Escrita e experiência na obra de Júlia Lopes de Almeida (1862-1934) por Jussara Parada Amed - Versão HTML

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1.

Um país a ser transformado: as fontes de inspiração de Júlia Lopes de

Almeida

“Quero escrever um livro novo, arrancando do meu

ser e do meu sonho, vivo, palpitante, com todos os

retalhos de céu e de inferno que sinto dentro de mim;

um livro rebelde, sem adulações. Digno de um

homem. Se eu tivesse gênio não me faltava o resto,

porque não escrevo por amor da turba ingrata, nem

preciso da pena para ganhar a vida; sou rico e só

escrevo por obsessão que me verga, tal como um

24

furacão verga o caniço”.

1.1. O analfabetismo entre as meninas e os meninos.

Ler, sim; escrever, só para poucos. Pode-se afirmar com certa tranqüilidade que a

maior parte da população brasileira, ao longo do século XIX, encontrava-se muito longe

dos livros. Dentro desse quadro, em que um pequeno número de pessoas sabia ler, havia

ainda uma diferença significativa entre o grupo de homens alfabetizados e o de

mulheres. Enquanto nos inventários previa-se que os meninos órfãos aprenderiam a ler e

escrever, assegurando uma pequena parcela de homens leitores e escritores, no caso da

população feminina, a situação era ainda mais grave: caberia às meninas órfãs aprender

a coser e bordar.25

Via-se com naturalidade que as meninas, como futuras mães, eram fundamentais

para o crescimento da família: seu papel era gestar, ter filhos, criá-los, dar continuidade

ao sobrenome e prosperar, a exemplo de seus antecessores. Adquirir a habilidade de

manejar os tecidos, e linhas coloridas, ocuparia suas mentes na realização de lindos

bordados. Com a escassez de recursos, se fosse este o seu caso, recuperaria as roupas

24 Júlia Lopes de Almeida. Ânsia eterna.

25 Maria Odila Leite da Silva Dias. Quotidiano e poder em São Paulo no século XIX, p. 34.

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rasgadas, adaptando algumas peças de um filho para outro, participando com sua

inteligência na economia e exercício doméstico. Os ocorridos do dia poderiam ser

partilhados, entre os convivas; ao embalar os filhos, uma cantiga talvez expressasse sua

afetividade, e a história da família possivelmente seria contada, como uma memória

particular, em algum momento do dia. Neste ambiente de expectativas e valores

circunscritos, a leitura de fato não poderia ser vista como relevante ou indispensável:

supostamente não o era.

De passagem pelo Brasil em 1865, Luiz. R. Agassiz, naturalista francês, observou

a educação dada às mulheres nas escolas femininas e nas fazendas sob as orientações

paternas.

“[...] As escolas e pensionatos freqüentados pelas filhas das classes abastadas,

todos os professores se queixam de que lhes retiram as alunas justamente na idade em

que a inteligência começa a se desenvolver. A maioria das meninas enviadas às escolas

aí entram com a idade de sete ou oito anos; aos treze ou quatorze são consideradas

26

como tendo terminado os estudos. O casamento as espreita e não tarda a tomá-las”.

Mesmo levando em consideração as diferenças culturais existentes até então entre

a França e o Brasil, o viajante confirma a diferença de tratamento dado à educação

formal para as meninas, em que o casamento se impõe como condição de vida; os

aspectos práticos de organização da fazenda ou da casa, a educação dos filhos eram

entendidas como atividades das quais naturalmente as meninas dariam conta com o

passar do tempo, graças a seu amadurecimento e experiência pratica de vida.

26 Miriam Moreira Leite. A condição feminina no Rio de Janeiro, séc. XIX, p. 75. Encontram-se relatos de

conteúdo semelhante em cartas de outros viajantes. Dada a semelhança e o tom de gravidade, a educação

para as meninas e o tratamento dado às mulheres no Brasil, em comparação às europeias, era algo que

chamava muito a atenção dos viajantes.

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Luiz Agassiz relata que eram raros os livros nas casas e os romances não eram

aconselhados pelos pais como leitura adequada para as moças. O excesso de regras e

normas favorecia uma visão de vida calcada em tradições materiais, apostando que a

leitura pouco contribuiria como um diferencial para a educação dos filhos ou para a

administração da fazenda. Os romances eram cheios de idéias, concebidos como

fantasiosos; pouco auxiliavam na concretude do dia a dia e, diletantes, faziam as

meninas se perderem em pensamentos oníricos. De acordo com Maria Ângela D’Incao,

com o progressivo aparecimento da família burguesa,

“as leituras animadas pelos encontros sociais, ou feitas à sombra das árvores ou

na mornidão das alcovas, geraram um público leitor eminentemente feminino. A

possibilidade do ócio entre as mulheres de elite incentivou a absorção das novelas

românticas e sentimentais consumidas entre um bordado e outro, receitas de doces e

confidências de amigas” .27

D’Incao nos sugere que, mesmo com o controle de leitura que pudesse existir

para com as filhas e esposas - conforme o que Agassiz também apontou em seus

registros - as mulheres liam às escondidas e à revelia de seus pais, numa “rebeldia

submissa”.

Andando pelas ruas do centro da cidade do Rio de Janeiro, o jornalista João do

Rio observou o intenso mercado de ambulantes, armando seus tabuleiros em praças ou

esquinas. Para chamar a atenção dos fregueses, os vendedores ou colocavam em suas

roupas algum detalhe incomum ou faziam algum comentário de seu produto em voz

alta, destacando o bom preço para a realização de um vantajoso negócio. Mas, para a

venda de livros, o jornalista empreendeu especial atenção, apontando a diversidade dos

27 Maria Ângela D’Incao. Mulher e a família burguesa. In: História das mulheres no Brasil. (Org.) Mary

Del Priore, p. 229.

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vendedores, estratégias para vender seus livros e gênero de obras que mais “caíam” no

gosto popular.

O que era lido? Por que as mulheres faziam leitura às escondidas de seus pais

quando a atividade era de seu gosto? Impressos na Gazeta de Notícias do Rio de

Janeiro, liam-se comentários em que João do Rio se revelava, surpreso, que as leituras

preferidas no início do século XX eram as mesmas do meado do século XIX.

“Exatamente na esquina do teatro São Pedro, há dez anos, Arcanjo, italiano,

analfabeto, vende jornais e livros [...] Ao parar outro dia ali, tive curiosidade de ver os

volumes dessa biblioteca popular. Havia algumas patriotadas, a Questão da bandeira,

o Holocausto, a D. Carmen de B. Lopes, A vida do mercador e de Antônio de Pádua

[...]. Estavam em exposição, cheio de pó, com as capas entornadas pelo sol.

- Vende-se tudo isso?

