Estratégia de uma mise-en-scène: 'Correspondência (1762-1765)' e 'Traité sur la tolérance (1763)' .. por Ana Luiza Reis Bedê - Versão HTML

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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE LETRAS MODERNAS

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LÍNGUA E LITERATURA

FRANCESA

ANA LUIZA REIS BEDÊ

Estratégia de uma mise-en-scène:

Correspondência (1762-1765) e Traité sur la

tolérance (1763) de Voltaire

São Paulo

2007

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE LETRAS MODERNAS

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LÍNGUA E LITERATURA

FRANCESA

Estratégia de uma mise-en-scène: Correspondência

(1762-1765) e Traité sur la tolérance (1763) de Voltaire

Ana Luiza Reis Bedê

Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação

em Língua e Literatura Francesa do Departamento

de Letras Modernas da Faculdade de Filosofia,

Letras e Ciências Humanas da Universidade de São

Paulo para obtenção do título de Doutor em Letras

Orientador: Prof. Dr. GILBERTO PINHEIRO PASSOS

São Paulo

2007

Vous étiez donc à Paris, mon cher ami, quand le dernier acte de la tragédie des

Calas a fini si heureusement; la pièce est dans les règles, cést à mon gré le plus beau

cinquième acte qui soit au théâtre. Toutes les pièces sont actuellement à l´honneur de

la France [...]

Voltaire

On peut souhaiter sans doute, et je le souhaite aussi, une flamme plus douce, un répit,

la halte propice à la rêverie. Mais peut-être n´y a-t-il pas dáutre paix pour lártiste

que celle qui se trouve au plus brûlant du combat.

Albert Camus

AGRADECIMENTOS

À minha família francesa Reine Accoce, Nadine Thirault, Bernard Dachary, Philippe

Sarfati e Jacques Cauët, pelo imenso afeto. Aos amigos Alcides Celso de Oliveira

Villaça, André Luís Rodrigues, Cécile Bougroff, Godrick Chekete, João Roberto

Gomes Faria e Marie-Andrée Grandguillaume, por diferentes sugestões. À Ieda

Lebensztayn que acompanhou várias etapas deste trabalho, agradeço a leitura, as

orientações sobre informática e o incentivo. Ao Jacob Lebensztayn, pela assessoria nas

traduções do latim. Às professoras Maria das Graças de Souza e Maria Cecília de

Queiroz Moraes Pinto, pela leitura atenta e problematizadora do relatório de

qualificação, bem como pelos diversos comentários enriquecedores. Aos professores

Franklin Leopoldo e Silva e Roberto Romano, pelas indicações bibliográficas. À Edite

Mendez Pi, exemplo de competência. À minha irmã Ana Helena Reis Bedê, pelo

estímulo, carinho e amizade. Ao meu cunhado Luis Antonio Castagna Maia, pelos

importantes esclarecimentos na área de Direito. Ao professor Sylvain Menant,

solicitude, bom humor e calor humano. Em 2005, tive o privilégio de freqüentar seus

animados seminários sobre Voltaire na Universidade de Paris IV. Ao professor Michel

Delon, tutor durante minha pesquisa na França, pela rapidez em resolver as questões

burocráticas, pela generosidade de sua acolhida na Universidade de Paris IV e pelas

preciosas indicações bibliográficas.

Ao Alexandre Koji Shiguehara, agradeço pelo carinho e solidariedade. Sua leitura

minuciosa e inteligentíssima indicou-me novas (e difíceis) questões, além de diferentes

perspectivas de abordagens. A maioria de suas sugestões foi incorporada à tese.

Ao professor Gilberto Pinheiro Passos que, durante uma conversa após minha

qualificação de mestrado, em 2000, falou-me da monumental correspondência de

Voltaire. Agradeço pela competente orientação, pela confiança, pelo apoio e pela

paciência ao longo dos últimos anos.

Para a realização desta tese, contei com o indispensável auxílio da Capes (bolsa entre

setembro de 2002 e dezembro de 2004 / entre outubro de 2005 e setembro de 2006).

Agradeço à Prefeitura de São Paulo e ao “Conseil Régional Île-de-France” pela bolsa

concedida para pesquisar em Paris de janeiro a setembro de 2005.

Este exemplar foi revisto após a defesa (1º de agosto de 2007). Agradeço, portanto, aos

professores Roberto Romano, Luiz Dantas, Maria das Graças de Souza e Maria Cecília

de Queiroz Moraes Pinto, pelas diferentes leituras deste trabalho e seus comentários

críticos e minuciosos. A maioria de suas sugestões foi incorporada à tese, aproveitarei

outras observações que fizeram para pesquisas futuras.

Reitero minha dívida ao prof. Gilberto Pinheiro Passos, digo com Voltaire “A amizade e

a admiração dispensam o protocolo”: muito obrigada por tudo.

RESUMO

Em 10 de março de 1762, o protestante Jean Calas, suposto assassino de seu

filho, sofre o suplício da roda após um julgamento espúrio do Parlamento de Toulouse.

Voltaire assume as rédeas do caso. Para ele tratava-se de um crime motivado pelo

fanatismo religioso, algo impensável em pleno século das Luzes.

Por meio do estudo de um conjunto de cartas redigidas em defesa da reabilitação

de Jean Calas, interessa discutir como Voltaire conduziu a “guerra” pelo advento da

Razão. Descobre-se, à medida que se avança, desde as manobras nos bastidores à

eloqüência do advogado em suas denúncias, o que ele denominou de “crime contra o

gênero humano”. Pretende-se mostrar, igualmente, as astúcias do texto voltairiano para

atrair leitores de diferentes esferas sociais.

Nesta tese, trata-se de questionar como o Autor prepara o terreno para a

divulgação de seu livro Traité sur la tolérance (1763), arma decisiva contra os auto-

denominados seguidores de Cristo. Nessa obra compósita, analisam-se as variadas

formas discursivas utilizadas por Voltaire para convencer o leitor de que os dogmas e as

superstições não passam de criações humanas.

Perguntamo-nos quais características, no conjunto desses textos, o autor

privilegia a fim de conferir brilho à batalha contra o obscurantismo, além de nos

debruçarmos sobre as fontes nas quais Voltaire se inspirou para sua argumentação.

Percebe-se como a preocupação de instruir os cidadãos ia de par com a vontade de

proporcionar prazer, peça-chave da estética desse poeta-filósofo que, para dizer com

Roland Barthes, dava ao combate pela Razão “o aspecto de uma festa”.

Palavras -chave: Voltaire, correspondência, tolerância, affaire Calas, iluminismo.

ABSTRACT

On March 10th 1762, the Prostestant Jean Calas, charged with the alleged murder

of this own son, was submitted to the torture of the wheel, after a spurious trial at the

Toulouse Parliament. Voltaire takes over the affair. For him, it was a matter of a crime

due to a religious fanaticism, something unacceptable in the century of Enlightenment.

The observation of a bunch of letters written to assert Jean Calasś rehabilitation

allowns the debate about how Voltaire waged the “war” to prevail Reason. Il also

allows us to observe from the backstage ploys to the lawyerś eloquence, in his

denounces to what he denominated “a crime against the humanity”. It is also possible to

see the acuity of Voltaireś text to appeal to the readers of different social levels.

The thesis is supposed to question how the author prepares the ground to the

issue of his book Traité sur la tolérance (1763) an incisive weapon against the so-called Christś followers. In this composite work several discursive ways are analyzed to

convince the reader that the dogmas and the superstitions aren´t but human creations.

The main question is: what characteristics the author pick and choose among his

writings in order to highlight the battle against obscurantism and what were the sources

that inspired his argumentation. One may notice how the concern about informing the

citizens has gone along with his will to provide pleasure, a touchstone of this

philosopher-poetś aesthetics, whom, to mention Roland Barthes, rendered “a

configuration of a party” to the struggle for Reason.

Key words: Voltaire, correspondence, tolerance, Calas case, Enlightenment.

RÉSUMÉ

Le 10 mars 1762, le protestant Jean Calas, accusé de l’assassinat de son fils,

souffre le supplice de la roue à la suite d’ un jugement du Parlement de Toulouse. Loin

de se ranger à l’avis des juges, Voltaire y note le signe d’une erreur judiciaire. Aussi

prend-il sa plume en mains pour alerter l’opnion publique et élucider l’affaire. De son

point de vue, il ságit dún crime motivé par le fanatisme religieux. En plein siècle des

Lumières, cela était impensable.

À travers l´étude dún ensemble de lettres rédigées pour la réhabilitation de Jean

Calas, nous nous sommes employé à faire ressortir de quelle façon Voltaire a mené cette

guerre pour asssurer le triomphe de la Raison. On découvre, à mesure que nous

avançons dans notre recherche, ses différentes batailles depuis les manoeuvres dans les

coulisses jusqu’à l’éloquence de lávocat dans ses dénonciations de ce qu íl a nommé

un “crime contre le genre humain”. Nous avons, en outre, essayé de montrer les artifices

littéraires propres au texte voltairien pour attirer et sensibiliser les lecteurs de différentes couches sociales à son combat.

Au surplus, notre thèse met en évidence la façon dont láuteur a preparé le

terrain pour assurer la diffusion de son Traité sur la tolérance (1763), lárme décisive contre les chrétiens et le fanatisme religieux. A travers l’analyse de la diversité des

formes discursives de cette oeuvre composite, nous nous sommes évertué à appréhender

comment Voltaire s’efforce de convaincre le lecteur que les dogmes et les superstitions

ne sont que des créations humaines.

