Equador por Miguel Sousa Tavares - Versão HTML

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Mas não, a sumária investigação do conde de Arnoso concluiu que não havia registo

de caçador a favor de Luís Bernardo Valença: foi convidado apenas para almoçar. «Vai ser

uma seca, de certeza», pensou D. Carlos. «Nem sei se chego a tocar no assunto,

propriamente dito, ou se me fico pelos rodeios.»

Soaram dois tiros vindos de uma das portas da esquerda: as perdizes tinham

começado a sair, saíam sempre primeiro das pontas porque era aí que chegavam primeiro

os batedores, num movimento em forma de ferradura. Mas a maior quantidade delas

sairiam pelo centro e no final. Ao longe ouviam-se já os gritos dos batedores, varrendo o

mato para espantarem as perdizes escondidas no chão. No cabeço em frente ouviu-se o

piar de uma perdiz, sentindo-se já acossada, e instintivamente D. Carlos levantou-se e

pegou numa das espingardas Holland preparada pelo Tomé. Ficou com a arma apontada

em frente, ao nível da cintura, sentindo-lhe o frio do aço polido com a mão direita,

enquanto que com a esquerda ia afagando suavemente a madeira do fuste. De repente, tudo

se tinha varrido da sua cabeça, nada mais restava naquele momento do que ele e a arma,

fundidos num só corpo, atento a todos os sinais e sons do mato, a adrenalina a subir-lhe à

boca, o coração a bater mais forte, toda a manhã suspensa daquele instante que ele

adivinhava cada vez mais próximo. Assim permaneceu uns bons dez minutos, sem que

nada acontecesse: o Rei, o seu «secretário», os seus cães, a sua arma, mudos, expectantes,

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imersos na natureza, na atitude eterna do caçador esperando a sua presa, como sempre

sucedeu desde a noite dos tempos, desde que o primeiro caçador de sempre se emboscou

para tentar surpreender o primeiro animal caçado.

Ele olhava para a direita, para o local onde ouvira piar há pouco uma perdiz, mas foi

da esquerda que apareceu a primeira, embalada em frente, silenciosa e lançada em grande

velocidade, num voo a uns vinte metros do chão. D. Carlos viu-a primeiro pelo canto do

olho, adivinhando-a mais do que vendo-a, levou a arma à cara e enquadrou-a na direcção

do seu ombro esquerdo. «Correu a mão» durante uns breves segundos, até que o cano

esquerdo da arma, seguindo a linha de voo da perdiz, a tivesse ultrapassado cerca de um

metro à frente e, então, disparou. Atingida em pleno voo, a ave continuou ainda a sua

trajectória, de asas abertas, planando sobre um mundo que se lhe fechara de repente e,

depois, como se tivesse chocado contra uma parede, caiu a pique, direita ao chão, onde

aterrou com um barulho seco e abafado. D. Carlos nem precisou de se certificar de que ela

tinha ficado morta e não apenas ferida: a maneira como interrompera o seu voo e se

precipitara para o chão de cabeça baixa era indício seguro de que o tiro fora mortal. O

Tomé assobiou baixinho, em sinal de aprovação, enquanto estendia ao Rei a outra arma

carregada, com os dois cartuchos. Nessa noite, como em muitas outras, na taberna da praça

central de Vila Viçosa, ele encarregar-se-ia de testemunhar da perícia do Senhor D. Carlos,

acrescentando a fama de exímio atirador de que gozava o chefe da Casa de Bragança.

Daí a pouco, tudo se precipitou em crescendo, à medida que os batedores foram

chegando cada vez mais próximo do local onde os caçadores esperavam, atrás dos

resguardos. As perdizes começaram a sair - isoladas, aos pares, em bandos de quatro ou

cinco. Voavam para a frente, em todas as direcções, umas mais altas, outras quase rasantes -

que eram, todavia, as mais difíceis, porque se confundiam com o mato e só se tornavam

visíveis no último instante. Os tiros soavam constantes, às vezes uma mesma perdiz era

atirada sucessivamente por duas ou três portas, havia algumas que escapavam como que

por milagre a todos os tiros, mas a maioria despedia-se do céu contra aquela barreira de

chumbo, enquanto o cheiro a pólvora subia da terra para o ar e as armas queimavam já nas

mãos dos caçadores. De pernas bem firmadas no chão, olhando sempre em frente, mesmo

quando estendia uma arma para trás para o Tomé a recarregar e recebia a outra dele, já

carregada, D. Carlos atirava com uma precisão e uma suavidade de gestos dignas de um

Rei. Acabou a primeira «enxota» com doze perdizes e uma lebre, «cobradas» com ânsia pelo

Djebe e pelo Divor, assim que o Tomé os soltou e lhes ordenou «busca, busca!».

Ao meio-dia, a caçada tinha terminado e um lençol de perdizes estendia-se no chão,

onde os «secretários» as tinham depositado, para que os caçadores as contemplassem, com

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o habitual sentimento de orgulho. D. Carlos tinha morto trinta e cinco perdizes e duas

lebres, gastando nisso duas cartucheiras de vinte e cinco tiros. O Rei estava eufórico,

corado pelo entusiasmo e pela caminhada de volta aos carros. Nada lhe dava mais prazer

do que aquelas manhãs de caça entre amigos. Gostava de tudo, incluindo o desfazer da

feira: os comentários dos caçadores, as proezas que cada um descrevia aos outros, os

cumprimentos que ele recebia de todos, as conversas entre os batedores e os «secretários»,

a agitação nervosa dos cães rondando a cena sem parar, a recolha das perdizes em sacos de

serapilheira, as lebres a serem estripadas ali mesmo para que depois não ficassem com um

sabor desagradável ao serem cozinhadas, as armas a serem guardadas nos seus estojos, os

caçadores livrando-se das cartucheiras e dos casacos mais grossos e sentando-se à sombra

de uma árvore, no chão, à roda de uma toalha vermelha aos quadrados, onde um criado

dispusera antecipadamente pão, azeitonas temperadas, queijo de ovelha curado, paio,

presunto, vinho branco e café.

Uma charrete puxada por um só cavalo esperava Luís Bernardo na estação de Vila

Viçosa. Apresentou-se-lhe um empregado do Palácio, cuja função era exactamente a de

receber os visitantes do Rei. Tomou lugar no carro, ao lado de Luís Bernardo, e deu ordens

ao cocheiro para tocar em frente. Era a primeira vez que Luís Bernardo vinha a Vila Viçosa

e ficou imediatamente deslumbrado com a beleza da vila, as suas casas caiadas de branco,

com não mais de um ou dois pisos, as frontarias das janelas e portas feitas de pedra de

mármore das pedreiras à saída da vila, as varandas de ferro forjado, as fontes também em

mármore, a largura dos passeios com fiadas de laranjeiras carregadas de laranjas naquela

altura do ano, a dimensão da praça central, em frente ao castelo e ao jardim público que o

cercava. Respirava-se espaço, largueza, uma harmonia óbvia entre a arquitectura e o ar

pacífico com que os habitantes da vila, conversando em pequenos grupos à porta dos

comércios ou circulando a pé pelos passeios, pareciam deixar escorrer o tempo, sem

pressas inúteis. Manifestamente, Vila Viçosa fora construída tanto para ser vivida dentro

como fora de portas, para ser amada, ao sol ou à lareira, pelos seus habitantes.