- Oh! Não. Há quase um ano que os tenho. Os outros sim: modinhas, orações,

livros de sonhos, a História da princesa Magalona, o Carlo Magno, os testamentos dos

28

bichos...”.

Em meio aos livros e jornais também se encontravam “edições falsificadas do

Melro de Junqueira e da Noite nas tavernas” e “livros exportados de Portugal, o

Conselheiro dos amantes” . Concluindo, João do Rio ainda acrescentou:

“A leitura de todos os folhetos deixa, entretanto, a mesma impressão de sangue,

de crime, de julgamento, de tribunal. Há, por exemplo, uma obra cuja tiragem deixa

numa retaguarda lamentável as consecutivas edições do Cyrano de Bergerac. Intitula-

28 João do Rio “Os mercadores de livros e a leitura das ruas”, Gazeta de Notícias do Rio de Janeiro,

12/2/1906. In: João do Rio. A alma encantadora das ruas, pp.136-137.

36

se Maria José, ou a filha que assassinou, degolou e esquartejou sua própria mãe,

29

Matilda do Rosário Luz”.

Pelo gosto popular, os livros que mais circulavam não eram as obras consagradas

pela literatura clássica ou erudita mas, ao contrário – conforme se leu acima - eram

livros de orações, modinhas, que agradavam pelo exagero, fantasia e mesmo pela

crueldade. João do Rio trouxe á tona mais uma questão para os intelectuais refletirem

acerca da formação dos brasileiros, pois, se o impacto foi grande ao se apresentar, pelo

censo feito em 1872, o número elevado de brasileiros analfabetos, os intelectuais teriam

mais um elemento para pensar: a formação literária da população brasileira.

Partindo da premissa de que a oferta de escolas voltadas para a educação de

meninas era pequena, podemos compreender a prática que as famílias de melhor

posição social e econômica tinham ao oferecer ás filhas a alternativa de pagar uma

tutora estrangeira que lhe acompanharia até o casamento, escolhendo assim as leituras

mais apropriadas aos seus alunos.

“Nesse processo de preparação das meninas os manuais de etiqueta eram muito

utilizados, uma vez que traziam prescrições e orientações sobre os costumes, a moda,

os hábitos e as práticas de sociabilidade em voga na Europa e, particularmente, na

França, cuja influência fazia-se presente desde o Brasil Colônia.

Nesse modelo de formação feminina, educar cumpre as vezes de escolarizar. Para

30

os homens, isso nem sempre é equivalente.”

Portanto mesmo assim transmite a idéia de oposição e, neste ponto,o número de

mulheres leitoras ainda era reduzido e a parcela daquelas mulheres que escreviam era

ainda menor:

29 João do Rio, O p. cit., p. 141.

30 Lilian Lacerda. Álbum de leitura: memórias de vida, histórias de leitora , p. 170.

37

“A maioria da população era escrava; a leitura era um luxo circunscrito a uma

minoria de homens leigos, empregados públicos de diferentes hierarquias e 0,8% de

31

mulheres alfabetizadas”.

Curiosa, ainda, era a diferença entre as mulheres que escreviam e aquelas que

liam. Com base em números ou estatísticas, torna-se quase impossível verificar que tal

diferença existisse mas, a partir de relatos como o da escritora Júlia Lopes de Almeida

notamos a existência de um constrangimento para a mulher que desejava escrever.

Numa entrevista concedida a João do Rio para O Momento literário, Júlia revelou

o desconcertante instante em que sua irmã caçula Alice apoderou-se de seus versos e

correu para entregá-los ao pai. Então, Júlia tinha aproximadamente 19 anos:

“– Papá, a Júlia faz versos!

– Não, senhor, não acredites na falsidade!

– Pois se eu os tenho aqui. Olha, toma, lê tu mesmo...

Meu pai, muito sério, descansou o jornal. Ah! Deus do céu, que emoção a

minha! Tinha uma grande vontade de chorar, de pedir perdão, de dizer que

nunca mais faria essas coisas feias, e ao mesmo tempo um vago desejo que o

meu pai sorrisse e achasse bom. Ele, entretanto, severamente lia. Na sua face

32

calma não havia traço de cólera ou de reprovação. Leu, tornou a Ler”.

As impressões do episodio na memória da escritora são particulares. Residindo

em Campinas, Júlia já era uma moça ao ser revelada como escritora pela irmã ao seu

pai, sendo que o cultivo da leitura no interior de sua família, em especial pelo pai

31 Maria Ligia C. Prado. América Latina no século XIX, p. 124.

32 João do Rio. O Momento literário, p. 27-28.

38

Valentim, era estimulado pela literatura cl

33

ássica portuguesa aos filhos. Provavelmente

existia uma biblioteca na residência da família Lopes, pois o patriarca participava com

artigos nos jornais da cidade, escreveu peças para teatro e fez algumas poucas traduções

do franc

34

ês para o português. Os pais de Júlia atuaram, ora na iniciação dos filhos no

mundo da leitura, ou seja, participando do processo de alfabetização, ora como leitores,

interlocutores e formadores do hábito, do gosto e da prática da leitura. No entanto, no

relato da escritora, podemos depreender que escrever tinha uma conotação social

proibitiva e moralmente censurável: revelava uma autoria que simultaneamente

concorria com o desejo de ver seus escritos reconhecidos pela figura paterna.

Se, para as mulheres que escreviam na segunda metade do século XIX, a

experiência de escrever era algo condenável pela sociedade, pode-se afirmar com

segurança que, para as mulheres nascidas até a década de 1830, quase todas analfabetas,

a possibilidade de ler e de escrever era algo abstrato, distante e de dif

35

ícil alcance.

Mesmo que fosse dado como natural as mulheres viverem na condição de

analfabetas, não significava necessariamente que estas estavam completamente

apartadas da sociedade: ao contrário, elas conseguiam inteirar-se das novidades,

acontecimentos, pela linguagem oral, meio pelo qual transmitiam suas tradições,

aprendizados e suas experiências sociais com intensa familiaridade. Em ensaio sobre “A

tradição cultural em sociedades não-letradas”, Jack Goody e Ian Watt refletem acerca

das conseqüências do letramento em sociedades pouco letradas concluindo que:

“a língua é desenvolvida em associação íntima no contato face-a-face com os

outros membros. O que continua a ser de relevância social que pode ser visto como

33 Valentin, pai de Júlia, introduziu-a na literatura portuguesa com os autores Alexandre Herculano,

Camilo Castelo Branco, Julio Diniz entre outros. In: “Saudades”, “Autores e Livros”, respectivamente, no

Suplemento Literário de A Manhã: 28. Set. 1941, pp. 106-107.

