Escrita e experiência na obra de Júlia Lopes de Almeida (1862-1934) por Jussara Parada Amed - Versão HTML

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FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA SOCIAL

JUSSARA PARADA AMED

“Escrita e experiência na obra de Júlia Lopes de Almeida (1862-1934)”

SÃO PAULO

2010

2

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA SOCIAL

“Escrita e experiência na obra de Júlia Lopes de Almeida (1862-1934)”

Jussara Parada Amed

Tese apresentada ao Programa de Pós-

Graduação em História Social do

Departamento de História da Faculdade

de Filosofia, Letras e Ciências Humanas

da Universidade de São Paulo, para a

obtenção do título de Doutor em

História.

Orientador: Prof. Dr. Elias Thomé Saliba

São Paulo

2010

3

Folha de Aprovação

Jussara Parada Amed

“Escrita e experiência na obra de Júlia Lopes de Almeida (1862-1934)”

Tese apresentada à Faculdade de

Filosofia,

Letras

e

Ciências

Humanas da Universidade de São

Paulo para a obtenção do título de

Doutor.

Área de concentração: História

Social

Aprovado em:

Banca Examinadora

Prof. Dr. _______________________________________________________________

Instituição: _________________________ Assinatura: __________________________

Prof. Dr. _______________________________________________________________

Instituição: _________________________ Assinatura: __________________________

Prof. Dr. _______________________________________________________________

Instituição: _________________________ Assinatura: __________________________

Prof. Dr. _______________________________________________________________

Instituição: _________________________ Assinatura: __________________________

Prof. Dr. _______________________________________________________________

Instituição: _________________________ Assinatura: __________________________

4

Para Fernando, Júlia e Laura.

Antonieta e Carlos

5

Agradecimentos:

Inicio com muitas dívidas afetivas à Antonieta e Carlos Parada, que sempre inspiraram

o conhecimento em minha vida. Aos queridos amigos de tantas caminhadas e conversas

instigantes, Danit, Luiz Felipe Pondé. Sempre atentos aos meus humores e solidários no

carinho, Ana Patitucci, Pitxo Falconi.

Fico grata pelas sugestões valiosas e acompanhamento de minha pesquisa, à. Samira

Osman, Camilo Vasconcellos, Mariana Villaça, Marcos Napolitano (Xico). Aos amigos

do dia-a-dia, Cláudio Aguiar e Ival Assis, sempre com palavras de incentivo e estímulo.

Cynthia e Sergio Parada; Marta e Júnior, agradeço o carinho e acolhimento ao longo

destes anos.

Os professores, José Geraldo Vince de Moraes e Paula Ester Janovitch, quando de

minha qualificação. Nicolau Sevcenko, em transmitir com tanto entusiasmo o que

conhece.

Elias Thomé Saliba, pela generosidade, paciência, conhecimento e humor.

Fernando, sempre ao meu lado, afetivo e querido. Júlia, que curiosa, cresceu ouvindo

minhas leituras e Laura, que tenho tantas promessas pendentes, soube compreender

minhas ausências.

O Departamento de História da FFLCH e a Universidade de São Paulo. O CNPq e a

Capes.

6

Resumo:

Júlia Lopes de Almeida (1862-1934) foi autora de romances, contos e crônicas, tendo

obtido uma inserção privilegiada no meio intelectual brasileiro, especialmente nas

primeiras décadas do século XX, o que pode ser avaliado tanto pelas constantes

reedições de suas obras bem como pela adoção de títulos que vieram a figurar como

livros de leitura para o ensino básico.

Receptiva aos pensamentos positivistas e científicos de sua época, Júlia acreditou que a

República moveria o Brasil para o progresso. No entanto, em um curto espaço de

tempo, suas obras de linguagem naturalista, indicavam a falência precoce de suas

expectativas políticas. Mesmo assim, Júlia continuou suas investidas junto ao seu

principal publico leitor: as mulheres e as crianças.

Nesse trabalho, pretendemos lançar luz aos aspectos remetidos à recepção que a obra de

Júlia Lopes teve quando de sua publicação. Nesse sentido, levamos em consideração o

exame da abordagem constituída pela autora e das suas expectativas nutridas

expressamente em relação às mulheres e as crianças.

Palavras-chave: Júlia Lopes de Almeida (1862-1934); sociabilidade intelectual; mulheres

escritoras; obras infantis; recepção; literatura brasileira.

7

Abstract:

Júlia Lopes de Almeida (1862-1934) was the author of novels, short stories and essays,

and obtained an insert inside the Brazilian intellectual environment, especially in the

early decades of the twentieth century, which can be measured both by the constant

reissues of his works as well as the adoption of titles that came to figure as textbooks for

basic education.

Receptive to the positivist and the scientific thoughts of his days, Júlia believed that the

Republic would move Brazil to progress. However, in a short time, his works of natural

language, pointing to the early failure of their political expectations. Even then, Júlia

has continued its attacks with your main readership: women and children.

In this work, we intend to shed light on aspects referred to the reception that the work of

Júlia Lopes had when it was published. Accordingly, we consider the examination of

the approach made by the author and their expectations nurtured explicitly in relation to

women and children.

Keywords: Júlia Lopes de Almeida (1862-1934); Intellectual sociability; women

writers; books for children; reception; Brazilian literature

8

Sumário:

Introdução……….……………………………………………………………9

1- Um país a ser transformado: as fontes de Júlia Lopes de Almeida.................. 31

2- Um novo ambiente para as mulheres: descobrir-se escritora no Brasil.............71

3- A atualização da obra: personagens e lugares em Júlia Lopes de Almeida....108

4- Novos perfis para crianças e mulheres nas obras de Júlia...............................167

5- Considerações finais........................................................................................206

6- Bibliografia......................................................................................................215

9

10

Introdução

“Era capaz de passar a vida lendo, mas uma dona de

casa não pode perder tanto tempo. E até fico nervosa

quando vejo livros por abrir. Seria tão agradável

gastar a existência lendo!... Quem entretanto cuidaria

1

dos filhos, dos arranjos da casa?”

