Escaravelho de Ouro e outros Contos por Edgar Allan Poe - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub para obter uma versão completa.

index-1_1.jpg

index-2_1.jpg

Manuscrito encontrado numa

garrafa

Qui n’a plus qu’un moment à vivre

N’a plus rien à dissimuler.

Quinault – Atys[1]

De m inha terra e de m inha fam ília tenho pouco a dizer. Maus costum es e o

passar dos anos m e afastaram de um a e m e alienaram da outra. A riqueza

hereditária proporcionou-m e um a educação fora do com um , e um m odo de

pensar contem plativo habilitou-m e a sistem atizar o repertório que o estudo

precoce arm azenara com m uita diligência. Mais do que todas as coisas, os

m oralistas alem ães deram -m e grande deleite; não devido a algum a adm iração

desavisada por sua loucura eloquente, m as pela naturalidade com que m eus

rígidos hábitos de pensam ento perm itiram -m e detectar suas falsidades. Fui

m uitas vezes repreendido devido à aridez de m eu gênio; um a deficiência de

im aginação foi-m e im putada com o um crim e; e o pirronism o das m inhas

opiniões m e fez sem pre notório. De fato, um forte apego à filosofia natural

m atizou m inha m ente, receio, com um erro m uito com um nestes tem pos –

refiro-m e ao hábito de atribuir acontecim entos, m esm o os m enos suscetíveis a

tais atribuições, aos princípios dessa ciência. Em síntese, pessoa nenhum a poderia

ser m enos propensa do que eu a se deixar levar para longe das severas fronteiras

da verdade pelos ignes fatui[2] da superstição. Julguei apropriado fazer esta

introdução por tem er que a incrível história que tenho para contar possa ser

considerada antes o desvario de um a im aginação rude do que a experiência

concreta de um a m ente para a qual os devaneios da fantasia eram letra m orta e

nulidade.

Depois de m uitos anos viaj ando pelo estrangeiro, em barquei, no ano de 18...,

no porto de Batávia, na rica e populosa ilha de Java, num a viagem ao arquipélago

de Sonda. Viaj ei com o passageiro – não tendo outra m otivação senão um a

espécie de desassossego nervoso que m e assom brava com o um dem ônio.

Nossa em barcação era um belo navio de cerca de quatrocentas toneladas,

firm ado em cobre e construído em Bom baim com teca de Malabar. Estava

carregado com algodão em ram a e óleo, das ilhas Laquedivas. Tam bém

tínham os a bordo fibra de coco, açúcar m ascavo, m anteiga líquida, cocos e

algum as caixas de ópio. O arm azenam ento fora feito de m odo canhestro, e por

isso o navio adernava.

Partim os com um m ero sopro de vento e por m uitos dias perm anecem os ao

longo da costa oriental de Java, sem nenhum incidente que quebrasse a

m onotonia de nosso avanço, nada que não fosse um encontro ocasional com

alguns pequenos barcos do arquipélago para o qual nos dirigíam os.

Num fim de tarde, debruçado no parapeito da popa, observei um a nuvem

isolada, m uito peculiar, a noroeste. Ela era form idável, tanto por sua cor quanto

por ser a prim eira que víam os desde que saíram os de Batávia. Olhei para ela

com a m aior atenção até o pôr do sol, quando ela se espalhou de um a só vez a

leste e oeste, cingindo o horizonte com um a estreita faixa de vapor, com a

aparência de um a longa linha baixa de praia. Minha atenção foi logo a seguir

atraída pela aparição averm elhada da lua e pelo aspecto pitoresco do m ar. Este

últim o estava passando por um a rápida transform ação, e a água parecia m ais

transparente do que o norm al. Em bora eu pudesse enxergar com clareza o fundo,

verifiquei, lançando a sonda, que estávam os num a profundidade de trinta m etros.

Então o ar se tornou intoleravelm ente quente, carregado de exalações espirais

sem elhantes às que em anam de ferro aquecido. À m edida que a noite caía, os

m enores sopros de vento se esgotavam , e era im possível conceber um a calm aria

m aior do que aquela. A cham a de um a vela queim ava na popa, sem apresentar

nem o m ais im perceptível m ovim ento, e um longo fio de cabelo, sustentado com

dedão e indicador, pendia sem que houvesse a m enor possibilidade de

detectarm os um a vibração. Entretanto, o capitão dizia não perceber nenhum a

indicação de perigo, e, com o estávam os sendo levados pela corrente diretam ente

para a costa, ele ordenou que as velas fossem recolhidas e que se lançasse

âncora. Nenhum vigia foi designado, e a tripulação, constituída na m aioria por

m alaios, ficou descansando à vontade no convés. Desci às cabines – não sem um

palpável pressentim ento de infortúnio. De fato, todos aqueles fenôm enos m e

autorizavam a tem er a chegada de um sim um . [3] Falei de m eus m edos ao

capitão; m as ele não deu atenção ao que eu disse, e se afastou sem sequer m e

dar resposta. Meu desconforto, no entanto, não m e deixava dorm ir e, por volta da

m eia-noite, subi para o convés. Assim que botei o pé no últim o degrau da escada

do tom badilho, sobressaltei-m e com um ruído alto, um a espécie de zum bir, com o

o som da rápida rotação de um a roda de m oinho, e antes que eu pudesse

descobrir seu significado, senti que o navio estrem ecia desde o centro. No

m om ento seguinte, um a vastidão de espum a nos arrem essou em adernam ento e,

cobrindo-nos por inteiro, varreu o convés de proa a popa.

A extrem a fúria da raj ada provou-se, em grande m edida, a salvação do

navio. Em bora com pletam ente inundado, ele, no entanto, com o os m astros se

quebraram e caíram no m ar, pôde se erguer com esforço depois de um m inuto

e, vacilando um pouco na im ensa pressão da tem pestade, por fim aprum ou-se.

É im possível dizer que espécie de m ilagre m e salvou da m orte violenta.

Estupefato pelo choque da água, encontrei-m e, quando recobrei os sentidos,

prensado entre o cadaste e o lem e. Com grande dificuldade, levantei-m e e,

olhando em volta, atordoado, fui inicialm ente assaltado pela ideia de que

estivéssem os em área de rebentação, tão aterrorizante e avesso à m ais louca

im aginação era o redem oinho de oceano m ontanhoso e espum ante no qual

estávam os engolfados. Depois de um tem po, ouvi a voz de um velho sueco, que

em barcara no m om ento em que deixam os o porto. Cham ei-o com todas as

forças, e ele em seguida se aproxim ou, cam baleando em direção à popa. Logo

descobrim os que éram os os únicos sobreviventes do acidente. Todos os que

estavam no convés, exceto nós, haviam sido varridos para o m ar; o capitão e os

im ediatos deviam ter perecido enquanto dorm iam , pois as cabines estavam

subm ersas em água. Sem assistência, não tínham os com o fazer m uito pela

segurança do navio, e nossos esforços foram , num prim eiro m om ento,

paralisados pela expectativa tem porária de que fôssem os afundar. O cabo da

âncora, é claro, rebentara com o um barbante ao prim eiro sopro do furacão, e

não fosse isso teríam os ido a pique na m esm a hora. Estávam os sendo arrastados

pelo m ar num a velocidade assustadora, e a água elevava ondas íngrem es sobre

nós. A estrutura da popa estava dem asiado danificada e, em quase todos os

aspectos, havíam os sofrido prej uízos consideráveis; m as, para nossa m áxim a

alegria, verificam os que as bom bas de água estavam desobstruídas e que o lastro

ainda podia nos m anter estáveis. O ataque m ais furioso do furacão havia passado,

e j á não víam os tanto perigo na violência do vento; m as aguardávam os a total

cessação com desânim o, acreditando seriam ente que, em condições tão

avariadas, fatalm ente pereceríam os na trem enda ondulação que se seguiria. Mas

essa j usta apreensão não parecia ter grandes probabilidades de se concretizar.

