Escrita e experiência na obra de Júlia Lopes de Almeida (1862-1934) por Jussara Parada Amed - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub, Kindle para obter uma versão completa.

localizar esse núcleo na nova estrutura produtiva desenvolvida na Europa do Norte na

segunda metade do século XIX. Aparecendo já como resultado do processo de

ampliação da taxa de investimento de capital, a Revolução Tecnológica ou II

Revolução Industrial, que se desenvolve em torno de 1870, impôs uma dinâmica de

70 Elias Thomé Saliba. Raízes do riso, p. 41.

61

crescimento sem precedentes ao conjunto do processo produtivo da economia

capitalista européia, americana e japonesa” .71

Para o Brasil, a Guerra do Paraguai (1865-1870) não deixou de ser um sintoma

significativo de sinalização dos conflitos internos e externos desse capitalismo

internacionalizado. Para o Brasil Imperial, a guerra onerou os cofres públicos, mas

“promoveu de forma inédita o convívio próximo e prolongado de brasileiros das várias

72

províncias e de diversas origens sociais” ; trouxe desestabilização das antigas ordens

políticas, permitindo assim a formação de novos arranjos de poder, como o Partido

Republicano. Este, por sua vez, promoveu o movimento abolicionista, articulando-se

dessa forma com a nova ordem mundial; o alinhamento desses grupos com as idéias

modernas vem como um toque final para o desmoronamento da monarquia brasileira.

Nessa onda de transformações sentidas no país não foram revolvidas apenas as

estruturas econômicas, mas agitaram-se as camadas mais profundas de nossos mares

sociais e culturais. Tais mudanças provocaram novos arranjos nos hábitos já

estabelecidos e acomodados por algumas centenas de anos no país. Em certa medida,

forçaram-se novas interações no convívio social, que em outros tempos a intolerância e

os preconceitos sociais não permitiam. Nos meios rurais e urbanos foram encontradas

diferentes soluções de convivência. As novas saídas nem sempre garantiram

acomodações adequadas às necessidades para a sobrevivência e convivência com os

interesses econômicos emergentes. Um número expressivo de negros que viviam na

condição de escravos e homens pobres livres foi recrutado para a Guerra do Paraguai e,

ao regressarem vitoriosos para o Brasil, esses escravos, que retornaram na condição de

homens livres, ao mesmo tempo voltaram armados e engajados numa nova força

71 Nicolau Sevcenko. Literatura como missão, p. 42.

72 Hélio de Seixas Guimarães. Op. Cit., p. 85.

62

emergente, o exército brasileiro. Eles não foram necessariamente incorporados pela

força armada, mas desencadeou-se o abrasamento por uma

“mobilidade provocada, sem dúvida, por um sistema que relegava aos homens

livres um viver à margem e um aproveitamento residual, a estrutura da sociedade

escravocrata engendrou homens andarilhos, sem vínculos, despojados, a nenhum lugar

pertenceram e a toda parte se acomodaram. Mobilidade intensificada pelo monopólio

da propriedade da terra, pelos grandes latifúndios e pela presença de escravos, num

território que oferecia grandes extensões ainda não ocupadas, mudar de algum lugar

73

sempre foi hábito dos homens livres pobres.”

1.4.Imigração: o crescimento urbano e reorganizações socioculturais .

Mesmo nascida no Brasil, Júlia Lopes era filha de portugueses e casada com um

português, Filinto de Almeida. Mantinha vínculos com a cultura e país tanto por

motivos familiares, como pelo uso de sua linguagem literária e na composição de alguns

de seus personagens em romances.

Em 1875, Júlia fez sua primeira viagem com a família a Portugal. Ainda solteira,

em 1886, acompanhou sua família pela segunda vez a Portugal, mas para uma estadia de

dois anos. Neste curto espaço de tempo, em terras lusitanas, Júlia publicou duas obras:

seu primeiro livro em conjunto com sua irmã Adelina, Contos Infantis e no ano

seguinte, Traços e Iluminuras. Neste mesmo ano de 1887, ainda em Portugal, Júlia

casou-se com Filinto e no ano seguinte, retornou para o Brasil.

Segundo Ana Silvia Volpi Scott, o movimento imigratório de portugueses na

segunda metade do século XIX, deu-se pelo incentivo conjunto de fazendeiros paulistas

73 Maria Cristina Cortez Wissenbach. Da escravidão à liberdade: dimensões de uma privacidade possível;

In: História da vida privada no Brasil, p.57.

63

encabeçados por Francisco Antonio de Souza Queiroz, presidente da Associação

Auxiliar da Colonização e Imigração, e pelo próprio governo, como meio de ter mais

trabalhadores nas lavouras e nas cidades, uma vez que havia a proibição do comércio de

escravos africanos. Um numeroso contingente de imigrantes de diferentes

nacionalidades desembarcava sem recursos nos portos brasileiros, e os estrangeiros

ofereciam-se para as oportunidades diferenciadas de trabalho, na produção cafeeira e

nas recentes indústrias oriundas do novo capital. Portavam poucos pertences, traziam

consigo aquilo que conseguiam carregar nas mãos, às vezes, um pouco de comida,

alguma ferramenta de trabalho, um instrumento musical, um saco com roupas e

pequenas lembranças de sua terra natal – muito embora um número considerável de

imigrantes portugueses e de outras nacionalidades não viesse apenas para o trabalho nas

lavouras de café ou fábricas, mas para abrir negócios de pequeno porte na cidade, pois

alguns traziam consigo quantias suficientes para sua autonomia.

Foi neste momento que, trazendo alguns recursos, Valentim Silveira Lopes, pai de

Júlia Lopes, imigrou para o Brasil. Deixou em Portugal sua esposa e dois filhos,

Valentim veio com a firme intenção de verificar suas possibilidades de trabalho e residir

na capita, com experiência pedagógica, pois exercia a função de professor em Portugal,

Valentim abriu o Colégio de Humanidades, escola para moças no Rio de Janeiro junto

com sua esposa Antonia Adelina.

Ainda segundo a autora Ana Scott,

“o perfil do imigrante português que veio para o Brasil durante o século XIX era

o de um jovem do sexo masculino, alfabetizado e proveniente de uma família com

64

recursos para arcar com as despesas de viagem e instalação no Brasil e que tinha,

muito provavelmente, como destino principal a cidade do Rio de Janeiro” . 74

Luiz Edmundo, jornalista no Rio de Janeiro e articulista do jornal Correio da

Manhã desde os primeiros momentos da República, deu sua versão para a imigração

portuguesa:

“Os imigrantes portugueses (em sua maioria) preferiam ficar na cidade, mesmo

com o risco de morrer de febre amarela. O campo não era para o imigrante, seus

sonhos estavam na cidade, onde pareciam existir mais chances: seria a sorte ou a

morte” .75

No entanto, era fato que em Portugal as ofertas de trabalho eram poucas e, quanto

à situação da saúde no além-mar, a precariedade era tão grande quanto a existente no

Brasil, com epidemias de febre amarela, varíola, cólera e doenças venéreas.