Encostado para trás, no carro aberto, Luís Bernardo via desfilar lentamente a vila,

passeando o olhar por cada detalhe, surpreendendo-se com a beleza linear das construções,

olhando com curiosidade para a gente nos passeios e tentando adivinhar como era a sua

vida de todos os dias. Embalado por aquela inesperada sensação de bem-estar e conforto,

que o frio da manhã de Dezembro não contrariava em nada, deu consigo a pensar que

agora compreendia porque é que D. Carlos parecia sentir-se bem melhor ali do que em

Lisboa, nos salões do Palácio das Necessidades, a sua residência oficial. Entraram a passo

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de trote pelo largo do Palácio dos Duques de Bragança e Luís Bernardo ficou, de repente,

de respiração cortada pela descoberta daquele autêntico Terreiro do Paço, cujo lado do

fundo, a poente, era inteiramente preenchido pelo Palácio de quatro andares, perfeito na

sua geometria rectangular. A fachada frontal era toda em mármore, de tom

rosa-acastanhado, enquanto que, fazendo ângulo recto com essa fachada, do lado direito,

uma elegante construção caiada de branco, enquadrada por ciprestes, acolhia os aposentos

reais, como se fosse apenas a casa de serviço ao Palácio.

Tinha chegado havia uns dez minutos e fora introduzido num pequeno salão do

primeiro andar, com uma lareira acesa onde se encostou, a contemplar a pintura espalhada

pelas paredes revestidas a brocado amarelo, quando ouviu uma agitação de carros no

extenso terreiro em frente ao Palácio, indicando a chegada de uma comitiva. Assomando à

janela, discretamente, reconheceu o Rei, que desembarcava do primeiro carro, em

companhia de mais dois personagens. Logo de seguida, ouviu passos que se dirigiam para a

sua sala e viu entrar o conde de Arnoso. Inquiriu sobre a sua viagem e anunciou-lhe que

Sua Majestade acabava de regressar de uma manhã de caça e que viria recebê-lo assim que

mudasse de roupa. Depois, sentou-se para lhe fazer companhia e ficaram os dois à

conversa sobre trivialidades, enquanto esperavam pelo Rei.

Não foi longa a espera. Dez minutos depois, anunciado pelas suas pesadas passadas

no chão de tijoleira e pela voz alta com que transmitia uma ordem a alguém, D. Carlos fazia

também a sua aparição. Vinha vestido discretamente, com um fato de lã cinzento, um

colete de camurça verde-escuro e uma gravata no mesmo tom. A cara ligeiramente

avermelhada, o cabelo loiro-velho, os olhos de um azul intenso, denunciando a mistura de

sangues europeus, mais a norte, que lhe corriam nas veias. A voz era grave, o aperto de

mão um pouco distraído, mas os olhos não pararam de o fitar de frente, enquanto o

cumprimentava. O todo era imponente, quanto mais não fosse pela corpulência do Rei e

por se estar frente a frente com o homem que ocupava o centro de todas as conversas

políticas dos portugueses, que uma parte do país venerava e outra odiava. Não se chegaram

a sentar: passadas as formalidades de circunstância e depois de o Rei lhe ter agradecido o

incómodo de se deslocar a Vila Viçosa, D. Carlos disse:

- Pois, meu caro, como deve saber, acabo de vir da caça e os caçadores têm um

apetite voraz. Aliás, com ou sem caçadas, essa é a fama que eu tenho e, felizmente, uma

fama com proveito... ao contrário de outras - e D. Carlos sorriu abertamente, enquanto que

Luís Bernardo, embaraçado, não soube se devia sorrir também com ar entendido ou, pelo

contrário, não dar mostras de adivinhar a que outras famas se referia o Rei. Mas o país

inteiro sabia que o Senhor D. Carlos não caçava apenas perdizes, lebres, veados ou javalis,

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em Vila Viçosa, mas também, ao que constava, empregadas de serviço, filhas de caseiros,

esposas de alguns notáveis da vila ou meninas de balcão de lojas. Nisso, ele e o Rei tinham,

aliás, gostos comuns.

- Bem - continuou o anfitrião - espero que traga também fome da sua viagem porque

vai ver que se come muito bem por estas paragens. É um almoço de homens: venha daí,

vou-lhe apresentar o resto da companhia. Se não se importa, primeiro almoçamos

descontraidamente e depois falaremos os dois em privado sobre o assunto pelo qual o

chamei aqui.

Era realmente um almoço só de homens. Durante as horas que passou em Vila

Viçosa, Luís Bernardo nem chegou a saber se a Rainha Dona Amélia lá estava também:

constava que ela vivia refugiada entre as suas damas de honor, amigas e primas francesas

que a vinham visitar a Lisboa ou a Sintra e a quem se queixava de que actualmente «já tinha

passado da fase dos quartos separados para a dos palácios separados».

Os quatorze homens presentes tinham sido dispostos dos dois lados e ao longo de

uma imensa mesa que daria, seguramente, para umas cinquenta pessoas. O Rei ficou ao

centro de um dos lados e fez sinal a Luís Bernardo para que se sentasse do lado oposto, em

frente a ele. Cada lugar tinha um menu colocado à frente e todos fizeram questão de o ler

com interesse. D. Carlos era conhecido por dar muita importância àqueles menus e, às

vezes até, em Vila Viçosa ou a bordo do iate real Amélia, era o próprio Rei que os escrevia

do seu punho, fazendo-os acompanhar de um desenho da sua autoria. Naquele dia, o chef

de Vila Viçosa propunha aos cavalheiros do andar de cima:

Potage de tomates

Oeuffes à Ia Perigueux

Escalopes de fole de veau aux fines herbes

Filet de porc frai, roti

Langue et jambon froid

Epinards au velouté

Petit gateaux de plomb.

Servida a sopa de tomate quente e o vinho branco da Vidigueira, os caçadores

sacudiram o seu torpor e a conversa começou a animar-se. Luís Bernardo haveria de notar

como foi cuidadosamente evitado aquilo a que alguém, de passagem, chamou «a pequena

política portuguesa». Em vez disso, começou-se por falar da caçada da manhã, para depois

se falar das histórias correntes na vila. O padre Bruno era suspeito de ter engravidado mais

uma paroquiante - pelos mexericos locais, já seria a segunda, em pouco mais de um ano -

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mas, todavia, a opinião dominante é que a história não passava de um boato lançado pelas

habituais beatas da igreja de Nossa Senhora da Conceição, as quais achavam e muito

legitimamente, que o bem parecido padre Bruno, não podendo ser, ao menos à vez,

propriedade de cada uma delas - com décadas de dedicação à sacristia e preocupação com o

conforto dos padres que por ali passavam - deveria ser tido então como res publica et

nulius. Também ocorrera uma altercação entre um cigano e um comerciante da praça, que

acabara com tiros, correrias e grande alvoroço durante a manhã, mas que felizmente não

fizera feridos nem mortos. A polícia municipal capturara o cigano e apresentara-o ao juiz

de instrução, o qual, salomónico, ordenara que fossem buscar também o comerciante e

mandou instalar ambos na cadeia comarcã. Dava-se porém o caso de o dito comerciante

ser fornecedor habitual ao Palácio das ameixas de Elvas, que o Rei tanto apreciava, o que

levou D. Carlos a comentar, meio a sério, meio a brincar: «Espero que o meritíssimo se dê

conta do prejuízo que pode causar a todos uma prolongada estadia do homem na prisão!»