34 Dicionário: Sacramento Blake, pp. 336,337 e 338.

35 Ubiratan Machado. A vida literária no Brasil durante o romantismo, p.40.

39

análogo à organização homeostática do corpo humano por meio do qual ele tenta

36

manter sua condição de vida presente”.

Muito embora também existissem algumas mulheres de educação diferenciada,

que tinham acesso à alfabetização, esse restrito grupo feminino recitava versos em

salões, lia romances, interpretava partituras musicais, possuía álbuns, escrevia em

diários, redigia cartas e elaborava listas de compras. Mas escrever versos significava

algo ousado, que causava estranhamento, pois, como vimos, não constava entre os

afazeres da educação feminina. Não era esperado que a mulher expusesse seus

pensamentos para um círculo maior de pessoas que o de seus conhecidos, nem para

aqueles que de alguma forma eram-lhe familiares à convivência segura e privada. As

mulheres abastadas, de vida mais regular ou familiarmente estável, como esposas, irmãs

ou filhas, tinham uma vida mais protegida das línguas e dos olhos desconhecidos,

permanecendo mais tempo nos afazeres domésticos, distanciando-se do espaço público.

Dentro de uma visão tradicional, cabia aos homens serem os provedores e orientadores

morais de suas famílias, entendendo-se que a administração dos negócios na cidade ou

na fazenda era de sua incumbência ¯ a exposição dos homens era algo intrínseco em

sua existência; no Brasil do século XVIII e XIX, estranho seria um homem sem

qualquer iniciativa, recluso ou poeta.

Por outro lado, algumas mulheres de mais recursos, na falta de seus maridos, por

motivos de morte, viagens de negócios ou por suas longas ausências, tiveram que

desenvolver a habilidade de administrar seus lares, negócios ou fazendas para assim

manter seus bens e propriedades. Administrar a compra de materiais, alimentos,

36 Jack Goody e Ian Watt. As conseqüências do letramento, p. 17. Cabe aqui esclarecer que o referido

trabalho de ambos os autores trata de sociedades sem qualquer contato com a escrita. Jack Goody e Ian

Watt utilizam-se no texto de sociedades aborígines, isoladas de outras convivências; no entanto,

entendemos que, a partir da experiência observada no Brasil desde o período colonial até meados do

século XIX, as mulheres, principalmente as brancas, tinham reduzido contato público.

40

escravos tornava-se tarefa menos árdua, uma vez que existia familiaridade com essas

atividades no cotidiano do exercício doméstico. Mas, por força das circunstâncias,

pertencendo a uma sociedade misógina e patriarcal, na falta do marido, a administração

mais complexa de seus bens e a educação de seus filhos incluía o cumprimento e

compreensão de documentos como inventários, realização de acordos financeiros,

balanços de orçamento e despesas do mês e tais negócios, quando não se sabia ler, eram

feitos por meio de um procurador que poderiam ser: irmãos, tios, primos, que muitas

vezes assinavam documentos por elas.

Segundo o jornal O Mosquito, de 1876, a condição de educação para as mulheres

era alarmante:

“Há apenas [...] 550.981 mulheres que saibam ler.

Os pais de nossas compatriotas não hão de ter muito trabalho, para que suas

filhas não escrevam aos namorados!

As Stael e as George Sand não hão de abundar, com certeza, num país onde

vão à escola apenas 165.098 meninas por 795.574 que ficam em casa a

37

conversar na cozinha com a crioula”.

No entanto, para além das conversas na cozinha, a exclusão das mulheres da

alfabetização não diminuía a importância de seu papel em seu meio social, no qual ela

se inseria, como vimos anteriormente, pela oralidade. Para a historiadora Maria Odila

Leite,

“o seu (da mulher) espaço era o da desordem e confusão reinante entre as esferas

pública e particular, necessária ao sistema de poder escravista, e que tanta

37 Hélio Seixas de Guimarães. Op. Cit., p. 90.

41

repercussão teve no processo de construção do Estado, simultâneo ao de urbanização

38

da cidade”.

Mais uma vez, Goody e Watt nos auxiliam na compreensão da transitoriedade

existente nos meios não letrados de tradição oral: as experiências particulares nos

núcleos familiares estabelecidos por contingencias internas ou de motivação externa

alteravam suas tradições e percepções sociais, provocando compulsoriamente

alternativas para ajustes às novas condições.

“Essas mudanças são de diversos tipos: aquelas que surgem a partir do

movimento de pessoas, a partir do processo de ‘nascimento, copulação e morte’;

aquelas que se ligam com o rearranjo das unidades constituintes da sociedade, com a

migração de um grupo e a fissão do outro; finalmente aquelas que resultam dos efeitos

de mudanças no próprio sistema social, quando geradas a partir de dentro ou iniciadas

a partir de fora. Cada um desses três processos, a que podemos nos referir por

conveniência como processos de geração, de organização e de mudança estrutural,

39

podem apontar para alterações do tipo contra as quais a administração objetou”.

Na segunda metade do século XIX, nas regiões mais representativas

economicamente ou politicamente como Rio de Janeiro, Pernambuco, Bahia, oeste

paulista, o número de alfabetizados, se comparado à totalidade da população brasileira,

era pequeno; eram poucos os que liam e escreviam com desenvoltura.

O primeiro recenseamento geral do Império, feito em 1872, mas divulgado apenas

quatro anos depois, apontava dados muito preocupantes quanto ao índice de

analfabetismo no Brasil: o número de crianças fora das escolas superava em cinco vezes

o número daquelas que estudavam. Na revista Imprensa Industrial do Rio de Janeiro os

38 Maria Odila Leite da Silva. Op. Cit. , p. 9.

39 Jack Goody e Ian Watt. As conseqüências do letramento, p. 19.

42

números revelavam um país de ignorantes. “Freqüentam as escolas 155.651 meninos e

165.098 meninas e deixam de freqüentá-las 786.131 meninos e 795.574 meninas.” 40

Em Susan Besse, mais dados chamaram a nossa atenção a respeito da educação voltada

ao público feminino:

“Muito embora houvesse uma lei federal aprovada em 1827 que determinasse o

estabelecimento de escolas primárias gratuitas para meninas, não havia professoras em

número suficiente para compor o corpo docente de mais do que uma dezena de escolas

para meninas, e não se julgava apropriado que homens dessem aulas a meninas. Já em

1872, o censo registrou apenas 18 mulheres na cidade de São Paulo e 313 no Rio de

41

Janeiro que trabalhavam como professora primária e secundária”.

Tratando-se de uma formação acadêmica, mais uma vez era o público masculino

que contemplava as cadeiras, preenchia as vagas, enquadrando-se na mentalidade de

que cabia aos homens a atividade intelectual. As operações mais complexas da

matemática eram voltadas para um conhecimento mais pragmático, como o da

engenharia, para a construção de pontes, estradas, ruas; engenharia dos portos,

iluminação urbana, canais; logística necessária ao desenvolvimento e progresso

econômico.

