Eu Mato por Giorgio Faletti - Versão HTML

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© 2002 Baldini & Castoldi

© 2003 Baldini Castoldi Dalai editore

TÍTULO ORIGINAL

Io Uccido

CAPA

Mara Scanavino

ADAPTAÇÃO DE CAPA

Julio Moreira

PREPARAÇÃO

Fátima Barbosa

REVISÃO

Ana Julia Cury

Julio Bernardo Ludemir

REVISÃO DE EPUB

Danilo Crespo

GERAÇÃO DE EPUB

Simplíssimo

E-ISBN

978-85-8057-040-3

Edição digital: 2012

Todos os direitos desta edição reservados à

EDITORA INTRÍNSECA LTDA.

Rua Marquês de São Vicente, 99, 3º andar

22451-041 – Gávea

Rio de Janeiro – RJ

Tel./Fax: (21) 3206-7400

www.intrinseca.com.br

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A Davide e Margherita

Pela estrada segue

a morte, coroada

de murchas flores de laranjeira.

Canta e canta

uma canção

em sua branca guitarra

e canta e canta e canta.

FEDERICO GARCÍA LORCA

PRIMEIRO CARNAVAL

O HOMEM É UM E NENHUM.

Há anos, carrega a cara grudada na cabeça e a sombra presa aos pés e ainda não conseguiu

descobrir qual das duas pesa mais. Algumas vezes, experimenta o impulso irrefreável de

arrancá-las, pendurar num prego qualquer e ficar ali, sentado no chão, como uma marionete cujos

fios uma mão caridosa se encarregou de cortar.

Às vezes o cansaço apaga tudo, inclusive a possibilidade de entender que o único modo válido

de seguir a razão é partir numa corrida desenfreada pelo caminho da loucura. A seu redor, tudo é

uma sequência contínua de caras e sombras e vozes, pessoas que não se questionam de modo

algum, que aceitam passivamente uma vida sem respostas para o tédio ou a dor da viagem,

contentando-se em mandar alguns estúpidos cartões-postais de vez em quando.

Onde ele está há música, há corpos que se movem, bocas que sorriem, trocas de palavras. Ele

está entre eles, um a mais, pela curiosidade de saber quem conseguirá, dia após dia, ver desbotar

mais essa fotografia.

O homem se apoia a uma coluna e pensa que são todos inúteis.

Diante dele, do outro lado da sala, uma na frente da outra numa mesa próxima da enorme

vidraça que dá para o jardim, estão sentadas duas pessoas: um homem e uma mulher.

À meia-luz, ela é diáfana e doce como a melancolia, tem cabelos negros e os olhos são verdes,

tão luminosos e grandes que dá para ver dali. Ele só tem olhos para a sua beleza e fala a seu

ouvido, para se fazer ouvir acima do barulho da música. Estão de mãos dadas e ela ri às palavras

do companheiro, jogando a cabeça para trás ou escondendo o rosto na concavidade de seu

ombro.

Há pouco ela se virou, talvez atraída de alguma maneira pelo fixo olhar do homem apoiado a

uma coluna, talvez à procura da origem de um mal-estar distante. Seus olhos se cruzaram, mas os

dela passaram indiferentes sobre seu rosto, como sobre o resto do mundo que a cercava. Voltou a

oferecer o milagre daquele olhar ao homem que está com ela e que lhe devolve o mesmo olhar,

impermeável a qualquer mensagem externa à sua presença.

São jovens, belos, felizes.

O homem apoiado a uma coluna pensa que logo estarão mortos.

1

JEAN-LOUP VERDIER APERTOU O BOTÃO do controle remoto, mas só ligou o motor quando a porta

automática estava meio aberta, para não respirar monóxido de carbono no espaço fechado da

garagem. A luz dos faróis deixou lentamente a porta de metal que subia para perfurar a tela negra

da escuridão à sua frente. Colocou a alavanca do câmbio automático na posição e, quando a porta

abriu completamente, apertou o acelerador e guiou a Mercedes SLK para fora. Acionou o

fechamento apontando o controle com o braço erguido na altura da cabeça e, enquanto esperava o

clang da porta se fechando, ficou olhando o panorama que se abria diante do pátio de sua casa.

