Escrita e experiência na obra de Júlia Lopes de Almeida (1862-1934) por Jussara Parada Amed - Versão HTML

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Raramente freqüentou A Semana de meu tempo, porém todos nós rendamos-

lhe a homenagem de admiração e respeito a que se impunha. Individualmente fui,

por várias vezes, em suas palestras encantadoras.

Era uma senhora da maior latitude da palavra e de airosidade irradiante.

Atraía pela bondade, sem o menor preciosismo, de uma lhaneza que cativava.

Dona Júlia, como a chamávamos, tomou parte dos concursos do A Semana,

alcançando esplêndida colocação, ao lado de João Ribeiro e de João Luso.

Lúcio de Mendonça, um dos julgadores, assim se expressou: -‘In Extremis.

Magnífico; original na concepção, sóbrio e magistral na execução’. Juízo com que

concordaram Coelho Neto e Urbano Duarte.” 120

119 Márcia Camargos . Op. Cit., p. 26

120 Max Fleiuss. Recordando. Cap.IX, s/d e s/editora. p. 43.

90

Entusiasmado com as conferências que vira em Paris no ano de 1905,

Medeiros de Albuquerque propôs a Olavo Bilac que, mediante remuneração,

escritores pudessem realizar o mesmo tipo de atividade na cidade do Rio de Janeiro.

Em julho, no salão de concertos do Instituto Nacional de Música, cedido por seu

diretor, Alberto Nepomuceno, a abertura do evento ficou sob a responsabilidade de

Coelho Neto, que conferenciou sobre As mulheres da Bíblia e Olavo Bilac, que

discorreu sobre a

121

Tristeza dos poetas brasileiros

. Após alguns anos, acerca do

evento assim, declarou João do Rio, de forma irônica: “foi um desdobrar de coisas

eruditas, inteligentes, ensinadoras” 122, e Brito Broca avaliou como

“um desencadear amplo, largo e irrefreável de oratória, não só em

conferências, como também nos discursos que se multiplicavam em sessões solenes,

comemorações, benefícios, etc. Todo o fluxo de uma vasta literatura oral, de

circunstância, que passaria com a guerra, quase sem deixar vestígios” .123

Júlia Lopes foi uma das poucas mulheres a participar da série de conferências,

em 1912. A escritora falava sobre o Padre José Maurício, deixando as seguintes

impressões: “[...] o talento admirável de Júlia Lopes revelou mais uma vez uma

faceta de seu engenho” .124

(...) Quanto à Júlia Francisca, afirmou Brito Broca, que os elogios glorificam a

poesia da obra Mármores.

Ler em francês, recitar poemas, vestir-se à moda francesa, viajar para a França,

cumprimentar-se nas ruas com algumas palavras estrangeiras distinguiam as pessoas

entre si, eram ao mesmo tempo sinais de boa educação e negação de um sentimento

121 Márcia Camargos. Villa Kyrial, p. 75.

122 Em registros deixados por João do Rio, no volume Psicologia Urbana de 1911; In: Wilson Martins.

História da inteligência brasileira, p. 312.

123 Brito Broca. Op. Cit., p. 270.

124 Márcia Camargos. Op. Cit, p. 76.

91

provinciano, considerado por alguns símbolos de um país atrasado e pouco civilizado.

Lembrando ainda que a moda por aqui seguia passo a passo as tendências francesas -

não apenas na literatura – apontando para um cosmopolitismo intenso, profundamente

identificado com a vida parisiense.

2.3. Formação e ambiente intelectual de Júlia Lopes de Almeida

Indicando a preocupação que as famílias brasileiras tinham dispensado à educação

de seus filhos, em especial das filhas, Luiz Edmundo comenta:

“As famílias tomam governantas inglesas e alemãs para seus filhos. E não

mandam, em geral, as filhas a internatos. Educam-nas em casa, para isso contratando

os mais afamados professores. A mulher já tem outra instrução, que as viagens

constantes melhoram e refinam; falam vários idiomas e nas reuniões de família já não

é, apenas, o belo sexo que se expõe e agrada pelo palminho de cara ou pela graça da

toilette, mas a companheira inteligente, com a qual um homem já pode conversar e

discutir.” 125

Encontramos na biografia familiar de Júlia Lopes indícios importantes de sua

formação intelectual. A educação é diferenciada e foi gestada pela própria família

paterna e materna. Esta - Silveira Lopes – passara por experiências marcantes em seu

país de origem e verificamos que a experiência sofrida com o movimento de

“Regeneração” em Portugal trouxe-lhe(s) perspectivas liberais quanto à forma de

conceber a educação.

125 Luiz Edmundo. Rio de Janeiro do meu tempo. v.1., p. 335.

92

O pai de Júlia, Valentim José da Silveira Lopes (1830-1915), nasceu em Lisboa e,

em sua juventude, envolveu-se no já citado movimento a que se denominou

“Regeneração”. A partir dessa perspectiva liberal e humanista, dedicou-se à direção e

educação nos colégios Academia de Minerva e Artístico Comercial em Portugal.

Quando decidiu vir ao Brasil, deixou sua esposa Antônia Adelina em seu país de origem

com seus três filhos: Adelina, Maria José e Valentim Jr. Como de costume na época,

durante o ano em que permaneceu sozinho na cidade do Rio de Janeiro, procurou

verificar as possibilidades de trabalho e moradia para sua família e, em 1857, Antônia

Adelina transferiu-se para a capital carioca com os filhos ainda pequenos.

Em 1858, nasceu a quarta filha do casal, Adelaida e, em 1862, com a vida mais

estabelecida, viriam J

126

úlia Lopes e a caçula Alice.

De acordo com seus princípios,

Valentim, junto com a esposa, abriu uma escola secundária para moças, cujo nome

correspondia às suas convicções - Colégio Humanitas. O local também serviu de

moradia para a família ao longo de alguns anos e foi fonte de recordação e de inspiração

para a futura escritora carioca.

De espírito inquieto, em 1863, Valentim deixa a orientação do colégio com sua

esposa Antônia e parte para a Alemanha a fim de estudar medicina na Universidade de

Bostock, onde permaneceu por quatro anos. Ao regressar da Europa, em 1867,

apresentou, como médico, sua tese sobre cólera para a validação de seu título pela

faculdade de Medicina da Bahia, 127 naquele momento sob a direção intelectual de Nina

Rodrigues,

128

“a maior escola científica do Brasil”, segundo Arthur Ramos.

Em seu retorno, Valentim constituiu novos projetos de vida. Entre eles, incluía

mudar-se com toda a sua família do Rio de Janeiro para a cidade de Campinas no ano de

126 Leonora De Luca . Júlia Lopes de Almeida (1862-1934) e o feminismo no Brasil da virada do século.

Iniciação científica, p. 183.

