Estudos populacionais dos primatas em duas florestas nacionais do oeste do Pará, Brasil por Pérsio Scavone de Andrade - Versão HTML

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Universidade de São Paulo

Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz”

Estudos populacionais dos primatas em duas florestas nacionais do oeste do Pará, Brasil

Pérsio Scavone de Andrade

Tese apresentada para a obtenção do título de Doutor em Recursos

Florestais, com opção em Conservação de Ecossistemas Florestais

Piracicaba

2007

Pérsio Scavone de Andrade

Ecólogo

Estudos populacionais dos primatas em duas florestas nacionais do oeste do

Pará, Brasil

Orientador:

Prof. Dr. HILTON THADEU ZARATE DO COUTO

Tese apresentada para a obtenção do título de Doutor em Recursos

Florestais, com opção em Conservação de Ecossistemas Florestais

Piracicaba

2007

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

DIVISÃO DE BIBLIOTECA E DOCUMENTAÇÃO - ESALQ/USP

Andrade, Pérsio Scavone de

Estudos populacionais dos primatas em duas florestas nacionais do Oeste do

Pará, Brasil / Pérsio Scavone de Andrade. - - Piracicaba, 2007.

352 p. : il.

Tese (Doutorado) - - Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, 2007.

Bibliografia.

1. Amazônia 2. Densidade populacional 3. Ecologia animal 4. Florestas

nacionais – Pará 5. Primatas I. Título

CDD 599.8

“Permitida a cópia total ou parcial deste documento, desde que citada a fonte – O autor”

3

OUTRORA e AGORA

Em dias mais jovens, de manhã eu ria,

De

tarde

chorava;

agora

mais

velho,

Começo meus dias em dúvidas, porém

Sagrado e sereno me é o seu final

Hölderlin

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4

Os gigantes Paraná mendigando a beira da BR-163

A memória dos krenakarore

Os gigantes Paraná, cujo território tradicional foi rasgado pela BR-163. Quem primeiro explorou e

descreveu o local onde viviam - uma floresta fechada na bacia do Peixoto de Azevedo - foi o próprio

Antônio Peixoto de Azevedo, explorador que avistou, ao descer o rio Tele Pires até o Tapajós, em 1819, uma concentração de grandes toras de madeiras às margens dos rios. Eram os Paraná, que não usavam

canoas como meio de locomoção e desconheciam a técnica para construí-las. Em 1967 viram pela

primeira vez um homem branco. Foram necessários mais cinco anos, para que finalmente, em 1973 os

irmãos Villas-Bôas conseguissem fazer contato com os Paraná. Cujo hábito de montar e desmontar aldeias traduzia a firme determinação de sempre fugir dos brancos. Conheceram a “pacificação”, novas doenças, a prostituição, a morte de 90% da população e quase o extermínio. Transferidos para o Parque do Xingu, viveram lá por 20 anos, exilados, sete mudanças de aldeia, mas mantiveram o sonho de, um dia, voltar

para casa. Em 1991, seis homens Paraná voltam ao Rio Peixoto de Azevedo pela primeira vez depois do

contato em 1973, e constatam: “os brancos comeram nossa terra”. Em 1995, os Paraná consolidam a

reocupação com a mudança definitiva de 50 pessoas para a nova aldeia no Rio Iriri (PA)

Fonte: Povos Indígenas do Brasil, ISA, (1996).

5

AGRADECIMENTOS

A Hilton Thadeu Zarate do Couto de quem tive o privilégio de ser orientado. Pela amizade

construída ao longo de anos, na sala de aula como aluno, monitor ou assistente de campo nas

excursões de sua disciplina “Inventário Florestal”. Pelo incentivo durante todo o processo de

construção deste estudo, pelos vários livros presenteados e pelo empréstimo da sua sala. Pela

paciência em rodar o SAS dezenas de vezes. Por ter encontrado tempo para nossas profícuas

discussões. Por suportar, com bom humor, minhas digressões primatológicas. Pela humildade em

dizer, “Pérsio estou aprendendo primatologia com você!” e me fazer sentir tão importante. Enfim,

por sua cumplicidade.

João Luis F. Batista, pelo incentivo e participação no exame de qualificação.