Durante cinco dias e cinco noites – período no qual nossa subsistência foi

garantida apenas por um a pequena quantidade de açúcar m ascavo, resgatado

com grande dificuldade no castelo de proa – o casco voou pelo m ar num a

velocidade que desafiava a com preensão, tocado por sucessivas raj adas de vento

que, m esm o sem se igualar à violência inicial do sim um , eram m ais terríveis que

qualquer tem pestade que eu j á havia testem unhado. Nosso rum o, nos prim eiros

quatro dias, era sudeste para sul; e provavelm ente navegam os pela costa da Nova

Holanda.[4] No quinto dia o frio se tornou extrem o, em bora o vento tivesse

virado um ponto para o norte. O sol nasceu com um doentio brilho am arelo e

subiu apenas uns poucos graus acim a do horizonte – sem em itir luz decente. Não

se viam nuvens, m as o vento ganhava força e soprava com um a fúria

espasm ódica e instável. Por volta do m eio-dia, segundo a estim ativa que

fizéram os do horário, nossa atenção foi m ais um a vez atraída pela aparição do

sol. Ele não em itia luz propriam ente dita, m as um brilho em botado e som brio,

com o se seus raios estivessem polarizados. Pouco antes de afundar no m ar

túrgido, suas cham as centrais se apagaram de súbito, com o que extintas por

algum poder inexplicável. Ele era apenas um aro turvo e prateado quando sum iu

no oceano insondável.

Esperam os em vão pela chegada do sexto dia – esse dia ainda não chegou

para m im –; para o sueco, não chegou e não chegará. Dali em diante fom os

envolvidos por um a escuridão tão negra que não podíam os enxergar um obj eto

que estivesse a quinze m etros do navio. A noite eterna nos abraçava sem parar, e

não havia o alívio do m ar brilhante ao qual tínham os nos acostum ado nos

trópicos. Tam bém observam os que, em bora a tem pestade continuasse a nos

assolar com violência incessante, não ocorria m ais a usual aparição de

rebentação ou espum a que nos acom panhara até ali. Tudo em volta era horror e

treva espessa e um opressivo e negro deserto de ébano. Terrores supersticiosos

foram im pregnando aos poucos o espírito do velho sueco, e m inha própria alm a

ficou tom ada de um assom bro silencioso. Desistim os de todos os cuidados com o

navio, m ais do que inúteis, e, segurando-nos tão bem quanto possível no toco do

m astro de m ezena, ficam os olhando com am argura aquele m undo de oceano.

Não tínham os com o calcular o tem po nem com o adivinhar nossa localização.

Tínham os, no entanto, plena consciência de que avançáram os m ais para o sul do

que qualquer outro navegador, e nos causou grande perplexidade que não

topássem os com os usuais obstáculos de gelo. Enquanto isso, cada instante nos

parecia ser o últim o – cada vagalhão m ontanhoso se precipitava para nos

esm agar. A ondulação superava tudo que eu j á havia im aginado, e é um m ilagre

que não tenham os sido im ediatam ente sepultados por ela. Meu com panheiro

falou da leveza de nossa carga e das excelentes qualidades do nosso navio; m as

eu não conseguia deixar de pensar na desesperança da própria esperança, e

estava preparado, com tristeza, para um a m orte que, segundo pensei, nada

poderia evitar, e que viria em questão de m inutos, à m edida que, a cada m etro

que avançávam os, a ondulação negra do estupendo m ar se tornava m ais lúgubre

e pavorosa. Por vezes ofegávam os, sem ar, num a altitude de voo de albatroz –

por vezes ficávam os tontos com a velocidade de nossa descida para dentro de um

inferno aquático, onde o ar se estagnava e nenhum som perturbava o sono do

kraken.[5]

Estávam os no fundo de um desses abism os quando um grito intenso do m eu

com panheiro irrom peu m edonham ente na noite.

– Vej a! Vej a! – ele disse, berrando em m eus ouvidos. – Deus todo-

poderoso! Vej a! Vej a!

Enquanto ele falava, tom ei consciência do brilho de um a luz verm elha,

em botada e som bria, que j orrava pelas paredes do vasto precipício em que

caíram os e ilum inava em espasm os o nosso convés. Olhando para cim a,

contem plei um espetáculo que congelou o sangue em m inhas veias. A um a altura

assustadora, diretam ente acim a de nós, e bem na m argem do precipício, estava

suspenso um navio gigantesco, de um as quatro m il toneladas. Em bora estivesse

no topo de um a onda cuj a altura devia ser cem vezes m aior do que a sua, seu

tam anho aparente, m esm o assim , excedia o de qualquer navio de guerra ou da

Com panhia das Índias. Seu enorm e casco era de um preto suj o e profundo, e era

desprovido dos entalhes habituais de um navio. Um a única fileira de canhões de

bronze se proj etava das portinholas abertas, que refletiam , nas superfícies

polidas, as cham as de inum eráveis lanternas de batalha, que balançavam para lá

e para cá no cordam e. Mas o que m ais nos encheu de horror e perplexidade foi

que ele se sustentava, com todo o pano nos m astros, na superfície de um m ar

sobrenatural, nas garras de um furacão incontornável. Quando com eçam os a

avistá-lo, só víam os a proa, enquanto ele subia devagar e deixava atrás de si um

abism o obscuro e horrível. Durante um m om ento de intenso terror, ele parou

sobre o vertiginoso pináculo, com o que contem plando sua própria sublim idade;

então estrem eceu e vacilou – e caiu.

Nesse instante, passei a sentir em m eu espírito um autocontrole inexplicável.

Cam baleando, recuei para a popa o m ais que pude e aguardei sem m edo a ruína

que esm agaria tudo. Nossa própria em barcação estava agora desistindo de lutar e

afundava de cabeça no oceano. O choque daquela m assa descendente a atingiu,

assim , na porção de sua estrutura que j á estava subm ersa, e o resultado inevitável

foi que fui arrem essado, com irresistível violência, até o cordam e do navio

estranho.

Quando caí nele, o navio girou, virou de bordo e prosseguiu; à confusão que

se deu atribuí o fato de m inha presença não ter sido percebida pela tripulação.

Com pouca dificuldade, cam inhei, despercebido, até a escotilha principal, que

estava parcialm ente aberta, e logo tive oportunidade de m e esconder no porão de

carga. Não sei bem com o explicar por que fiz isso. Um sentim ento indefinido,

um tem or que senti quando olhei pela prim eira vez para os m arinheiros do navio,

foi, quem sabe, o que m e fez procurar refúgio. Eu não estava disposto a confiar

num a espécie de gente que, ao m eu olhar apressado, inspirava tantas im pressões

vagas de novidade, de dúvida e de apreensão. Julguei que o m ais apropriado,

portanto, era arranj ar um esconderij o no porão de carga. Para tanto, arranquei

um as poucas pranchas do chão, de m odo que pudesse obter um abrigo

conveniente entre as enorm es vigas do navio.