127 Dicionário Sacramento Blake.p.336-337.

128Mozart Linhares da Silva (org.). História, medicina e sociedade no Brasil, p. 20.

93

1869, no estado de São Paulo. Construiu hospital particular, Casa de Saúde Bom Jesus.

Em 1875, seria considerado membro fundador da Irmandade da Misericórdia de

Campinas. A fam

129

ília residirá na cidade até 1885.

Em Campinas, com base em seus estudos, o Dr. Valentim da Silveira publicou

artigos m

130

édicos

e também recebeu, ao longo de sua vida, o título de Visconde de

Valentim, de Portugal; foi vice-cônsul de Portugal em Macaé e cavaleiro da ordem de

Sant

131

’Iago da Torre e Espada

-; tais títulos indicam seu acolhimento tanto na

comunidade brasileira como na portuguesa, atuando não apenas como médico ou

escritor mas sobretudo, em nosso entender, como membro de importante inserção da

sociedade luso-brasileira em Campinas e Rio de Janeiro.

Como português naturalizado brasileiro,Valentim enveredou por caminhos

distintos de grande parte da comunidade de imigrantes portugueses que vinham para o

Brasil montar um pequeno negócio. Suas convicções liberais e republicanas levaram-no

para uma rede de sociabilidade de diferenciada atividade em grupos de intelectuais e

políticos.

O Império na segunda metade do século se encontrava bastante desgastado

politicamente, os movimentos abolicionistas e republicanos amadureciam rapidamente

no Oeste Paulista, e a cidade de Campinas, movida pela economia cafeeira, foi uma

129 Leonora De Luca . Op. Cit., p. 183.

130 Sobre a “Febre amarela em Campinas” (subsídio para a história dessa moléstia na província de São

Paulo); “Observação de um caso de febre tifóide”; “Breves considerações sobre a colonização, dirigida à

Sociedade Central de Emigração do Rio de Janeiro”; “Parecer sobre o clima da província de São Paulo” e

“Salubridade pública no município do Rio Claro” , na Revista Médica, em 1877, entre outros. Ao longo de

sua vida, Valentim não deixou seu interesse pela educação esquecido: publicaria Estudos sobre a

ortografia portuguesa e a missão dos livros elementares; traduziria livros da literatura francesa, além de

escrever no jornal de Campinas, Gazeta de Campinas, e conceber peças de teatro como 7 de Setembro,

drama escrito em dois atos; A Granja feliz, comédia em dois atos; O mestre da aldeia, comédia em um

ato; A Senhora dos prazeres – lenda publicada na Revista Popular - é uma composição em verso com

referência a uma imagem da Virgem encontrada no lugar em que se acha hoje uma pequena ermida à

margem do rio São Francisco, de onde se avista a barra do rio Panema e as serras do Pão de Açúcar.

Dicionário Sacramento Blake, p. 338.

131 Idem. , p. 336.

94

daquelas cujas elites mais aderiram às idéias republicanas. Com a prosperidade da

cidade, as famílias de maior destaque abrigavam grêmios literários, sendo uma delas a

residência da família Silveira Lopes, que foi mencionada no jornal A Manhã como

“centro de atração de escritores locais”.

De acordo com De Luca,

“ao longo da década de 1870, o sobrado em que residiu a família Silveira Lopes

se tornou foco de convergência da intelectualidade local: a casa era freqüentada pelo

pessoal da Gazeta de Campinas, jornal que contava inclusive com colaborações de

próprio punho do Dr. Valentim. [...] Ali eram recebidos músicos profissionais das

famílias Gomes, Monteiro e Lobo; apresentavam-se em saraus musicais amadores

como Leopoldo Amaral” .132

Portanto, desde muito jovem, Júlia teve familiaridade com os salões; essa prática

intensificava os encontros entre os intelectuais e artistas, que poderiam apresentar as

suas obras mais recentes, mas também propiciava debates de interesses políticos e

arranjos de casamentos. Segundo J. Needell,

“tais encontros familiares seletos não desapareceram no final do século. Pelo

contrário, a eles se agregaram diversos rituais domésticos de natureza muito mais

elaborada e freqüentemente extrafamiliar. Essas alterações derivam das amplas

mudanças sociais, sentidas principalmente pelo crescimento das cidades” .133

Os salões indicavam o status e prestígio das famílias em sua respectiva sociedade,

incorporando a vida familiar a novos cerimoniais, indicadores de uma vida elegante e

sofisticada. Como cenáculos de polidez e bom-tom - “um mundo elegante vive uma vida

132 Leonora De Luca. Op. Cit. , p. 183.

133 Jeffrey D. Needell. Belle Époque Tropical, p. 153.

95

elevada e digna, tanto de seu espírito como de sua cultura” 134 -, os salões que ocorriam

com maior freqüência se realizavam nas residências de condes, barões e viscondes, e os

convidados eram pessoas de mesmo título ou equivalentes, associando-se a esses

grupos, artistas, escritores, músicos e poetas.

O salão de Laurinda Santos Lobo, sobrinha dileta do médico e senador,

posteriormente ministro das finanças, Joaquim Murtinho, vinha a ser um dos mais

freqüentados pelas elites na cidade carioca, comparecendo a ele artistas, personalidades

internacionais, políticos da sociedade carioca e paulistana. Conhecido como palacete

Santos Lobo, nele a anfitriã colecionava quadros, porcelanas, pratarias, tapetes e

mobiliários de extremo bom gosto; sua fama, porém, não se restringia a suas festas

extravagantes, mas também justificava-se por hospedar celebridades internacionais e

por exercer o mecenato, seguindo o aprendizado de seu tio.

Segundo um dos freqüentadores do salão de Laurinda Lobo: Filinto de Almeida

exalta o mecenato do Dr. Murtinho na Coluna da noite:

“O ministro mecenas fez mais que o Império, que comprou apenas o gênero (de

pinturas) histórico: o ‘Estado, premido por empenhos’, adquiriu ‘grandes batalhas, no

país mais pacífico da América” . 135

Pelos salões de Laurinda, vagou a família Lopes de Almeida: Margarida, uma das

filhas de Júlia, recitava poemas de Chateaubriand, enquanto o músico Villa-Lobos

apresentava as suas recentes obras; em outro momento, o caricaturista Emílio Cardoso

Aires, no início de 1911, realiza, respectivamente, caricatura e retrato de Júlia no salão

de Laurinda. Habitué do palacete, Júlia foi lembrada na obra de Hilda Machado como

134 Luis Edmundo. Op. Cit.,p. 352.

135 Hilda Machado. Laurinda Santos Lobo. Mecenas, artistas e outros marginais em Santa Tereza, p. 159.

96

“escritora ligada à Academia e ao projeto itamaratiano de controle sobre a

representação da cidade” . 136

A maior exposição das mulheres em eventos públicos convalidava seus papeis

perante a sociedade que representavam, mas, por outro lado,

“a idéia de intimidade se ampliava e a família, em especial a mulher, submetia-se

à avaliação e opinião dos outros. A mulher de elite passou a marcar presença nos

137

bailes, teatros e certos acontecimentos da vida social”.