Nous nous sommes enfin démandé quelles idées et quels effets de style láuteur

met en exergue, dans l’ensemble des textes, afin de donner de l’éclat à la bataille contre

lóbscurantisme, ce qui nous a fait cerner les sources qui ont inspiré son argumentation .

Il apparaît que chez Voltaire, le souci dínstruire les citoyens va de pair avec la volonté

de faire plaisir, clef de lésthétique de ce poète-philosophe qui, pour reprendre

léxpression de Roland Barthes, donnait au combat pour la Raison, “lállure dúne fête”.

Aos meus pais

Maria Luiza e Francisco

ABREVIAÇÕES EMPREGADAS

ESTST : Études sur le Traité sur la tolérance de Voltaire. Sous la direction de Nicholas CRONK. Oxford: Voltaire Foundation, 2000.

IV : MAGNAN, André (GOULEMOT, Jean ; MASSEAU, Didier). Inventaire Voltaire.

Paris: Gallimard, 1995.

ML: Magazine Littéraire.

PEN: Pour encourager les autres: studies for the tercentenary of Voltaireś birthday.

1694/1994. Edited by Haydn Mason. Oxford: Voltaire Foundation,1994.

RHLF: Revue d´Histoire Littéraire de la France.

VC: Voltaire et ses combats: actes du congrès international Oxford-Paris 1994. Sous la direction de Kölving, Ulla et Mervaud, Christiane. Oxford: Voltaire Foundation, 1997.

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO

O crime da rua “des Filatiers”

1

As várias faces de um escritor

13

PRIMEIRA PARTE: UMA CORRESPONDÊNCIA

INCENDIÁRIA

CARTEADOR CONTUMAZ

Uma pena, um tinteiro: singular ponto de vista 19

do século XVIII

Correspondência de Voltaire: um clássico da

25

literatura

INCIPIT E SUBSCRIÇÃO: UMA ESTÉTICA DO

AFAGO

Entre etiqueta e informalidade

28

“[...] je ne suis plus qu úne ombre et pas

31

même une ombre ambulante” [D12310]

ESTRATÉGIA (NOS BASTIDORES DE “DÉLICES” ET

FERNEY)

Planejando a ofensiva

38

Recrutamento dos aliados

40

Pièces originales

45

Contribuição da irmã Julie Fraisse

53

Exemplo de administrador

55

VOLTAIRE : FILÓSOFO ADVOGADO

Vocação inesperada

58

“L´éloquence náppartient quáux

59

persuadés” . [D11686]

A força persuasiva do verossímil

68

O MELHOR ALUNO DOS JESUÍTAS

O ensino no “Louis le Grand”

73

Joseph de Jouvency

75

Brilho e solidez do estilo

77

Disfarces e teatralização

82

PRUDÊNCIA DA SERPENTE: BATALHA CLANDESTINA

DO PARTIDO DOS FILÓSOFOS

Fora da torre de marfim

85

Jean-Jacques Rousseau (1712-1778)

86

Denis Diderot (1713-1784)

88

Claude Adrien Helvétius (1715-1771)

90

Jean Le Rond dÁlembert (1717-1783)

91

Étienne Noel Damilaville (1723-1768)

93

Aliados de várias esferas

96

O clã anti-filosófico

97

Círculo feminino

100

O BOM SAMARITANO

Diatribes contra o livro sagrado

103

Bíblia: uma obra como outras

105

Metáforas e comparações

107

São Paulo e São João Batista

110

Luz e verdade

112

O Evangelho de Voltaire

118

SEGUNDA PARTE: TRAITÉ SUR LA

TOLÉRANCE: EDIFICAÇÃO E DEMOLIÇÃO

DIVULGAÇÃO E RECEPÇÃO DO TRAITÉ SUR LA

TOLÉRANCE

Anúncios sobre a tolerância

125

A publicação do Traité: impasses e estratégias 128

A preocupação com o público leitor

131

A esperança no Traité: lutas e repressões

134

ECOS DE PIERRE BAYLE ET JOHN LOCKE

Em nome da ordem, a intolerância

140

Bayle: a moral contra a violência

141

Voltaire e Bayle: apóstolos da tolerância

145

Locke e a separação entre Igreja e Estado

147

Voltaire e Locke

150

NA TRIBUNA CONTRA O FANATISMO

Uma justiça espúria

155

Advogado de Jean Calas

158

UM CONVITE AO DEBATE

Tratado ou ensaio sobre a tolerância?

168

Diálogo entre “honnêtes hommes”

171

Das cabeças coroadas ao grande público

177

O prazer das discussões

179

RAPOSAS E LOBOS: POLÊMICAS E INVECTIVAS

Mirando os inimigos

182

A China

185

A agonia das raposas

186

Os lobos

189

OUTRAS VOZES

La Beaumelle

191

Antigo Testamento: mentiras e contradições

193

Resposta à literatura apologética

199

JESUS CRISTO: MODELO DE TOLERÂNCIA

Os excessos da Igreja Católica na França

203

Jesus Cristo & Cristianismo

204

Novo Testamento: depuração e ironia

206

O Sócrates da Galiléia

208

UN JOUR VIENDRA

“Le règne de l´humanité sánnonce.” [D11087] 210

A antiode dos franceses

212

O melhor papel de Voltaire

213

ANEXOS

I : Tradução da nota no 21 do Traité sur la

216

tolérance

II: Cartas de Voltaire com referências ou

217

alusões ao Traité sur la Tolérance.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

220

1

INTRODUÇÃO

O crime da rua “des Filatiers”

Gritos, sangue, tumulto, um homem morto no térreo de uma casa de dois andares -

mistério. Eis alguns elementos dignos de figurar num romance policial. Ainda pairam

dúvidas sobre muitos aspectos do mais célebre escândalo jurídico do Antigo Regime.

Houve um crime? O que sabemos de fato?

Façamos um esforço de imaginação para nos remeter ao século XVIII. Não à

excitante Paris com seus teatros e cafés, nem à faustosa Versalhes com suas intrigas

políticas. Mas ao sudoeste do reino - à cidade de Toulouse - , então com cinqüenta mil

habitantes. Necessitamos do conhecimento, ainda que sumário, de dados históricos precisos

dos reinos de Luís XIV e Luís XV para entender o sinuoso processo que resultou na

condenação de Jean Calas.

Na católica França de 1761, décadas após a revogação do édito de Nantes, havia

ainda, em algumas cidades, famílias de protestantes que insistiam em realizar o culto de

forma secreta. De fato, o édito de Fontainebleau de 1685 ordenara a demolição de todos os

templos da R.P.R.(religião pretensamente reformada) e vedara a seus seguidores de se

reunirem em assembléia. Luís XIV proibira a emigração, somente os pastores poderiam

deixar a França em um prazo máximo de quinze dias, renunciando aos bens e aos filhos

maiores de sete anos. Essa lei abolira as escolas particulares de instrução de crianças da R.

P. R., o casamento fora da Igreja e o direito à herança aos filhos dos protestantes, além de

impedi-los de exercer diversas profissões. Houve, por isso, conversões em massa, mas não

se questionava sua sinceridade. Com tantos obstáculos na vida civil, muitos se contentavam

com um catolicismo de fachada. Teoricamente não existiam mais protestantes na França,

somente novos convertidos. Em 1699, novo édito condena às galés todos os hereges

recém-convertidos que tentassem sair do país; os cúmplices desse crime receberiam a pena

de morte. Essas leis mostraram-se desastrosas para o reino. Nada menos que duzentos mil

franceses deixaram o país.

Com a morte de Luis XIV em 1715, o espírito antiprotestante revigorou-se por

influência do Duque de Bourbon. Em 1724, Luis XV, com apenas quatorze anos, reafirma o

2

édito de Fontainebleau. Daí em diante todos os protestantes são obrigados a batizar seus

filhos recém-nascidos e educá-los na religião católica.

Um sinistro episódio precedeu de alguns dias o caso da rua “des Filatiers”.

Rochette, um jovem de vinte anos, fora preso como ladrão em Caussade, ao norte de

Montauban (arredores de Toulouse). Tratava-se de um pastor que pregava o protestantismo

clandestinamente entre camponeses. No dia seguinte à sua prisão, um tumulto deflagrado

entre católicos e defensores de Rochette assusta as autoridades. Três fidalgos, os irmãos

Grénier, tentam resgatá-lo em vão. Os irmãos e o pastor são condenados à pena capital.

Ribotte -Charron, um protestante de Montauban, dirige-se a Rousseau e a Voltaire para que

intervenham no caso, ignorando as intrigas que separavam os dois grandes nomes das

letras. O patriarca de Ferney e o cidadão de Genebra não se preocuparam com a sorte dos

jovens condenados. Rousseau solicitou informações mais precisas, mas recusou envolver-se

alegando não ser amigo do Marechal Richelieu1 (numa alusão a Voltaire); além disso, era a

favor da obediência à lei, que proibia a assembléia de protestantes.

Voltaire, por seu turno, não costumava interessar-se pelas questões relativas aos

huguenotes do sudoeste da França. Ele mesmo, aliás, tinha suas altercações com os

calvinistas de Genebra. Assim mesmo, chegou a escrever ao amigo Richelieu, mas o

Marechal não quis interferir na decisão do Parlamento de Toulouse.