Eu m al acabara de com pletar m eu trabalho quando ouvi passos no porão e

m e vi obrigado a fazer uso do abrigo. Um hom em passou por m eu esconderij o

com um andar lento e irregular. Não consegui enxergar seu rosto, m as tive

oportunidade de observar sua aparência geral. Havia nela um a evidência de

idade avançada e de enferm idade. Seus j oelhos vacilavam com o peso dos anos,

e toda a figura do hom em trem ia em função do fardo. Ele m urm urava para si,

num tom baixo e entrecortado, palavras de um a língua que eu não entendia, e

tateou, num canto, em m eio a um m onte de instrum entos estranhos e m apas de

navegação deteriorados. Suas m aneiras eram um a m istura bizarra de rabugice

senil com a solene dignidade de um deus. Por fim ele subiu ao convés, e não o vi

m ais.

* * *

Um sentim ento, para o qual não tenho nom e, tom ou posse de m inha alm a –

um a sensação que não adm ite análise, para a qual as lições do passado são

inadequadas e para a qual, eu tem o, nem m esm o a futuridade trará a chave.

Para um a m ente constituída com o a m inha, esta últim a consideração é um a

desgraça. Nunca estarei – sei que nunca estarei – satisfeito no que concerne à

natureza de m inhas concepções. E, contudo, não é de estranhar que essas

concepções sej am indefinidas, visto que se originam de fontes tão

com pletam ente inéditas. Um novo sentim ento – um a nova entidade foi

adicionada a m inha alm a.

* * *

Faz m uito tem po que andei pela prim eira vez pelo convés deste terrível

navio, e os raios do m eu destino estão, creio, convergindo para um foco. Hom ens

incom preensíveis! Afogados em m editações de um tipo que não consigo

com preender, eles passam por m im e não notam m inha presença. Esconder-m e

é puro desatino de m inha parte, pois estas pessoas não querem ver. Foi agora

m esm o que passei bem diante dos olhos do im ediato; não foi m uito tem po atrás

que m e aventurei a entrar na cabine privada do capitão e de lá tirei os m ateriais

com que escrevo e venho escrevendo. De tem pos em tem pos darei continuidade

a este diário. É verdade que eu posso não vir a ter oportunidade de transm iti-lo ao

m undo, m as não abrirei m ão de tentar. No últim o m om ento, acondicionarei o

m anuscrito num a garrafa, e lançarei a garrafa ao m ar.

* * *

Ocorreu um incidente que m e forneceu novos pontos para m editação. Será

tudo isto a operação de um acaso desgovernado? Eu m e aventurara pelo convés e

m e deitara, sem despertar nenhum a atenção, entre um m onte de enfrechates e

velam e velho, no fundo do escaler. Cism ando na singularidade do m eu destino,

pincelei distraidam ente, com um a brocha de alcatrão, as extrem idades de um a

vela leve, dobrada com cuidado, que vi perto de m im , sobre um a barrica. Essa

vela está agora içada no navio, e as pinceladas im pensadas form am a palavra

DESCOBERTA.

Observei m uito, nos últim os tem pos, a estrutura do navio. Em bora bem

arm ado, ele não é, creio, um navio de guerra. O cordam e, a construção, os

equipam entos em geral, tudo refuta um a suposição desse tipo. O que ele não é,

posso perceber com facilidade; o que ele é, tem o que sej a im possível dizer. Não

sei com o pode ser, m as, quando analiso seu estranho m odelo e sua singular

m astreação, seu vasto tam anho e seu enorm e conj unto de velas, sua proa

bastante sim ples e sua popa antiquada, dispara ocasionalm ente pelo m eu cérebro

um a sensação de fam iliaridade, e, a essas indistintas som bras de recordação,

m istura-se sem pre um a m em ória inexplicável de velhas crônicas estrangeiras e

de eras m uito rem otas.

* * *

Tenho reparado no m adeiram e desta nau. Ela é feita de um m aterial que m e

é estranho. Há um a característica peculiar na m adeira que m e surpreende por

parecer torná-la im própria para o propósito ao qual foi aplicada. Refiro-m e a sua

extrem a porosidade, considerada independentem ente de sua condição de poder

ser devorada por verm es, o que é um a consequência da navegação por estes

m ares, e à parte da podridão que chega com o tem po. Parecerá, talvez, um a

observação algo extravagante, m as essa m adeira teria todas as características do

carvalho espanhol, se o carvalho espanhol pudesse se dilatar por m eios artificiais.

Lendo a sentença acim a, um curioso aforism o de um navegador holandês,

um velho calej ado pelas intem péries, vem na hora à m inha cabeça: “É tão

certo”, ele tinha o costum e de dizer, quando algum a dúvida era levantada acerca

da veracidade de sua história, “com o é certo que há um m ar onde o próprio

navio aum enta de volum e, com o o corpo vivo do m arinheiro”.

* * *

Cerca de um a hora atrás, tive a audácia de m e introduzir num grupo de

tripulantes. Eles não m e deram atenção e, em bora eu m e parasse exatam ente no

m eio de todos eles, sim plesm ente não tom aram conhecim ento da m inha

presença, ao que pareceu. Com o aquele que eu vira no porão, todos carregam

com eles as m arcas de um a velhice encanecida. Seus j oelhos trem iam por

enferm idade; seus om bros se curvavam por decrepitude; suas peles enrugadas

estalavam no vento; suas vozes eram baixas, trêm ulas e entrecortadas; seus olhos

reluziam com a reum a dos anos; e seus cabelos grisalhos ondeavam de um a

form a horrível na tem pestade. Em volta deles, em todos os cantos do convés,

espalhavam -se instrum entos m atem áticos de configuração esquisita e obsoleta.

* * *

Mencionei, algum tem po atrás, o envergam ento de um a vela leve. De lá

para cá, o navio, arrastado a toda pelo vento, continuou seu aterrorizante avanço

para o sul, com todas as velas esfarrapadas sendo utilizadas, todo o pano largado

nos m astros principais e nos botalós baixos e, a todo m om ento, balançando as

vergas do m astaréu no inferno de água m ais apavorante que a m ente de um

hom em j á pôde conceber. Acabei de sair do convés, onde m e parece ser

im possível ficar de pé, em bora a tripulação não estej a passando por m aiores

inconvenientes. É para m im o m ilagre dos m ilagres que o nosso enorm e casco

não sej a engolido de um a só vez e para sem pre. Estam os condenados a pairar

continuam ente à beira da eternidade, sem nunca efetuar o m ergulho final no

abism o. Por vagalhões m il vezes m ais estupendos do que qualquer um que eu j á

tenha visto, planam os com a agilidade certeira de um a gaivota; e as águas

colossais elevam suas cabeças sobre nós com o dem ônios das profundezas, m as

com o dem ônios que se lim itam a am eaçar e estão proibidos de destruir. Inclino-

m e a atribuir nossas salvações frequentes à única causa natural que pode dar

conta de tal efeito. Suponho que o navio avança sob a influência de algum a forte

corrente, ou de algum a im petuosa ressaca.