A Eleonore Setz, minha professora durante a graduação (Ecologia, Unesp - Rio Claro), que me proporcionou a primeira oportunidade de conhecer a Floresta Amazônia como objeto de estudo,

me aceitando como seu estagiário no “Projeto Dinâmica Biológica de Fragmentos Florestais”

(AM). Onde ela me apresentou ao fascinante mundo dos primatas, dando-me a oportunidade de

ingressar na carreira científica.

A Paulo Vanzolini, meu professor durante o mestrado (Psicologia Experimental, USP), que

sugeriu o doutorado com primatas na região do Tapajós. Pelas serpentes atropeladas e estropiadas

que lhe envio e ele consegue com a ajuda prestimosa da Dra. Carolina Castro Mello, transformar

aquilo em ciência. Mas pensando bem, para quem conseguiu estimar a duração da desova de uma

tartaruga amazônica, durante um banho de igarapé, usando apenas os batimentos cardíacos, deve

ser fácil. Exemplo, aliás, que uso para ilustrar minhas aulas e dizer aos candidatos a zoólogo que

quando se é cientista, se é até debaixo d’agua. Por influência dele, também não acredito ser

possível fazer zoologia de qualidade, sem sujar as pontas dos dedos. Pelos vários livros

presenteados, que tanto me incentivariam, nos momentos de relaxamento durante o trabalho de

campo. Pelo seu amor a Amazônia, tão bem representado no filme de André Dias, “No País das

Amazonas”. Por ter orientado Márcio Ayres, que tão cedo foi percorrer outras trilhas. Pelo

exemplo de humildade em responder, quando indagado sobre sua versatilidade intelectual, de

cientista, médico e músico, “gênio é o Chico, que com 18 anos fez uma música irretocável, Pedro

Pedreiro”; e que o “maior zoólogo brasileiro foi Alípio de Mirando Ribeiro”.

A Jefferson Polizel, mestre e técnico de informática do LMQ pelas inúmeras interrupções do seu trabalho cotidiano para me ajudar. E principalmente pela digitalização dos mapas da distribuição

dos primatas, transformando meus toscos desenhos pintados à lápis de cor, em mapas

normalizados e de cores uniformes. Pela sua maneira alegre e prestativa de administrar o LMQ.

A Gilmar Klein, analista ambiental do Ibama na Floresta Nacional de Saracá-Taquera, pela

alegria dos momentos compartilhados na base de Patauá durante a coleta de dados, pelas

fotografias gentilmente cedidas e pelas sugestões de alguns lugares “quentes” para observar

primatas.

Ao departamento de Ciências Florestais por aceitar um mestre em psicologia experiemtal entre

agrônomos e engenheiros florestais.

6

Aos professores: Arno Engelman, Athail Pulino, Edson Vidal, Emma Otta, Fabio Poggiani,

Miguel Petrere, Paulo A. L. Machado, Paula Monteiro, Paulo Oliveira, Silvia Molina, Renate

Viertler, Takeschi Sato e Weber Amaral.

Além desses, existe inúmeros pessoas que fui encontrando por esta peregrinação amazônica,

iniciada em 1992, como professor na FEJARI (Monte Dourado), que de alguma forma me

ajudaram, às vezes com uma simples, mas preciosa informação ou o empréstimo de uma

bibliografia. Os conheci durante os anos que morei em Santarém e trabalhei como professor da

UFPA, ou como membro do Grupo Gestor da Flona do Tapajós. Desculpo-me, à priori, porque

não me lembrarei de todos. Ângelo de Lima Francisco, Antônio Carlos Hummel, Daniel

Cohenca, Domingos Rodrigues, Edna Alencar, Evandro Soares da Silva, Giovanna Palazzi,

Graça Pires, Hygnens Fonseca, Sebastião Santos da Silva, Selma Melgaço, Paulo Meier Souza,

Walmir Gomes, Alaor Moacir Dallàntonia Jr. (INMET) e Viviane Araújo.

As Bibliotecária(o)s: Beatriz Giongo, Gláucia Criatianini, Márcia Saad, Silvio Bachetta, Vilma

Zeferino. Lidia (Edusp). A Secretaria da pós-graduação: Margarete Pinese, Catarina Germuts,

Marcelo da Silva, Evandro Amatrice, Raquel Schiavinatto e Rogério Naressi.

