Estressores no trabalho das enfermeiras em centro cirúrgico: conseqüências profissionais e pessoais por Jael Maria de Aquino - Versão HTML

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B. Parte B 1: Como você se sente em relação ao seu trabalho

C. Parecer do Comitê de Ética e Pesquisa

1. Introdução

INTRODUÇÃO

16

Introdução

Durante o curso de mestrado, estudamos as relações interpessoais entre os

membros de uma equipe cirúrgica, suas influências no ambiente de trabalho e na

assistência, por serem estas uma das dificuldades relatadas pelos profissionais no

centro cirúrgico. A enfermeira está envolvida com as atividades administrativas e,

constantemente, relaciona o estresse às dificuldades em conciliar a assistência ao

paciente com outras tarefas.

Stacciarini e Tróccoli (2001) salientam que o trabalho da enfermeira, por sua

própria natureza e características, revela-se especialmente susceptível ao fenômeno

do estresse ocupacional. Com relação aos estudos realizados, poucas são as

pesquisas que procuram estudar os problemas associados ao exercício da profissão

da enfermeira no Brasil.

Em seu estudo, Anabuki (2001) mostra quão importante é desenvolver

pesquisas sobre o tema, para aprofundar o conhecimento a respeito do trabalho das

enfermeiras nas instituições hospitalares, a fim de mostrar alternativas ou soluções

que possibilitem uma prática profissional menos estressante e que proporcione a

esse profissional satisfação no desempenho de seu trabalho.

As pesquisas sobre estresse, no Brasil, começaram a crescer na década de

1980, merecendo destaque também pela imprensa, com o objetivo de alertar a

população sobre os perigos desse mal (LIPP, 1996).

O estresse passou a ser o maior responsável pelos males que nos afligem,

principalmente aquele relacionado à vida urbana atual, constituindo-se um problema

econômico e social de saúde pública, onerando não só o trabalhador, como também

a empresa e o governo (FILGUEIRAS; HIPPERT, 2002; BERNIK, 2002).

INTRODUÇÃO

17

Estudos que abordam o tema estresse ocupacional em enfermeiras de centro

cirúrgico são poucos, porque a saúde dos profissionais de enfermagem no Brasil, de

um modo geral, ainda é pouco explorada (LIMA, 1997; SILVA, 1997).

O estresse tem sido um tema bastante discutido, nos últimos anos, pela

comunidade científica. Vários estudos têm apresentado o estresse como causador

de doenças, sendo considerado o “mal do século”. É o resultado de uma civilização

criada pelo homem, e que ele próprio não consegue mais dominar e suportar. É um

problema de saúde pública por elevar os índices sociais e econômicos que tanto

afligem os jovens, em idade produtiva, que ocupam cargos de responsabilidade.

A evidência do estresse no campo do exercício da profissão aflora no trabalho

da enfermeira. Sendo este considerado um risco para a saúde mental das

enfermeiras, o local de trabalho deve ser seguro e saudável, mesmo quando se trata

do ambiente hospitalar.

Desde o início da nossa jornada como enfermeira-docente, atuando em

centro cirúrgico, verificamos que as enfermeiras freqüentemente se queixam das

atividades e do ambiente de trabalho neste setor. Corroboramos com o pensamento

de Lima (1997), quando afirma que o estresse tem sido considerado um risco

ocupacional acentuado para os que trabalham na área da saúde, por lidarem com

situações de sofrimento, tragédia e emergência.

Na opinião de Anabuki (2001), o trabalho da enfermeira, inserido nas

instituições de saúde, submete os trabalhadores a uma diversidade de cargas

geradoras de desgaste. Porém, o trabalho também se constitui em fonte de prazer

que potencializa a capacidade do ser humano na promoção da saúde e melhoria na

qualidade de vida. Esta mesma autora salienta que o estresse é vivenciado por

INTRODUÇÃO

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enfermeiros em diferentes instituições de saúde e que favorece a geração do

processo de desgaste físico e mental.

Nesse entendimento, o centro cirúrgico é um dos ambientes mais complexos

do hospital, pois concentra os recursos humanos e materiais necessários ao ato

anestésico-cirúrgico, e, freqüentemente, as suas atividades são desenvolvidas em

um clima de tensão, pela existência de procedimentos estressantes geradores de

ansiedade, quer pelas condições do cliente, quer pela complexidade do ato

anestésico e cirúrgico.