Montecarlo era um leito de cimento sobre o mar. Sob seus olhos, a cidade quase não tinha

forma, envolta na leve névoa de vapor que refletia as luzes acesas da noite. Um pouco abaixo

dele, já em território francês, os campos iluminados do Country Club, onde provavelmente

alguma estrela do tênis internacional estava treinando, ao lado do dedo levantado do Parc Saint-

Roman, um dos arranha-céus mais altos da cidade. Mais abaixo, na direção de Cap d’Ail, sob o

bastião da cidade velha, adivinhava-se o bairro de Fontvieille, arrancado da água metro a metro,

palmo a palmo.

Acendeu um cigarro ao mesmo tempo que ligou o rádio, já sintonizado na Rádio Monte Carlo.

Enquanto conduzia o carro pela rampa que levava à rua, comandou a abertura do portão com o

controle. Virou à esquerda e desceu lentamente para a cidade, desfrutando o ar já quente do fim

de maio.

“Pride”, uma canção do U2, saía do rádio, seu ritmo inconfundível de guitarra ao fundo.

Stefania Vassallo, a DJ que comandava as transmissões da Rádio Monte Carlo naquele horário,

tinha uma autêntica paixão por “The Edge”, o guitarrista da banda irlandesa. Não perdia uma

ocasião de encaixar alguma coisa deles na programação. Na rádio, ela foi alvo de piadas durante

vários meses por causa do ar sonhador que exibiu, como se fosse uma maquiagem, quando

finalmente conseguiu uma entrevista com os ídolos.

Enquanto a estrada cheia de curvas que leva até o centro descia de Beausoleil, começou a

marcar o ritmo com o pé esquerdo alternando com um movimento da mão direita sobre o volante,

acompanhando Bono, que contava com sua voz rouca e cheia de melancolia a história de um

homem que veio in the name of love.

Havia uma antecipação do verão no ar, com aquele perfume particular que só as cidades

litorâneas têm. Cheiro de maresia, pinheiros, alecrim e, na verdade, de nada. Promessas e

apostas. Não cumpridas as primeiras, perdidas as segundas.

O mar, os pinheiros, o alecrim e as flores de verão ainda estariam ali por muito, muito tempo

depois dele e de todos os que, como ele, se debatiam naquele lugar e em outros lugares como

aquele.

Mesmo assim, dirigia o carro com a capota abaixada, o vento balançando seus cabelos, sem

sentir frio, ele também com suas boas promessas no coração e suas boas apostas na vida.

Havia coisa muito pior neste mundo.

Apesar da hora, estava sozinho na rua.

Pegou a ponta do cigarro entre o polegar e o médio e deu um peteleco para cima, seguindo no

retrovisor sua parábola luminosa. A última baforada perdeu-se no mesmo vento.

Chegou ao fim da descida e ficou um instante indeciso sobre que rua tomar para chegar à

marina. Enquanto percorria o trevo, optou por um giro pelo centro e pegou o Boulevard d’Italie.

Os turistas começavam a encher o Principado. O período do Grande Prêmio de Fórmula 1,

recém-encerrado, servia como um sinal do início do verão monegasco. Daí em diante, os dias, as

tardes e as noites da costa se transformariam num vaivém de atores e espectadores. De um lado,

limusines com motorista e gente com ar esnobe e entediado. Do outro, modelos econômicos com

gente suada e deslumbrada. Exatamente iguais aos que estavam em pé agora, diante das vitrines,

com o reflexo das luzes nos olhos. Havia seguramente alguém se perguntando como arrumar

tempo para comprar aquela jaqueta, enquanto um outro se perguntava como arrumar o dinheiro.

Eram o branco e o preto, duas categorias extremas, em meio às quais se estendia uma série

impressionante de nuances de cinza. Muitos vivendo com o único objetivo de jogar fumaça nos

próprios olhos, outros tentando afastá-la.

Jean-Loup pensou que as prioridades da vida eram, afinal, bastante simples e repetitivas, e em

poucos lugares do mundo era possível quantificá-las melhor do que naquele. A caça ao dinheiro

em primeiro lugar. Alguns têm e todos os outros desejam ter. Simples. Um lugar-comum só se

torna comum graças à dose de verdade que contém. Talvez o dinheiro não trouxesse felicidade,

mas enquanto a felicidade não vinha, era uma bela maneira de passar o tempo.

Era o que todos pensavam.

O celular no bolso da camisa começou a tocar. Ele o pegou e respondeu sem verificar na tela o

nome de quem ligava, pois sabia muito bem quem era. A voz de Laurent Bedon, diretor e redator

d e Voices, o programa que Jean-Loup apresentava toda noite na Rádio Monte Carlo, chegou

misturada ao murmúrio do vento no microfone do celular.