Com o propósito de sondar-los e saber o que eles pensavam acerca do jornalismo,

conhecer as obras que influenciaram suas escritas, quais livros mais gostaram de

escrever, Paulo Barreto, mais conhecido como João do Rio, entrevistou Júlia Lopes de

Almeida (1862 – 1934) para O momento literário.

Nos primeiros anos do século XX, a escritora morava no bairro de Santa Tereza

na cidade do Rio de Janeiro. A essa altura, casada com o poeta Francisco Filinto de

Almeida, tinha quatro filhos e era autora de doze obras publicadas. Transparecendo ser

um momento descontraído e acolhedor, João do Rio também procurou saber da

romancista, quando começou a escrever, como escrevia e conciliava sua vida de

escritora com as tarefas de casa.

Primeiramente Júlia revelou que, quando jovem, escrevia sentindo um grande

prazer, mas fazia-o às escondidas: trancava-se em seu quarto, abria a escrivaninha e

criava o seu mundo à parte. Quando descoberta por sua irmã caçula e denunciada para

seu pai, Júlia temeu por seu futuro, ao ver a folha nas mãos deste,

“A folha branca crescia nas suas mãos, tomava proporções gigantescas, as

2

proporções de um grande muro onde na minha vida acabara a alegria...”

1 Júlia Lopes de Almeida em entrevista com João do Rio. O Momento literário, p.31

2 João do Rio. O Momento literário, p. 28.

11

Passado o constrangimento, com apoio do próprio pai, o Dr. Valentim José da

Silveira Lopes (1830-1915), Júlia passou a escrever para jornais, depois revistas e, por

fim, criou livros. Gostava de escrever. No entanto por que teve tanto receio de ser

descoberta? Na casa paterna, existia o incentivo à leitura; salões eram realizados com a

presença de poetas, escritores, músicos; era, portanto, um meio receptivo ao

conhecimento. Mesmo assim, a escritora justificava que não era comum às mulheres

escrever. Ler, recitar poesia e tocar piano significava mostrar seus dotes para a

sociedade; valorizava-se também demonstrar delicadeza e sensibilidade pelo

conhecimento.

Mas para a entrevistada, em sua juventude, escrever era um muro a ser transposto.

Mantendo ao longo de sua vida, afinidade pela escrita, Júlia Lopes de Almeida (1862-

1934) foi uma escritora reconhecida pelos seus romances e contos na virada do século

XIX para o século XX, tendo a oportunidade de colaborar para diferentes jornais e

revistas, publicando-os nas cidades do Rio de Janeiro, Campinas e São Paulo.

De saúde frágil, a romancista não freqüentou escola regularmente apesar de seu

pai ser proprietário e professor do Colégio Humanitas, estabelecimento voltado para

meninas, nas proximidades de sua casa. Nessas condições, Júlia aprendeu a ler em casa

com sua irmã mais velha, Adelina, teve professores particulares de francês e inglês,

aprendeu música com sua mãe e recebeu orientações literárias de seu pai.

Era comum para certas famílias com alguma renda, ter os filhos educados em casa

pelos irmãos mais velhos, pais ou tutores. De origem portuguesa, o pai, Valentim José

da Silveira Lopes, era casado com Antônia Adelina Pereira e, antes de viverem no

Brasil, ambos haviam passado por experiências educacionais em seu país de origem, o

que conferiu, ao casal, maior facilidade para alfabetizar e orientar os estudos de seus

filhos.

12

Enquanto parte da família Silveira residia no Rio Janeiro, na metade do século

XIX – D. Antônia, seu filho mais velho e Adelina – Valentim Silveira Lopes realizou

estudos em medicina na Alemanha. Em seu regresso, após o nascimento de Júlia,

Valentim, de convicções liberais e republicanas, trocou a capital, pela cidade de

Campinas, para onde se transferiu com a família, quando tinha sete anos de idade em

1869.

Acolhida pela sociedade campineira e, desde que partilhando das mesmas idéias

políticas, a família Silveira Lopes oferecia sua residência para a realização de salões

artísticos e literários, inclusive colaborando com artigos nos jornais da cidade.

Doze anos mais velha que Júlia, Adelina Silveira Lopes quando, se casou, passou

a residir no Rio de Janeiro, criando assim um difuso circuito de sociabilidade junto ao

meio intelectual. Também escritora, conhecia o diretor da revista literária A Semana,

Valentin Magalhães. Este apresentou a Júlia, em 1885, aquele que seria seu futuro

marido, Filinto de Almeida.

Em 1886, a família Silveira Lopes fez sua primeira viagem a Portugal. Ainda

solteira, mas enamorada de Filinto, Júlia partiu com sua família para a Europa lá

publicando, às suas expensas, seu primeiro livro de contos: Traços e Iluminuras.

Enquanto viabilizava a publicação de seu livro de contos, colaborava em diversos

jornais e almanaques tanto no Brasil como em Portugal. De grande intensidade na

escrita, Júlia preparava seu primeiro romance, uma obra que continha muito de sua

própria biografia e convicções ideológicas: Memórias de Marta.

Encerrado o ano de 1887, Filinto e Júlia casaram-se em Portugal e, em 1888,

retornaram ao Brasil. Fixando moradia no Rio de Janeiro e assinando com o sobrenome

de casada, Júlia Lopes de Almeida publicou seu romance em folhetim e posteriormente

em livro no ano de 1889 pela Casa Durski Editora, localizada em Sorocaba.

