Estarás Sempre Comigo por Anna McPartlin - Versão HTML

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Ficha Técnica

Título original: Pack Up The Moon

Título: Estarás Sempre Comigo

Autor: Anna M cPartlin

Tradução: M aria Correia

Revisão: Silvina de Sousa

Tradução: M aria Correia

Capa: M aria M anuel Lacerda/Oficina do Livro, Lda.

ISBN: 9789895557363

QUINTA ESSÊNCIA

uma marca da Oficina do Livro – Sociedade Editorial, Lda

uma empresa do grupo LeYa

Rua Cidade de Córdova, n.º 2

2610-038 Alfragide – Portugal

Tel. (+351) 21 427 22 00

Fax. (+351) 21 427 22 01

© Anna M cPartlin, 2005

Todos os direitos reservados de acordo com a legislação em vigor

E-mail: quintaessencia@oficinadolivro.leya.com

www.quintaessencia.com.pt

www.leya.pt

Para a minha mãe

que me ensinou a encontrar o mais pequenino raio de luz mesmo nos lugares mais sombrios.

Para a Mary e o Tony O’Shea

por serem meus pais.

Para Halli e

porque sim…

As estrelas já não são precisas, apaguem-nas uma a uma;

Guardem a Lua e desmontem o Sol;

Esvaziem o oceano e varram a floresta;

Pois já nada vale a pena.

in Funeral Blues, W. H. Auden

1

A ténue linha azul

Estávamos no início de Março e chovia. As nuvens aliviavam-se da sua carga com uma ferocidade

semelhante à de um bêbedo a urinar depois de ter bebido catorze cervejas. Olhei através da vidraça

embaciada, imaginando o impacte que o aguaceiro teria na minha roupa branca, enquanto as bátegas eram

furiosamente sopradas pelo vendaval. Depois olhei para o chão, reparando imediatamente no tom

amarelado da massa à volta da sanita.

Homens, pensei. Será assim tão difícil acertar no buraco? Perguntei-me então como conseguiria o

meu namorado jogar bilhar e colocar as bolas todas no buraco sem falhar uma, estacionar o carro num

espaço do tamanho de um selo e, ainda assim, no que toca a apontar o pirilau na direcção de um buraco

grande, ter a pontaria de um bêbedo. Senti o frio da borda da banheira por baixo da minha saia

Três minutos.

Três minutos podem ser muito tempo. Perguntei-me se pareceriam muito longos se estivesse a

desarmar uma bomba. Comecei a contar os segundos, mas depressa perdi o interesse. O espelho

precisava de uma limpeza. Iria fazê-lo no dia seguinte. Distraidamente, brinquei com o stick que tinha na

mão até que me lembrei que acabara de urinar nele. Pousei-o. Sacudi o pó invisível da minha saia, um

hábito que apanhara do meu pai, apesar de, obviamente, ele não usar saia. Era a nossa reacção aos

nervos. Algumas pessoas esfregam as mãos; eu e o meu pai limpávamos a roupa.

A primeira vez que realmente reparei nessa peculiaridade que tínhamos em comum foi quando o meu

irmão, aos dezassete anos, anunciou que, em vez de se tornar o médico com que os meus pais haviam

sonhado, ia para padre. A minha mãe, petrificada pelo pensamento de perder o filho para um Deus

abstracto, passou uma tarde inteira a gritar até se acalmar e ter ido parar à cama durante quatro dias. O

meu pai sentara-se em silêncio, a limpar o fato. Nada disse, mas sentia-se profundamente desapontado.

Recordo-me de que não me pressionaram muito nessa altura. Enquanto adolescente egocêntrica, não

partilhava as mesmas preocupações sobre o sacrifício do Noel com os meus pais, apesar de a ideia de

termos um padre na família me envergonhar um bocadinho.

Na altura, eu e o meu irmão não éramos muito próximos. Ele era o típico sabichão, estudioso, intenso e

politicamente consciente. Estudava muito, levava sempre o lixo para a rua sem sequer lhe pedirem e era

um grande fã de Doctor Who. Nunca fumara, nunca bebera antes da idade própria, nem se metia com

raparigas. Durante algum tempo, pensei que fosse homossexual, mas depressa me passou essa teoria

quando me apercebi de que para se ser gay é preciso ser-se interessante. Entretanto tornáramo-nos

adultos e, apesar de eu nunca ter percebido a sua devoção ao Todo-Poderoso, os tempos haviam mudado

e todas as características que fizeram dele um adolescente sabichão transformaram-no num adulto

fascinante. O padre Noel era um dos meus melhores amigos.

Dois minutos.