— Está pensando em nos dar a honra de sua presença ou teremos que nos virar sem nossa

estrela?

— Oi, Laurent. Estou chegando, já estou a caminho.

— Ótimo. Sabe que quando um DJ não está na rádio pelo menos meia hora antes da

transmissão, o marca-passo de Robert entra em parafuso. Ele já está botando fumaça pelas

ventas.

— Fumaça pelas ventas? A do cigarro não basta?

— Parece que não.

Nesse meio-tempo, o Boulevard d’Italie tinha se transformado em Boulevard des Moulins. As

vitrines iluminadas dos dois lados da rua estavam escancaradas sobre um mar de promessas,

como os olhos convidativos de prostitutas de luxo. Assim como no caso destas, um pouco de

dinheiro era suficiente para obtê-las…

A leve interferência da eletrônica do celular em conflito com o rádio do carro começou a

perturbá-los. Jean-Loup trocou o telefone para a outra orelha e o barulho sumiu. Como se fosse

um sinal entre eles, Laurent mudou de tom.

— Brincadeiras à parte, dá uma acelerada. Tive algumas…

— Espere um instante. Polícia — interrompeu Jean-Loup.

Abaixou a mão rapidamente e compôs sua melhor cara de pau. Estava no sinal, no cruzamento

da Avenue de la Madone, e tinha parado na faixa da esquerda à espera do sinal verde. Um

policial uniformizado estava em pé na esquina, verificando se os motoristas cumpriam à risca as

instruções de seu colega luminoso. Esperava ter escondido o telefone rápido o suficiente para

não ter sido visto. Em Montecarlo eram muito rigorosos em relação ao uso de celulares ao

volante. Naquele momento, não tinha nenhuma vontade de perder tempo em discussões com um

inflexível policial do Principado.

Quando o sinal ficou verde, Jean-Loup virou à esquerda passando sob o olhar desconfiado do

agente. Viu que ele virava a cabeça e seguia com os olhos a SLK que desaparecia pela suave

descida em frente ao Hotel Metropole. Assim que teve certeza de estar fora de seu alcance,

levantou a mão e colou o celular de novo na orelha.

— Perigo afastado. Desculpe, Laurent. O que você estava dizendo?

— Estava dizendo que tive algumas ideias plausíveis e queria discutir com você antes de

entrar no ar. Venha logo.

— Plausíveis como? Como o 32 ou o 27?

— Vá à merda, seu bosta — rebateu de imediato, irônico, mas um pouco aborrecido.

— Como dizia o outro, não preciso de conselhos, preciso de endereços.

— Pare de falar besteira e trate de chegar logo.

— Certo. Já estou na entrada do túnel — mentiu Jean-Loup.

Do outro lado da linha, a comunicação foi interrompida. Jean-Loup sorriu. Laurent sempre

definia suas novas ideias daquela forma: plausíveis. Dando a César o que é de César, tinha que

admitir que quase sempre eram mesmo. Infelizmente, ele definia da mesma forma os números que

sentia que iam sair na roleta, o que não acontecia quase nunca.

No cruzamento, dobrou à esquerda na descida da Avenue des Spelugues. Entreviu o reflexo

das luzes da praça à direita, com o Hotel de Paris e o Café de Paris posicionados um em frente

ao outro como sentinelas dos dois lados do Cassino, partilhando suas luzes. As barreiras e

tribunas erguidas naquele local para o Grande Prêmio tinham sido desmontadas em tempo

recorde. Nada deveria ofuscar por muito tempo a sacralidade pagã daquele lugar, inteiramente

consagrado ao culto do jogo, do dinheiro e das aparências.

Deixou a praça do Cassino para trás, à direita, e percorreu em velocidade moderada a descida

que poucos dias antes as Ferrari, as Williams e as McLaren tinham percorrido num ritmo

alucinado. Depois da curva do Portier, a brisa que vinha do mar e as luzes amarelas do túnel

bateram em seu rosto. Percorreu o túnel sentindo o ar ficar mais fresco, imerso naquela

luminosidade artificial que misturava as cores, tornando-as todas iguais. Na outra saída,

reencontrou o espetáculo da marina iluminada, onde muito provavelmente uma centena de

milhões de euros em barcos flutuava naquele momento. No alto, à esquerda, a fortaleza, com a

residência real envolvida em luzes difusas, parecia garantir com galhardia que o sono do

príncipe e de sua família não fosse perturbado.