Relacionado a um processo de construção e validação de todo um código de

condutas e valores, a educação - e a mulher como parte desse meio - foi alvo de reflexão

de diferentes intelectuais. José Veríssimo, em “A Educação Nacional”, diagnosticou:

“[...] As necessidades da vida contemporânea, as exigências imprescritíveis, mais

que as nossas teorias sentimentais ou racionais, vão modificando na nossa sociedade,

mais rápida e profundamente do que talvez se carecia, os nossos costumes e hábitos em

relação à mulher” .138

Mesmo nas famílias mais prósperas, na maioria das vezes, a educação formal dos

filhos se iniciava em casa com a mãe e, posteriormente, o filho mais velho alfabetizava

os demais da prole. No caso de Júlia, não foi diferente. Além de aprender canto e piano

com sua mãe, estudou inglês com professor particular e aprendeu a ler e escrever com

sua irmã doze anos mais velha, Adelina. A convivência próxima das duas irmãs resultou

anos mais tarde, como já foi mencionado anteriormente, na obra feita em conjunto,

Contos infantis (1886).

136 Idem. , p. 128.

137 Maria Ângela D’ Incao. Mulher e Família Burguesa. In: História das Mulheres no Brasil. p. 228.

138 Wilson Martins. Op. Cit. , p. 371.

97

Foi com o apoio paterno que Júlia passou a escrever para o jornal local, Gazeta de

Campinas, em 1881. Tudo começou a partir do episódio em que sua irmã mais nova,

Alice, denunciou ao pai que Júlia escrevia versos às escondidas. Percebendo que sua

filha demonstrava talento para a escrita, o Dr. Valentim Silveira, que participava da

coluna de críticas teatrais para o citado jornal, introduziu-a na atividade.

Assim como Júlia, mas anteriormente a ela, sua irmã Adelina também foi

envolvida pela atmosfera das letras. Devido à recepção, inserção na educação e

convicções humanistas de sua família, Adelina escrevia e publicava seus poemas.

Posteriormente, por sua influência, Júlia – em 1885 – passou a enviar seus escritos para

o jornal literário do Rio de Janeiro A Semana onde Adelina já publicara versos.

Ainda solteira e residindo em Campinas com a família, a escritora também passou

a se corresponder com o jornalista e poeta Filinto de Almeida, que à época dirigia no

Rio de Janeiro, com seu parceiro e amigo Valentim Magalhães, o referido jornal. Foi a

partir desse contato que, dois anos depois, Filinto e Júlia se casaram (1887).

Por orientação de seu pai, Júlia iniciou-se na leitura dos autores clássicos

portugueses, como Garret, Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco, Júlio Diniz,

Eça de Queirós, entre outros. Quando moça, passou a admirar os escritores do realismo

e do naturalismo francês, como Flaubert, Maupassant, Zola e Vitor Hugo; entre os

escritores brasileiros tinha especial apreço por Machado de Assis, com quem tivera a

oportunidade de se encontrar ainda menina e posteriormente na vida adulta.139

A rotina da família Silveira Lopes em Campinas foi marcada pela vivência do

ambiente médico: a existência de doenças tanto no interior como na capital do país

trazia para o âmago da família da escritora a presença e a relevância dos estudos

científicos e médicos assim como a compreensão de uma possibilidade de atuação

139 In “Saudades”, “Autores e Livros”, Suplemento literário de A Manhã: 28. set.1941, pp.106-107.

98

social. Entendia-se entre os médicos sanitaristas que os procedimentos de uma melhor

higiene sinalizaria um dos caminhos para a adaptação das famílias brasileiras ao

fenômeno da urbanização, implicando um desenvolvimento e melhora social. A

ocorrência e consolidação de tais convicções apresentam-se nas primeiras obras da

escritora caso, como veremos, do Livro das Noivas de 1896.

No capítulo intitulado “Educação”, mesmo nome da obra de Spencer, a escritora

explana de forma bem didática quanto era recomendado pelos higienistas que tanto

crianças como adultos necessitavam de uma vida regrada e sadia. Preocupar-se com

uma boa alimentação, exercícios físicos, sol, ar puro; regramento das tarefas diárias;

selecionar uma boa leitura, todas essas pequenas atitudes dariam condições para um

bom êxito na vida, de acordo com Júlia Lopes: “Dar força ao corpo, eis aí, portanto,

minhas amigas, o primeiro cuidado que devemos ter para com os nossos filhos” . Para a

formação moral, o ingrediente científico aparece como um argumento, em detrimento

das superstições: “De um bom princípio depende um bom fim”, para tanto, “exortar as

superstições e crendices populares se faz necessário, pois o medo é talvez a mais

mortificante das doenças morais e que não raro deixa vestígios para toda a vida” . E

emenda no aconselhamento: “Carlos Kingoley, no seu livro Health and Education, diz

parecer-lhe ser a superstição uma afecção física tão material e corporal como o comer,

140

dormir ou sonhar”.

Anos mais tarde, quando a escritora escrevia uma coluna de nome “Dois dedos de

prosa”, na primeira página do jornal O Paíz, com algumas convicções mais brandas

acerca das necessárias medidas para se manter uma boa saúde, Júlia rememorou sua

140 Júlia Lopes de Almeida. Livro das Noivas,p.197-199.

Para Spencer, a principal função da educação é a formação de caráter. Sua defesa do ensino prioritário da

ciência tinha o objetivo de fornecer aos jovens um conhecimento da natureza, que lhes desse meios de se

ajustar às exigências do mundo.

99

adolescência na cidade de Campinas, cidade onde passou a ter o hábito de acordar cedo,

e comenta:

“A saúde exigia saídas madrugadoras, exercícios a pé ou a cavalo, antes do calor

forte do sol [...] quanta gente magra e pálida ameaçada, pela tuberculose, vive nesta

cidade sem fazer sequer o mínimo esforço por combater o ataque definitivo do inimigo

terrível!”. 141

A escritora desejava a compreensão do que vinha a ser higiene e saúde, exigindo

de sua leitora maior sofisticação e elaboração do conhecimento. A higiene viria, pela

autora, de um desdobramento do conhecimento científico mais complexo, útil às donas

de casa. Na vida prática, o que era posto à tona era a importância de uma instrução

dom

142

éstica.