Aqueles que optavam por trabalhar nas cidades também encontravam como oferta

de trabalho nas fábricas, onde então se tornavam operários, enfronhando-se em centros

de associações de resistência, preconizando os movimentos sindicais anarquistas e

socialistas. O imigrante com um pouco mais de dinheiro, ou que tivesse conseguido

fazer economias enquanto trabalhava para algum compadre de origem portuguesa,

assim como ele, abria pequenos armazéns para a venda de tecidos, panelas, alimentos;

poderia se tornar proprietário de pensões, cortiços ou quiosques. Esses imigrantes

portugueses “instalados pela cidade, vendiam café, broas, sardinhas frita, pão dormido,

fumo, lascas de porco, queijo e bacalhau

76

”.

74 Ana Silvia Volpi Scott. Verso e reverso da imigração portuguesa: o caso de São Paulo entre as décadas

de 1820-1930. In: Revista Oceanos. Portugueses no Brasil independente. Número 44 – out./dez. 2000.

p.126.

75 Luiz Edmundo. O Rio de Janeiro do meu tempo. v. 1, p. 120-124.Com relação à mesma

informação, verificar Eulália Maria Lahmeyer Lobo. Imigração portuguesa no Brasil, p. 21.

76 Luiz Edmundo. Op. Cit., p.117.

65

[...]. “Os portugueses também trabalhavam como puxadores de carrinhos que

transportavam alimentos, bebidas, móveis, todo tipo de carga e que eram

freqüentemente de sua propriedade” .77

Nos romances de Júlia Lopes, a presença dos portugueses em meio à sociedade

carioca, se dava de forma conflituosa, principalmente aqueles de origem mais pobre. Os

lusitanos eram apresentados como sovinas, desleixados, pouco solidários aos conflitos e

miséria alheia. No romance, Memórias de Marta, o dono de uma venda, Joaquim,

embriagava uma criança por pura diversão, até que um dia, quando a mãe do menino,

descobriu o motivo de sua inapetência e vício, foi acertas as contas com o vendeiro.

78

“Onde se vira nunca uma mulher agredir um homem a murros, daquele modo!”

Configurava-se uma presença maior da moeda, na capital federal, entre o grupo

daqueles imigrantes portugueses que tinham algum capital. O aparecimento de livreiros

deu-se como uma oportunidade de trabalho.

“O crescimento do mercado livreiro do Rio de Janeiro teve, como em outros

ramos do comércio, a colaboração de vários imigrantes vindos de Portugal, que

apostavam na possibilidade de uma vida melhor. Em geral, não dispunham de muito

dinheiro, aceitando o encargo reservado aos caixeiros e ambulantes. Os que traziam

um tímido capital não tardavam a abrir um pequeno negócio. Como se sabe, desde os

anos 1850, notava-se a presença bastante significativa de portugueses no comércio

varejista, mas foi no final do século XIX, com a chegada das sucessivas levas de

homens provenientes da região do Minho e Douro, que esses pequenos capitalistas

começaram a dominar alguns setores de importância financeira, inclusive livros” .79

77 Eulália Maria Lahmeyer Lobo. Op, Cit.,.39.

78 Júlia Lopes de Almeida. Memórias de Marta. Op. Cit., p.73.

79 Alessandra El Far. Páginas de sensação, p. 66-67.

66

Segundo Eulália Lobo, os portugueses imigraram, em grande parte, para a cidade

do Rio de Janeiro, enquanto os italianos, em sua maioria, preferiram fixar-se no estado

de São Paulo. Na cidade de São Paulo, os imigrantes italianos de poucos recursos

exerciam profissões autônomas como carpintaria, serralheria, construção civil. Eram

pequenos comerciantes, empregavam-se em fábricas, exerciam a função de vendedores

ambulantes, mas, no campo, via de regra, arrumavam trabalho nas lavouras de caf 80

é .

Mas não existiam apenas imigrantes pobres. Sabe-se que, de longa data, os

portugueses concentravam negócios no Brasil, formando grupos de empresários,

comerciantes e banqueiros. Aqueles que eram bem estabelecidos possuíam fábricas de

tecidos, cigarros, bebidas, velas, sabão, ferro esmaltado, chapelaria, gelo, gêneros

alimentícios, curtumes e armarinhos em atacado. Os negociantes recrutavam caixeiros

para suas casas de negócios entre o Brasil e Portugal, detinham empresas de

ensacamento de café, comercializavam por atacado, constituindo dessa forma uma

verdadeira teia comercial luso-brasileira.

Conforme o período, os negócios dos portugueses de menor posse variavam o

gênero de seus produtos, seguindo os interesses do mercado de importação e

exportação, muito embora

80 A historiadora contribuiu com dados importantes para a análise dos imigrantes portugueses e de outras

nacionalidades no período em questão. A autora nos revela que, entre os períodos de 1875 a 1890 e de

1890 a 1906-1907, houve aumento brusco da imigração portuguesa, passando de 270.000 no primeiro

período para 400.000 no segundo. Entre 1891 e 1900, a imigração total para o Brasil foi de 627.393, e a

portuguesa, de 202.429, pouco menos de um terço. ( Quadros estatísticos. Rio de Janeiro: Diretoria de

Estatística Econômica e Financeira do Tesouro Nacional, 1968; Anuário estatístico do Brasil. Rio de

Janeiro: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, Conselho Nacional de Estatística (p. 24). Quanto à

imigração de italianos, Lobo cita Michael Hall, informando-nos que, em 1900, 92% dos operários

industriais paulistas eram estrangeiros, dos quais 81% italianos. p . 43. mencionado In: Eulália Maria

Lahmeyer Lobo. Imigração portuguesa no Brasil, p.24.

67

“o comércio luso fosse o mais variado: alfaiatarias, lojas de roupas, de tecidos,

lavanderias, tinturarias, lojas de gêneros alimentícios, restaurantes, tabernas, hotéis,

pensões, joalherias, pratarias” .81

Incrementando a sociabilidade urbana, hotéis, restaurantes, tabernas, cafés e

confeitarias foram em grande parte abertos por comerciantes de origem portuguesa,

sendo os cafés e as confeitarias os primeiros ambientes que abrigavam os literatos da

capital, ilustrando assim a sociabilidade de nossos intelectuais:

“os cafés e as confeitarias foram os primeiros cenáculos literários do Rio de

Janeiro imperial. Neles se reunia a mocidade intelectual, a juventude de Victor Hugo,

de Flaubert ou de Zola, os atores e atrizes que chegavam à frente de grandes

companhias estrangeiras, as exposições de pintura e tudo mais quanto fosse suscetível

de provocar um debate animado e inteligente. Entre duas cervejas e dois vermutes,

entre duas empadinhas ou mesmo dois cafés pequenos, liam-se contos, poesias,

crônicas, páginas de romances que ficariam apenas no primeiro capítulo, fundavam-se

jornais e revistas que jamais circulariam, faziam-se trocadilhos e piadas, decidia-se

quem tinha ou não talento [...]. Nasciam e desfaziam-se grupos e panelinhas, tomavam

corpo movimentos generosos, - e cada café e cada confeitaria tinha os seus ‘habitués’

certos, que ali faziam ponto com uma regularidade quase burocrática” .82

Como procuramos apresentar, a integração do Brasil à economia e à política

internacional lhe trouxe implicações de diferentes ordens internas: a abolição,

imigração, crescimento urbano e ofertas de novos campos de trabalhos que atendessem

uma maior complexidade social, refletindo-se em novos arranjos culturais.