Aos colegas da pós-graduação: Abílio Filho, Acásio Leite, Aline Angeli, Ana Marrici, Ana

Schiling, André Ravetta, Carla Câmara, Carlos Bravo, Carolina Esteves, Daniela Medeiros,

Denise Návia, Edgar Vismara, Eliza Takashiba, Francisco Rollo, Lauro Rodrigues Jr., Lílian

Pinto, Lizie Lazo, Luiz Faria, Maurício Gorenstein, Milton Krieger, Mariana Andreatta, Mirrian

Falótico, Melissa Oda, Otávio Campõe, Rodrigo Banhara e Silvia Kataoka.

A enfermeira: Angélica Rodini (Esalq).

A minha mãe, irmãos (Marcelo Scavone de Andrade e Percival Scavone de Andrade) e primas.

Á CAPES

7

SUMÁRIO

RESUMO ............................................................................................................................. 10

ABSTRACT .......................................................................................................................... 11

LISTA DE SIGLAS ............................................................................................................. 12

1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................. 16

1.1 O problema teórico ........................................................................................................ 17

1.2 Objetivos e hipóteses de trabalho ................................................................................... 21

1.3 Importância dos levantamentos e justificativa ............................................................... 21

1.4 A importância do cálculo da densidade .......................................................................... 22

1.5 O conceito de população................................................................................................. 23

1.6 Densidade populacional e definições pertinentes........................................................... 24

1.7 A distribuição dos organismos no espaço ...................................................................... 28

1.8 A distribuição dos organismos no tempo ....................................................................... 29

1.9 A exploração do hábitat e seus reflexos na densidade populacional.............................. 30

1.10 Comportamento reprodutivo e densidade populacional .............................................. 37

1.11 A falácia do controle populacional com base no altruísmo.......................................... 38

1.12 Explosões populacionais ............................................................................................. 39

1.13 Os problemas práticos dos estudos observacionais por meio da análise de figuras ..... 41

2 DESENVOLVIMENTO.................................................................................................... 52

2.1 Amazônia: radiografia de uma região superlativa.......................................................... 52

2.2 Características gerais dos primatas e uma classificação mínima .................................. 58

2.3 Custos e benefícios da vida social dos primatas............................................................. 66

2.4 A primatologia de campo ............................................................................................... 67

2.5 Comunidades de primatas em diferentes biomas não-amazonicos ................................ 68

2.6 Os primeiros estudos com primatas amazônicos............................................................ 70

2.7 Estudos recentes com primatas amazônicos................................................................... 70

2.8 As comunidades de primatas da Amazônia.................................................................... 73

2.9 Competição por exploração: distribuição livre ideal..................................................... 77

2.10 Competição por meio de defesa dos recursos: a distribuição despótica....................... 78

2.11 O Estado do Pará .......................................................................................................... 80

2.12 Floresta Nacional (flonas) ............................................................................................. 82

8

2.13 Os habitantes da Floresta Nacional do Tapajós............................................................82

2.14 Os habitantes da Floresta Nacional de Saracá-Taquera ...............................................89

2.15 Caracterização geral das áreas de estudo......................................................................89

2.16 A vegetação da Floresta Nacional do Tapajós..............................................................94

2.16.1 Sub-região dos altos platôs dos Rios Xingu-Tapajós ................................................95

2.17 Status de conservação da flora na FNT ........................................................................95

2.18 Pesquisas zoológicas na FNT .......................................................................................97

2.19 Status de conservação da fauna no estado do Pará.......................................................97

2.20 O clima da Floresta Nacional do Tapajós.....................................................................99

2.21 Os platôs da Floresta Nacional de Saracá-Taquera .......................................................99

2.21.1 Topo de Platôs ..........................................................................................................100

2.21.2 Terras baixas..............................................................................................................100

2.22 O clima da Floresta Nacional de Saracá-Taquera ........................................................102

2.23 Temperatura, precipitação e umidade relativa nas duas flonas ....................................103

2.24 Os primatas das duas áreas de estudo...........................................................................109

2.25 Aspectos gerais de dois gêneros de calitriquídeos: Callithrix e Saguinus ......................... 112

2.26 Callithrix argentata (Linnaeus, 1771)...........................................................................116

2.27 Saguinus bicolor martinsi (Thomas, 1912) ..................................................................119

2.28 C allicebus moloch (Hoffmannsegg, 1807)...................................................................124

2.29 Saimiri ustus (I. Geoffroy, 1944) ................................................................................126

2.30 Cebus apella apella (Linnaeus, 1758).........................................................................128

2.31 Pithecia pithecia chrysocephala (I.Geoffroy, 1850)...................................................134

2.32 Chiropotes albinasus (I. Geoffroy e DEville, 1948) e Chiropotes satanas

(Humboldt, 1811) ........................................................................................................137

