Estarás Sempre Comigo por Anna McPartlin - Versão HTML

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mão enquanto os paramédicos trabalhavam à minha volta. Enfiaram tubos nele e usaram o desfibrilhador.

Ele estava ainda inconsciente, mas continuei a falar com ele de qualquer maneira. Disse-lhe que

podíamos ir de férias assim que estivesse melhor, e para não se preocupar, porque ficaria tudo bem.

Mencionei várias vezes o quanto precisava dele e até falei sobre um estúpido jogo de futebol que ele

queria ver.

Chegámos ao hospital e deixaram-me num corredor enquanto o transportaram numa maca para uma sala

onde apenas os funcionários eram autorizados a entrar. Uma enfermeira levou-me para uma sala de

espera e perguntou-me se queria um chá com açúcar.

– Açúcar é bom para o choque – disse eu.

Ela concordou e sorriu-me de um modo triste.

– Já lhe trago o seu chá – disse e saiu.

Os outros chegaram alguns minutos depois. Ninguém falou. Eu estava aterrorizada. Sabia que era muito

grave.

Por favor, fica vivo. Por favor, fica bem, continuei a dizer isto vezes sem conta na minha cabeça.

Santa Maria Mãe de Deus, por favor, salva-o. Pai nosso que estais no Céu, por favor, salva-o. Por

favor, meu Deus, por favor, Jesus Cristo, por favor, salva-o. Glória ao Pai, por favor , rezei e continuei

a rezar.

De repente, Seán lembrou-se de Clo. Ela estava ainda algures em casa, pedrada, alegremente

inconsciente daquele pesadelo. Anne foi telefonar-lhe.

O médico encaminhou-se para nós. Olhei para ele e pareceu-me levar horas até os meus olhos entrarem

em contacto com os seus. Perguntou se estava algum familiar presente. Os pais do John ainda não tinham

chegado. Levantei-me. Disse que era da família e fui ter com ele.

– Lamento – disse o médico. – Os ferimentos na cabeça de John eram demasiado graves. Fizemos tudo

o que era possível. Ele não sofreu nada.

Estava a dizer-nos que John tinha morrido. Doía-me a cabeça e ardiam-me os olhos. Quis que o meu

coração parasse de bater porque cada palpitação era como um ferrão de dor cada vez mais intenso. Os

outros olhavam para mim. Anne chorava. Tentei escutar o médico por entre o forte zumbido que corria

nos meus ouvidos. Ele levou-me para a sala onde me não haviam permitido a entrada. O médico

permaneceu ali um minuto, olhando-me enquanto eu observava o corpo de John. Depois saiu. John estava

na sala, mas eu sentia-me sozinha.

Não. Isto não está a acontecer. Nós estamos em casa, na cama. Estou a ter um pesadelo.

– Acorda! Acorda! – gritei, beliscando-me com força. – Acorda!

Sabia, no fundo, que não sonhava, mas belisquei-me ainda com mais força. Depois segurei-o nos

braços. Estava pesado e ainda quente.

– Abre os olhos, amor – sussurrei-lhe ao ouvido. – Só tens de fazer isso. Os médicos tratam do resto.

Ele não voltaria a abri-los. A morte pesava, espessa, no ar, dificultando-me a respiração. Havia um

lençol branco sob o seu queixo. O sangue deixara de lhe escorrer da cabeça e ele fora limpo. Podia ver o

seu rosto de novo. Parecia mais jovem, como o adolescente que sempre me escolhera para jogar na sua

equipa de basquetebol, apesar de eu não saber jogar. Peguei-lhe na mão de novo e senti o meu coração

despedaçar-se.

Imaginei por segundos que ia ter um ataque de coração e agradeci por isso. Ele estava morto. Dançava

comigo havia poucas horas, mas agora estava morto. Era-me cada vez mais difícil conseguir respirar.

– Amo-te – disse-lhe, praticamente sem voz. – Quero tanto que acordes, merda!

Implorei-lhe, mas ele não podia ouvir-me, embora eu não conseguisse aceitar isso. Beijei-o nos lábios,

azulados, e esfreguei o meu rosto molhado no dele.

– Por favor, volta! – supliquei.

Depois disse «merda» vezes sem conta, desatei a chorar, as mãos tremiam-me entorpecidas, enquanto

continuava a agarrar na dele, cada vez mais fria.

– Por favor, volta! Eu faço qualquer coisa!

Esperei – mas nada. Olhei para o tecto. Sabia que era estúpido, mas não me importei.

– Deus, se mo deres de volta, farei tudo o que quiseres. Serei boa. Por favor, Deus, por favor, Deus,

por favor, meu Deus, devolve-mo. Tem vinte e seis, só tem vinte e seis anos. Por favor Deus, por favor,

meu Deus, devolve-mo!

Não resultou. Quis deitar-me com ele, mas não o consegui fazer porque, pela primeira vez na vida,

deitar-me com John parecia incorrecto, então limitei-me a agarrar na sua mão e penteei o cabelo louro e

ensanguentado que lhe emoldurava o rosto, rosto com o qual eu crescera, em que sempre confiara, que

era tão familiar como o meu, mas que, agora, estava diferente. A luz que o habitara desaparecera, a

chama partira para sempre e tudo o que tínhamos sido e tido e tudo o que ele era e iria ser desapareceram

para sempre. O meu rapaz, o meu homem, o meu amigo, o meu grande desafiador, o meu amante, a alma

da minha vida começava a ficar frio como pedra. As lágrimas escorriam de um oceano que um dia fora o

meu coração. Retirei a sujidade invisível do lençol que o cobria. Encontrei a sua mão e segurei-a com

força.