O cuidado direcionado ao paciente cirúrgico também vem evoluindo. A

enfermeira desempenha papel fundamental, respondendo à necessidade de assistir

o paciente e a família, auxiliando-os a conviver com a experiência do estresse

cirúrgico. Cabe a ela realizar e operacionalizar a sistematização da assistência de

enfermagem no período perioperatório, atividade proposta, desde o início da década

de 1980, por Jouclas (1978), quando utilizou a terminologia sistematização da

assistência de enfermagem no período perioperatório (SAEP).

A Sistematização da Assistência de Enfermagem no Período Perioperatório

(SAEP) parece ser ainda desconhecida para muitas enfermeiras que trabalham em

centros cirúrgicos. Há também as enfermeiras que consideram a SAEP uma

atividade que demanda muito tempo. Enquanto docente da disciplina Enfermagem

em centro cirúrgico, percebemos estas dificuldades na prática com alunos do curso

de graduação em enfermagem da Faculdade de Enfermagem Nossa Senhora das

Graças, onde realizamos funções profissionais desde 1989.

A disciplina de Enfermagem em Centro Cirúrgico é ministrada no 5º período do

curso e estabelece como meta para as aulas práticas que, ao passarem pelo centro

cirúrgico, as alunas desenvolvam a Sistematização da Assistência de Enfermagem

INTRODUÇÃO

19

no Período Perioperatório-SAEP, pois consideramos ser esta a maneira mais

adequada de cuidar do paciente nessa unidade, embora em muitos hospitais

públicos, mesmo universitários, que servem como campo de prática a disciplina

SAEP não esteja implantada.

O desenvolvimento tecnológico envolve a enfermagem em um sistema técnico

eficiente, mas sem nenhum comprometimento humano, demonstrando que a relação

entre os seres humanos deixou de ter importância, sendo relegada a um segundo

plano. O mesmo ocorre com as enfermeiras de centro cirúrgico que procuram

centralizar seu trabalho no gerenciamento da unidade.

Essa situação é rotineira no centro cirúrgico, tendo em vista os procedimentos

que a unidade demanda; além disso, quem tem acesso ao local são apenas os

funcionários e pacientes. Durante sua formação, a enfermeira aprende a gerenciar a

unidade e a delegar os cuidados aos auxiliares e técnicos de enfermagem. Este tipo

de gerenciamento está fundamentado na teoria de administração de Taylor que

prioriza as tarefas em detrimento do ser humano que a desenvolve e que é objeto

deste cuidado.

A escolha do tema e a proposta deste estudo se justificam, porque nossa

intenção, ao proceder a esta investigação, é conhecer os fatores estressores do

cotidiano das enfermeiras de centro cirúrgico e as estratégias de enfrentamento

utilizadas, levando-se em conta o sentimento de prazer e sofrimento no trabalho.

Diante do exposto, vamos construir um trabalho que possa ajudar as

enfermeiras a refletirem sobre situações estressoras vivenciadas. Na compreensão

de Chaves (1994), a intensidade da vivência que a enfermeira hospitalar

experimenta no seu cotidiano exige dela uma contínua e profunda mobilização de

INTRODUÇÃO

20

energia adaptativa que, por vários motivos, pode não estar disponível ou pode não

ser suficiente para evitar o estresse.

Preocupados com essa situação, propusemo-nos a pesquisar o nível de

estresse das enfermeiras de centro cirúrgico, identificando as causas de estresse e

os estressores existentes no ambiente de trabalho dessas enfermeiras e relacionar o

estresse das enfermeiras de centro cirúrgico com o prazer e o sofrimento no

trabalho.

Portanto, o pressuposto desta pesquisa é que as enfermeiras de centro

cirúrgico trabalham em situação de estresse, o que tem conseqüências para seu

desempenho profissional e na sua saúde.

Estabelecemos como objeto os estressores no trabalho das enfermeiras em

centro cirúrgico.

2. Objetivos

OBJETIVOS

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2. Objetivos

• Identificar o estresse das enfermeiras de centro cirúrgico;

• Identificar os estressores existentes do ambiente de trabalho dessas enfermeiras;

• Relacionar o estresse das enfermeiras do centro cirúrgico com o prazer e o

sofrimento no trabalho.

3. Referencial Teórico

REFERENCIAL TEÓRICO

24

3 Referencial teórico

3.1 Estresse

A palavra stress advém da física para designar o grau de deformidade que

uma estrutura sofre quando é submetida a um esforço. Este termo foi introduzido na

medicina para nomear um conjunto de modificações que ocorrem no organismo,

quando submetido a uma situação de reação biológica de enfrentamento (MARTINS,

1994).