Apesar do hábito, era um espetáculo que não deixava ninguém indiferente. Jean-Loup

conseguia entender como um habitante de Osaka, de Austin ou de Joanesburgo perdia o fôlego

diante de uma imagem daquelas e ficava com dor nos braços de tanto tirar fotografia.

Já estava chegando. Contornou a marina, onde os trabalhos de remoção das estruturas

prosseguiam bem mais tranquilamente, passou diante das Piscinas e, logo depois da Rascasse,

dobrou à esquerda e pegou a rampa do estacionamento subterrâneo, três andares de escavação

exatamente embaixo do amplo pátio que ficava diante da rádio.

Estacionou o carro na primeira vaga livre e subiu a escada até chegar no exterior. O eco da

música do Stars ’N Bars chegou até ele através de suas portas abertas. Era uma parada

obrigatória para os frequentadores da vida noturna de Mônaco, um videobar onde podiam beber

uma cerveja ou apreciar a cozinha tex-mex, esperando que a noite envelhecesse antes de

espalharem-se pelas discotecas e nightclubs ao longo da costa.

Os pórticos da grande construção que abrigava a sede da Rádio Monte Carlo, debruçados

sobre o Quai Antoine Premier, hospedavam um acúmulo de atividades extremamente

heterogêneas: restaurantes, showrooms de iates, galerias de arte e os estúdios da Tele Monte

Carlo.

Jean-Loup parou diante da porta envidraçada e apertou o botão do intervideofone. Ficou na

frente da câmera de modo que só pudesse enquadrar um primeiríssimo plano de seu olho direito.

A voz de Raquel, a secretária, saiu do aparelho tão ameaçadora quanto conseguia ser.

— Quem é?

— Boa-tarde, sou o sr. Olho por Olho. Pode abrir, por favor? Estou usando lentes de contato e

a identificação da retina não funciona.

Recuou para que a moça pudesse reconhecê-lo. Do interfone saiu primeiro uma risadinha

sufocada e depois uma voz condescendente.

— Pode subir, sr. Olho por Olho…

— Obrigado. Minha intenção era vender uma enciclopédia, mas nessa altura dos

acontecimentos serve um pouco de colírio…

Logo depois, ouviu-se o estalido da fechadura ao abrir. Quando chegou ao quarto andar, a

porta automática do elevador deslizou de lado e ele se viu diante do rosto gorducho de Pierrot,

parado no saguão com uma pilha de CDs nas mãos.

Pierrot era uma espécie de mascote da rádio. Tinha 22 anos, mas o cérebro de uma criança.

Era um pouco mais baixo que a média, com um rosto redondo e alguns fios de cabelo sempre

espetados, que davam a Jean-Loup a divertida impressão de que sorria perenemente emoldurado

por um abacaxi.

Pierrot era o ser vivo mais incorruptível que havia na face da Terra. Tinha o dom, que apenas

alguns temperamentos simples têm, de inspirar simpatia à primeira vista e de ter simpatia apenas

por aqueles que, segundo ele, mereciam. E seu instinto raramente se enganava.

Adorava música e sua mente, que se atrapalhava nos raciocínios mais simples, tornava-se

subitamente analítica e linear quando falava do assunto. Tinha uma memória de computador no

que dizia respeito ao imenso arquivo da rádio e à música em geral. Bastava mencionar o título ou

o tema de uma canção para vê-lo partir como um raio e voltar em seguida com o disco ou o CD

correspondente nas mãos. Por causa dessa semelhança com o personagem do filme, era chamado

na rádio de Rain Boy.

— Oi, Jean-Loup.

— Oi, Pierrot, o que está fazendo aqui uma hora dessas?

— Minha mãe vai trabalhar até mais tarde hoje. Os patrões estão dando um jantar. Ela vem me

buscar quando é um pouco mais depois.

Jean-Loup sorriu por dentro com o disparate. O modo de Pierrot se expressar pertencia a uma

língua toda particular, uma linguagem à parte que, às vezes, se transformava numa piada

fulminante graças à candura dos equívocos e à absoluta inocência com que eram ditos. Sua mãe, a

que vinha buscá-lo quando é um pouco mais depois, ganhava a vida como faxineira na casa de

uma família de italianos residentes em Montecarlo.