As mulheres no início desse século precisariam se instruir de forma mais

diversificada e redefinir seus papéis no interior de seus lares. O endosso vinha reforçado

por parte dos médicos, da educação e da própria imprensa, enfim, o público feminino

seria um público estimulado à leitura, e, a partir desta, tinha-se como crença ou objetivo

mais do que um rearranjo das atividades domésticas: acreditava-se na constituição de

uma nova família.

Para Júlia, as mulheres deveriam educar seus filhos em sintonia com as obras

científicas, filosóficas, garantindo, assim, uma cidadania mais plena e uma nação

voltada ao progresso de forma civilizada. Poder-se-ia afirmar que a leitura era a

141 Coluna “Dois dedos de prosa” no jornal O Paíz; 14 /out.1907.

142 Segundo Lilia Schwarcz, em 1895, em um dos primeiros quadros de demografia sanitária publicados

pelo Brasil Médico, a incidência de moléstias contagiosas era aterradora. Em primeiro lugar, no índice de

mortalidade, constava a tuberculose – a peste branca, responsável por 15% das mortes no Rio de Janeiro.

Seguia-se, em ordem de grandeza, os casos de febre amarela, varíola, malária, cólera, beribéri, febre

tifóide, sarampo, coqueluche, peste, lepra, escarlatina, os quais, juntos, representavam 42% do total das

mortes registradas nessa cidade. In: O espetáculo das raças, p.224

100

extensão da cidadania, atributo relevante para a República, enquanto no Império a

leitura e a escrita não eram requisitos nem para uma população urbana nem agrária.

De acordo com Jurandir Freire,

“foi nesse período de anomia interna que favoreceu a aceitação da medicina

como padrão regulador dos comportamentos íntimos. A higiene ajudou a família a

adaptar-se à urbanização, criando, simultaneamente, normas coerentes de organização

143

interna” .

Foi num ambiente repleto de estímulos, bem plantado na alta sociedade

campineira, cujos debates de ordem política dirigiam-se para as convicções

republicanas, com participação de intelectuais, escritores e artistas de ideais humanistas,

que Júlia Lopes cresceu. Em seu primeiro romance de 1891, A Família Medeiros, a

defesa do abolicionismo e da República por meio de um personagem feminino estimula

claramente a participação das mulheres para refletirem sobre seus papéis em seus lares e

fora deles. Cabia-lhes pensar em seus conceitos políticos e reformulá-los sob pena de

não acompanhar as transformações sociais e rearranjos familiares emergentes. O

romance de Júlia trazia uma nova concepção literária e de história, marcado pelo ponto

de vista histórico e evolutivo, fluindo pela esfera política propositadamente.

Como abolicionista, a escritora descreveu com fortes tintas os maus-tratos e

horrores que cercavam o dia a dia dos escravos nas fazendas de café. Como alternativa

aos castigos corporais e humilhações, a fuga se tornava um caminho natural e viável aos

escravos que buscavam liberdade. Em seu romance, os escravos partem para a Serra do

143 Jurandir Freire Costa. Ordem médica e norma familiar, p. 109.

101

Mar; dessa forma Júlia prestava homenagem ao abolicionista paulistano Dr. Antônio

Bento de Souza e Castro, mal-visto e injuriado pelos escravocratas.144

Estabelecido como promotor público e juiz, Antônio Bento de Souza conheceu

Luis Gonzaga Pinto Gama, ou simplesmente Luis Gama, filho de africana com branco.

Enquanto líder do movimento emancipacionista dos escravos na província de São

Paulo, Luis Gama atuava também como poeta e orador abolicionista. Com a morte deste

em 1882, Antônio Bento assumiu a liderança do movimento abolicionista paulista,

conhecido na época, em Santos, como Movimento dos Caifazes.

A propósito, as idéias abolicionistas destinadas às mulheres eram assim

defendidas pela protagonista Eva:

“As mulheres brasileiras, bem sabem, não têm mostrado coração neste sentido.

É triste, mas é assim.

[...] Onde escondem a lagrima da compaixão, que ninguém a vê? Decididamente,

145

à vista disto tudo eu vou descrendo da tão apregoada bondade da mulher...”

O crítico literário W. Martins considerou acerca do romance A Família Medeiros

dois aspectos relevantes: primeiramente, a convicção abolicionista e republicana da

autora quando esta estabelece a escravidão como algo atrasado, construindo

personagens escravocratas como desconfiados e pouco esclarecidos. Já os abolicionistas

eram portadores do avanço, indicados por diferentes aspectos humanistas, ilustrados,

receptivos e sensíveis às mudanças.

Quanto ao segundo aspecto, Wilson Martins aponta as circunstâncias em que o

romance Família Medeiros foi publicado. O romance estava sendo escrito no calor da

abolição, mas sua publicação ocorreu anos após o encerramento do episódio. Há

144 Norma Telles. Op. Cit., p.437.

145 Júlia Lopes de Almeida. A Família Medeiros, p. 197.

102

contradições quanto as datas de sua primeira publicação. Martins considera o ano de

1892, e Afr

146

ânio Coutinho

, em sua versão mais atualizada, considera 1891. Mas o que

nos chamou a atenção foi a observação de W. Martins, indicando que o romance foi

ofuscado pela abolição, tornando-se mais chamativo três ou quatro anos depois, quando

os ex-escravos encontravam-se na condição de homens livres e cidadãos. No entanto,

mesmo

respirando

ares

abolicionistas,

numa

cultura

escravista

inercial,

sistematicamente os negros eram discriminados e, nesse contexto, o romance teve maior

alcance.147

Roberto Ventura indica que, nesse momento, um grupo de literatos rompia com a

geração de 1870 e expressava-se através da literatura.

“De acordo com a visão histórica, o direito e as instituições deveriam evoluir

junto com os costumes e a sociedade, o que torna possível a crítica ao ‘status quo’,

amparado na monarquia e na escravidão. Não haveria, portanto, direito divino ou

148

estruturas sagradas capazes de garantir o predomínio eterno da Coroa e da Igreja”.

Tal ambiente correspondia ao desejo de outros grupos de convicções similares em

realizar uma regeneração à brasileira, em que se procurava criar condições reais de

intervenção intelectual na esfera do tecido social; sua oportunidade de inserir-se no

progresso aderindo à nova ordem mundial acompanharia um Estado mais presente,

inclusive no interior das famílias.

146 Afrânio Coutinho e J. Galante de Sousa. Obra de referência: Enciclopédia de Literatura brasileira,

p.196.