Numa missiva de 21 de fevereiro de 1762, Ribotte-Charron narra a Rousseau como

o pastor foi conduzido pelas ruas de Toulouse, seguido por uma multidão que o insultava.

Rezou diante do cadafalso e cantou um salmo antes de ser enforcado. Em seguida, os três

irmãos foram decapitados, privilégio dos nobres. Voltaire, ao ter ciência dos fatos, escreve

a d’Argental e sua esposa:

Le monde est bien fou mes chers anges. Pour le parlement de Toulouse, il juge. Il vient de

condamner un ministre de mes amis à être pendu, trois gentilshommes à être décapités et cinq ou six bourgeois aux galères, le tout pour avoir chanté des chansons de David. Ce parlement de Toulouse n’aime pas les mauvais vers. [D10353]2.

A execução dos jovens protestantes data de 19 de fevereiro de 1762, em pleno

andamento de um outro processo, bem mais complexo. Jean Calas, de sessenta e três anos,

1 Duque de Richelieu ( 1699-1788), sobrinho-neto do Cardeal de Richelieu; diplomata e general do exército.

2 Como já se tornou costume, as referências às cartas de Voltaire serão indicadas pela numeração entre chaves da edição Correspondence and Related Documents organizada por Theodore Besterman entre 1968 e 1977, edição dita definitiva, daí a letra “D” maiúscula que antecede o número.

3

mantinha um comércio de tecidos havia várias décadas no número dezesseis da rua “des

Filatiers”. Sua loja localizava-se no térreo de uma modesta casa. Morava com a família nos

dois andares superiores. Era casado com Anne-Rose, uma inglesa de cinqüenta e um anos.

Dos seis filhos do casal, quatro ainda moravam com os pais: as duas filhas caçulas, Anne-

Rose (Rosine), de vinte anos, e Anne (Nanette), dezenove; Marc Antoine -a vítima-, tinha

vinte e oito anos na ocasião, e Pierre, vinte e sete. Quanto a Louis, que tinha vinte e cinco

anos, convertera-se ao catolicismo e vivia da pensão do pai. Donat, o mais jovem dos filhos

homens, fazia um estágio de aprendizagem em Nîmes. Jeanne Viguière, uma empregada

católica, trabalhava para a família havia mais de duas décadas.

Os Calas eram honestos, cordiais e respeitados dos tolosanos, até o sinistro episódio

da noite de 13 de outubro de 1761, que transformou de forma radical a existência da pacata

família.

Nesse dia, Rosine e Nanette trabalhavam na vindima em uma cidade dos arredores.

Na residência da rua “des Filatiers” encontravam-se o casal, os dois filhos mais velhos, a

empregada e um visitante. Jeanne preparou um menu especial para o jantar: capão assado,

pombos, salada de aipo, uvas brancas, além do queijo de Roquefort, reservado aos dias de

festa. Afinal, recebiam Gaubert Lavaisse, de vinte anos, filho de um importante advogado

tolosano. O jovem voltara de Bordeaux, onde estudara inglês e náutica e pretendia

estabelecer-se em São Domingos. Como seus pais não se encontravam na cidade, passaria a

noite com os Calas e pernoitaria na residência de Jean- Pierre Cazeing, um amigo comum.

Os convivas conversaram sobre a promissora carreira de Gaubert e, segundo os

testemunhos da família, nenhuma alteração de humor foi notada em Marc-Antoine. O

primogênito retirou-se antes da sobremesa, pois era hábito seu jogar no café “Quatre

billards”. Ao sair, passou pela cozinha, Jeanne perguntou-lhe se sentia frio, o jovem

respondeu: “Pelo contrário, transpiro”.

Gaubert despediu-se dos anfitriões por volta das 21h30. Pierre o acompanhou com

uma vela pela escada. Ao chegarem ao térreo, notaram a porta da loja entreaberta. Do lado

de dentro, Marc-Antoine se encontrava pendurado por uma corda colocada entre os

batentes da porta que ligava a loja ao depósito (versão até hoje controversa). Aos gritos do

irmão e do amigo, o pai acorreu. Pierre saiu à procura de um médico, enquanto Gaubert

amparou Anne-Rose, desesperada. Sendo noite de lua cheia, um ou outro transeunte

4

circulava. Rapidamente uma multidão se juntou diante do número dezesseis. Quando a

polícia chegou ao local, a notícia já se espalhara. Marc-Antoine fora assassinado - o susto

inicial cedeu lugar às especulações. Entre o vulgo, alastra-se o rumor, toda a família seria

suspeita de matar o primogênito para impedi-lo de converter-se ao catolicismo. Tal boato

ganha força entre os católicos mais conservadores e influencia o inquiridor David de

Beaudrigue, antiprotestante como muitos de seus conterrâneos.

O inquérito é conduzido de forma desastrosa. Entre a noite do crime e o dia do

veredicto, sucedem-se uma série de absurdos jurídicos. Ao chegar à casa dos Calas,

Beaudrigue não faz nem solicita nenhum exame do local. Revista os bolsos da calça de

Marc-Antoine, encontra um lenço, um canivete e cartas. Durante a tarde, Marc-Antoine

trocara prata por luíses de ouro a pedido do pai, mas o dinheiro não foi encontrado. O chefe

de polícia ignorou esse pormenor, assim como a ausência da chave da porta de entrada. Não

se examinou a hipótese de crime passional ou alguma pendência entre jogadores. Marc-

Antoine costumava apostar no “Quatre billards”. O patrão desse estabelecimento nunca foi

interrogado. Athanase Coquerel fils, autor de um minucioso estudo, informa-nos sobre a

leviandade com que foi conduzido o processo:

David omit de décrire l’état des lieux et ne prit pas même la peine de l’examiner; il

ne fit pas visiter les endroits de la maison où des assassins auraient pu se cacher, comme le long corridor qui conduit de la rue à la cour; il oublia de constater si ceux qu’il accusait d’avoir étranglé un jeune dans la force de l’âge avaient les habits en désordre.3

Beaudrigue convoca a presença do médico e do cirurgião juramentados da cidade

dos quais cobra um rápido relatório. Exige a presença de toda a família na prefeitura, assim

como de Gaubert Lavaisse, Jeanne Viguière e mesmo de Jean-Pierre Cazeing. Os

interrogados, após se apresentar, deveriam responder se Jean Calas atormentava seu filho

devido ao anseio deste de mudar de religião. Beaudrigue procura o maior número de

indícios possíveis para comprovar sua hipótese de crime calvinista.

Uma monitória4 é lançada, aqueles que se recusassem a contribuir para o

esclarecimento do caso seriam excomungados. Deveriam testemunhar sobre a intenção de

3 COQUEREL FILS, Athanase. Jean Calas et sa famille: étude historique d’après les documents originaux suivie de pièces justificatives et des lettres de la soeur A.-J. Fraisse de la visitation. Paris: Librairie de Joël Cherbuliez,1869,p. 24.

5

Marc-Antoine de se converter e sobre o suposto complô da família para assassinar o

primogênito. A passagem seguinte ilustra a forma tendenciosa como foi redigido o

documento:

Le monitoire se présente comme un texte censé inspirer aux chrétiens la terreur de

l’excommunication, ce qui, dans une ville comme Toulouse, ne peut que produire l’effet recherché; il est rédigé selon la rhétorique du droit canon par un juriste on ne peut plus laïque, l’avocat du roi, nommé Pimbert. La mesure d’excommunication est lancée:

“ 1O ) Contre tous ceux qui sauront, par ouï-dire ou autrement, que le sieur Marc-Antoine

Calas aîné avait renoncé à la religion prétendue Réformée dans laquelle il avait reçu l’éducation; qu’il assistait aux cérémonies de l’Église catholique romaine; qu’il se présentait au sacrement de la pénitence, et qu’il devait faire abjuration après le 13 du présent mois d’octobre, et contre tous ceux auxquels Marc-Antoine Calas avait découvert sa résolution;

2O ) Contre tous ceux qui sauront par ouï-dire ou autrement qu’à cause de ce changement de

croyance le Sr Marc-Antoine Calas était menacé, maltraité et regardé de mauvais oeil dans sa

maison; que la personne qui le menaçait lui a dit que s’il faisait abjuration publique, il n’aurait d’autre bourreau que lui;

3o ) Contre tous ceux qui savent par ouï-dire ou autrement qu’une femme qui passe pour

attachée à l ‘hérésie excitait son mari à de pareilles menaces, et menaçait elle-même Marc-Antoine Calas; [...]”5

A monitória foi lida nas igrejas durante três domingos seguidos. Surgiram

depoimentos ilegítimos e contraditórios, algumas pessoas que se encontravam a dezenas de

metros da rua “des Filatiers” juravam ouvir pedidos de socorro; outras inventavam histórias

sobre as estreitas relações entre Marc-Antoine e o Catolicismo.

