Estação da névoa por Hilário Francisconi - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub, Kindle para obter uma versão completa.
Estação da Névoa - um outro olhar

H. Francisconi

Estação da Névoa

Um outro olhar

Edição do Autor

Niterói/RJ - 2012

Estação da Névoa - um outro olhar.

Copyright © 2012 by H. Francisconi

Niterói/RJ

Capa: vista do autor

ISBN: 978-85-911198-7-5

e-mail: francisprov@hotmail.com

________________ 2

Estação da Névoa - um outro olhar.

Índice

Sugestão, 7

Segunda abertura, 9

O filtro, 13

A gotícula, 17

O tempo, 21

O adestrador e o cão, 29

Estação da Névoa, 31

Visões do cárcere, 47

Onde está você agora? , 51

O sonho, 57

Certa manhã, 73

Uma noite continuada, 79

Uma história sem conflitos, 87

O Rei Bernardo e o tabuleiro de

xadrez,103

________________ 3

Estação da Névoa - um outro olhar.

________________ 4

Estação da Névoa - um outro olhar.

Dedicado

a um outro olhar.

________________ 5

Estação da Névoa - um outro olhar.

________________ 6

Estação da Névoa - um outro olhar.

SUGESTÃO

Proponho

imaginarmos

um

prisma à frente de nossas vistas, assim

como usamos óculos para ver melhor.

Também proponho admitirmos que o

prisma imaginado tenha o poder não de

distorcer a realidade, mas, ao contrário,

a capacidade de nos oferecer a chance de

a tudo enxergar “com outros olhos”.

Assim, podemos concluir que

estereótipos arraigados por força e peso

de uma cultura que nos foi imposta

podem significar apenas “um modo de

________________ 7

Estação da Névoa - um outro olhar.

olhar”, independentemente de qualquer

verdade inquestionável.

Quem entende ou observa um

fato por intermédio de outro ângulo põe-

se ao largo das observações costumeiras;

nota do alto, cuja abrangência lhe

faculta novas ponderações.

O nosso prisma é esse outro

ângulo; uma visão outra que não as

reiterações - a aceitação dos passos

repisados, o conformismo fácil com o

verbo apregoado.

O autor.

________________ 8

Estação da Névoa - um outro olhar.

SEGUNDA ABERTURA

Um olhar

Eu olhava Bernardo, meu neto,

que olhava.

Com nove meses, não se deixa

um menino a olhar sozinho. Eu o olhava

de longe, melhor, à meia distância, que

um guardião está sempre a postos. Ele,

por sua vez, olhava de perto os seus

pertences - ou os seus “emprestados”

da vida, pois, à medida que cresce, o

homem deixa para trás o que já o serviu

e vê à frente.

________________ 9

Estação da Névoa - um outro olhar.

Mas ele estava ali, naquela

tarde, manuseando meticuloso e ainda

sem o completo controle motor aquelas

coisinhas sem importância para nós -

coisas que já deixamos para trás. Foi

quando me aproximei, sentei-me ao seu

lado e tentei compartilhar de seus jogos.

De imediato, sua atenção voltou-se a

mim. E não eram apenas os seus olhos

que me olhavam... era o seu olhar. Há

olhos bonitos, de fato, mas certos

olhares, perscrutadores, incisivos e

profundos são bem mais do que bonitos

olhos. E os olhos de Bernardo são assim

radioscópicos, perguntadores. Havia lá

no fundo, por detrás de todas as

membranas que turvam o mundo, um

outro ser e uma outra época. Ali estavam

o seu passado e o seu futuro. Fiquei

________________ 10

Estação da Névoa - um outro olhar.

imaginando o que eu conhecia dele: o

futuro? O passado? Nada. Eu tinha

apenas o seu olhar, esmiuçador, como

prova irrefutável do presente. Mas eu

sabia que ali dentro, naquele mundo

maravilhosamente novo como uma nova

estrela, habitava um universo inteiro

com todos os sóis, vivos e quentes, a

gritar no coração de uma galáxia: “eu

estou aqui!”.