Hans Selye estudou o estresse, a partir de 1930, e o definiu como um estado

de tensão patogênico do organismo a qualquer demanda avaliada através das

alterações da composição química do organismo. Em 1936, este autor introduziu o

termo estresse, presente, hoje, nos mais diferentes aspectos da vida humana, tais

como, conseqüências do estresse no corpo e na mente, suas implicações para a

qualidade de vida da humanidade, como melhorar a situação e adequação das

atividades. Considerado como o precursor dos estudos sobre estresse, Selye, um

médico de descendência austríaca, preocupava-se com as reações não-específicas

do organismo que não eram tratadas pela medicina, pois esta olhava somente para

os sintomas físicos. A esses sintomas Selye denominou de síndrome de se sentir

doente. Esse pesquisador trouxe o termo estresse da engenharia cujo significado é

“peso que uma ponte suporta até que ela se parta”. Selye utilizou o termo de

Síndrome de Adaptação Geral, para o estresse, ressaltando a existência de

estressores internos e externos. Os estressores internos podem ser nossas

características pessoais, como valores, crenças e formas de interpretar as situações.

Os estressores externos são as situações que enfrentamos no cotidiano com as

quais o ser humano convive. Confirma, ainda, que o ser humano sente o estresse no

corpo e na mente, quando a tensão é muito grande, o estresse produz interação

entre o corpo e a mente (LIPP, 1999).

A intensidade das mudanças e a vulnerabilidade a que o ser humano fica

exposto o tornam estressado. Assim a intensidade do estresse é uma condição

REFERENCIAL TEÓRICO

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própria de cada ser humano. Determinadas situações, como a doença, por exemplo,

podem provocar estresse, principalmente aquelas que apresentam dor.

Selye, posteriormente, desenvolveu pesquisas endocrinológicas estudando o

papel dos hormônios sexuais em ratos e observou que, diante de qualquer

agressão, o organismo apresenta mecanismos de adaptação. Ele definiu o estresse,

como a quebra do processo de equilíbrio. Bernard, em seus estudos sobre estresse

utilizou a teoria do meio interno como base para a manutenção da vida. Cannon, por

sua vez, desenvolveu a teoria da homeostasia que se refere à habilidade que o

organismo tem para manter seu meio interno constante (ANABUKI, 2001; FARAH,

2001).

No entendimento de Stacciarini e Trócoli (2001), o estresse é um problema

negativo de natureza perceptiva, resultante da incapacidade de lidar com as fontes

de pressão no trabalho, como no caso do estresse ocupacional. E que esta pressão

provoca problemas na saúde física e mental do indivíduo, alterando sua satisfação

no trabalho e comprometendo o sujeito e a organização.

Seguimos essa mesma linha de pensamento e observamos que o estresse no

trabalho pode ser categorizado em fatores relacionados ao trabalho, papéis

estressores, relação no trabalho, desenvolvimento na carreira, cultura

organizacional, entre outros. Parece que tais aspectos fazem parte do trabalho da

enfermeira no centro cirúrgico e são vivenciados de forma conjunta, não havendo

como separá-los. Esse conjunto de aspectos vai produzir o desgaste físico e mental

do trabalhador.

Por estar relacionado diretamente com o sistema nervoso, as reações mais

freqüentemente verificadas em situação de estresse são pressão arterial alta, pulso

e respiração mais rápidos e dilatação das pupilas. Estas reações são pessoais e

dependem das experiências e do modo de vida de cada pessoa.

Chaves (1999) chama a atenção para os resultados e conseqüências desse

mal que pode produzir danos e agravos irreversíveis, tanto na saúde física quanto

mental das pessoas. Para que o estresse não se limite apenas aos conceitos

neuroendocrinológicos e cognitivos, embora estes sejam a base fundamental da

conceituação teórica, salienta ainda que as relações humanas estabelecidas no

decorrer da vida também se traduzem em situações de estresse. Considera que

estando o ser humano diante do estresse, ele enfrenta questões filosóficas que

interagem com o significado da vida, pois cada pessoa reage de forma diferente,

REFERENCIAL TEÓRICO

26

diante das várias situações vivenciadas no cotidiano. A visão de mundo e as

relações que o ser humano constrói e mantém são essenciais para determinar as

reações de enfrentamento ao estresse.