2.33 Alouatta discolor (Spix, 1823) e Alouatta seniculus (Humboldt, 1812)....................142

2.34 Ateles marginatus (E. Geooffroy, 1812) e Ateles paniscus (Linneaus, 1758)............152

2.35 Grupos mistos de primatas nas duas flonas..................................................................158

2.36 A caça e a captura para animais de estimação..............................................................158

3 MATERIAL E MÉTODOS..............................................................................................165

3.1 Três Características deste estudo....................................................................................165

3.2 Métodos ..........................................................................................................................167

9

3.3 Pressuposições para a utilização do MTL ......................................................................171

3.4 O problema da largura do trajeto....................................................................................171

3.5 Número de repetições em cada trilha .............................................................................174

3.6 O protocolo.....................................................................................................................176

3.7 Sobre a coleta de dados e alguns aparelhos....................................................................177

3.8 Os testes estatísticos utilizados.......................................................................................182

3.9 O teste G .........................................................................................................................184

3.10 O inventário florestal (IV) e o método do ponto quadrante (MPQ) .............................185

4 RESULTADOS .................................................................................................................190

4.1 Introdução ......................................................................................................................190

4.2 Comparando as duas flonas entre si ...............................................................................191

4.2.1 Aspectos populacionais (número de indivíduos).........................................................195

4.2.2 Densidade populacional...............................................................................................197

4.3.1 Tamanho dos subgrupos durante as quatro atividades estudadas................................215

4.3.2 Tamanho comparativo dos grupos de primatas da comunidade de Trombetas

no baixio e no platô....................................................................................................216

4.3.3 Tamanho dos grupos de primatas da comunidade do Tapajós no hábitat mais

preservado (km 117) e nos menos preservados (km 83 e 67)....................................217

4.4.1 Altura...........................................................................................................................218

4.4.2 Altura de detecção comparativa dos primatas nas duas comunidades ........................219

4.4.3 Altura de detecção comparativa dos primatas da comunidade do Trombetas

no baixio e no platô....................................................................................................220

4.4.4 Altura de detecção comparativa dos primatas da comunidade do Tapajós

nos dois hábitats ........................................................................................................221

4.5.1 Distância de deteçcao comparativa por espécies nas duas comunidades ....................222

4.5.2 Distância perpendicular comparativa por espécies nas duas comunidades.................224

4.6 Comparaçao por meio da ANOVA, das trilhas, das espécie nas trilhas, das

atividade e das trilhas + as atividade, em relação as variáveis dependentesna FNS-T . .226

4.7 Comparaçao por meio da ANOVA, do baixio e do platô para espécie e atividade

em relação as variáveis dependentes .............................................................................227

10

4.8 Teste de comparação de frequência e proporção (teste G) para pares de espécies de cada

uma das duas comunidades, em relação as atividades (alimentação, descanso, pernoite,

e viagem) ........................................................................................................................228

4.9 Teste de comparação de frequência e proporção (teste G) do desempenho por

espécie dentro da sua respectiva comunidade em relação as quatro atividades .............236

4.10 Comparação suscinta das duas florestas.......................................................................237

DISCUSSÃO.........................................................................................................................239

5.1 As comunidades de primatas e suas respectivas florestas diferiram entre si..................239

5.2 Estudos autoecológicos x sinecológicos.........................................................................242

5.3 A separação de nicho, exemplificando com a variável dependente altura .....................242

5.4.1 A comunidade de primatas: uma análise com base nas espécies

congêneres (de flonas diferentes) ...............................................................................243

5.4.2 Os guaribas: Alouatta discolor do Tapajós e Alouatta seniculus do Trombetas .........245

5.4.3 Os macacos-aranhas: Ateles marginatus no Tapajós e Ateles paniscus no

Trombetas ..................................................................................................................247

5.4.4 Os cuxiús: Chiropotes albinasus do Tapajós e Chiropotes satanas do Trombetas ....249

5.5 O macaco-prego: Cebus apella, a mesma espécie nas duas flonas ................................251

5.6 Os primatas sem espécie congêneres..............................................................................253

5.6.1 O parauacu: Pithecia pithecia do Trombetas ..............................................................253

5.6.2 Saimiri ustus: o mico-de-cheiro do Tapajós................................................................255

5.6.3 Callicebus moloch: o sauá do Tapajós ........................................................................257

5.7 Comparação entre os dois sagüis: Callithrix argentata, do Tapajós e o Saguinus

martinsi do Trombetas.................................................................................................. 259