* * *

Estive com o capitão frente a frente e em sua própria cabine – m as, com o

eu j á esperava, ele não m e deu atenção. Em bora em sua aparência não haj a,

para um observador casual, nada que possa indicar que ele sej a m ais ou m enos

hum ano, um sentim ento de irreprim ível reverência e tem or se m isturava à

sensação de espanto com que eu o encarava. Sua altura é quase idêntica à m inha:

ele tem cerca de um m etro e setenta. Sua com pleição física é com pacta e bem -

form ada, nem robusta nem m uito franzina. Mas é a singularidade da expressão

que reina em seu rosto, é a intensa, a m aravilhosa e a vibrante evidência de

velhice, tão funda, tão extrem ada, o que excita em m eu espírito um a sensação –

um sentim ento inefável. Sua fronte, apesar de pouco enrugada, parece trazer

consigo a estam pa de um a m iríade de anos. Seus cabelos grisalhos são registros

do passado, e seus olhos, ainda m ais cinzentos, são as sibilas do futuro. O chão da

cabine estava abarrotado de in-fólios estranhos com fechos de ferro, de

instrum entos científicos deteriorados e de m apas obsoletos e há m uito esquecidos.

O capitão tinha a cabeça apoiada nas m ãos e estudava atentam ente, com um

olhar vibrante e inquieto, um papel que j ulguei ser um a procuração e que, em

todo caso, trazia a assinatura de um m onarca. Ele m urm urava consigo, em voz

baixa – com o fazia aquele m arinheiro que vi no porão –, algum as sílabas

rabugentas de um a língua estrangeira; e em bora ele estivesse bem ao m eu lado,

sua voz parecia a de um hom em que está a um quilôm etro de distância.

* * *

O navio e tudo nele estão im buídos com o espírito da Antiguidade. Os

m arinheiros deslizam para lá e para cá com o fantasm as de séculos enterrados;

seus olhos têm um a expressão ansiosa e apreensiva; e quando seus vultos cruzam

o m eu cam inho, na claridade agreste das lanternas de batalha, sinto o que nunca

senti antes, em bora eu tenha sido um negociante de antiguidades durante toda a

vida e tenha m e em bebido nas som bras das colunas caídas em Balbec, em

Tadm or e em Persépolis [6], até que m inha própria alm a se transform asse em

ruína.

* * *

Quando olho ao redor, sinto vergonha de m inhas apreensões iniciais. Se

trem i diante da tem pestade que nos acom panhou até aqui, não devo ficar

horrorizado diante da guerra entre vento e oceano, cuj a ideia as palavras tornado

e sim um são triviais dem ais para transm itir? Tudo que há nas proxim idades

im ediatas do navio é a escuridão da noite eterna e um caos de água sem espum a;

a m ais ou m enos um a légua para cada lado do navio, porém , podem ser vistos,

de m aneira indistinta e a intervalos, estupendos baluartes de gelo, que se erguem

a perder de vista no céu desolado, com o se fossem as m uralhas do universo.

* * *

Com o im aginei, com prova-se que o navio segue um a corrente – se é que se

pode nom ear apropriadam ente assim um fluxo que, uivando e gritando pelo gelo

branco, trovej a para o sul com a velocidade im petuosa e enérgica de um a

catarata.

* * *

Conceber o horror de m inhas sensações é, presum o, com pletam ente

im possível; e, no entanto, um a curiosidade de penetrar os m istérios desses lugares

horrendos prevalece até m esm o sobre o m eu desespero, e m e reconcilia com o

teor m edonho da m orte. É verdade que estam os voando na direção de algum a

revelação em ocionante – de algum segredo que não poderá ser revelado j am ais,

cuj a descoberta nos destruirá. Talvez essa corrente nos leve ao próprio Polo Sul.

É preciso confessar que um a suposição com o essa, em princípio tão bárbara, tem

todas as probabilidades a seu favor.

* * *

A tripulação percorre o convés com passos trêm ulos e inquietos; m as há em

seus sem blantes um a expressão que é m ais a avidez da esperança do que a apatia

do desespero.

Enquanto isso, o vento ainda sopra em nossa popa e, com o tem os todo o pano

do m undo nos m astros, o navio às vezes flutua sem tocar as águas! Ah, horror dos

horrores! O gelo de repente se abre à direita e à esquerda, e estam os rodopiando

vertiginosam ente em im ensos círculos concêntricos, girando em torno de um

gigantesco anfiteatro, cuj as paredes são tão altas que se perdem na escuridão e

na distância. Mas pouco tem po m e restará para ponderar sobre o m eu destino!

Os círculos se fecham cada vez m ais, estam os m ergulhando loucam ente nas

garras do redem oinho – e em m eio a um rugir e urrar e trovej ar de oceano e de

tem pestade, o navio está estrem ecendo e – m eu Deus! – afundando!

Nota: O “Manuscrito encontrado num a garrafa” foi publicado originalm ente

em 1831; e foi só m uitos anos depois que tom ei conhecim ento dos m apas de

Mercator, nos quais o oceano é representado precipitando-se, por quatro bocas,

para dentro do (setentrional) Golfo Polar, para ser absorvido pelas entranhas da

Terra; o próprio Polo é representado por um a rocha negra que se eleva a um a

altura prodigiosa.

[1] Da ópera trágica Atys (1676), dos franceses Philippe Quinault e Jean-Baptiste

Lully : “Para quem só resta um m om ento de vida/ Não há m ais nada a

dissim ular”. (N.T.)

[2] Fogos-fátuos. (N.T.)

[3] O “vento venenoso”, um vento violentam ente quente e seco, carregado de

areia, que vem dos desertos árabes e africanos. (N.T.)

[4] Austrália. (N.T.)

[5] Monstro m arinho nórdico. (N.T.)

[6] Cidades da Antiguidade. (N.T.)

O encontro

Espera por mim! Não deixarei

De te encontrar no vale profundo.

[ Elegia sobre a morte de sua mulher, por Henry King, bispo de

Chichester][1]

Malfadado e m isterioso hom em ! Aturdido no brilho da tua própria im aginação e

consum ido pelas cham as da tua própria j uventude! Vislum bro de novo a tua

im agem ! Mais um a vez tua figura se ergueu diante de m im ! Não, ah, não com o

tu estás, perdido nas som bras do vale gelado, m as com o deverias estar,

dissipando um a vida de esplêndida m editação na cidade das visões turvas, tua

própria Veneza – aquela que é um elísio do m ar, a preferida das estrelas, aquela

em que as am plas j anelas dos palácios renascentistas contem plam , com

expressão absorta e am arga, os segredos das águas silenciosas. Sim ! Repito:

com o deverias estar. É certo que existem outros m undos além deste, outras ideias

além das ideias da m aioria, outras especulações além das especulações do

sofista. Quem poderá questionar, então, tua conduta? Quem poderá te censurar

por tuas horas visionárias, ou denunciar tuas ocupações com o desperdício de

vida, quando elas eram som ente a superabundância das tuas energias

inesgotáveis?

Foi em Veneza, em baixo da arcada coberta que cham am de Ponte di

Sospiri, que encontrei pela terceira ou quarta vez a pessoa de quem falo. É com

lem branças confusas que rem em oro as circunstâncias do encontro. Porém

recordo – ah!, com o poderia esquecer? – a m eia-noite escura, a Ponte dos

Suspiros, a beleza da m ulher, o gênio do am or que percorria o estreito canal para

cim a e para baixo.