Na opinião de Silva Neto (1998), o estresse é mais antigo que o homem. Ele

representa uma reação biológica de enfrentamento ou fuga e ocorre em situações

críticas, podendo sua causa ser desenvolvida por estímulos externos, tais como

trabalho, lar ou até mesmo os problemas do cotidiano.

Na compreensão de Lipp (1996), o estresse é uma palavra usada para

designar opressão, desconforto e adversidade, e a habilidade de cada ser humano

em lidar com esses fatores, a depender de sua carga emocional. A resposta ao

estresse pode ser dada por determinado número de estímulos, e cada um deles

poderá desenvolver uma vasta variedade de situações. Salienta, ainda, que o

estresse é o desgaste causado pelas alterações que ocorrem quando o ser humano

se vê forçado a enfrentar uma situação que o deixe irritado ou feliz, ou seja,

qualquer emoção que exija mudanças. O estresse pode ser um dos maiores fatores

de risco para a vida atual e para a qualidade de viver de todos, sejam adultos ou

crianças, pois o ser humano estressado não se sente bem, não consegue produzir

de acordo com seu potencial, não interage com as pessoas ao seu redor como

gostaria, não ama com a liberdade necessária, não tem motivação para alcançar

metas difíceis e corre um grande risco de adoecer e até de morrer.

Selye (1958) define estresse como o resultado inesperado de qualquer

demanda sobre o corpo, seja de efeito mental ou somático, e que o estressou, como

o agente que causa a reação de estresse, que poderá ser de natureza física, mental

ou emocional. Portanto, qualquer tensão aguda ou crônica que produza uma

mudança no comportamento físico e no estado emocional do ser humano é

chamada de estresse. Este fenômeno exigirá uma resposta de adaptação

psicofisiológica do organismo que sofrerá, seja qual for essa resposta, negativa ou

positivamente, pois para enfrentá-lo, o indivíduo necessitará desenvolver

mecanismos de ação para se adaptar às situações, estando sujeito a desgastes

físicos e mentais.

Com relação à área emocional, o estresse poderá produzir apatia, depressão,

desânimo, sensação de desalento e hipersensibilidade emotiva, chegando à raiva,

ira, irritabilidade e ansiedade. Na medicina, o estresse significa o conjunto de

REFERENCIAL TEÓRICO

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modificações que o organismo vivo sofre quando submetido a agentes nocivos à sua

integridade (MARTINS, 1994).

Stacciarini e Tróccoli (2001) consideram que o estudo das manifestações do

estresse entre as enfermeiras poderá ajudar a compreender melhor o desempenho

delas no trabalho e a elucidar por que ocorrem problemas como insatisfação

profissional, produção no trabalho, absenteísmo, acidentes de trabalho e outras

doenças, principalmente as que trabalham em centro cirúrgico.

Nesse sentido, Ivo e Rodrigues (1999) chamam atenção para a falta de

humanização presente no paradigma tecnicista, no qual a enfermeira desempenha

seu papel sob pressão, executando tarefas, respondendo às imposições do modelo

que aprendeu em sua formação profissional.

Verificamos que esse tema vem sendo estudado nos mais diversos enfoques,

e que os eventos estressantes podem vir a ser fatores etiológicos para vários

problemas físicos, emocionais e sociais dos trabalhadores.

O evento é estressante à medida que o ser humano percebe e dá a ele valor

como tal, o que exige um processo de interação entre o acontecimento e a

percepção deste pelo sujeito. Nesse sentido, o estresse passou a ser definido como

um conceito relacional mediado cognitivamente, capaz de se refletir na relação entre

o ser humano e o ambiente apreciado por ele como difícil ou que ultrapassa seus

recursos e coloca em risco o seu bem-estar (LAUTERT; CHAVES; MOURA, 1999).

Na opinião de Chanlat (1996), as condições de trabalho, isto é, as condições

físicas, químicas e biológicas do ambiente, exercem pressão sobre o homem,

conduzindo-o ao estresse e a dificuldades no relacionamento.

Aquino (2000) relata que o ambiente é um conjunto de elementos, condições

e acontecimentos, no qual estão incluídos os indivíduos. Esse campo ambiental

também se refere à conduta, a qual é um veículo que, junto com outra conduta,

forma uma relação interpessoal, onde a relação com as coisas é derivada das

relações com os seres humanos.