Parece que o conhecimento por si, a reflexão, no universo social e cultural

brasileiro tinham que conviver com a aridez e infertilidade de uma sociedade que, além

de analfabeta, era essencialmente pragmática, organizada pelo imediatismo da

sobrevivência e dirigida por elites que não valorizavam o conhecimento. Constituída

por uma mentalidade voltada para um balcão comercial, os dirigentes entendiam que a

40 Hélio Seixas de Guimarães. Op.Cit., p. 92.

41 Susan K. Besse. Modernizando a desigualdade, p. 125.

43

perspectiva de vida se encontrava na garantia do individualismo, assegurada pelo

progresso pessoal e não o comum.

A engenharia ilustrava muito bem como o conhecimento poderia ser útil a uma

realidade sem diletantismos filosóficos. Ser engenheiro era sinônimo de espírito

empreendedor, o seu conhecimento se revertia em coisas práticas e úteis à sociedade. O

engenheiro era facilmente reconhecido pela sociedade graças a suas intervenções na

construção de pontes, ruas, portos e estradas, muito embora o seu papel como

profissional não requeresse grandes abstrações daqueles que usufruíam de sua “arte”:

suas ações eram representações de avanços; sua profissão, uma necessidade para os

novos tempos.

A engenharia no Brasil teve origens militares, com o objetivo de construir

fortificações que protegessem a costa brasileira. Engenheiros estrangeiros começaram a

ensinar, ainda no século XVIII e XIX, as técnicas de fortificações, de matemática,

artilharia e ciências aos oficiais brasileiros. O ensino, na Escola Politécnica do Rio de

Janeiro - (antiga) Escola Central até 1874 -, de convicções positivistas, abrangia três

cursos distintos: um curso teórico de Ciências Matemáticas, Físicas e Naturais; um

curso de Engenharia e Ciências Militares, e ainda um curso de Engenharia Civil,

voltado para técnicas de construção de estradas, edifícios e pontes para civis que

freqüentassem o curso.

Para o crítico José Veríssimo, o efeito do pensamento positivista na área do

conhecimento das exatas, como matemática e engenharia, foi visto e compreendido

como extremamente redutor e construtor de vaidades. Sem encontrar qualquer

resistência de outro corpo filosófico, o positivismo prosperou livremente pela sociedade

brasileira, sendo considerado um dos mais eficazes como concepção filosófica. Para

Veríssimo, o pensamento de Augusto Comte se organizava de forma autocentrada,

44

viabilizando, numa sociedade como a nossa, embevecida pelo pragmatismo e o

individualismo, o carreirismo de forma utilitarista, hierarquizando ainda mais a

sociedade brasileira.

Quando refletiu acerca do forte individualismo existente no Brasil – concebendo-o

como uma herança cultural - e sua convivência com o pensamento comteano, Sergio

Buarque de Holanda afirma:

“É possível compreender o bom sucesso do positivismo entre nós [...]. Para seus

adeptos, a grandeza, a importância desse sistema prende-se exatamente à sua

capacidade de resistir à fluidez e à mobilidade da vida. É realmente edificante a certeza

que punham aqueles homens no triunfo final das novas idéias. O mundo acabaria

irrevogavelmente por aceita-las, só porque eram racionais, só porque a sua perfeição

não podia ser posta em dúvida e se impunha obrigatoriamente a todos os homens de

boa vontade e de bom senso. Nada haveria de deter e muito menos de anular o

ascendente fatal de uma nova espiritualidade reclamada pelo conjunto das

necessidades humanas. O mobiliário científico e intelectual que o mestre legou à

Humanidade bastaria para que se atendesse em todos os tempos e em todas as terras a

semelhantes necessidades. E nossa história, nossa tradição, eram recriadas de acordo

42

com esses princípios inflexíveis”.

Também liam e escreviam os juízes e aqueles que viviam das normas jurídicas e

de suas extensões dentro e fora do aparelho do Estado. Alguns profissionais liberais,

jornalistas, intelectuais, poetas e mulheres que tinham uma orientação mais liberal, ou

por necessidade de adaptação às novas contingências de vida mais específicas,

compunham o restrito grupo de leitores e escritores.

42 Sergio Buarque de Holanda. Raízes do Brasil, p. 117.

45

Ainda na segunda metade do século XIX, a atividade intelectual não era muito

intensa nem muito cultivada por aqueles que constituíam a maior parcela da população

do país. Quando possível, aqueles que possuíam mais posses contratavam tutores

estrangeiros para os filhos, não transparecendo qualquer preocupação na ordem de se

reproduzir um conhecimento pouco ajustado à nossa realidade, mesmo porque o

estrangeirismo era bem-vindo por aqui.

Morando na cidade, ainda se tinha a alternativa de ingressar em escolas, como era

o caso daqueles que habitavam a cidade do Rio de Janeiro ¯ o colégio D. Pedro II era a

escola mais procurada pela elite, dada a sua notoriedade e o prestígio dos professores

que lá lecionavam; mesmo assim, apenas 21% das crianças livres freqüentavam as

escolas.43 Posteriormente, os alunos poderiam fazer os cursos de ciências jurídicas e

sociais existentes no país, como era o caso dos cursos de direito situados em São Paulo,

no Convento de São Francisco, e em Recife, na cidade de Olinda, no Mosteiro de São

Bento.

O bacharelismo no Brasil, para o historiador Sergio Buarque, era mais um meio

que revelava aspectos de nossa cultura individualista e personalista, a condição de

bacharel autorizava o indivíduo a cercar-se de recursos, colocando-o em superioridade

em relação aos demais, beneficiando-o em ocasiões em que um cidadão comum não

teria condições de fazê-lo. Tal comportamento ainda viria reforçar, segundo sua tese,

“um mínimo de esforço pessoal, de aplicação e sujeição da personalidade, como

44

sucede tão freqüentemente com certos empregos públicos”.

43 Dados retirados da obra de Hélio Seixas , Os leitores de Machado de Assis, p. 93, que, por sua vez, na

pesquisa que realizou em jornais, apurou tais números no jornal baiano O Monitor, de 15/8/1876, ano I, n.

61.