Eu tinha vinte e seis anos. Estava apaixonada e a viver com o John, o meu amor de infância. Tive o

prazer de ver o meu amante crescer e transformar-se de um rapaz loiro, de olhos azuis, idealista, num

homem loiro, de olhos azuis, seguro de si. Já estávamos juntos havia doze anos e para mim ele era, sem

dúvida alguma, o Tal. Vivíamos juntos desde a faculdade. Alugáramos um apartamento engraçado – dois

quartos, duas casas de banho, uma cozinha e uma sala de estar confortável – à saída de Stephen’s Green

e, apesar de pequeno e por vezes cheirar a velhotas, não nos saía muito caro, o que era excelente, tendo

em conta a localização. Eu tinha um bom emprego. Ensinar não era propriamente o sonho da minha vida,

mas nessa altura considerava-me com sorte por ter sido aliviada do fardo da ambição. Ensinar parecia

ser um trabalho tão bom como qualquer outro. Havia dias em que gostava das crianças e outros em que

não, mas era um emprego estável. Chegava a casa a maior parte dos dias às quatro e meia e tinha três

meses de férias no Verão. O John ainda estava na faculdade a fazer um doutoramento em Psicologia, mas

também trabalhava quatro vezes por semana como empregado num bar. Havia semanas em que ele trazia

para casa mais dinheiro do que eu e dizia que aprendia mais com as pessoas bêbedas do que com o que

lhe ensinavam na faculdade.

Vivíamos felizes. Éramos um casal feliz e bem ajustado. Levávamos uma boa vida, tínhamos boas

perspectivas e bons amigos. Há muitas pessoas que gostariam de ter a segurança que nós tínhamos um

com o outro.

Um minuto.

A minha mãe perguntava várias vezes em voz alta quando é que eu e o John pensaríamos casar-nos. Eu

dizia-lhe que se metesse na sua vida. Ela respondia que eu era a vida dela. Discutíamos sobre o tema da

privacidade por oposição ao amor de mãe. Aos vinte e seis anos, sentia-me ainda muito nova para me

casar e esse sentimento permanecia em mim, apesar de a minha mãe me estar sempre a lembrar que aos

vinte e quatro anos já tinha dois filhos.

– Eram outros tempos – costumava eu dizer, e era verdade. A maior parte dos amigos da minha mãe já

estava casada e com filhos aos vinte e poucos. Eu era de uma geração completamente diferente. A Show

Band contra a geração MTV. Enquanto ela crescera a ouvir Dickie Rock, eu rodopiava ao som da

Madonna. Antes de conhecer o meu pai, a sua ideia de uma noite de diversão era ficar encostada à parede

no salão de baile, à espera que um dos rapazes a fosse buscar para uma valsa. Eu, por outro lado, era da

geração disco. Além disso, nenhum dos meus amigos era casado.

Trinta segundos.

Muito bem, é mentira. A Anne e o Richard conheceram-se na faculdade. Ela era a filha do meio de uma

família de classe média de Swords. Ele era o filho de um dos latifundiários mais ricos de Kildare.

Encontraram-se na fila para se inscreverem num grupo de teatro amador. Meteram conversa e

abandonaram a fila para ir tomar café. Depois disso, tornaram-se inseparáveis. Casaram-se um ano após

terem acabado a faculdade. Grande coisa, eles eram os únicos nessa situação.

Clodagh, a minha melhor amiga desde os quatro anos, nunca conseguira manter uma relação por mais

de quatro meses. Saíra da faculdade uma mulher tenaz, inteligente e trabalhadora, conseguindo chegar a

senior account manager de uma grande empresa de publicidade em apenas três anos. Era bem-sucedida

em tudo o que fazia, com a pequena excepção da sua vida romântica, e essa falha magoava-a. Depois,

havia o melhor amigo do John, Seán – sombrio, taciturno, algo seco e lindo. Clo chamava-lhe «o David

Vivo». Ele não só conquistara oitenta por cento das raparigas do Trinity Arts, como também conseguira

namorar algumas professoras. A sua relação mais longa até à data fora com uma americana chamada

Candyapple (é o seu nome verdadeiro, não estou a brincar) durante um Verão que passámos a trabalhar

em Nova Jérsia. Era a típica rapariga de tez mestiça, com olhos castanhos, peito grande, cintura pequena.

Tinha cabelo comprido encaracolado que fazia lembrar à Anne o guitarrista dos Queen, Brian May. Seán

chamava-lhe «Deliciosa»; nós chamávamos-lhe «Brian». O namoro durou seis semanas. Ele deixou a

faculdade e, depois de alguns passos em falso, caiu em si, arranjando um emprego como editor de uma

revista masculina. A sua perspicácia, a adoração sincera pelo futebol e conhecimento enciclopédico da

carnalidade feminina asseguravam-lhe sucesso contínuo. As relações não interessavam e o casamento e a

família certamente não eram para ele uma prioridade.