13

Memórias de Marta foi um romance que revelava características do realismo

naturalista. Já apontava para a importância que atribuía à educação escolar como meio

de transformação individual e social. Nossa autora entendia que a miséria social era

degradante para o ser humano e, pelo trabalho e educação, se combateria a degeneração

moral da sociedade recuperando assim alguma dignidade.

Em nota manuscrita referente ao romance, a própria autora relacionava cenas e

personagens com a realidade vivida por ela:

“A adjunta Marta não será por ventura a mesma pobre D. Marta que ajudou

minha irmã Adelina a ensinar-me as primeiras letras? Creio bem que sim. As cenas

brutas do livro, o pequeno alcoólico foram pressentidas através do muro que dividia o

meu colégio de um movimentado cortiço de São Cristóvão. Aquele ambiente inspirou

3

minha sensibilidade de menina [...]”.

Grande parte de sua obra se alimentava de sua própria experiência passada ou foi

inspirada pelo momento que vivia. É o caso de Memórias de Marta, dos romances

Família Medeiros (1892, data de publicação em jornal) ou A Falência (1901). Escritos

em períodos distintos – da Abolição e do Encilhamento respectivamente - abordavam

tais questões. Júlia ajustava seu trabalho como escritora ao seu cotidiano nos cuidados

da casa e educação dos filhos, marcando com essas características a lembrança de seus

amigos mais próximos.

Quando solteira e orientada por seu pai na literatura portuguesa, Júlia apreciava a

leitura de Camilo Castelo Branco, Júlio Diniz, Alexandre Herculano, Eça de Queiros,

sendo este último escritor um marco para a autora, inclusive pela estrutura das

narrativas e estilo dos romances e contos. Júlia desbravava o seu presente observando

diferentes planos de sua sociedade. Ainda ligada à produção literária portuguesa, a

3 Júlia Lopes de Almeida . Memórias de Marta, p.14.

14

escritora utilizou em suas primeiras obras a linguagem lusitana, tendo posteriormente se

desprendido dela.

Quanto à recepção de Júlia com os leitores de sua época, assim se expressou a

crítica literária Lúcia Miguel Pereira, conhecida síntese da literatura da belle-époque

brasileira:

[...] “figura entre as mulheres escritoras de sua época, não só pela extensão da

obra, pela continuidade do esforço, pela longa vida literária de mais de quarenta anos,

como pelo êxito que conseguiu, com os críticos e com o público” .4

Quando poucas mulheres tinham a oportunidade de escrever e falar ao público o

que pensavam, enfrentavam dificuldades de penetrar numa área literária

majoritariamente ocupada por homens e relativamente permeada por difusa misoginia,

Júlia publicou o seu primeiro artigo na Gazeta de Campinas, com 19 anos, marcando

assim o início de sua carreira como escritora.

Mesmo sendo restrito o público de leitores em sua época, foi autora de numerosos

romances: Memórias de Marta, 1889; A família Medeiros, 1919; A viúva Simões, 1897;

A falência, 1901; A intrusa, 1908; Cruel amor, 1911; Correio da roça, 1913; A casa verde, 1932; A Silveirinha, 1914. Escreveu contos: Contos infantis, 1886; Traços e

iluminuras, 1887, Ânsia eterna, 1903; Histórias da nossa terra, 1907; Era uma vez,

1917; A isca – quatro novelas – 1922. Júlia ainda deixou crônicas publicadas como:

Livro das noivas, 1896; Livro das donas e donzelas, 1905; Eles e elas, 1910, livro sobre

jardinagem: Jardim florido, 1922; peças de teatro, realizando ainda, traduções de contos

e confer

5

ências.

Ainda de acordo com Lúcia Miguel Pereira,

4 Lúcia Miguel Pereira. História da literatura brasileira. Prosa de Ficção,1870-1920, p.270.

5 Afrânio Coutinho. Enciclopédia da literatura brasileira; e Júlia Lopes de Almeida. Memórias de

Marta. Atualização dos textos, introdução, cronologia e notas de Rosane Saint-Denis Salomoni.

15

[...] “todos os livros foram elogiados e reeditados, vários traduzidos, sendo que

se consumiu em três meses a primeira tiragem de Família Medeiros de 1892” .6

O inglês Laurence Hallewell, noutra síntese histórica sobre o livro brasileiro e seu

processo editorial, realçou a produção de Júlia Lopes de Almeida, enfatizando a

intensidade de reedições de alguns de seus títulos:

“Seus Contos infantis (1886) e Viúva Simões (1897) foram ambos publicados em

Lisboa. A Garnier publicou Ânsia eterna, em 1903; a Intrusa (1908), Eles e elas

(1910) e Correio da roça (1913) saíram pela Alves, que continuou a reeditar suas obras

anteriores até a terceira edição de Amor cruel, em 1928, apesar de Leite Ribeiro ter

publicado a Isca, de 1922. Na década de trinta, ela foi editada pela Cia. Editora

Nacional e A Casa verde em 1932” .7

Ainda, segundo o mesmo autor, em comparação com outros escritores que se

distinguiam pela oferta mais volumosa de obras, a escritora também se destacava como

a única entre Coelho Neto e Afrânio Peixoto a “conseguir algum êxito continuado” .8

Já a historiadora Maria de Lourdes Eleutério, em obra recente, Vidas de

Romance, passou em revista a produção de mulheres escritoras no final do século XIX

até a década de 30 do século XX. Além de pontuar a extensão das obras de Júlia Lopes,

Eleutério reforçou o fato de ser incomum escritoras possuírem obras reeditadas tantas

vezes. Destacamos a ênfase que a historiadora deu para a literatura infantil produzida

por Júlia Lopes:

“Contos infantis, escrito em conjunto com sua irmã Adelina, foi publicado em

1886 e chegou a ter três edições sucessivas, cada qual com 5.000 exemplares,

6 Lúcia Miguel Pereira. Op. Cit. , p. 270.

7 Laurence Hallewell. O Livro no Brasil, p. 221.

8 Laurence Hallewell. Op. Cit., p. 235.

16

perfazendo ao longo dos anos 17 edições, foram aprovadas pela Instrução Pública da

capital da República e em vários estados” .9

Apesar da dificuldade e da ausência de fontes, uma de nossas hipóteses é a de que

vários fatores convergiram para a aceitação e penetração das obras da escritora Júlia

Lopes. Além de ser mulher, utilizava-se de recursos lingüísticos simples e diretos ao

abordar temas comuns e cotidianos em seus romances, bem como apresentava uma

grande variedade de temas para diferentes faixas etárias. A autora escrevia desde contos

infantis para crianças em fase escolar, como romances intrincados, com dilemas

amorosos e ruínas familiares, passando por discussões da política e rumos republicanos.