Com o vinho tinto, a conversa tornou-se mais séria e evoluiu para a situação

internacional - todo um mundo de promessas. Alguém falou das notícias preocupantes que

chegavam de São Petersburgo. A revolução e o descontrole pareciam instalados,

sucediam-se os atentados dos anarquistas, o Potemkine, o mais importante cruzador que

restava à Marinha Imperial, virara os seus canhões contra o próprio poder do Czar, os

termos da capitulação russa perante o Japão, tornada inevitável depois do desastre naval de

Tsushima onde trinta e quatro dos trinta e sete navios da 1.a Esquadra Russa do Pacífico,

enviada desde São Petersburgo, foram afundados, tinham causado a consternação e a

indignação geral. O Japão ficara com Port Arthur, a Ilha Sacalina, a Coreia e parte da

Manchúria. Pela primeira vez, uma potência asiática batera no mar uma potência ocidental

e a dimensão da derrota fora tamanha que agora o Japão era a principal potência naval em

todo o Pacífico: a Rússia desaparecera, pura e simplesmente, do teatro de operações, com

as suas duas esquadras do Pacífico dizimadas, uma sem ter chegado a combater, a outra

pulverizada numa única batalha; a Inglaterra ia-se retirando aos poucos do Extremo

Oriente para fazer face ao que muitos viam como uma crescente ameaça da Alemanha e fiel

ao princípio que desde sempre constituíra doutrina do seu Almirantado: a de que a potência

naval inglesa deveria ser, em cada momento e no mínimo, o dobro da do seu mais directo

inimigo. Face ao poderio naval japonês, restava assim apenas a teórica e incipiente oposição

dos Estados Unidos, cujo Presidente Theodore Roosevelt tanto se esforçara em vão para

conseguir assegurar que a balança entre Rússia e Japão não se inclinasse decisivamente para

nenhum dos lados.

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- E tudo isto - comentou D. Carlos - por causa da estupidez e da arrogância daquele

cretino do almirante Rozhestvensky!

- Dizem que ele - atalhou o conde de Sabugosa - nem sequer combinou com os

oficiais a ordem de batalha. Que, em pleno decurso da batalha, nenhum navio recebeu

qualquer instrução do almirante. Era cada um à sua sorte!

- Eu conheci o fulano, quando ele era adido naval em Londres - volveu D. Carlos -

era um tipo antipático, arrogante, pavoneava-se como se o salão de Buckingham fosse a

ponte de comando do seu couraçado. Lembro-me de o Edward ter comentado comigo: «Se

toda a Marinha Imperial for como este cabo de vassoura coberto de medalhas, o Czar vai

ter sarilhos não tarda!»

Depois a conversa derivou para a situação no Norte de África, onde tudo parecia

perturbado desde a visita do Kaiser Guilherme II a Marrocos e dos inflamados discursos

que fizera, pondo em causa o protectorado francês e as bases da própria «Entente

Cordiale», entre Paris e Londres. O Kaiser preocupava toda a gente: que ele queria qualquer

coisa de África, era evidente. Mas, o mais preocupante, era que também parecia querer

qualquer coisa, e qualquer coisa de grandioso, da Europa. Ali, naquela pacata vila alentejana

de Vila Viçosa, o tom da conversa ficou grave, quando se falou do Kaiser: os copos de

vinho foram levados à boca com uma lentidão que era sinal de preocupação, as cabeças

acenavam em tom de circunspecta concordância. O Kaiser era uma ameaça, mais uma, a

um mundo que, todavia, ali parecia estar posto em paz eterna.

Luís Bernardo ficou-se por um ou dois comentários incontroversos, o suficiente para

mostrar que seguia os temas com atenção e conhecimento, mas longe de querer afectar

qualquer autoridade especial na matéria. Mas sentia-se bem, bem consigo mesmo, bem

naquele ambiente: falava-se dos grandes do mundo e ele estava ali sentado, em frente de

um Rei, a participar da conversa. Seguia tudo atentamente, mas relaxado, o olhar

vagueando de vez em quando pelas magníficas paredes de azulejos ou pelo tecto de

madeira de cedro daquela lindíssima sala de jantar. Só o privilégio daquele almoço valera o

incómodo da viagem e, como D. Carlos dissera, aliás, comia-se maravilhosamente bem. O

próprio Rei parecia-lhe agora, pessoalmente, muito diferente do retrato ridículo que dele

fazia a propaganda republicana: manifestamente, era um homem de uma cultura muito

acima do comum, informado e interessado pelos acontecimentos - desde os da vila até aos

do Extremo Oriente - com opiniões seguras, mas sem demonstrar pretender cobrar

qualquer vassalagem intelectual, que não a do respeito natural que a sua pessoa parecia

impor à roda.

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Com o café, serviu-se um Porto Delaforce de 1848, um e outro excelentes. Depois,

D. Carlos levantou-se arrastadamente e toda a troupe o seguiu para o andar de baixo, para

uma pequena sala, aquecida por duas lareiras e onde os esperavam uma mesa com cognacs

e uma caixa de charutos, em prata, de que quase todos se foram servindo à vez. Uma outra

mesa tinha também os últimos jornais, chegados com o comboio onde Luís Bernardo viera,

e a pequena assembleia dispersou-se, uns afundados nos sofás na leitura dos jornais, outros

em conversas de pé à lareira, outros simplesmente recostados a fumarem os seus charutos.

Tal qual o salão de um clube: a mesma deliciosa ociosidade masculina, servida por um

cardápio de todos os pequenos prazeres. O almoço fora muito agradável, a comida óptima,

o Palácio era bonito e digno, mais à dimensão de um duque do que de um Rei e, por isso

mesmo, mais acolhedor, e Vila Viçosa era deslumbrante: valera a pena a deslocação. Mas

agora chegara a hora da factura, pensou para consigo Luís Bernardo. D. Carlos levantou-se

do sofá onde estava e pediu-lhe que o seguisse. Dirigiram-se os três - o Rei, ele e o conde

de Arnoso - ao longo das várias salas do primeiro andar, que abriam umas para as outras,

até uma sala das traseiras, com uma janela de sacada dando para uma varanda sobre o

jardim.

Era uma sala pequena, também aquecida por um lume vivo e que aparentava ser o

gabinete de trabalho real: havia uma longa secretária que ocupava metade do espaço, com

resmas de papéis sobrepostos e jornais, quatro poltronas de couro dispostas em semicírculo

a um canto e nas paredes um retrato a óleo do Rei e outro da Rainha e várias aguarelas,

entre as quais algumas representando o iate Amélia, da autoria do próprio D. Carlos. Luís

Bernardo tomou lugar numa poltrona em frente a D. Carlos e ao conde de Arnoso, o qual

iria assistir a toda a conversa calado, ocasionalmente atalhando para precisar qualquer

detalhe do discurso do Rei. De onde estava sentado, Luís Bernardo podia ver o jardim para

lá da porta da varanda e ouvia o som da água correndo de várias fontes. Apesar da porta

fechada, chegava até si o cheiro do pomar de laranjeiras e limoeiros do jardim e, pela

primeira vez na sua vida, deu consigo a desejar também uma vida campestre, onde tudo

parecesse em ordem e pacífico, como naquele jardim mediterrânico.

- Primeiro que tudo, meu caro Valença - a voz forte de D. Carlos cortou-lhe rente os

devaneios e quase o sobressaltou - quero voltar a agradecer-lhe a sua disponibilidade em

aceder ao meu convite. Só lamento que o meu filho Luís Filipe aqui não possa estar. Ele

teria gostado de o conhecer e, além disso, o Príncipe Real é particularmente interessado

pelo assunto que aqui nos reúne.

- Eu é que agradeço a Vossa Majestade este almoço e a possibilidade de conhecer

esta casa e esta terra magníficas.