Era um a noite de escuridão incom um . O grande relógio da Piazza soara a

quinta hora da noite italiana. O largo do Cam panile estava deserto e silencioso, e

as luzes no Palácio Ducal se extinguiam rapidam ente. Da Piazzetta, eu voltava

para casa pelo Grand Canal. Quando m inha gôndola alcançou a entrada do canal

de San Marco, um a voz fem inina vinda de seus recessos irrom peu de súbito na

noite, num grito selvagem , histérico, continuado. Sobressaltado com o grito,

levantei-m e, e o gondoleiro, deixando escapar seu único rem o, perdeu-o no

negrum e da água; não havia nenhum a possibilidade de recuperá-lo, portanto

ficam os ao sabor da corrente, que ali em purra do canal m aior para o m enor.

Com o um enorm e condor de plum agem negra, flutuam os aos poucos na direção

da Ponte dos Suspiros. De repente, m ilhares de tochas lam pej aram nas j anelas e

nas escadarias do Palácio Ducal e transform aram a treva espessa num dia lívido

e sobrenatural.

Um a criança escorregara dos braços da própria m ãe e, de um a j anela alta

do im ponente prédio, caíra no profundo e turvo canal. As águas tranquilas se

fecharam placidam ente por sobre a vítim a; e, em bora m inha gôndola fosse a

única que se via, m uitos m ergulhadores audazes j á estavam na água, procurando

em vão pela superfície, buscando o tesouro que, ai deles, só podia ser encontrado

no fundo do abism o. Na entrada do palácio, sobre grandes laj es de m árm ore

negro, alguns passos acim a da água, estava parada um a figura que quem então

viu não pôde esquecer nunca m ais. Era a Marquesa Afrodite, a adoração de

Veneza, a m ais alegre entre os alegres, a m ais form osa onde todas eram lindas –

m as era a j ovem esposa do velho e intrigante Mentoni e m ãe daquela bela

criança, seu prim eiro e único filho, que agora, no fundo das águas som brias,

pensava, de coração am argo, nas doces carícias m aternas e esgotava suas

últim as forças e sua pequena vida tentando cham ar a m ãe.

Ela estava parada e sozinha. Seus pezinhos descalços, prateados e cintilantes,

rebrilhavam no m árm ore negro. Seus cabelos, ainda não desfeitos por com pleto

de um a arrum ação de baile, cacheavam com o j acinto, m ergulhados em

diam antes, em torno de sua cabeça clássica. Um tecido drapej ado, diáfano,

branco com o neve, parecia ser a única veste a cobrir suas form as delicadas; m as

o ar da m eia-noite de verão estava quente, sinistro e silencioso, e não havia um

único m ovim ento naquele corpo de estátua, não havia m ovim ento nem m esm o

nas dobras de seu vestido vaporoso, im óvel com o o m árm ore da estátua de

Níobe.[2] Porém , com o era estranho! Seus grandes olhos resplandecentes não

estavam voltados para baixo, para a cova que abrigava sua esperança lum inosa –

estavam fixados num a direção totalm ente diversa! A prisão da Sereníssim a

República é, creio, o edifício m ais m aj estoso de toda Veneza – m as por que

m otivo aquela dam a cravava nele o seu olhar, quando, abaixo dela, seu próprio

filho j azia afogado? Esse um broso e lúgubre prédio se elevava bem em frente à

j anela de seu quarto... O que poderia haver, então, em suas som bras, em sua

arquitetura, em suas cornij as solenes e cobertas de hera, que a Marchesa di

Mentoni não tivesse visto m il vezes antes? Tolice! Quem não lem bra que em

m om entos com o esse o nosso olho, com o um espelho quebrado, m ultiplica as

im agens de seu pesar e vê, em inúm eros lugares longínquos, a dor que está ao

alcance da m ão?

Muitos passos acim a da m arquesa, na altura do portão que dava para o

canal, via-se, em traj e de gala, a figura de sátiro de Mentoni em pessoa. Ele

estava ocupado, ao acaso, em arranhar um violão, e parecia m ortalm ente

entediado por ter de dar orientações para o resgate de seu filho. Chocado e

estupefato, não tive forças para sair da posição ereta e petrificada em que m e

encontrava desde que ouvira o grito. Pálido e rígido em m inha gôndola funérea,

flutuando entre o grupo atarefado, devo ter apresentado àqueles hom ens um a

visão fantasm agórica e agourenta.

Os esforços não deram em nada. Muitos dos nadadores m ais enérgicos j á

não m ostravam o m esm o em penho e se rendiam a um desânim o pesado.

Parecia não restar esperança para o filho (e m enos ainda para a m ãe!). Mas

então, do interior daquele prédio um broso, j á m encionado com o parte da prisão

da Sereníssim a República, defronte ao parapeito da m arquesa, um vulto

envolvido num m anto saiu para a luz e, depois de um a pausa à beira da descida

vertiginosa, m ergulhou de cabeça no canal. Instantes depois, com a criança viva

e respirando em seus braços, ele j á estava ao lado da m arquesa sobre as laj es de

m árm ore. Seu m anto, encharcado e pesado de água, foi desabotoado e caiu

dobrado a seus pés, descobrindo assim , aos olhos m aravilhados dos espectadores,

a figura graciosa de um hom em m uito j ovem , cuj o nom e reverberava então na

m aior parte da Europa.

O salvador não disse nada. Mas a m arquesa! Ela agora vai tom ar seu filho

nas m ãos, vai apertá-lo de encontro ao coração, vai se grudar ao corpo

pequenino e cobri-lo de carícias. Não, ai dela! Outros braços o tom aram das

m ãos do estranho – outros braços o levaram para longe e o carregaram ,

despercebidos, para dentro do palácio! E a m arquesa! Seus lábios – seus lindos

lábios trem em . As lágrim as se acum ulam em seus olhos – olhos que, com o as

folhas de acanto para Plínio[3], são “m acios e quase líquidos”. Sim ! Lágrim as se

acum ulam em seus olhos. E vej am ! O corpo dela vibra desde a alm a, e a estátua

ganhou vida! A palidez do sem blante de m árm ore, a intum escência do busto de

m árm ore, a pureza absoluta dos pés de m árm ore, de súbito tudo se tinge de um

rubor incontrolável; e um ligeiro arrepio estrem ece suas form as delicadas, com o

a suave brisa napolitana que toca os lírios prateados da relva.

Por que deveria corar aquela dam a? Para tal pergunta não há resposta – a

não ser que, tendo abandonado a privacidade de seu boudoir na pressa ansiosa e

aterrorizada de seu coração de m ãe, ela tivesse deixado de proteger seus

pezinhos com chinelos e tivesse esquecido com pletam ente de cobrir de form a

devida seus om bros venezianos. Que outra razão possível podia haver para que

ela corasse assim ? Para aquele olhar selvagem e atraente? Para o tum ulto

incom um do busto arfante? Para a com pressão convulsa da m ão que trem e, a

m ão que acidentalm ente caiu, enquanto Mentoni se dirigia para o palácio, sobre a

m ão do estranho? Que razão podia haver para o tom baixo – para o tom

singularm ente baixo daquelas palavras sem sentido que a dam a proferiu às

pressas ao lhe dar adeus?

– Conquistaste – ela disse ao estranho, ou então os m urm úrios da água m e

enganaram –, conquistaste... um a hora depois do nascer do sol... vam os nos

encontrar... Que assim sej a!

***

O tum ulto cessara, as luzes se apagaram no palácio e o estranho, que agora

eu reconhecia, estava só sobre as laj es. Ele trem ia num a com oção inconcebível,

e seus olhos procuravam por um a gôndola. O m ínim o que eu podia fazer era lhe

oferecer os serviços da m inha; ele aceitou a cortesia. Arranj am os um rem o na

entrada do palácio e seguim os j untos para sua casa, e ele rapidam ente

recuperava o dom ínio de si, falando, em term os afetuosos, de com o nos

conhecem os e convivem os um pouco no passado.