________________ 11

Estação da Névoa - um outro olhar.

________________ 12

Estação da Névoa - um outro olhar.

O FILTRO

Clarão de meio dia pleno. Olhei à

volta. Um céu passado a limpo, sem

nuvens, aparentemente imaculado. E

tudo me pareceu um déjà-vu.

Os montes verdes, do mais

próximo ao mais distante, apresentavam

tons de cinza e, gradualmente,

esvaneciam brumosos em função da

distância; a cidade inteira de peito

aberto, com suas janelas escancaradas,

era um retrato vívido de lugar comum e

de monotonia. Nenhuma possível

________________ 13

Estação da Névoa - um outro olhar.

minúcia, naquele dia habitual e claro, se

apresentava como uma evidência

significativa aos meus olhos. Mas quem

olha ao redor com olhos de redor não vê

a natureza das coisas. Assim como os

raios do sol esparsos no ar adquirem

força quando convergidos através de

uma lupa e queimam um fragmento de

papel - como fazemos na infância -,

assim também o olhar concentrado,

como um poderoso filtro, transfigura a

realidade e lhe dá um novo resultado.

O clarão do meio dia era um

milagre original e criativo, não uma

redundância anunciada ou um cenário

previsto. A nitidez do dia era o mais

recente Big Bang, renovador; o céu

aberto e limpo era uma fenda a uma

nova dimensão, não um patamar tingido

________________ 14

Estação da Névoa - um outro olhar.

de azul e assinado embaixo: ‘reprise’;

os montes verdes, na sua gradual

tonicidade, eram, por esta mesma razão,

cada qual um novo enigma, não um

quadro impressionista estático no

museu, e as janelas escancaradas no

peito aberto da cidade, não querendo

perder a notícia, assistiam boquiabertas

àquele drama inédito.

________________ 15

Estação da Névoa - um outro olhar.

________________ 16

Estação da Névoa - um outro olhar.

A GOTÍCULA

Remanescente do orvalho, uma

gota matinal, pendente de uma folha

solícita no jardim da casa, é uma vida

pronta.

Solitária e despercebida, a sua vida

líquida, brevíssima e chorosa, atravessa

um ciclo completo, do surgimento à

morte, com as implicações inerentes ao

mesmo milagre reinante na esfera de

uma estrela vésper.

________________ 17

Estação da Névoa - um outro olhar.

O enigma do universo expande-se e

concentra-se ali, na gotícula translúcida.

Essencialmente indispensável à

vida dos organismos, a água, na sua

diplomacia planetária, chancela a sua

representante na folha do jasmim. Ali

empossada, a gotícula desliza o seu

corpo frágil na ranhura verde, equilibra-

se toda na infinitude de sua brevidade,

brilha no átimo de seu desfile despojado

e despenca, no rito de passagem,

entregue à sorte e à vista dos

desavisados.

Insípida na linguagem dos homens,

a gotinha aventureira é o suprassumo

dos paladares, que o gosto da vida não

está na língua; inodora aos sentidos

grosseiros, sua fragrância acompanha os

vapores inebriantes do aroma do

________________ 18

Estação da Névoa - um outro olhar.

jasmim, e incolor à vista insipiente dos

homens ela concentra em seu núcleo os

tons cromáticos de um jardim inteiro.

________________ 19

Estação da Névoa - um outro olhar.

________________ 20

Estação da Névoa - um outro olhar.

O TEMPO

- Acho que não suportarei

aguardar por tanto tempo...

- Preocupado com o futuro?

- Lógico! O meu futuro depende

do resultado desses exames.

- Relaxa. O futuro não existe.

- Ah, está bem. Então o ‘amanhã’

não virá?

- Exatamente. Vivemos apenas o

passado.

- Interessante. Sempre ouvi dizer

que vivemos o presente!

________________ 21

Estação da Névoa - um outro olhar.