Dez segundos.

John amava a vida que tínhamos. Conhecem aqueles casais presunçosos com que ao primeiro encontro

antipatizamos imediatamente? Ele podia ser assim. Parecia não se importar que Seán houvesse tido a sua

conta de mulheres ao longo da faculdade. Nunca se importou por só ter tido sexo com uma pessoa.

Sentia-se satisfeito, amado, feliz. Era alguém raro. Nós éramos fora do comum.

Tínhamos ambos dezasseis anos quando fizemos amor pela primeira vez. Numa tenda, acampados junto

de uma colina em Wicklow. Era uma noite quente de Verão, sem uma nuvem no horizonte. Estava lua

cheia, redonda e brilhante, o céu tingido de um azul profundo e espesso como veludo, e as árvores, altas

e frondosas, reflectiam tons acobreados. Não havia vento nem uma brisa bulia, o mundo encontrava-se

em paz. Fizemos a nossa pequena fogueira, tínhamos um cesto de piquenique, uma caixa de preservativos

e uma garrafa de vinho, do qual só bebemos um gole, pois as nossas papilas gustativas ainda não o

sabiam apreciar, confundindo a sua frescura frutada com algo azedo. Os beijos passaram às carícias, que,

por sua vez, deram origem a abraços apertados, que levaram a festinhas com o nariz, que conduziram a

pouco e pouco ao acariciar febril dos genitais e, num instante, estávamos nos braços um do outro olhando

para as manchas de beatas na tenda azul e interrogando-nos por que razão, afinal de contas, haveria tanto

alarido sobre aquilo.

A Clo tinha-me dito que a prática levava à perfeição. Nós fizemo-lo quatro vezes antes de

regressarmos a casa dos nossos pais, orgulhosos e cheios de segredos.

Cinco segundos.

Eu não estava preparada. Senti-me doente e rezei para que fosse algo relacionado com o stresse e não

com enjoos matinais.

Merda! O que vou fazer? Não quero ser mãe. Não quero ser esposa. Não me quero sentir como a

minha mãe antes de ter vivido. Pretendo fazer coisas, não tenho bem a certeza do quê. Desejo ir a

vários sítios, não sei bem aonde. Não estou preparada.

Não tinha dito ao John que o meu período se atrasara duas semanas e nem sequer comentei que

comprara um teste de gravidez. Não estava habituada a guardar segredos para com ele, mas tinha a

certeza de que não o queria envolver naquilo.

Porquê preocupá-lo?

O problema é que eu não tinha a certeza se ele iria ficar preocupado. Ele sorria sempre que a minha

mãe brincava connosco sobre o casamento e bebés. Era capaz de parar durante as compras no

supermercado e ficar a observar uma criança a brincar, enquanto eu continuava impaciente com tudo e

desejosa de me despachar.

Dois segundos.

Ele ficaria animado, sei bem. Pior que isso, iria querer o bebé. Não haveria sobrancelhas franzidas

nem decisões difíceis a tomar. Haveria muita animação e planeamento e livros e roupas de bebé.

Comecei a sentir dores de estômago.

Não estou preparada.

As minhas mãos tremeram quando virei o stick.

Por favor, não sejas azul, meu Deus, não sejas azul!

Tinha os olhos fechados apesar de não me lembrar de os ter fechado voluntariamente. Respirei fundo e

isto lembrou-me que era fumadora, por isso pousei o stick e corri ao meu quarto para ir buscar o maço de

tabaco. Voltei e acendi um cigarro. Inalei profundamente, determinada a desfrutar do que podia ser o meu

último cigarro durante um longo período. A minha intenção era acabá-lo antes de desvendar o meu futuro.

No entanto, este plano gorou-se pelo som das chaves do John na porta principal. Apaguei o cigarro à

pressa, colocando-o na água fria com uma mão enquanto abanava com a outra numa tentativa de dissipar

o fumo, que parecia crescer em todo o espaço confinado da casa de banho. Ouvi os seus passos a subir as

escadas até ao sítio onde me encontrava. Já não tinha mais tempo.

– Emma!

– Estou na casa de banho! – gritei, num tom um pouco estridente.

Ele tentou abrir a porta. Olhei, indefesa, escondendo o stick na manga da camisola. Estava trancada.

Respirei de alívio.

– Porque tens a porta trancada? – perguntou, desconfiado.

– Sabes que tranco sempre a porta – menti, rezando para que ele perdesse a memória

momentaneamente.

Não aconteceu.

– Não, não trancas – disse ele, puxando a maçaneta.

– John – retorqui com firmeza –, podes dar-me só segundo?

– Ouvi-o afastar-se para o quarto e murmurar qualquer coisa sobre eu ser uma cabra quando estava

com o período.

Quem me dera.