– Amo-te.

O tempo parou e sucumbi a uma agonia atroz. Não faço ideia de quanto tempo terei estado ajoelhada

nos ladrilhos frios, agarrada desesperadamente à sua mão. A dada altura, Clo entrou na sala. Estava a

chorar. Quando viu o nosso amigo, gritou. Não era intenção dela – foi instintivo, saiu-lhe, não conseguira

contê-lo. Ficou parada a olhar para o corpo que costumava ser John e pôs os braços dela à minha volta.

Ouvi-me dizer:

– Adeus, meu amor.

Clo soluçava enquanto eu segurava a mão de John. A dor tornou-nos mais pesadas, fazendo com que

qualquer movimento súbito fosse quase impossível. Permanecemos apenas quietas, quietas como o John.

Alguém havia chamado a minha mãe. Chegou com o meu pai para me virem buscar, ele silencioso,

quatro passos atrás dela, sem saber bem o que fazer ou dizer. Ela tomou conta de mim e, pela primeira

vez desde a minha infância, senti-me grata pela sua força. Quando me levaram do hospital, vi Richard a

reconfortar a mulher, perturbada, e Seán, sozinho, num canto, estático e completamente destroçado.

Fomos para casa. Recordo-me de me sentar no banco de trás do carro, observando as luzes da noite

desfocadas à medida que passávamos por elas, os vermelhos e amarelos dos candeeiros, o brilho branco

dos carros que passavam. A cassete de Dean Martin do meu pai estava a tocar. Era uma canção de amor.

Olhei para o céu, negro de breu. Nem uma estrela se via. Sentia a pele do meu rosto ainda a arder. A

minha mãe virou-se para olhar para mim, quase como se temesse que, a qualquer momento, eu fosse

desafiá-la e juntar-me a John na morte como o fizera na vida

A casa estava fria. A minha mãe pôs a chaleira ao lume, mas eu só queria dormir. Ela cobriu-me e

afastou-me os cabelos da testa. Não conseguia sentir o seu toque. O meu pai ficou à entrada a observar-

nos. Ela apagou a luz e deitou-se ao meu lado no escuro e senti o seu calor e um sentimento de exaustão

esmagador. Lembrei-me da mãe de Clodagh e de como, em criança, pensara quão estranha tinha sido a

reacção dela à morte do marido; sono. Agora, percebia porquê. Dormir era a única fuga possível.

4

Sem adeus

O funeral foi poucos dias depois. A mãe de John pediu que fosse Noel a realizar cerimónia. É

estranho não me lembrar muito disso, mas todos disseram que ele fez um belo trabalho. A igreja

encontrava-se cheia. Estavam lá pessoas da nossa antiga escola, do liceu e, claro, colegas do trabalho,

todos para darem um aperto de mão e partilharem o sofrimento. Proferiram palavras de simpatia; alguns

choravam. Eu estava entorpecida. Junto à sepultura, as pessoas deram as mãos umas às outras e formaram

um círculo. O coro de Noel cantou o Aleluia enquanto desciam o caixão de John à terra. Conseguia sentir

a força do meu pai a agarrar-me, a sua presença reservada e omnipresente. O seu coração batia contra as

minhas costas enquanto o caixão era descido. Segurou na minha mão quando atirei terra para a placa de

bronze brilhante com o nome de John inscrito. Ouvi a sua mãe, angustiada, e senti a sua agonia à medida

que as pessoas passavam e se benziam. Lembro-me de ser levada pelas mãos firmes dos meus pais,

passando pelos coveiros que lá estavam, ansiosos por taparem a cova a fim de poderem ir para casa,

como abutres pousados numa árvore à espera que um bezerro desse o seu último suspiro.

Recordo-me de estar sentada na sala dos pais de John em frente deles, rodeada pelos meus amigos, e

de ver mãe de John a chorar enquanto distribuía sandes. A minha mãe e Doreen iam distribuindo bebidas

e sussurravam uma com a outra, preocupadas a ver se todos tinham um prato de comida na mão. Doreen

era a nossa vizinha, de cinquenta anos – chegara com um pão-de-ló no primeiro dia em que nos mudámos

e depois tornara-se parte da mobília. John costumava dizer que ela viera incluída na casa. Doreen era

amável, engraçada e perspicaz, forte, apaixonada e, sobretudo, uma adversária mortal. Era uma

dublinense das antigas, sempre franca e muito directa, e uma segunda mãe para mim e para Noel. Muitas

vezes íamos ter com ela quando surgia algum problema, porém, estávamos perante uma situação que nem

a poderosa Doreen conseguiria resolver, e ela sabia disso, portanto, ia servindo a comida.