Uma declaração desencontrada da família pesou a favor da tese de parricídio6. A fim

de evitar o tratamento reservado aos suicidas, que previa mutilação e enterro numa vala

comum, Jean e Pierre Calas mentiram a respeito da posição do corpo. Disseram ao

inquiridor, no primeiro interrogatório, que a vítima se encontrava estendida no chão. A

partir do segundo dia, retificaram a resposta. Na verdade, o cadáver estava com o pescoço

pendurado numa corda enrolada num rolo de madeira e este se equilibrava entre as duas

folhas da porta.7

4 Segundo o Dicionário Houaiss de língua portuguesa, eis a definição de monitória: “1 JUR ant. chamamento a depor sobre si ou outrem feito por autoridades; ordem ou mandado judicial 1.1Dir.ECLES citação para delatar ou realizar uma auto-incriminação, feita sob pena de excomunhão.”

5 GARRISSON, Jannine. L’Affaire Calas:miroir des passions françaises. Paris:Fayard, 2004.pp.73-74.

6 De Plácido e Silva em seu Dicionário Jurídico. Rio de Janeiro/São Paulo: Edições Forense, 1936, pp.1122-23, explica-nos: “Tomando, porém, parens, no sentido de parentes, outrora parricídio exprimia todo homicídio na pessoa de um ascendente pelo descendente, como do descendente pelo ascendente. Assim, parricídio, tanto era o crime do pai que matava o filho como o filho que matava o pai”.

7 A tese do suicídio foi sustentada por Voltaire e pelos advogados de defesa. Segundo René Pomeau, porém, há grande probabilidade de tratar-se de um homicídio cometido por alguém de fora. A chave de Marc-Antoine 6

A essa altura, o cadáver de Marc-Antoine já se deteriorava na prefeitura, sendo

imperioso organizar as exéquias. Representantes da confraria de cogula dos penitentes

brancos se encarregaram de enterrá-lo. Protagonizaram um macabro espetáculo: colocaram,

sobre um cadafalso, um esqueleto exibindo o letreiro “abjuração da heresia”, que desfilou

pelas ruas, seguido por dezenas de devotos. Tal episódio é revelador do espírito sectário de

uma parte do povo tolosano.

Os interrogatórios continuavam e todos negavam a autoria ou cumplicidade do

crime. A tão comentada intenção do jovem de abjurar do culto protestante não se

sustentava. Nenhum padre ouviu-lhe qualquer confidência a respeito. Sabia-se, isso sim,

que Marc-Antoine ia à missa como amador de boa música. Com poucos recursos

financeiros, somente na igreja romana satisfazia seus anseios de homem culto. Acresce que

admirava a eloqüência, não perdia as homilias de um reputado pregador. Uma frustração

amargurava o primogênito dos Calas, a impossibilidade de seguir a carreira de advogado.

Não obtivera um certificado que provasse sua fidelidade ao catolicismo (um documento pró

-forma, pois no íntimo continuaria protestante); seguia, então, como auxiliar de seu pai,

num ofício aquém de suas ambições.

O Parlamento de Toulouse, diante das aberrações cometidas por David de

Beaudrigue, assumiu a condução do processo. Os magistrados hesitaram quanto à

culpabilidade da família. Insistimos em que, devido à exigüidade da residência, a

incriminação de um implicava no mínimo cumplicidade dos demais. Acusaram, no entanto,

somente Jean Calas e posteriormente decidiriam sobre os supostos envolvidos.

Para a pena capital, seria necessária uma maioria de dois votos. No resultado da

primeira votação, ela não foi atingida. Dos treze juízes, somente sete acreditavam no

parricídio. Mas um deles mudou de idéia; assim, no dia 9 de março, o comerciante foi

condenado a sofrer o suplício da roda. No século XVIII, não havia apelação, nem cassação

para o julgamento de um Parlamento, podendo apenas o rei agraciar o réu. Ora, em

não foi encontrada. O assassino pode ter esperado sua saída noturna e tê-lo atacado, depois colocado o corpo na loja. É possível ainda que alguém se tenha escondido no fundo do corredor do térreo, após as portas de entrada da loja e do depósito. A hipótese de assassinato por um indivíduo vindo do exterior em nenhum momento foi questionada. Pelo contrário, David de Beaudrigue insistia em dizer aos acusados que a porta estava trancada à chave. Ainda segundo R. Pomeau, a afirmação de Pierre e Jean Calas no primeiro depoimento seria, nesse caso, verdadeira. Eles de fato encontraram o corpo no chão. Mas, quando perceberam que poderiam ser acusados de assassinato devido ao clima antiprotestante, tiveram medo e mudaram a resposta.Cf. POMEAU,R. “Nouveau regard sur le dossier Calas” in Europe, junho, 1962 pp.57-72.

7

Toulouse, um correio demoraria quase duas semanas para chegar a Versalhes, e o mesmo

tempo para a resposta. Sendo assim, decidiu-se pela execução no dia seguinte.

Na manhã do dia 10 de março de 1762, Jean Calas é submetido a dois tipos de

tortura conduzidos por David de Beaudrigue e seus assistentes. Trata-se, primeiro, da

sessão ordinária, isto é, por meio de cordas, seus braços e pernas são esticados. O réu nega

o crime, apesar das súplicas de Beaudrigue, que queria abreviar o sofrimento do condenado.

Os carrascos iniciam a sessão extraordinária, dez recipientes com um litro d’água cada um

são entornados na boca do réu por meio de uma trompa.

Procede-se, então, à execução: Jean Calas é amarrado em forma de cruz numa roda

– transportado por uma carroça até diante da igreja Saint-Etienne para pedir perdão a Deus.

Em seguida, levam-no à praça Saint-Georges para o último interrogatório, uma multidão o

acompanha. Perguntam-lhe novamente se assassinara o filho e se possuía alguma

informação para esclarecer o caso. A seu lado, o padre Bourges aguarda, quem sabe, a

esperada confissão e abjuração. Com golpes de uma barra de ferro, quebram os braços e as

pernas do réu. Calas agoniza durante duas horas, a face voltada para o céu. Já morto, é

estrangulado e jogado numa fogueira. O padre, que o acompanhou até o último instante,

declarou que Jean Calas morreu protestante, afirmando sua inocência.

Os juízes viram-se num impasse. Na ausência de confissão do réu, não ousaram

dar continuidade ao processo contra os demais familiares. Resolveram absolver a esposa

Anne- Rose ( mas lhe confiscaram os bens), Gaubert Lavaisse e Jeanne Viguière. Pierre foi

condenado ao banimento. Uma das filhas foi internada no convento “Notre-Dame” e a outra

no convento da “Visitation” para serem convertidas ao Catolicismo. Agraciar os demais

membros da família equivalia a reconhecer implicitamente o erro judiciário. Ou todos eram

inocentes ou todos seriam culpados. Católicos fanáticos revoltaram-se contra a decisão do

tribunal, estavam ávidos de outros espetáculos tétricos. Exigiam que os demais tivessem a

mesma sorte. Felizmente, o Parlamento de Toulouse não cedeu ao clamor popular. O

processo estaria definitivamente encerrado, não fosse a indignação de alguns protestantes

de outras cidades francesas.

Deixemos, provisoriamente, o embaraço judicial criado pelo Parlamento de

Toulouse. Voltemo-nos para o outro lado da França, para a cidade de Ferney, onde Voltaire

residia. Localizada no leste do país, na bela região de Gex, conhecida por situar-se entre as

8

cadeias dos Alpes e do Jura, dista seis quilômetros de Genebra e quinhentos de Paris e

Versalhes. Não damos essa informação gratuitamente, pois a distância do escritor da corte

francesa ajuda-nos a compreender as dificuldades que enfrentou ao assumir o comando da

guerra para restabelecer-se a justiça nesse processo.

Em Ferney8, hoje com dez mil habitantes, o escritor desempenhou a função de

arquiteto, urbanista e agricultor. Transformou um vilarejo miserável em uma comuna

próspera por meio da construção de casas, uma escola e uma igreja, além de ter incentivado

a indústria.

O patriarca costumava chamar o “château” de “ermitage”, “profane taudis”, “la

petite chaumière que j’ai bâtie” e se auto-denominava “Le vieux laboureur de Ferney”. Em

pouco tempo, o local transformou-se num reduto, ao qual afluíam artistas, nobres e

diplomatas de toda a Europa para conhecer o autor de Oedipe, de La Henriade, das Lettres philosophiques e de Candide 9. Curiosos também queriam simplesmente ver o homem de letras mais temido do monarca francês, admiradíssimo por Catarina II da Rússia e Frederico

II da Prússia.

No castelo de Ferney, Voltaire morava com a sobrinha, Mademoiselle de Denis,

excelente anfitriã, com um padre jesuíta que celebrava missas e era seu parceiro no xadrez,

com uma sobrinha-neta de Corneille que adotara, além de inúmeros empregados.

Nessa tranqüila cidade, Voltaire vivia desde 1758, absorvido em suas funções,

quando, em meados de março de 1762, viajantes de Dijon lhe contaram sobre a execução

de Jean Calas. A princípio não cuidou do ocorrido.

A primeira referência ao episódio em sua correspondência data de 22 de março de

1762. Foi numa carta a Antoine-Jean –Gabriel Le Bault, conselheiro no Parlamento de

Bourgogne e seu fornecedor de vinho. Em poucas linhas, o filósofo dá notícias sobre a

8 Em 1999, o château de Ferney foi comprado pelo Estado francês e a cidade passou a chamar-se Ferney-Voltaire.

9 “A visita a Ferney tornou-se uma espécie de gênero literário. O tom dos relatos podia ser de frustração ou zombaria- como no caso do décimo capítulo das Memórias de Casanova e de trechos das memórias de Mme de Genlis- porém o mais freqüente era que fosse de piedosa exaltação.” In: LEPAPE, Pierre. Voltaire: nascimento dos intelectuais no século das Luzes. Tradução de Mario Pontes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar editor, 1995, p. 269.