147 Segundo W. Martins: “A Família Medeiros, sendo um romance abolicionista publicado em 1892, os

personagens dividiam-se em dois grupos nítidos, os escravocratas, todos criminosos, perversos e

desumanos, contrastando com os abolicionistas, todos, nobres, generosos e esclarecidos. Iniciado em

1886 e concluído em 1888, o romance, cuja ação se passava em 1887, não foi imediatamente publicado

porque o advento da abolição pareceu, por um momento, ter-lhe tirado o interesse: agora, quando os

negros passaram a ser abertamente atacados sob novas formas de escravidão congeminada pelos pais da

pátria, a história readquiria inesperada atualidade”. Op. Cit., p. 399.

148 Roberto Ventura. História da literatura, ensaios, p.42. O autor, em seu ensaio, refere-se

especificamente à geração de críticos literários como: Silvio Romero, Araripe Jr, Capistrano de Abreu, -“

‘que remetiam as origens da literatura nacional à ação da miscigenação ou da natureza tropical sobre as

formas europeias-‘”p. 41.

103

Com o perceptível crescimento urbano, a família sedentarizada deparou-se com

novos encargos: menos isolada em suas rotinas, vê-se entrelaçando seus hábitos

privados às ofertas intermitentes oferecidas pela vida pública. No exercício de tal tarefa,

caberia às mulheres de vida urbana fazer a interlocução entre a família e a sociedade.

Será a partir de 1870 que encontramos grupos distintos de intelectuais, locados em

sua maioria na cidade do Rio de Janeiro, organizando-se, discutindo seu papel na

sociedade brasileira, refletindo sobre os destinos de uma nação semialfabetizada, em

que a sobrevivência do grupo encontrava-se comprometida, dada a precariedade de vida

dos cidadãos e a carência social.

Júlia Lopes produziu ao longo de aproximadamente 40 anos, compartilhando de

uma sociabilidade intelectual diferenciada em um meio um tanto misógino, dividindo

espaços juntamente com editores, jornalistas, artistas, escritores de romances, poetas e

cronistas. Sendo mulher, Júlia teve livre trânsito com escritoras e editoras de revistas

voltadas especificamente para o público leitor feminino, tratando de temas

diferenciados, mas freqüentemente discutindo o papel das mulheres na sociedade

brasileira149.

A escritora parece ter compartilhado a atmosfera intelectual brasileira da virada

para o século XX, que era sinalizada pelas ideias do positivista francês Augusto Comte,

do darwinismo social do inglês Spencer e de uma concepção de modernidade

viabilizada pela ci

150

ência e tecnologia. João Cruz Costa

, ao analisar o pensamento

positivista com base em seu principal apóstolo do último quarto do século XIX , Miguel

149 Júlia Lopes contribuiu para muitos jornais e revistas de diferentes cidades. Como ilustração, no Rio de

Janeiro, escreveu para o Jornal do Comércio e O País por mais de cinco anos; em São Paulo/capital, escreveu para O Estado de São Paulo e em Campinas para os jornais Correio de Campinas, Diário de Campinas e Gazeta de Campinas. Quanto às revistas das quais participou, podemos destacar as literárias,

agrícolas e femininas, como: Revista Feminina de São Paulo, A Mensageira, A Família; revistas

literárias: O Mundo Literário, Almanaque Literário de São Paulo, Ilustração Brasileira e Kosmos.

150 João Cruz Costa . Contribuições à história das idéias no Brasil, p.145.

104

Lemos, destaca: “A sociedade brasileira oferecia à atividade positivista as condições

mais favoráveis” . Para Cruz Costa ,

“de fato favoráveis pareciam as condições naquele tempo, quando o Império se

renovava material e intelectualmente. Transformavam-se as elites, ansiosas de

renovação dos velhos quadros de idéias [...]. Era o ‘bando de idéias novas que

esvoaçava’ sobre o Brasil. Modernizava-se rapidamente o país e rapidamente entravam

em decadência as velhas instituições” .151

Fazia parte, por exemplo, do itinerário positivista o apoio ao movimento

abolicionista, considerando a escravidão um crime contra a humanidade, sendo que tal

afinidade de id

152

éia vinha dar suporte aos romances de Júlia Lopes

e aos de muitos

outros intelectuais afinados com o pensamento comteano e liberal. Esses intelectuais

também apoiavam a República, por entenderem que ela poderia conceder abrigo às

expectativas mais reformistas, mas, “mais do que isso, significava um empenho sério e

consequentemente de criar um saber próprio sobre o Brasil, na linha das propostas do

cientificismo, embora não necessariamente comprometido com ele” .153

Nas primeiras obras de Júlia Lopes, havia recomendações diretas para a leitura de

obras de Spencer154, ou, de forma indireta, ela reproduzia as idéias do inglês na

narrativa de seus romances quando salientava a necessidade de desenvolvimento

progressivo, natural da humanidade e em consonância com o evolucionismo cultural e

social estabelecido pelo cosmopolitismo.

151 Idem., p.188.

152 O romance Família Medeiros, publicado em 1891, foi muito significativo no conjunto da obra de Júlia

Lopes. Nós o entendemos como matriz para os demais romances de sua produção, além de ter sido sua

obra mais enfática na denúncia da escravidão no Brasil.

153 Nicolau Sevcenko. Op. Cit., p, 105.

154 Obras de Spencer indicadas pela escritora: Princípios da psicologia (1870/1872) e Princípios de ética

(1892/1893) e de educação.

105

Para a escritora, que produziu grande parte de sua obra para o público feminino,

cabia às mulheres integrarem-se de outra forma à sociedade. Elas se tornariam agentes

sociais, seriam intermediadoras da educação, introdutoras do conhecimento científico,

combatendo as superstições e a ignorância remanescente do Império. Ainda, a seu ver,

as mulheres seriam as principais portadoras dos valores aclamados pelo progresso,

espelhando em suas famílias o que se pretendia para a sociedade como um todo. No

ímpeto de encorajar as mulheres, Júlia convoca-as em tom amigável:

“Vamos, minhas amigas, tenhamos coragem para levar a nossa missão ao cabo.

Ela não é leve, mas é com certeza a mais pura, a mais justa, a mais ampla, a mais

155

bendita entre as benditas! ”.