O pai de John sentou-se no jardim numa cadeira de plástico, sozinho e a beber uísque. O meu pai

juntou-se a ele e permaneceram em silêncio, ambos com lágrimas nos olhos. Nada havia a dizer. Anne

agarrava-se a Richard com todas as forças, com medo de o deixar ir, e eu sabia como ela se sentia. Seán

instalou-se junto da janela da frente, a fumar cigarro atrás de cigarro e a olhar cegamente os carros que

passavam. A solidão e culpa nos seus olhos eram impossíveis de ignorar e, para mim, era como se

estivesse a olhar para o meu reflexo. Ele captou o meu olhar e virei-lhe as costas.

A culpa é minha.

Fiquei em casa dos meus pais duas semanas depois do funeral, mas já não me sentia em casa. Era uma

visita. Noel também ficou e foi agradável, mas éramos todos adultos e todos os dias pareciam um almoço

alargado de domingo.

Todos tentavam dizer-me as coisas certas, mas ninguém sabia quais eram, nem sequer Noel. Eu só

queria ir para casa, mas estavam preocupados com as muitas recordações que o regresso me traria.

Ninguém parecia perceber que não havia como lhes fugir e que as estimava. Queria andar pela casa e

arrumar as camisolas dele. Queria cheirar a sua loção de barbear e deitar-me no seu lado da cama.

Queria ouvir a nossa música e encostar as suas camisas ao rosto. Precisava de estar tão próxima de John

quanto possível, para lhe poder pedir desculpa.

A culpa é minha.

Por fim, foi Noel que conseguiu convencer os nossos pais a deixarem-me ir embora. Foi ele que

explicou os sentimentos que eu tinha dificuldade em partilhar. Ele sabia que estava certo querer regressar

a casa, para que pudesse começar a apanhar o que caíra por terra. Assim foi. A minha mãe chorou muito

quando saí e o meu pai amparou-a e sorriu-me corajosamente. Quando me abraçaram, foi difícil partir.

O meu pai agarrou-me com força e debruçou-se sobre mim, sussurrando ao meu ouvido:

– Ele era como um filho. Perdemos o nosso rapaz, mas vamos sobreviver.

As lágrimas que tinham secado em mim dias atrás caíram uma vez mais e fiquei grata pela libertação

que me causavam. A minha mãe acenou com a cabeça, concordando com alguém invisível. Sentei-me no

carro e olhei para a frente. Quando partimos, virei-me para ver o meu pai, amparando a minha mãe, que

tremia.

A culpa é minha.

A casa encontrava-se vazia e gelada. Noel ligou o aquecimento. A cozinha ainda estava na confusão

em que a deixáramos. Ele começou a limpá-la, mas eu impedi-o. Havia um CD do Nick Cave no leitor.

John estivera a ouvir o seu novo álbum naquele dia. Eu queria ficar sozinha, mas o meu irmão foi fazer

chá. Esperei que ele me falasse sobre os caminhos de Deus e de como tudo aquilo fazia parte do plano

divino, e que John estava muito melhor agora, mas ele não o fez, e fiquei-lhe grata. Ficou para um café e,

quando se apercebeu de que eu precisava de ficar sozinha, foi-se embora. Acenei-lhe um adeus e disse-

lhe que iria ficar bem.

Mentirosa.

Sentei-me na sala a ouvir Nick Cave a cantar durante horas, a chorar, a rir, a falar com John, a falar

comigo mesma, mas, principalmente, a chorar. Pus o atendedor de chamadas a tocar uma mensagem que

ele gravara e ouvi-a vezes e vezes sem conta.

– Olá, ligou para o seis, quatro, zero, cinco, dois, seis, um. Estamos num lugar exótico, por isso

deixe uma mensagem e, se gostarmos de si, ligaremos de volta.

A nossa casa tornou-se um museu e o meu presente era agora o passado. Sentei-me na cozinha e olhei

para a sua caneca de café personalizada, o post- it que deixara no frigorífico a lembrar-me para arranjar a

luz de stop no carro, o papel que trouxera da faculdade sobre o seu estúpido teste psicológico. Olhei para

tudo o que lhe pertencera e chorei durante horas porque ele partira e por a culpa ser minha.

5

Os cinco estádios

A dor consome-nos bastante. A dor isola. A dor é egoísta. Os conselheiros da dor dir-nos-ão que

existem cinco estádios no processo da dor: negação, raiva, desamparo, depressão, e, por fim,

aceitação. Penso que existem seis: negação, raiva, desamparo, depressão, culpa, e, finalmente, aceitação.

Negação

Eu não pensava em mais ninguém. Não pensava. Vivia no passado. Trancada no meu espírito,

relembrando a minha vida até ali. Foram-me dadas quatro semanas de licença de nojo. Quatro semanas

para lamentar a vida inteira. Fiquei quase sempre no meu quarto, escondida debaixo do edredão, a ouvir

o tiquetaque do antigo relógio de pêndulo. Dormi, dormi, dormi e, quando os meus olhos me forçavam a

acordar, abraçava a minha almofada e falava com John.

– Lembras-te quando dissemos aos meus pais que íamos viver juntos? Lembras-te como ficaram

doidos com a ideia? Até o Noel levou uma reprimenda. Lembras-te? A minha mãe disse céus! Noel

zombou e ela irritou-se com ele. Mas tu acalmaste-a. Até o meu pai estava contra e, normalmente, ele

nunca se opõe a nada. Foste brilhante. Eu gritava como uma miúda de catorze anos, mas resolveste tudo.