- O presente é de tal modo fugaz e

hipersonicamente veloz que jamais o

apreendemos.

- O quê?

- Não vês? O teu segundo passo já

deixou para trás o primeiro e nem

percebeste. E ainda agora te espantas

com o que digo e tudo isto já é passado.

- Espere aí. Você me diz que o

presente, assim como futuro, da mesma

forma não existe?

- Não exatamente. Digo que a

velocidade com que os fatos se sucedem

no presente está muito além da nossa

capacidade de apreender esses mesmos

fatos. O instante ínfimo de um caso real

já é passado, não percebes? Torno a

dizer: agora mesmo, a sucessão

irrefreável de emoções, palavras e

________________ 22

Estação da Névoa - um outro olhar.

imagens geradas neste episódio que

conduz o nosso diálogo já deixa tudo

para trás. Não estamos mais ‘vivendo’ o

que conversamos. Resta-nos apenas um

rastro; a história que criamos durante

este diálogo. Ao mesmo tempo, ao

continuarmos, não fazemos senão

prolongar, indefinidamente, esse mesmo

rastro que constrói a nossa história.

- O que é o futuro?

- Apenas uma projeção mental.

Podemos imaginar ‘como será’ com

base em nossas vivências, no rastro que

deixamos. E isto é passado.

- Então uma boa educação não

garante ao homem um melhor futuro?

- Não. Prepara-o, constantemente,

na construção de um bom passado.

- Diga mais sobre o presente.

________________ 23

Estação da Névoa - um outro olhar.

- O presente, em sua velocidade

incomensurável, explica tudo. Imagina

três quadros, da direita para a esquerda:

o ‘futuro’, o presente e o passado. O

primeiro será nebuloso, pois, como

vimos, não passa de uma projeção de

nossas vontades e experiências; o

segundo, flashes velocíssimos de uma

realidade que sucede a si mesma a cada

ínfimo instante e que, por isso mesmo,

incapaz de sustentar sequer por um

átimo de segundo qualquer ocorrência

que nos chegue aos sentidos, deixando-

nos sempre no passado, este sim, o

terceiro quadro - a nossa real e captável

história.

- Os medos perderiam o seu

sentido?

________________ 24

Estação da Névoa - um outro olhar.

- Não há o que temer. Pensa bem:

quando nos damos conta, tudo já passou.

Se percebeste, ‘avançamos’ para trás...

- Desse modo, quando eu

envelhecer...

- Essa ideia é de futuro. A

condição da velhice está nos flashes de

atos presentes (velocíssimos!) na

formação do passado. Envelhecemos a

cada instante. Basta dizer que o nosso

presente é o mesmo que o nosso

passado. Insisto: jamais notamos o

presente; apenas o passado. Porém, se

conto com 63 anos de idade e me

imagino aos 103 apenas projeto o meu

pensamento para o quadro nebuloso do

chamado ‘futuro’. Aos 103, não direi

que atingi o futuro, mas que, e tão

somente, tomei consciência da extensão

________________ 25

Estação da Névoa - um outro olhar.

do meu passado. O presente é ligeiro

demais; o futuro, nebuloso.

- Afinal, estamos vivendo ou não

o presente?

- Reforçando a ideia, o presente

não é um estado estático na natureza. E

de tal forma é dinâmico e veloz que

passamos a ter consciência apenas do

que já passou.

- Sabemos que há uma noção

muito nítida, em nossas consciências,

sobre os estados presente e passado.

Como assimilar uma nova ótica?

- Percebendo que o passado

manifesta-se

sob

três

aspectos:

‘limítrofe’, ‘mediano’ e ‘remoto’. O

primeiro diz respeito ao mais imediato

passado. Esta minha resposta à tua

última pergunta é ‘limítrofe’ aos flashes

________________ 26

Estação da Névoa - um outro olhar.

do presente. Assim, mais uma vez, a

nossa história está sendo construída; o

segundo, ‘mediano’, revela-se pouco

mais maduro, o que constitui um drama,

digamos, mais sólido, consistente e

inteligível. Já o terceiro aspecto do

passado é a história, de cada ser, que se

estende e se completa. Isto é a nossa

vida. Não o presente, não o futuro.