.

9

visita de parentes de Le Bault à sua residência; em seguida, comenta negócios particulares

para, enfim, referir-se ao caso antes de despedir-se:

Vous avez entendu parler peut-être d’un bon huguenot que le parlement de Toulouse a fait

rouer pour avoir étranglé son fils. Cependant ce saint reformé croyait avoir fait une bonne action, attendu que son fils voulait se faire catholique, et que c’était prévenir une apostasie. Il avait immolé son fils à Dieu, et pensait être fort supérieur à Abraham, car Abraham n’avait fait qu’obéir, mais notre calviniste avait pendu son fils de son propre mouvement, et pour l’acquit de sa conscience.

Nous ne valons pas grand-chose, mais les huguenots sont pires que nous , et de plus ils déclament contre la comédie. [D10382].

A frieza do missivista e a comparação grotesca com Abraão denotam a indiferença

com que o autor costumava referir-se aos episódios análogos, de resto pouco freqüentes

havia já vários anos. Dias depois, recebe mais informações sobre o caso, graças à visita de

Audibert, importante homem de negócios de Marselha. Em uma de suas viagens, visitara

os Calas e assegurara a Voltaire tratar-se de pessoas honradas. O filósofo muda de tom;

basta lermos o que escreve para Claude-Philippe Fyot de la Marche, seu ex-colega de classe

no liceu “Louis-le-Grand”, e que na época do affaire Calas ocupava o cargo de primeiro

presidente no Parlamento de Bourgogne [D10387]. Resume ao amigo o que se passou e diz

estar atônito, “fora de si”. Deter-nos-emos, oportunamente, nessa admirável carta, obra-

prima da retórica voltairiana. O célebre pensador recebe em Ferney o mais jovem dos

filhos, Donat, ausente na noite dos fatos. Comove-se com o relato e a situação

desesperadora na qual se encontravam a mãe e os irmãos do rapaz. O patriarca começa,

então, uma pesquisa minuciosa sobre o caso. Muitos meses depois, esclarece a Jean-

Baptiste-François de la Michodière como procedeu:

Je dois me regarder en quelque façon comme un témoin; il y a plusieurs mois que Pierre

Calas, accusé d’avoir aidé son père et sa mère dans un parricide, est dans mon voisinage avec un autre de ses frères. J’ai balancé longtemps sur l’innocence de cette famille; je ne pouvais croire que des juges eussent fait périr, par un supplice affreux, un père de famille innocent. Il n’y a rien que je n’aie fait pour m’éclaircir de la vérité. J’ai employé plusieurs personnes auprès des Calas, pour m’instruire de leurs moeurs et de leur conduite. Je les ai interrogés eux-mêmes très souvent. J’ose être sûr de l’innocence de cette famille comme de mon existence. [D11001].

Finalmente, toma a si o encargo de liderar um movimento para trazer luz aos fatos.

Por que, poderíamos perguntar-nos, Voltaire decidiu empenhar-se de corpo e alma no

processo? Em carta aos amigos d’Argental, confia:

Vous me demanderez peut-être mes divins anges, pourquoi je m’intéresse si fort à ce Calas qu’on a roué. C’est que je suis homme, c’est que je vois tous les étrangers indignes, c’est que tous vos officiers suisses protestants disent qu’ils ne combattront pas de grand coeur pour une nation qui fait rouer leurs frères sans aucune preuve. [D10389]

10

De fato, o grande trunfo da defesa de Calas seria a ausência absoluta de provas e a

diferença de oito votos contra cinco. Os juízes acreditavam, conforme vimos, que o réu

confessaria o crime antes de morrer; como isso não ocorreu, permanecia então a dúvida de

um erro jurídico. No caso do pastor Rochette e dos irmãos Grénier, por mais bárbara que

fosse a execução, estava-se cumprindo a lei. No processo Calas, tudo indicava que um

homem fora morto de forma brutal (Voltaire era visceralmente contra a tortura), após um

inquérito espúrio.

Qual seria a estratégia do filósofo para desvendar a verdade desse processo obscuro?

Procurou, primeiro, divulgar o caso entre amigos, que, por sua vez, verificariam dados e

informações relevantes para a elucidação do suposto crime. Incitou autoridades e prelados a

não fecharem os olhos diante de tal escândalo e recorreu diretamente a eles, quando lhe foi

possível, a fim de sensibilizá-los face ao episódio. Para essa tarefa de divulgação, contou

com a sua mais poderosa arma: a palavra escrita. Foi por meio de dezenas de missivas

endereçadas às diversas regiões da França e a outras nações européias que Voltaire logrou o

apoio para a causa. Com sua proverbial energia, lutou em todas as frentes viáveis, lançou

mão inclusive do prestígio de que gozava junto à Marquesa de Pompadour para que Louis

XV intercedesse contra a injustiça dos parlamentares. Apelou ainda a Frederico II da

Prússia e ao rei da Suécia. Em segundo lugar, propagou o trágico fim de Jean Calas entre a

população, efetuando um extraordinário e inédito movimento de opinião pública.

Para difundir o episódio entre as pessoas das ruas, utilizava os panfletos e os libelos

tão em voga durante o século XVIII. Por exemplo, escreveu cartas em nome da família

Calas que foram batizadas de Pièces originales. Tiveram tradução para o inglês, o alemão e o holandês, contribuindo, assim, para a divulgação nos países protestantes. O filósofo

refere-se a esses textos a d’Argental e mostra sua indignação contra a decisão do

Parlamento de Toulouse:

Vous avez lu sans doute les pièces originales que je vous ai envoyées par M. de

Courteilles. Comment peut-on tenir contre les faits avérés que ces pièces contiennent? et que

demandons-nous? Rien autre chose sinon que la justice ne soit pas muette comme elle est aveugle, qu’elle parle, qu’elle dise pourquoi elle a condamné Calas. [D10559].

Na França, o escândalo era discutido tanto por pessoas do povo, que não tinham

acesso à cultura refinada do tempo, quanto pelas mentes esclarecidas. A notícia sensibilizou

11

o seleto público dos salões e cafés parisienses e aqueles que gozavam do privilégio de

freqüentar Versalhes. Verdadeira proeza do patriarca de Ferney, pois, a morte de um

huguenote no sul da França não interessava a uma nobreza preocupada com a última

tragédia em cartaz ou com a ascensão ou queda de determinado artista. A engenhosidade do

filósofo foi tal que transformou a acanhada viúva Anne-Rose numa celebridade. Damas da

corte queriam conhecer a infeliz senhora e solidarizar-se com ela. Voltaire, no entanto,

conhecia o interesse fugaz da opinião pública; em fevereiro de 1763, escreve ao editor

Gabriel Cramer:

Au reste, l’affaire des Calas sera jugée cette semaine, ou dans l’autre au plus tard; et il

serait bon de profiter de l’attention d’un moment que le public donne à cette affaire , et que le public de Paris oubliera bientôt. On fait mille compliments à Monsieur Cramer. [D11029].

Em 7 de março de 1763, o Conselho do Rei, que reúne para a circunstância todos os

ministros, aprova a apelação do julgamento do Parlamento de Toulouse. Voltaire dá a boa

nova ao amigo Jacob Vernes, pastor de Genebra, no dia 14 de março:

Le parlement de Toulouse ayant condamné sur des indices Jean Calas, négociant de

Toulouse, protestant, à être rompu vif, et à expirer sur la roue, comme convaincu d’avoir étranglé son fils aîné en haine de la religion catholique; la veuve Calas et ses deux filles étant venues se jeter aux pieds du roi, un Conseil extraordinaire s’est tenu le lundi 7 mars 1763 composé de tous les maîtres des requêtes; ce Conseil admettant la requête en cassation a ordonné d’une voix unanime, que le parlement de Toulouse enverrait incessamment les procédures, et les motifs de son arrêt.

[D11097]

Mas havia, ainda, um grande trabalho pela frente. O Parlamento de Toulouse não

entregaria facilmente as peças do processo, exigiu uma soma exorbitante para enviá-las a

Paris. O montante foi pago graças ao fundo criado por banqueiros protestantes. Voltaire

sabia que não poderia deixar arrefecer os ânimos. Ganhara uma batalha importante, mas

não vencera a guerra. Redobrou sua já intensa ação epistolar a fim de obter a adesão de

figuras da nobreza.

Após essa etapa decisiva do processo em curso, Voltaire autoriza seu editor Gabriel

Cramer a publicar o Traité sur la tolérance, pronto havia muitos meses. Aguardara o

momento oportuno para divulgar a obra. Nela, o autor lembra o que aconteceu no dia 13 de

outubro de 1761 e relata, em grandes linhas, a história da tolerância através dos séculos.

Vazado numa forma, ousaríamos dizer, original para a época, o opúsculo arrebata centenas

de leitores. Em pouco tempo, o livro provocou grande ruído em Paris e Versalhes. Voltaire

chegou a interromper momentaneamente a distribuição dos exemplares, uma tática para

12

abrandar a vigilante polícia política que mais de uma vez violara sua correspondência.