Externamente, o Brasil era visto na América Latina como um mercado a ser incorporado

81 Eulália M. L. Lobo. O p. Cit .p. 33.

82 Raimundo Magalhães Jr. Arthur Azevedo e sua época,p. 141; In :Silvia Soler Bianchi. Entre o café e a

prosa: memórias da confeitaria Colombo no início do século XX, p.71.

68

pelas novas demandas internacionais e, para tanto, mais um local para grandes

investimentos serem feitos.

A gradual constituição de centros de estudos e posterior formação de intelectuais

como bacharéis, juízes, médicos, engenheiros e técnicos também vinham ao encontro

das novas articulações de poderes constituídos, mas, sob a orientação e impacto do

censo de 1872, aqueles que pertenciam ao universo das letras passaram a refletir sobre

as suas frágeis condições como intelectuais num país de analfabetos. Eles também se

questionavam quanto o seu papel como intelectuais na construção da nação e traziam

para si a missão de alertar quanto ao risco de se ter uma população mergulhada na

ignorância, no ostracismo da educação, comprometendo os avanços, a ordem e a

modernização do país.

Segundo Saliba, o que se passava com os intelectuais

“era um esforço conjunto de ‘universalização’; seus projetos visavam, em última

análise, colocar o país no ‘nível do século’, superar o seu atraso cultural e acelerar ‘a

sua marcha evolutiva’, a fim de que pudesse alcançar a parcela mais avançada da

humanidade” .83

No final do Império, existiam aqueles intelectuais de olhar trágico. Entre estes, se

encontrava Silvio Romero, que em 1887, criticava nossas heranças portuguesas, a

valorização de profissionais como médicos, engenheiros, advogados; sendo que para

aqueles brasileiros que queriam escrever em jornais ou livros, tinham que enfrentar no

final do século XIX, o comércio do jornalismo que ainda se encontrava nas mãos dos

portugueses. Não bastando tantas restrições, tínhamos um meio rarefeito de leitores.

83 Elias Thomé Saliba. Op. Cit., p. 34.

69

Temeroso pelas criticas que poderia receber, não deixou de expressar suas impressões

acerca da atividade literária no Brasil.

“[...] nós não temos ainda uma pátria. Isto aqui, em grande escala, é ainda uma imensa

feitoria, onde o comércio, as empresas, todas as fontes econômicas estão nas mãos de

estranhos e a maioria dos nacionais tem de seu para viver a mendicidade, a praça na

tropa de linha ou nas milícias urbanas e o miserando funcionalismo público. Os

homens de letras que não se abrigarem no funcionalismo, que vão viver das respectivas

profissões, arrastam existência penosíssima” .84

Silvio Romero, partindo inclusive de sua própria experiência, apresenta quatro fases da

desilusão e abatimento, pelas quais o escritor brasileiro passava. A primeira fase é a

constatação de que os rendimentos como escritor são escassos e aparentemente inúteis.

Segunda fase: o emprego público é a melhor saída para aquele que não conseguiu, mas

tentou viver das letras. A escolha para a publicação de livros se dava de acordo com a

profissão, coroando seu acolhimento de sucesso. Se iniciou os estudos mas,

interrompeu-o, ou não se deu bem na profissão, e assim passou a escrever, na boca do

povo, a fama não é agradável, referindo-se a este como: “o sujeitinho é literato”.

A terceira fase seria para os poucos sobreviventes da segunda, afirma Sílvio Romero.

Neste momento, os ataques são implacáveis e a sobrevivência se torna possível se o

“sobrevivente” for esperto bastante e criar um grupo de afinidade que o cerque.

“[...] inda poderá algum tempo agüentar-se na refrega, enganado pelos elogios dos

amigos e camaradas, todos mais ou menos interessados e cujo barulho é infantilmente

85

tomado como opinião geral do país”.

84 Sílvio Romero. Alvéolos de Osório Duque Estrada, prefácio.

85 Silvio Romero. Op. Cit. , prefácio.

70

Quarta e última fase: a pior de todas, afirma o autor: “o intelectual se conscientiza da

inutilidade de seus esforços” e a banalidade de seu meio.

Sílvio Romero, passou do século XIX para o XX escrevendo. Nascido em uma pequena

província de Sergipe, em 1851, quando jovem conheceu em 1870, Pernambuco, Tobias

Barreto, partindo depois para o Rio de Janeiro.

Passados alguns anos, em entrevista a João do Rio, o escritor deu sua opinião sobre o

jornal,

“[...] dele é que muitos tem vivido ou vivem ainda; por ele, o que mais vale, é que todos

se tem feito conhecer, e, o que é tudo, poderia ser mais se houvesse um acordo e junção

de forças; é por onde os homens de letras chegam a influir nos destinos deste

desgraçado país entregue, imbele, quase sempre à fúria de politiqueiros sem saber, sem

86

talento, sem tino, sem critério, e, não raro, sem moralidade... ”.

Aproximadamente vinte anos se passaram das primeiras reflexões que Silvio Romero

realizou. Forte, rigoroso em suas primeiras apreciações acerca do meio literário, o

próprio não poderia imaginar que em vinte anos, alguns escritores conseguiam se

revelar pelos jornais e retirar seus sustentos deste meio.

Entretanto nos foi relevante as declarações do escritor, pois, se para os homens

escritores o meio intelectual era restrito e repleto de empecilhos, como seria então para

as mulheres que desejavam escrever?

Algumas escritoras conseguiam se projetar pelos jornais, sendo este o caso de Júlia e

algumas poetisas, enquanto outras, procuravam escrever livros didáticos como recurso

para uma possível “aprovação” de sua capacidade literária. Mas, em meio a tantos

entraves, temos como hipótese que Júlia, assim como outras mulheres, além de ter o

86 João do Rio. Op. Cit., p. 42.

71

talento para escrever, se utilizava de diferentes artifícios para suas obras serem bem

recebidas pelos editores e críticos literários, inclusive segundo palavras textuais de João

do Rio: “Júlia Lopes, que mandava no marido, Filinto de Almeida, acadêmico” . 87

Se havia um rigor, e entraves junto aos escritores homens, as escritoras não poderiam

lançar mão de suas influências do meio intelectual, permanecia, portanto, de uma

cultura de princípios inflexíveis, de longa permanência no Brasil: cabedais de influência

política e pessoais.