- Desculpe, mas agora preciso ir.

São 12h e a minha consulta, com o

resultado dos exames, está marcada para

as 13h.

- Os números e os ponteiros do

teu relógio representam uma abstração.

Tudo acontece agora para o formato de

tua história. Ao chegares no consultório,

o teu relógio estará marcando 13h não

porque o pequeno aparelho no teu pulso

________________ 27

Estação da Névoa - um outro olhar.

fez o tempo andar para a frente. Ao

contrário, porque caminhaste para trás,

na história construída pelo teu fugaz e

ligeiríssimo presente. Todas as garantias

estão depositadas no passado. Assim,

somente o fato consumado é digno de

ser real.

- Bem, até logo...

- Não. Até o consumado.

________________ 28

Estação da Névoa - um outro olhar.

O ADESTRADOR E O CÃO

Zezinho leva os cães do

condomínio a passear. Não todos de

uma só vez. São dias marcados para o

labrador, o pastor alemão... Esta manhã

eu o vejo com o husky siberiano do

vizinho lá de baixo. Preso à guia

retesada, o cão avança paralelo aos

passos do adestrador. Sei que do homem

o cão é o melhor amigo, mas sabemos

também que dos cães não são amigos

todos os homens. Aí está uma larga

vantagem, na escala evolutiva dos seres,

________________ 29

Estação da Névoa - um outro olhar.

do animal cão sobre o homem animal.

Enquanto este traz encoleirada em sua

consciência o poder de reinar sobre os

bichos, aquele, ainda que sem a

consciência de saber-se reinado, é o

súdito pronto por natureza, o servo e

amigo incondicional.

Os dois sobem a rua. Estão unidos

como dois elos de uma corrente. O cão,

a coleira em seu pescoço, a corrente

presa a ela e esta atrelada à mão firme

do homem são uma expressão única na

paisagem. Nessa paisagem em que nada

mais me interessa senão essa singular

linguagem. Eu os vejo como dois e

únicos sobreviventes à catástrofe

mundial. Noto o halo que os envolve e

os distingue de todos; que os redime de

tudo...

________________ 30

Estação da Névoa - um outro olhar.

ESTAÇÃO DA NÉVOA

Era uma colônia de pescadores.

Gente humilde que vivia no canto leste

da pequena cidade. Suas casas eram

muito modestas e ficavam espremidas

entre o mar à frente, os morros atrás e

ainda, nas extremidades laterais, por

duas fortalezas do exército.

Não se poderia dizer, de forma

alguma,

que

aquele

comprimido

povoado fosse um exemplo de união e

solidariedade entre os seus membros. A

________________ 31

Estação da Névoa - um outro olhar.

sua relação de convivência não

ultrapassava o propósito de interesses

comerciais

e,

egoisticamente,

individuais.

Havia

muito,

aquela

agremiação

abandonara

os

bons

costumes para o fortalecimento e

manutenção da amizade. Não que o

desrespeito mútuo e direto fosse uma

tônica entre eles; ao contrário, a

indiferença no trato de suas relações

afetivas levava-os à quase invisibilidade

de seus pares.

Mas também havia algum tempo

que as manhãs vinham sendo tomadas

por uma bruma, vinda do mar, que já

encobria parte do cais. Ela viera do Sul,

desenhara uma curva na direção do

oceano e resolvera, com força, retornar à

costa.

________________ 32

Estação da Névoa - um outro olhar.

Com a sucessão dos dias,

sorrateiramente, aquela visita inesperada

avançava os seus braços brumosos e o

seu volume já alcançava a faixa arenosa

da pequena praia. Diferentemente de

dissipar-se, como todos esperavam, ela

ainda mais espessa se formava, do

amanhecer ao cair da tarde e durante

toda a noite.