Sousa et al. (1998) salientam que o ambiente hospitalar pode provocar

mudanças no comportamento de alguns indivíduos, e o centro cirúrgico, por ser um

ambiente fechado e de pouco contato com as unidades externas, é freqüentemente

considerado como um ambiente potencialmente estressante. Tais fatores levam

aqueles que nele trabalham a se isolarem, ficando pouco à vontade e mantendo-se

quase sempre em estado de alerta.

REFERENCIAL TEÓRICO

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Relacionar o estresse com o ambiente de trabalho nos possibilitará

compreender as relações, a fim de alertar as enfermeiras sobre as condições que

lhe são oferecidas no ambiente de trabalho.

Dentro da empresa hospitalar, o centro cirúrgico, em especial, é uma unidade

que vem evoluindo muito. Bem organizada do ponto de vista tecnológico, a unidade

possui equipamentos de última geração, para facilitar o trabalho cotidiano da

enfermeira, contribuindo para melhoria da qualidade da assistência.

Lima (1997) ressalta que certa dose de estresse é importante para a

fisiologia, pois ela motivará o indivíduo e aumentará sua produtividade no trabalho;

nesse caso, é chamado de eustress. Quando ocorre o contrário, e o estresse

apresenta reações perniciosas à saúde e estimulam sentimentos sumarizados, é

denominado de distress.

Como estímulo, o enfoque está no impacto dos estressores; como resposta,

ocorre quando se examina a tensão produzida pelos estressores; como processo,

ocorre quando entendido a partir da interação entre o ser humano e o ambiente.

Nesse sentido, o estresse é visto como um processo psicológico, sendo a

compreensão do evento estressante afetada por variáveis cognitivas, que nem o ser

humano nem a situação definem o estresse, mas a percepção do indivíduo sobre a

situação.

O estresse interfere na homeostase, mas quando ele é fisiológico representa

uma adaptação normal do organismo; no caso da resposta patológica, em seres

humanos mal-adaptados, o estresse leva a distúrbios transitórios ou a doenças

graves. A percepção do perigo é codificada pelo córtex e interpretada por uma rede

de neurônios que abrange o encéfalo e os circuitos da memória, acionando o circuito

cerebral, chamado de sistema límbico, por meio das estruturas que controlam as

emoções e as funções do sistema nervoso autônomo.

A ativação dessas vias causa alterações como dilatação pupilar, palidez,

aceleração e aumento da força dos batimentos cardíacos e da respiração,

piloereção, sudorese, paralisação do trânsito gastrintestinal, secreção da parte

medular das glândulas adrenais e, ao mesmo tempo, o hipotálamo comanda uma

ativação da glândula hipófise. Em caso de novo estresse, a hipófise libera um

hormônio (o ACTHC, chamado de hormônio do estresse) que é levado pelo sangue

até o córtex e provoca aumento da secreção de hormônios corticosteróides, estes

têm ação sobre os tecidos do corpo e provocam alterações no metabolismo, síntese

REFERENCIAL TEÓRICO

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de proteínas, resistência imunológica, inflamações e infecções ocasionadas por

agressões externas.

Essa dupla descarga de agentes hormonais de intensa ação orgânica e de

adrenalina, pela camada cortical, fez com que se considerassem essas glândulas

como mediadoras do estresse. A esse fenômeno, Selye denominou de Eustresse

considerado normal para o organismo. Porém, quando o eixo hipotálamo-hipofisário-

adrenal recebe constantemente esses estímulos começam a surgir alterações,

manifestadas através de doenças causadas pelo nível elevado de hormônio. O

estresse pode ser, então, um causador ou agravador de doenças, como asma,

doenças dermatológicas, alergias, baixa da defesa imunológica, úlceras e gastrite.

Além das doenças clínicas, existem também as psíquicas, como os distúrbios

neurovegetativos. Dentre os mais comuns estão astenia, tensão muscular, tremores,

sudorese, cefaléias, enxaquecas, lombalgias, hipertensão arterial, palpitações, dores

precordiais, irritabilidade, medo, angústia, alterações do sono, apatia, adinamia,

torpor afetivo, perda do interesse e desempenho sexual, entre outros.

Portanto o estresse altera todas as funções do organismo, sejam elas físicas,

emocionais ou espirituais, pois o ser humano ultrapassa seu limite (BERNIK, 2002).

Sendo assim, o estresse tem o significado de desgaste pela matéria exposta a

algum tipo de pressão ou força, e para os homens representa conseqüências físicas

e emocionais causadas por situação da vida cotidiana.