O Traité sur la tolérance, apesar de seu nome pomposo, apresenta um estilo

trabalhado para atrair o leitor menos afeito à linguagem clássica, sobretudo aqueles que

tinham poder de influência ou decisão. Nesse sentido, o Traité diferencia-se da Lettre sur la Tolérance, escrita em latim por John Locke mais de um século antes e endereçada a um

público erudito.

Em 4 de junho de 1764, a sentença de Toulouse é cassada pelo Conselho privado.

Uma outra instância seria designada para avaliar o processo. Não escolheram outro

Parlamento a fim de evitar que, por solidariedade, a decisão de Toulouse fosse confirmada.

Coube ao “Les Requêtes de l’hôtel” o julgamento do caso. Em 17 de junho de 1764,

Voltaire escreve ao casal de amigos d’Argental:

Une chose bien intéressante c’est ce procès Calas renvoyé aux requêtes de l’hôtel, c’est-à-

dire devant les mêmes juges qui ont cassé l ‘arrêt toulousain. Cette horrible aventure de Calas a fait ouvrir les yeux à beaucoup de monde. Les exemplaires de la Tolérance se sont répandus dans les provinces, où l’on était bien sot. Les écailles tombent des yeux, le règne de la vérité est proche. Mes anges bénissons Dieu. [D11930].

Em 9 de março de 1765, três anos após sua execução, Jean Calas é reabilitado pelo

tribunal “Les Rêquetes de l’hôtel”. Voltaire10 emociona-se com a notícia, escreve a Anne-

Rose Calas em 17 de março de 1765:

Vous devez, Madame, être accablée de lettres et de visites. Genève est comme Paris, il bat

des mains à vos juges. L’Europe attendrie bénit la justice qu’on vous a rendue. J’ai embrassé Donat Calas en versant des larmes de joie. Vous avez suspendu tous les maux de M. Debrus et les miens.

Nous n’avons senti que votre félicité au milieu de nos douleurs. J’embrasse Pierre de tout mon

coeur. Souffrez que je vous en dise autant, aussi bien qùà mesdemoiselles vos filles. Ne m’oubliez pas, je vous en supplie, auprès de M. de Lavaysse, et au milieu des acclamations publiques

distinguez les sentiments de votre très humble et très obéissant serviteur. Voltaire [D12469].

As várias faces de um escritor

10Gustave LANSON explica os reflexos sobre a opinião pública relativa ao filósofo:“On commença à voir en lui autre chose que de l’esprit, et dans sa gloire prodigieusement multipliée par cette affaire, se mélèrent des sentiments de chaude dévotion et de respect que Voltaire jusque-là n’avait jamais inspirés.” In: Voltaire.

Paris: Hachette, 1960 , p.194.

13

Se o número de obras dedicadas ao affaire Calas é legião11, há igualmente

uma significativa bibliografia sobre o Traité sur la tolérance 12. Os ensaios abordam desde os aspectos tipográficos, notas de rodapé e título até a exegese bíblica, a presença da cultura greco-latina, a recepção entre os protestantes e os ecos políticos do texto.

Os pesquisadores que se debruçaram sobre a correspondência fizeram, em

geral, um recorte cronológico, como a fase de formação do autor13, os anos que viveu em

Cirey14 ou a as cartas dos anos de maturidade15. Às vezes elege-se uma análise da

correspondência cruzada com um interlocutor determinado16, ou faz-se um recorte

temático, caso, por exemplo, da tese “Détruire de vieux châteaux enchantés: la Bible dans

la correspondance de Voltaire” (1994) de François Bessire17, estudo minucioso sobre as

centenas de citações das Escrituras. Esses trabalhos18, entre dezenas de outros que

citaremos ao longo das próximas páginas, revelam o interesse crescente pela obra do

patriarca de Ferney.

Assumimos, por isso, grande risco ao eleger um autor com uma fortuna

crítica monumental. Justificamos nossa escolha, contudo, ao constatar que se de um lado a

correspondência , o affaire Calas e o Traité sur la tolérance mereceram estudos relevantes, de outro, menos atenção se dá ao estilo dessa parte de sua obra.

11 Para citar apenas alguns estudos que se tornaram referência na historiografia sobre o tema, há o trabalho de Athanase Coquerel fils Jean Calas et sa famille. Etude historique dáprès documents originaux de 1858 e reimpresso pela editora Slatkine de Genebra, 1970; outro texto fundamental é a tese Láffaire Calas avant Voltaire (1981) de Jean Orsoni que representou o grande marco no meio acadêmico. Essa pesquisa reúne, analisa e interpreta dados minuciosos sobre a biografia de cada membro da família Calas; tese não publicada; tivemos a oportunidade de consultá-la em micro-fichas na biblioteca central da Universidade de Paris-IV. Encontramos uma boa bibliografia sobre o tema no livro Láffaire Calas: miroir des passions françaises de Janine GARRISON. Paris: Fayard, 2004.

12 Entre os textos de bibliografia desta tese, indicamos a obra coletiva Études sur le Traité sur la tolérance de Voltaire. Sous la direction de Nicholas CRONK. Oxford: Voltaire Foundation, 2000.

13 V. HAROCHE-BOUZINAC, Geneviève. Voltaire dans ses lettres de jeunesse (1711-1733) : formation dún épistolier au XVIII siècle. Paris: Klincksieck, 1992.

14 V. KIM, Young-Lee. Les Lettres de Cirey: Étude de la correspondence de Voltaire (1734-1749). Thèse présentée pour l óbtention du Doctorat à lÚniversité de Paris IV Sorbonne, sous la direction de Sylvain MENANT, 1999.

15 V. MENISSIER, Patricia. Les amies de Voltaire dans la correspondance (1749-1778). Thèse présentée pour l’obtention du Doctorat à l’Université de Nancy 2, sous la direction de Roger MARCHAL, 2004.

16 V. MERVAUD, Christiane. Voltaire et Frédéric II, une dramaturgie des Lumières :1736-1778. Oxford, Studies on Voltaire, 1985.

17 V. BESSIRE, François. La Bible dans la correspondance de Voltaire. Oxford: Voltaire Foundation, 1999.

18 Durante minha estada em Paris em 2005, tive a oportunidade de conhecer pesquisadores que estudam a correspondência cruzada de Voltaire com Damilaville e com dÁlembert ( teses em andamento).

14

Sabemos que uma das proezas do patriarca foi reunir nomes de diferentes extratos

sociais ao lado da “infeliz família”, desde pastores protestantes às damas da Corte, de

filósofos iluministas aos serventes semi-analfabetos, da burguesia ascendente às

camareiras. Não querendo cometer injustiças com outros nomes que contribuíram na luta19,

Voltaire conseguiu criar uma opinião pública favorável. Trata-se de grande feito na França

“toute catholique” para falar com Pierre Bayle.

Nosso objetivo, assim, reside em uma análise dos textos escritos para a defesa dos

Calas, a partir da perspectiva da estratégia previamente elaborada pelo escritor, visando

instruir e proporcionar prazer aos leitores que desfrutavam dos textos como um espaço

privilegiado tanto de polêmicas quanto de entretenimento.

Elegemos, portanto, como objeto de nossa pesquisa o Traité sur la tolérance 20,

redigido entre 1762 e 1763, mas publicado somente no final de 1763, e a correspondência

ativa de Voltaire durante o período em que militou no affaire Calas. Entre a epístola datada

de 22 de março de 1762 a Antoine-Jean-Gabriel Le Bault, conselheiro junto ao Parlamento

de Bourgogne, quando Voltaire cita pela primeira vez o episódio, e a missiva de 17 de

março de 1765, data em que anuncia ao amigo Damilaville a repercussão da vitória dos

filósofos sobre a “infâme”, contam-se 1.768 missivas21 endereçadas a duas centenas de

correspondentes. Há, nesse conjunto, cartas e bilhetes cujo assunto interessa pouco a nosso

objeto. Acrescentamo-las, todavia, ao corpus, pois nelas se encontram informações

relevantes para contextualizar o momento histórico e dar uma visão mais ampla das

preocupações intelectuais do autor. Ocupamo-nos, outrossim, embora rapidamente, das

Pièces originales (1762), cartas redigidas por Voltaire em nome de familiares de Jean

Calas, além da narrativa policial “Histoire d´Élisabeth Canning et des Calas”.

A preocupação com o momento histórico norteou-nos do início ao fim deste

trabalho, uma vez que tanto a correspondência quanto o Traité sur la tolérance respondiam aos objetivos imediatos do autor- reabilitação de Jean Calas e melhoria dos direitos civis

19 Ao contrário do que se costuma afirmar, Voltaire não foi o primeiro homem de letras a assumir a defesa de Jean Calas e seus familiares. Cinco meses antes do patriarca, o advogado La Beaumelle emprestou sua pena e colaborou com sua influência para reivindicar os direitos civis dos protestantes.

20 Utilizamos a edição de referência. VOLTAIRE. Traité sur la tolérance. Présentation par René POMEAU.

Paris: Flammarion, 1989.

21 A maioria da cartas citadas encontra-se nos volumes: Correspondance (octobre 1760-décembre 1762).

Texte établi et annoté par Theodore Besterman. Notes traduites par Frédéric Deloffre. Paris : Gallimard, 15

dos protestantes - e se inscreviam em uma luta mais ampla -o advento da Razão. As

reflexões e o deleite que os textos de Voltaire nos proporcionam ainda hoje exigem o

conhecimento dos percalços enfrentados pelos “hommes de lettres” que buscavam

solidificar seu papel na sociedade do Antigo Regime.