5.8 O significado ecológico do tamanho corporal................................................................260

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................................263

REFERÊNCIAS ....................................................................................................................266

APÊNDICE ...........................................................................................................................328

11

RESUMO

Estudos populacionais dos primatas em duas florestas nacionais no oeste do Pará, Brasil

As pessoas do senso comum repetem os equívocos dos primeiros exploradores europeus quanto ao

número de animais visíveis na Amazônia. Induzidas no passado pela grandeza do próprio bioma e

incertezas do que existia além das matas ciliares, ou modernamente por programas televisivos,

pressupõem a existência de grandes concentrações de animais selvagens neste bioma, semelhantes às

encontradas nas planícies africanas ou no pantanal mato-grossense. No entanto, reza à lenda, que a

Amazônia é ciumenta com seus bichos. Vê-los exige sacrifício e paciência do pesquisador. No presente

estudo foi necessário percorrer 1.600 km, distribuídos em 17 meses entre 2005 e 2006, oitocentos

quilômetros na Floresta Nacional do Tapajós (FNT) e 800 km na Floresta Nacional de Saracá-Taquera

(FNS-T), ambas no estado do Pará (Brasil), para reunir detecções sobre os primatas nelas contidas que permitissem um robusto tratamento estatístico. Mesmo assim, para algumas espécies naturalmente raras, como por exemplo, Pithecia p. chrysocephala da região do Rio Trombetas, ou Ateles marginatus na região do Rio Tapajós, a freqüência de detecção ao redor de 10, para ambas as espécies, foi muito baixa para permitir inferências seguras. Considerando 40 detecções como o ideal, seria necessário então

quadruplicar o esforço amostral, o que por limitações de tempo e recursos é inviável. Outras espécies descritas e observadas por residentes na região do Rio Trombetas, como Saguinus midas e Saimiri sciureus, sequer foram detectadas na floresta de terra firme. Provavelmente não suportando a competição com os primatas simpátricos do interior das florestas intactas foram compelidas a ocuparem e

especializarem-se na exploração de florestas periféricas, onde seus alimentos preferidos, os insetos e frutos menores são mais abundantes. Por meio do programa SAS, foi calculado a ANOVA para testar a

hipótese nula, de que não existiam diferenças populacionais entre as duas comunidades de primatas, uma vez que ambas ocorrem dentro de um mesmo bioma: floresta de terra firme do oeste da Amazônia e não

estão a mais de 240 km uma da outra. Esta hipótese foi rejeitada em favor da hipótese alternativa de que as comunidades diferem entre si. Os 397 grupos de primatas detectados foram desigualmente distribuídos

(130 x 267 em favor da FNS-T). Ou dito de outra forma: 1 grupo detectado a cada 6 km de caminhada no

Tapajós contra 1 grupo detectado a cada 3 km no Trombetas. Os testes de Tukey e G de Sokal e Hohlf

foram importantes auxiliares para facilitar o entendimento de como as duas comunidades de primatas

diferiram, respondiam e se adaptavam a estrutura das respectivas florestas. Das 200 árvores amostradas em cada uma das flonas, a FNS-T apresentou 92 espécies diferentes, contra 74 na FNT. Assim o índice de Shannon e Wiener foi mais alto na região do Rio Trombetas do que na do Rio Tapajós (6,17 x 5,74

respectivamente). A cobertura do dossel também foi maior na região do Rio Trombetas quando

comparado com a do Rio Tapajós (96% na FNS-T contra 88% na FNT). Estes dois índices reforçam-se

mutuamente e sua interpretação sugere que a FNT vem sofrendo maiores perturbações do que a FNS-T.

Considerando a colonização mais antiga e maior da população de entorno da Cuiabá-Santarém (BR-163) e

o maior número de residentes dentro da FNT (10.500 pessoas), do que dentro da FNS-T (2.500 pessoas), é provável que o número tão discrepante de grupos de primatas em favor da FNS-T, reflita a maior pressão antrópica sofrida pela comunidade de primatas do Rio Tapajós. Interpretamos que as diferenças antrópicas entre as flonas (embora um epifenômeno), foram mais importantes na discrepante abundância de primatas do que as especificidades locais (na estrutura da floresta e oferta de recursos alimentares). (Figura 94, apêndice).

