Estressores no trabalho das enfermeiras em centro cirúrgico: conseqüências profissionais e pessoais por Jael Maria de Aquino - Versão HTML

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psíquico. É, portanto, um conjunto de esforços cognitivos e comportamentais que

visam à dominação ou à redução das demandas internas ou externas advindas da

relação entre a pessoa e o ambiente de trabalho. A função básica do coping é

utilizar estratégias na tentativa de lidar com o estresse, é a adaptação do indivíduo

às situações adversas, com redução da tensão e restauração do equilíbrio (COSTA;

LIMA, 2003). Entende-se, portanto, que o estresse está vinculado à relação entre o

indivíduo e o ambiente de trabalho. Baseando-se no pressuposto acima,

entendemos que as enfermeiras de centro cirúrgico são alvo do estresse decorrente

do seu ambiente de trabalho.

Embora tenham conhecimento da existência do estresse, as enfermeiras

parecem que ainda não desenvolveram uma sistemática de avaliação para

enfrentamento, os conceitos da ( Cognitive Appraisal) Avaliação Cognitiva do

Acontecimento que possibilita o controle da situação, dependendo do processo pelo

qual a pessoa percebe as demandas e emoções requeridas na transação entre ela e

o ambiente, e assim poder determinar quais as estratégias utilizadas para a

adaptação. Essas estratégias têm por finalidade atenuar o desconforto ou o

sofrimento causado pelas demandas emocionais e outra função é reduzir as

alterações fisiológicas e psíquicas do estresse.

A avaliação poderá sofrer várias interferências devido a determinados eventos,

especialmente os fatores individuais tais como, valores familiares, culturais,

históricos, idade, sexo, crenças e a personalidade.

Quando a pessoa avalia a situação para saber se interfere em seu bem-estar,

ocorrerá uma resposta imediata como forma de proteção a um determinado evento,

essa é de forma automática e intuitiva, em seguida vem a avaliação cognitiva do

acontecimento, em seguida são feitas uma avaliação e classificação como,

irrelevante, ameaçadora ou desafiadora, essa avaliação envolve o sistema límbico,

tálamo e hipotálamo. Se a situação excede a capacidade da pessoa, pode trazer

danos à saúde física e mental e os acontecimentos que causa ameaçam se

caracterizar por emoções negativas como medo, ressentimentos e raiva; ou podem

se refletir como demandas de prazer.

No segundo momento, é feita uma outra avaliação quando ocorre o julgamento

nos centros cognitivos para utilizar os recursos disponíveis conforme as exigências.

Ainda existe uma reavaliação, após a utilização de determinada estratégia, e tem

como resultado a busca de novos recursos. Caso tenha sucesso, a reação do

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organismo não é de estresse, se ocorre o contrário, desencadeia-se o processo

orgânico e psíquico com graves conseqüências à saúde.

As defesas individuais são utilizadas para lutar contra a doença mental e aliviar

o sofrimento e como conseqüências podem trazer consigo o surgimento de doenças

do corpo, isto porque as pressões psíquicas do trabalho não se limitam apenas à

saúde mental, mas também atingem a saúde física dos trabalhadores (SOUZA,

2002).

Neste estudo, procuramos ver o estresse como um problema possível de ser

administrado pelas enfermeiras que atuam no centro cirúrgico, desde que tenham

conhecimento do que é o estresse, como se desenvolve e como podem utilizar

estratégias para enfrentamento sem danos para a saúde física e mental.

Guido (2003) diz que face aos avanços da modernidade, as inovações

organizacionais, técnicas e tecnológicas associadas ao aumento progressivo e

significativo do estresse ocupacional têm exigido das enfermeiras constante

adaptação, consciência e habilidade para enfrentar essas evoluções e administrar o

agravamento do estresse. As enfermeiras precisam conhecer as formas para

enfrentar o estresse no trabalho, assim utilizando estratégias de enfrentamento

poderão desenvolver seu trabalho com prazer.

3.2 Estresse ocupacional

O aparecimento de doenças provenientes do trabalho fez surgir um novo

campo de estudo, o estresse ocupacional. Embora complexo e muito específico,

exige metodologia própria para realização de pesquisas sobre estresse. Stacciarini

(1999) afirma que o estresse ocupacional é a interação das condições do

trabalhador com as características do trabalho, nas quais a demanda deste excede

as habilidades do trabalhador para enfrentá-las. Portanto, é um problema negativo,

resultado da incapacidade de se lidar com as fontes de pressão no trabalho.

Provoca conseqüências na saúde física e mental e na satisfação do trabalhador,

comprometendo a vida deste ser humano. Considera ainda que o estresse não é

uma condição estática, pois se trata de fenômeno bastante complexo e dinâmico,

cuja atenção volta-se para os estressores ocupacionais que correspondem às

tensões e problemas advindos do exercício de uma atividade profissional. Estes

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autores relacionam o estresse de três formas: como estímulos, como resposta ou

como irritação ou transação entre ambiente interno e externo do ser humano e

estabelecem as abordagens que se seguem.

Labate; Ribeiro; Bosco (2001) observaram em sua prática que as enfermeiras

e auxiliares de enfermagem que trabalham com pacientes com câncer,

freqüentemente, sentem-se estressados.

A capacidade de trabalho está intimamente ligada à saúde do trabalhador e

esta, por sua vez, é diretamente afetada pelas condições de trabalho que a ele são

oferecidas. A relação saúde-trabalho não envolve apenas os trabalhadores,

diretamente engajados no processo do trabalho, mas também suas famílias e a

própria instituição onde trabalham (SILVA, 1997).

Filgueiras e Heppert (2002) salientam que os fatores de risco para a saúde do

trabalhador são numerosos, bem como seu sofrimento psíquico, pois quando ele é

saudável e bem integrado ao seu trabalho terá mais chances de desempenhar

eficientemente o seu papel, com baixo nível de absenteísmo, diminuição do número

de licenças médicas, de aposentadorias por doenças e acidentes de trabalho e,

conseqüentemente, aumento de sua produtividade. O trabalho é um importante fator

para o saudável desenvolvimento emocional, moral e cognitivo do ser humano, bem

como para o seu reconhecimento social.

O estresse relacionado ao trabalho ocorre quando o ser humano percebe seu

ambiente de trabalho ameaçador às suas necessidades de realização pessoal e

profissional ou à sua saúde física ou mental. Ocorre quando também percebe que a

interação deste com o trabalho e o ambiente é prejudicada pelo excesso de

demandas, vendo-se sem recursos adequados para enfrentar essas situações

(FRANÇA; RODRIGUES; 2002).

O sofrimento psíquico, relacionado com o estresse ocupacional, caracteriza-se

por uma perturbação que acomete o ser humano, após excessiva mobilização de

sua energia de adaptação para enfrentamento das solicitações do ambiente de

trabalho. A neurose profissional é um estado de desorganização persistente da

personalidade com conseqüente instalação de uma doença, vinculada a uma

situação profissional ou organizacional, sendo por conseqüência de estresse

profissional (FILGUEIRAS; HEPPERT, 2001).

França e Rodrigues (2002) salientam que o estresse profissional além de

provocar desgaste físico no ser humano também provoca exaustão emocional,

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cansaço, irritabilidade, sinais de depressão, atitudes negativas e que este se torna

insensível no convívio com as pessoas, no ambiente de trabalho. A autora diz que o

estresse altera a memória e a capacidade de raciocínio, fazendo com que o

indivíduo não se concentre e acabe tentando resolver várias situações ao mesmo

tempo.