Para as noivas, dava aconselhamentos sobre a maternidade, cuidados com a economia

doméstica, produzindo desde livros que forneciam rudimentos para organização de uma

horta ou jardim a temas mais complexos como o aproveitamento das terras, utilização

de técnicas modernas para melhor rendimento do solo neste caso, sempre para um

público feminino adulto.

Como apontamos brevemente, a escritora foi bastante lida em sua época, mesmo

com o reduzido número de alfabetizados. Possivelmente um dos recursos que a escritora

tinha ao seu alcance era a constatação da reedição de seus livros, dado fundamental para

Júlia ponderar acerca dos temas que mais atraiam o seu leitor. Segundo ela própria,

havia necessidade de preencher vazios editoriais. Suspeitamos também que, o fato de a

escritora ser casada com Filinto de Almeida – sócio-proprietário do jornal A Semana e

membro da Academia Brasileira de Letras – e ter amizade próxima com o editor

Francisco Alves e Afrânio Peixoto, então diretor do Jornal do Comércio, e ainda

conviver com intelectuais reconhecidos, inseridos nos mesmos meios, permitiram que

ela tivesse maior sensibilidade ao difuso universo do leitor e do livro. Júlia amealhou,

9 Maria de Lourdes Eleutério. Vidas de romances. As mulheres e o exercício de ler e escrever no

entresséculos, 1890-1930, p.74.

17

em seu convívio, pessoas que lidavam continuamente com o mercado editorial,

propiciando a ela uma reflexão mais acurada das dimensões e dilemas desse meio e

mercado.

Outro aspecto de destaque para a análise das obras de Júlia Lopes relaciona-se à

produção feminina na escrita. Constatou-se, na ampla literatura especializada, uma farta

e significativa produção contemporânea voltada para obras de gênero que dissertam

acerca da importância da presença deste segmento literário do início do século.

Maria de Lourdes Eleutério, embora já citada, procurou resgatar a produção

literária de mulheres entre os séculos XIX e XX, concentrando-se na literatura de

gênero. A historiadora tentou demonstrar a crescente produção feminina, mas indicou,

em contrapartida, as dificuldades desse segmento em conseguir publicar seus primeiros

poemas, romances, contos em jornais ou até mesmo receber um convite para realizar

conferências. Daí as escritoras criarem pequenos artifícios, como encontros com

editores de livros ou jornais em salões ou ainda distribuição de presentes com sua obra

no formato de um livro, com dedicat

10

ória. Tal prática indicava que, mesmo com a

expansão de algumas cidades, as mulheres tinham dificuldade de acesso aos locais

públicos de sociabilidade intelectual. Assim era necessário por vezes recorrer a suas

teias de amizades, prestígio de parentes, provavelmente com a intenção de maior

aproximação e apresentação a este circuito hermético.

J. Needell, ao analisar a relevância da sociabilidade privada nos salões do Rio de

Janeiro, menciona que Júlia Lopes, já casada com Filinto de Almeida, organizava salões

em sua residência no morro de Santa Teresa. Em seu salão, contava-se com a presença

10 Maria de Lourdes Eleutério. Op. Cit., p.78.

18

freqüente dos pintores Antonio Parreiras e Amoedo, dos poetas, editores e escritores

como: Olavo Bilac, Afrânio Peixoto, Coelho Neto entre outros.11

Norma Telles, também preocupada com o resgate das trajetórias de escritoras no

mesmo período, investigou o esforço que as escritoras fizeram para romper com os

estereótipos e silêncios impostos às mulheres. Pela sua perspectiva,

“a construção de gênero é ao mesmo tempo o resultado de um processo de

representação e de auto representação. Trata-se, então, não só de descobrir o passado,

12

mas de encontrar uma nova forma de se relacionar com ele”.

Leonora de Lucca13, em ser artigo Feminismo e Iluminismo em Júlia Lopes de

Almeida, realizou um levantamento bibliográfico na área literária. Entendemos que sua

pesquisa colaborou principalmente para uma maior compreensão biográfica de Júlia. A

escritora Júlia entendia que a modernidade compulsoriamente atingia a estrutura

familiar, atingindo em especial as mulheres, reordenando suas dinâmicas familiares,

redefinindo seus espaços e papeis para a sociedade brasileira como um todo.

Esta tese procura analisar como Júlia refletia sobre sua época em seus romances,

crônicas e contos. Num período, em que ainda poucos liam no Brasil, e a educação

feminina não estimulava a leitura, grande parte daqueles que escreviam eram homens.

Com a nova dinâmica econômica, as populações urbanas cresciam e novas ofertas de

trabalho eram atraentes para brasileiros e estrangeiros. Quanto às mulheres, estas

também se sentiam atraídas e compelidas pelo novo mercado de trabalho. Percebendo as

mudanças no comportamento cultural, mesmo com dificuldades, algumas mulheres

buscavam inserir-se no campo das letras.