Palavras-chave: Amazônia; Pará; Floresta Nacional do Tapajós; Floresta Nacional de Saracá-Taquera;

Comunidade de primatas; Densidade populacional; Ecologia animal; Pressão antrópica.

12

ABSTRACT

Population study of primates in two national forests in western State of Pará, Brazil

Common sense people have repeated the mistakes of early European explorers as to the

number of observable animals in the Amazon region. In the past based, on the greatness of the

biome itself and uncertainties as to what existed beyond the riparian forests, or nowadays,

through television shows, they assume the existence of great concentrations of wild animals in

such biome, likewise those found in African plains or in the Mato Grosso pantanal. However,

the Amazon region is said to be ‘jealous’ about its animals. Observing them requires the

researcher’s sacrifice and patience. At this study, one had to traverse 1,600 km in 17 months

between 2005 and 2006, eight hundred kilometers within the Tapajós National Forest (FNT) and

800 km within the Saracá-Taquera National Forest (FNS-T), both in the state of Pará (Brazil), to

gather detections of the primates therein allowing a solid statistical treatment. Even so, for some

naturally rare species, such as Pithecia p. chrysocephala of the Trombetas river region, or Ateles

marginatus, at the Tapajós river region, the frequency of detection nearing 10 for both species

was too low for accurate inferences. Considering 40 detections as the ideal number, the sampling

effort would be four-fold, which is not viable due to time and resource limitations. Other species

described and observed for the Trombetas river region, as Saguinus midas and Saimiri sciureus,

were not even detected at the upland forest. Probably succumbing to the competition with

sympatric primates of inner intact forests, they were compelled to occupying and specializing in

exploring peripheral forests, where their favorite foods – insects and small fruit – are abundant.

By means of SAS software, the ANOVA was calculated to test the null hypothesis, that there

were no population differences between both primate communities, since both occur within the

same biome – upland forest of western Amazon and are no more than 240 km apart. This

hypothesis was rejected in favor of an alternative hypothesis that the communities differ from one

another. The 397 primate groups detected were unequally distributed (130 x 267 favoring the

FNS-T). In other words, 1 group detected every 6 km of trekking at the Tapajós region versus 1

group detected every 3 km at the Trombetas region. The Tukey’s test and G-test of Sokal and

Hohlf were important tools in facilitating the understanding of how the two primate communities

differed, responded and adapted to the structure of the respective forests. Out of 200 trees

sampled in each forest, the FNS-T presented 92 different species, versus 74 at the FNT. This

way, the Shannon-Wiener index was higher at the Trobetas river region than at the Tapajós river

region (6.17 x 5.74 respectively). Also the canopy was higher at the Trombetas river region in

comparison with that of the Tapajós river region (96% at the FNS-T versus 88% at the FNT).

Both indexes are mutually reinforced, suggesting that the FNT has undergone more disturbances

than the FNS-T. Considering the older and larger colonization of the population neighboring the

Cuiabá-Santarém highway (BR-163) and the larger number of residents within the FNT (10,500

people), than within the FNS-T (2,500 people), such discrepant number of primate groups in the

FNS-T is likely to reflect the higher anthropic pressure suffered by the primate community of the

Tapajós river region. The anthropic differences between the forests, although an epiphenomenon,

are interpreted as more important at the discrepant abundance of primates than the local

specificities (on the forest structures and food resource supply).

Keywords: Amazon, Tapajós national forest, Saracá-Taquera national forest, Primate community,

Population density, Animal ecology, Anthropic pressure.

13

LISTA DAS SIGLAS

AIMEX = Associação das Indústrias Exportadoras de Madeira do Estado do Pará.

ACTH = Hormônio produzido pelo lobo anterior da hipófise, que atua sobre o córtex das supra-

renais, estimulando-as nas suas função endócrina de produção dos corticosteróides.

Estes últimos atingindo certa concentração no sangue circulante, bloqueiam, por

mecanismos de feedback negativo, a produção de ACTH hipofisário. Destarte, os níveis

de ACTH e de corticosteróides na circulação se mantêm dentro dos padrões normais

(SOARES, 1993).

ANOVA = Análise de variância

APA = Área de Proteção Ambiental

BNDS = Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social

BR- 163 = Cuiabá-Santarém, rodovia federal que atravessa dois estados, MT e PA; a FNT

localiza-se a sua margem