87 João Carlos Rodrigues. João do Rio; uma biografia, p. 58.

72

2. Um novo ambiente para as mulheres: descobrir-se escritora no Brasil

“[...] o mal não diminuiu com o tempo; o que

diminuiu, talvez, foi apenas nossa sensibilidade aos

88

seus efeitos”.

2.1. As mulheres escrevem

Com as novas riquezas, rearticulações de poderes e interesses liberais

amalgamados ao pensamento positivista, naturalista e evolucionista absorvidos da

Europa, parte da população alimentou-se com a expectativa de modernização do Brasil

republicano, impulsionando a educação através da crença científica e tecnológica. Tais

transformações foram acompanhadas pela condenação aos hábitos e costumes ligados

pela memória à sociedade tradicional, pela negação de todo e qualquer elemento de

cultura popular que pudesse macular a imagem civilizada da sociedade dominante. Esta,

por sua vez, adotava uma política rigorosa de expulsão dos grupos populares da área

central da cidade, que seria praticamente isolada para desfrute das camadas

aburguesadas.89

Alguns intelectuais engajaram-se à mentalidade republicana, tendo a imprensa

como meio de expressão de suas convicções e ganhos. O grupo daqueles desiludidos

com os novos rumos políticos também aquecia os debates por meio dos jornais e livros,

abrindo fissuras no novo regime, ao denunciar suas contradições, à medida que este não

correspondia a seus ideais de sociedade.

Segundo Brito Broca, em texto escrito em 1953 com o título “As mulheres na

literatura brasileira”, a participação mais marcante das mulheres no ambiente literário

88 Sergio Buarque de Holanda . Raízes do Brasil, p. 125.

89 Nicolau Sevcenko. Literatura como missão, p. 43.

73

deveu-se ao advento do naturalismo e do espírito científico, transparecendo assim uma

mulher mais atuante e menos frágil, conforme preconizava a mentalidade romântica,

“sob a adoração e a proteção do homem, mas proibida de competir com ele em

determinadas atribuições. [...] Com a extinção do romantismo, a mulher perde a aura

de deusa irreal, que a sufocava intelectualmente e socialmente, para ser vista como

ente humano, capaz de caminhar ombro a ombro com o homem, na luta pela vida” .90

A sorte estava lançada. Na passagem do século XIX para o XX, com o

aparecimento de novas revistas, jornais, conferências e editoras, oriundas muitas vezes

de novos capitais, abriam-se perspectivas num espaço de cultura misógina: a

possibilidade para que mulheres também escrevessem e refletissem sobre o seu papel

para o novo século.

Os jornais e as revistas tinham colunistas mulheres, que se dirigiam também para

o público leitor feminino sobre diferentes assuntos. As escritoras assumiriam a autoria

de romances, crônicas, poemas; escreveriam livros infantis para serem adotados nas

escolas, comentariam sobre a moda, hábitos alimentares saudáveis, educação dos filhos;

debateriam idéias políticas, econômicas, sociais, filosóficas, numa demonstração clara

de que as mulheres pensavam e se dispunham a fazer parte das novas conjunções da

sociedade brasileira.

Almejando o público feminino, os jornais e as editoras investiam na idéia de que

esse era um segmento da sociedade brasileira relevante. Investir nesse grupo poderia

significar o aumento de publicação de romances e revistas no mercado editorial. Os

jornais e revistas tinham a prática de divulgar e recomendar as obras lançadas pelas

editoras aos leitores, além de divulgar concertos, conferências, óperas, apostando tanto

9090 Brito Broca. Românticos, pré-românticos, ultra-romântico, p. 78.

74

num meio para a formação do público feminino, quanto num maior consumo de suas

produções intelectuais.

Mas o estranhamento e a desconfiança ainda eram grandes quanto à capacidade de

as mulheres escreverem. No caso específico de Narcisa Amália de Campos (1852-

1924), o simples fato de a escritora e jornalista divulgar suas idéias políticas, recebeu

críticas assim que as publicou em seu primeiro livro de poesia.

Narcisa Amália nasceu no Rio de Janeiro, seu pai era professor em um liceu de

Resende e sua mãe, professora particular. Não houve muita dificuldade para a sua

alfabetização, mesmo porque em sua família valorizava-se a leitura e a escrita. A jovem

Narcisa publicou em 1870 um livro de poemas, Nebulosa, mas a sua maior contribuição

foi para jornais como O Resendense, Diário Mercantil de São Paulo, A Família e O

Garatuja. De idéias abolicionistas e republicanas, ela se inspirava nos ideais da

Revolução Francesa e assim escreveu em seu livro de poesias a Nebulosa:

“No pedestal da igualdade

Firma o povo a liberdade,

Um canto à fraternidade

Entoa a voz da nação,

Que em delírio violento

Fita altiva o firmamento,

E adora por um momento

A deusa – Revolução!”

Em 1872, no jornal Correio do Brasil, C. Ferreira escreveu:

75

“[...] perante a política, cantando as revoluções, apostrofando a reio,

endeusando as turbas, acho-a simplesmente fora de lugar [...] o melhor é deixar [o

talento da ilustre dama] na sua esfera perfumada de sentimento e singeleza” . 91

Por escrever durante um longo tempo para o jornal Garatuja, Narcisa Amália

tornou-se mais conhecida e próxima de seus leitores e, em 1889, ainda procurou

demarcar a necessidade da presença da escrita feminina, assinalada no texto a seguir:

“A pena obedece ao cérebro, mas submete-se antes ao poderoso influxo do

coração; como há de a mulher revelar-se artista se os preconceitos sociais exigem que

seu coração cedo perca a probidade, habituando-se ao balbucio de insignificantes

frases convencionais?” 92

Chegava-se a duvidar da autoria de textos escritos pelas mulheres, como foi o

caso de Francisca Julia (1871-1920), contemporânea de Júlia Lopes. Quando escreveu

para o jornal O Estado de São Paulo o soneto “Quadro incompleto”, ainda

desconhecida do meio literário, o poeta e padre Severiano de Resende recomendava:

“Minha senhora, há ocupações mais úteis, dedique-se aos trabalhos de agulha” .93

Francisca Julia continuou persistindo em suas composições. De outra feita, mais

uma de suas composições, “A paisagem”, passou pela artilharia dos desconfiados. Artur

Azevedo leu e não acreditou nas mãos femininas; João Ribeiro, conceituado crítico,

atribuiu os versos parnasianos a Raimundo Correia94. Olavo Bilac ainda considerou, em

91 Norma Telles. Escritoras, escritas, escrituras. In: História das mulheres no Brasi, .pp.421-422.

92 Antonio Simões dos Reis. Poetas do Brasil, p.104.

93 Márcia Camargos. Musa Impassível, p. 24.

94 Francisca Julia, poema A Paisagem. In: Mármores.

Dorme sob o silêncio o parque. Com descanso,

Aos Haustos, aspirando o finíssimo extrato

Que evapora a verdura e que deleita o olfato,

Pelas alas sem fim das árvores avanço.