44 Sergio Buarque de Holanda. Op. Cit. , pp.116-117.

46

Segundo João Cruz Costa, as raízes do pensamento filosófico e literário tiveram

origens nesses estabelecimentos, afirmando que

“essas duas escolas, nascidas à sombra de dois conventos, irão substituir, por

mais de um século, uma instituição que reunirá e coordenará o saber, como é a

universidade. Será nestes estabelecimentos que irá ecoar o debate filosófico e literário

que se travava em terras longínquas. Será daí também que surgirão grandes e

importantes movimentos nacionais que passarão para a nossa história” .45

Crítico da geração de “1870”, de acordo com Araripe Júnior, Tobias Barreto foi o

responsável por trazer novas bases para a discussão intelectual que formaria uma nova

geração de pensadores e estadistas a partir de 1870. O ecletismo e o romantismo

constituíam majoritariamente as referências da formação dos intelectuais no Império e,

segundo Tania Regina de Luca,

“as novas doutrinas, ancoradas numa cosmovisão laicizada, forneciam chaves

para a compreensão do mundo material e social. Munida desse instrumental, a elite

pensante nacional releu o país segundo os novos parâmetros e acabou tomada por um

sentimento de urgência que a compelia a engajar-se na nação” .46

O conhecimento científico aplicado à área médica também floresceu ao longo do

século XIX, por conta de doenças e epidemias de diferentes naturezas, ceifando vidas de

centenas de pessoas, principalmente daquelas que viviam nos maiores centros urbanos,

como era o caso específico do Rio de Janeiro. Hospitais, casas de saúde e centros

psiquiátricos salpicavam pela cidade reforçando o precário contingente de casas de

misericórdia até então administradas por religiosos e alojadas em locais mais afastados

da cidade.

45 João Cruz Costa. História das idéias no Brasil, p 79-80.

46 Tania Regina de Luca. A Revista do Brasil: um diagnóstico para a (N)ação, p. 21.

47

O curso de medicina teve seu primeiro centro formador no Rio de Janeiro, colégio

m

47

édico-cirúrgico fundado em 1829 no Hospital da Santa Casa de Misericórdia , e a

criação da faculdade de medicina deu-se no Rio de Janeiro em 1832, sendo que a Casa

de Misericórdia, amparada pelas ordens religiosas, ainda teria a incumbência de

amparar os enfermos e cuidar dos mais pobres, dando-lhes comida e bebida;

“A convivência com a faculdade foi fundamental para que o estabelecimento da

Misericórdia fosse palco das transformações no exercício das artes de curar e não

apenas de amparar a morte” .48

No entanto, formar um filho como engenheiro agrônomo ou geólogo significava

mandá-lo para o exterior durante alguns anos. Preferencialmente, eles partiam para

países como Portugal, França, Alemanha, Inglaterra, conhecidos pelos brasileiros por

suas produções universitárias e por suas tendências filosóficas liberais. Mesmo assim,

poucos eram aqueles que conseguiam estudar; segundo Antonio Luis Machado Neto:

“A constatação mais evidente é a falta de formação universitária da maior parte

dos nossos intelectuais, como conseqüência óbvia da falta de Universidade no Brasil.

Exceções: Bacharéis, médicos, clérigos, engenheiros. Alguns detentores de curso

médio, outros com curso primário apenas e alguns até sem completá-los. Presença

marcante de autodidatismo nas letras e até nas ciências” .49

Se partirmos da hipótese de que a maior parte de nossos intelectuais não tinha

formação universitária mas, via de regra, eram autodidatas, o mesmo raciocínio pode ser

47 João Cruz Costa. Op.Cit. , p. 102.

48 Renato da Gama-Rosa Costa. Arquitetura e saúde do Rio de Janeiro. In: História da Saúde no Rio de

Janeiro, p. 121.

49 De acordo com A. L. Machado, eram autodidatas: em história, Capistrano de Abreu e João Ribeiro; em

sociologia, Silvio Romero, Alberto Torres e Oliveira Viana; em antropologia, Euclides e Nina Rodrigues;

em teoria literária, José Veríssimo, Araripe Júnior e Nestor Vitor; em jornalismo, Patrocínio, João do Rio,

Medeiros e Albuquerque [...]. In: Antonio Luis Machado Neto. Estrutura social da república das letras,

p. 102.

48

estendido ao emergente e restrito grupo de escritoras que se formaram em semelhantes

condições, incluindo nossa autora,

“pois em razão de saúde frágil, Júlia não freqüentará escolas regulares, mas

receberá os primeiros ensinamentos de sua irmã Adelina e de sua mãe; depois,

completará seus estudos com o pai e com alguns professores particulares de inglês e de

francês”. 50

No entanto, para o universo literário, os estudantes de direito e de medicina

compunham o público leitor, produtor e apreciador dos romances e da poesia. Dentro

das tradições familiares, entendia-se que a literatura fazia parte do temperamento e da

efervescência que agitava o espírito dos jovens, fazia parte de um período boêmio

circunscrito de suas vidas, porque na vida adulta a poesia e a literatura tornar-se-iam

ornamentais, elementos que comporiam um alargamento da cultura geral. Seria um

conhecimento próprio dos momentos idílicos, incompatíveis com a concretude da vida

adulta.

Na contramão de tal mentalidade, os estudantes rebeldes entendiam que eram

“renovadores da mentalidade carrancuda legada ao país por seus antepassados,

inimigos de preconceitos, os rapazes que estudavam nas academias de Direito e de

Medicina utilizavam a palavra escrita como uma espécie de queimada para pulverizar

a má herança do passado e deixar o terreno livre para o plantio do futuro” .51

Ainda de acordo com Ubiratan Machado, em função da natureza da literatura

romântica – suas utopias, temas bombásticos, tragédias amorosas, verdadeiros

sacrifícios humanos - a leitura desses escritos, feita de forma individual ou para um

50 Júlia Lopes de Almeida. Memórias de Marta, p.21.

51 Ubiratan Machado. Op. Cit., p. 41.

49

público, atento às sofisticadas tramas, tornara-se incentivadora do gradativo

aprendizado e gosto pelo ato de ler.

1.2. Jornais e Livros:um comércio ambulante.

Pelas ruas da cidade do Rio de Janeiro, a leitura que mais agradava ao gosto

popular muitas vezes não vinha das livrarias, mas das bancas empoadas ou dos

tabuleiros improvisados, montados nas estreitas calçadas. O comércio ambulante era

intenso: andava-se pelas ruas, bairros, centro da cidade e morros com cestos de frutas,

legumes, verduras, amendoim, flores, peixes e o que fosse possível carregar nos braços.

Pendurados nos ombros de negros e dos imigrantes, era possível ver à venda: vassouras,

espanadores, tecidos, alho, pencas de banana, tranças de cebolas. Nos tabuleiros, que

podiam ser carregados na cabeça ou estabelecidos em lugares onde o trânsito de pessoas

fosse maior, viam-se doces, carne-seca, rapadura, frutas e livros.