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- É muito simpático da sua parte e o facto de ter gostado de Vila Viçosa só abona a

favor da sua sensibilidade e bom gosto. Mas, meu caro, já lá vai o tempo em que os Reis

chamavam e as pessoas acorriam ou em que o Rei podia chamar alguém para lhe dizer que

lhe confiava uma missão. Vou começar por aqui, exactamente pelo fim: chamei-o cá, não

para lhe confiar uma missão, visto que hoje em dia há quem pense que serviço do Rei não é

serviço da Pátria, mas para lhe fazer um convite, que você poderá ver apenas como tal, mas

que, para mim, é serviço do Rei e serviço de Portugal.

D. Carlos fez uma pausa, olhando-o com os seus penetrantes olhos azuis. Luís

Bernardo sentiu-se desconfortável, pela primeira vez: qualquer coisa mudara, de repente, e

essa qualquer coisa era o estatuto de ambos. Agora, era o Rei que falava com o seu súbdito,

por mais cerimónias que fizesse ou por mais respeito que demonstrasse para com a sua

pessoa.

- Como disse, vou começar pelo fim: quero que você aceite o cargo de governador da

Província Ultramarina de São Tomé e Príncipe. Este cargo, ou este encargo, conforme lhe

prefira chamar, é para ser iniciado dentro de dois meses e para ter uma duração mínima de

três anos, findos os quais só continuará se nós e o governo de então virmos nisso interesse.

Terá as mordomias inerentes ao cargo, em vigor na colónia, e que desconfio que não sejam

muitas, apenas as suficientes. Vencerá mais do que um ministro em Lisboa, menos do que

um embaixador em Paris ou Londres: no seu caso, e permita-me a indelicadeza (fruto das

informações prévias que tive de colher sobre a sua pessoa), não ficará nem mais rico nem

mais pobre. E, antes que manifeste o seu espanto pelo convite, deixe-me dizer-lhe que,

como imaginará, o seu nome não apareceu por acaso: diversas pessoas, que muito prezo,

falaram-me de si como a pessoa indicada para a função e eu próprio tive ocasião de ler o

que escreveu sobre a nossa política ultramarina e parece-me que, neste momento, defende e

com convicção, as ideias que precisam de ser defendidas. Também fui sensível ao facto de

ser um homem novo, descomprometido da política e dos partidos, que fala inglês (já lhe

explicarei a importância disso), que está informado sobre os assuntos internacionais e que é

conhecedor, devido à sua actividade, da forma como se processa a economia das colónias

e, em particular, a de São Tomé e Príncipe.

Luís Bernardo não aproveitou a nova pausa de D. Carlos para falar. Pareceu-lhe

melhor continuar calado e, de resto, nem saberia ainda o que dizer, de tal modo aquela

proposta lhe parecia absurda e até incompreensível. Todavia, tinha ficado imediatamente

alerta e não lhe escapara, por exemplo, a subtil qualificação que o Rei fizera sobre as suas

ideias acerca da política ultramarina: ele não dissera que concordava com as ideias de Luís

Bernardo na matéria, dissera apenas que lhe parecia que, «neste momento», essas eram as

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ideias que «precisam de ser defendidas». A tal distinção entre serviço do Rei e serviço do

país.

D. Carlos mudara agora de tom e de pose. Esticara as pernas, deixara de o olhar

fixamente e passara a olhar antes a ponta do seu charuto, como se ali visse, de repente,

qualquer coisa de mais importante e urgente. Antes de voltar a falar, soltou um suspiro de

resignação, de quem se prepara para, uma vez mais, ter de repetir evidências que já

enfastiam.

- Antes que me dê uma resposta, meu caro, e, porque penso que você é um patriota e

que o preocupam ou interessam as razões nacionais para uma política, deixe-me dar-lhe o

enquadramento da questão. Como sabe, há quem pense que Portugal não tem condições,

económicas nem humanas, para manter um Império Colonial e que o melhor, portanto,

seria vendermos as colónias. Não faltam potenciais interessados, aliás: o Kaiser ou o meu

primo Eduardo andam há uma dúzia de anos a soprar-nos aos ouvidos que essa seria a

melhor saída para as nossas finanças e para os nossos problemas internos. Eu, porém, não

penso assim: não estou convencido de que a redução da dimensão dos problemas

acrescente a grandeza das nações. Se vendesse este palácio, que herdei de sucessivas

gerações de Duques de Bragança, sem dúvida que resolveria um problema; mas não estou

certo que isso me tornasse mais feliz e mais realizado. Também há quem pense que, numa

monarquia constitucional, o Rei não tem de se preocupar ou de interferir nestas questões:

seria assim o único dos portugueses para quem a dimensão da nação seria indiferente. Eu

seria Rei, não do que recebi, mas do que entendessem que deveria ser o país. Essa é uma

questão mais funda e mais vasta, sobre a qual não me quero agora pronunciar, a não ser

para dizer que, se esse fosse o meu entendimento, seria mais digno abdicar das minhas

funções. Lamento apenas que o que deveria ser claro aqui, seja pantanoso, e que neste

pântano tenham sido sacrificados os esforços de portugueses a quem Portugal tanto deve,

como o meu querido amigo Mouzinho, que morreu por acreditar que, servindo o Rei,

servia a Pátria.

«Lá fora as fontes continuam a correr, eu oiço-as», pensou Luís Bernardo. Mas esse

era o único som que se ouvia agora. Na sala, instalara-se um silêncio magoado. Como toda

a gente, Luís Bernardo ficara impressionado com o suicídio, nunca explicado, de Mouzinho

de Albuquerque, ocorrido três anos antes. Como toda a gente, também, sabia que D. Carlos

tinha por Mouzinho uma admiração sem limites, bem expressa nas palavras com que

comunicara ao presidente do Conselho a sua decisão de nomear o «herói de Chaimite»

preceptor do Príncipe Real D. Luís Filipe: «Não posso pôr diante dos olhos do meu filho,

nem mais valentia, nem mais amor ao seu Rei, nem mais lealdade à sua Pátria.” Mas esse

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amor e essa lealdade de nada tinham contado quando, sete anos antes, o Rei assinara o

decreto que o governo lhe apresentara, diminuindo humilhantemente os poderes do então

comissário régio em Moçambique, e sabendo de antemão que Mouzinho não aceitaria tal

bofetada pública e se demitiria, como, de facto, veio a fazer. Depois, as vozes públicas

atribuíam à posição, entendida como menor, de preceptor do príncipe, confiada ao maior

herói militar do seu tempo, a razão para o trágico desfecho da carreira de Mouzinho, aos 46

anos de idade. Para Mouzinho de Albuquerque, que escrevera um dia que «tenho a certeza

de ter servido El-Rei e o país o mais que tenho podido e sabido e melhor que a maior parte

dos meus contemporâneos», era legítimo ter pensado que o Rei que assim servira e que

tanto o exaltava em particular, o abandonara em público, sacrificando-o ao jogo da política

interna e à mesquinhez dos interesses políticos de ocasião. Nas palavras de D. Carlos, Luís

Bernardo via assim, mais do que uma censura dirigida aos outros, um lamento por si

próprio, um arrependimento que lhe vinha do fundo da consciência. Entre os três, talvez

mesmo só Bernardo Pindela, o conde de Arnoso, que era secretário particular de D. Carlos,

mas que fora também amigo de infância, confidente e correspondente de Mouzinho em

todas as horas, soubesse a verdade toda e estivesse em posição de se pronunciar com

inteira justiça. Mas o conde de Arnoso permanecera silencioso, olhando qualquer coisa no

fundo da sala, como se não tivesse ouvido as últimas palavras do seu Rei: jamais, aliás,

alguém lhe ouviria qualquer palavra que, de perto ou de longe, não servisse a causa do