Ao fundo do pomar, entre folhas, abstrato

Em cismas, tristemente, um alvíssimo ganso

Escorrega de manso, escorrega de manso

Pelo claro cristal do límpido regato.

76

meio aos desentendimentos incrédulos: “Não é meu nem de Raimundo, só pode ser de

Alberto de Oliveira. Não há dúvida, é molecagem do Alberto esse pseudônimo

feminino” .95

Aos poucos as mulheres começaram a escrever em jornais, participar de

discussões polêmicas ou publicar livros de poemas, prosas e romances. Os livros

didáticos, voltados para um público infantil, também foram objetos de suas produções.

Algumas mulheres escritoras perceberam que a leitura, em diferentes linguagens,

poderia ter um alcance político de transformação social, além de ser um novo meio para

possíveis ganhos.

Na obra de Brito Broca , A vida literária no Brasil 1900, o autor comenta:

“Quando Júlia Lopes de Almeida entrou a escrever nos jornais, por volta de

1885, encontrou ainda forte barreira de preconceitos com as mulheres escritoras. O

surto de literatura feminina que se verificou na França na última década do século

havia de ter influído, no entanto, para o descrédito deste preconceito no ambiente

brasileiro. Por outro lado, com o desenvolvimento da literatura nos jornais, as

colaborações pagas, as escritoras também se julgavam com direito a retirar proventos

econômicos do trabalho intelectual. No começo do século, Júlia Lopes de Almeida

prossegue a sua colaboração em crônicas assíduas em mais de um jornal e, fazendo

‘pendant’ a essa extraordinária atividade, surge outra cronista do mesmo gênero:

Carmen Dolores”. 96

Nenhuma ave sequer, sobre a macia alfombra,

Pousa. Tudo deserto. Aos poucos escurece

A campina, a rechã sob a noturna sombra.

E enquanto o ganso vai, abstrato em cismas, pelas

Selvas adentro entrando, a noite desce, desce...

E espalham-se no céu camândulas de estrelas...

95 Adalsira Bittencourt. A mulher paulista na história, p. 60.

96 Brito Broca. A vida literária no Brasil – 1900, pp. 240-241.

77

De acordo com o mesmo autor, Carmen Dolores e Júlia de Castro foram

pseudônimos criados pela escritora de nome Emília Moncorvo Bandeira de Melo (1852-

1910). Ainda jovem, Emília tinha uma escrita fluida e generosa, mas sua viuvez a

impulsionou para a literatura, conseguindo manter os filhos com cinco a seis crônicas

por semana, contos, romances e peças.

Emília Moncorvo escrevia semanalmente para a coluna “A Semana” no jornal O

Paíz. Nesse espaço, os ocorridos do dia a dia serviam de matéria para a escritora; no

entanto, ela não se limitava a comentários diletantes, como era o esperado no meio

ainda vacilante quanto à participação de mulheres em discussões intelectualizadas. A

escritora utilizou-se da coluna por várias vezes para discutir a relevância da educação

para as mulheres, pontuar a sua defesa do divórcio e ainda entrava na discussão da

reforma ortográfica, questão polêmica para os intelectuais, dividindo-os até mesmo em

grupos divergentes, pois temiam o desvirtuamento da língua.

“A cronista acusava a reforma de fonetista e deturpadora também das fontes

latinas. Portanto, ela advogava, no seu lugar, o estudo acurado de tais fontes legítimas,

sem se restringir apenas à origem latina, mas abarcando também os grandes escritores

portugueses que haviam erigido a língua portuguesa de acordo com tais moldes

etimológicos, desde Camões até os escritores do século XIX.”

Apesar da aparência frágil, em razão das dificuldades econômicas e da doença,

Emília Moncorvo trabalhava arduamente, passando a colaborar sistematicamente em

jornais97 e revistas para garantir sua sobrevivência. Quando morreu, em 1910, João do

Rio registrou em sua coluna do jornal O Comércio de São Paulo:

97 Emília Moncorvo publicou, em 1909, no Jornal do Comércio, A Luta, obra publicada postumamente,

em 1911, pela Editora de H. Garnier.

78

“Ninguém trabalhou mais, ninguém deu mais a impressão do agitado momento,

ninguém elevou tão alto o agonizante jornalismo literário [...] ninguém viveu tanto a

época, ninguém soube morrer com aquela super-humana elegância, reagindo contra a

dor desvairante graças à vontade de um cérebro magnífico” .98

Escritora de mão cheia, conhecida pelos seus sonetos, Francisca Julia (1871-1920)

publicou livros, escreveu para jornais e teve seu

99

Livro da infância aprovado e

publicado pelo governo do Estado e da diretoria de Instrução do Distrito Federal. De

vida modesta, casou-se com Filadelfo Edmundo Munster, telegrafista da Estrada de

Ferro Central do Brasil, e após o casamento a escritora afastou-se gradativamente das

rodas literárias e das reuniões sociais, o que não significa que (Francisca Julia) deixasse

de escrever - acredita-se que a paixão pelos versos e a necessidade de compor a renda

do lar eram coexistentes.100

Mais um episódio de não acolhimento intelectual às mulheres deu-se com a

própria Júlia Lopes de Almeida. Ironicamente a escritora já havia conquistado a

notoriedade em seu meio, o de escritores, quando teve de enfrentar um momento

inusitado: na época da criação da Academia Brasileira de Letras, em 1897, a autora de

várias obras participava com seu marido, Filinto de Almeida, das discussões a respeito

da necessidade de fundar no Brasil um espaço que evidenciasse e valorizasse seus

intelectuais. Delineava-se, dessa forma, a possibilidade de ela entrar para a Academia.

Mas, seguindo as normas francesas de então, que não permitiam o ingresso de mulheres

na Academia, seu esposo, que era poeta e bem inserido nas rodas literárias, foi nomeado

em seu lugar, fazendo-se assim uma homenagem indireta à escritora, numa tentativa de

contornar uma situação delicada para os próprios pares.