Existem assuntos sobre os quais m e dá prazer ser m inucioso. A figura do

nosso estranho – vou cham á-lo assim m esm o, ele era ainda um estranho no

m undo inteiro –, a figura do nosso estranho é um desses assuntos. Em altura, ele

devia ser antes m enor do que m aior que a m édia – se bem que em m om entos de

intensa paixão seu corpo se expandisse, desm entindo m inha avaliação. A sim etria

leve e quase m agra de seu talhe se prestava m ais àquela peripécia que ele

realizara na Ponte dos Suspiros do que à força hercúlea que, com o se sabia, ele

em pregava sem esforço em ocasiões de grande perigo e em ergência. Com a

boca e o queixo de um a divindade, com olhos indôm itos, plenos, líquidos, cuj as

som bras variavam do castanho puro ao azeviche intenso e brilhante, e com um a

profusão de cabelos negros e cacheados entre os quais surgia em intervalos o

m arfim lum inoso de um a testa de largura incom um , suas feições possuíam um a

harm onia clássica que só vi, talvez, nas feições de m árm ore do Im perador

Côm odo. Seu sem blante era, no entanto, daqueles que todos j á viram a certa

altura da vida, e nunca m ais voltaram a ver. Não havia nele nada de peculiar,

nenhum a expressão predom inante que se fixasse na lem brança; um sem blante

para ser visto e ao m esm o tem po esquecido – m as esquecido com um vago e

incessante desej o de vê-lo de novo na m em ória. Não que o espírito de cada

paixão fugaz falhasse, sem pre, em deixar sua im agem no espelho daquele rosto –

m as o espelho, sendo espelho, não retinha nenhum vestígio da paixão, quando a

paixão partia.

Quando o deixei, na noite de nossa aventura, ele m e pediu, de um m odo que

pareceu insistente, que o visitasse muito cedo na m anhã seguinte. Assim que

am anheceu, portanto, eu j á m e encontrava em seu palazzo, um a daquelas

enorm es estruturas de pom pa som bria m as fantástica que se elevam acim a das

águas do Grand Canal, nos arredores do Rialto. Fui acom panhado por um a am pla

escada em caracol, revestida de m osaicos, até um aposento cuj o esplendor

inigualável irrom pia pela porta aberta num a verdadeira explosão de luz, e fiquei

cego e tonto diante de sua suntuosidade.

Sabia que o m eu conhecido era abastado. Rum ores davam conta de suas

posses em relatos que cheguei a considerar ridículos e exagerados. Quando olhei

em volta, porém , não consegui crer que algum a riqueza pessoal, em toda a

Europa, pudesse suplantar a m agnificência principesca que fulgia e resplandecia

em torno de m im .

Em bora, com o afirm ei, o sol j á tivesse despontado, o quarto perm anecia

ilum inado e brilhante. Por essa circunstância, e pelo ar de exaustão que se via no

sem blante do m eu am igo, j ulguei que ele passara a noite toda em claro. Na

arquitetura e nos adornos do aposento, o propósito evidente era deslum brar e

assom brar. Na decoração, pouca atenção fora dedicada ao que cham am os

tecnicam ente de harmonia, ou às convenções da nacionalidade. O olhar pulava

de um obj eto para outro e não se detinha em nada – nem nos grotescos dos

pintores gregos, nem nos exem plares dos m elhores tem pos da escultura italiana,

nem nos enorm es entalhes do Egito inculto. Em todos os cantos, tapeçarias

opulentas trem iam na vibração de um a m úsica baixa e m elancólica que vinha

não se sabia de onde. Os sentidos eram invadidos por um a m istura confusa de

perfum es, que exalavam de estranhos incensórios retorcidos, j unto com m últiplas

línguas bruxuleantes de um fogo esm eralda e violeta. Os prim eiros raios do sol

afluíram para o quarto pelas j anelas, cada um a delas form ada por um a peça

inteiriça de vidro carm esim . Indo e vindo em m il reflexos, escapando de cortinas

que desciam de cornij as com o cataratas de prata derretida, esses feixes gloriosos

m esclavam -se aos poucos com a luz artificial e despej avam -se em cam adas

suaves sobre um luxuoso carpete de tecido chinês, aquoso, dourado.

– Ha, ha, ha! Ha, ha, ha! – riu o proprietário, oferecendo-m e um assento

quando entrei no quarto e j ogando-se de costas, ao com prido, sobre um a

otom ana. – Vej o – ele disse, percebendo que eu não conseguia m e adaptar de

pronto ao decoro de um a acolhida tão singular –, vej o que está espantado com

m eu quarto, com m inhas estátuas, com m eus quadros, com m inhas concepções

particulares em arquitetura e tapeçaria! Absolutam ente em briagado, hein, com

m inha m agnificência? Mas m e perdoe, m eu caro – aqui seu tom de voz baixou

até um verdadeiro espírito de cordialidade –, peço perdão pela risada inóspita. O

senhor parecia espantado ao extremo. Além disso, certas coisas são tão

com pletam ente ridículas que diante delas um hom em só pode rir, ou então

m orre. Morrer rindo, eis a m orte m ais gloriosa entre todas as m ortes gloriosas!

Sir Thom as More (que hom em distinto era Sir Thom as More), Sir Thom as More

m orreu rindo[4], o senhor lem bra? E nas Absurdidades de Ravisius Textor [5] há um a longa lista de personagens que tiveram o m esm o esplêndido fim . Mas o

senhor sabe – continuou, pensativo – que em Esparta (na atual cidade de

Palaiochora), em Esparta, a oeste da cidadela, num caos de ruínas indistintas, há

um a espécie de pedestal no qual ainda podem ser lidas as letras ΛΑΣΜ? Elas

sem dúvida fazem parte da palavra ΓΕΛΑΣΜΑ. [6] Ora, em Esparta existem m il

tem plos e santuários para m il divindades diferentes. É extrem am ente estranho

que o altar do Riso tenha sobrevivido a todos os outros! Mas no presente caso –

prosseguiu, com um a singular alteração na voz e nas m aneiras – não tenho direito

de m e divertir às suas custas. O senhor só poderia ficar desnorteado. A Europa

não é capaz de produzir algo tão refinado com o esse m eu gabinete real. Meus

outros aposentos nem se com param a isso, são apenas extravagantes, elegantes e

insípidos. Isso é m elhor do que a m oda, não? Esse recinto é um a volúpia para

quem o vê, isto é, ele se torna um obj eto de desej o para aqueles que só podem

tê-lo à custa de tudo que possuem . Eu m e precavi, contudo, contra qualquer

profanação. Com um a exceção, o senhor é o único ser hum ano, além de m im e

do m eu criado, que foi adm itido nos m istérios deste território im perial, desde que

ele foi ornam entado desta m aneira!

Eu m e curvei em gratidão – porque a sensação opressora de esplendor e

perfum e, e de m úsica, som ada à excentricidade de seu discurso e de suas

m aneiras, im pediu-m e de exprim ir em palavras o que eu deveria ter elaborado

com o saudação.

