evidente no seu olhar.

Enfim, respondo não ao mal que você me pode trazer, mas ao bem que julgo ter entrevisto

no mais fundo de si.

Desse homem não tenho nada a temer, porque não me fará mal. Não é verdade, Luís

Bernardo? Não é verdade que você não me fará mal? Que podemos apenas acabar uma

conversa interrompida numa noite de luar, num terraço debruçado sobre o Verão?

Sim, eu sei que faço demasiadas perguntas, mas, se a sua resposta for sim a estas

perguntas, dar-lhe-ei um sinal, pelo João, para que nos voltemos a encontrar. Até lá,

rogo-lhe que não faça nada. E, quando for para vir, se vier por mal, não venha. Eu

respeitá-lo-ei por isso, mais ainda. E guardarei de si uma recordação sempre querida.

O sinal chegara na véspera. Quando se cruzou com João à saída da Brasileira, no

Chiado, e ele lhe dissera, como se fosse a coisa mais previsível do mundo:

- Tenho um recado da Matilde para ti. Dou-to amanhã ao jantar, no Central. Vais lá,

não vais?

Tantas coisas, pensou ele. Tantas coisas à sua espera, nesse dia: um Rei e uma

Princesa.

19

II

Nessa manhã, em Vila Viçosa, D. Carlos acordara pouco antes das sete horas,

despertado pelo seu valet de chambre. Passara rapidamente pela casa de banho, vestira-se

nos seus aposentos, contíguos aos da Rainha, e, como sempre, requisitara a ajuda do criado

para conseguir calçar as apertadas botas de meio cano e atacadores - uma operação que

requeria uma ginástica para a qual os cento e dez quilos do Rei não o habilitavam. Teixeira,

o farmacêutico da vila, apresentou-se, como habitualmente, para fazer a barba a Sua

Majestade, com uma afiada navalha com lâmina de aço de Sheffield - um ritual que ele

cumpria com inexcedível destreza e o Rei com visível prazer.

Vestido, penteado e perfumado com água-de-colónia, D. Carlos atravessou, na sua

larga e pesada passada, a antecâmara que fazia a ligação entre os quartos reais, a capela e a

sala de jantar, e desceu ao andar de baixo, o primeiro andar do palácio, o das salas. Foi

direito à «sala verde», assim chamada devido ao tecido de damasco verde que forrava as

paredes, e onde já o esperavam os seus companheiros de caçada, aquecendo-se junto à

lareira de mármore. A mesa do pequeno-almoço já estava posta e os criados perfilados

atrás, esperando o sinal de início do serviço. D. Carlos fez um gesto de mão largo e soltou,

bem disposto:

- Bom dia, meus senhores! Vamos a isto, que as perdizes não esperam!

Além do Rei, eram doze à mesa do pequeno-almoço: o marquês-barão de Alvito, o

visconde de Asseca Paes, o conde de Sabugosa, Manuel de Castro Guimarães, o conde de

Jiménez y Molina, D. Fernando de Serpa, Hugo O'Neil, Charters de Azevedo, o coronel

José Lobo de Vasconcelos, oficial às ordens, e o major Pinto Basto, ajudante-de-campo.

Além destes, ainda o conde de Arnoso, o secretário particular do Rei, e o conde de Mafra,

médico da Família Real, que não acompanhariam o Rei na caçada, preferindo entreter a

manhã noutras actividades. Faltava o príncipe D. Luís Filipe, infalível nas caçadas, mas que

uma cerimónia na Academia Militar retivera em Lisboa.