98 Maria de Lourdes Eleutério. Vidas de romance, p. 227. João do Rio escreveu o artigo na data de

21/08/1910, p.1

99 Francisca Julia. Livro da infância. São Paulo. Tipografia do Diário Oficial, 1899.

100 Marcia Camargos . Op. Cit., p.85.

79

Filinto de Almeida, em entrevista a João do Rio, quando indagado pelo jornalista

se este não achava que Dona Júlia era a primeira romancista brasileira, expõe a ferida:

pois não é? Nunca disse isto a ninguém, mas há muito que o penso. Não era eu quem

devia estar na Academia, era ela” .101

Se comparada às escritoras de sua época, como foi o caso de Narcisa Amália,

Francisca Julia e Emília Moncorvo, que tiveram condições de estudos com o estímulo

dos pais, mas partilharam de dificuldades financeiras, vivendo modestamente,

verificamos que Júlia, ao contrário, teve apoio financeiro e intelectual por parte de seus

pais desde o início de sua carreira, pois dispunha de confortável condição financeira

além de compartilhar, em casa, de valores humanistas.

Posteriormente, ao casar-se com o poeta e jornalista Filinto de Almeida, em 1887,

a escritora também receberia apoio intelectual e financeiro de seu marido para produzir

até o final de sua vida. Júlia fazia de seu talento literário um instrumento de prazer

voltado às suas convicções, mas também fazia das letras uma fonte de renda,

considerando que sua produção foi intensa em jornais, revistas literárias e femininas de

São Paulo e Rio de Janeiro.

No universo dos periódicos, as revistas femininas poderiam tratar de temas como

o comportamento feminino de diferentes ordens e interesses. No entanto, na mesma

página em que era possível ver anúncios de produtos que poderiam facilitar a vida da

mulher moderna, havia conselhos sobre a higiene, asseio da família e cuidados com o

lar. Freqüentemente se liam queixas, elogios e perguntas a respeito de educação,

casamento, emprego; artigos literários e poesia desfilavam pelas páginas das revistas ao

lado de ilustrações, criando-se assim, a partir das novas técnicas gráficas, novas

mediações de comunicação.

101 João do Rio. O momento literário, p. 30.

80

A oportunidade de escrever em importantes revistas e jornais do Rio de Janeiro

deu a Júlia maior envergadura para refletir mais diretamente acerca dos acontecimentos

de sua época. Os jornais em que nossa escritora colaborou mais longamente foram: O

País e Jornal do Comércio, conhecidos por seu conservadorismo. O último era “lido

pelos homens de classe, pelos políticos e tinha como traço apoiar todos os

governos” .102

O jornal

“O País criou a tradição da coluna no canto da primeira página – lado esquerdo-

, em que figurava um artigo geralmente literário. Ali se estendeu por muitos anos a

colaboração de Carlos de Laet, com a rubrica ‘Microcosmo’, mantida outrora no

Jornal do Comércio. Com a saída de Laet, a coluna passou a ser escrita por Júlia

Lopes de Almeida, Carmen Dolores, depois substituída por Gilberto Amado [...]” .103

Em São Paulo, a escritora também deixou seu registro. Na capital paulista

escreveu para o jornal O Estado de São Paulo e para a Gazeta de Campinas, indicando

que os jornais acolhiam e pagavam pela colaboração literária de mulheres. Ao longo de

anos, Júlia Lopes teve o privilégio de escrever na primeira página de um dos principais

jornais do país como vimos, mas também colaborou para diferentes revistas, além

daquelas de teor pedagógico, espaço mais comum para as mulheres se manifestarem.

Participou com artigos em revistas femininas paulistas como: A Mensageira (1889 a

1900), Revista Feminina (1915 a 1917) e A Família (São Paulo e Rio de Janeiro de

1888 a 1889); participou de revistas de conteúdo literário: Ilustração Brasileira, O

Mundo Literário, Revista do Brasil e Kosmos, assim como das revistas Chácaras e

Quintais, de vocação agrícola.

102 Nelson Werneck Sodré. História da imprensa no Brasil, p. 334.

103 Brito Broca. Op. Cit., p. 223.

81

Segundo Ana Luiza Martins,

“A revista A Mensageira (1897-1900) tinha como sua editora Priscila Duarte de

Almeida, filha de juiz, casada com seu primo, o bacharel, filósofo e educador Silvio de

Almeida. Grande parte de suas colaboradoras eram mulheres que se distinguiam na

sociedade paulista ou carioca, eram elas: Júlia Lopes, com reconhecimento de suas

obras com reedição de seus romances e casada com Filinto de Almeida, poeta e diretor

do jornal O Estado de São Paulo; Zalina Rolim, casada com o desembargador José

Xavier de Toledo, Presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo por dezoito anos,

respondendo por cargos administrativos na Educação, enquanto veiculava produção

diversificada, de poesias trabalhos didáticos; Ibrantina Cardona, esposa do jornalista

Francisco Cardona, também proprietário da casa tipográfica, residiu em Campinas e

104

São José do Rio Pardo, produzindo poemas e colaborando nas revistas da época.”

Entre outras colaboradoras do mesmo jornal, mas de origem financeira e social

muito menos favorecida, estavam: Áurea Pires, Narcisa Amália, Francisca Júlia, Auta

de Souza, Ignês Sabino, Josefina Álvares de Azevedo e a portuguesa Guiomar Torrezão,

autora de poemas e romances, conhecida

105

à época.

“Esse periódico (A revista A Mensageira), tinha por objetivo, conforme afirma

sua editora, levar idéias novas ao lar e, ao mesmo tempo, estabelecer entre as

brasileiras uma simpatia espiritual pela comunhão dessas mesmas idéias. A

Mensageira, que se intitulava uma revista literária dedicada às mulheres, noticiava em

todos os números os livros publicados por escritoras no Brasil e no exterior. Noticiava

e resumia conferências e conquistas profissionais. Foi solidária com as escritoras do

104 Ana Luiza Martins. Revistas em revista. São Paulo, p. 462.

105 Idem. Ibidem.

82

mundo todo e publicou também artigos sobre mulheres inglesas, polacas, francesas,

suecas, até sobre a China” .106

A própria idéia da revista era a de publicar artigos originais, reportagens sobre

vários temas, ou, ainda, tradução de artigos escritos em outros idiomas.

“Quanto a seus objetivos, variaram ao longo do tempo, condicionados às

circunstâncias

históricas

de

gestação

e

circulação,

cabendo

apreendê-los,

reafirmamos, nos contextos próprios de sua existência, ao seu tempo cultural, revelador

da variedade de seus propósitos” .107

A partir da existência de revistas voltadas para o público feminino, como foi o

caso da revista A Mensageira, abriu-se um espaço para que as mulheres escritoras

pudessem aparecer mais freqüentemente, mostrando suas produções e idéias.

Verificamos que havia autoras bem sucedidas, casadas com indivíduos de destaque

social, ao lado de outras escritoras que vinham de origens humildes e que buscavam

pela imprensa o seu reconhecimento e sustento. Além da variedade de temas e

divergências de opiniões na revista, dela emergiu uma multiplicidade de idéias

significativas, possivelmente uma busca para dar sentido às novidades que viviam.