Voltaire aposta em sua batalha, malgrado diversos revezes contra um inimigo

poderoso representado por uma máquina estatal obsoleta e uma Igreja influente. Ressaltam-

se de suas cartas a maneira como insuflava ânimo no abatido grupo de filósofos e os meios

de persuasão para obter aliados.

Interessa-nos como o filósofo, a partir de “Délices” e “Ferney”, organizou seu

exército de colaboradores e coordenou avanços e recuos no campo inimigo. Lutar na

clandestinidade implicava emprego de codinomes, linguagem codificada e apelidos. Uma

peleja entre forças desiguais significaria também, segundo a visão voltairiana, recorrer à

diplomacia, quiçá à bajulação dos poderosos.

O “general” contava ainda com dois trunfos irrefutáveis, sua idade avançada

(sessenta e sete anos) e seu renome como autor de tragédias que lhe davam uma

credibilidade impensável para outros grandes filósofos do período, conforme veremos. Se a

habilidade de um comandante enérgico caracterizava sua elocução em diversas passagens,

em outras dava vazão ao “eremita”, ao velho sábio esquecido em seu quarto, longe das

vicissitudes do mundo parisiense. Vinha à tona, com freqüência, o estilo do cortesão, assim

como a eloqüência do advogado ou o discurso solene do “bom samaritano” como se auto-

denominou em uma das mais belas missivas escritas durante o affaire Calas. Nesta, e em

outras cartas, emerge um tom arrebatado que lembra, via de regra, uma homilia a um grupo

de fiéis.

Às diferentes imagens que fazia de si, bem como àquelas que pretendia transmitir aos

outros, correspondia um discurso particular ou um tom preciso que nos empenhamos em

analisar, tanto nas cartas quanto no Traité sur la tolérance.

De fato, nas centenas de cartas que redigiu, reconhecemos como o filósofo construiu

uma consistente via argumentativa, tentando mostrar aos quatros ventos que a condenação

1980. Correspondance (janvier 1763-mars 1765). Texte établi et annoté par Theodore Besterman. Notes traduites par Frédéric Deloffre. Paris : Gallimard,1981.

16

do réu fora motivada pelo fanatismo religioso daqueles que se diziam “devotos”,

acreditando servir a Deus com o sangue de um pai de família simplesmente porque este não

compartilhava dos mesmos ritos que os católicos.

Interessa-nos investigar de que maneira utilizou uma das principais fontes de sua

estratégia: a Bíblia. Justamente a arma dos “inimigos” oferecia-lhe um rol de matérias que

contribuiria para desvendar a verdade. A compreensão do alcance dos argumentos

utilizados por Voltaire não dispensa o conhecimento das passagens mais citadas do livro

sagrado nos textos que nos propomos a analisar, ainda que evitemos qualquer exercício de

exegese bíblica22. Nosso intuito consiste em demonstrar como o filósofo “transformava” as

Escrituras em uma artilharia a favor da causa que abraçara.

Se a Bíblia proporcionou ao autor uma rica fonte temática e formal para a edificação

da defesa da “infeliz família”, também sofreu, como veremos, um processo de

dessacralização característico, de resto, de outras obras do autor.

Na leitura do conjunto de textos que selecionamos, percebemos, assim, a vontade de

agir sobre o outro, influenciá-lo e levá-lo a assumir uma posição. Ora, estudar a dimensão

retórica desses escritos revelou-se, consequentemente, como uma via profícua para abordar

o estilo voltairiano.

Lembremos que somente a partir do momento que a possibilidade de decidir se

oferece aos cidadãos de um determinado lugar, a retórica como técnica de persuadir passa a

ter especial importância. No escândalo judicial que se apresentava, no qual a inexistência

de provas foi substituída por indícios, Voltaire encontrou um campo propício e ideal para

exercer sua eloqüência23.

Quanto à reflexão sobre a tolerância, mostraremos o papel do filósofo como

vulgarizador das idéias de Pierre Bayle e John Locke, cujas obras seminais sobre o tema24

são, a nosso ver, indispensáveis para a compreensão do Traité sur la tolérance. Desse

22 Para os estudos do século XVIII, recomenda-se a tradução de Lemaître de Sacy, da qual alguns exemplares figuravam na biblioteca de Voltaire. LA BIBLE. Traduction de Louis-Isaac LEMAÎTRE de SACY. Préface et textes d íntroduction établis par Philippe SELLIER. Chronologie, lexique et cartes établis par Andrée NORDON-GERAD. Paris: Robert Laffont, 1990.

23 A retórica que reconhecemos na estrutura de suas missivas e em alguns capítulos do Traité sur la tolérance é, em grande parte, tributária de Aristóteles. Utilizamos a edição ARISTOTE. Rhétorique. Livres I et II texte établi et traduit par Médéric Dufour. Livre III texte établi et traduit par Médéric Dufour et André Wartelle.

Paris: Gallimard, 1991.

24 Referimo-nos aos livros De la tolérance: commentaire philosophique sur ces paroles de Jésus-Christ

“contrains-les -déntrer” de Pierre BAYLE e A Letter concerning toleration de John Locke.

17

modo, podemos ter em conta a filiação do filósofo, assim como sua inserção numa trilha

que vinha sendo palmilhada por autores de porte. Voltaire, portanto, se insere numa linha

de pensamento que- com suas diferenças- acaba por apontar mais um caminho do progresso

humano, o da possibilidade de convivência de contrários. É o que veremos em seguida.

18

Primeira parte

UMA CORRESPONDÊNCIA INCENDIÁRIA

19

“CARTEADOR” CONTUMAZ

Uma pena, um tinteiro: singular ponto de vista do século XVIII

A exemplo de Cícero, Sêneca e Plínio-o-Jovem, Voltaire dedicou-se, de forma

intensa, a dialogar por meio de cartas, contribuindo - ao lado de Rousseau, Diderot e

D’Alembert, entre outros, para tornar o século XVIII um dos períodos de ouro da

correspondência.

De 1704 a 1778, ano de sua morte, contam-se 15.482 epístolas endereçadas a cerca

de 1.200 correspondentes em toda a Europa. Em 1955, esse legado passou aos cuidados de

Theodore Besterman, um mecenas polonês, que assumiu a direção do museu do “Château

des Délices” em Genebra.

Em 1972, Besterman muda-se para a Inglaterra, onde dá início à “Voltaire

Foundation” em Oxford, que tinha como tarefa precípua a publicação das obras completas

do filósofo francês. Essa fundação transformou-se num dos mais importantes centros de

estudos não apenas sobre Voltaire, mas também sobre o século XVIII, tendo como um de

seus departamentos o SVEC (“Studies on Voltaire and the Eighteenth Century”). Após anos de pesquisa e graças às centenas de colaboradores, a SVEV publicou, entre 1968 e 1977, a correspondência cruzada de Voltaire. O resultado desse trabalho incrementou o número de

interessados na obra do patriarca de Ferney.

Entre 1978 e 1993, foi a vez da editora Gallimard, na sua coleção “Pléiade”,

brindar o público com a publicação da correspondência ativa do filósofo em treze volumes.

As notas da edição “definitiva” de Besterman foram traduzidas para o francês pelo

professor Frédéric Deloffre, da Universidade de Paris-Sorbonne.

As milhares de epístolas cobrem um longo ciclo que se estende dos últimos anos da

era Luís XIV (1643-1715), passando pela regência do Duque d’Orléans (1717-1723), todo

o período de Luís XV (1723-1774), até o início do reinado de Luís XVI (1774-1793). O

autor cita, comenta e interpreta fatos relevantes. Trata-se de um importante ponto de vista

que, cruzado com outros, esboça, sem dúvida, as linhas mestras do pensamento iluminista.

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Sabemos o quanto o século XVIII foi (e continua sendo) apresentado

equivocadamente por sucessivas gerações de críticos. As razões dessa imprecisão

explicam-se pelas tendências ideológicas predominantes em certos momentos da história,

pelo modo com que os textos chegam aos leitores, enfim por um conjunto de fatores que

influenciam a recepção de qualquer obra ou manifestação artística. São questões relevantes

que continuarão existindo, cabendo ao estudioso de hoje discernir o alcance e os limites de

certas leituras.

Uma visão muito difundida do período diz respeito ao suposto maniqueísmo: de um

lado a razão, sob a liderança de Voltaire, de outro o sentimento, apanágio dos românticos e

tendo Rousseau como precursor. A correspondência do primeiro demonstra de forma cabal

a incoerência de tal idéia. Afinal, o criador de Zaïre revela em suas cartas uma faceta desconhecida: a do homem compassivo, afável, cuja sensibilidade não deve nada ao seu

adversário genebrino.

O autor de Émile, por sua vez, assinou textos recheados de discussões políticas,

preteridos em favor das páginas idílicas das Confessions e Les rêveries d’un promeneur solitaire. Segundo Roberto Romano, a lenda do Rousseau como modelo do poeta maldito

foi criada pelo Romantismo do século XIX, que:

[...] seqüestrou a política e as críticas às artes, arrancando-as do pensamento racional do

século XVIII.25

Da mesma maneira que a contribuição de Rousseau foi tendenciosamente avaliada,

também Voltaire representou durante décadas o homem do sorriso hediondo para dizer com

Musset. Até hoje, associamos seu nome à sátira e à ironia mordaz. Esse retrato, embora

correto, peca pela redução. Deixam-se de lado obras relevantes como as tragédias Oedipe, Zaïre e Mahomet, para citar apenas três das dezenas de peças que escreveu; além de poemas, diálogos e livros de história bem documentados. Destarte, nossa pesquisa sobre um

escritor tão controvertido cerca-se do cuidado de evitar os lugares-comuns referentes ao

autor e à época em que viveu.