O estresse, como fenômeno humano, tem componentes sociais e históricos e

psicológicos e para ser compreendido exige método adequado, pois se trata de um

processo complexo de mútua interação entre a infra-estrutura biológica e a

superestrutura social, mediada pelo psicológico. Os sentimentos de alegria ou de

tristeza dependem da visão de mundo que o ser humano tem e construiu pelo

contato social, pois sabemos que o comportamento humano é determinado pela

inter-relação do homem com o grupo do qual ele faz parte (RODRIGUES;

GASPARINI, 1992).

Daí a importância de se compreender a Síndrome Geral de Adaptação, que

consiste em três fases: Reação de Alarme, Fase de Resistência e Fase de

Exaustão. Reação de Alarme ocorre no momento inicial da resposta ao estressor,

quando tem início a mobilização orgânica para se defender do agente agressor. Esta

fase é dividida em Shock e Contra-Shock e se caracteriza por aumento da

freqüência cardíaca e da pressão arterial, permitindo que o sangue circule

REFERENCIAL TEÓRICO

30

rapidamente e chegue aos tecidos levando oxigênio e nutrientes; contração do baço

com a finalidade de levar glóbulos vermelhos à corrente sangüínea. O fígado libera

açúcar para ser utilizado como alimento, produzindo, assim, mais energia para os

músculos e cérebro, há aumento da freqüência respiratória, dilatação pupilar e maior

eficácia visual. Por fim, aumenta o número de linfócitos na corrente sangüínea, com

a finalidade de prevenir danos aos tecidos (RODRIGUES; GASPARINI, 1992).

Essas reações são decorrentes da descarga de adrenalina da medula da

supra-renal e de noradrenalina em fibras pós-ganglionares, ao mesmo tempo em

que o eixo hipotálamo-hipofisário e supra-renal são acionados. Se o agente agressor

persistir, o organismo é obrigado a manter o seu esforço de adaptação, e inicia-se a

Fase de Resistência que ocorre quando o organismo prossegue no processo de

resposta de defesa. A Fase de Resistência é caracterizada por alterações

neuroendocrinológicas, surge a reação de hiperatividade córtico-supra-renal. A Fase

de Exaustão é o retorno à fase de alarme. Nela há dificuldade na manutenção de

mecanismos adaptativos, devido à falha no sistema de controle (RODRIGUES;

GASPARINI, 1992; FARAH, 2001).

A noção de estresse biológico foi ampliada e outras áreas do conhecimento

foram se apoderando do conceito, de forma que hoje encontramos pesquisas sobre

estresse psicológico, social, biopsicossocial e profissional, entre outros, sem que

houvesse descontinuidade entre os aspectos fisiológicos e psicológicos do estresse,

pois as reações hormonais e as agressões dependem de fatores situacionais e

psíquicos, como a capacidade de agir para modificar a situação estressora

(FILGUEIRAS; HIPPERT, 2002).

Estresse psicológico é um conceito desenvolvido por Lazarus e Folkman e

estabelece uma relação entre a pessoa e o ambiente. O ambiente é avaliado pela

pessoa como prejudicial a seu bem-estar, é esse processo avaliativo que vai

determinar se uma situação é estressante ou não, em seguida vem o enfrentamento

que representa o esforço de mudança cognitiva e comportamental diante do

estressor. Para esses autores, as estratégias de coping mobilizam experiências

passadas, crenças e os componentes situacionais dos estímulos e a intensidade do

acontecimento.

Os mecanismos de coping são esforços cognitivos e de comportamento

realizados para identificar, administrar, avaliar e manter o equilíbrio do indivíduo em

resposta ao estresse. Portanto o indivíduo tem capacidade de controlar as

REFERENCIAL TEÓRICO

31

repercussões fisiológicas decorrentes do efeito desencadeado pelos estressores,

utilizando-se para isso de estratégias. Nesse processo de enfrentamento, o indivíduo

faz um julgamento da situação, em seguida mobiliza recursos cognitivos e de

comportamento por ele utilizado por meio de estratégias para administração

psicológica dos efeitos do estressor, objetivando aliviar ou diminuir o estresse

(COSTA; LIMA, 2003).