A construção da mulher nos textos dessa revista indicava a relevância do papel da

mãe e esposa, cabendo-lhe, a partir desse momento, uma nova função: propagadora da

ilustração e educação dentro de seus lares. As mulheres seriam responsáveis pela

instrução de seus filhos: mais que bons hábitos, ensinariam a eles os princípios de

cidadania, engajando-os na formação de um novo cidadão. Talvez, trazer às leitoras

uma reflexão sobre as múltiplas linguagens existentes, sobre mulheres de

106 Norma Telles. Escritoras, escritas, escrituras. In: História das mulheres no Brasil, p. 427.

107 Ana Luiza Martins. Op. Cit. , p. 46.

83

nacionalidades díspares, num exercício de distinção ou semelhanças de situações,

poderia demonstrar uma nova ordenação de idéias e espaços sociais.

Já a R evista Feminina, sediada em São Paulo, tinha uma tiragem regular semanal

entre 1914 a 1936; “tornou-se a primeira publicação feminina bem-sucedida

comercialmente e, com isso, deixou claro e acima de qualquer dúvida que existia um

mercado feminino lucrativo” .108 Originalmente a revista assemelhava-se a um jornal,

devido aos seus custos mais baixos. Mas posteriormente, a partir de sua regularidade A

Revista Feminina passou a ter um novo formato e melhor acabamento, configurando-se

uma brochura, que poderia ser adquirida tamb

109

ém por assinatura.

Assim como outras revistas femininas no início do século, A Mensageira e a

Revista Feminina propagavam princípios católicos, sendo esta última também um

espaço para a discussão de idéias mais polêmicas como as lutas femininas, crimes

contra as mulheres e o voto feminino. As discussões políticas quanto ao papel das

mulheres se tornavam mais candentes, quando os jornais ou tablóides anarquistas,

portadores de articulistas da mesma ideologia, declaravam-se contra a participação das

mulheres e homens no processo eleitoral brasileiro, defendendo assim os princípios

libertários da não participação popular política pelo voto para o Estado.

As discussões iam além das esferas políticas. As diferenças nos aspectos de

condutas morais, do que se esperava de um comportamento adequado de uma mulher,

sua moral, retidão, divulgados pela Revista Feminina eram territórios movediços e de

atritos entre as anarquistas e aquelas revistas que eram de orientação católica.

Uma leitora de idéias anarquistas, não se sentindo a vontade com as observações e

posicionamentos referente a organização familiar dos libertários, respondeu á revista:

108 Susan K. Bessa. Modernizando a desigualdade, p. 27.

109 Marina Maluf e Maria Lúcia Mott. Recônditos do mundo feminino, In; História da vida privada no

Brasil. Vol. 3, p. 639.

84

“Chocou-me os sentimentos ao ler a circular expedida pela redação da Revista

Feminina, de que sou assídua leitora, a referência de que faz das teorias libertárias.

Não sei em que vos apóiais para dizer que as correntes anarquistas pretendem fazer

ruir a moral dos lares [...]” .110

A quebra dos costumes e corrosão da ordem social vinha acompanhada pelas

vagas da modernidade. Um sentimento de incompatibilidade incomodava aqueles

intelectuais que reconheciam nas tradições virtudes sociais. A Revista Feminina

interpretava que a família não poderia ser ameaçada, mesmo porque era tida como

suporte do Estado. O vínculo religioso com as tradições dava suporte às crenças

políticas de um tempo ainda envolto por questionamentos, experiências e multiplicidade

de linguagens, que somente as grandes cidades poderiam oferecer numa grande

polifonia.

Em agosto de 1920, A Revista Feminina ainda entoava o rumo disciplinador para

as mulheres que não atinavam com a família:

“Hoje em dia, preocupada com mil frivolidades mundanas, passeios, chás, tangos

e visitas, a mulher deserta o lar. [...] A vida exterior desperdiçada em banalidade é um

criminoso esbanjamento de energia. A família se dissolve e perde urdidura firme e

111

ancestral dos seus liames. Rumo à cozinha! Eis o lema do momento”.

A revista contava com a colaboração de escritores de renome de todo o Brasil,

publicando matérias traduzidas da imprensa estrangeira,

110 Ana Luiza Martins. Op. Cit.,p. 384.

111 Marina Maluf e Maria Lúcia Mott. Op. Cit., p. 372.

85

“sua fundadora e editora, Virgiliana de Souza Salles, era filha de uma família

bem-relacionada de São Paulo e mãe do popular teatrólogo Claudio de Souza. Além

disso, era empresária brilhante e habilidosa” .112

Entretanto, alguns colaboradores do sexo masculino se utilizavam do artifício do

uso do pseudônimo, talvez para acreditarem que assim a recepção de seus artigos fosse

mais facilitada pela leitura feminina, sem passar por um crivo mais rigoroso destas. Ou,

quem sabe, para não serem reconhecidos nem constrangidos como autores de artigos

para revistas femininas por seus pares.

“Entre os colaboradores mais importantes encontravam-se os escritores Cláudio

de Souza, que assinava os editoriais da revista com o pseudônimo feminino de Ana Rita

Malheiros; Coelho Neto, Antônio Austregésilo, Menotti Del Picchia e as escritoras

Júlia Lopes de Almeida e Chrysanhème (que utilizava o pseudônimo de Cecília

Bandeira de Melo Rebelo de Vasconcelos). Destinava-se, sobretudo para o público

feminino, com seções sobre o comportamento feminino, relacionamento conjugal,

etiqueta, culinária, moda, trabalhos manuais. Publicava contos, charges, artigos de

assuntos gerais e muita publicidade. Os números da revista podiam ser comprados

avulsamente ou por assinatura. Vendia em todo o Brasil, alcançou uma tiragem de

25.000 exemplares por mês, o que a coloca entre a revista de maior circulação do

período” .113

2.2 Sociabilidade e a publicações de livros.

112 Susan K. Besse. Op. Cit., p. 27.

113 Marina Maluf e Maria Lúcia Mott. Op. Cit., pp. 639-640.

86

Quanto ao livro que Júlia Lopes escreveu em conjunto com sua irmã Adelina,

Contos infantis, em 1886: elas tiveram a sua obra publicada apenas em 1891 mas, por

decisão da Inspetoria Geral da Instrução Primária e Secundária da Capital Federal, o

livro foi adotado nas escolas primárias do Rio de Janeiro e posteriormente em todo o

Brasil. De acordo com Annibal Freire da Fonseca, Filinto de Almeida foi fundamental

para a intermediação da publicação e uso do livro Contos infantis nas escolas

brasileiras. Além de as autoras terem prestígio com os escritores, principalmente no Rio

de Janeiro, Filinto empenhou-se nas realizações de contatos de que dispunha como

jornalista e valeu-se de sua inser

114

ção política.