Os livros encontrados em tabuleiros eram sortidos e dividiam espaço com jornais;

ficavam expostos ao sol e ao pó, deixando suas capas envergadas e espessas. Exibidos

de forma aleatória, apenas à espera de um comprador, os tabuleiros eram uma amostra

do gosto da leitura popular, sendo que os livros mais vendidos, de acordo com seus

vendedores, eram modinhas, orações, livros de sonhos; quanto aos grandes autores

nacionais ou estrangeiros, estes permaneciam muito mais tempo expostos ao sol.52

Também intrínsecas ao gosto, à atividade literária, encontravam-se discussões

entre os intelectuais que refletiam a nossa origem nacional, forçavam um olhar menos

52 João do Rio. Os mercadores de livros e a literatura das ruas. Impressa na Gazeta de Notícias do Rio de

Janeiro, 1906. In: A Alma encantadora das ruas, p.136.

50

oblíquo em relação à nossa população, avançando no debate abolicionista, republicano

sobre as condições de cidadania. O jornal tornou-se um veículo para as leituras de

deleite e de debates políticos. Mesmo de vida curta, alguns jornais e magazines, que

pareciam piscar como vaga-lumes em suas rápidas passagens de existência, tiveram o

efeito de preocupar os autores de livros ou escritores quanto à ameaça que os jornais

passariam a exercer.

Os jornais atendiam aos contornos da vida urbana e moderna, além de serem

resultado do empreendimento em novas tecnologias gráficas. O tempo exigido para a

leitura de um jornal era bem menor que o de um livro; mais barato, mais leve, fácil de

portar, tinha conteúdos diversificados. Numa passada de olhos, era possível ter acesso

aos fatos nacionais e internacionais, acompanhar os últimos escritos românticos e,

então, passá-lo adiante para outro leitor curioso ou embrulhar peixe.

Raros eram os escritores que se tornavam notórios por seus livros, e mais raros

ainda aqueles que conseguiam sobreviver desse gênero de letras, pois mesmo os mais

empenhados passavam por dificuldades financeiras vez por outra. Segundo Nelson

Werneck Sodré,

“os homens de letras buscavam encontrar no jornal o que não encontravam no

livro: notoriedade, em primeiro lugar; um pouco de dinheiro, se possível” .53

O problema da sobrevivência dos intelectuais e a pouca leitura dos brasileiros

transpareciam sistematicamente nas obras dos escritores. Como veremos a seguir, em

um trecho do romance A Silveirinha, de Júlia Lopes, a insegurança dos escritores quanto

a conseguir manter-se, forçava-os a adotar mais de um emprego; geralmente escolhia-se

o emprego público para sua maior garantia. Tal prática - adotar o Estado como porto

seguro financeiro - era conhecida entre os intelectuais, como José de Alencar, Joaquim

53 Nelson Werneck Sodré. História da imprensa no Brasil , p. 334.

51

Manoel de Macedo, Machado de Assis, José Veríssimo, Euclides da Cunha, Manoel de

Oliveira, Baltazar de Albuquerque, Hermes Fontes, Manoel Bonfim, José Pereira da

Gra

54

ça Aranha, entre tantos outros escritores. Essa realidade apenas sinalizava a

precariedade e fragilidade de seu meio.

Júlia incorpora sistematicamente em suas obras as agruras dos intelectuais, a

penosa tarefa de escrever um livro e posteriormente ser lido por um público ainda

restrito, sinalizando um limite de ação para os escritores. A existência de jornais

também vinha como meio para ganhar algum dinheiro e ventilar o nome do escritor

seria um passo intermediário para a divulgação de seu livro. Quanto aos efeitos do

jornalismo na literatura, Júlia revela que este trouxe maiores condições de uma vida

literária e assim comenta:

“Nós todos somos um resultado do jornalismo. Antes da geração dominante não

havia bem uma literatura. O jornalismo criou a profissão, fez trabalhar, aclarou o

55

espírito da língua, deu ao Brasil os seus melhores prosadores”.

Confirmando a profissionalização dos escritores e a adesão destes junto aos

jornais, constatamos em nossa pesquisa a intensidade com que nossa autora colaborava

em revistas e jornais, obtendo além de reconhecimento também remuneração por seus

escritos. Seu primeiro artigo foi escrito para a Gazeta de Notícias de Campinas, mas a

lista de jornais com que a escritora colaborou foi extensa, escrevendo muitas vezes para

dois jornais ao mesmo tempo, como ocorreu com A Bruxa (1897), A Semana (1885-

1887 e 1889).

A autora acreditava que a produção intelectual brasileira encontrava-se limitada

pela falta de educação e cultura da população. Em vista disso, os jornais eram uma

54 Afrânio Peixoto. Panorama da literatura brasileira, p. 509-510.

55 Apud., A. L. Machado Neto. Estrutura social da república das letras, p. 88.

52

alternativa inquestionável para a existência e profissionalismo dos escritores, mas não

era o espaço de suas maiores realizações, conforme observamos no breve diálogo a

seguir, registrado no romance A Silveirinha, em uma conversa de salão :

“– Para mim, o defeito capital da nossa sociedade é ser muito pouco culta.

– Não estou de acordo.

– Como não?!

– Todo mundo sabe que o Brasil é o país mais intelectual da América do Sul.

– É um argumento ousado.

– Incontestável. Nenhum outro tem uma produção científica e literária da

importância da nossa. Você sabe que eu sou o homem das estatísticas. E para

exemplo basta-nos ver...

– Como os nossos literatos vivem bem!

– Isso é outra coisa.

– Como assim? Numa terra em que se lê, os literatos de talento enriquecem.

Não precisam apegar-se, para viver, à função depauperante do jornalismo ou a

56

empregos públicos [... ]”.

Júlia não estava isolada em seu ajuizamento a respeito da profissionalização da

atividade de escritor, impulsionada pelos jornais. Pelo romance de Coelho Neto A

Conquista, A. L. Machado Neto nos sinaliza que, em especial esta geração de escritores

que se formou a partir de 1870, conseguiu o seu reconhecimento profissional,

apresentando-nos a seguinte questão:

56 Júlia Lopes de Almeida. A Silveirinha, p. 19.

53

“Nessa época é que se podia ainda dizer que não havia sequer a profissão do

escritor, especialmente quando a afirmação partia dos jovens da geração boêmia dos

fins do século, contemporânea das lutas da abolição e da república. Depois que essa

geração assumiu a vigência intelectual e social de seu tempo e consagrou essa vigência

na institucionalização da profissão intelectual através da criação da Academia

Brasileira de Letras (1897), não há como negar que essa profissão já estava

socialmente aceita e acatada, em particular por meio do prestígio social que o escritor

obteve através do jornalismo, em que pesem o imenso trabalho e os poucos ganhos que

ela representava” .57

1.3. Revistas e Livros: novas perspectivas para os escritores

De acordo com Ana Luiza Martins, a edição de revistas encontrava-se em

expansão no final do século XIX. As publicações tratavam de assuntos variados, tais

como: agricultura, indústria, literatura, esportes, espiritismo, feminismo, religião,

medicina, farmácia, odontologia, entre outros. Esses periódicos indicavam a demanda

existente de leitores especializados, ou em via de maior especialização que se

utilizavam de manuais ou revistas como recurso mais ágil de atualização em suas

específicas e emergentes áreas profissionais.