O misterioso fenômeno agravou-

se quando a névoa já invadia as

humildes moradias e o povo, acuado, viu

ameaçada a sua sobrevivência. É que

isso dificultava sobremaneira o trabalho

dos pescadores. Única fonte de renda à

região, a pescaria tornou-se inviável. A

reduzida

população

caminhava

praticamente às cegas nas curtas e

estreitas travessas que costuravam e

________________ 33

Estação da Névoa - um outro olhar.

entrelaçavam as casinhas. Os passantes

topavam-se uns nos outros e quase não

se reconheciam fora de seus lares.

Mas o velho Arduíno, um

pescador que aposentara suas redes,

viúvo e solitário, era o único que se

movia com desenvoltura no meio do

espesso nevoeiro. Apaixonado pelas

coisas do mar, as suas teses, quando de

suas raríssimas saídas de casa, não

obtinham o justo rescaldo. Entre uma

frase e outra, embora não lhe confiassem

atenção, dizia a todos que conseguia,

sem esforço algum, enxergar através da

névoa. Falava não compreender por que

as pessoas não viam o que ele via; por

que não enxergavam os peixes que ele

enxergava; por que andavam tristes e

preocupados se o céu estava sempre azul

________________ 34

Estação da Névoa - um outro olhar.

e o pequeno cais fosse colorido como

nunca?

A notícia sobre o assombro do

velho espalhou-se, contrariando até

mesmo a escassez de comunicação e,

rapidamente, ele fora diagnosticado pela

vizinhança como portador de uma

patologia qualquer. Havia muito já não

lhe davam crédito. Era um ermitão.

Enclausurara-se agarrado à sua viuvez e

deixava o seu pequeno quarto alugado,

nos fundos de uma pensão, somente

pelas manhãs bem cedo e às tardes, ao

pôr do sol, para conversar com a estrela.

Os dias passavam e a bruma, um

lençol pesadíssimo que se estendia

compacto, cobria a pequena colônia e

isolava-a do mundo. Os colonos

entregavam-se já à míngua e os barcos

________________ 35

Estação da Névoa - um outro olhar.

não mais desatavam suas amarras do

cais ou içavam suas âncoras. Das duas

ou três embarcações que, certa manhã

cega, se arriscaram mar adentro jamais

se obtiveram notícias, tampouco de seus

tripulantes.

Logo após essa tragédia, que fora

enfim capaz de despertar os brios de

toda a comunidade, uma reunião foi

marcada às pressas na igrejinha da

colônia. O mais falante e instruído dos

pescadores foi quem organizara tudo.

Sem dúvida, o principal item da pauta

versava sobre a penúria e sobrevivência

do grupo.

A reunião teve início por volta das

18h, no primeiro domingo do mês de

agosto, no inverno que ficaria marcado

________________ 36

Estação da Névoa - um outro olhar.

para sempre, nos corpos e almas daquela

gente, como A estação da Névoa.

Com as duas abas em madeira de

lei abertas de sua grande porta, a

igrejinha permitia, a um tempo, tanto o

acesso ao seu interior por parte dos

paroquianos

como,

de

modo

incontornável, a liberdade para a entrada

da névoa. Assim que abertas, a nuvem

entrou primeiro, veloz, e preencheu os

espaços permitidos. Aos poucos, os

assentos eram ocupados nos bancos de

madeira pelo povo e, sem muita demora,

todo o recinto estava já tomado daquela

gente e fumaça. Apenas as abas da porta

tiveram de permanecer escancaradas, já

que um pequeno grupo, do lado de fora,

não conseguira o seu espaço. Quem

estivesse ali, postado de pé ao umbral,

________________ 37

Estação da Névoa - um outro olhar.

embora ouvisse muito bem as palestras,

não distinguiria com total nitidez quem

as tivesse proferindo. Tudo pronto e

todos a postos, o pescador falante e

instruído foi quem abriu os trabalhos:

- Minha gente amiga, todos

sabemos por que estamos aqui. Eu não

trago nenhuma solução, apenas a minha

fé e esperança em que a nuvem

misteriosa vá embora. Está claro que

precisamos traçar um plano de

sobrevivência...