Dentre os diferentes trabalhadores, os mais afetados pelo estresse são os da

área da saúde; entre estes se destacam as enfermeiras, foco desta pesquisa. Isso

se deve ao conteúdo do seu trabalho, à responsabilidade, ao conflito, ao contexto

social e ao clima vivenciados nas organizações de saúde.

De acordo com Labate; Ribeiro; Bosco (2001), em pesquisa realizada com

enfermeiras e auxiliares que cuidam de pacientes com câncer, as maiores fontes de

estresse foram as situações relacionadas ao sofrimento e à morte que associadas à

carga horária e também aos turnos de trabalho podem desintegrar a saúde física e

mental das enfermeiras.

Consolidando os achados do estudo de Labate; Ribeiro; Bosco (2001),

consideramos importante acrescentar os pressupostos de Angerami-Camon et al.

(1986) e Pitta (1990). Na concepção de Angerami-Camon et al. (1986) são fatores

de risco do meio ambiente do trabalho, as jornadas prolongadas, os ritmos

acelerados e as pressões repressoras e autoritárias de uma hierarquia rígida e

vertical. No entendimento de Pitta (1990), existe uma relação entre a saúde mental

dos trabalhadores hospitalares e a natureza do trabalho deste ambiente laboral,

apresentando esta autora, como fatores nocivos deste ambiente o convívio com a

doença, o sofrimento e a morte.

São os fatores que interferem na saúde mental dos profissionais da

enfermagem. Além dos fatores apresentados por Angerami-Camon et al. (1986) e

Pitta (1990), outros podem ser acrescentados, a partir do estudo de Bianchini (1999),

a fragmentação das tarefas, os riscos ocupacionais, a insuficiência, a

desqualificação e a rotatividade de quem realiza o trabalho na enfermagem, além de

conflitos e ambigüidades entre companheiros supervisores.

O estresse interfere de forma significativa no comportamento do trabalhador.

A esse respeito, Lima (1997) ressalta que o estresse é um risco ocupacional

acentuado para os trabalhadores que lidam com o sofrimento, tragédias,

emergências, pois interfere de forma significativa no comportamento do trabalhador,

alterando a qualidade e a quantidade da produção, provocando reclamações e até

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mesmo acidentes, provenientes de problemas relacionados ao raciocínio. Há

também as conseqüências relacionadas aos custos, com a perda de criatividade e

dificuldades de concentração.

Assim, o constante estado de ansiedade, por força de vivências estressantes

no trabalho, pode ser um dos fatores intervenientes no processo de relacionamento

entre os membros da equipe cirúrgica. Como o indivíduo é um ser singular que pode,

ao mesmo tempo, ser envolvido por uma grande complexidade comportamental,

muitos são os fatores que influenciam o modo dele se relacionar tanto consigo

mesmo, quanto com os outros.

Arantes e Vieira (2002) ressaltam que a organização do trabalho torna-se

fonte de desgaste, quando envolve a divisão do trabalho, o conteúdo da tarefa e um

sistema hierárquico de poder, que somados às condições de trabalho resultam em

fontes de adoecimento para os profissionais no campo da saúde. A situação

permanente de estresse no trabalho afeta o equilíbrio interior, podendo se prolongar

por muito tempo até que a energia adaptativa da pessoa se esgote e, não tendo

como resistir, comece a apresentar sintomas físicos e emocionais.

O desgaste físico e mental vem acompanhado de sintomas de falhas da

memória, eventos percebidos de formas diferentes, e interpretados de acordo com a

história de vida de cada um, segundo seus valores e crenças. Se a situação não for

trabalhada no sentido de aliviar a tensão, o organismo perde energia, fica

enfraquecido e vulnerável. Assim, começam a surgir doenças, tais como gripe,

gastrite, retração da gengiva e problemas dermatológicos. Se o estresse não for

tratado a tempo, o indivíduo pode apresentar depressão e outras complicações

graves.

No entendimento de Stacciarini e Tróccoli (2001), o trabalho da enfermeira,

por sua própria natureza e características, é susceptível ao fenômeno do estresse

ocupacional. Este estresse pode ser categorizado em seis grupos: fatores

intrínsecos para o trabalho; papéis estressores; relações no trabalho; estressores na

carreira; estrutura organizacional e interface trabalho-casa.

No Brasil, a maioria das enfermeiras atua em hospitais, tendo em vista a

tendência assistencialista do modelo biomédico. Muito embora esta seja uma

profissão de risco para o estresse, por lidar com a enfermidade, a dor e a morte, nos

últimos anos, vem crescendo o número de enfermeiras que atuam em Programas de

Saúde da Família e nos Programa de Interiorização. Dentre os problemas de saúde

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gerados no trabalho da enfermeira, o estresse ocupacional é freqüentemente

apontado pelas enfermeiras (ANABUKI, 2001).

Parece ser uma das características da profissão e, na prática, nos deparamos

com a dificuldade de encontrar um instrumento sistematizado para avaliar o

estresse. Os estudos sobre estresse e seus efeitos abrangem não só as

conseqüências deste no corpo e na mente do ser humano, mas também suas

implicações com a qualidade de vida dessas pessoas com ênfase, nos fatores

sociopsicológicos.

Considerando a situação da enfermeira de centro cirúrgico, onde o paciente é

exposto aos riscos da cirurgia sem que tenha condições de se defender diante das

complicações que possam surgir, a enfermeira assume uma grande

responsabilidade. Nesse sentido, Pinho (2002) ressalta que as enfermeiras que

trabalham em centro cirúrgico são, normalmente, envolvidas por estresse, tensão

emocional e outras dificuldades que as sobrecarregam de forma física e psicológica,

devido à ansiedade produzida pelo ato cirúrgico gerada na equipe e a fatores como

o grau de risco que pode surgir diante de situações imprevistas.

Sendo assim, o centro cirúrgico é considerado como um setor que poderá

contribuir para o desgaste físico e mental dos trabalhadores de enfermagem,

podendo levá-los ao estresse, por ser um local de trabalho onde as atividades ali

desenvolvidas são rotineiras e exigem observação criteriosa, um lugar, portanto de

trabalho massificado, destituído de criatividade e arte (COUTRIM; FREUA;

GUIMARÃES, 2003).

Nesse sentido, na opinião de Bernik (2002), o estresse pode provocar

transtornos mentais temporários ou exacerbar os que já existem, como também

pode levar o ser humano a ter pensamentos obsessivos e compulsivos, além de

apresentar angústia e sensibilidade emocional aumentada.

Na compreensão de Bianchi (1990), a área de estresse mais severa é a

relacionada às condições de trabalho para o desempenho da função da enfermeira

no centro cirúrgico, seguida do setor de funcionamento ligado à coordenação das

atividades e, por fim, da administração de pessoal. Esta última é uma área

complexa, devido ao momento por que passa o serviço público, em especial o da

saúde, no Brasil. Na saúde, são raros os investimentos e a demanda cada vez

maior, devido ao alto custo da assistência à saúde em hospitais particulares. A soma

desses fatores leva os servidores à baixa auto-estima e desmotivação, no

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desempenho de suas funções. Os avanços tecnológicos cada vez mais

especializados deixaram a assistência à saúde mais cara, e estes custos altos têm

levado uma grande massa da população a depender dos serviços públicos de

saúde. No Brasil, a maioria dos hospitais públicos atende além da sua capacidade

de ocupação dos leitos, e mesmo assim muitos cidadãos ficam sem assistência.

Como há excesso de demanda no atendimento dos hospitais, há também na

unidade de centro cirúrgico, onde a atividade ali desenvolvida quase sempre exige a

participação interventiva da enfermeira. No entendimento de Carvalho e Lima (2001),

o centro cirúrgico é um dos setores de maior desgaste do hospital, e os funcionários

que trabalham no local apresentam maior cansaço físico e mental, e a estes se

juntam os problemas internos e externos do hospital.