Sentei-me e virei o stick. Olhei para ele durante séculos. Fechei a mão e depois voltei a olhar. Mordi o

lábio, magoando-me enquanto o fazia. Abri os dedos outra vez, revelando um branco glorioso. Nem uma

pinta de azul. Aproximei-me da janela para ter a máxima luz. Nada. Estava limpo. Sem linha azul. Tinha a

minha vida de volta. Não estava grávida. Nem um bocadinho grávida. Tratava-se apenas de um atraso e

estava convidada para uma festa.

Obrigada, meu Deus!

* * *

Quando o avô do Richard morreu, aos noventa e um anos, deixou-lhe em herança grande parte dos bens,

tornando-o extremamente rico. Por isso foi decidido que se iria organizar uma festa para celebrar, uma

«festa de herança». A Anne inicialmente estava preocupada, dizia que era de mau gosto.

– Ele era um homem muito velho, que morreu depois de ter vivido uma vida repleta de amor e

sucessos. Por que razão dar uma festa para celebrar a tua sorte é uma falta de respeito? – perguntara-lhe

eu.

– Já não vamos a uma festa há tanto tempo – foi a contribuição de John para a causa.

– Para além disso, o meu avô tinha um excelente sentido de humor. Iria gostar imenso da ideia –

aventou Richard, desejoso de gozar a sua fortuna.

– É uma ideia fantástica! Podemos celebrar a sua vida e o facto de os nossos amigos estarem cheios de

dinheiro – insistiu Seán.

Anne acabou por concordar e, assim, o dia em que descobri que não iria trazer uma vida ao mundo foi

também aquele em que o meu mundo mudou para sempre.

* * *

Já pensei várias vezes em escrever-te. Nunca achei que iria mesmo conseguir fazê-lo, mas, quando o fiz,

pareceu-me muito fácil... As recordações são coisas absurdas. Algumas são vagas, outras cristalinas,

outras ainda demasiado dolorosas para as lembrarmos e outras, então, deixaram-nos tanta dor que não

conseguimos esquecê-las. Recordamos os tempos felizes com carinho e risos, lembramo-nos deles como

de anedotas contadas no pub, exageradas, ditas para toda a gente. As recordações realmente boas fazem-

nos companhia numa tarde solitária. As recordações mais nítidas são as das ocasiões em que vivemos

grandes altos ou baixos. É da emoção que a situação inspira de que nos lembramos. É aquele sentimento

de enorme exaltação ou de terrível desespero que faz com que o nosso cérebro repare nos pormenores

que normalmente nos passariam despercebidos, como a cor da T-shirt de alguém, um gesto de uma mão

ou de como fazia calor ou frio nessa altura.

Conseguimos recuperar na memória as rugazinhas causadas por um sorriso nos lábios de alguém

amado ou a maneira como as lágrimas caíram dos seus olhos. Porém, a dor é difícil de expressar por

palavras e, na vida, há sempre dor. É tão natural como o nascimento ou a morte. A dor torna-nos quem

somos, ensina-nos e doma-nos, pode destruir e pode salvar. Todos nós temos arrependimentos – até o

Frank Sinatra tinha alguns. Algumas tragédias são causadas por nós, mas, por vezes, acontecem coisas

que estão fora do controlo deste mundo; quando acontecem, deixam-nos totalmente estupefactos.

A felicidade é um dom. Derrama o seu calor sobre nós e recorda-nos a beleza. Nunca devemos

considerá-la um dado adquirido. Eu nunca devia tê-la considerado um dado adquirido. Aquela ténue

linha azul representava felicidade. Não sabia, então, que iria mais tarde representar algo que eu jamais

recuperaria. No entanto, nessa altura, não estava preparada.

2

Bolas saltadoras, cigarros e batom

Acabado o meu drama, tentava, enquanto me lavava na banheira, afastar da cabeça a escola

secundária de St. Fintan. Apesar da minha sorte, estava de mau humor e sem vontade para ir à festa

que eu própria incentivara. A porta destrancou-se, o John entrou e ao sorrir mostrou-me que a minha

pequena explosão anterior fora perdoada.

– Posso lavar-te as costas?

Disse-lhe que me deixasse em paz.

– Lavas as minhas?

Fiz-lhe um manguito.

– Ah, os sacaninhas fizeram-te passar um mau bocado! – riu-se.

– Não chames aos meus alunos sacanas! – admoestei.

– Porque não? Tu chamas. Aliás, quando eles te chateiam, eu é que tenho de sofrer as consequências,

por isso, acho que tenho o direito.

Ele tinha razão.

– Está bem, dou-te autorização para me animares – sorri.

– Que simpático da tua parte – disse ele, ajoelhando-se no chão e brincando com a água do meu banho,

com um brilho nos olhos.