Nesse momento, o velho Arduíno

levantou-se de seu assento, em meio à

bruma, e, a contragosto dos presentes,

pediu a palavra. Um jovem colono, ao

seu lado, ainda tentou puxá-lo pelo

casaco obrigando-o a sentar-se. Mas

antes que a sua macérrima compleição

________________ 38

Estação da Névoa - um outro olhar.

fosse bruscamente repuxada pela roupa,

o velho desvencilhou-se e falou de modo

que todos o ouvissem:

- Senhor - disse firmemente ao

homem que abrira a reunião no púlpito,

à frente do altar -, como sabe, o meu

nome é Arduíno. Esta madrugada eu

ouvi um galo que anunciava a manhã.

Ele cantou como faz em todas as

madrugadas e despertou outros galos

que passaram a fazer o mesmo. Então

me levantei da cama e fui até o cais. O

dia despontava muito claro e um

cardume de sardinhas circulava próximo

à superfície da água à minha frente.

Houve

certo

burburinho

descontrolado entre os presentes, já que

não se avistavam muito bem.

________________ 39

Estação da Névoa - um outro olhar.

- Por favor, minha gente, silêncio!

- pediu o homem do púlpito - Eu não o

vejo com muita clareza daqui, mas o

que você quer dizer com isso, meu

velho?

- Ontem à noite a lua brilhava

muito cheia no céu, abaixo das estrelas

vivas, e eu ouvi os nossos cães que

uivavam.

- Galos? Lua? Estrelas? Cães? -

voltou o homem do púlpito. - O que há

com você, velho? Acaso entende por

que estamos reunidos?

- Sim. Para enxergar.

O jovem ao seu lado começou a

rir, mas não voltou a puxar-lhe o casaco.

O velho não se intimidou com aquele

desprezo e manteve o olhar fixo na

direção do altar. O homem no púlpito,

________________ 40

Estação da Névoa - um outro olhar.

antes de sentar-se numa pequena

cadeira, lançou-lhe outro desafio:

- Mas enxergar o quê?...

- Não há nevoeiro algum,

senhor...

Agora todos riam, esquecidos de

suas tragédias.

Ainda sentado, e não se soube se

mais preocupado com a saúde do velho

do que propriamente com o conteúdo de

seu discurso, o palestrante ordenou

silêncio, mais uma vez, e pediu ao

ancião que subisse àquele patamar.

Então Arduíno deixou o seu assento,

livrou-se com facilidade dos risos,

pernas e zombaria, galgou alguns

degraus e logo alcançou a parte alta, que

ostentava na parede uma grande cruz.

________________ 41

Estação da Névoa - um outro olhar.

- Não há nevoeiro algum,

senhores - disse alto o velho. - O nosso

alimento está na água, fácil de apanhá-

lo, e eu avisto, daqui mesmo e por estas

portas abertas, o nosso lindo cais -

falou e fez uma breve pausa. – Qual foi

a última vez que os senhores ouviram os

galos? Haverá pelo menos mais um

dentre todos aqui presentes que tenha

erguido os olhos, em algum momento

das últimas noites, e admirado a lua?

Agora mesmo procuram uns aos outros,

por entre uma nuvem que dizem afetar-

lhes as vistas, mas quantas vezes

procuraram-se, entre si, em dias sem

tormenta?

Os risos e os deboches, que

haviam cessado por ordem do homem

instruído, não voltaram mais. Em seu

________________ 42

Estação da Névoa - um outro olhar.

lugar, o silêncio fez coro com a bruma e,

harmoniosamente, amalgamou-se nela.

