'Estratégias adaptativas de duas populações caboclas (Pará) aos ecossistemas de várzea estuarina e.. por Cristina Adams - Versão HTML

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Cristina Adams

Estratégias Adaptativas de Duas Populações

Caboclas (Pará) aos Ecossistemas de Várzea

Estuarina e Estacional: uma análise comparativa.

São Paulo

2002

Cristina Adams

Estratégias Adaptativas de Duas Populações

Caboclas (Pará) aos Ecossistemas de Várzea

Estuarina e Estacional: uma análise comparativa.

Tese apresentada ao Instituto de

Biociências da Universidade de São

Paulo, para a obtenção de Título de

Doutor em Ciências, na Área de

Ecologia.

Orientador(a): Dr. Walter Alves

Neves

São Paulo

2002

Ficha Catalográfica

Adams, Cristina

Estratégias Adaptativas de Duas

Populações Caboclas (Pará) aos Ecossistemas

de Várzea Estuarina e Estacional: uma análise

comparativa.

373 p.

Tese (Doutorado) - Instituto de

Biociências da Universidade de São Paulo.

Departamento de Ecologia.

1. Amazônia 2. Caboclos 3.

Antropologia nutricional I. Universidade de

São Paulo. Instituto de Biociências.

Departamento de Ecologia.

Comissão Julgadora:

________________________

_____

_______________________

Profa. Dra. Renate B. Viertler (FFLCH-USP)

Profa. Dra. Célia Futemma (PROCAM-USP)

_________________________

____________________________

Prof. Dr. Rui S. S. Murrieta (IB-USP)

Prof. Dr. Jean Paul Metzger (IB-USP)

Prof. Dr. Walter Alves Neves (IB-USP)

Orientador

Agradecimentos

À FAPESP (Processos 96/7485-2 e 97/03757-0) e à CAPES (Processo BEX 0388/99-8)

pelo financiamento parcial de meu doutoramento. Ao Paulo Sinisgalli, pelo apoio financeiro nos derradeiros oito meses, sem o qual este modesta contribuição à ciência não teria se materializado. E por seu sacrifício pessoal, ao me acompanhar no

doutorado-sanduiche.

Ao Dr. Roy Ellen, meu orientador na University of Kent at Canterbury, por seu

profissionalismo e modéstia incomparáveis. Ao Dr. Walter Neves por seu entusiasmo e dedicação à “causa materialista”, que me fez colocar o pé no chão várias vezes ao longo do doutorado. Ao Dr. Rui Murrieta por sua paciência e atenção a esta bio-antropóloga-cientista ambiental-multidisciplinar.

Aos moradores das comunidades de Aracampina e São Benedito, na Ilha de Ituqui

(Santarém-PA), por sua paciência e colaboração nas pesquisas de campo. Aos meus assistentes de campo Rosely Alvim Sanches e Nildo por sua inestimável ajuda. Além deles, agradeço especialmente à Perpétuo Socorro de Souza Oliveira, por sua habilidade e dedicação profissional em campo, desculpando-me por ter lhe causado problemas profissionais, embora involuntariamente. À Luciana Brondízio por seu apoio em

Santarém.

Aos colegas Andrea Dalledone Siqueira, Eduardo Sonnewend Brondizio, Hilton Pereira da Silva, Renate Brigite Viertler e Rui Sergio Sereni Murrieta, pela cessão dos dados coletados na Ilha de Marajó (Ponta de Pedras – PA) para a realização do trabalho comparativo. Ao Hilton agradeço também pela troca de dados antropométricos das

comunidades do Ituqui. A todos eles, mais Fábio de Castro, Célia Futemma e Rosely A.

Sanches, agradeço pela troca de experiências, bibliografia e por seu carinho durante todo o trabalho.

À Dra. Darna Dufour pela cessão do banco de dados sobre alimentos amazônicos, que foi a base do banco criado nesta tese. À Antoinette WinklerPrins pela cessão dos mapas e pelo envio de sua tese de doutorado.

Aos amigos Dario Novellino, Stephanie Klappa, Zelealem Ashenafi, Cathberth, Sandra Recinella, e Stefano Brandimarte, por darem um colorido especial à etapa na Inglaterra.

Em especial, agradeço à Vera Barreto, por ter nos recebido em sua casa sempre com uma alegria genuína.