Foste sempre bom a convencer as pessoas. Podias ter sido advogado se quisesses.

Ouvi o granizo a cair, lá fora. As pedras de gelo a bater contra a janela não me fizeram mexer. Foi um

gato a miar na janela que acabou por me fazer levantar. Arrastei-me até à cortina e corri-a bruscamente,

aborrecida porque a realidade me estava a interromper uma conversa agradável. Olhei lá para fora e

contemplei as pedras de granizo a bater no chão de cimento do quintal. A porta da cabana oscilava de

forma descontrolada, as dobradiças como que gritavam por socorro. Os vasos das plantas rolavam pelo

chão, derramando o seu conteúdo a cada reviravolta. Só alguns segundos depois me lembrei do som que

me atraíra à janela. O gato miava desesperadamente para o meu olhar lunático. Se os gatos falassem,

creio que diria: Deixa-me entrar, sua parva! Abri a janela, chocada com a visão de um gatinho tão

pequeno a tremer no parapeito da janela com as garras muito pequeninas ainda. Peguei naquela

criaturinha ensopada, que no fundo não passava de um par de olhos petrificados rodeados por pêlo, e

levei-o cuidadosamente para dentro. Conseguia sentir o pequenino coração a bater descontrolado nas

minhas mãos. Corri para a casa de banho e embrulhei-o numa toalha. Sentei-me no lado da banheira e

sequei-o.

– És apenas um bebé. Olha para isto, John! Um gatinho. Olhei para o focinhito. Via-se logo que era

macho. Tinha mesmo focinho de gato, olhos pretos ovais, pêlo preto, que continuava espetado apesar de

molhado e uma pequena mancha branca debaixo do queixo. De facto, quanto mais olhava para ele mais

me lembrava do colega de terceiro ano de John, Leonard Foley. Leonard tinha os olhos ovais negros e um

cabelo muito preto que desafiava a gravidade. Não tinha a mancha branca nem o pêlo, mas em tudo o

resto era prática e assustadoramente a mesma coisa. Leonard fizera várias tentativas para amansar a sua

juba, porém, a única opção de o fazer sem o rapar e parecer um skinhead foi colocar gel e moldá-lo com

um moicano. Parecia um extraterrestre, mas era um grande fã do Star Trek e achava que assemelhar-se a

um alienígena era fixe, e, por ser o guitarrista principal da única banda na escola, concordámos todos que

realmente era fixe. Penteei o pêlo do gatinho de modo a lembrar um moicano. Ele olhou para mim

cautelosamente enquanto esfregava o rabito na toalha. Naquele momento parecia-se ainda mais com o

Leonard.

– Olá, Leonard? Como vão as coisas com a música? Já tens algum contrato?

O gatinho não estava muito interessado na minha conversa. Depois de seco, miou com fome. Levei-o

para baixo, para a cozinha, sentando-o no balcão enquanto procurava uma taça apropriada. Uma vez fora

do meu alcance, começou a andar, embora parasse pouco depois na borda do lava-loiça. Olhou para o

chão muito abaixo e recuou para a janela. Foi só então que caí em mim.

– Como raio é que um pequenino como tu conseguiu subir para o parapeito de uma janela no segundo

andar?

Ele não respondeu.

– Isso é impossível!

Leonard não parecia muito interessado em revelar segredos. Estava ocupado a andar aos círculos. Vi-

o a comer atum já com dois dias.

– De onde vieste? Foste tu que o enviaste, John? Enviaste-o para me tirares da cama? Nunca gostaste

quando eu dormia muito. Um dia desperdiçado, dizias.

Leonard acabou de comer. Quis dormir depois do seu calvário. Não podia censurá-lo. Afinal de

contas, o seu encontro com a fúria da natureza no parapeito da minha janela fora semelhante a um de nós

ter sobrevivido a um terramoto. Encontrei uma caixa de sapatos e forrei-a com uma toalha limpa. Quando

o meti lá dentro, aconchegou-se imediatamente e fechou os olhos. Pu-lo na cama ao meu lado. Voltei para

baixo do edredão e observei-o a dormir.

– John, lembras-te da estátua que se movia? Milhares de pessoas fizeram uma peregrinação para rezar

aos pés de uma estátua de Maria, num celeiro qualquer, em North Kerry. Lembras-te de o Leonard ter

tirado a estátua da Virgem com o Menino do escritório do director? Escondeu-a na casa de banho das

raparigas e deixou uma nota no pódio a dizer «fui almoçar!»

– Ri-me. – O director ficou maluco e chamou-lhe blasfemador. Estátuas que se movem! Que grande

piada!

Leonard abriu um olho para ver onde estava a piada. Já não me ria.

Adormecemos pouco depois.

Fúria

Clo ligava-me uma vez por dia.

– Estás bem?

– Sim.

– Precisas de alguma coisa?

– Não.

– Queres que vá ter contigo?

– Não.

A chamada terminava e ficávamos ambas aliviadas. Ela não tivera quatro semanas de licença de nojo.