O ancião continuou:

- Eu os convido, a todos, para

virem comigo ao cais pela manhã bem

cedo. Não olhem para os seus relógios,

mas levantem-se assim que ouvirem o

canto do primeiro galo. Estejam todos

prontos e arrumados tão logo lhe

responda a segunda ave, e somente

deixem as suas casas ao escutarem, com

ouvidos apurados, o terceiro grito

empoleirado na distância.

A esta altura, o silêncio tombou

tão pesadamente sobre os escrúpulos da

gente reunida que a bruma, antes

ameaçadora, tornou-se leve e o pescador

instruído, sentado na sua cadeira, baixou

a cabeça em profunda meditação.

________________ 43

Estação da Névoa - um outro olhar.

- Digo pouco mais, meus queridos

- prosseguiu o velho -, ao chegarmos

ao cais, pela manhã, então iremos

aplaudir o sol porque não será o mesmo

como é comum imaginarmos, mas um

novo sol de um novo dia, que os dias

não são iguais. E os peixes lá estarão e

muitos outros nas profundezas, como

sempre estiveram e anunciados pelas

gaivotas, e então lançaremos nossas

redes dos nossos barcos e voltaremos

com os ventos de leste, que são os

ventos que nos trazem de volta para

casa. Sobre as nossas mesas estará um

alimento que apreciaremos bem antes de

degustá-lo, que toda a atenção lhe deve

ser devida a essa hora.

Outro

pequeno

vozerio

se

avolumou de uma só vez, partindo de

________________ 44

Estação da Névoa - um outro olhar.

todos os cantos da igrejinha, mas cessou

em seguida, que aquela gente não estava

acostumada a dirigir suas palavras.

Contudo, era a primeira vez em muito

tempo, apesar da grande dificuldade,

que eles se entreolhavam.

Lá fora, alguns cães uivaram e

provocaram, no interior da igreja, novo e

atordoado rumor.

Mas foi somente depois que os

vitrais multicolores das pequeninas

janelas se acenderam com o brilho da

lua e banharam com a sua luz todo o

recinto que os colonos se deram conta

de que a neblina havia se dissipado...

________________ 45

Estação da Névoa - um outro olhar.

________________ 46

Estação da Névoa - um outro olhar.

VISÕES DO CÁRCERE

Vejo a mulher que está presa. Sei

que a mulher pode deixar o cárcere por

livre gosto e vontade. Mas também sei

que a sua preferência é por ficar.

Mantendo-se ali, cumprindo a sua

condenação, a mulher paga as suas

contas

e

auxilia

no

orçamento

doméstico.

Estou no apartamento de família

amiga, à minha frente e por todos os

lados erguem-se os prédios com as suas

celas particulares e ermas.

Há uma plantação arquitetônica

excessiva de masmorras empilhadas e

seus calabouços de regime semiaberto.

________________ 47

Estação da Névoa - um outro olhar.

Porém, para essa mulher há uma

conceituação invertida do regime: após

um dia de trabalho encerrada no

cubículo ela é posta a dormir em casa.

Ela está no edifício em frente que,

como todos os outros, não é distante.

Tudo é demasiadamente perto e

espremido na cidade: o trânsito, as

moradias, o horário, a vida...

Há um vento cortante frio e baixo,

vindo do lado do mar, que invade o

bairro; balança as roupas enforcadas no

varal exíguo da área de serviço em que a

mulher trabalha. Ela retira, uma a uma,

as roupas daquilo que suponho ser a

máquina de lavar. Não distingo o seu

olhar - seria demais tamanho aperto -,

mas o seu manuseio é maquinal como

aquele obtuso maquinário, com a triste

________________ 48

Estação da Névoa - um outro olhar.

diferença de que a mulher se mantém

em silêncio. E são janelas tantas naquele

prédio! Fosse um poema isto e eu

rimaria, pobremente, com tédio... E

todas engradadas, as janelas, senão de

aço mas de alumínio, como se essa

diferença não traduzisse o espanto de

sentir-se, aquela mulher, presa.