Serviram sumo espremido das laranjas de Vila Viçosa - as melhores do mundo, na

opinião geral - chá, torradas com manteiga, queijo de ovelha curado, compota de pêssego, e

ovos mexidos com presunto. Ao café, alguns dos cavalheiros acenderam o primeiro

charuto do dia, mas não houve tempo para quedarem-se à mesa a saboreá-lo. Desceram

todos rapidamente ao piso térreo, onde vestiram os agasalhos para aquela gélida manhã de

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Dezembro, manchada de geada por todos os lados. No grande largo fronteiro à fachada

principal do Palácio dos Duques de Bragança esperavam já três breaks para os caçadores,

outras duas charretes, chamadas chars à banc, para os secretários, mochileiros e as armas e

munições escolhidas de véspera, e um atrelado com os cães, já num imenso alvoroço,

farejando tudo, de sentidos alerta. D. Carlos encarregara o Tomé, o seu «secretário»

privativo em todas as caçadas, de trazer o estojo com o par de Holland and Holland,

presente de Leopoldo, o Rei dos Belgas, e o par de Purdies, feitas à medida do seu braço e

encomendadas em Londres, no ano anterior: conforme as coisas lhe estivessem a correr, o

Rei escolheria atirar com as Holland ou com as Purdie. Até poderia passar a manhã inteira

a atirar só com uma arma, que estas coisas, às vezes, tinham mais a ver com superstições ou

manias do atirador, do que propriamente com um saber científico.

Naquela manhã, a pequena troupe de caça do Rei de Portugal ia ensaiar uma batida

às perdizes, num local a cerca de cinco quilómetros da vila, um terreno de azinheiras e

sobreiros, ligeiramente ondulado e atravessado por duas ribeiras, semi-encobertas pela

esteva. Fariam quatro «enxotas», ou seja, quatro batidas, a partir de dois locais diferentes,

segundo um sistema conhecido por «cara e cruz»: as perdizes são batidas primeiro para uma

posição onde as esperam os atiradores e depois para a mesma posição, a partir da direcção

oposta - entre uma e outra «enxota», os atiradores têm apenas de rodar 180 graus.

Ultimamente, e vergado ao seu excesso de peso, o Rei preferia as batidas às caçadas «de

salto», em que tinha de caminhar durante quilómetros, subindo e descendo vales,

enterrando os pés na lama, escorregando nos calhaus, a acompanhar o ritmo dos cães a

perseguir a caça, que fugia adiante.

O pequeno exército de batedores, uma gente pobre e semidescalça, recrutada na vila

por meia dúzia de moedas e uma peça de caça cada um, esperava os caçadores, no primeiro

dos locais assinalados. Enquanto a comitiva vinda do Palácio procedia ao sorteio das

«portas» para a batida - as quais iriam rodando em cada uma das «enxotas» - e se

descarregavam as armas e as bolsas de cartuchos, se desciam os cães do atrelado e se

carregavam os mochileiros com toda a parafernália dos caçadores, os batedores partiam

para o ponto de início da batida, a uns dois, três quilómetros de distância das «portas».

A neblina que subia da geada dos campos estava apenas agora a começar a

dispersar-se mas o frio era ainda impiedoso. Acompanhado pelo Tomé e pelo mochileiro e

com os dois cães - o Djebe, um pointer malhado de vermelho e branco e o Divor, um

epagnol breton, cinzento - D. Carlos caminhou para a «porta» que lhe coubera em sorte,

um abrigo rudimentar, feito com ramos de azinheira sobrepostos, atrás do qual contava que

as perdizes só o vissem quando já estivessem a distância de tiro razoável.

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A espera pelas perdizes raramente demorava menos de meia hora em cada «enxota»:

às vezes acontecia que uma ou outra aparecessem solitárias, ainda nem as vozes dos

batedores se ouviam, mas o grosso delas só aparecia mesmo no final da batida, quando já

só lhes restava levantar voo em direcção aos caçadores emboscados. Nesse espaço de

tempo, D. Carlos gostava de se sentar na sua cadeira de lona portátil, acender a primeira

cigarrilha da manhã e ficar ali em silêncio a meditar, com os cães aos pés e as espingardas,

já carregadas pelo Tomé, prontas a serem empunhadas ao primeiro som do restolho das

asas da perdiz em voo. Pensou nos assuntos que o preocupavam, como o telegrama

recebido na véspera, de Moçambique, do governador. Ele queria, e certamente com razão,