11 Jeffrey D. Needell. Belle Èpoque Tropical, p.159.

12 Norma Telles. Fragmentos de um mosaico, Estudos feministas,agosto/dezembro. 2005.

13 Leonora de Lucca. In; Ciência & Trópico. Vol.25.n 2 jul/dez, 1997.

19

Entendemos que a recuperação das obras de Júlia nos permitiu um maior

entendimento da inserção da escritora em sua época, aproximando-nos mais de suas

idéias e práticas literárias, permitindo uma percepção das novas dinâmicas sociais, que

apontavam para novos arranjos e confrontos dos pensamentos na sociedade e cultura de

então.

A romancista espelhava em suas obras o crescimento urbano e, com ele, uma

maior dinâmica de interlocução das mulheres com os comerciantes, artistas, operários,

engenheiros, médicos, jornalistas, educadores e pedagogos; os entretenimentos vinham

dos bailes, teatros, jantares e recepções. Enfim, a complexidade urbana impunha outra

sociabilidade às mulheres, despertando nelas uma disposição para novas tarefas e

vínculos. De acordo com nossa escritora, o saber científico traria às famílias e às

mulheres (em particular), uma envergadura mais ajustada às condições da vida moderna

com vistas a uma sociedade mais saudável e comprometida com o conhecimento,

distanciando-se do legado passado de superstições e ignorância.

Com o objetivo de constituir uma sociedade mais saudável a partir de avanços

científicos, nossa autora acreditava ainda que as reformas urbanas, principalmente

aquelas ligadas à infra-estrutura da cidade, fossem necessárias para instaurar a

salubridade e impedir os avanços das epidemias que assolavam o país desde o século

XIX. A insalubridade não comprometia apenas o desenvolvimento econômico do país,

mas também a saúde pública e o desenvolvimento intelectual de sua população. Para

tanto, os agentes públicos, como engenheiros de obras, professores, pedagogos,

intelectuais e, fundamentalmente, os médicos, tornar-se-iam os principais interlocutores

entre Estado e a população.

Sugerimos também que, no conjunto das obras de nossa autora, esta objetivou

alcançar fundamentalmente dois públicos: as mulheres e as crianças. Graças à

20

expectativa positiva criada pela República, Júlia Lopes, sensibilizada por seus ideais

formativos, vislumbrou, nas mulheres e nas crianças, os segmentos ideais para a

constituição da Nação. A partir das escolas, as crianças se tornariam cidadãos, com a

oferta de novos conteúdos de formação moral, ética e patriótica; em contrapartida, as

mulheres, casadas ou solteiras, abririam espaço para novos interlocutores com a

finalidade de instruir-se e engendrariam novos preceitos morais com a maior presença

dos representantes do pensamento científico.

Jurandir Freire, ao analisar as transformações do comportamento familiar no

início do século XX, nos adverte quanto à marcante presença dos médicos como novos

interlocutores sociais, exercendo funções para além da medicina, mas regeriam através

da higiene novos preceitos morais.

“A sociabilidade deveria encontrar um meio termo entre a estabilidade

sentimental dos novos vínculos familiares e a cumplicidade com os interesses da cidade

e do Estado. A higiene procurou encontrar este equilíbrio, construindo mapas de saúde

por onde a família podia trafegar sem comprometer sua sanidade. Esta geografia

médica tentava codificar e sinalizar higienicamente o espaço de sociabilidade que

surgia no horizonte familiar, em substituição aos antigos locais de encontro e

14

celebração”.

Supostamente o ambiente de origem familiar de Júlia, e as correntes filosóficas de

pensamento científico associados ao positivismo motivaram circunstancialmente nossa

escritora em sua formação intelectual e convicções ideológicas quando jovem. No

entanto, Júlia afastou-se gradativamente de tais idéias, registrando suas diferenças e

críticas ao pensamento positivista ao desapontar-se com a República, que ainda muito

14 Jurandir Freire Costa. Ordem médica e norma familiar, p.133.

21

recente, dava sinais de vícios políticos e praticas sociais antigas não correspondendo aos

anseios da intelectual.

O romance A casa verde escrito em conjunto com Filinto em 1898-99 para o

Jornal do Comércio, já dava o tom e dimensão dos abalos nas crenças destes autores.

Uma “casa” abandonada em ruínas com vestígios herdados de um “gosto” português

nos azulejos que revestiam as paredes cobertas por limbo e heras. No imenso jardim da

casa uma mulher fora assassinada e enterrada pelo próprio marido, deixando assim uma

imagem de casa mal-assombrada para as pessoas da região.

A casa verde era a imagem que os autores faziam do Brasil, de heranças

portuguesas, a República se erguia em seu terreno, porém, frágil, precocemente

esmoreceu.

Os leitores são introduzidos no romance com a apresentação da “casa”.

“A dois quilômetros da praia de Icaraí, existia ainda nos primeiros anos da

República uma casa que a gente do lugar tinha conta de mal-assombrada [...]. Dizia

lenda que naquele sítio fora assassinada uma mulher, que o marido enterrara ainda

agonizante plantando-lhe sobre a sepultura uma cruz feita com galho verde de figueira

brava. Fôra dessa cruz tosca, fincada na terra pela mão de um pecador, que tinha

rebentado a arvore que ali estava agora imensa e tenebrosa. Mais tarde, alguém,

desejando converter essas terras inaproveitadas em lavouras férteis e parques amenos,

construiu nelas um solar amplo e tranqüilo, bem pousado em formidáveis alicerces,

15

bem definidos por paredes grossas.”

Em nosso trabalho, buscamos analisar como a República rapidamente deixou de

atender as expectativas dos intelectuais através de suas obras, em particular, verificamos

15 Júlia Lopes de Almeida. A casa verde, pp. 5-6.

22

os romances produzidos por Júlia Lopes, e, suas representações desse momento de

conflitos e frustrações.