– Aqui – ele prosseguiu, levantando-se, pegando-m e pelo braço e passeando

pelo aposento –, aqui estão pinturas que vão dos gregos até Cim baue, e de

Cim baue até a atualidade. Muitas são escolhidas, com o o senhor vê, sem m uito

respeito ao bom -tom e às belas-artes. São todas, no entanto, decorações

apropriadas para paredes com o estas. E aqui tem os chefs-d’oeuvre dos grandes

artistas desconhecidos; aqui, obras inacabadas de hom ens cuj os nom es,

celebrados no passado, as academ ias relegaram ao esquecim ento e a m im . O

que o senhor acha – disse ele, virando-se abruptam ente enquanto falava –, o que

o senhor acha desta Madonna della Pietà?

– A Madonna de Guido! [7] – exclam ei, com todo o entusiasm o de m inha

alm a, pois eu j á tinha os olhos tragados por seus encantos insuperáveis. – A

Madonna de Guido! Com o o senhor pôde obtê-la? Ela é para a pintura o que a

Vênus é para a escultura, sem dúvida.

– Ha! – exclam ou ele, pensativo –, a Vênus, a bela Vênus? A Vênus dos

Médici? A da cabeça dim inuta e do cabelo dourado? Parte do braço esquerdo –

aqui sua voz ficou baixa, quase inaudível – e todo o direito são restaurações; e na

coqueteria daquele braço direito reside, creio, a quintessência da afetação. Quero

a Vênus de Canova! [8] O Apolo tam bém é um a cópia, não pode haver dúvida...

Cego que sou, não consigo ver a inspiração ostensiva do Apolo! Não consigo

evitar, peço piedade, m as não consigo evitar... Prefiro o Antínoo. Não foi

Sócrates quem disse que o escultor encontrou sua estátua dentro do bloco de

m árm ore? Então Michelangelo não foi nada original em seu dístico: “Non ha

l’ottim o artista alcun concetto/ Che un m arm o solo in se non circunscriva”. [9]

Alguém j á afirm ou, ou deveria ter afirm ado, que na conduta do verdadeiro

cavalheiro nós podem os sem pre identificar um a diferença em relação ao

com portam ento do hom em vulgar, sem que possam os determ inar com precisão

no que consiste essa diferença. Adm itindo que a afirm ação se aplicasse do m odo

m ais pertinente à conduta exterior do m eu interlocutor, senti, naquela acidentada

m anhã, que ela se aplicava ainda m ais ao seu tem peram ento m oral e ao seu

caráter. Não posso definir bem a peculiaridade de espírito que parecia colocá-lo

tão com pletam ente à parte de todos os outros seres hum anos, posso apenas

atribuí-la a um hábito de reflexão intensa e continuada que perm eava até m esm o

suas ações m ais triviais, invadindo seus m om entos de folgança e se em aranhando

em seus rom pantes de alegria – com o as serpentes que saltam dos olhos de

m áscaras sorridentes, nas cornij as dos tem plos de Persépolis.

Contudo, não pude deixar de observar, m ais de um a vez, no tom ao m esm o

tem po leviano e solene com que ele discorreu, em com entários breves sobre

assuntos de pouca im portância, algo com o um a trepidação, um a certa unção

nervosa na atitude e na fala, um a excitabilidade inquieta, um ar que m e parecia

de todo inexplicável e que, em alguns m om entos, chegava a m e alarm ar. Com

frequência ele parava no m eio de um a frase cuj o com eço esquecera e parecia

ficar escutando algo com a m ais profunda atenção, com o que esperando a

chegada repentina de um visitante ou ouvindo sons que só existiam na sua

im aginação.

Foi durante um desses devaneios ou intervalos de aparente abstração que,

virando um a página da bela tragédia Orfeu, do poeta e estudioso Poliziano[10], a

prim eira tragédia italiana nativa – o livro estava sobre um a otom ana ao m eu lado

– descobri um a passagem sublinhada a lápis. Era um a passagem do fim do

terceiro ato, um a passagem da em oção m ais enlevada, um a passagem que,

em bora m anchada de im pureza, hom em nenhum lerá sem um frêm ito inaudito,

m ulher nenhum a lerá sem um suspiro. A página inteira estava borrada com

lágrim as frescas e, num a entrefolha ao lado, liam -se os seguintes versos, escritos

em inglês – e num a caligrafia tão diferente da peculiar letra do m eu am igo que

tive algum a dificuldade em reconhecer que eram dele:

Foste tudo pra m im , am or,

O todo em m inha alm a –

Ilha verde no m ar, am or,

A fonte que acalm a,

As cores na grinalda, em flor;

A fruta em m inha palm a.

Ah, o sonho e a prom essa!

Ah, a estrela que indicava

E m orre, agora, à pressa!

A voz além cham ava,

O findo não interessa;

Mas finda a alm a estava,

Muda – parada – opressa!

Não vej o nada em m im ,

A vida se apagou.

“Acabou – acabou – acabou”

(O m ar se expressa assim

Às areias que tocou).

Refloresça a planta abatida no j ardim ,

Renasça a águia que tom bou!

Meus sensos j á deliram ;

E as horas de aflição

No escuro transe giram ,

Teus passos buscarão.

Na Itália as som bras viram

Enleio, dança, clarão.

Ah!, passado atroz,

De m im foste roubada;

Do Am or, o fim , e após

A nobreza suj a, o nada!

Em m im só resta a voz

Que trovej a atorm entada!

Que estes versos tenham sido escritos em inglês – não sabia que o autor tinha

fam iliaridade com essa língua – não chegou a ser grande surpresa. Eu tinha

perfeita noção do alcance de seus conhecim entos e do prazer inusitado com que

ele escondia sua erudição, de m odo que a descoberta não m e causou espanto;

m as a indicação de local, na datação do texto, foi para m im , devo confessar, um

assom bro. Onde originalm ente fora escrito Londres, havia um rabiscado forte –

insuficiente, contudo, para ocultar a palavra, num olhar atento. Com o eu disse, foi

um a descoberta assom brosa, pois lem bro bem que, em um a conversa anterior

com m eu am igo, perguntei especificam ente se ele em algum m om ento

conhecera em Londres a Marchesa di Mentoni (que por alguns anos, antes do

casam ento, residira na cidade), e sua resposta, se não estou enganado, deu a

entender que ele nunca visitara a m etrópole da Grã-Bretanha. Posso acrescentar

aqui, tam bém , que em m ais de um a ocasião ouvi (sem , é claro, dar crédito a

um a inform ação que envolvia tantas im probabilidades) que ele, o estranho de

quem venho falando, não apenas nascera na Inglaterra com o recebera educação

britânica.

***

– Há um a pintura – ele falou, sem perceber que eu tom ara conhecim ento da

tragédia –, ainda há um a pintura que o senhor não viu – e, rem ovendo um a

cortina, descobriu um retrato de corpo inteiro da Marquesa Afrodite.

Era o m áxim o que a arte podia alcançar na representação daquela beleza

sobre-hum ana. A figura etérea que eu vira na noite precedente nas escadas do

Palácio Ducal estava diante de m im outra vez. Mas na expressão do sem blante,

todo lum inoso em sorrisos, ainda espreitava (que anom alia incom preensível!)

aquela m ancha vacilante de m elancolia que sem pre será inseparável da beleza

perfeita. Seu braço esquerdo estava dobrado sobre o busto. O esquerdo apontava

para baixo, para um j arro de estilo curioso. Um pezinho de fada, o único visível,

m al tocava o chão, e, quase indistinto na atm osfera brilhante que parecia cingir e

sagrar sua form osura, flutuava um par de asas, as m ais delicadas que se

pudessem conceber. Meu olhar se voltou da pintura para a pessoa do m eu am igo,

e as palavras vigorosas do Bussy D’Ambois, de Chapm an, [11] vibraram , com o

que por instinto, em m eus lábios:

“Ereto ele está

Com o estátua rom ana! Assim ficará

Até que a Morte o transform e em m árm ore!”