O número de escritores que abraçaram as ofertas para contribuir em revistas era

expressivo. O grupo era...

“[...] constituído ainda pela geração de 60, mas sobretudo por aquelas de 70 e

80, em que comparecem as primeiras mulheres, figurou-se por Júlia Lopes de Almeida,

57 A. L. Machado Neto. Op. Cit. , p. 81.

54

Coelho Neto, Olavo Bilac, Vicente de Carvalho, Priscila Duarte de Almeida, Medeiros

e Albuquerque, Silvio de Almeida, Afonso Arinos, Álvaro Guerra, Zalina Rolim, Júlio

César da Silva, Arthur Goulart, Batista Capelos, Valdomiro Silveira, Basílio

Magalhães, Francisca Julia da Silva, Amadeu Amaral [...] o ponto comum a todos foi a

colaboração no periodismo como prática cultural que lhes conferia representação, em

revistas de variedades, modalidade indefectível para aqueles dias de experimentos de

toda ordem” .58

Em 1901, José Veríssimo, atento à produção literária brasileira, apontava o

reduzido número de leitores de livros existentes no Brasil. À sua maneira, Veríssimo

atribuía a carência de leitores “às desgraçadíssimas condições materiais e morais de

nosso país” . Para transpor as dificuldades existentes no país e profissionalizar-se como

escritor, era preciso vencer muitas dificuldades:

“Junte-se ainda a fraca repercussão das obras literárias em nossa terra, o mau

negócio que representa aqui a profissão de escritor e as dificuldades com que por

muito tempo lutaram os autores para serem impressos, e ver-se-á que muito há à espera

59

de gente que venceu tantos obstáculos.”

Os livros, no início do século, não eram lidos fundamentalmente por dois motivos.

Primeiro: não existia no Brasil o hábito de leitura devido ao analfabetismo; segundo: os

livros eram caros para grande parcela da população. Perguntou-se a Garnier, um dos

primeiros editores e livreiros na capital do país, em entrevista, por que o editor não

abaixava o preço dos livros, pois o freguês acreditava que o livro mais barato atrairia

mais leitores, visto que o maior impedimento para a sua leitura era o preço. A surpresa

58 Ana Luiza Martins. Revistas em revista. p. 418-419.

59 José Veríssimo. Estudos brasileiros (1877-1885). Pará, 1889. p. 7. In: Nelson Werneck Sodré. Op. Cit.,

p. 330.

55

foi grande quando Garnier respondeu que eram poucos aqueles que liam, não era

questão de oferta e procura: a procura por livros era ínfima e limitada.

“‘É um engano’, disse o velho livreiro, ‘há livros que, qualquer que seja o seu

preço, sendo bem aceitos, não podem ter mais de 300 a 400 compradores, e outros até

menos; dos populares não se podem vender no primeiro ano 600 a 800; conheço bem o

mercado do Brasil’.” 60

O quadro era desolador para a sobrevivência dos intelectuais.

“Machado de Assis vendera ao Garnier a propriedade inteira e perfeita da obra

literária, cerca de quinze volumes, por oito contos de réis; a segunda edição do

Quincas Borba e a terceira das Memórias Póstumas de Brás Cubas renderam-lhe 250

mil réis cada uma.” 61

Os jornais já se faziam presentes, ainda que a tiragem fosse considerada pequena

pelos seus proprietários. Todos os jornais do Rio de Janeiro não vendiam, reunidos, 150

mil exemplares. Escreve Olavo Bilac acerca das revistas lidas em uma cidade habitada

por aproximadamente 800 mil habitantes: “Isso é gênero que ainda não se aclimatou no

62

Brasil: quase todos os nossos magazines morrem de mal de sete... números”. Em

contrapartida, como a sociedade brasileira era influenciada pelos hábitos franceses, “o

bom ladrão Garnier” - assim chamado por seus inimigos - como desconfiasse de nosso

mercado de livros, dedicou-se à edição do Jornal das Famílias, impresso em Paris, pela

editora Garnier. Atraente por suas gravuras coloridas, trazia “contos machadianos,

costumes franceses combinados à cultura local, moldes e riscos de bordados, romances

60 Ernesto Senna. O velho comércio do Rio de Janeiro, p. 49.

61 Nelson Werneck Sodré. Op. Cit., p. 334.

62 Apud. A. L. Machado Neto. Op. Cit., p.119.

56

franceses em música e outros atrativos que pudessem fisgar o público leitor

feminino” .63

Em entrevista a João do Rio em O Momento Literário, Olavo Bilac trata do tema

jornalismo, demonstrando-se muito insatisfeito com um país mergulhado na carência de

leitores. Quando indagado pelo entrevistador quanto à possibilidade de os jornais se

tornarem uma alternativa para uma interlocução com os leitores, o escritor respondeu:

“O jornalismo é para todo escritor brasileiro um grande bem. É mesmo o único

meio de o escritor se fazer ler. O meio de ação nos falharia se não fosse o jornal –

porque o livro ainda não é coisa que se compre no Brasil como uma necessidade. O

jornal é um problema complexo. Nós adquirimos a possibilidade de poder falar a um

certo número de pessoas que nos desconheceriam se não fosse a folha diária” .64

De fato, os escritores primeiro escreviam seus romances por partes, para serem

publicados semanalmente pelos jornais; posteriormente a obra poderia ser ou não

publicada em forma de livro por um editor. Ainda existia a possibilidade de o autor

custear com seus próprios recursos a publicação de seu livro por alguma editora de sua

escolha. Expondo de outra forma: o livro vinha a ser publicada por uma editora somente

depois de se constatar a recepção do público leitor de jornais. A imprensa não deixava

de ser uma espécie de termômetro das leituras mais freqüentes e dos gostos dos leitores.

De acordo com a recepção, o escritor tinha maior ou menor possibilidade de ver sua

obra publicada e assim exposta nas principais livrarias.

Francisco Alves, conhecedor do mercado de livros e sagaz para a sua

comercialização, vendeu diversas obras de autores brasileiros. Entre eles, o que o editor

mais publicou foi

63 Apud. Maria Arisnete Câmera de Morais. Leituras femininas no século XIX (1850-1900), pp.119-126.

(tese de Doutorado) In: Lilian de Lacerda. Álbum de leitura: memórias de vida, história de leitoras, p.186

64 Entrevista de João do Rio com Olavo Bilac. Op. Cit., p. 71

57

“Medeiros de Albuquerque e Júlia Lopes de Almeida, mas ambos já tinham

diversos livros editados em outras casas. Além disso, muitos romances de Júlia eram

reimpressões de folhetins publicados nos jornais” .65

Ainda segundo Laurence Hallewell, os poucos pontos de venda de livros, a

importação destes de Portugal e França e o fato de as editoras brasileiras raramente

publicarem autores nacionais tornava o comércio de livros no Brasil algo desolador.