Ao Dr. Simon Strickland do Departamento de Antropologia da UCL (Londres), por seus conselhos com relação aos dados antropométricos, e à Dra. Laura Rival (UKC), pelas conversas sobre a Amazônia. Aos professores e funcionários da University of Kent at Canterbury, que me auxiliaram das mais diversas maneiras: Dra. Christine Eagle, Dra.

Sarah Elton, Dr. Michael Fischer, Dra Nadia Lovell, Dr. David Zeitlyn, Joan England, Jan Horn, Nicola Kerry-Yoxall e Shelley Roffey.

À Miriam Lie Yoneyama que, mais uma vez, garantiu com suas “bolinhas” que o

trabalho fosse terminado.

À minha família e aos meus amigos, que por tantos anos conviveram com a neurose da pós-graduação e que, finalmente, me terão de volta ao convívio social.

Índice

Capítulo 1 – Introdução – As Sociedades Caboclas Amazônicas

1

Capítulo 2 – Amazônia – Os Ambientes Naturais

7

2.1. Os Primeiros Relatos

9

2.2. A Bacia Amazônica

12

2.2.1. O Alto Amazonas

15

2.2.2. O Baixo Amazonas

15

2.2.3. O Estuário

18

2.3. Os Rios Amazônicos

19

2.4. As Várzeas do Amazonas

22

2.4.1. Os Corpos d´Água da Várzea

28

2.4.1.1. Fauna

31

2.4.1.2. Produtividade

32

2.4.1.3. Ciclagem de Nutrientes

32

2.4.2. A Vegetação da Várzea

34

2.4.3. A Fauna

39

2.4.4. Ictiofauna

43

Capítulo 3 – A Ocupação Humana na Amazônia

46

3.1. A Amazônia como Ambiente Limitante

47

3.1.1. As Limitações do Ambiente Tropical - Julian Steward

49

3.1.2. A Pobreza dos Solos - Betty Meggers

51

3.1.3. A Teoria da Circunscrição Ambiental - Robert Carneiro

53

3.1.4. A Hipótese da Limitação Protéica – Daniel Gross e Seguidores

54

3.1.5. As Críticas ao Debate Protéico

56

3.1.6. Tendências Atuais no Debate

63

3.1.7. A Agricultura na Amazônia

67

3.2. O Período Pós-Conquista – A Formação das Sociedades Caboclas

74

3.3. Histórico – O Processo de “Caboclização”

76

3.4. Borracha

81

3.5. Pós-borracha

84

3.6. Identidade Cabocla

86

3.7. Linhas Teóricas no Estudo das Sociedades Caboclas

91

Capítulo 4 – As Bases Teóricas

95

4.1. Adaptação em Populações Humanas

96

4.1.1. Adaptação Não-Biológica

100

4.2. Adaptação e Nutrição

107

4.2.1. O Debate do ‘Small but Healthy’

110

4.3. Alimentação e Antropologia

116

Capítulo 5 – Metodologia – Antropologia Nutricional

124

5.1. A Antropologia Nutricional como Metodologia de Pesquisa

125

5.1.1. As Unidades de Análise

128

5.2. A Antropometria Nutricional

130

5.2.3. Índices Antropométricos

134

5.2.3.1. Peso-por-altura

135

5.2.3.2. Estatura-por-idade

135

5.2.3.3. Peso-por-idade

136

5.2.3.4. Circunferência-do-braço-médio-por-idade

136

5.2.3.5. Índice de Massa Corpórea (IMC)

137

5.2.4. População-Referência

138

5.2.5. Crianças (0 – 9,9 anos de idade)

141

5.2.6. Adolescentes (10,0 – 19,9 anos de idade)

144

5.2.7. Adultos (≥ 20,0 anos de idade)

146

5.2.8. Idosos

150

5.3. Consumo Alimentar

151

Capítulo 6 – O Projeto

154

6.1. O Projeto e seu Contexto

155

6.2. As Áreas de Estudo

157

6.2.2. Várzea Estuarina (Ponta de Pedras – PA)

157

6.2.2.1. Paricatuba

164

6.2.2.2. Marajó-açú

166

6.2.2.3. Praia Grande

167

6.2.1. A Várzea Estacional – Santarém (PA)

168

6.2.1.1. A Ilha de Ituqui

177

6.2.1.1.1. São Benedito

192

6.2.1.1.2. Aracampina

194

6.3. Métodos

198

6.3.1. Consumo Alimentar

198

6.3.1.1. Várzea Estuarina – Ilha de Marajó

198

6.3.1.2. Várzea Estacional - Ilha de Ituqui

200

6.3.2. Antropometria Nutricional

203

6.3.2.1. Várzea Estuarina – Ilha de Marajó

203

6.3.2.2. Várzea Estacional – Ilha de Ituqui

203

6.3.2.3. Erro Técnico de Medida (ETM) e

208

Coeficiente de Confiabilidade (CC)