Conhecera-os dois anos antes, quando se deparara com duas figuras paradas na porta da rádio.

Jean-Loup quase não notara a estranha dupla, mas a mulher se aproximou e falou com ele, com

aquele ar de quem está sempre pedindo desculpas ao mundo por sua presença. Percebeu que

estavam esperando por ele.

— Desculpe, o senhor é Jean-Loup Verdier?

— Sim, sou. O que posso fazer pela senhora?

— Bem, desculpe o incômodo, mas poderia dar um autógrafo para o meu filho, por favor?

Pierrot sempre ouve a rádio e o senhor é o preferido dele.

Jean-Loup examinou seu vestido modesto, olhou os cabelos que pareciam ter ficado grisalhos

antes do tempo. Devia ter menos idade do que aparentava. Sorriu.

— Claro, senhora. É o mínimo que posso fazer por um ouvinte tão assíduo.

Enquanto pegava com uma das mãos a folha e a esferográfica que a mulher lhe estendia,

Pierrot foi se aproximando.

— É igual.

Jean-Loup ficou perplexo.

— Igual a quê?

— Igual que nem na rádio.

Jean-Loup virou-se para a mulher, perplexo. Ela abaixou o olhar e a voz.

— Sabe, meu filho é… quer dizer…

Parou como se não encontrasse a palavra que conhecia há tanto tempo. Jean-Loup olhou para

Pierrot com mais atenção: notou algo de diferente em seu rosto e sentiu pena dele e da mulher.

Igual que nem na rádio

Jean-Loup percebeu que Pierrot queria dizer, em sua linguagem própria, que o radialista era

exatamente como ele imaginava que fosse ao ouvir sua voz na rádio. Foi então que Pierrot sorriu:

aquele pedaço da calçada se iluminou e nasceu a imediata e instintiva simpatia que só aquele

rapazola esquisito sabia suscitar.

— Muito bem, meu rapaz, agora que sei que é meu ouvinte, posso dizer que esse vai ser um

bom dia. Portanto, o mínimo que posso fazer por você é lhe dar um autógrafo muito especial.

Pode segurar isso, por favor?

Para liberar as mãos, estendeu ao rapaz o maço de folhas e cartelas que levava debaixo do

braço. Enquanto Jean-Loup caprichava no autógrafo, Pierrot pegou a primeira folha do maço que

tinha nas mãos. Levantou a cabeça e olhou para ele com ar satisfeito.

— Three Dog Night — disse com sua vozinha tranquila.

— Como?

— Three Dog Night. A resposta à primeira pergunta é Three Dog Night. E a da segunda é

Allan Allsworth e Ollie Alsall — repetiu Pierrot com uma pronúncia inglesa personalíssima.

Jean-Loup viu que se tratava do questionário musical para um quizz do programa da tarde, que

ele tinha organizado algumas horas antes.

A primeira pergunta era: “Que grupo dos anos setenta cantava a canção Celebrate?” E a

segunda: “Quais foram os guitarristas do Tempest?”

Pierrot leu e respondeu com precisão às duas primeiras perguntas. Jean-Loup ficou olhando

boquiaberto para a mãe. A mulher levantou os ombros como se pedisse desculpa por aquilo

também.

— Pierrot tem paixão por música. Se desse ouvidos ao que diz, deixaria de comprar pão para

comprar discos. Ele é… bem, ele é como é, mas quando se trata de música lembra muita coisa do

que ouve na rádio e do que lê.

Jean-Loup indicou a folha de perguntas que ainda estava com Pierrot.

— Quer tentar responder às outras também, Pierrot?

Uma a uma, sem hesitação, Pierrot desencavou quinze respostas certas, precisando apenas do

tempo necessário para ler as perguntas. E não eram das mais fáceis. Jean-Loup estava pasmo.

— Minha senhora, isso é muito mais do que lembrar muita coisa. Isso significa ser uma

enciclopédia.

Pegou as folhas das mãos do rapaz, respondendo a seu sorriso com um sorriso. Apontou para o

edifício da Rádio Monte Carlo.

— Pierrot, gostaria de dar uma volta pela rádio e ver como transmitimos a música?