Outra maneira de estudar o estresse é baseada no modelo de Karasek

denominado de Exigência-controle que tem como base as características

psicossociais do trabalho, enfatiza o desencontro entre as condições de trabalho e

os trabalhadores. Ocorre quando as exigências do trabalho não estão em equilíbrio

com a capacidade do trabalhador (FRANÇA; RODRIGUES, 2002). Essa teoria foi

publicada em 1979 e permite analisar o risco a que os trabalhadores são submetidos

para apresentar estresse e doenças, além disso, preocupa-se com a motivação e

satisfação no trabalho. Considera que os trabalhadores ao se defrontarem com alta

sobrecarga de exigências e a falta de controle sobre o trabalho correm o risco de

apresentarem problemas de saúde física e mental decorrentes do estresse.

França e Rodrigues (2002) estudam o estresse, utilizando a abordagem

biopsicossocial, pois compreendem que os estímulos estressores podem ser

provenientes tanto do meio externo, devido às condições de trabalho, como do meio

interno advindo dos pensamentos e sentimentos, e que a pessoa pode contribuir

para o aumento ou a diminuição da intensidade do estresse.

Filgueiras e Hippert (2002) estudaram o estresse decorrente dos fatores

ambientais, ressaltando que este representa um conjunto de condições geralmente

atribuídas à vida urbana, e o que o ser humano tem de fazer frente a ele. O estresse

ambiental pode influenciar o comportamento social dos seres humanos, com

ansiedade e desânimo, acarretando prejuízo ao local de trabalho, por vários motivos,

inclusive pela falta de concentração. Isso faz com que surjam dúvidas quanto à

competência do funcionário, da enfermeira ou dos técnicos e auxiliares em

enfermagem, pois eles apresentam apatia e desinteresse pelas atividades que antes

desenvolveriam com prazer.

Dependendo da situação de cada pessoa, podem surgir problemas graves,

como enfarte e derrames. O causador do estresse, ou estressor, pode ser

classificado em externo e interno. Entre as fontes externas, encontramos a profissão,

a falta de dinheiro, perdas, entre outras, ou seja, refere-se a qualquer situação que

REFERENCIAL TEÓRICO

32

exija do organismo adaptação. Dentre as fontes internas, estão as crenças e valores

do ser humano. Também os altos níveis de ansiedade podem funcionar como

estressores.

Stacciarini e Tróccoli (2000) salientam ainda que as enfermeiras, de uma

maneira geral, encontram-se sob um estado constante de estresse, decorrente do

tipo de trabalho que executam e das condições ambientais do trabalho, sendo a

profissão considerada potencialmente estressante.

Fatores como insatisfação do homem com seu trabalho, seja pelo ambiente

seja pelas tarefas que executa, poderão desencadear problemas de saúde mental. É

importante ressaltar que o trabalho é considerado um dos processos de produção do

psiquismo individual, pois faz parte de nossa identidade social, sendo, portanto um

dos produtores de nossa saúde mental. Este também pode produzir a enfermidade

mental, se não oferecer possibilidades ao trabalhador de concretizar suas

aspirações, idéias, desejos ou quando a organização do trabalho é inflexível.

(BIANCHINI, 1999, ROCHA; BRONZATTI, 2000).

Em pesquisa realizada quanto ao trabalho com as enfermeiras, constatamos

que elas relacionaram o estresse às condições de trabalho, mencionando

principalmente a falta dos materiais e equipamentos que, muitas vezes, atrasa ou

suspende cirurgias. Mencionaram, também, a falta de pessoal auxiliar de

enfermagem, de enfermeiras e até mesmo de pessoal para limpeza do centro

cirúrgico, problemática que quebra as relações interpessoais entre os trabalhadores

do centro cirúrgico (AQUINO, 2000).

Bianchi (1990) salienta que a enfermeira que conhece os estressores

existentes na unidade e os sistemas de compensação tem condições de avaliar as

situações com segurança, optar corretamente pela solução dos problemas. Para a

mesma autora, as enfermeiras de centro cirúrgico são profissionais expostas ao

estresse e a reações emocionais. Ela relaciona o nível de satisfação profissional e

pessoal ao nível de estresse das enfermeiras. Quando esse é fisiológico, ocorre uma

adaptação normal do organismo, porém quando é patológico, principalmente em

indivíduos mal-adaptados, podem surgir distúrbios transitórios graves.