Apenas perdera um amigo, o John não era da família dela. A sua dor não era tão grande. Voltou ao

trabalho no dia após o funeral. Entrou no escritório para ser recebida por setenta e-mails que exigiam

atenção urgente, três comunicados à imprensa, uma sessão fotográfica para uma revista a propósito da

semana da fruta e dos legumes e um cliente muito desapontado. Lidou com os e-mails metodicamente.

Acalmou o cliente em poucos minutos. Depois conseguiu escrever três comunicados à imprensa numa

hora, cumprindo o prazo com tempo de sobra.

A sessão fotográfica, por outro lado, foi um pesadelo. Duas modelos subnutridas, uma vestida de

couve, a outra de maçã, com frio e irritadiças à espera do homem da fruta para entregar o cenário para as

fotografias. O homem ficara preso no trânsito na M50. As raparigas defendiam-se dos comentários de

adolescentes sobre a sua roupa de fruta, enquanto o fotógrafo reclamava quanto às horas. Clo manteve-se

profissional do princípio ao fim.

Não chegou a casa antes das sete. Entrou no apartamento vazio, arrasada. Tirou o café da prateleira

alta. Escorregou-lhe das mãos e ela conseguiu ouvir o frasco de vidro grosso a bater-lhe na cabeça antes

de o sentir. O frasco de café continuou a cair em direcção ao chão. Quase o apanhou, mas a mão

decepcionou-a uma vez mais. O recipiente estilhaçou-se nos ladrilhos brancos, os grãos de café a saltar

da sua prisão de vidro numa ânsia de liberdade.

– Basta!

Sentia-se arder por dentro. As lágrimas que irromperam queimaram-lhe olhos.

– Eu só queria a porcaria de um café! É pedir assim tanto? Que se lixe, não vou limpar isto! Porra, não

consigo lidar com isto!

Gritou. Começou a pegar em copos e a atirá-los pelo aposento, vendo-os bater, partir-se e depois

escorrer pelas paredes da cozinha. Fez pontaria com uma chávena a um quadro com um barco a navegar.

Atirou-a com a concentração e profissionalismo de um jogador de basebol. O vidro partiu-se com o

impacte, deixando a imagem rasgada e pendurada na moldura lascada.

Gritou, chorou e dançou com café e vidro partido debaixo dos pés. Então parou, o coração a bater

descontroladamente, ameaçando sair-lhe do peito, as mãos trémulas e os pensamentos num torvelinho.

Basta.

Estava sentada no chão da cozinha, a gemer e a tentar varrer sem entusiasmo os frutos da sua

destruição para uma pá quando a campainha tocou.

– Deixem-me em paz! – rugiu, sabendo que seria impossível para qualquer potencial visitante ouvi-la

quatro andares abaixo numa rua movimentada.

Respondeu ao quinto toque. Era a mãe.

– Clodagh, deixa-me entrar!

– Quero estar sozinha.

– Deixa-me entrar, pelo amor de Deus!

– Deixa-me em paz!

Abriu a porta da rua à mãe. Examinou os estragos na cozinha enquanto a mãe subia no elevador.

Deixa-me em paz! – gritou ela à bancada antes de partir o prato que estava indefeso no lava-loiça.

Abriu a porta um minuto depois.

– Oh, querida! Anda cá, tens ranho na cara. – A mãe tirou um lenço do bolso e limpou-lhe o nariz. –

Sopra!

Ela soprou com força e a mãe amparou-a enquanto chorava e praguejava. A mãe também começou a

chorar.

Mais tarde, exausta, Clodagh pediu à mãe que falasse sobre o pai que ela perdera tão nova sem o

conhecer.

– Ele gostava muito dos Boomtown Rats. Amava a sua inquietação, a sua raiva. Era um político.

Queria mudança. A velha Irlanda desapareceu, dizia ele. Era apaixonadamente opinativo.

Ela sorria. Clo viu-a acalmar-se enquanto ia recordando cada memória.

– Quando ele se ria, a sala ria-se com ele – disse, ainda a sorrir. – Era muito teimoso, tal como tu.

Clo sorriu, sem se ofender.

– Tinha sempre razão mesmo quando não a tinha. Gostava imenso de praia e tinha uma paixão por

barcos.

Clo tomou mentalmente nota de repor o quadro do barco.

– Ele era um lutador… tinha sempre na manga um esquema para fazer dinheiro. Conseguia deixar-me

maluca.

– Como eu – disse Clo, tentando um sorriso.

– Como tu – admitiu a mãe, acariciando-lhe o cabelo.

O momento ternurento passou rapidamente e Clo sentiu o calor a invadi-la

– Não é justo. Sinto uma fúria tão grande!.

– Eu sei que sentes – concordou a mãe. – A cozinha é prova disso.

Clo não conseguiu impedir-se de rir. Achava que a mãe não se apercebera do estado da sala.

– Sabes, quando o teu pai morreu, tinhas apenas cinco anos, mas no dia do funeral partiste todas as

canecas e pires do teu conjunto de brinquedos, e eram de plástico. Percebi que compreenderas que o teu

pai não ia voltar. É assim a tua maneira de ser. As coisas não mudaram.

Clodagh estava destroçada.

– Como? – perguntou ela.

– Bem, continuas a partir coisas – respondeu a mãe.