Na opinião de Bleger (1984), os seres humanos comportam-se segundo a

estrutura do seu ambiente. Logo, a conduta é conseqüência deste e dos seus

significados, cujas manifestações são oriundas de todo o contexto sociocultural.

Stacciarini e Tróccoli (2000) defendem que as constantes mudanças ocorridas

no mundo do trabalho e nos hospitais têm feito com que as enfermeiras trabalhem

sob um constante estresse, em decorrência do tempo de trabalho, das condições

ambientais, e também pela falta de qualidade, falta de recursos humanos e falta de

materiais, entre outros. Esse clima estressante e ansiogênico interfere no

estabelecimento de relações interpessoais harmoniosas, desestruturando-as, fato

que se reflete no ambiente e nas ações empreendidas pela equipe.

3.3 Estresse, prazer e sofrimento no trabalho

A Organização Mundial de Saúde (OMS) reconhece que existem

multiplicações de doenças decorrentes de desequilíbrios psicossociais, o que eleva

o número de consultas médicas nas regiões industrializadas. Os desgastes físico e

emocional gerados no local de trabalho são mais prováveis onde há maior

desencontro entre a natureza do trabalho e a natureza do ser humano que realiza

esse trabalho. Cada vez mais, trabalhamos em ambientes nos quais os valores

humanos ocupam um lugar distinto, com valorização maior dos fatores econômicos

(MASLACH; LEITER 1999).

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Na opinião de Pegoroso (2002), o ajustamento inadequado entre o indivíduo e

o meio ambiente pressupõe também o envolvimento de variáveis qualitativas, tais

como necessidades pessoais, emocionais e fontes de satisfação.

O trabalho pode ser uma fonte de prazer, satisfação, porém lidar com a

angústia, a dor, o sofrimento e morte pode favorecer o aparecimento de sintomas

psíquicos. Assim, para o bem-estar dos profissionais é necessário que o ambiente

de trabalho seja saudável e agradável à convivência diária da equipe de

enfermagem, pois o sofrimento do paciente poderá desencadear também sofrimento

psíquico nos trabalhadores, fator que se agrega à sobrecarga da dupla jornada de

trabalho e à especialidade (PROVIN; COLLET; TOMAZZONI,2002).

França e Rodrigues (2002) salientam que o desgaste a que a pessoa é

submetida nos ambientes e nas relações com o trabalho é um fator significativo na

determinação de doenças, e que o agente estressor psicossocial é tão potente

quanto os microrganismos, sendo hoje reconhecido pela maioria dos profissionais

médicos, porque afeta as mais variadas classes sociais. A organização do trabalho é

causa de fragilização somática porque ela pode bloquear os esforços do trabalhador

para adequar o modo operatório à necessidade de sua estrutura mental.

Ainda esses autores relatam que a desumanização do trabalho, presente na

produção em grande escala, que tem como características marcantes a

mecanização e a burocratização, tornou-se um agente estressante, pois afeta as

necessidades individuais de satisfação e realização.

Uma das causas do sofrimento psíquico no trabalho é constituída pelo

estresse, entre outros aspectos relacionados ao trabalho, aumentando o risco,

principalmente, quando não existe conhecimento de como evitá-lo. Com essa

preocupação, Chanlat (1996) comenta que a abordagem sobre saúde e segurança

no trabalho trata mais de segurança que de saúde e a ênfase recai de preferência

sobre os fatores mecânicos, físicos e biológicos que provocam os acidentes,

minimizando os fatores psicossociais que poderiam ser responsáveis por outros

acidentes.

A influência organizacional sobre o estresse ocupacional da enfermeira

parece estar mais voltada para aqueles que têm algum poder decisório na

instituição, principalmente entre as enfermeiras com cargos administrativos.

Portanto, numa variável individual existem fatores estressantes que parecem

comuns à enfermeira, de um modo geral, como carga de trabalho, os cuidados com

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os pacientes, as relações interpessoais com colegas, o conhecimento e as

habilidades e as especialidades de trabalho, além do excesso de burocracia

(STACCIARINI; TRÓCCOLI, 2000).

As características da profissão de enfermeira na realidade brasileira

associam-se a outros aspectos inerentes ao seu exercício, provocando

conseqüências para a prática da enfermagem. O estresse parece ter contribuído

para a desvalorização da profissão em relação a outros profissionais de saúde. O

desgaste a que o ser humano é submetido no ambiente e nas relações com o

trabalho é fator importante na determinação da procura de jovens para este trabalho.

O trabalho pode ser uma fonte de satisfação e prazer, como também poderá

produzir sentimentos de alienação e hostilidade relacionada com a fragmentação e

competitividade, no ambiente de trabalho.

Na compreensão de Rodrigues e Gasparini (1992), o ser humano pode ser

afetado por distúrbios na relação do trabalho, ou seja, o ambiente físico e o

psicossocial podem gerar desprazer e doenças no profissional.

O trabalho é uma atividade específica do homem que funciona como fonte de

construção, realização, satisfação, riqueza, bens materiais e serviços úteis à

sociedade humana. Entretanto, pode significar, também, escravidão, exploração,

sofrimento, doença e morte. Assim, nas sociedades modernas, ditas evoluídas e

humanistas, foi criada toda uma estrutura explicitada de serviços destinados a

proteger os direitos e a saúde dos trabalhadores (SELIGMANN-SILVA, 2002).

Existe a necessidade cada vez maior de se manter a saúde mental no

ambiente de trabalho. Hoje, as desordens psicológicas ocupacionais são vistas

como um problema prioritário nos Estados Unidos, uma vez que o trabalho e a

saúde mental estão intimamente relacionados. Desse modo, o trabalhador emprega

o seu interesses para atuar no coletivo e se considera diferente dos outros; é um

sujeito particular, único, contribuindo com sua especificidade, com um objeto comum

para todos (CODO; JACQUES, 2002).

Seligmann-Silva (2002) defende que o conhecimento e a prevenção do

sofrimento mental caminham juntamente com outras transformações mais profundas

da sociedade. Labate; Ribeiro; Bosco (2001) reconhecem que os profissionais

necessitam de espaços de reflexão e discussão sobre seus próprios sentimentos e

sugerem a implantação de “Grupos de Balint” onde podem vivenciar e compartilhar

suas experiências no grupo. Esses “Grupos Balint” representam uma estratégia

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utilizada na educação de profissionais de saúde; esses grupos são coordenados por

um profissional externo à equipe e com formação psicanalítica.

Na opinião de Mendes e Dias (1994), as principais características de cuidado

à saúde dos trabalhadores, na perspectiva de promoção da saúde, podem ser

sintetizadas pelas necessidades de integralidade das práticas das ações preventivas

e curativas, atuação transdisciplinar e intersetorial no mundo do trabalho,

entendimento quanto à complexidade e dinamicidade das mudanças que ocorrem

nos processos produtivos. Estes conhecimentos oportunizarão aos trabalhadores

participar mais das ações de saúde e do próprio mundo organizacional do trabalho.

Outro aspecto relevante é a garantia de que todos participem nas decisões

que dizem respeito ao seu trabalho, à sua saúde e à qualidade de vida.

Correlacionada ainda à situação da enfermeira de centro cirúrgico que precisa

dominar as questões técnicas e administrativas, além dos cuidados aos pacientes,

verificamos a necessidade de se elaborarem programas para assistir esses

profissionais, voltados à preservação de sua saúde mental.