REFERENCIAL TEÓRICO

33

3.1.1 Burnout

Síndrome Burnout foi uma expressão usada por Freudenberg em 1980 para

denominar um quadro de esgotamento. É compreendida como uma reação de

estresse crônico e se caracteriza por reações como exaustão emocional ou física,

perda do sentimento de realização no trabalho com produtividade diminuída,

despersonalização extrema com respeito às outras pessoas, manifestando-se

através de atitudes negativas para com as pessoas no trabalho, sendo, portanto

uma experiência pessoal de esgotamento. Apesar dessas reações se constituírem

por etapas, não existe distinção na manifestação dessas etapas o que se caracteriza

como uma má adaptação psicológica, psicofisiológica, desencadeando reações

comportamentais inadequadas (LIMA, 1997; GUIDO, 2003).

Arantes e Vieira (2002) dizem que a síndrome de Burnout é uma

manifestação mais radical do estresse em sua fase mais aguda e de esgotamento,

exaustão física e emocional. Os profissionais mais afetados são aqueles de área da

saúde, decorrente da atividade profissional por lidar com risco de vida, exigindo

precisão de movimentos, sem que o trabalho possa significar uma atividade

prazerosa. Essa categoria profissional vem sendo alvo de pesquisa de vários

pesquisadores.

Assim a instituição hospitalar tem se constituído o local de trabalho para as

enfermeiras neste espaço destinado à prestação de cuidados ao ser humano e

familiares e para que os cuidados de enfermagem sejam realizados é necessário um

ambiente propício, pessoal, preparado e com infra-estrutura, pois quando essas

condições são adversas expõem as enfermeiras ao estresse e à síndrome de

Burnout.

A abordagem psicossocial da síndrome de Burnout é entendida como um

processo que se desenvolve na interação de características do ambiente de trabalho

com características pessoais, sendo a reação principal a tenção emocional crônica

cuja causa se reflete no trato com outras pessoas. É considerada como uma nova

patologia que tem como causa principal a relação entre aquele que trabalha e o

paciente e essa relação é vista como uma cilada psíquica (DEJOURS, 2001;

GUIDO, 2003).

A organização do trabalho, os conflitos e ambigüidade de papéis, a falta de

participação nas decisões, o sistema de plantões principalmente noturnos, as longas

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jornadas de trabalho, o número insuficiente de pessoal, recursos escassos,

sobrecarga de trabalho e a falta de treinamento levam ao estresse. Associado a

essa situação há o relacionamento conflituoso com a equipe médica e com as

enfermeiras, técnico e auxiliares de enfermagem e a falta de reconhecimento

profissional que são alguns dos aspectos da atividade ocupacional vulnerável ao

Burnout (BENEVIDES-PEREIRA, 2002).

Considera-se, portanto, uma profissão de risco para a saúde física e mental

devido à exposição da enfermeira em contato constante com o sofrimento e morte

do paciente. Debilita o profissional em decorrência da exposição ao estresse,

continua e contribui para o absenteísmo e poderá levar ao alcoolismo, doença

mental e ao sofrimento, sendo que o paciente será o alvo dessa situação devido à

precariedade dos cuidados.

3.1.2 Coping

O trabalho em nossos dias parece ser um importante fator gerador de estresse,

portanto, dentro do ambiente laboral, é de suma importância que o trabalhador

aprenda a enfrentá-lo, de forma que ele venha a se tornar uma experiência positiva,

com benefícios para o indivíduo e o grupo. Em qualquer ocupação, o sujeito enfrenta

dificuldades diversas, principalmente aquelas que estão diretamente relacionadas

aos cuidados de pessoas. A enfermagem é uma dessas profissões que carrega

alguns agravos à saúde do trabalhador, além de ser uma ocupação formada na sua

maioria por mulheres e que sustenta uma história de servir e doar-se para o

atendimento das necessidades de outros (BRITO; CARVALHO, 2003).

O modelo de enfrentamento desenvolvido por Lazarus e Folkman, dentro de

uma abordagem cognitiva também chamada de teoria cognitiva, explica o método

que as pessoas utilizam para lidar com o estresse. Essas estratégias são reações

aprendidas para adaptar ou modificar as situações estressoras, pois a percepção da

pessoa sobre a saúde mental e física está relacionada com a forma em que ela

avalia e resolve os problemas do cotidiano (POLIT; HUNGLER, 1995; BECK, 2001).

Nessa abordagem, a pessoa é analisada dentro do seu próprio contexto, na sua

relação com o significado dos eventos, e os autores que abordam esse tema

salientam que existe uma relação entre as manifestações orgânicas e o aparelho

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