Com todas as dificuldades existentes para se vender livros, vimos que houve uma

recepção às obras de Júlia Lopes. Por exemplo, Memórias de Marta, teve quatro

edições, três no século XX e uma no século XXI.

Rosane Saint-Denis Salomoni na área literária, pesquisou o romance que foi

publicado primeiramente no jornal Tribuna Liberal, no Rio de Janeiro de 03 de

dezembro de 1888 a 17 de janeiro de 1889; a segunda edição, composta por mais três

contos ( Nhá Tudinha, L’embarras Du chois e Prólogo de um romance), foi publicada

em Sorocaba pela editora Casa Durski em 1899; a terceira edição, revista pela própria

escritora Júlia, foi feita em Paris em1930, junto a Livraria Francesa e Estrangeira,

Truchy-Leroy; quanto a última edição, esta foi em 2007, a partir das iniciativas de

Rosane Saint-Denis, que preocupada com o resgate de escritoras brasileiras, dedicou-se

no estabelecimento das obras de Júlia Lopes de Almeida detendo-se especificamente no

romance Memórias de Marta.

Partindo desta questão, nos deparamos com a força das imagens e representações

que a linguagem literária possuía apesar de tantas dificuldades que o ambiente

intelectual oferecia aos seus próprios interlocutores.

Aqueles que escreviam digladiavam-se pelo espaço literário e como a comunidade

de escritores, embora pequena, formavam-se grupos de afinidades literárias, ora

atacando-se, ora elogiando-se mutuamente.

“Há quase tantos escritores como leitores, se não mais. Em país de instrução

escassa e mofina e cultura sempre incipiente, onde 80% da população é analfabeta e o

resto não lê ou lê somente jornais ou línguas estrangeiras, há nos 20% restante, pelo

23

menos dez que são literatos, dos quais 6 ½ ou 7 são poetas. Assim, não lhes sobram

leitores, e eles se tem de ler a si mesmos ou entre si. O que se chama o público, esse

não os lê” .16

Júlia Lopes sentiu, assim como seus pares, as rupturas nos costumes e tradições

que acompanharam a sociedade brasileira desde a abolição, proclamação da República e

vigência da mesma. A escritora teve a oportunidade de escrever nos principais jornais

do Rio de Janeiro, como O Paíz, e Jornal do Comércio, conhecidos por seu

conservadorismo, [...] “lido pelos homens de classe, pelos políticos e tinha como traço

apoiar todos os governos” 17, sendo que em seus romances e contos, a autora se

declarou abolicionista, e profundamente preocupada com os descaminhos da recente

República.

Júlia Lopes estimulou a leitura e escrita para mulheres, envolveu-se com as idéias

e reflexões junto à educação infantil; promoveu salões literários em sua residência junto

a artistas e escritores. Jornalista, romancista, contista e autora de peças de teatro junto

ao seu marido Filinto, Júlia produziu intensamente no início do século XX ao lado de

escritores consagrados – Graça Aranha, Euclides da Cunha, Silvio Romero, Olavo

Bilac, João do Rio, Coelho Neto entre outros – transparecendo um profundo

envolvimento com o pensamento intelectual de sua época.

Num aspecto mais amplo, Júlia Lopes escrevia com uma linguagem familiar e

simples, temas que sondavam o comportamento político e social. Quanto ao aspecto que

abrangia os costumes e tradições, que compulsoriamente mudavam velozmente nos

grandes centros urbanos, de postura reformista, a romancista acreditava nos projetos de

modernização protagonizados pela ciência, em seu estreito vínculo com a ordem social

16 José Veríssimo. História da literatura brasileira: Bento Teixeira, 1601, a Machado de Assis, 1908,

apud : Hélio Seixas Guimarães. Os leitores de Machado de Assis. O romance machadiano e o público de

literatura no século XIX, p.74.

17 Nelson Werneck Sodré. História da imprensa no Brasil, p.324.

24

urbana e rural. Em suas obras dirigidas para o público infantil, preocupou-se em

apresentar as diferentes regiões brasileiras destacando as manifestações culturais,

pontuando os valores cívicos e morais como forma de debater e conhecer os diferentes

aspectos da Nação. Lembrando que os livros escolares existentes no Brasil, em sua

maioria ainda eram editados em Portugal, não atendendo aos interesses debatidos entre

os intelectuais brasileiros que acreditavam numa educação de teor patriótico e

nacionalista.

Diríamos que além de desejar construir um sentimento nacional e a vontade de

entender o que se passava na época, os intelectuais propagavam suas idéias e ampliavam

seus rendimentos com a participação de artigos em jornais, escrevendo livros didáticos,

montado salões literários e proferindo conferências remuneradas.

Segundo João do Rio as conferências “contagiaram” a Capital da República com

temas curiosos e exóticos como, por exemplo: “a conferência de Sr. Bonfim,

18

demonstrou através de uma ‘teoria científica e complicadíssima do ciúme”

A sociabilidade dos intelectuais também se dava nos encontros destas

conferências, entrevistas, através de institutos literários, correspondências, editoras,

saraus, e para os menos abastados em botequins, livrarias, bibliotecas, redação de

jornais ou departamentos de repartições públicas.

Além de difundirem mais jornais, livros, o número de revistas que surgiram,

descortinavam novos espaços para a produção e ganho dos intelectuais. A Bruxa,

Almanaque Literário de São Paulo, A Estação, A Família, Ilustração Brasileira, A

mensageira, Revista do Brasil, foram algumas das revistas das quais, Júlia contribuiu

com artigos.

18 Wilson Martins. História da inteligência brasileira: 1897-1914, p. 312.

25

Como podemos verificar, os gêneros de revistas eram bem diversificados,

demonstrando também, um ecletismo da autora, tanto nos ajustes dos conteúdos, como

da forma, considerando que também para o público leitor em formação, as revistas cada

vez mais ilustradas, eram uma novidade bem atraente.