As situações vivenciadas no ambiente de trabalho suscitam sentimentos

intensos e contraditórios como piedade, compaixão, amor, culpa e ansiedade. Esses

sentimentos conflituosos e dialógicos repercutem em forma de sofrimento psíquico e

estão relacionados às doenças somáticas que aparecem, sobretudo em pessoas

que apresentam uma estrutura mental caracterizada pela sobrecarga ou ineficiência

das defesas mentais (PITTA, 1990).

Em seus estudos, Labate (1997) ressalta que a humanidade constantemente

procura criar defesas para se proteger da dor, do sofrimento e da morte, que são as

grandes limitações do ser humano. O profissional de saúde, muitas vezes, está em

contato diário com o sofrimento.

As décadas de 1970, 1980 e 1990 mostraram uma relação estreita entre os

transtornos psicoemocionais e as manifestações clínicas oriundas das condições de

trabalho e consideram ainda que o desajuste no trabalho é que conduz a um estado

indicativo de doença (MAURO, 1996).

Essa mesma autora ressalta que a enfermeira com conhecimento em saúde

mental poderá ser um veículo de informação no ambiente de trabalho, procurando

identificar e orientar os colegas que se encontram em situação de estresse, assim

como poderá visualizar o trabalho como uma possibilidade de prazer, atuando como

um indicador de saúde mental no local.

REFERENCIAL TEÓRICO

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Portanto, torna-se necessário que a enfermeira tenha consciência dos fatores

que podem desencadear estresse e as características do trabalho da enfermagem

desenvolvida nos centros cirúrgicos; precisa estabelecer questões relacionadas à

prevenção e/ou minimização destes fatores que podem relacionar seu trabalho com

o processo de saúde e doença mental.

Dentre as afirmativas para evitar ou enfrentar o estresse da enfermeira em

centro cirúrgico podem ser citados: manter um ambiente saudável e tendo como

objetivo principal o diálogo com familiares, amigos e colegas; participar de grupos

religiosos e/ou sociais; participar de atividades de lazer, programas culturais e

entretenimento; manter um hobby; incluir a atividade física sistemática em sua vida,

como uma necessidade humana básica; saber procurar ajuda diante de uma

dificuldade surgida.

3.4. Teoria da psicodinâmica do trabalho

Os estudos sobre psicopatologia do trabalho têm como objetivo o estudo

clínico e teórico da patologia decorrente do trabalho. Surgiu no final da Segunda

Guerra Mundial, e essa teoria foi alavancada por um grupo de médicos-

pesquisadores liderados por L. Le Guillant. Ganhou impulso nos últimos 15 anos,

recebendo recentemente a denominação de Análise Psicodinâmica das Situações

de Trabalho ou simplesmente, Psicodinâmica do Trabalho. Questão do sofrimento

ocupa posição central, isso porque o trabalho tem efeitos poderosos sobre o

sofrimento psíquico, contribuindo para agravá-lo, podendo até mesmo levar o ser

humano à loucura. Ao contrário poderá levá-lo à transformação e subvertê-lo em

prazer, isso porque em certas situações de trabalho o ser humano preserva melhor

sua saúde mental (SELIGMANN-SILVA, 1994).

Com a evolução tecnológica acreditava-se que o sofrimento no trabalho foi

bastante atenuado ou mesmo eliminado completamente pela mecanização e

robotização, que teriam abolido as obrigações mecânicas, as tarefas de manutenção

e a relação direta com a matéria que caracterizou as atividades da indústria, porém

para Dejours; Jayet; Abdoucheli (1994) esse discurso é falso, pois o sofrimento

continua presente na relação do trabalhador com a organização do trabalho.

REFERENCIAL TEÓRICO

46

A subjetividade adentra no âmbito do trabalho, inserindo-se no

comportamento, sentimentos, emoções e percepções, memória, relações sociais, e

outros. A atividade industrial dissocia a individualidade e subjetividade, visto que

esta se desenvolve em função da interação com o grupo, portanto a produção no

trabalho não acontece apenas em função da capacidade dos profissionais que ali

atuam, mas decorre de tudo o que se passou em sua vida fora do ambiente

organizacional, ou seja, envolvem os acontecimentos ocorridos na creche, na escola

e na sua residência com a família. A atividade profissional não é apenas um modo

de ganhar a vida, é uma forma de inserção social, onde os aspectos psíquicos estão

fortemente implícitos (LUNARDI FILHO; LUNARDI; SPRICIGO, 2002).

Souza (2002) salienta que a subjetividade se expressa através de diversas

formas, sendo a verbalização apenas um dos canais de sua expressão, e representa

o que faz sentido para os seres humanos, logo a subjetividade pode ser

compreendida como os modos de ser, a dimensão da pessoa com suas expressões

particulares, o modo de ver e sentir, bem como estar nas situações reais.

A subjetividade é invisível, da mesma maneira que o sofrimento, e estes

estados afetivos não podem ser mensurados, mas vivenciados. Se o sofrimento não

se faz acompanhar de descompensação psicopatológica, é porque contra ele o ser

humano emprega defesa para controlá-lo. Assim, o sofrimento pode ser entendido

como sofrimento ético e sofrimento psíquico.

O sofrimento ético é o resultado de um mal padecido pelo ser humano,

experimentado ao cometer, por causa de seu trabalho, atos que o condenam

moralmente. O sofrimento psíquico ocorre quando a energia psíquica se acumula,

tornando-se fonte de desprazer, a carga psíquica vai crescendo até que aparecem

as fadigas, a astenia, e a partir daí a patologia (DEJOURS; JAYET; ABDOUCHELI,

1994).

O sofrimento no trabalho, de um modo geral, encontra-se entre a

subjetividade e o trabalho, tendo sido por muito tempo negligenciado pelas

organizações sociais. Ganhou amplitude com os movimentos sociais, a partir de

1968, quando foram discutidas as seguintes questões: reivindicações salariais,

condições de trabalho e o significado do trabalho. Na opinião de Dejours; Jayet;

Abdoucheli (1994), o sofrimento ocorre quando a relação do trabalhador com a

organização do trabalho é bloqueada, ocorrendo sentimento de desprazer e tensão.

O sofrimento não se manifesta visivelmente, pois essa aparente ausência só pode

REFERENCIAL TEÓRICO

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ser explicada a partir das estratégias defensivas que são constituídas pelos

indivíduos e grupos. Existem as defesas que elaboradas coletivamente e que para

funcionarem requerem a participação de todos membros do coletivo. Consideram

ainda que o sofrimento no trabalho vincula dados que são relativos à história

singular dos sujeitos e os que são relativos à organização, além de implicar nos

processos construídos no interior do espaço da empresa, e também implica no

espaço doméstico e na economia familiar do trabalhador.

No entendimento de Seligmann-Silva (1994), o estudo da relação entre saúde

mental e trabalho reconhece as contribuições dessa corrente de pensamento que

vem se impondo pela qualidade de sua produção teórica, pelas riquezas de suas

formulações metodológicas e pela importância de suas descobertas que culminavam

com a patologia mental ou psicossomática, sendo esses estudos voltados para

identificar doenças mentais correlacionadas à profissão ou a situações de trabalho.

Porém a psicopatologia do trabalho está preocupada com a gênese e as

transformações do sofrimento mental vinculados à organização do trabalho.

A temática saúde mental e trabalho é, sem dúvida, uma questão

contemporânea e aborda o nexo causal entre sintomatologia de origem psíquica e a

organização do trabalho, buscando compreender os efeitos do trabalho sobre o

psiquismo do trabalhador.

4. Percurso Teórico-Metodológico

PERCURSO TEÓRICO - METODOLÓGICO

49

4. Percurso teórico-metodológico

4.1 Tipo de pesquisa

Foi realizada uma pesquisa descritiva. Segundo Santos (1999), essa

modalidade de pesquisa se interessa em estudar o fenômeno, procurando conhecer

sua natureza, sua composição e os processos que o constituem, e descrevendo-o

de forma minuciosa.