Vindo ao encontro da afirmativa de

Annibal Freire, mas sob o ponto de vista das primeiras produções dos livros infantis nos

primórdios da República, Marisa Lajolo acentua a presença dos intelectuais em

diferentes circuitos, como meio de viabilizar seus projetos editoriais, e assim, a autora

nos apresenta a questão:

“Tratava-se, é claro, de uma tarefa patriótica, a que, por sua vez, lhe faltavam

também os atrativos da recompensa financeira: via de regra, escritores e intelectuais

dessa época eram extremamente bem relacionados nas esferas governamentais, o que

lhes garantia a adoção maciça dos livros infantis que escrevessem” .115

Conhecidos como um casal distinto e de relevante presença nas rodas intelectuais,

Júlia e Filinto ofereciam sua própria residência no morro de Santa Tereza para a

114 Verificamos que logo após a naturalização de Filinto de Almeida como cidadão brasileiro em 1889, ele

foi convidado a assumir, temporariamente, o cargo de Júlio de Mesquita como redator chefe no jornal O

Estado de São Paulo, forçando-o, assim, a mudar para São Paulo com a família no mesmo ano . Em 1896,

como jornalista, Filinto teria a incumbência de dirigir, na Europa, a impressão dos Anais do Congresso do

Estado. Republicano e redator de debates do Congresso, foi deputado estadual para a legislatura de 1902 a

1904 pela província de São Paulo, onde residiu pouco tempo. Assim que terminou seu mandato, a família

Almeida retornou ao Rio de Janeiro, e Filinto iniciou atividades em empresas comerciais, além de retomar

suas amizades no circuito literário. In: Annibal Freire da Fonseca. Filinto de Almeida e Roberto

Simonsen. p. 22-23. Segundo Maria de Lourdes Eleutério, em sua obra Vidas de romances, Filinto de

Almeida capitalizava relações de influência, como, por exemplo, redigindo cartas ao poeta Raimundo

Correia, em que pedia sua interferência junto ao Conselho Superior de Instrução do estado de Minas

Gerais para que se fizesse adotar o livro Contos infantis, de Júlia e Adelina, já aprovado pela Instrução

Pública Federal e de outros estados. M. de Lourdes Eleutério. Op. Cit.,p.89.

115 Marisa Lajolo e Regina Zilberrnan. Literatura infantil brasileira. História e histórias,p. 29.

87

realização de salões literários nos fins de semana. Conhecido como Salão Verde,

contava com a presença de escritores, jornalistas, músicos e pintores, como Valentim

Magalhães, Araripe Jr., Olavo Bilac, Lúcio de Mendonça, João Luso, Francisco Alves,

João do Rio, Antonio Parreira, Amoedo, entre outros.

João Luso, um dos freqüentadores do Salão Verde, assinalou, anos depois,

aproximadamente 33 anos, lembranças das agradáveis reuniões de que participara nas

tardes de domingo com os anfitriões. No Jornal do Comércio, comenta o lançamento da

obra realizada em conjunto pelo casal Almeida, A Casa Verde.116 Em seu relato, indica

que muito do que se passou ao longo daquelas tardes no Salão Verde, ele reconheceu na

obra: passagens que pertenceram ao circuito de amigos intelectuais e que usufruíam

com deleite.

“Releio agora A Casa Verde, Deus sabe com que emoção [...]. Os lugares

descritos nestas páginas lembram-me com ar de poesia que o tempo vai

formando[...]

Tive continuamente, além da sensação de beleza que o livro a toda gente deve

produzir, a impressão pessoal, bem íntima e bem egoísta, de ouvir os próprios

narradores na sua, na ‘nossa’ sala de Santa Tereza, revelando as inteligências e as

vozes no desenvolvimento da obra comum. Era D. Júlia com a fidalguia carinhosa

do seu coração, a índole tão generosa que sem deixar de dar aos filhos o máximo

de ternura vigilante [...] Depois falava Filinto, com a sua autoridade de erudito, a

sua clarividência de observador, o seu amplo descortino de comendador e

sobretudo, a sua exaltação de poeta:[...].

116 A Casa Verde. São Paulo. Companhia Editora Nacional, 1932 (em colaboração com Filinto de

Almeida e publicado no Jornal do Comercio, Rio de Janeiro, de 18 de dezembro de 1898 a 16 de março

de 1899, com o pseudônimo comum de “A. Julinto”).

88

O ambiente era ao mesmo tempo patriarcal e artístico. As estantes, o piano,

quadros e estatuetas, a vasta mesa de trabalho formavam um cenário em que o lar

e o atelier se conjugavam fraternalmente.

[...] A Casa Verde reconstituiu ontem para a minha emotividade esses

aspectos e esta atmosfera [...] por longos anos nos reunimos, em tardes de

domingos que tão ditosamente nos compensavam das fadigas e das ansiedades da

semana inteira [...]” .117

O interesse pelos romances no Brasil não era, como vimos, um fenômeno

apartado do que se passou na Europa no século XIX. Eles despertavam particular

interesse no público feminino por tratarem de tramas que continham uma gama imensa

de ingredientes. Eram: culpas, conversões, ardis, adultérios, dramas amorosos, loucura,

compaixão, enfim, enredos que poderiam ser edificantes ou reveladores de contradições

de um comportamento imerso em confissões condizentes com a essência humana, mas

também não deixavam de fazer um retrato da vida urbana, desnudando a sociedade

carioca que até então tinha passado ilesa pelos romances românticos.

De fato, a literatura russa e francesa chegava ao Brasil pelas obras de Tolstói,

Flaubert, Stendhal, Alexandre Dumas, Victor Hugo, entre outros, as quais, por sua vez,

eram traduzidas para atender à recepção do reduzido público leitor .

“Na primeira metade do século XIX, surgiram os primeiros profissionais

competentes: Visconti Coaraci, Antonio José Fernandes dos Reis, Paula Brito, Júlio

César Muzzi, Augusto de Castro, Emílio Zaluar; traduzindo obras de Eugène Sue,

118

Victor Hugo, Alexandre Dumas, Edmundo Dante”.

117 João Luso, Jornal do Comércio, 3. Jul.1932. In: Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro.

118 Ubiratan Machado. A vida literária no Brasil durante o romantismo, p. 43.

89

Na segunda metade do século, o cenário de tradutores sofre mais uma

modificação: também passou a contar com mulheres tradutoras, além de escritoras,

como foi a presença da poetisa Francisca Julia, que verteu, para o português, obras dos

poetas Goethe e Heine, editadas em francês.119

Gradualmente a acolhida às escritoras mudou de tom, e os elogios vinham até

mesmo de forma exagerada; no entanto, confirmavam a permanência das mulheres no

cenário literário, participando de palestras e concursos. Por Max Fleiuss, na obra

Recordando, percebemos a presença das autoras Júlia Lopes de Almeida e Francisca

Julia da Silva.

“Duas Grandes Julias: Júlia Lopes de Almeida e Francisca Julia.

Júlia Lopes de Almeida foi, sem contestação razoável, a maior de nossas

escritoras. Maior pelo talento e pela formosura do quanto escreveu.