Jean-Loup o acompanhou pelos estúdios, mostrou o local de onde vinham as vozes e a música

que ele ouvia em casa, ofereceu uma Coca-Cola. Pierrot examinava tudo com ar fascinado, com

os mesmos olhos cintilantes com que a mãe lia a alegria no rosto do filho. Mas quando entrou no

arquivo, no subsolo, e ficou diante daquele mar de CDs e discos em vinil, o rosto de Pierrot se

iluminou como uma alma santa na porta do Paraíso.

Depois, quando todo o pessoal da rádio ficou conhecendo sua história (o pai tinha sumido de

um dia para o outro assim que a deficiência do filho se confirmou, deixando a criança e a mãe

sozinhos, com uma mão na frente e a outra atrás), e sobretudo quando puderam testar ao vivo sua

cultura musical, logo arranjaram uma maneira de incluí-lo na equipe da Rádio Monte Carlo. A

mãe não podia acreditar. Pierrot tinha um lugar para ficar enquanto ela estava no trabalho e, além

do mais, receberia um pequeno salário.

Porém, mais que isso, ele estava feliz.

Promessas e apostas, pensou Jean-Loup. Às vezes alguma se cumpria, às vezes se vencia

alguma. Talvez houvesse coisa melhor no mundo, mas já era um começo.

Pierrot entrou no elevador, segurando os CDs numa só mão para apertar o botão com a outra.

— Vou lá embaixo no quarto guardar esses aqui, depois volto, assim posso ver o seu

programa.

Quarto era seu modo particular de definir o arquivo, mas ver o programa não era, no caso,

uma de suas costumeiras alquimias linguísticas. Significava que naquele dia podia ficar atrás dos

vidros ouvindo e vendo Jean-Loup, seu melhor amigo, seu ídolo absoluto, com um olhar de

adoração. Normalmente, no horário em que Jean-Loup entrava no ar, Pierrot já estava em casa e

costumava ouvir o programa no rádio.

— Certo, vou guardar um lugar na primeira fila.

A porta se fechou sobre o sorriso de Pierrot, muito mais luminoso que as luzes assépticas do

elevador.

Jean-Loup atravessou o saguão e digitou no teclado alfanumérico o código de abertura da

porta. Bem na frente da entrada, ficava a escrivaninha em que Raquel desempenhava ao mesmo

tempo as funções de recepcionista e secretária. A moça, uma morena esguia de rosto magro, mas

agradável, que em geral exibia uma atitude à altura da dignidade da situação, recebeu-o com um

dedo apontado em sua direção.

— Está correndo perigo. Um dia desses ainda vou deixá-lo do lado de fora.

Jean-Loup aproximou-se e desviou o dedo como se fosse uma pistola carregada.

— Nunca lhe disseram que não deve apontar o dedo desse jeito? E se estivesse carregado? E

se disparasse sem querer? Você é que precisa explicar o que está fazendo aqui a essa hora. E

Pierrot também está por aí. Tem alguma festa marcada e não me avisaram?

— Festa nenhuma, só hora extra. Tudo culpa sua, que está arrebentando na audiência e

obrigando todo mundo a trabalhar como operários.

Indicou um ponto às suas costas com a cabeça.

— Fale com o chefe, tem novidade.

— Boas? Ruins? Assim, assim? Resolveu finalmente pedir minha mão?

— Só sei que quer falar com você. Está na sala do presidente — respondeu Raquel sorrindo,

mas sem esclarecer mais nada.

Jean-Loup deu alguns passos, abafados pelo carpete azul pontilhado de pequenas coroas

estilizadas de cor creme. Parou diante da última porta da direita. Bateu e abriu sem esperar um

convite para entrar. O chefe estava sentado na escrivaninha e, não precisava nem dizer, falava ao

telefone. Naquela hora, a sala já tinha se transformado num local místico, cheio de fumaça de

cigarro, um ponto de encontro entre o exemplar que ele tinha naquele momento entre os dedos e

os muitos outros fumados anteriormente.

O diretor de Rádio Monte Carlo era a única pessoa que Jean-Loup conhecia que fumava

aqueles infectos cigarros russos com uma longa piteira de papelão que devia ser dobrada

segundo um ritual quase vodu antes de acender.

Robert fez sinal para que ele se sentasse.

Escolheu uma das poltronas de couro preto na frente da escrivaninha. Enquanto Robert

acabava seu telefonema e fechava o flip de seu Motorola, Jean-Loup agitou o ar à sua frente com

a mão.