Optamos por este tipo de pesquisa, pois possibilitou explorar aspectos da

situação do estresse e estressores dos enfermeiros no centro de cirúrgico, utilizando

técnicas como aplicação de uma escala e entrevista semi-estruturada, que foram

empregadas na investigação e são capazes de atender aos objetivos propostos.

Esta pesquisa foi desenvolvida em duas etapas, a primeira corresponde aos

dados quantitativos em que foi utilizado como técnica de coleta de dados o

Inventário de Estresse em Enfermagem desenvolvido por Stacciarini e Trócoli

(2001).

A segunda etapa foi composta por uma entrevista semi-estruturada e os

dados foram agrupados em quatro categorias temáticas provenientes das falas das

participantes.

4.2 Local da pesquisa

Os locais escolhidos para a coleta de dados da pesquisa foram sete unidades

de centros cirúrgicos de hospitais públicos da cidade de Recife-PE, sendo dois

PERCURSO TEÓRICO - METODOLÓGICO

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hospitais universitários. Estes centros cirúrgicos servem como campo de prática para

a disciplina de Enfermagem em Centro Cirúrgico da FENSG-UPE.

Os sete hospitais públicos são gerenciados pela Secretaria de Saúde do

Estado e há algumas características em comum: são hospitais classificados pelo

Ministério da Saúde, como de grande porte, por possuírem capacidade acima de

300 leitos. Atendem às seguintes especialidades: emergência clínica e cirúrgica,

ortopedia, neurocirurgia, pediatria e outras especialidades. Os centros cirúrgicos

desses hospitais funcionam em caso de cirurgias eletivas e de urgência, desde que

tenham mais de um enfermeiro nos turnos da manhã, tarde ou noite. São hospitais

conveniados com o Sistema Único de Saúde (SUS), todos localizados em bairros

centrais e de fácil acesso para a população, atendendo à demanda espontânea com

cirurgia geral e especialidades.

Os organogramas dessas instituições hospitalares estabelecem que a Divisão

de Enfermagem e de Apoio Técnico tem como instância superior a Diretoria-geral,

sendo a equipe de enfermagem composta por enfermeiro, auxiliares e técnicos de

enfermagem.

4.3 População/Amostra

A população desta pesquisa foi constituída por enfermeiras1 que foram

identificadas com nomes de flores e plantas ornamentais, para manter seu sigilo e

anonimato. Estas enfermeiras trabalham nos sete centros cirúrgicos das seguintes

instituições identificadas pelos códigos: Hospital A, Hospital B, Hospital C, Hospital

D, Hospital E, Hospital Universitário F, Hospital Universitário G.

1 Neste estudo optou-se por usar o termo enfermeira, pois só houve participantes do sexo feminino.

PERCURSO TEÓRICO - METODOLÓGICO

51

A amostra compreendeu um total de 30 enfermeiras, que atuam em Unidades

de Centro Cirúrgico, em qualquer dos turnos e que aceitaram participar do estudo,

assinando o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. O Quadro 1 representa

os hospitais pesquisados e as enfermeiras participantes da pesquisa em cada

instituição.

Quadro 1 Distribuição das enfermeiras de centro cirúrgico por

hospital Recife, PE

Enfermeiras pesquisadas

Enfermeiras que

Ordem Hospital

que responderam à escala

participaram da entrevista

01

Hospital A

08

07

02

Hospital B

03

02

03

Hospital C

02

02

04

Hospital D

04

03

05

Hospital E

08

02

Hospital Universitário

06

02 01

F

Hospital Universitário

07

03 02

G

Total

30

19

No quadro 1, estão discriminados os 07 hospitais pesquisados, o número de

enfermeiras que responderam à escala e participaram da entrevista. Das 30

enfermeiras participantes da pesquisa na etapa inicial que correspondeu ao

Inventário de Estresse em Enfermagem (Stacciarini, 1999), foram entrevistadas 19

enfermeiras, não entrevistamos as 30, porque com 19 sujeitos as informações já

estavam se repetindo e utilizamos o critério de exaustão dos discursos. Portanto do

total de 30 enfermeiras, 11 não foram entrevistadas.

PERCURSO TEÓRICO - METODOLÓGICO

52

4.4 Instrumentos para coleta de dados

4.4.1 Escala

A escala utilizada neste estudo denominada de Inventário de Estresse para

Enfermeiro é composta por seis subescalas2, sendo que uma das subescalas

intitulada Fatores de Estresse para o Profissional Enfermeiro foi elaborada e

validada por Stacciarini (1999) que investiga o estresse e os estressores das

enfermeiras, bem como a freqüência em que ocorrem no seu cotidiano (ANEXO A).

A autorização para a utilização deste Inventário foi dada por e-mail, em virtude da

autora residir no momento da pesquisa nos Estados Unidos da América.

A escala psicométrica visa a escalonar estímulos que expressam um

construto psicológico e procura verificar o nível de concordância do sujeito com uma

série de afirmações, que expressam algo de favorável ou desfavorável em relação a

um objeto. A técnica de Likert é a mais utilizada; o número de sentenças pode variar

de um a cinco, ou de um a sete pontos (PASQUALI, 1996).

A seguir descreveremos sobre as escalas que foram utilizadas por Stacciarini

(1999) em seu estudo.

A subescala Inventário de Estresse para Enfermeiros PARTE A.1 – REVl-S

Inventário Racional versus Experiencial –versão reduzida, ( RVEI-S Rational versus

Experiential Inventory). É um questionário de personalidade que foi traduzido,

adaptado e validado por meio de teste de consistência por Tróccoli em 1998;

2 Que são divididas em duas partes A e B. Cada parte contém três itens respectivamente, assim

distribuídos: PARTE A.1 – REVl-S Inventário Racional versus Experiencial; PARTE A.2 – CTI-S

Inventário de Pensamento Construtivo; PARTE A.3- Fatores de Estresse para o Profissional

Enfermeiro; PARTE B. 1- Como você se sente em relação ao seu trabalho; PARTE B.2- Estado Atual

da Saúde-Como você se sente e ou se comporta; PARTE B. 3- Inventário de Sintomas do Estado

Físico)

PERCURSO TEÓRICO - METODOLÓGICO

53

composto por 40 itens que variam de (1), completamente falso a (5), completamente

verdadeiro.

PARTE A.2 – CTI-S é mais uma subescala, versão reduzida (CTI-S

Constructive Thinking Inventory), para mensurar o pensamento construtivo;

composta de 52 itens que variam de (1) completamente falso a (5), completamente

verdadeiro. Foi traduzida, adaptada e validada por meio de teste de consistência por

Tróccoli em 1998 (STACCIARINI, 1999).

PARTE A. 3 – Fatores de Estresse para o Profissional Enfermeiro. Esta

escala, construída e validada pela autora, pode ser utilizada em qualquer região do

país, desde que sejam consideradas as características da região a ser estudada. A

estrutura fatorial do Inventário de Estresse para Enfermeiro (IEE) compreende três

subescalas: Fatores Intrínsecos ao Trabalho; Relações no Trabalho; Papéis

Estressores da Carreira e Estrutura e Cultural Organizacional.

PARTE B 1 – Como Você se sente em Relação ao seu Trabalho. A subescala

composta por 22 itens que variam de (1), muita insatisfação a (6), muita satisfação.

Esta escala foi traduzida para o português em 1993 por Moraes e cols. O original é o

Instrumento Occupational Stress Indicator que foi elaborado por Cooper e cols., em

1988 (STACCIARINI, 1999).