Senti todo o meu gelo derreter-se.

Okay. Entra, mas não me empurres para as torneiras – avisei.

Ele despira a roupa quase antes de eu proferir a palavra

«torneiras». Sentou-se atrás de mim e deixámo-nos ficar na água quente, com os braços dele em volta

do meu glorioso ventre vazio e a água a salpicar o chão. Deixei sair alguma água pelo ralo, recostei-me e

perguntei como fora o seu dia. Falou-me de um fantástico teste psicológico que encontrara na internet e

arrependi-me imediatamente de ter perguntado.

– É espectacular! Tenho de o experimentar em ti – ameaçou ele.

Olhei para ele.

– Em mim? Que sexy...

– É muito divertido. Mas vais precisar de um papel.

– Estou no banho – realcei, enquanto me instalava mais confortavelmente.

Ele começou a lavar-me as costas.

– É muito revelador – observou, num tom entre o sinistro e o malicioso.

Disse-lhe que, após seis anos, tinha a impressão de que ele sabia tudo o que havia para saber sobre

mim. Ele riu-se, presunçoso.

– Há sempre mais alguma coisa, Em. Por vezes, nem nos conhecemos a nós próprios. Como, por

exemplo, até ontem eu não sabia que conseguia comer dois Big Macs, uma pacote grande de batatas, seis

McNuggets de galinha e um batido de chocolate sem me sentir maldisposto.

– Céus! – exclamei. – Isso é repugnante.

Ele assentiu.

– Isso sou eu, querida! – Riu-se, com os braços no ar.

* * *

Mais tarde, ele chegou ao quarto com um pedaço de papel e uma caneta.

– John, estou a tentar vestir-me.

Ele pousou o papel e a caneta no toucador.

– Vá lá, são apenas alguns testes. Dez minutos. Quero experimentar isto antes da festa.

Não podia acreditar naquilo.

– Estás a pensar fazer isso na festa? – perguntei, incrédula.

– Em, isto é divertidíssimo – disse ele, teimoso.

Então peguei na caneta, sabendo que não tinha hipótese de lhe escapar.

– Faz lá isso depressa. Tenho de secar o cabelo – avisei.

Ele tirou as instruções da pasta e começou a ler.

– Muito bem, escolhe uma cor e toma nota.

Pensei um pouco e escrevi-a no papel.

– Muito bem, indica três coisas que associas a essa cor.

Pensei mais uns segundos e escrevi as três palavras.

– Já escreveste?

Anuí.

– Que cor escolheste?

– Vermelho.

– Boa, agora quais são as três palavras? – Ele sorria com ar presunçoso.

Li as minhas palavras em voz alta:

– Bola saltadora, cigarros e batom.

– O quê? – perguntou ele, claramente perturbado. O sorriso desapareceu-lhe dos lábios e olhou-me

curioso.

– Bola saltadora, cigarros e batom – repeti.

– Eu ouvi-te à primeira. Não faz qualquer sentido. Estás a fazer mal.

Não podia acreditar e, para ser franca, já estava farta do jogo.

– Que raio queres dizer com isso? – gritei, para me fazer ouvir acima do barulho do secador. – É um

teste. Pediste-me que escolhesse três palavras que associo ao vermelho e escolhi-as. Como pode isso

estar errado?

Desnorteado, tocou na testa e tornou-se óbvio que lutava contra a vontade de coçar a cabeça.

– Como é que associaste bola saltadora, cigarros e batom ao vermelho? – gritou ele.

Eu lutava com um caracol rebelde que acabara de descobrir e não tinha desatado a rir como ele me

prometera, mas, como antevi que as gargalhadas não seriam o resultado do pequeno jogo de John,

respondi-lhe apenas na esperança de que me deixasse em paz.

– Quando era criança, a minha bola saltadora era vermelha. Fumei Marlboro, o maço era vermelho, e

a minha cor favorita de batom é o vermelho. É tão simples quanto isto. – Aumentei a intensidade do

secador.

– Isso não faz sentido nenhum – murmurou ele, relendo o papel.

Depois gritou algo acerca das três palavras e como estas, em princípio, deveriam descrever como eu

me via a mim própria. Ele estava claramente perturbado com a minha resposta; portanto, num esforço

para aliviar a sua dor, desliguei o secador e pensei por um minuto.

– Talvez esteja a revelar que, no fundo, sou uma fumadora que gosta de bolas saltadoras e de batom

vermelho. É espantoso. Tens razão. Aprendi realmente algo sobre mim mesma. – Estava a rir-me nesse

momento, mas ele continuava perplexo.

– Quando fizemos isto na aula, resultou muito bem. Deves ter um problema mental, Em. Juro que isto

funciona com qualquer outra pessoa.

Amachucou o papel e atirou-o para o caixote.