Clo chorou, pela mãe, pelo amigo, por mim, por ela própria. Durante todo o tempo, a mãe abraçou-a,

certa de que ela sobreviveria ao desastre.

Desamparo

Noel visitava-me todos os dias. Ficava o tempo que era preciso para saber que eu estava bem. Depois ia-

se embora. Passava a maior parte do tempo a rezar. Ele e John tinham sido amigos… não, eram mais

próximos do que isso. Haviam crescido juntos. Noel tinha dois anos a mais do que John, mas davam-se

muito bem. John admirava todas as características que eu achara inicialmente menos boas. Gostava do

facto de Noel não seguir a maioria – gostava de falar com ele sobre algo diferente do futebol, dos carros

e das raparigas que dominavam o seu universo. John conseguia fazer rir Noel a bandeiras despregadas.

Iria sentir falta disso. Iria sentir falta dos debates religiosos que tinham; Deus em oposição à ciência era

um dos velhos temas favoritos a que voltavam vezes sem conta.

Meu Deus, por favor, não me deixes esquecer! Se tiveste de o levar, por favor, deixa-me ouvir a sua

gargalhada!

O meu irmão gostaria de poder dizer-me que John estava agora em paz e que a sua morte significava a

sua ressurreição no Céu e que devíamos estar felizes por ele, que devíamos celebrar o seu regresso ao

Pai de todos nós. Não conseguia. O seu coração estava ausente. Sentia demasiado a falta do amigo.

Por favor, meu Deus, faz-me compreender.

Tentava recuperar da dor da única maneira que sabia. Dizia a missa; visitava o lar, o hospital; deu uma

palestra na escola. No final de cada dia, ia para a casa que partilhava com o padre Rafferty, um homem

de Cork, nos seus sessenta anos. O padre Rafferty via as notícias enquanto Noel cozinhava o jantar deles.

Noel comia em silêncio, acenando de forma intermitente ao padre Rafferty, sempre preocupado com o

estado doente do mundo. Quando Noel conseguia escapar finalmente para o quarto, punha Nina Simone a

tocar no seu leitor de CD e ouvi-a cantar sobre a tristeza enquanto se ajoelhava junto da cama de mãos

unidas em oração.

Por favor, meu Deus, dediquei-Te a minha vida, afasta de mim esta dor. Prostro-me diante de Ti.

Leva esta solidão para longe.

* * *

Como soube muito mais tarde, Noel conheceu Laura numa venda de bolos. Ela já tinha feito mais de

quatrocentos bolos para apoiar o combate ao cancro da mama. Perdera a mãe devido à doença, e sentia

que trabalhar numa recolha de fundos era o mínimo que poderia fazer. Era uma pessoa calorosa e

conversadora. Existem muitas pessoas que não conseguem falar com padres, pelo menos não muito à

vontade. Noel sentiu-se desarmado. Gostou do seu à-vontade e da sua abertura. Ela não tinha medo de

dizer o que lhe ia na cabeça, nem de escutar. Foram a um café e ela falou sobre a mãe enquanto sorria e

ria com velhas anedotas. A rapariga contou-lhe a sua triste história com humor, livre de culpa, e ele

sentiu-se bem na presença dela. Descobriu que também conseguia falar sobre si próprio. Isso era

novidade para ele e um prazer inesperado. Encontraram-se de novo, umas vezes acidentalmente, outras

nem por isso. Nunca tinham sido íntimos, nem ele sequer o considerara, mas estava a sentir-se culpado

pela sua nova amizade. Isto foi antes de John ter morrido e, agora, a solidão que sentia há tanto tempo ia-

se tornando cada vez mais insuportável.

Senhor, ajoelho-me perante Ti. Por favor, imploro-te, faz com que esta solidão desapareça.

* * *

Pegou no casaco e sem uma palavra ao padre Rafferty, que passava a sua jaqueta a ferro, fechou a porta

atrás de si e foi para a rua, preparando-se para apanhar o primeiro táxi que visse.

Chegou sem avisar. Laura abriu a porta e sorriu, feliz. Levou-o para dentro, para a sua sala de estar

aquecida. Ele afundou-se no sofá. Por cima da lareira ardiam velas. Estava escuro na sala e a única luz

provinha de um candeeiro junto de uma cadeira de leitura onde havia um livro aberto. Ele tinha-a

interrompido, não havia razão para ali permanecer. O seu embaraço apanhou-o de surpresa.

– Ficarias mais confortável se eu acendesse a luz do tecto? – perguntou ela, dando-se conta do seu

desconforto.

– Não. Desculpa, não devia ter vindo. – Baixou a cabeça para evitar o seu olhar.

– Acho que era exactamente disso que precisavas. – Sorriu.

– Deixa-me fazer um chá e já falamos.

Ele fez um gesto de assentimento.

Mais tarde, ela sentou-se na sua cadeira de leitura e Noel falou-lhe do amigo que morrera num

acidente. Contou-lhe sobre a sua raiva e vergonha. Desabafou com ela a sua dor, os seus remorsos e até

mencionou alguns receios.

Ela então abraçou-o. Apertou-o contra si e ele chorou no seu ombro enquanto ela lhe afagava as costas

e lhe dizia que tudo iria correr bem. Ele sentiu a sua respiração no pescoço e o rosto dela contra o seu.