25 ROMANO, Roberto. “Mentiras transparentes. Rousseau e a Contra-revolução romântica”. Conferência na abertura do I Colóquio “Rousseau , verdades e mentiras” na UNESP- Araraquara, proferida no dia 12 de novembro de 2003. disponível no site http://www.unicamp.br/~jmarques/gip.

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Como caracterizar, então, o século XVIII de forma resumida mas verdadeira? É

delicado enumerar uma série de características sem redundar em simplificação. Pode-se

apontar, em linhas gerais, o cosmopolitismo, a vontade de conhecer o mundo além dos

limites europeus (na esteira do que já acontecia no século anterior), especialmente o

Oriente, países como a China e a Pérsia com todas as suas magias exóticas.

O questionamento sobre a felicidade angustia aqueles que não se contentavam mais

com as respostas da religião. É necessário encontrar uma justificativa para a vida humana.

O ceticismo recebe adeptos, e a crença numa “providência” sofre ataques ácidos, tendo em

Voltaire um de seus mais ofensivos oponentes. As críticas à providência divina iam de par

com a preocupação em deslindar a Bíblia por meio de exaustivos estudos. A exegese

bíblica encetou querelas sobre as contradições da história judaico-cristã. Voltaire não ficou

alheio a esse debate, suas investidas contra o livro sagrado permanecem memoráveis pelo

fel destilado.

Nas missivas do filósofo, fica patente a obsessão da sociedade pelo conhecimento,

pela compreensão racional do mundo. Cresce a importância de ciências como a biologia, a

medicina, a astronomia, a matemática, a geometria e outras. No caso de Voltaire, a física

interessou-o a ponto de escrever sobre Newton, sem contar a influência decisiva de Mme de

Châtelet, sua companheira durante dezesseis anos, para aprofundar seus conhecimentos na

área.

O intercâmbio da França com outras nações européias recrudesce. Aumenta o

número de editoras piratas em território francês, o que facilita a circulação de obras

estrangeiras. Frisamos as temporadas dos homens de letras no exterior. É conhecida a

admiração de Voltaire pela Inglaterra, considerada por ele modelo de tolerância, embora

nesse país os católicos fossem perseguidos.

Impressiona-nos a quantidade de informações sobre a História francesa e européia

citadas nas cartas - de seus aspectos sociais mais prosaicos aos tormentos metafísicos que

afligiram o homem contemporâneo- dados econômicos, curiosidades sobre transações

financeiras, nível de vida de nobres, burgueses e clero. Aprendemos detalhes pitorescos da

vida social, descobrimos as leituras preferidas e os hábitos religiosos. Tudo, enfim, do que

havia não só de ilustre, mas também de ignóbil, sobretudo no interregno que separa a morte

de Luís XIV (1715) e a de seu sucessor Luís XV (1774).

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A vida, a arte, a doença, o sofrimento e a morte são temas presentes nas cartas de

Voltaire, ora apenas sugeridos, ora aprofundados por longas digressões. Não seria

necessário dizer que seus interlocutores, em geral eruditos e inteligentíssimos, também se

debatiam com essas e outras questões.

No rol de seus correspondentes, reconhecemos personalidades de diferentes

profissões, como Jonathan Swift, Alexandre Pope, La Harpe, Chamfort, Duque de

Richelieu, Duque de Choiseul, Catarina II da Rússia, Frederico II da Prússia, Théodore

Tronchin, Maupertius, Madame du Deffand, Marmontel, Condillac, Helvétius, d’Alembert,

Diderot, Jean-Jacques Rousseau, Condorcet e dezenas de outros.

O maior número de cartas foi endereçado a d’Argental, aproximadamente 1.200;

para o tipógrafo genebrino Gabriel Cramer, conhecemos cerca de 900; Damilaville, fiel

escudeiro na luta contra a superstição , e o amigo Thiriot receberam mais ou menos 500

missivas cada um. Tudo indica que sua primeira carta date de setembro de 1704 e ditou o

último bilhete endereçado ao filho de Lally-Tollendal, em 26 de maio de 1778, quatro dias

antes de morrer. Em poucas e emocionantes palavras, Voltaire felicita-se pela reabilitação

do general condenado à morte, sem provas, em 1766: “Le mourant ressuscite en apprenant

cette grande nouvelle; il embrasse bien tendrement M. de Lally; il voit que le roi est le

défenseur de la justice; il mourra content.”

Os diálogos epistolares de Voltaire chamam-nos a atenção pelo vigor de seu estilo e

pela infinita cortesia com seus interlocutores, fossem eles amigos próximos ou indivíduos

com quem jamais se encontrara. Em certas passagens, no entanto, o filósofo deixa de lado a

bienséance tão bem manejada por ele, dando lugar a uma linguagem impolida, onde não

faltam palavras chulas como, por exemplo, em carta ao amigo Thiriot em junho de 1722:

“Allez vous faire foutre avec le ton tragique dont vous m ´écrivez”. É muito raro, porém,

que se desse a essa liberdade, pois sua postura mais freqüente primava pela boa educação.

Tal delicadeza, de resto, não era apanágio da escrita voltairiana, uma vez que escrever

cartas no século XVIII implicava obediência a um estrito cerimonial.

As cartas selecionadas para nossa pesquisa foram escritas nas duas propriedades

que Voltaire adquiriu para viver livre das perseguições de que era alvo: uma residência

perto de Genebra, batizada de “Les Délices” (1755), e o “Château” em Ferney (1758).

23

Muitas missivas de 1762 a 1765 foram ditadas ao secretário Wagnière, pois as

moléstias que o acometiam impediam-no não apenas de escrever, mas também de ler.

Graças à fortuna que amealhou astutamente durante a vida, o filósofo pode enfrentar as

agruras da idade avançada com tudo o que havia de melhor em termos de assistência

médica e de conforto material.

Nesse período intensifica-se a correspondência com a confraria dos homens de

letras. Entre eles, destacamos d’Alembert, com quem mais de uma vez, discutiu os rumos

da Encyclopédie. Os obstáculos enfrentados por d’Alembert e Diderot para publicá-la, bem como as adesões recrutadas entre monarcas estrangeiros foram assuntos recorrentes nas

epístolas. Voltaire ressaltava o valor da empreitada, reconhecia nela um passo decisivo para

a vitória da Razão sobre a ignorância. Colaborou com dezenas de artigos, entre os quais

“Elegance”, “Esprit”, “Fantaisie”, “Félicité”, “Finesse”, “Gloire”, “Goût”, “Heureux”,

“Histoire”, “Idole” e “Idolâtre” e mesmo ao deixar o empreendimento, continuava como

incentivador.

Um dos assuntos que vem à tona é a simpatia de Voltaire por Catarina II da Rússia.

Em carta ao diplomata Ivan Ivanovitch Schouvalov [D10730], enaltece o empenho da

imperatriz russa em divulgar as Luzes, oferecendo-se para publicar a monumental obra.

No château de Ferney, Voltaire acompanhou a maior parte da Guerra dos Sete Anos

(1756-1763), o sanguinário combate que opunha, de um lado, a França, com as aliadas

Áustria, Espanha, Suécia, Rússia e Saxônia e de outro a Inglaterra apoiada pela Prússia e

Hanovre. No final do conflito, a França recuperou a Martinica e Guadalupe, mas perdeu a

Índia, o Senegal, o Canadá e o vale do Ohio. Voltaire tinha grandes investimentos na

Alemanha, na França e no comércio marítimo, cujos lucros estavam ameaçados. Além

disso, denunciava as barbáries da guerra, considerada ao lado da fome e da peste, um dos

“ingrédients les plus fameux de ce bas monde.” ( Dictionnaire philosophique). O massacre de dezenas de soldados e civis, sobretudo em território alemão, foi duramente criticado em

seu imortal Candide, em que “ábaros” e “búlgaros” representavam os franceses e os

alemães respectivamente. Sobre o episódio aponta dados relevantes em suas cartas como as

questões diplomáticas relativas ao Canadá e a importância do papel do primeiro ministro

Choisel no cenário europeu.

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Além da guerra e da política, a correspondência de Voltaire entre 1762-1765 deixa

clara sua curiosidade quanto a problemas sócio-econômicos. Numa missiva à “Gazette

Littéraire de l’Europe”, de outubro de 1764, tece um extenso comentário sobre as

conseqüências de um aumento significativo das populações de países como a Suécia e a

França.

Pelas cartas temos notícia da contribuição de Madame de Pompadour ao bom andamento

do affaire Calas. Da mesma forma, sua morte prematura (1764) aos quarenta e três anos

de idade mereceu o comentário do patriarca de Ferney sobre essa que fora uma das

personalidades mais influentes na Corte desde 1744, quando passou a ser a preferida de

Luís XV. Aprendemos, outrossim, a boa repercussão no círculo de amigos de Voltaire,