Quando saiu do quarto ouvi-o a murmurar:

– Malditas bolas saltadoras!

* * *

Quando John e eu chegámos à festa, esta já ia animada. A porta de entrada encontrava-se aberta e vimos

um casal sentado nas escadas, aos beijos. Quando passámos por eles, John imitou o som de um grande

beijo húmido. Felizmente pareceram não ouvir. Dirigimo-nos à cozinha, onde Seán estava já sentado à

mesa a enrolar um charro. John sentou-se ao lado dele, enquanto fui procurar Anne e Richard, e

encontrei-os na sala de estar. Anne andava atarefada a ver se os convidados se divertiam, enquanto

Richard emborcava álcool como se a sua garganta fosse um buraco que precisasse de ser enchido.

Havia um grande cartaz feito à mão pendurado sobre a lareira com as palavras «ESTAMOS CHEIOS

DE DINHEIRO». Ri-me quando o vi e disse a Anne que gostava do estilo. Ela, enjoada com o sentido de

humor do marido, pediu-me que não a lembrasse de coisas tristes e tentou manter-se de costas viradas

para o cartaz.

A música estava alta, algumas pessoas conversavam, outras dançavam, e todas bebiam. Na verdade, eu

não conhecia a maioria dos convivas, eram colegas de trabalho dos anfitriões; por isso, regressei à

cozinha para encontrar os dois amigos com os olhos turvos e John a tossir.

Seán olhou para mim e sorriu estupidamente.

– Toma uma passa – disse ele.

Dei uma passa e senti a minha nuca a explodir.

– Ai, credo! Preciso de um chapéu.

Riram-se os dois e Seán contou-nos que um amigo lhe enviara de Amesterdão uma selecção de

amostras de diferentes cannabis. Os pequenos sacos de plástico haviam sido etiquetados e vinham

acompanhados por um menu. Estávamos concentrados a olhar para aquilo quando Anne irrompeu pela

cozinha com uma bandeja vazia e olhou para nós.

– Que lindo, que monte de inúteis! Estão aqui há cinco minutos e vejam bem o vosso estado!

Sorri-lhe. A Anne parecia às vezes a nossa mãe. John costumava dizer que ela já tinha nascido adulta.

Era aquela pessoa que todos considerávamos sensata e nunca deixava de corresponder a isso.

– Tens copos? – perguntei, sem me conseguir mexer.

Deu-me dois copos grandes para cerveja antes de sair da cozinha, com a bandeja cheia de sandes.

Enchi o meu copo com vinho e o de John com cerveja. Olhei para o vinho por alguns minutos antes de

beber um gole e tomei mentalmente nota para nunca mais pôr vinho num copo de cerveja. Tendo dito isto,

soube-me bem. Seán fazia outro charro e eu comecei realmente a sentir-me descontrair depois da tensão

do dia

– Onde está a Clo?

– Está cá – respondeu Seán, enquanto dispersava o tabaco com mãos de perito.

– Onde?

– Lá em cima com um tipo – respondeu, sorrindo.

De repente fiquei alerta.

– Tentei entrar no quarto para deixar o meu casaco – continuou ele. – A porta estava trancada e ouvi a

voz da Clo a mandar-me ir passear.

John começou a rir. Eu quis ir espreitar, mas as minhas pernas não obedeciam. Anne continuou a vir

reabastecer-se, ficando apenas o tempo suficiente para recomendar que não exagerássemos. Richard,

bêbedo, assentara arraiais na sala. Continuámos na cozinha a beber, a fumar e a rirmo-nos com

disparates.

Passado um tempo Anne voltou.

– Como está a correr? – perguntei.

– O Richard vai no seu quarto discurso sobre a nossa imensa riqueza. Realmente, não percebo o que

lhe aconteceu – disse ela, e, de repente, lembrei-me da minha mãe.

Seán riu-se.

– Metade de uma garrafa de vodca, quatro shots e, pelo menos, dois charros – indicou ele como se

estivesse a ler uma lista de compras.

Anne permaneceu impávida.

– Sim, muito engraçado, Seán. És um comediante e peras. Seán estava tão embriagado que considerou

o tom sarcástico dela um elogio.

– Saúde! – exclamou, erguendo o copo, e John e eu seguimos o exemplo.

– Vocês são um bando de calões – disse Anne, e desatámo-nos a rir, encantados.

Ela sorriu e desviou o olhar para o céu como se fosse um pai divertido a repreender crianças

travessas.

Estava a pôr mais comida nas travessas quando Clo entrou com um tipo atrás.

– Olá pessoal – cumprimentou ela, tirando o charro das mãos de Seán. O tipo ficou por ali, sem saber

onde se meter. Clo instalou-se numa cadeira e tocou na do lado. – Senta-te aqui – disse, sorrindo

novamente para o seu novo amigo.