PARTE B 2 – Estado Atual de Saúde-Como Você se Sente ou se Comporta.

Denominada de doença saúde mental composta por dezoito sentenças, com seis

opções de respostas.

PARTE B 3 – Inventário de Sintomas do Estado Físico. É intitulada de doença

saúde física, composta por doze itens com seis opções de respostas que medem a

freqüência de mal-estar decorrente do estresse.

PERCURSO TEÓRICO - METODOLÓGICO

54

Com relação à construção do Inventário de Estresse em Enfermeiros - IEE, a

autora segue os princípios de Pasquali que leva em conta os três pólos: teórico,

empírico e analítico. A entrevista realizada com enfermeiros, em diferentes cargos

ocupacionais, constituiu uma das principais fontes de informação, que serviu de

base para elaboração dessa subescala. Este instrumento foi validado com uma

amostra de 461 enfermeiros respeitando o número de 10 sujeitos para cada item da

escala (STACCIARINI; TRÓCOLI 2000).

Para o Inventário de Estresse para Enfermeiros - IEE, foi feita ainda pela

autora uma análise fatorial dos 44 itens. Na matriz de correlações, ela obteve mais

de 50% acima de 0,30 que é considerada como uma boa percentagem. Para a

análise da significância, Stacciarini (1999) usou o Bartlett test of Shericity igual a

6390, 07; e o KMO-kaiser Measure of Sampling Adequacy foi .87, significando que a

escala é adequada para ser submetida à análise fatorial. E a análise de

confiabilidade indicou precisão com alfa de .89.

A seguir serão apresentadas para cada categoria estabelecida pela autora

para o Inventário de Estresse para Enfermeiro as análises de confiabilidade.

Relações Interpessoais: composta de 17 itens com alfa de .90,

variância 21,2.

Papéis Estressores da Carreira: composta de 11 itens com alfa de

.82, variância 12,9%;

Fatores Intrínsecos ao trabalho: composto por 10 itens com alfa de

.79, variância 5,4%.

Estrutura e Cultura Organizacional: composta por 11 itens, foi

elaborada com base na proposta de classificação elaborada por

PERCURSO TEÓRICO - METODOLÓGICO

55

Cooper. Nesse estudo, Stacciarini (1999) obteve como variância total

39,5 % e o alfa de Cronbach igual a .89.

4.4.2 Roteiro de entrevista

Como instrumento foi utilizado um roteiro de entrevista semi-estruturada que

teve, como questionamento básico, o estresse vivenciado pelas enfermeiras de

centro cirúrgico e seus estressores (APÊNDICE B).

A técnica de entrevista é uma forma de se colherem informações baseadas

no discurso livre do sujeito, em que ele exprime questões da sua experiência,

comunica-as, manifestando os significados do seu contexto e revelando as

concepções e idéias (CHIZZOTT, 1998).

Na opinião de Gil (1994), a entrevista é uma técnica de coleta de dados que

contém perguntas simples, direcionadas para a apreensão do objeto de estudo,

permitindo interação entre o sujeito e a pesquisadora, situação ideal para que se

obtenham informações acerca do que os seres humanos sabem, crêem, esperam e

sentem.

Com a utilização desse material, procurou-se compreender o significado que

circunda os sujeitos da pesquisa, entendendo melhor suas ações em centro

cirúrgico. Os resultados poderão alertar as enfermeiras quanto ao estresse para sua

saúde mental além de poder contribuir para melhorar o ambiente para as aulas

práticas de enfermagem em centro cirúrgico.

Na compreensão de Chizzott (1998), o conhecimento não se reduz a um rol

de dados isolados, conectados por uma teoria explicativa; o sujeito observado é

parte integrante do processo de conhecimento e interpreta os fenômenos,

PERCURSO TEÓRICO - METODOLÓGICO

56

atribuindo-lhes significados. O sujeito ultrapassa suas aparências para alcançar a

essência desses fenômenos. Logo, os objetos, os seres humanos e os símbolos que

constroem o mundo social podem ser desvelados na pesquisa.

4.5 Procedimentos éticos

Este projeto foi submetido à aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa do

Hospital da Restauração com o protocolo de número CEP-HR 0027/04, datado de

26 de abril de 2004 (ANEXO B), em respeito à Resolução 196/96, do Ministério da

Saúde, que trata dos aspectos éticos em pesquisa envolvendo seres humanos

(BRASIL, M S; 1996).

As enfermeiras foram convidadas a participar do estudo, após conhecerem a

importância de sua participação, os objetivos da pesquisa e a garantia do seu

anonimato. As enfermeiras que decidiram integrar o estudo receberam um Termo de

Consentimento Livre e Esclarecido, que foi lido e assinado, confirmando sua

participação (APÊNDICE A).

4.6 Procedimentos para coleta de dados

Em cada instituição procurou-se a enfermeira responsável pelo centro

cirúrgico, após a apresentação do parecer do Comitê de Ética e Pesquisa o qual

explicava a importância da participação dos sujeitos e os objetivos da pesquisa,

além de deixar claro que a pesquisa diz respeito a uma tese de doutorado em

PERCURSO TEÓRICO - METODOLÓGICO

57

enfermagem. Iniciou-se a coleta de dados após parecer favorável do Comitê de Ética

e Pesquisa do Hospital da Restauração (APÊNDICE A). Foram agendados, com os

sujeitos da pesquisa, o melhor dia e horário para realizar as entrevistas.

Durante a coleta dos dados, ocorreram algumas dificuldades decorrentes da

estrutura organizacional dos hospitais públicos do Estado. Devido à falta de

concurso público nos últimos oito anos, o déficit de enfermeiros é grande, o que

levou a Secretaria de Saúde a adotar o sistema de contratos por tempo determinado

para preenchimento dessas vagas. Com essa determinação, o número de

participantes da pesquisa foi reduzido, pois um centro cirúrgico com capacidade para

16 enfermeiros estava funcionando com apenas 12 enfermeiros, visto que quatro

desses enfermeiros ocupam dois cargos no mesmo setor. Além dessa situação, dois

enfermeiros estavam de licença médica, sem reposição, fazendo com que a outra

enfermeira cobrisse o horário; dois enfermeiros entraram de férias e seis não

aceitaram participar da pesquisa.

Após o preenchimento de todos os itens, marcava-se outro dia para realizar a

entrevista gravada. A entrevista era feita após a enfermeira ter respondido a todos

os itens da escala, que lhe foi entregue com antecedência.

Existia certa preocupação por parte dos sujeitos com relação aos resultados

da escala; as enfermeiras solicitavam uma avaliação imediata, pois relacionavam os

itens da escala a seu cotidiano, expressavam-se da seguinte forma “estou muito

estressada tudo que se tem nessa escala eu tenho” e ressaltavam a importância da

pesquisa para a vida das enfermeiras de centro cirúrgico.

Para realização da entrevista, solicitou-se que os participantes selecionassem

o melhor local, sendo escolhido o local de trabalho, com exceção de quatro

enfermeiras que preferiram realizar a entrevista fora do horário e em outro local. As

PERCURSO TEÓRICO - METODOLÓGICO

58

entrevistas realizadas no local de trabalho eram interrompidas várias vezes, pois as

enfermeiras eram chamadas a atender às solicitações do setor, mesmo estando em

área restrita. Por essa razão, as entrevistas que deveriam acontecer em um período

médio de 40 minutos duravam de duas a três horas.