Soberano. Foi, pois, D. Carlos quem, de novo, quebrou o silêncio:

- E agora, vamos a São Tomé e Príncipe. Como sabe, meu amigo, São Tomé é a mais

pequena das nossas colónias, só comparável a Timor. Produz só duas coisas, cacau em

abundância e um pouco de café. Mas tal basta para que seja auto-suficiente e até para que

dê, ao Estado e aos agricultores, um rendimento não desprezível. Toda a agricultura se

baseia na mão-de-obra que importamos de Angola, sobretudo, mas também de Cabo

Verde, para o trabalho nas roças: o grande problema de São Tomé é a falta de braços. Mas

a coisa funciona e parece que não funciona mal, como você saberá. O cacau é de excelente

qualidade, o café também é óptimo - aliás, foi o que bebemos hoje ao almoço - e a

produção é regularmente alta. A coisa funciona tão bem, que nós somos uma ameaça às

companhias inglesas que concorrem connosco no mercado do cacau e que têm as suas

explorações na Nigéria, no Gabão e nas Antilhas Britânicas. Suponho que sabe tudo isto e

que não lhe estou a dar nenhuma novidade?

- Com efeito, Senhor, estou a par dos números e da concorrência que fazemos aos

ingleses - agora Luís Bernardo sentia-se a pisar terreno conhecido.

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- Pois bem: o Soveral, que é o nosso embaixador em Londres, e que eu direi mesmo

que é talvez o estrangeiro mais influente na corte e na imprensa inglesas, tem-nos escrito

crescentemente alarmado com a campanha que as companhias do cacau inglesas andam a

desenvolver contra São Tomé e Príncipe. E não violo nenhum segredo de Estado se lhe

disser também que o marquês de Soveral é muito amigo do Rei, como eu próprio sou, e

que foi com base nessa amizade e através dela que Eduardo me fez chegar um recado

pessoal de que tínhamos de estar atentos ao problema e de fazer alguma coisa. Para que a

situação não chegasse a um ponto em que ele fosse forçado pelo governo a agir ou a

consentir que o Governo agisse contra nós.

- Mas qual é a reclamação dos ingleses? - perguntou Luís Bernardo.

- Começou com uma queixa apresentada há uns anos atrás por uma companhia

inglesa, com produções de cacau na África Ocidental Inglesa, mas também importadora do

cacau de São Tomé, chamada Cadbury. A Cadbury, que transforma o seu cacau em

chocolate, queixa-se de que nós estamos a fazer concorrência desleal às colónias inglesas,

porque estaremos a empregar nas roças mão-de-obra escrava em São Tomé, recrutada em

Angola.

- E isso é verdade? - voltou Luís Bernardo.

- Bom, parece que depende do ponto de vista, depende do que se entende por

mão-de-obra escrava. Em rigor, nós chamamos-lhes contratados, mas o problema está em

que todos os anos, em média, são contratados três mil trabalhadores para as roças de São

Tomé e Príncipe e os barcos que os levam regressam vazios. Isto, para os ingleses, é

sinónimo de escravatura: se os trabalhadores são recrutados em Angola e não regressam, é

porque não são livres. Só faltou chamarem-nos negreiros. O ministro das Colónias explicou

ao embaixador que os ditos «escravos» eram pagos, melhor tratados e bem melhor alojados

do que os trabalhadores das roças inglesas em África ou nas Antilhas e que, em termos de

saúde, não havia melhor garantia do que o facto de várias roças terem o seu próprio

hospital, inteiramente equipado, coisa impensável em toda a África. Mas não serviu de

nada: acicatada pela Associação de Comerciantes de Liverpool, a imprensa inglesa caiu em

cima de nós, sem tréguas.

Neste ponto, D. Carlos levantou-se e foi buscar um jornal de cima da sua mesa de

trabalho. Estendeu-o a Luís Bernardo, já aberto numa página onde um título ao alto

destacava, em letras gordas: «Slavery still alive in Portuguese African colonies.» Voltou a sentar-se

e recomeçou:

- Lá, em Londres, o Soveral tentou as medidas do costume: convidou para jantar

alguns editores influentes da Fleet Street para ver se conseguia, pelo menos, parar a

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algazarra. Mas nem ele o conseguiu. Enfim, tivemos de acabar por aceitar as pressões do

governo inglês e receber um tal Joseph Burtt, enviado da Associação de Comerciantes para

tirar as coisas a limpo. O homem chegou no princípio do ano passado e vinha tão bem

preparado, que até se deu ao trabalho de aprender português. Esteve aí em Lisboa, onde foi

recebido por toda a gente: pelo ministro, por uma representação dos proprietários das

roças, jornalistas, toda a gente que quis.

- Sim, recordo-me de ter ouvido falar disso - atalhou Luís Bernardo - e que concluiu

esse Joseph Burtt?

- O homem não é parvo: não concluiu nada, aqui. Solicitou permissão para se

deslocar a São Tomé e Príncipe e depois a Angola, para estar em condições de apresentar

um relatório fundamentado aos seus mandantes. Isto foi discutido entre mim, o governo e

os proprietários de São Tomé: não vimos maneira de evitar a viagem dele, sem mostrar que

temíamos alguma inspecção local. Se o fizéssemos, é certo e sabido que a campanha em

Inglaterra iria subir de tom até à histeria e o Governo inglês acabaria por decidir-se por

alguma forma de pressão drástica e inadmissível, que teria efeitos devastadores no ambiente

político daqui.

«Seria mais um ultimatum!», pensou para consigo Luís Bernardo, não se atrevendo,

porém, a pronunciar em voz alta a palavra maldita, que tanto deveria atormentar as

memórias do Senhor D. Carlos.

- Em resumo - prosseguiu o Rei - pareceu-nos que teríamos tudo a perder e muito

pouco ou nada a ganhar, se disséssemos que não. Mal tínhamos acabado de lhe dar a

autorização, e já ele estava a embarcar, sem tardança, para São Tomé. Andou por lá e pelo

Príncipe até ao mês passado e agora já está em Angola. Só que, entretanto, enviou já um

relatório preliminar para Londres, para o Foreign Office, sobre o que terá visto em São

Tomé. O Soveral conseguiu mexer-se a tempo e teve um encontro privado com o ministro,

que lhe deu o relatório a ler. Ninguém mais ainda o viu e o marquês diz-me que é bom que

ninguém mais o veja.

- Tudo isto é obviamente reservado e guardará para si - interveio o conde de Arnoso,

saindo do seu mutismo - mas recebemos uma carta dele há uma semana onde nos diz que,

se o relatório for divulgado tal como está, seremos expostos ao mundo inteiro como a

última nação esclavagista do planeta. E isso será só a parte moral dos danos...

- Felizmente - retomou D. Carlos - Portugal tem em Londres o melhor embaixador

que poderia desejar ter. O Soveral conseguiu chegar a um acordo com o ministro, Lord

Balfour: este relatório preliminar ficará guardado no Foreign Office, fechado a sete chaves,

35

a pretexto de que ainda lhe falta a parte relativa a Angola para estar completo. Isso dá-nos

um tempo, um tempo para tentarmos desfazer as impressões colhidas pelo senhor Burtt.

- Com a nomeação de um novo governador?

- Não apenas com a nomeação de um novo governador, isso seria demasiado fácil. O

que nós precisamos é de aproveitar esse tempo para convencer os ingleses, se não da má-fé

do senhor Burtt, pelo menos da desactualização das suas informações. E como o faremos?