Ele não reparou, por estar demasiado ocupado a olhar para nós, que o observávamos fixamente como

só as pessoas pedradas conseguem fazer. Ele sentou-se, parecendo incomodado. Esperámos que ela nos

apresentasse. Clo sorriu-nos, como se esquecesse o objecto sexual ao seu lado. John acabou por lhe

pedir que no-lo apresentasse.

– Ah – fez ela –, este é o Philip.

Anne, depois de terminar de encher a bandeja, deu-lhe as boas-vindas à sua casa e dirigiu-se para a

sala. Ficámos todos a sorrir até que ele pediu licença para ir à casa de banho. Assim que a porta se

fechou atrás dele, fiz a pergunta em que todos nós pensávamos.

– Acabaste de ter sexo com ele lá em cima?

– Não! – afirmou ela categoricamente enquanto assentia com a cabeça.

– Então onde conheceste o pobre desgraçado? – perguntou Seán, com bastante tacto.

– Na praça de táxis.

Rimo-nos novamente.

– Os transportes públicos têm muito que se lhes diga – afirmou ela, e Seán concordou.

Anne regressou. Seán disse-lhe que se sentasse connosco, mas ela precisava de arranjar mais gelo.

John chamou-lhe Doris Day e, quando ela saiu, ele viu um manguito pela segunda vez naquele dia.

Philip regressou e sentou-se. Olhámos todos para ele. Após alguns instantes, falou.

– Então isto é uma festa por causa de uma herança?

Assentimos de novo.

– O que é isso exactamente? – perguntou ele, parecendo pouco impressionado.

Parecia-nos demasiado óbvio, mas Seán decidiu responder-lhe.

– É quando um avô muito, muito rico morre numa idade muito avançada e te deixa montes de dinheiro.

Sorrimos para ele, estupidamente encantados com a simplicidade de tão honesta resposta. Philip não

estava convencido.

– Então, morreu alguém? – foi a sua pergunta.

John olhou-o como se fosse atrasado mental.

– Ele era muito velho – disse Seán.

Deu uma passa no charro e expeliu o fumo lentamente, sorrindo a Philip. Ele fazia-me lembrar o Steve

McQueen, em Os Sete Magníficos, e nós, pedrados, rimos novamente. Philip era crescidinho e, portanto,

não ficou impressionado. Desculpou-se, dizendo que ia para a sala, mas sabíamos todos que o que ele

queria mesmo era sair da casa. Esperámos até ouvir a porta da frente fechar-se.

Seán olhou para Clo e disse o que era óbvio.

– Tens a noção de que ele se foi embora, não tens?

Ela sorriu para ele.

– Desaparecido mas não esquecido! – Riu-se da sua rima.

Virei-me para John e, com uma surpreendente habilidade, agarrei-lhe no queixo e virei-o para mim,

olhei-o nos olhos e disse-lhe com sotaque americano:

– Espero que esta noite me dês algo inesquecível.

Sem hesitar, ele respondeu com o mesmo sotaque:

– A ti e à tua irmã, querida!

Seán, que bebia um gole da sua caneca, quase se engasgou com o génio cómico do amigo, e todos riram

novamente. Pouco depois, Anne e Richard juntaram-se a nós. Clo passou o charro a Anne, que deu a sua

primeira longa passa, e a Doris Day abandonou aquela casa. Só alguns minutos depois é que ela se

apercebeu de que Philip já não se encontrava presente.

Quando perguntou por ele, Clo respondeu:

– Está desaparecido.

– Mas não esquecido – acrescentou John.

Desatámos todos a rir e Anne exclamou:

– Céus!

A noite continuou com aquela atmosfera louca. A dada altura, John e eu dançávamos – bom, de facto,

estávamos meramente abraçados, a oscilar. Anne pôs a tocar «Purple Rain», de Prince, que era a nossa

música. Continuámos a dançar um pouco mais lentamente, lembrando-nos da noite em que ouvíramos

aquela canção enquanto baptizávamos o nosso Ford Escort de dez anos, acabadinho de comprar.

Sorrimos com a recordação e lembrámo-nos de como ficámos espantados ao descobrir que as janelas

embaciavam mesmo. John inclinou-me para trás no final da música e deixou-me cair. Apesar desta

pequena falha, senti-me a Ginger Rogers – de novo o poder das drogas... Depois de me ajudar a levantar,

beijou-me e julguei-me como se tivesse dezasseis anos. O John conseguia sempre fazer-me sentir assim,

o que era uma das razões para eu o amar tanto.