plenos poderes para governar a Província, sem ter de flutuar de acordo com os humores e

as intromissões do ministro do Ultramar e dos políticos governantes de Lisboa. No fundo,

era a mesma história que Mouzinho de Albuquerque ali vivera, anos antes, quando,

nomeado comissário régio, acabara por ter de se demitir ao ver-se atraiçoado por um

decreto que, contra a vontade do Rei mas com a sua assinatura, o amputara do poder de

decidir localmente o que era urgente e não se compadecia com a satisfação prévia da

vaidade dos políticos do Terreiro do Paço. D. Carlos admirava a coragem e as qualidades

militares de Mouzinho, o seu patriotismo e a lealdade ao Rei. Sentira, à distância, que

Mouzinho tinha razão naquela querela, mas sabia também e sem ilusões que muito

dificilmente o poderia apoiar contra o governo, sem provocar nova crise política, que os

tempos de todo não aconselhavam. «Mal com o governo por amor d'El-Rei; mal com

El-Rei por amor da Pátria.» E eis que, quase dez anos depois, a história se repetia:

continuava a assistir, impotente, ao desnorte de uma política ultramarina que era pretexto

para uma querela pública permanente, em lugar de ser uma questão nacional, reunindo o

consenso geral. D. Carlos suspirou e, incomodado, varreu o pensamento.

Nunca, como agora, a monarquia e a Casa Real tinham sido sujeitas a tantos e tão

venenosos ataques. Não havia dia em que a imprensa republicana não se assanhasse contra

o Rei, a Rainha, os príncipes, a instituição real. D. Carlos abria os jornais e via-se atacado

por todos os lados, caricaturado, ridicularizado, pura e simplesmente ofendido. Tudo lhes

servia de pretexto: se se metia na política, era porque ambicionava o poder absoluto e só

atrapalhava a governação; se se mantinha deliberadamente distante era porque o país lhe

era indiferente e só lhe interessavam as caçadas no Alentejo e as mundanidades sociais. O

Partido Republicano crescia a par do descontentamento popular, a autoridade do Estado

era minada todos os dias, à mercê do primeiro demagogo de botequim, e os poucos amigos

em que podia confiar não tinham qualquer influência política ou, se a tinham, rapidamente

a perdiam por serem seus amigos. Era Rei de um reino onde se sentia só e atraiçoado por

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todos os lados, e senhor de um Império que as grandes nações - as Casas Reais a cujas

famílias pertencia por sangue - cobiçavam, sem pudor nem embaraço algum. Ao menor

pretexto, a Inglaterra levar-lhe-ia o Império todo de uma vez e, com ele, o seu trono.

Mouzinho tivera razão, ao denunciar as manobras dos ingleses na Rodésia e na Zâmbia,

mas estes estúpidos de cá jamais entendiam que, quanto mais fraco fosse o Rei, mais

ameaçado estava o Império. E o mesmo em relação a São Tomé e Príncipe, cujo café e

cacau tanto incomodavam as exportações inglesas do Gabão e da Nigéria. E, a propósito

de São Tomé, lembrou-se do almoço marcado para esse dia com aquele rapaz que tanto lhe

tinham recomendado, o Valença. De início, D. Carlos torcera o nariz à menção do seu

nome: tinha lido os artigos do homem e não lhe parecera que ele fosse, nem sério, nem

conhecedor do assunto de que falava. Mas o Conselho Régio tinha insistido no seu nome,

fazendo realçar as vantagens de um homem novo, descomprometido com a política e com

os partidos, seguramente inteligente e com gosto pelo protagonismo. O Rei acabara por se

deixar convencer:

- Está bem. Mandem-no vir a Vila Viçosa e vou olhar-lhe bem para a cara a ver se me

inspira confiança. Ó Bernardo, convide-o para almoçar cá, num dia calmo. Olhe, veja se o

tipo caça: já seria bom sinal.