“Eram poucos os pontos de venda de varejo e praticamente limitados aos bairros

mais ricos do Rio e de São Paulo; a maior parte dos negócios estava baseada na

importação principalmente de Portugal e da França. A produção editorial que tinha

lugar no Brasil raramente se aventurava além dos campos dos livros didáticos e das

obras de direito e legislação brasileiros e, mesmo assim, não passava de uma atividade

casual e secundária das grandes livrarias” .66

Em carta a João Lúcio, o espirituoso historiador Capistrano de Abreu, que

observava de perto a produção escrita e intelectual brasileira, relata em carta que havia

traduzido algumas obras para a editora de Francisco Alves. Quanto às práticas editoriais

de Alves, Capistrano escreve para o amigo:

“especializou-se com livros elementares que fornecia aos Estados às centenas de

milhares. Nisto não fez o bem que podia. Cada Estado tem sua panelinha, ele chamou-

as todas a si. Assim A tinha influência em São Paulo, ele tornava-se editor de A,

pagava-lhe muito mais do que o autor podia esperar, fornecia livros por preços que

impossibilitavam concorrência e ficava senhor do mercado. A média dos livros é baixa.

65 Laurence Hallewell. Op. Cit., p. 288.

66 Laurence Hallewell. Op. Cit., p.311.

58

Poderia talvez publicar uma coleção de nível mais elevado se alguém lhe levasse feita,

ou o tempo permitisse” . 67

Ainda no campo das publicações, Hallewell destaca que nem mesmo os autores

que tinham uma boa recepção no mercado brasileiro escapavam das dificuldades de

terem suas obras publicadas no Brasil. A respeito de Júlia, Laurence comenta:

“importante romancista da época e autora de livros infantis, tem uma história

editorial que não deixa de expressar uma certa tipicidade. Seus Contos Infantis (1886)

e Viúva Simões (1897) foram publicados em Lisboa. Ânsia eterna (1902) foi impressa

pelo Garnier, e Histórias de nossa terra (para crianças, 1907) e Correio da roça

(1913) saíram pela Alves, que continuou a reeditar suas obras anteriores até a terceira

edição de Cruel Amor (1928), apesar de Leite Ribeiro ter publicado A Isca (1922). Na

década de 1930 foi editada pela Editora Nacional, por exemplo, Casa verde (1932)” .68

Segundo a historiadora Maria de Lourdes Eleutério, escrever para jornais e

publicar livros didáticos poderia ser um meio particularmente preenchido por mulheres

que desejavam ingressar no campo literário:

“Considerado gênero menor, a literatura escolar no Brasil da Primeira

República tem, contudo, outras dimensões além de educar. Seguramente é prestígio e

dinheiro para o homem, mas para a mulher escrever textos de literatura escolar

significava uma extensão intelectual da vocação de ser mãe, com a vantagem de poder

ingressar no universo literário, até então um privilégio masculino. Tarefa difícil, como

é fácil prever, pois se a demanda aumentava, a oferta de livros para uso escolar

67 Apud. Fernando José Amed. As cartas de Capistrano de Abreu, p. 182.

68 Laurence Hallewell. Op. Cit., p. 284.

59

também se avolumava, atraindo para si os autores consagrados da república das

letras” .69

Como indicamos anteriormente com base em Hallewell, os reduzidos pontos de

venda de livros, a importação de livros de Portugal e França, o pouco incentivo à

produção literária, o fato de escrever não ser considerada uma atividade rendosa nem

reconhecida culturalmente, agregava-se pouco prestígio ao escritor. As revistas, mais

sofisticadas que os jornais, eram impressas em papel brilhante, diferenciando-se tanto

pela sua forma como pelo seu conteúdo. Elas vinham atender a temas específicos de

acordo com as novas demandas, muitas vezes acompanhadas por propagandas de

produtos, fotos, ilustrações feitas por artistas, que ornavam as capas e seus interiores,

tornando-os mais atraentes. Criava-se, dessa forma, mais um meio de sobrevivência

para aqueles que tinham a habilidade da rarefeita escrita. A publicidade nas revistas,

jornais ou cartazes em bondes ou afixados em muros abrigava jornalistas, poetas e

escritores da Belle Époque, como José de Brito e Cunha, José do Patrocínio, Manuel

Bastos Tigre, Emílio de Menezes, Raul Pederneiras, entre outros. Os anúncios

publicitários exigiam de seus autores o talento de combinar às idéias, palavras,

trocadilhos, ritmos, entretendo os leitores.

Segundo o historiador Elias Thomé Saliba,

“quando se separam dos jornais, as revistas começam a ganhar uma estrutura

semiempresarial, procurando veicular aquilo que atendia aos interesses do público

leitor e, não raro, já segmentando a circulação e o consumo das publicações. O contato

destas revistas com o gosto e a demanda do público foi, em suas devidas proporções,

69 Maria de Lourdes Eleutério. De esfinge e heroínas: a condição da mulher letrada na transição do fim

do século., p .90 .

60

muito mais direto e, em alguns casos, mais mercadológico do que o livro, que se

colocava num circuito de consumo mais lento e pouco definido” .70

Foi nesse mesmo século que grandes mudanças materiais e econômicas

intensificariam profundas transformações no seio da sociedade brasileira. O extenso

cultivo do café como produto de comércio e exportação, plantado na região Sudeste e,

em particular, o progressivo processo abolicionista na segunda metade do século XIX

propiciaram novas aplicações de capital, diferenciando investimentos em indústria e

tecnologia, fazendo emergir novas áreas de trabalho e exigindo profissionais

diferenciados para novas frentes de atividades, tanto nos meios urbanos quanto nos

rurais. Realocou-se, dessa maneira, o imenso volume de capital empregado na

comercialização de escravos africanos – que mantinha uma dinâmica tanto econômica

como cultural ainda afeita às tradições elaboradas segundo valores morais de ordem

patriarcal, rural e de origem colonial – para uma economia ágil, mundial.

Contudo, fez parte desse processo de reformas econômicas – que por sua vez

interferiu em todas as demais áreas do conhecimento e do comportamento cultural,

forçando muitas vezes o abandono de antigas tradições – a expansão do mercado

internacional e a interação do Brasil neste. Segundo Nicolau Sevcenko,

“a mais recente historiografia da Idade Contemporânea tem sido concorde em