– Venha – ele disse por fim , voltando-se para um a m esa de prata m aciça,

esm altada com requinte, sobre a qual se viam cálices de coloração fabulosa,

j unto a dois grandes j arros etruscos, m odelados no estilo extraordinário do

exem plar do prim eiro plano da pintura, que continham , supus, vinho

Johannisberger. – Venha – falou, abruptam ente –, bebam os! É cedo, m as

bebam os. De fato ainda é cedo – continuou, pensativo, e um querubim , com um

pesado m artelo dourado, fez o aposento ressoar na prim eira hora batida desde o

nascer do sol. – De fato ainda é cedo... Mas pouco im porta, bebam os! Sirvam os

um a oferenda ao sol solene, que estas cham as e lâm padas espalhafatosas

querem tanto subj ugar!

Brindam os com cálices transbordantes, e ele engoliu, em rápida sucessão,

diversas taças do vinho.

– Sonhar – continuou, retom ando seu discurso despropositado e erguendo um

dos m agníficos j arros, à luz suntuosa de um incensório –, sonhar tem sido o ofício

da m inha vida. Construí para m im , com o o senhor vê, um caram anchão de

sonhos. Poderia ter construído algo m elhor, no coração de Veneza? O senhor

contem pla a seu redor, é verdade, um a barafunda de adornos arquitetônicos. A

castidade j ônica é ofendida por padrões antediluvianos, e as esfinges egípcias se

estendem sobre tapetes dourados. Mas o efeito só é incongruente para um a

m ente acanhada. As convenções de estilo, no que diz respeito a origem e

especialm ente a tem po, são m onstros que fazem a hum anidade fugir, assustada,

da contem plação do sublim e. Eu m esm o j á fui um adepto do decoro; m as esta

sublim ação da insensatez entediou m inha alm a. Tudo isto, agora, é m ais

adequado ao m eu propósito. Com o estes incensórios cheios de arabescos, m eu

espírito se retorce em cham as, e o delírio do cenário m e predispõe para as visões

alucinantes da terra dos sonhos reais, para a qual estou partindo, agora, rápido.

Aqui ele fez um a pausa abrupta, inclinou a cabeça até o peito e pareceu

escutar um som que eu não ouvia. Por fim ergueu a cabeça, olhou para cim a e

proferiu os versos do bispo de Chichester:

“Espera por m im ! Não deixarei

De te encontrar no vale profundo.”

Logo depois, acusando o poder do vinho, j ogou-se ao com prido num a

otom ana.

Passos rápidos soaram na escadaria, e logo a seguir houve um a forte batida

na porta. Corri para tratar de im pedir que a perturbação prosseguisse quando um

paj em da casa de Mentoni irrom peu pelo quarto e gaguej ou, num a voz sufocada

pela em oção, estas palavras incoerentes:

– A m inha senhora! A m inha senhora! Envenenada! Envenenada! Ah, a

linda... A linda Afrodite!

Desnorteado, voei até a otom ana e tentei acordar o adorm ecido para a

realidade chocante. Mas seus m em bros estavam rígidos – os lábios estavam

lívidos – os olhos que pouco antes brilhavam estavam fechados pela morte.

Recuei cam baleando até a m esa – m inha m ão caiu sobre um a taça quebrada e

enegrecida – e a consciência da verdade acabada e terrível explodiu na m inha

alm a.

[1] Poeta e bispo inglês (1592-1669). (N.T.)

[2] Personagem da m itologia grega que chora eternam ente por seus filhos

assassinados. (N.T.)

[3] O escritor rom ano Plínio, o Moço (62-113). (N.T.)

[4] More (1478-1535), o filósofo hum anista inglês, foi decapitado a m ando de

Henrique VIII. (N.T.)

[5] Joannes Ravisius Textor (c.1480-1524), hum anista francês. (N.T.)

[6] “GELASMA”: riso. (N.T.)

[7] Pintor italiano (1575-1642). (N.T.)

[8] Escultor italiano (1757-1822). (N.T.)

[9] “O m elhor artista não conceberá nada/ Que um bloco de m árm ore j á não

contenha em si.” (N.T.)

[10] O renascentista italiano Angiolo Poliziano (1454-1494). (N.T.)

[11] Peça do poeta e dram aturgo inglês George Chapm an (1559-1634). (N.T.)

MORELLA

Αυτο χαθ΄ αυτο μεθ΄ αυτου, μουο ειδες αιει ου.

Em si, só consigo, para sempre uno e único.

Platão – O banquete

Com um sentim ento de intensa afeição, de um tipo m uito singular, eu olhava para

m inha am iga Morella. Fui introduzido por acidente em seu m eio m uitos anos

atrás, e m inha alm a, desde que nos vim os pela prim eira vez, ardeu num fogo que

eu não conhecia; m as não era o fogo de Eros, e a convicção gradual de que eu

não podia de m aneira nenhum a definir que fogo incom um era esse, ou regular

sua intensidade oscilante, era um torm ento am argo para o m eu espírito. Mas nos

conhecem os; e o destino nos uniu no altar; e j am ais falei de paixão ou pensei em

am or. Ela, no entanto, afastou-se da sociedade e, apegando-se a seu m arido e a

ninguém m ais, fez de m im um hom em feliz. Era um a felicidade m aravilhosa –

era um a felicidade de sonho.

A erudição de Morella era im ensa. Eu queria e quero viver com o ela – seus

talentos eram extraordinários, o poder de sua m ente era inesgotável. Isso m e

im pressionava e, em m uitos assuntos, tornei-m e seu pupilo. No entanto, logo

descobri que, talvez em função da educação que recebera em Presburgo[1], ela

m e apresentava em bom núm ero aqueles escritos m ísticos que costum am ser

considerados m ero refugo da literatura prim itiva alem ã. Tais textos, por razões

que eu não conseguia entender, eram seu estudo favorito e constante – e o fato de

que eles tenham com o tem po se tornado obj eto de estudo tam bém para m im só

pode ser explicado pela influência sim ples m as efetiva do hábito e do exem plo.

Em tudo isso, se não estou enganado, m inha razão estava pouco envolvida.

Minhas convicções, pelo que posso lem brar, não foram afetadas de nenhum a

m aneira pelo ideal, e, posso afirm ar, nenhum traço do m isticism o sobre o qual eu

lia se refletia em m eus atos ou pensam entos. Persuadido disso, aceitei a

orientação da m inha esposa, num a suj eição tácita, e m e entreguei com toda a

alm a às com plexidades de seus estudos. E então – então, quando, tragado por

páginas proibidas, eu sentia um espírito proibido incendiando-se dentro de m im –

Morella colocava sua m ão fria sobre a m inha e evocava das cinzas de um a

filosofia m orta algum as palavras extravagantes, sussurradas, de significado

estranho, que ficavam m arcadas com fogo em m inha m em ória. E então, hora

após hora, eu m e deixava ficar a seu lado, perdendo-m e na m úsica de sua voz,

até que, por fim , a m elodia era m aculada pelo terror – e um a som bra cobria