Pois é aqui que entra a necessidade de que lhe falei de que o novo governador, além das

qualidades requeridas para a situação, saiba falar inglês correctamente. É que a

contrapartida ao acordo negociado pelo Soveral é que Portugal aceite a instalação em São

Tomé e Príncipe de um cônsul inglês residente. Vamos aceitar: não temos alternativa.

- E o que Vossa Majestade espera do novo governador é que convença o cônsul

inglês de que não existe escravatura nas ilhas?

- O que eu espero de si - D. Carlos acentuou bem o « de si» - é que consiga três

coisas: que convença os roceiros de que devem aceitar todas as medidas que o novo

governador entenda tomar para que o cônsul inglês não tenha razões para confirmar o

relatório do senhor Burtt. Segundo, que faça isso com a necessária ponderação, de forma a

não lançar a insurreição nas ilhas e não pôr em causa a sua prosperidade. E, terceiro, que

mantenha o inglês cordialmente à distância, dando-lhe a atenção indispensável, mas

tornando-lhe perfeitamente claro que quem manda ali é Portugal e o governador, que

representa o país e o seu Rei.

Dito isto, D. Carlos tratou de reacender o seu charuto, que se tinha apagado.

Levantou-se e foi até à janela, ficando a olhar o jardim, como se já estivesse a pensar noutra

coisa. Aparentemente, tinha dito tudo o que achava necessário e agora esperava uma

resposta. Luís Bernardo continuava sem saber o que dizer. Tudo aquilo lhe parecia tão

imprevisto, tão longe de tudo o que pudesse imaginar como objectivo para aquele

encontro, para aquele dia e para a sua vida, que até lhe parecia irreal que ali estivesse,

sentado numa sala do Palácio Ducal de Vila Viçosa, a receber do Rei um mandato para ir

governar duas miseráveis e longínquas ilhotas no Equador.

- Como Vossa Majestade compreenderá, eu preciso de tempo para ponderar no

convite que me fez e, mesmo até, antes de considerar uma resposta, de precisar melhor o

âmbito das atribuições para que me deu a honra de me julgar capaz - começou ele,

hesitante.

- Tempo é o que menos tem, meu caro. Preciso de uma resposta dentro de uma

semana. Todas as precisões de que necessitar, de ordem política, terá de mas pedir agora.

Depois, evidentemente, terá de falar também com o ministro e com uma série de pessoas

36

que lhe indicaremos e que julgamos conveniente que oiça. Quanto ao resto, detalhes da

viagem, da instalação, etc., o Bernardo encarregar-se-á disso.

Bernardo de Pindela achou que era altura de intervir, em auxílio do Rei:

- A urgência tornou-se mais premente desde que anteontem recebemos comunicação

por parte do embaixador inglês de que já tinha sido escolhido o cônsul a nomear para São

Tomé e da data da sua chegada, prevista para início de Abril. Estamos no fim do ano e

julgamos necessário que o novo governador esteja instalado em São Tomé pelo menos um

mês antes do cônsul inglês, para tomar o pulso à situação. Como compreendemos que, se

você aceitar o cargo, precisará, pelo menos, de uns dois meses para arrumar a sua vida,

mais os quinze dias de viagem, bem vê, Valença, que a sua resposta é urgente. Até porque

se, contra as esperanças de Sua Majestade, ela for negativa, teremos de encontrar, ainda

mais rapidamente, quem o substitua.

D. Carlos tinha voltado a sentar-se e olhou-o de frente, outra vez:

- Praticamente, estamos nas suas mãos, meu caro. Detesto pôr as coisas desta forma,

mas há alturas em que os acontecimentos nos ultrapassam a todos. Acredite, porém, que

estou bem consciente do imenso sacrifício que lhe peço e da imensa coragem que julgo

necessária para o aceitar. Mas acredite também que não é por mim que lhe peço, mas sim

pelo nosso país. Agora que o conheço, que o vi de frente, estou perfeitamente convencido

que você é o homem indicado para esta missão e que eu andei bem aconselhado. Não

calcula o alívio que me traria uma resposta positiva da sua parte.

Era isto, então. Uma verdadeira armadilha. A factura, afinal, revelara-se bem mais

pesada do que ele alguma vez teria conseguido imaginar. Como é que se diz não a um Rei?

Com que palavras, com que desculpas, com que razões inultrapassáveis?

- Comprometo-me com Vossa Majestade a responder dentro do prazo de uma

semana que me concedeu. Peço-vos que compreendeis que, neste momento, é o mais que

posso prometer. Há coisas que não estão apenas nas minhas mãos: tenho uma vida para

desmanchar, para largar, para tentar deixar minimamente organizada na minha ausência. E

tenho de aceitar deixar tudo para partir para o fim do mundo, para uma terra onde não há

ninguém e onde me espera, segundo percebi, uma missão praticamente inviável.

- Porquê inviável?

Foi a vez de Luís Bernardo olhar o Rei nos olhos. Se dissesse que não, era bom que

D. Carlos percebesse bem que o mandato era quase inaceitável. Se dissesse que sim,

provavelmente não voltaria a ter ocasião de falar com o Rei e era conveniente que tudo

ficasse esclarecido desde já.

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- Se bem percebi o que Vossa Majestade me disse, existe, de facto, uma forma de

trabalho escravo em São Tomé. E o que se espera do novo governador é que isso não seja

visível aos olhos do inglês, de maneira a não nos expor a represálias do nosso famigerado

aliado. Mas, ao mesmo tempo, espera-se que nada de essencial seja mudado, de modo a não

comprometer o funcionamento da economia local.

- Não, não é isso. Nós abolimos oficialmente a escravatura há muito tempo, e temos

uma lei, datada de há dois anos, que estabelece as regras para o trabalho contratado nas

colónias e cujo regime nada tem a ver com qualquer forma de escravatura. Desejo que isto

fique bem claro: Portugal não pratica nem consente escravatura nas suas colónias. Isso é

uma coisa; outra coisa é submetermo-nos ao que os ingleses, e não por razões

primeiramente altruístas, querem achar que é escravatura e que para nós não passa de

formas de trabalho recrutado, segundo hábitos locais, e que não têm necessariamente de

coincidir com o que se faz na Europa. Ou alguém acredita, por exemplo, que um inglês

trata os seus criados na índia como os trata em Inglaterra?

- Devo, pois, concluir que a nossa interpretação da situação deve prevalecer sobre a

deles?

- Deve prevalecer sobre a deles, mas deve ser explicada e exibida de maneira tal que a

visão deles acabe por coincidir com a nossa. Neste caso, tudo depende, evidentemente, da

forma como você se conseguir entender com o cônsul inglês. Esse ponto é decisivo. Assim

como o é a capacidade de explicar aos colonos o que está em jogo e quais são as novas

regras do jogo. Diga-me sinceramente: fui claro, agora?

Antes de responder, Luís Bernardo fez uma pausa, pensativo, suspirou, e deu ao Rei

a resposta sincera que ele lhe tinha pedido:

- Penso que Vossa Majestade foi tão claro quanto achou adequado sê-lo.

- Então, estamos entendidos. Nada mais resta senão esperarmos pela sua resposta,

que eu lhe peço encarecidamente que seja reflectida e tão generosa quanto possível.

D. Carlos levantou-se, indicando que a conversa estava terminada. Agora, Luís

Bernardo só desejava partir dali, ficar a sós a remoer aquela fatalidade. Mas o Rei estava

obrigado a um último gesto:

- Espero que fique para jantar e para dormir, dar-me-ia o maior prazer.

- Agradeço-vos, Senhor, mas, se não levar a mal, gostaria de apanhar o comboio das

cinco, porque tenho um jantar marcado em Lisboa, esta noite.