4.7 Limitações do instrumento

Os sujeitos que participaram da pesquisa relataram dificuldades durante o

preenchimento do Inventário de Estresse para Enfermeiros, embora as sentenças

atribuídas na escala fossem inerentes ao seu cotidiano. As dificuldades estavam

relacionadas ao tempo e com o contexto das sentenças. Quanto ao tempo

informaram que o preenchimento tinha uma duração de 60 a 120 minutos para

respondê-lo, sendo longo e cansativo e quanto às sentenças estavam relacionadas

à multiplicidade de alternativas e com isto podendo suscitar conflitos.

Outra dificuldade relatada em relação ao instrumento é que existem questões

como as da subescala A3, que têm sentenças que para elas dizem respeito ao

docente como: ensinar o aluno e desenvolver pesquisa. Fato este que nos chamou atenção, pois os hospitais do estudo são utilizados como campo de prática para o

Curso de Graduação e de Residência em Enfermagem.

Vale ressaltar que as entrevistas realizadas no local de trabalho também

dificultavam a leitura e a compreensão das enfermeiras; porque muitas vezes elas

eram solicitadas para resolverem problemas, e quando voltavam não sabiam onde

tinham parado, tendo que reler o instrumento novamente.

PERCURSO TEÓRICO - METODOLÓGICO

59

4.8 Procedimentos de análise

Para a análise dos resultados do Inventário de Estresse em Enfermeiros,

desenvolvidos por Stacciarini (1999), utilizamos o tratamento estatístico descritivo,

observando-se as freqüências das respostas aos itens da escala para a elaboração

das tabelas.

No presente estudo, foram analisadas apenas as subescalas, Parte A. 3:

Fatores de Estresse para Profissional Enfermeiro, e Parte B. 1 – Como Você se

Sente em Relação ao seu Trabalho. Estas subescalas foram priorizadas tendo em

vista os objetivos do nosso estudo, pois analisamos os dados mais significativos.

Para a análise dos dados das entrevistas, que foram gravadas em fita cassete

e transcritas na íntegra, utilizou-se a análise temática ou categorial como interpreta

Bardin (1977). Para esta autora a análise temática é

transversal, isto é, recorta o conjunto das entrevistas através de uma

grelha de categorias projetadas sobre os conteúdos. Não se tem em

conta a dinâmica e a organização, mas a freqüência dos temas

extraídos do conjunto dos discursos, considerados como dados

segmentáveis e comparáveis (BARDIN, 1977, p. 175).

Para essa autora, o tema de uma unidade de significação é extraído de um

texto e analisado segundo critérios relativos à teoria que serve de guia. A análise

temática comporta um feixe de relações e pode ser graficamente apresentada, por

meio de uma palavra, uma frase, um resumo e consiste em descobrir os núcleos de

sentidos. A operacionalização da análise baseou-se nas etapas: Pré-análise que

corresponde à leitura flutuante do material coletado; Exploração do Material, diz

respeito à classificação e categorização das falas selecionadas e Tratamento dos

Resultados obtidos e interpretação que corresponde à inferência e interpretação

previstas no quadro teórico (RODRIGUES; LEOPARDI,1999).

PERCURSO TEÓRICO - METODOLÓGICO

60

Para a análise temática neste estudo, partimos dos dados empíricos das falas

dos sujeitos que, após identificação de núcleos de sentidos, foi possível ao

estabelecermos as seguintes categorias temáticas: Categoria Temática I - Prazer no

trabalho da enfermeira de centro cirúrgico; Categoria Temática II - Sofrimento no

trabalho da enfermeira de centro cirúrgico; Categoria Temática III - Relacionamento

da enfermeira de centro cirúrgico com o paciente, a equipe médica e a equipe de

enfermagem; Categoria Temática IV - Estratégias de enfrentamento do estresse

usadas pelas enfermeiras de centro cirúrgico.

Para a interpretação dos dados, utilizaram-se autores que pudessem

esclarecer a relação estresse/prazer e sofrimento e questões relacionadas ao

cotidiano das enfermeiras de centro cirúrgico. Entre os autores temos Dejours, Beck

e Seligmann-Silva, que discutem a linha temática do prazer e o sofrimento no

trabalho.

5. Resultados e Discussão dos Dados

RESULTADOS E DISCUSSÃO DOS DADOS

62

5. Resultados e discussão dos dados

5.1 Perfil sociodemográfico dos sujeitos

Para a apresentação do perfil sociodemográfico foi elaborado um quadro de

caracterização da amostra de enfermeiras de centro cirúrgico (Quadro 2), que

contempla nomes fictícios, idade, estado conjugal, faculdade [entendida como local

de formação e classificada por opção de vestibular (P.O.), turno de trabalho (T.T.),

número de empregos (N.E.), tempo de formada (T.F.), tempo de trabalho no hospital

(T.H.), tempo de trabalho no centro cirúrgico (T.C.C.) e o tempo estimado da

residência até o local de trabalho (T.E.), bem como curso de especialização (E.P.S.).

A amostra deste estudo foi composta por mulheres enfermeiras, na faixa

etária entre 32 e 57 anos e com tempo de trabalho no hospital (T.H.) entre 8 e 29

anos, conforme se observa no Quadro 2. O número de empregos (N.E.) variou de 1

a 3 vínculos empregatícios não só em hospitais públicos como também particulares;

em estabelecimentos de ensino e da rede básica de saúde. O tempo de trabalho no

centro cirúrgico (T.C.C.) variou de 1 a 24 anos. O tempo estimado da residência até

o local de trabalho (T.E.), que foi gasto deslocando-se, variou de 3 a 60 minutos. Isto

se deve ao fato de a maioria dos hospitais pesquisados localizarem-se em bairros de

fácil acesso.

Conforme se observa no Quadro 2 das enfermeiras participantes deste

estudo, 60% são casadas e possuem a terceira jornada de trabalho, sendo este

utilizado como estratégia de enfrentamento do estresse no trabalho, o que deixa

transparecer em seus discursos quando se referem e relatam a casa como sendo o

espaço de conforto.

RESULTADOS E DISCUSSÃO DOS DADOS

63

Quadro 2 - Caracterização da amostra de enfermeiras do centro cirúrgico

Tempo

NOMES Idade

Est.Conjugal

Faculdade P.O

T.T.

N.E.

E.P.S

T.F. T.H.

T.C.C

T.E.