As pessoas começaram a ir-se embora da festa e Clo foi dormir debaixo das escadas, um hábito que

apanhara na escola. Despreocupados, esquecemo-nos de a procurar quando saímos. Eram três da manhã e

Richard e John estavam embrenhados numa conversa sobre um estúpido jogo de futebol. Encontrávamo-

nos à porta e eu sentia-me arrasada e cheia de frio.

Anne acabou por dizer que estava na hora e dirigimo-nos para a rua. Não tínhamos chegado ao passeio

quando me lembrei que deixara o meu isqueiro na cozinha. Quis ir buscá-lo, mas o John insistiu que o

fizéssemos de manhã. Não lhe dei ouvidos. O isqueiro era um Zippo prateado que Noel me oferecera

quando fiz vinte anos… O meu irmão mandara-o gravar e eu gostava imenso dele, não apenas por ser um

isqueiro fixe, mas também porque, para mim, representava a sua aceitação do meu estilo de vida

hedonista. Assim, apesar dos protestos de John, voltei atrás. Ele disse-me que esperaria por mim lá fora.

Anne e Richard estavam na sala a recolher latas; Seán continuava na cozinha, a fumar outro charro.

Sorri-lhe e fiz uma observação estúpida enquanto procurava o isqueiro. Ele ofereceu-me uma passa para

o caminho. Aceitei. Ele sorriu.

– És linda – disse ele.

Sorri, à espera do resto da piada.

As palavras permaneceram no ar.

– Obrigada – disse eu, um pouco tarde de mais.

– Desculpa, não era minha intenção deixar-te embaraçada – sussurrou.

– Tudo bem – disse eu, corando. Vi o meu isqueiro sobre a mesa e apanhei-o. Instintivamente, baixei-

me para lhe dar um beijo na face em sinal de despedida. Ele voltou-se quando cheguei perto do seu rosto

e senti um choque percorrer-me quando os seus lábios tocaram nos meus. Ambos recuámos e ele

começou a desculpar-se profusamente. Não queria que ele continuasse, visto aquilo ter sido um acaso.

Éramos amigos e não havia problema.

3

O fim está próximo

D irigia-me para a porta quando ouvimos um chiar de travões seguido de um estrondo horrível. Eu

mal me apercebera ainda do que poderia ter sido quando vi Seán levantar-se e correr para a porta.

Ouvi Anne e Richard aos gritos. Chamavam pelo John. De repente fiquei presa ao chão, mas continuei a

olhar para o local onde Seán estivera sentado.

Anne começara aos gritos:

– Meu Deus! Oh, meu Deus!

Senti o coração começar a bater descontroladamente. Tinha uma enorme dor no peito. Ouvi Richard

gritar para Seán.

– Não lhe toques, não o movas!

De repente as minhas pernas recuperaram da paralisia. Comecei a andar, saindo para a rua. Uma vez lá

fora, vi os meus amigos. Richard passou a correr por mim na direcção da casa.

Anne, parada no meio da estrada, olhava para baixo, para Seán, que se encontrava debruçado sobre

alguém que sangrava bastante da cabeça. Olhei em volta à procura de John. Devo ter gritado o seu nome

porque Seán olhou para mim com pânico nos olhos. Avancei para ele e apercebi-me de que a cabeça que

sangrava era a de John. Comecei a tremer e pareceu demorar uma eternidade até conseguir chegar ao

local onde ele estava deitado. Soçobrei no chão.

– John, John, John.

Continuei a chamar por ele, vezes e vezes sem conta, mas não se movia. O condutor estava sentado na

berma da estrada, agarrando os joelhos de encontro ao peito, murmurando algo sobre não o ter visto, e

que ele simplesmente aparecera à frente do carro.

Olhei para aquele desconhecido que mordia os lábios e chorava.

Richard voltou e disse que a ambulância estaria ali em cinco minutos. Anne correu de volta para casa.

Seán continuava a falar com John. Dizia-lhe que iria ficar tudo bem e que a ambulância vinha já a

caminho. Eu disse que o amava e que ele tinha de se aguentar. Fazia muito frio; John parecia estar muito

frio. Comecei a tentar levantá-lo para o abraçar, mas o Seán impediu-me.

– Não podemos movê-lo, Em. Ele vai ficar bem. A ambulância está já a caminho.

– Acorda, por favor! – implorei. Só queria ver os seus olhos.

– Por favor, acorda!

Anne regressou com toalhas nas mãos quando a ambulância chegava à rua. Os médicos saíram e

afastaram-nos do caminho. Seán puxou-me para longe e colocou os seus braços à minha volta, apertando-

me contra si, com medo de que eu pudesse fugir. Richard olhava para o condutor na berma da estrada,

cujo lábio começara a sangrar. Anne estava parada no meio da rua ainda a segurar nas toalhas.

Deixaram-me ir na ambulância com John; os nossos outros amigos seguiram num táxi. Agarrei-lhe na