Cheirou o perfume dela e sentiu-lhe os seios encostados à sua túnica. Afastou-se, assustado com a tensão

nas calças.

– É melhor ir-me embora.

– Se precisares de alguma coisa...

Noel assentiu com a cabeça.

Ela acompanhou-o à porta e ele abraçou-a, sem se conter.

– Obrigado – disse-lhe.

– Quando precisares, aqui estou – retorquiu ela com tristeza.

Viu-o descer até ao portão. Ele não olhou para trás. Ela fechou a porta.

Noel foi a pé para casa. Demorou mais de uma hora, mas pareceram-lhe minutos. Doía-lhe a cabeça.

Eu desejei-a. Oh, meu Deus, ajuda-me, estou tão confuso. Por favor, meu Deus, sou Teu, dá-me

forças!

Depressão

Seán saiu do funeral e foi direito ao pub. Sentou-se sozinho a um canto, esvaziou os bolsos de todo o

dinheiro que tinha, colocou-o em cima do balcão à sua frente e pediu um uísque, depois outro e mais

outro. Continuou a beber enquanto tinha dinheiro para pagar. Não falou com ninguém; não estava lá para

conviver ou engatar, o que provavelmente surpreendeu alguns dos clientes habituais. Quando caiu do

banco, o barman deixou de o servir. Não discutiu nem partiu nada – apenas pegou no dinheiro, arrumou-o

no bolso e saiu a cambalear do estabelecimento, tão silencioso como entrara. Comprou umas quantas

garrafas na loja de bebidas na porta ao lado, pagando com o Visa quando se apercebeu de que os trocos

que tinha não chegavam nem para um kebab. Precisou de ajuda para sair; a mistura de doze uísques e ar

fresco atingira-o com força e as pernas tornavam-se instáveis. Não se lembrava de como tinha chegado a

casa. Não se lembrava de qual fora o meio de transporte nem como conseguira enfiar a chave na

fechadura. Deu por si no seu cadeirão preferido, um velho traste que engolia quem nele se sentava. Clo

costumava chamar-lhe Lótus.

Não se levantou dele nessa noite. Ficou no escuro a beber da garrafa, sem se preocupar com qualquer

possível estrago que pudesse estar fazer ao seu corpo cansado.

Qual é o objectivo?

Tirou uma semana de férias e continuou enterrado no velho cadeirão, na pequena sala de estar do

apartamento rodeado pelos livros que cobriam as suas paredes. Não iria ler por uns tempos – os olhos

doíam-lhe demasiado. O leitor de CD ao canto permaneceu silencioso. O som magoava-lhe os ouvidos. A

televisão ficou desligada. Comida era um conceito estranho; esquecera-se de como ingerir coisas sólidas

sem se engasgar. Não conseguiu dormir. Bebeu até não haver mais.

Ignorou o telefone e a porta. Não estava em condições e, passado pouco tempo, já nem os ouvia.

Adormecia, mas o turbilhão na sua mente acordava-o depressa. A cabeça pendia para um lado, mas

depois caía ligeiramente; endireitava-a, com olhos fechados. Isto acontecia um número considerável de

vezes antes de cair por fim num sono profundo.

John estava lá e por um momento tudo ficava bem. Sentava-se no Lótus, ao lado da cama de John, no

hospital. John virava-se para ele e dizia:

– Porra, meu, estás um farrapo!

Seán assentia com a cabeça, sorrindo.

– Pregaste-nos um susto – dizia ele e John sentava-se, sorridente.

– Gosto muito de protagonismo.

– Não tem piada. Pensámos que tinhas morrido.

Seán deslocava-se para a janela, fascinado pelo sol brilhante que parecia dançar no ar como um balão

cor de laranja. Conseguia ouvir John a rir-se atrás dele.

– Ninguém morre… vamos todos para outro sítio, é tudo.

Seán tentava virar-se da janela, mas os seus olhos permaneciam concentrados no sol.

– Sim. Bem, estou contente por teres ficado – dizia, esforçando-se por virar o rosto para John.

– Não fiquei.

De algum modo libertado, virava-se, mas era demasiado tarde: deparava-se-lhe uma cama vazia, e

então acordava, assustado com o próprio choro. O sonho era quase sempre o mesmo. Mudava um ou

outro pormenor; em vez de sol, havia uma lua amarela ou uma nuvem branca. Uma vez foi um chocolate

M&M.

Bebia havia cinco dias quando a chave rodou na sua porta. Jackie, uma rapariga com quem andava,

entrou, ainda a bater na porta.

– Olá? Está alguém em casa?

Incapaz de responder, continuou sentado, bêbedo, exausto, assombrado e intoxicado em álcool. Ela

aproximou-se, observando os estragos que ele fizera nos últimos cinco dias: as garrafas vazias

espalhadas pelo chão, um cinzeiro cheio de beatas, o cheiro a bebida que quase a impediu de respirar.

Ele tinha os olhos vermelhos. Estava imundo, sem ter mudado de roupa durante dias. Os dedos, amarelos,

tremiam. Suava bastante.

– Meu Deus! Mas o que fizeste a ti próprio?