Capítulo 7 – Antropometria – Resultados

212

7.1. Entre-Ecossistemas

213

7.1.1. Crianças (2,0 – 9,99 anos de idade)

213

7.1.1.1. Estatura-por-idade

214

7.1.1.2. Peso-por-idade

218

7.1.1.3. IMC-por-idade

222

7.1.2. Adolescentes (10,0 – 19,9 anos de idade)

226

7.1.2.1. IMC-por-idade

227

7.1.3. Adultos (> 20,0 anos de idade)

231

7.1.3.1. Estatura-por-idade

233

7.1.3.2. IMC-por-idade

236

7.1.3.3. SSF-por-idade

239

7.1.3.4. UBMA-por-idade

239

7.2. Intra Ecossistemas

243

7.2.1. Várzea Estacional

243

7.2.1.1. Crianças (2,0 – 9,9 anos)

243

7.2.1.1.1. Estatura-por-idade

244

7.2.1.1.2. Peso-por-idade

248

7.2.1.1.3. IMC-por-idade

252

7.2.1.2. Adolescentes (10,0 – 19,9 anos)

256

7.2.1.3. Adultos (>20,0 anos)

260

7.2.1.3.1. Estatura-por-idade

260

7.2.1.3.2. IMC-por-idade

264

7.2.1.3.3. SSF-por-idade

267

7.2.1.3.4. UBMA-por-idade

270

7.2.2. Várzea Estuarina

273

7.2.2.1. Crianças (2,0 – 9,9 anos)

273

7.2.2.1.1. Estatura-por-idade

273

7.2.2.1.2. Peso-por-idade

278

7.2.2.1.3. IMC-por-idade

282

7.2.2.2. Adolescentes (10,0 – 19,9 anos)

286

7.2.2.3. Adultos (> 20,0 anos)

291

7.2.2.3.1. Estatura-por-idade

291

7.2.2.3.2. IMC-por-idade

295

7.2.2.3.3. SSF-por-idade

298

7.2.2.3.4. UBMA-por-idade

301

7.3. Resumo

302

Capítulo 8 – Consumo Alimentar – Resultados

307

8.1. Diversidade Alimentar

308

8.2. Origem

310

8.3. Calorias e Proteínas

314

8.4 Consumo Doméstico de Calorias e Proteínas na Ilha de Ituqui

321

8.5 Requerimentos Energéticos e Protéicos

333

Capítulo 9 – Discussão e Conclusões

338

9.1. O Status Nutricional na Várzea Amazônica

339

9.2. Adaptação na Várzea Amazônica

350

9.3. Existe um Problema Alimentar na Amazônia?

353

9.4. “Small but Healthy”?

354

9.6. Conclusões

356

Capítulo 10 – Bibliografia

357

Resumo

Esta tese apresenta um estudo comparativo da qualidade de vida biológica de duas populações caboclas amazônicas situadas na bacia do rio Amazonas, em dois tipos diferentes de várzeas: estacional (Ilha de Ituquí, município de Santarém-PA) e

estuarina (município de Ponta de Pedras, Ilha de Marajó, PA), com o objetivo de investigar a influência da diversidade ambiental regional sobre os sistemas sociais.

Como parâmetro para a avaliação da qualidade de vida biológica das populações

utilizou-se o status nutricional, obtido através de estudos antropométricos e de consumo alimentar. Foram realizados dois tipos de comparações: inter e intra-ecossistemas. O objetivo principal da tese foi avaliar se a tipologia de bacias proposta para a Amazônia, com base na produtividade das águas, é suficiente para explicar a variabilidade encontrada na qualidade de vida biológica das populações caboclas da Amazônia. Foram testadas duas hipóteses: (1) populações caboclas amazônicas

localizadas num mesmo tipo de bacia não apresentam diferenças significativas nos parâmetros de avaliação de sua qualidade de vida biológica; (2) diferenças microecológicas locais resultam em diferenças significativas nos parâmetros de avaliação da qualidade de vida biológica das populações caboclas. As conclusões foram: (1) que existe um quadro de desnutrição crônica na região amazônica que, todavia, não pode ser explicado primordialmente por uma escassez alimentar; (2) não existe um