01 – Rosa

54

divorciada

UFRGS

sim diurno

1

27 anos

27 anos 2 anos 45min

sim

10

02 – Angélica

47

casada

UFPE

sim diurno

2

22 anos

17 anos anos 30min

sim

18

03 – Flor-de-Coral

57

viúva

UFPE

sim diurno

2

29 anos

18 anos anos 40min

sim

04 – Acácia

42

casada

FENSG

não diurno

1

20 anos

20 anos 1 ano 30min

sim

24

05 – Orquídea

54

casada

FENSG

sim diurno

2

29 anos

29 anos anos 60min

sim

06 – Violeta

37

casada

FENSG

não diurno

2

14 anos

14 anos 2 anos 40min

sim

17

07 – Azaléia

49

casada

UFPE

não noturno

1

22 anos

18 anos anos 20min

não

08 – Tulipa

49

casada

FENSG

sim diurno

2

19 anos

13 anos 2 anos 10min

não

15

09 – Açucena

48

casada

UFPE

sim diurno

2

26 anos

25 anos anos 40min

sim

10 – Cravo de Amor

48

casada

FENSG

não diurno

1

25 anos

20 anos 4 anos 30min

sim

11 – Iridáceas

45

casada

FUNESO

não diurno

2

11 anos

10 anos 5 anos 50min

não

12 – Gérbera

43

casada

FENSG

não diurno

2

21 anos

20 anos 3 anos 40min

sim

13 – Crisântemo

53

solteira

FZLSP

sim diurno

1

18 anos

13 anos 6 anos 20min

sim

14 – Flor-de-Maio

38

casada

UFPE

sim diurno

2

14 anos

2 anos 2 anos 15min

não

15 – Girassol

43

casada

FENSG

não diurno

1

19 anos

7 anos 7 anos 5min

não

10

16 – Begônia

53

casada

UFPE

sim diurno

1

15 anos

15 anos anos 3min sim

14

17 - Flor-de-Cera

43

casada

FENSG

não noturno

3

18 anos

14 anos anos 60min

não

15

18 – Calla

37

solteira

UFPE

sim noturno

3

16 anos

15 anos anos 10min

sim

12

19 – Hortência

36

casada

FENSG

sim diurno

1

12 anos

12 anos anos 10min

sim

20 – Amor-Perfeito

43

solteira

FUNESO

sim diurno

2

8 anos

8 anos 8 anos 20min

não

15

21 – Lírio

50

solteira

FENSG

sim noturno

2

29 anos

15 anos anos 30min

sim

22 – Copo-de-Leite

32

casada

FENSG

sim noturno

2

8 anos

8 anos 2 anos 5min

sim

23 - Ramnácea

47

casada

UFPE

sim diurno

2

26 anos

15 anos 3 anos 30min

sim

24 – Cravo

40

solteira

UFPE

não noturno

2

18 anos

13 anos 6 anos 20min

não

14

25 – Girassol

42

solteira

FENSG

sim noturno

2

17 anos

14 anos anos 30min

não

14

26 – Boa-Noite

42

solteira

FENSG

sim noturno

2

17 anos

14 anos anos 40min

não

10

27 – Magnólia

53

solteira

UFPE

não diurno

2

26 anos

14 anos anos 60min

sim

10

28 - Flor-de-Quaresma

50

viúva

UFPE

sim

tarde

1

14 anos

14 anos anos 40min

não

10

29 – Ipê-Amarelo

53

solteira

UFPE

sim diurno

1

26 anos

14 anos anos 60min

sim

10

30 - Flor de Lis

45

casada

UFPE

sim

diurno

2

25 anos

24 anos anos 30min

sim

Fonte Ferreira, (1995).

LEGENDA

Est conjugal estado conjugal

P. O. – enfermagem foi a primeira opção do vestibular

T. T. – turno de trabalho

N. E. – número de empregos

T. F. – tempo de formada

T. H. – tempo de trabalho no hospital

T. C. C. – tempo de trabalho no centro cirúrgico

T. E. – tempo estimado da residência até o local de trabalho

E. P. S. curso de especialização

RESULTADOS E DISCUSSÃO DOS DADOS

64

As participantes deste estudo tiveram sua formação do Curso de Graduação

em Enfermagem nas Universidades Públicas (estadual e federal) o que corresponde

eqüitativamente a 13 (43,3%) das instituições estudadas perfazendo um total de 86,

6% respectivamente conforme Tabela 1. Até 1986 o Estado contou com dois cursos

de enfermagem ligados às Universidades Públicas. A faculdade particular da

Fundação de Ensino Superior de Olinda (FUNESO) denominada Escola de

Enfermagem Matias de Albuquerque Coelho, criada em 1 de fevereiro de 1986 tem

19 anos, enquanto a Faculdade e Enfermagem Nossa Senhora das Graças

(FENSG) da Universidade de Pernambuco (UPE), criada em 1 de agosto de 1945

tem 60 anos de existência sendo uma da mais antigas do Estado e a Faculdade do

Recife [atualmente Departamento de Enfermagem da Universidade Federal de

Pernambuco (UFPE)], criada em 1º de julho de 1950, tem 55 anos de existência.

Tabela 1 Distribuição das enfermeiras de centro cirúrgico em 7 hospitais públicos

segundo as instituições de ensino. Recife, PE 2004

Percentual

Instituições de Ensino

Freqüência

Percentual Acumulativo

Faculdade de Enfermagem Nossa

Senhora das Graças/UPE

13

43,3

43,3

Universidade Federal de Pernambuco

13

43,3

96,7

Faculdade Zona Leste São Paulo

1

3,3

53,3

Fundação Olindense de Ensino

2 6,7 50,0

Superior

Universidade Federal do Rio Grande

1 3,3

100,0

do Sul

Total 30

100,0

RESULTADOS E DISCUSSÃO DOS DADOS

65

Grande parte das enfermeiras deste estudo tem formação em nível de

especialização 19 (63,3%). E 11 (36,7%) possuem somente o título de graduação

em enfermagem o que representa a realidade da profissão no estado de

Pernambuco que tem poucos cursos de pós-graduação e não contempla curso de

mestrado e doutorado.

No Brasil, a região Nordeste sofre mais com esta situação, pois dos noves

Estados apenas quatro possuem curso de mestrado (PB, BA, RN, CE) na área de

enfermagem e apenas um doutorado (CE), obrigando as enfermeiras a se

deslocarem para estudar em outros Estados. Os cursos de mestrado e de doutorado

em Pernambuco são em áreas básicas o que obriga muitas profissionais a

concorrerem com outros profissionais da área, ou saírem do seu foco de atuação da

prática cotidiana para fazer a pós-graduação em outras áreas. Com relação aos

cursos de especialização, também acontece o mesmo; quando oferecidos, não têm

uma relação direta com a prática. Quando realizávamos a coleta dos dados, os

sujeitos indagaram várias vezes a respeito de quando teríamos um curso de

especialização para enfermeiras em centro cirúrgico, porque essa é uma

necessidade dessas enfermeiras; elas precisam de especialização na sua área de

atuação.

Tabela 2 – Distribuição das enfermeiras de centro cirúrgico em 7 hospitais

públicos segundo o turno de trabalho. Recife, PE 2004

Turno de Freqüência Percentual Percentual

trabalho

Acumulativo

Diurno

21 70,0 70,0

Noturno

8 26,7 96,7

Tarde

1 3,3

100,0

Total

30

100,0

RESULTADOS E DISCUSSÃO DOS DADOS

66

O turno de trabalho tem como preferência o diurno para 21 (70%) dos sujeitos

estudados, e 8 (21%) optaram pelo noturno representando a necessidade de

trabalharem em mais de um hospital, com escala de plantão fixa na semana (tabela

2). Em geral, a carga horária dos cinco hospitais públicos estaduais é de 24 horas

semanais divididas em dois plantões de 12 horas, facilitando assim a acumulação de

outro vínculo empregatício, durante o dia. O turno noturno é preferido, quando o

outro vínculo empregatício ocorre em Unidades da Rede Básica de Saúde ou no

Programa de Saúde da Família, onde toda a carga horária é diurna.

5.2 Estresse no trabalho da enfermeira do centro cirúrgico

As enfermeiras participantes deste estudo relataram que vivenciam o

estresse, e que ele tem um significado negativo, pois este está relacionado a fatores

intrínsecos ao trabalho em hospitais públicos.

Em seu estudo, Stacciarini (1999) diz que as categorias contidas no Inventário

de Estresse para Enfermeiros identificam fatores de estresses que são comuns para

os enfermeiros que atuam em hospital, independente do cargo e da área de sua

atuação. Parece que existe uma cultura profissional que transcende ao sujeito, ao

cargo que ele ocupa e à organização onde trabalha, provocando elementos

estressores inerentes à profissão.

Em nossa pesquisa, com enfermeiras de hospitais públicos, encontramos

respostas convergentes; a estrutura organizacional parece ser um fator de estresse

para as enfermeiras, independente de responderem pela chefia do setor ou não.

Costa e Lima (2003) consideram que o principal fator gerador de estresse no meio

RESULTADOS E DISCUSSÃO DOS DADOS

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