Para os positivistas, a mulher era a base da família que, por sua vez, era a pedra

fundamental da sociedade. Ela formava o núcleo moral da sociedade, vivendo

basicamente por meio dos sentimentos, ao contrário do homem. Dela dependia a

regeneração da sociedade. Teixeira Mendes, adepto do positivismo, apontava:

“É mister, pois, que a mulher seja libertada do trabalho que lhe alquebra o

corpo, embrutece a alma e que lhe rouba o tempo para educar os filhos, amparar os

velhos e confortar os maridos” .156

Com o desejo existente de superar o atraso atribuído às velhas estruturas

imperiais e patriarcais, com o acelerado crescimento urbano, a penetração do

capitalismo industrial europeu no Brasil dinamizando a vida social, as mulheres eram

convocadas de diferentes formas para entrar em cena, na sociedade, saindo de suas

casas. Acreditando que as mulheres não tinham que concorrer com os homens, mas que

a integridade delas tinha que ser preservada, Júlia passou a atuar ao lado de Berta Lutz,

155 Júlia Lopes. Livro das noivas, p. 203.

156 João Cruz Costa. Op. Cit., p. 254.

106

a partir de 1922, ao integrar, junto com outras intelectuais e esposas de políticos, a

diretoria da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (FBPF). A FBPF procurava

promover

“a educação feminina e elevar o nível de instrução ao alcance das mulheres;

conquistar direitos civis e políticos para as mulheres; proteger mães e filhos; obter

garantias legais em favor do trabalho feminino; promover organizações femininas e

abrir novas oportunidades para as mulheres se engajarem na ação social e política; e

fortalecer os vínculos de amizade com outros países americanos para garantir a

preservação da paz” .157

Júlia captou essa necessidade de reformulação do papel social da mãe e esposa.

Atentando para novas praticas domésticas, principalmente aquelas que envolviam a

saúde e a higiene de suas famílias, as mulheres tornavam-se mais visíveis, tanto no

espaço público como no privado.

A gradativa assimilação das novas práticas higiênicas trouxe novos arranjos para a

organização da família e novas demandas para as mulheres, que agora possuíam um

número maior de interlocutores sociais, como médicos, engenheiros, advogados e

intelectuais. Esses diferentes grupos de cientistas, técnicos e homens de letras

arrogavam para si a missão social de discutir, intervir e se possível de dirigir, tanto a

vida privada como a nova ordem p

158

ública.

Nos primeiros anos de República, as discussões e perspectivas a respeito de um

novo país e a constituição da nação animavam as interlocuções entre os intelectuais

157 Susan K. Besse. Op. Cit., p. 186.

158“Sob a atmosfera da Regeneração, cria-se assim uma ‘opinião pública’ urbana, sequiosa do juízo e da

orientação dos homens de letras que preenchiam as redações. Os intelectuais, por sua vez, vendo

aumentado o seu poder de ação social, anseiam levá-lo às últimas consequências. Pregam reiteradamente

a difusão da alfabetização para a ‘redenção das massas miseráveis’. Desligados da elite social e

econômica, descrentes da casta política, mal encobrem o seu desejo de exercer tutela sobre a larga base

social que se lhes traduzisse em poder de fato” . Nicolau Sevcenko , Op. Cit., p. 95.

107

brasileiros, pois se observavam as transformações sociais e esperava-se destas uma

condução que possibilitasse atualizar a sociedade pela modernização das estruturas, para

assim elevar o nível cultural e material da população. Em decorrência desse processo,

seria natural que se ampliasse a participação política e uma renovada ordem pública.

No entanto, tais expectativas frustraram-se rapidamente para aqueles que

apostaram na educação, no empenho político, na industrialização e na retidão nas

normas reguladoras da sociedade como principais meios impulsionadores do progresso.

As obras de Júlia Lopes anunciavam sua expectativa quanto a uma possibilidade

de construção de um novo país, onde cada cidadão cumpriria espontaneamente o seu

dever de buscar um maior grau de moralidade e conhecimento159. Sua desilusão ao não

encontrar correspondência de suas expectativas com a realidade vigente na República,

foi revelada em sua escrita. Distanciando-se gradualmente do pensamento positivista, a

escrita da romancista começou a pontuar uma sociedade deformada e decaída. Júlia

passou a configurar, principalmente em seus contos e crônicas, famílias degradadas,

dispersas, mães enlouquecidas, perdidas em devaneios, filhos sem perspectivas e

aventureiros, homens sem pernas, embriagados, enfim, uma gama de personagens

imorais, ego

160

ístas, deformados, vaidosos, ignorantes, arrogantes e oportunistas.

Os romances e crônicas de traços realistas e naturalistas produzidos pela autora

procuravam demonstrar as oscilações e intempéries sociais e culturais pelas quais

passava o país em seu tempo, perpassando eventos locais e nacionais estreitamente

ligados a sua história presente. Por meio de sua produção literária e representações, a

159 Foram significativos os romances como: Família Medeiros (1892); Histórias da nossa terra (1907) e

Correio da roça (1913), como obras que indicavam perspectivas de progresso e possibilidade de novas

ordenações econômicas e conhecimento como meio de evolução social para a autora.

160 O romance A falência (1901) trata da especulação financeira que houve com o Encilhamento, mas

fundamentalmente da falta de ética e caráter social dentro e fora da família, núcleo fundamental para a

ordenação da Nação.

108

escritora encontrou uma forma de participar, declarar suas crenças e desilusões, criando,

pelo meio da escrita, caminhos para ordenar e ressignificar aquilo que via e projetava.161

Pela voz do escritor contemporâneo a Júlia, Olavo Bilac, a produção literária foi

posta da seguinte forma:

“A arte não é, como ainda querem alguns sonhadores ingênuos, uma aspiração e

um trabalho à parte, sem ligação com as preocupações da existência. Todas as

preocupações humanas se enfeixam e misturam de modo inseparável. As torres de ouro

e marfim, em que os artistas se fecharam, ruíram desmoronadas. A arte de hoje é

aberta e sujeita a todas as influências do meio e do tempo: para ser a mais bela

representante da vida, ela tem de ouvir e guardar todos os gritos, todas as queixas,

todas as lamentações do rebanho humano” .162

161 “O princípio estético que está na base do realismo moderno [...] é o princípio da mistura dos gêneros,

que permite tratar de maneira séria e mesmo trágica a realidade cotidiana, em toda a extensão dos seus

problemas humanos, sociais, políticos, econômicos, psicológicos: princípios que a estética clássica

condenava, separando claramente o estilo elevado e o conceito de trágico de todo o contato com a

realidade ordinária da vida presente [...]” Auerbach. E. Introdução aos estudos literários, p.27.

162 João do Rio. Op. Cit., p.18.

109

3. A atualização da obra: personagens e lugares em Julia Lopes de Almeida

“o que quero não é escrever meramente; não penso

em deliciar o leitor escorrendo-lhe comoções de

espanto e de imprevisto. Pouco me importo de florir a

frase, fazê-la cantante ou rude, recortá-la a buril ou

golpeá-la a machado; o que eu quero é achar um

engaste novo onde encrave as minhas idéias, seguras

e claras como diamante; o que quero é criar todo o

meu livro, pensamento e forma, fazê-lo fora desta arte

de escrever já banalizada, onde me embaraço com a

raiva de não saber fazer nada de melhor” .163

3.1.Características das personagens nos romances de Júlia.