Verificamos que o processo de publicação era recebido pela rede de sociabilidade

dos intelectuais e de editores com o objetivo, de compreender a armação de uma trama

de necessidades, vaidades, disputas, inserção no mercado e diferenças de apreensão em

sua contemporaneidade.

“Não bastasse isso, a proximidade do governo federal, reformado e ampliado,

oferecia inúmeras oportunidades adicionais aos letrados, desde os simples empregos

burocráticos até aos cargos de representação, as comissões e as delegações

diplomáticas. Igualmente importantes eram as tutelas oferecidas pelo Estado a

organizações culturais e institutos superiores e o mecenato declarado do Ministério das

Relações Exteriores aos grandes expoentes das letras. O Rio de Janeiro oferecia pois

um campo impar de atuação para os intelectuais em um país pobre e quase que

totalmente analfabeto. Os cafés, confeitarias e livrarias da cidade pululavam de

múltiplos conventículos literários privados, composto de confrarias vaidosas que se

digladiavam continuamente pelos pasquins esporádicos da Rua do Ouvidor” .19

Numa época de inovações palpitantes, numa ânsia de colocar as coisas em seu

“devido lugar”, de estabelecer uma ordem que fosse moderna para assim não ficar

vivendo um passado considerado pouco inspirador para o progresso, os intelectuais,

junto com demais segmentos da sociedade carioca e paulista, participaram ativamente

deste momento com diferentes intervenções.

19 Nicolau Sevcenko. Literatura como missão: tensões sociais e criação cultural na Primeira República,

p. 94.

26

Júlia Lopes, a partir de seus 19 anos até o final de sua vida, enfronhou-se na esfera

dos jornais, livros e revistas, produzindo contos, peças de teatro, romances, crônicas,

participando de palestras e convenções no Brasil e fora dele. Quando casada e com

filhos, residiu por pouco tempo em Paris, ocasião em que escritores franceses e

brasileiros renderam-lhe homenagem (1914), demonstrando seu acolhimento no meio.

Por ocasião da Guerra, Júlia retornou com a família para o Brasil, e no ano seguinte, os

intelectuais brasileiros, por ocasião do aniversário de Júlia, lhe fizeram uma

homenagem no salão do Jornal do Comércio.

As mulheres precisariam se instruir de forma mais diversificada, seriam um

público visado neste início do século. Para Júlia, as mulheres deveriam educar seus

filhos em sintonia para com as obras científicas, filosóficas, literárias e artísticas,

garantindo assim, uma cidadania mais plena e um país voltado para o progresso de

forma civilizada ( Livro das noivas). Pode-se afirmar que a leitura para a autora era a

extensão da cidadania e perspectiva de uma Nação que almejava avanços.

Além de escrever para um grande público feminino em jornais e revistas, Júlia

também entrou para a literatura infantil. A romancista escreveu em 1886 Contos

infantis, junto com sua irmã mais velha, Adelina Amélia Lopes. A obra foi adotada

pelas escolas em grande parte do território nacional; em 1907, escreveu Histórias de

nossa terra, desta vez, realizando registros através do território brasileiro com o fim de

evidenciar as culturas regionais, incentivar a produção rural, apresentando a bandeira

brasileira através de suas cores e assim revelar uma Nação; estimulando o respeito à

nossa língua, e à família.

A escritora nutria ambições para transformar a sociedade de forma efetiva com a

colaboração das mulheres, acompanhava de forma bem próxima as novas propostas de

27

ensino, como por exemplo, no incentivo à publicação de livros educativos no Brasil

realizado por intelectuais brasileiros.

Leonardo Arroyo, na obra Literatura infantil brasileira, no capítulo destinado a

leitura escolar20, recupera José Veríssimo que afirma que “havia uma necessidade

profunda de adequar-se a literatura ao público brasileiro” e ainda acrescenta:

“na segunda metade do século XIX, com maior intensidade os grandes clássicos

da literatura infantil universal foram lançados no Brasil em várias traduções sendo ao

mesmo tempo em Portugal e Brasil. Nesse mesmo período podem ser assinaladoras

algumas obras originais, isto é, demonstrativas de uma compreensão da necessidade de

autores nacionais tratarem dos temas para as crianças do ponto de vista do Brasil,

como recomendava J. Veríssimo” .21

Luís Edmundo observou que grande parte dos livros escolares no Brasil eram

editados em Portugal, e por conta disso, estavam em descompasso com as alterações de

nosso idioma,

“redigida numa linguagem já característicamente diferenciada em relação ao

Brasil, tanto que nossas crianças não entendiam a maioria dos textos desses livros e já

no começo do século esta observação revela que o português já então, influenciado no

Brasil pelos negros e índios, imbuía-se do espírito tropical da terra, que amolecia,

tornava mais doce e mais plástico” .22

Torna-se relevante evidenciar que Júlia ajustou-se a tais condições de produção

literária escolar, contando inclusive com o apoio de seu marido Filinto de Almeida,

jornalista e poeta renomado, que reforçava junto às secretarias de educação, a adoção da

obra de sua esposa. Filinto de Almeida pertencia a Academia Brasileira de Letras desde

20 Leonardo Arroyo. Literatura infantil brasileira, p.110.

21 Idem,. ibidem., p.110.

22 Idem, ibidem.

28

a sua concepção, sua interlocução com os intelectuais deste meio era intensa,

intermediando em diferentes momentos os interesses diplomáticos aos anseios dos

acadêmicos.

Para Júlia, o futuro cidadão estreitaria seus vínculos com a Nação a partir de

critérios filosóficos, técnicos e científicos normativos; estrutura de pensamento que nos

instiga, mas nos chama a atenção de como a preocupação ideológica com aquilo que era

público se emaranhava com os interesses de ordem privada tal a preocupação com a

sobrevivência que alguns intelectuais tinham.