D. Carlos acompanhou-o até às escadas, o conde de Arnoso até ao rés-do-chão, à

porta de entrada. Mandou chamar uma caleche para o levar à estação e, antes de se separar

dele, pousou-lhe uma mão sobre o ombro e disse-lhe:

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- Faço minhas as palavras de Sua Majestade, mas com muito mais ênfase, que a

posição dele não lho permite: você é o homem certo para esta tarefa e do seu bom

desempenho dependem coisas muito importantes para este país. Julgo que percebeu a

dimensão de tudo o que está em jogo: no dia em que perdermos a primeira colónia, será o

princípio inevitável do fim do Império e, com ele, o fim do trono, do reino e, talvez

mesmo, do país. Ficamos à espera que a Espanha venha para nos engolir. Tudo pode

começar agora de novo ou tudo pode começar a acabar agora. Ele não lhe pode dizer isto

cara a cara mas, se homens como você já não estiverem disponíveis, ele será a primeira

vítima e, depois dele, Portugal. Luís Bernardo, pense bem nisto: que mais de grandioso

poderá levar você da vida?

Luís Bernardo embarcou no carro e consultou o relógio, no bolso do colete: eram

quase cinco horas da tarde. O Sol já estava a descer para o fim do horizonte e o dia, que

fora tão claro, tornava-se agora escuro. O frio avançava sobre a vila e subia no ar o fumo

de diversas chaminés acesas dentro das casas. As pessoas deviam estar sentadas de roda das

largas lareiras onde fumavam os enchidos e as panelas do jantar aqueciam sobre a borralha.

Devia haver homens cansados sentados ao lume, crianças sentadas ao colo deles, mulheres,

envelhecidas antes de tempo, debruçadas sobre as panelas. Cães enroscados no calor da

tijoleira aquecida. Velhos adormecidos nos seus bancos de madeira, esperando pelo jantar.

Ou bêbados, arrastados, cambaleantes sobre o balcão das tascas, bebendo sempre um

último copo antes de voltar para casa. Agora, as ruas da vila estavam quase desertas e

apenas algumas sombras escuras passavam esbatidas contra o branco das paredes. O sino

da igreja bateu as cinco menos um quarto da tarde e tudo aquilo lhe pareceu, de repente,

profundamente triste, como se qualquer coisa de irremediável pairasse no ar. Nesse dia,

dera consigo a desejar, sem explicação, uma vida assim, na província, uma vida onde nada

acontecia e onde o tempo parecia tão lento que quase seria possível acreditar na eternidade.

Mas na estação esperava-o o comboio de regresso à grande e desordenada cidade, que era o

seu único mundo conhecido, aquele que amava e que compreendia.

Fechou os olhos no comboio e adormeceu, quase instantaneamente. Sonhou que

estava em África, havia um sol que abrasava, palmeiras, insectos, negros que gritavam numa

língua incompreensível e uma profusão de cores que rebentavam por todo o lado. E ele

estava ali, no meio da poeira e da confusão, a vigiar as obras do Palácio dos Duques de

Bragança, que o Senhor D. Carlos o mandara construir nos trópicos.

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III

Luís Bernardo apanhou um fiacre à saída do vapor do Barreiro, na estação do

Terreiro do Paço. Já estava mais do que atrasado para o jantar, mas esperava ir ainda a

tempo do café e dos digestivos. Só em casos de absoluta impossibilidade é que perdia

aqueles jantares semanais no Hotel Central. Não que eles fossem particularmente divertidos

ou instrutivos, mas porque era uma ocasião para estar entre amigos, num ambiente de

descontracção e numa conversa de homens, que ia das mulheres à política, passando pelos

cavalos. Ocasionalmente, também se faziam negócios, trocavam-se livros, contavam-se as

viagens que se tinham feito, actualizavam-se os rumores e obtinham-se favores ou

contactos das áreas de actividade em que cada um se movia. Às vezes os jantares eram

úteis, outras eram rigorosamente inúteis. De qualquer maneira, não havia muitas

alternativas melhores de passar um serão, em Lisboa. Já o primo Basílio, do Eça, dissera

que esta era a cidade onde «não havia onde comer uma asa de perdiz e beber uma taça de

champagne à meia-noite». Por oposição ao grupo de que Eça fazia parte, «Os Vencidos da

Vida», eles intitulavam-se a si próprios «Os Sobreviventes» - com isso querendo significar

que, com menos angústia e decerto menos brilho, estavam dispostos a extrair daquela vida

lisboeta do início de novecentos todo o partido que ela lhes pudesse dar. Era isso,

principalmente, que Luís Bernardo apreciava naquele grupo heterogéneo: não eram

moralistas, não tinham jurado salvar a Pátria, não acreditavam num mundo perfeito e não

se propunham como escola de virtudes ou exemplo a seguir. Viviam com o que havia e do

que havia. Talvez em nenhum lado, como ali, se discutisse tão tranquilamente, por

exemplo, a querela de todos os dias entre a Monarquia e a República. A tese dominante

entre « Os Sobreviventes» era a de que a solução dos problemas da nação não passava pela

forma constitucional do regime: com Monarquia ou com República, o povo continuaria

ignorante e miserável, as eleições seriam sempre resolvidas pelos caciques de província, que

tinham a faculdade de poder fazer eleger a maioria dos deputados das Cortes, o aparelho de

Estado continuaria a ser provido pelos conhecimentos pessoais ou fidelidades políticas e

jamais pelo mérito individual, e o país - com inúteis condes e marqueses ou com

inflamados demagogos republicanos - continuaria infalivelmente preso de ideias retrógradas

e de forças conservadoras para quem a modernidade era o mesmo que o próprio Diabo. O

que não havia em Portugal era uma tradição de cidadania, um desejo de liberdade, um

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gosto de pensar e agir pela própria cabeça: o desgraçado do trabalhador do campo dizia e

fazia o que o patrão lhe mandava, este repetia o que o cacique local lhe transmitia e este,

por sua vez, prestava contas e vassalagem aos próceres do partido em Lisboa. Podia

mexer-se no cume da pirâmide, que tudo o resto, até à base, permaneceria inamovível. A

doença era bem mais profunda do que maleita a que um simples golpe de Estado

constitucional pudesse atalhar.

Quando Luís Bernardo chegou, já estavam todos sentados à mesa há um par de

horas e servia-se já a sobremesa, os crêpes Suzette, um ex-libris do Hotel Central.

Sentou-se num lugar livre numa ponta da mesa, ao lado de João Forjaz e em frente ao Dr.

Veríssimo - António Pedro de Athayde Veríssimo, uma curiosa figura de financeiro e

intelectual, filantropo e bom pai de família, porém agnóstico militante e amante atitrée de

Bertha de Sousa, que fazia furor no teatro de revista lisboeta com atributos que escapavam

à compreensão de Luís Bernardo: umas pernas pequenas e roliças, como troncos, e umas

ancas em forma de pneu de automóvel, com cara de moçoila de aldeia promovida a

starlette de palco. Mas, verdadeiro gentleman que se prezava de ser, homem de letras e

artes, que cultivava como se de um sacerdócio se tratasse, o Dr. Veríssimo jamais

mencionava ou deixava que se aflorasse o assunto da posição de privilégio que conquistara

junto da mulher que, vá lá saber-se porquê, metade dos homens de Lisboa aspirava poder

conhecer mais intimamente. A mesma coisa em relação aos negócios: corriam verdadeiras

lendas sobre o seu instinto infalível para fazer investimentos que se revelavam fatalmente

recompensadores, comprando por baixo e vendendo por alto, descobrindo filões onde os

outros nada descortinavam, mas, sobre isso, jamais lhe escapara uma palavra naqueles

jantares de quarta-feira. E, se era implacável nos negócios, era também voz corrente que,

por exemplo, Filipe Martins, o mais jovem do grupo, sentado na outra ponta da mesa, só

concluíra os seus estudos de Medicina, em Coimbra, graças a uma bolsa de estudo que o

Dr. Veríssimo lhe pagara, anos a fio, em tributo ao falecido pai do jovem, com quem tivera

negócios em tempos.