O aprimoramento das impressões nas áreas tipográficas, a ampliação da presença

de editoras, de jornais e de revistas provavelmente permitiu à escritora Júlia Lopes

integrar-se ao meio literário, produzindo livros tanto para um público adulto quanto

infantil. Publicou ainda artigos em revistas femininas, romances e crônicas que

refletiam sobre questões de esfera pública e privada, enfatizando o público feminino.

Contudo, se a expansão dos novos meios impressos não garantia isoladamente a

presença das escritoras na produção literária. No caso de Júlia Lopes, acreditamos que o

círculo de amizades da autora foi relevante para a sua maior inserção no restrito e

cifrado meio intelectual. Por diversas vezes sua residência abria-se para receber

escritores, donos de jornais, editores de livros; contudo, o contato com editoras de

revistas nos chás da tarde e em salões poderiam significar, para escritoras como Júlia,

uma oportunidade para novas apresentações e recomendações recíprocas uma vez que

163 Júlia Lopes de Almeida, Ânsia Eterna, op. cit., p.2

110

não era convencional às mulheres frequentarem confeitarias ou bares para debaterem

suas idéias literárias.

Simultaneamente havia a manifestação de amizade e acolhimento em relação ao

casal de escritores Filinto e Júlia. A autora era chamada carinhosamente pelos

conhecidos por Dona Júlia, implicando um formalismo e respeito no tratamento entre

amigos, ressalvando que, ao cita Júlia, era comum mencionar sua obra e o

relacionamento com seus filhos, destacando suas características maternais.

No tratamento entre a autora e suas leitoras, Júlia tinha uma forma particular de

se referir a elas: Minha amiga! O tom meigo intencionava cativar a leitora pela

proximidade, estabelecendo um pequeno vínculo de confiança e parceria para os

assuntos que compartilhariam juntas nas próximas páginas. Entretanto, o tratamento

amigável e íntimo talvez fosse a percepção de um traço comum em nossa cultura, que

transitava entre a formalidade e a informalidade, do leitor receptivo ao mais resistente.

Nos primeiros romances de Júlia, a idéia de construção estava associada à

continuidade da história. Seria um tempo mais longo, contínuo e, portanto, passível de

previsibilidade e estabilidade. O destino dos homens estaria em suas mãos a partir do

instante em que estes tivessem um projeto seguro e regular, em que as rupturas ou

descontinuidades seriam meras contingências que, por sua natureza breve, seriam

incorporadas, elaboradas e reconstruídas, direcionadas para o futuro, um futuro tão caro

ao pensamento crédulo de progressos de nossa escritora.

Sem transparecer qualquer arrogância pelo seu didatismo, os personagens

femininos, quando construtivos, tornavam-se indivíduos particulares, íntimos e

confiáveis, buscando cativar a afeição e o apoio dos demais personagens e do leitor. A

personagem central sustentava suas convicções no pensamento lógico, racional e de

111

base científica, demonstrando inteligência, precisão e segurança quanto ao seu presente

e alternativas para sua contemporaneidade e perspectivas de futuro.

Em algumas obras de Júlia, principalmente nos romances, quando as mulheres

eram configuradas como personagens protagonistas em enredos edificantes, entendidas

como positivas, eram incumbidas de tarefas transformadoras, conversoras e redentoras.

A obra, que tinha como fundamento o próprio presente, semeava as perspectivas

possíveis de mudanças necessárias à sociedade, correspondendo aos debates por

natureza inseparáveis da República, tais como: cidadania, abolição, educação, natureza

do brasileiro, nação, debates que revelariam a necessidade de uma educação formal,

moral, higiênica, religiosa, pela alfabetização e atualização do indivíduo com a ciência.

Contudo não é possível enxergar uma linearidade nas idéias da autora no conjunto

de sua produção, ligada a seu tempo movediço e intermitente. Quando Júlia apostou que

a República traria os avanços necessários para o Brasil, investiu em seus primeiros

romances na detração do Império. Após dez anos de República, as obras da autora

refletiam as suas desilusões e frustrações mediante a pouca austeridade da política social

brasileira. Temos como hipótese que, neste movimento de translação entre séculos, Júlia

depositou suas crenças nas mulheres como meio e suporte de suas crenças.

A população do Rio de Janeiro em vinte anos (1900-1920) passou de 691.565 para

1.157.000 habitantes a partir da proclamação da República. A cidade recebeu ex-

escravos, imigrantes e migrantes que vinham à capital com a esperança de conseguir

trabalho, abraçando a expectativa de que, na condição de capital do país, uma nova

ordem se implantaria e a inclusão, de acordo com os discursos políticos republicanos,

era dada como certa por grande parcela da população.

As mulheres também compunham parte desta nova população urbana.

Acreditamos que Júlia acompanhasse as alterações deste novo quadro populacional e,

112

assimilando o fato, a escritora se incumbiria de investir para que as mulheres

acolhessem novas funções.

Acreditamos que os romances Memórias de Marta, A Casa Verde, A Falência, A

164

Família Medeiros, Viúva Simões, A Intrusa e Correio da Roça

sejam obras

significativas na produção de Júlia Lopes quanto a forma com que a autora procurou

interagir em sua época, protagonizando, em seus personagens, representações que

configuravam suas perspectivas e seus ideais.

Partindo do princípio de que a literatura não significava apenas uma ficção mas

um meio para se expressar, a escritora não se contentava em apenas escrever, mas

desejava fazer reverberar suas ideias numa expectativa de que estas fossem

diferenciadas, destacando-se das tantas outras ideias presentes na literatura:

165

“o que eu quero é encontrar um engaste novo para as minhas ideias”.

O que inquietava Júlia? Por que a escritora procurava novas ideias para se

comunicar e assim diferenciar o que pensava daquilo que já existia? Será que a autora

acreditava que, pela leitura ela conseguiria despertar algo de novo, novas percepções e

sensações nos leitores?