Júlia Lopes reforçava a importância da leitura para as mulheres aconselhando

autores e obras, lembrando que as proibições feitas à estas não exerciam um efeito

nocivo como os mais conservadores sistematicamente afirmavam. O fato de escrever

intensamente reforçava suas idéias e confirmava suas convicções de que a literatura e

leitura tinham um potencial transformador e trariam uma nova consciência e uma

renovadora atuação social.

“Os pais antigos proibiam a leitura às filhas, afirmando que os livros eram os

piores inimigos da alma.

Para livrarem então as pobres inocentes de, por qualquer casualidade, entrarem

um dia em contato com o então perigoso conselheiro, faziam uma coisa que lá consigo

julgavam muito acertada – não as ensinava a ler! Era, evidente, o meio mais

23

coercitivo”.

Júlia Lopes de Almeida não estava sozinha no universo literário, outras mulheres

escritoras compartilhavam das mesmas preocupações. Um número significativo de

almanaques, revistas e manuais foram escritos, e muitas vezes bancados por mulheres,

23 Júlia Lopes de Almeida . Livro das noivas, p. 35.

29

para mulheres, indicando que o número de leitoras era significativo, o que nos deixa

como reflexão de como as novas máquinas e técnicas tipográficas atendiam a demanda

até então reprimida. Contudo, os contos e romances de Júlia publicados em diferentes

jornais, e depois, transformados em livros, mostravam um aspecto mordaz e insatisfeito

da autora, mais direta e menos dócil, demonstrava as contradições e incoerências da

sociedade brasileira, indicando como o discurso idealizado não alcançava as mudanças

necessárias, a denúncia vinha em seus contos e romances pela crueldade e a miséria

incrustada em diferentes patamares da sociedade intelectual, política e econômica.

Procuraremos delimitar nosso tema, tendo como fio condutor a produção literária

de Júlia Lopes de Almeida, especificamente através de seus romances. Quanto aos seus

contos, crônicas e artigos em revistas e jornais, estes foram utilizados apenas como

suportes de análise da produção literária da escritora.

No capítulo 1 procuramos apresentar as dificuldades para se escrever e ler num país que

valorizou predominantemente o comércio e o conhecimento associado à carreiras que

viabilizavam estabilidade social ou prestígio em seu meio. Assim a educação dos

meninos era mais incentivada que a educação das meninas, que por sua vez, eram mais

estimuladas para o casamento. À medida que o analfabetismo era uma preocupação para

os intelectuais e editores, procurei apresentar a recepção dos livros, jornais e revistas

pelos editores H. Garnier e Francisco Alves e João do Rio, que constatou através sebos,

pequenas livrarias e bancas, a literatura que mais agradava o gosto popular. Finalizo o

capítulo com a relevância da imigração portuguesa em seus diferentes segmentos,

inclusive o livreiro no Rio de Janeiro, simultâneo ao crescimento urbano da cidade.

Capítulo 2: dado a sugestiva ampliação do mercado literário, analiso os estranhamentos

e desconfianças existentes no meio dos escritores às produções femininas. Apresento

30

neste momento, como a escritora Júlia Lopes e outras escritoras se estabeleceram junto

aos grandes jornais e reconhecidas revistas. Ainda apresento a relevância dos circuitos e

sociabilidade entre os intelectuais de aspecto relevante para a projeção deste para o

meio público. Compondo o ambiente de sociabilidade de Júlia e as práticas existentes

neste período, exponho a relevância de sua formação como escritora em seu ambiente

ainda paterno. Mas a defesa da instrução para a autora, deveria evoluir junto com os

costumes e a sociedade. Ainda, a negação do Império e valorização do moderno através

das tecnologias, maquinismo, ciência vinham como impreterível necessidade das

mulheres se envolverem neste novo processo.

Capítulo 3: neste momento apresento a relevância da produção das obras para o público

feminino; a linguagem que Júlia utilizava para se dirigir às mulheres; a escolha de

personagens femininos e suas características com o objetivo de criar uma atitude ativa e

simpática junto às suas leitoras. Memórias de Marta, A casa verde, A Falência, Família

Medeiros, Correio da roça, A Intrusa, Viúva Simões e Amor cruel foram obras

apresentadas e analisadas com o objetivo de realizar uma interlocução entre a literatura

e a história, abordando os aspectos culturais e temporais quanto à presença maior das

máquinas no cotidiano urbano, e os estranhamentos e deslocamentos propiciados pela

modernidade. Por último, faço uma análise do imaginário estabelecido entre o romance

e a natureza me servindo das obras Amor cruel e Correio da roça em que a escritora

diferencia o homem do litoral e o homem do campo.

Capítulo 4: tem como tema o envolvimento de Júlia na produção de livros infantis. Na

passagem do século XIX para o XX, como os intelectuais e editores envolveram-se em

debates acerca da inadequação dos livros didáticos editados fora do Brasil, e a

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necessidade de cativar a criança como leitora, instituindo abordagens mais diretas e

apresentando o país com valores patriótico. Nesta direção a discussão acerca de nossas

heranças lingüísticas africanas, propiciava um outro debate; a busca de nossas heranças

genéticas e culturais. Encerro o capítulo retornando para as leitoras, o público feminino.

Mesmo com toda a decepção como a República, Júlia não condiciona mais suas crenças

à estrutura política, mas ao segmento feminino e às crianças como se estes tivessem que

se apropriar de seu presente e independendo do regime político ou circunstancias

econômicas ou culturais, representariam os novos pilares sociais. Apresentaremos ainda

através de um dos contos de Júlia as particularidades femininas em seus temperamentos,

inconstâncias, subjetividades e afinidades intelectuais.