Ele ficou sentado a olhar para o vazio, puxando uma baforada profunda do cigarro, e Jackie não

percebeu se ele estava meramente a ignorá-la ou se tinha sequer percebido que ela entrara. Foi à casa de

banho procurar uma toalha de rosto. Escorregou em vomitado e sentiu-se indisposta.

– Tornaste-te o Shane McGowan!

Limpou o sapato o melhor que pôde e fechou a porta quando saiu da casa de banho. Aproximou-se dele

lentamente, receosa de fazer quaisquer movimentos bruscos. Quando chegou ao pé dele, Seán nem se

mexeu. Ajoelhou-se a uma distância segura à sua frente, com medo de estender a mão e, lentamente,

tentou estabelecer contacto.

– Seán… Seán… Seán…

Nada.

– Sou eu, a Jackie – disse ela, acenando e apontando para a sua cara.

– Eu sei quem tu és. Não sou cego – respondeu, concentrado no chão.

– Então olha para mim – desafiou ela.

Ele não queria. Não se lembrava sequer de lhe ter dado as chaves e estava irritado consigo mesmo.

Nem sequer a conhecia bem.

– Vai-te embora.

– Sei que perdeste o teu amigo, mas isto é ridículo.

Ela apontava para a sala com um movimento circular e aquilo deixou-o tonto.

– Então vai-te embora – pediu ele, antes de se afundar mais ainda no Lótus.

– Vou-me embora quando tomares um duche, mudares de roupa e deitares fora estas malditas garrafas.

A sua intervenção não foi bem-vinda.

– Vai-te embora – suplicou ele.

– Não posso.

– Sai daqui – gemeu.

Ela não se mexeu. Ele usou toda a força que conseguiu reunir para ser tão ameaçador quanto possível.

– Sai já da minha casa! Não te quero! Não tenho nada para te dizer. Nem sequer gosto de ti.

Pegou numa garrafa e engoliu os resíduos.

– Estás apenas chateado – disse ela calmamente, enquanto se levantava para recuperar algum poder. –

Estás só bêbedo.

Ele fitou-a com um olhar vidrado, furioso com aquela desconhecida, que nem parecia assim tão

atraente. Se ela não queria sair, ele iria fazer com que quisesse.

– Eu estou bêbedo e tu és uma puta. – Acendeu outro cigarro, certo de que ela se iria embora em breve.

– Parvalhão – observou ela. – Tu é que és um cabrão. Tu é que és o gajo que não consegue fazer com

que uma relação resulte, por isso não ponhas as culpas em mim.

Ele não se deu ao trabalho de lhe responder.

Corriam-lhe lágrimas dos olhos.

– Eu queria que isto resultasse, mas são precisos dois. – Dirigiu-se para a porta.

– Não te esqueceste de nada? – perguntou ele, fechando os olhos, aliviado.

Ela voltou-se e olhou em volta, confusa.

– As minhas chaves.

Ela atirou-as para a mesa de vidro, tombando uma lata cheia de beatas encharcadas. Ele não olhou

mais para ela. A rapariga saiu, batendo com a porta. Ele abriu os olhos e as lágrimas que se tinham

recusado a vir durante tanto tempo correram livremente.

Aceitação

Anne e Richard sofreram tal como nós. Sentiram descrença, raiva, depressão e culpa, mas também se

tinham um ao outro, e, unidos, mantiveram a segurança e a esperança que nós havíamos perdido. Quando

Richard se sentia deprimido, Anne estava mesmo ao seu lado. Quando Anne achava a dor insuportável,

Richard abraçava-a com força. Sentiam a falta do amigo, mas agradeciam a Deus por estarem juntos.

Uma semana após a festa de herança, sentaram-se no sofá e abraçaram-se, vendo um filme que tinham

de John a fazer o seu discurso de padrinho do noivo no casamento deles. Repuxava a gravata e sorria

enquanto as suas mãos baralhavam involuntariamente telegramas.

– Não vou tomar muito do vosso tempo… – Uma pausa. Sorriu. – Ao contrário da mãe de Anne.

Os convidados reunidos riram-se logo. O operador de câmara focou a mãe de Anne a rir-se e a fingir

constrangimento enquanto balbuciava:

– Oh, pára com isso!

O operador de câmara voltou ao orador.

– Vou apenas ler algumas saudações de pessoas que não deram importância suficiente a isto para

virem.

Os convidados riram de novo. Anne, no seu vestido de noiva, tinha um enorme sorriso. Richard

enxugava os olhos e sorria à mulher.

Quatro anos depois, Anne estava a ver o amigo morto no ecrã e a chorar nos braços do marido.

Abraçaram-se, vendo John enquanto ele se punha na fila para beijar a noiva, a rir e a fazer estalar os

lábios. Acenou-lhes, abraçou-os e rodou com eles, radiante com a felicidade dos amigos. Choraram mas

também riram. Não conseguiram evitá-lo; ele era muito engraçado sempre que queria. Contaram histórias

de quando ele fora esperto e de quando fora estúpido. Falaram sobre os seus maus hábitos e os seus

provérbios preferidos. Recordaram os bons tempos e alguns maus. Relembraram-no bem, e, ao fazerem-

no, aceitaram a sua morte.

6

O urso, o coelho...