- Então, conta-me lá, que te queria o homem? - perguntou João Forjaz, assim que

Luís Bernardo se sentou ao seu lado. Referia-se à ida do seu amigo a Vila Viçosa, de que

fora o único a ter conhecimento prévio pelo próprio.

- Veio propor-me que mudasse de vida radicalmente. Que me enterre em vida, ao

serviço da Pátria. E tu, tens notícias para mim?

- Tenho, tenho. Sossega, que tenho. - Boas ou más?

- Depende do ponto de vista: para mim, são más; para ti, devem ser boas. Mas depois

falamos. Parece-me que temos muito de que falar.

41

E entraram ambos na conversa geral, no momento em que os empregados acorriam

a Luís Bernardo, servindo-lhe os hors d'oeuvres, um clássico do Hotel Central, seguido de

um rodovalho assado no forno, com esparregado e batatas «Princesa», acompanhado por

um vinho branco de Colares. Discutiam-se os atributos de Lucília Simões, a jovem actriz da

moda, que acabara três meses de representações, sempre com sala cheia, no Teatro Dona

Amélia, no arrebatador papel de Lorenza Feliciani Balsamo, em O Grande Cagliostro.

Alguém citou a Ilustração Portuguesa para responder à pergunta sobre se a Lucília era

bonita ou não: «Bonita? Muito mais do que isso: com o seu sinalzinho na cara, as suas

narinas frementes à menor palpitação, o que Lucília Simões verdadeiramente é é uma

beauté du diable!»

A conversa foi em crescendo: passaram do sinalzinho para o busto e da Lucília

Simões para a filha de um fidalgo arruinado que ultimamente tinha sido vista muitas vezes

pelo São Carlos e pela Brasileira, passeando os seus lânguidos olhos ao derredor, como se

trouxesse um sinal na testa a suplicar: «Salvem o meu paizinho!». Aos poucos, Luís

Bernardo foi-se desligando dos ditos e risos gerais. Sentia-se a planar, meio ausente. Tinha

o pensamento em Matilde e no que ela teria combinado com o seu primo João Forjaz, no

senhor D. Carlos no seu Paço de Vila Viçosa e no sonho que tivera no comboio. Mas,

apesar de se ir desligando da conversa, havia um conforto físico e mental em estar ali, entre

os seus amigos, ouvindo-os num ruído de fundo que o embalava, como se estivesse ainda

no comboio, como se todo aquele dia nada mais tivesse sentido do que esta sensação de

que eram os outros e os acontecimentos que o arrastavam, sem que ele fizesse um gesto

para deter o curso das coisas.

Quando passaram ao salão para os brandies e os charutos - tendo Luís Bernardo

prescindido do pato assado no forno e dos crêpes, para assim recuperar o atraso com que

chegara - ele procurou João com o olhar, mas, antes de o poder localizar, foi agarrado por

um braço pelo Dr. Veríssimo, que o puxou à parte e lhe perguntou se podiam ter os dois

«um particular».

Sentaram-se no fundo do bar, nos coçados cadeirões de couro que já tinham

acolhido gerações de conversas privadas e todas elas importantes, e Luís Bernardo emergiu

do seu confortável torpor, despertado pela curiosidade daquele gesto tão pouco habitual no

Dr. Veríssimo.

- Meu caro amigo - começou o financeiro - vou-lhe poupar a introdução. Quando

discuto negócios, gosto de ir direito ao objectivo: você consideraria a hipótese de vender o

seu negócio?

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Luís Bernardo ficou a olhar para ele, como se tivesse visto uma aparição. «Não é

possível! Mas que dia é hoje? Que dia tão extraordinário é este em que toda a gente parece

disposta a propor-me a liquidação sumária da minha vida?»

- Desculpe-me, caro doutor, mas a sua pergunta é tão inesperada, que eu nem sei se a

percebi bem: você pergunta-me se eu quero vender a minha firma - tudo?

- Sim: os navios, os escritórios, as delegações, os empregados, os stocks, a carteira de

clientes e de agentes. O seu negócio inteiro.

- E por que haveria eu de querer vender?

- Pois, isso não sei, nem me cabe saber. Pergunto-lhe apenas se estaria disposto a

vender. Às vezes compramos e vendemos, outras vezes ficamos sentados em cima das

coisas até ao fim dos dias. Não sei qual é a sua filosofia sobre isso, mas, como sabe, esta é a

minha actividade: comprar e vender. As únicas coisas de que não me desfaço são livros,

quadros e filhos. Tudo o resto tem um preço - se lá chegarem, eu vendo; se eu lá chegar,

compro. Peço-lhe que não se ofenda com a minha pergunta, é apenas uma proposta

comercial.

- Não estou ofendido, estou só aparvalhado. Tenho esta firma há quinze anos, como

sabe. Fiz dela a minha vida e nunca me tinha passado pela cabeça vendê-la. É uma coisa

totalmente... como dizer, irreal, absurda.

- Claro, eu compreendo-o perfeitamente. Nem estava à espera que me desse uma

resposta, assim do pé para a mão.

- Mas, diga-me uma coisa, doutor: quer comprar a minha empresa para si?

- Não, não vou enganá-lo nesse ponto. O meu negócio, como lhe disse, é comprar e

vender. Acontece que tenho um cliente estrangeiro que eu penso que estará interessado em

ter um negócio destes em Lisboa e a minha intenção é comprar-lhe a si e depois vender a

ele. Com uma margem de lucro para mim, obviamente.

- E, já agora, doutor, permite que lhe pergunte se tem alguma ideia do valor da oferta

que estará disposto a fazer-me?

- Tenho, sim. Calculei que você não estivesse preparado para avançar com uma

proposta e, de facto, gosto de cortar os atalhos. Eu estudei um pouco a sua firma, obtive

informações daqui e dali, informei-me sobre o estado dos navios, por exemplo, e fiz as

minhas contas. Em minha opinião, meu caro Valença, a sua firma valerá uns oitenta contos

de réis. E eu estou disposto a oferecer-lhe cem contos de réis.

Luís Bernardo ficou em silêncio, a pensar no que tinha acabado de ouvir. A oferta

era, de facto, generosa. Embora ele não estivesse preparado para uma oferta de compra,

tinha algumas vezes tentado estimar o valor da firma e nunca chegara a números como os

43

oitenta contos de réis. Talvez setenta, talvez setenta e cinco, mas não tanto como os oitenta

estimados pelo seu interlocutor. E ele oferecia-lhe ainda vinte acima disso. Se estivesse

vendedor, seria uma ocasião caída do céu. Mas ele não estava vendedor. A menos que...

- Doutor, como lhe disse, estaria à espera de tudo, hoje, menos de uma proposta

destas. Vou reflectir nela, pelo respeito que tenho pela sua pessoa. Quando é que precisa de

uma resposta?

- Oh, esteja à vontade: duas, três semanas, um mês. Pense o tempo que precisar. Mais

importante que tudo é, se chegarmos a acordo, fazermos um bom negócio. E um bom

negócio é aquele em que nos separamos amigos como dantes.