problema de desnutrição aguda; (3) populações caboclas assentadas em diferentes regiões ao longo do rio Amazonas apresentam diferenças significativas no status nutricional; (4) populações caboclas assentadas num mesmo ecossistema – várzea

estacional ou estuarina – apresentaram algumas diferenças significativas em termos de status nutricional; (5) a dieta básica das sociedades caboclas, composta por peixe e derivados de mandioca, complementados por outros itens, é adequada em termos

protéicos, mas ligeiramente insuficiente em termos energéticos; (6) as mulheres parecem ter um mecanismo de resiliência fisiológica contra variações ambientais, que mantém os estoques de gordura corpórea em níveis mais satisfatórios que os homens; (7) o ambiente como explicação causal para as diferenças de qualidade de vida

biológica observadas nas populações, é insuficiente, e outras variáveis devem ser levadas em consideração (fatores históricos, sócio-culturais, políticos, econômicos).

Abstract

A comparative study of the biological well being of two Amazonian caboclo

populations situated in the Amazon Basin, in two different ecosystems (seazonal and estuarine várzeas), was undertaken. The main objective was to evaluate if the basin typology proposed for the Amazon region (Sioli 1984), based on the kind of water (clear, white, black), could explain the variability in biological well being among caboclo populations. Nutritional status was used as an indicator of well being, and was assessed with the use of food intake and anthropometry. Two hypothesis were tested: (1) caboclo populations living in the same basin do not show significant differences in nutritional status; (2) local ecological differences affect the nutritional status of caboclo populations living in the same basin. The conclusions were: (1) caboclo populations living in different ecosystems in the Amazon basin show

significant differences in nutritional status; (2) caboclo populations living within the same ecosystem show some differences in nutritional status; (3) the populations investigated are affected by chronic undernutrition, that cannot be explained only in terms of insufficient food intake; (4) acute undernutrition was not observed; (5) caboclo’s basic diet, consisting of fish and manioc as staple foods, is adequate in terms of protein intake, but slightly insufficient in terms of energy intake; (6) women may be more buffered than man against environmental variations in food availability; (7) environmental causes alone are not enough to explain differences in the nutritional well being of caboclo populations, and other factors should be considered (historical, cultural, political and economical).

Biografia

Bióloga (1986, IB-USP) e Mestre em Ciência Ambiental (1996, PROCAM-USP). Foi

Visiting Research Fellow (1999-2000) no Departamento de Antropologia da University of Kent at Canterbury, Inglaterra, sob supervisão do Dr. Roy Ellen. Sua vida acadêmica foi dedicada a uma formação interdisciplinar, particularmente na interface entre a Biologia e a Antropologia. Seu principal interesse profissional é a relação entre populações humanas e florestas tropicais no Brasil. Possui dez anos de experiência em Antropologia Ecológica, Ecologia Humana, Unidades de Conservação, Mata Atlântica e Amazônia, tanto na universidade como em organizações não governamentais (ONGs), trabalhando em equipes multidisciplinares, especialmente com antropólogos. Também possui cinco anos de experiência em consultoria ambiental para empresas privadas na elaboração de diagnósticos do meio biológico para Estudos de Impacto Ambiental.

Publicações

ADAMS, C. 2002. Identidade Caiçara: exclusão histórica e sócio-ambiental. In:

Atualidades em Etnobiologia e Etnoecologia. Palestras Convidadas do IV Simpósio Brasileiro de Etnobiologia e Etnoecologia. Ulysses P. de Albuquerque (org.),

Recife: Sociedade Brasileira de Etnobiologia e Etnoecologia. p. 27 – 43.

ADAMS, C., no prelo. The Pitfalls of Synchronicity: a case study of the Caiçaras from the Atlantic Rainforest of South-eastern Brazil. In: Ethnographies of

Environmentalists. Understanding Conservation Strategies and the Distribution of Privilege. E. Berglund & D. G. Anderson, London: Berghahn.

ADAMS, C., 2000. As Roças e o Manejo da Mata Atlântica pelos Caiçaras: uma revisão.

Interciência, 25 (3): 143 – 150.

ADAMS, C., 2000. As Populações Caiçaras e o Mito do Bom Selvagem: a necessidade de uma nova abordagem interdisciplinar. Revista de Antropologia, São Paulo, 43(1): 145 –