Memórias de Marta se passa na cidade do Rio de Janeiro Imperial, e o cortiço tem

uma presença pronunciada e marcante para a personagem central Marta. Esta, pela

164 Referência das obras de Júlia Lopes de Almeida. Memórias de Marta. Tribuna Liberal, Rio de Janeiro,

03 de dezembro de 1888 a 17 de janeiro de 1889; posteriormente publicado como livro em Sorocaba,

Casa Durski em 1899; A casa verde, em colaboração com Filinto de Almeida no Jornal do Comércio, Rio

de Janeiro, de 18 de dezembro a 16 de março de 1899, com pseudônimo de A. Julinto. Foi publicado

como livro apenas em 1932, em São Paulo, Companhia Editora Nacional; A falência. Rio de Janeiro,

Oficina de Obras dÁ Tribuna, 1901; A Família Medeiros, publicado pelo jornal Gazeta de Notícias do

Rio de Janeiro de 16 de outubro a 17 de dezembro de 1891, posteriormente como livro em 1892, e 2

edição, Rio de Janeiro Empresa Nacional de Publicidade, 1919 ; A viúva Simões, publicado no folhetim da

Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, e posteriormente publicado como livro em Lisboa: Antonio Maria

Pereira Editor, 1897; A Intrusa, folhetim do Jornal do Comércio, Rio de Janeiro, 1905, como livro foi

editado por Francisco Alves em 1908; Correio da Roça, primeiramente escrito no folhetim do Jornal O

País de 7 de setembro de 1909 a 17 de outubro de 1910. Como livro foi publicado pela editora de

Francisco Alves em 1913.

165 Júlia Lopes de Almeida. Ânsia eterna, p. 1.

113

instrução, procurava superar seu miserável presente. Neste romance, Marta não atinge a

alegria, compreendendo que sua desgraça e tristeza tinham seu berço na ignorância e

pobreza. A partir desse entendimento, todo o seu sacrifício e trabalho foram em direção

à sua própria educação.

“Corriam os dias na mesma lida e monotonia. Afinquei-me em um estudo quase

aflitivo. O esforço intelectual pôs-me nervosa, irritada, magra. Tinha a constante

preocupação de que ia ser vítima de um desastre imprevisto” .166

No romance, as marcas nos braços da mãe tísica, devidas a queimaduras do ferro

de passar roupa e da goma quente, sinalizavam o esforço que a viúva fazia para a filha

estudar e um dia sair do cortiço; no entanto, ao longo do romance, as doenças que

pairavam pela cidade pareciam ter mais intensidade nos cortiços assim como a

bebedeira, a fome e a usura dos donos de comércios e pensões.

Júlia construíra, em seus romances, a idéia de que o Império era sinônimo de

atraso, desigualdade e decadência. Memórias de Marta (publicado em jornal em 1888-

89) foi escrito e concebido em meio ás discussões republicanas ocorridas na cidade de

Campinas, quando a autora ainda morava na casa de seus pais, ambiente aberto aos

debates políticos e literários, dando condições à Júlia de conviver e refletir acerca de seu

tempo, em condições privilegiadas.

Integrando à narrativa do romance suas experiências, a autora apresentava ao seu

leitor a fase final do Império sem qualquer glamour.

“A minha existência de encerrada, de criança que, numa terra de fartura, não

comera nunca para a sua fome, e cuja única distração que lhe tinha sido

proporcionada fora a do estudo embirrativo, foi a causa do meu atraso em tudo. Não

166 Júlia Lopes de Almeida. Memórias de Marta, p.87.

114

culpo minha mãe, antes a louvo. Pelo pavor à convivência do cortiço prendia-me em

167

pequena junto à tábua de engomar, de que me lembro com desgosto”.

Havia uma negativa do passado e uma melancolia na personagem, pois a mãe de

Marta, e ela própria, sofriam juntas com a precariedade de vida que levavam.

Contrariando seu gosto, os estudos de Marta, apesar de insatisfeita com este, foi o meio

que a libertou da tábua de passar roupa, metáfora do trabalho escravo e rejeição de sua

temporalidade em detrimento das convicções republicanas de Júlia.

O país encontrava-se num momento aparentemente de transição. Foi a partir do

governo republicano de Rodrigues Alves, que o poder público, sob o principal

argumento de que ocorressem mudanças urbanas pelo controle sanitário, deslocou

grande parte da população pobre dos centros da cidade para locais periféricos,

“talvez, nesse período de passagem de século, as questões mais sérias fossem a

insalubridade da cidade e as epidemias que atingiam a todos, ricos e pobres,

brasileiros e estrangeiros. Com o tempo, essa questão deixou de ser apenas um

problema médico-sanitário, para transformar-se numa das justificativas principais

para a reordenação e o disciplinamento do espaço urbano. Esse combate não

significava apenas a luta contra as moléstias e epidemias, mas, sobretudo, a surda

guerra contra a pobreza e a ‘massa incivilizada’ e doente. Assim o projeto para

remodelar e embelezar a cidade deveria passar necessariamente pela luta contra as

doenças insalubres” .168

O aspecto anteriormente abordado pelo historiador José Geraldo Vinci de Moraes,

foi apresentado aos leitores de Júlia em seus romances quando a autora se reportava à

cidade do Rio de Janeiro antes e depois da República. Os dramas se passavam em

167 Júlia Lopes de Almeida. Memórias de Marta, p. 108.

168 José Geraldo Vinci de Moraes. Cidade e cultura urbana na Primeira República., p. 61.

115

quartos insalubres, vielas, permeados pela animosidade entre vizinhos, que se

encontravam na mesma condição miserável. Prostitutas, mendigos e loucos conviviam

com desempregados, vendedores ambulantes e ciganos, às margens da sociedade,

constituindo um conjunto de excluídos urbanos.

Em Memórias de Marta, quando esta consegue sair do cortiço por meio de seu

empenho pessoal tornando-se professora, em sua casa nova, pensa:

“Fizemos a mudança. Agora entrava sem frouxidão a luz do dia na nossa morada

alegre, com um belo cheiro de nova, toda envernizada e limpa. A mobília destacava-se

de velha, rara e feia naquele ninho risonho e fresco; mas... ora! Isso a pouco e pouco se

169

iria arranjar também”.

A nova casa significaria os avanços conquistados pela personagem. Sua melhora

de vida estaria representada na casa iluminada e fresca, oposição à condição que tinha

em seu passado de tristeza, doença e miséria. A casa iluminada e pintada evidenciava

assim o asseio e higiene como combate ao atraso em oposição ao passado sombrio e

insalubre de enorme peso para a personagem. Júlia não intencionava deixar dúvidas ao

seu leitor que os avanços sociais poderiam ser alcançados graças ao esforço pessoal e

pela formalização da educação, oferecendo a disciplina e ordem ao caos.

Outro aspecto de relevo que frequentemente se manifestava na obra de Júlia era a

sua crença na necessidade de existir maior solidariedade social. Essa necessidade se

manifestava ora inspirada em metáforas bíblicas, ora refletindo criticamente sobre o

individualismo excessivo de sua contemporaneidade.

Marta, na Bíblia, era uma mulher comum e trabalhadora. Irmã mais velha de

Maria e Lázaro, abria mão de seus desejos, sacrificando-se para o restabelecimento de

169 Júlia Lopes de Almeida. Op. Cit., p. 97.

116

seu irmão. Marta, a protagonista do romance de Júlia, tinha semelhanças muito