Eu não perco o meu tempo. Apenas

a observo. Eu a observo como quem se

despede de um viajante, que há estações

outras nos trilhos da existência.

A máquina despeja, com o seu

barulho, toda a água.

A mulher estende, no varal que vara

o dia, toda a mágoa.

Mas isto não é um poema.

________________ 49

Estação da Névoa - um outro olhar.

________________ 50

Estação da Névoa - um outro olhar.

ONDE ESTÁ VOCÊ AGORA?

O Dr. Reven Snaten dormira

recostado no espaldar de couro da

poltrona em seu escritório domiciliar.

Sobre o colo, um volume de ‘ O Raio

Verde’, de Júlio Verne. Dormira assim,

exausto, e sequer se lembrara de seus

remédios para o controle da hipertensão

arterial. Era muito comum esquecer-se

disso e não fosse a mulher lembrá-lo,

quando já houvesse perdido a hora e até

alguns dias sem usá-los, o Dr. Reven

________________ 51

Estação da Névoa - um outro olhar.

teria já partido, há muito, para outras

sintonias.

Chovia um céu pesado naquela

manhã muito cedo quando o velho

despertou depois de um longo e

estrondoso relâmpago causado por uma

descarga elétrica que caíra nas

proximidades. Ainda sonolento, fechou

o livro, levantou-se e caminhou com

lentidão na direção da estante. Mas antes

de ajustá-lo, com carinho, entre duas

outras lombadas que reservavam o seu

lugar, ainda disse ao seu autor predileto

que dormira com ele:

- Onde está você agora, meu

velho urso? Em que dimensão e para

quem escreve?

O Dr. Reven jamais se acostumara

com a aceitação de que os grandes

________________ 52

Estação da Névoa - um outro olhar.

pensadores - idealistas universais -

nos deixassem assim, por contingência

da natureza e expectativa de vida, e

nunca mais produzissem coisa alguma

em nome da grande literatura. ‘ Onde

está você agora?’ era, desta maneira, a

pergunta que lhe constituía um estado

lamentável de irreversível indignação.

Olhou-se e notou que dormira de

paletó e gravata.

Pouco

depois,

deixava

o

apartamento usando a área de serviço,

no décimo segundo andar, e acionava,

no corredor do prédio, o botão do

elevador. Desceu solitário. Chegou ao

saguão

principal

do

edifício

e

cumprimentou

o

porteiro

que,

completamente absorto a separar e

distribuir

nos

escaninhos

as

________________ 53

Estação da Névoa - um outro olhar.

correspondências dos condôminos, não

lhe respondeu. Também indiferente, Dr.

Reven alcançou a porta de vidro, que se

encontrava aberta, e parou no passeio

público. Debaixo da marquise do prédio,

apenas olhou a chuva torrencial e

desistiu de comprar os jornais. Tornou a

subir os degraus, deixou para trás a porta

envidraçada, que continuou entreaberta,

lançou mais um olhar para o porteiro

atarefado e dirigiu-se novamente ao

elevador.

Desta vez, entrou no apartamento

usando a porta do cômodo social. Viu a

mulher e o filho. Ela, sentada no sofá,

apoiava o queixo com a palma da mão.

Ele, o filho, sobre um tapete claro,

sustentava ideias obscuras.

________________ 54

Estação da Névoa - um outro olhar.

Dr. Reven aproximou-se da

mulher e perguntou-lhe a razão de estar

usando roupas pretas. Sem obter

resposta, voltou na direção do filho,

abaixou-se um pouco e tentou acariciá-

lo, mas as suas mãos trespassaram a

cabeça do menino. Então o velho se

levantou, lúgubre, e caminhou na

direção de uma das paredes da sala. Mas

antes mesmo de atravessar o seu corpo

através da alvenaria ainda ouviu de sua

mulher, que fitava, a esmo, o invisível:

- Onde está você agora, meu

velho?

________________ 55

Estação da Névoa - um outro olhar.

________________ 56

Estação da Névoa - um outro olhar.

O SONHO