— Estamos transformando essa sala num local para os nostálgicos da neblina? Londres ou

morte? Ou melhor, Londres e morte? O presidente sabe que você infesta a sala dele quando ele

não está? Se for o caso, tenho material para chantageá-lo até o fim de seus dias.

A Rádio Monte Carlo, a emissora em língua italiana do Principado, tinha sido encampada por

uma sociedade que administrava uma rede de emissoras privadas, cuja sede ficava na Itália, em

Milão. A direção, em Mônaco, estava inteiramente nas mãos de Robert Bikjalo, e o presidente só

aparecia para as reuniões mais importantes.

— Você não passa de um moleque, Jean-Loup. Um moleque sacana e fracote.

— Não sei como consegue fumar essa porcaria. Está pronto para superar aquele limite

impalpável entre a fumaça e o gás nervoso. Talvez já o tenha até superado há muitos anos e nós

continuamos a conversar com o seu cadáver sem perceber nada.

Robert se manteve impassível, tão insensível ao humor de Jean-Loup quanto à fumaça de seus

próprios cigarros.

— Meu silêncio expressa minha evidente superioridade diante desses comentários quase

femininos. Não fiquei aqui esperando que seu precioso traseiro sentasse em minha poltrona para

ouvir piadinhas sobre meus cigarros. E veja bem que eu disse “precioso” porque todos sabem

que é com ele que você raciocina…

A troca de ofensas já fazia parte de um pequeno ritual estabelecido havia anos entre eles.

Apesar disso, Jean-Loup pensava que estavam bem distantes do que se podia definir como

amigos. O uso daquele humor cáustico escondia, na verdade, a dificuldade de ir além da

superfície quando se tratava de Robert Bikjalo. Talvez fosse uma pessoa inteligente e, com

certeza, era bem esperto. Um homem inteligente às vezes dá ao mundo mais do que recebe, um

esperto tenta pegar tudo o que puder e, em troca, dar o mínimo indispensável. Jean-Loup

conhecia bem as regras da dança do mundo, em geral, e de seu ambiente em particular; era o DJ

que apresentava Voices, um dos programas de maior sucesso na Rádio Monte Carlo. Gente como

Bikjalo só o ouvia em função da quantidade de gente que o ouvia em casa.

— Só queria dizer o que penso sobre você e sobre seu programa, antes de jogá-lo

inexoravelmente no olho da rua…

Apoiou-se no encosto da poltrona e finalmente apagou o cigarro num cinzeiro já cheio de

cadáveres. Deixou um silêncio de mesa de pôquer cair entre eles. Prosseguiu com o tom de quem

“paga pra ver” tendo as cartas certas na mão.

— Recebi um telefonema a respeito de Voices, o seu programa. Era uma pessoa próxima do

Palácio. Não pergunte quem, pois só posso dizer o milagre, o nome do santo, não…

O tom do diretor mudou de repente. Um sorriso de quarenta dentes floriu em seu rosto, como

se descesse uma escada real.

— O príncipe em pessoa expressou sua satisfação com o sucesso do programa!

Jean-Loup levantou da poltrona com um sorriso idêntico, bateu a mão aberta na mão que o

outro estendia e voltou a se sentar. Bikjalo continuou seu voo nas asas do entusiasmo.

— Em todo caso, a imagem de Montecarlo sempre foi a de um lugar rico, de um paraíso fiscal

para sonegação de impostos do mundo inteiro. Ultimamente, com toda a confusão que tem

acontecido nos Estados Unidos e com a crise econômica que circula mais ou menos em toda

parte, nosso brilho murchou um pouco…

Disse aquele “nosso” como uma gentil concessão ao mundo, mas tinha o ar de quem acha que

não tem muito a ver com os problemas alheios. Tirou outro cigarro do maço, dobrou o filtro com

as mãos, enfiou na boca e acendeu com o isqueiro que estava na escrivaninha.

— Alguns anos atrás, nessa época, havia duzentas mil pessoas na praça do Cassino. Agora, há

noites em que o ar de day after dá até medo. O engajamento que você conseguiu transmitir a

Voices, centrando o programa na questão social, trouxe um novo alento. Agora muita gente acha

que também em Montecarlo existe um lugar onde é possível resolver os problemas, para onde

você pode telefonar e pedir ajuda. Para a rádio também foi uma grande jogada, não escondo isso,

temos um monte de patrocinadores no horizonte, o que é um termômetro do sucesso do programa.

Jean-Loup levantou uma sobrancelha instintivamente e sorriu. Robert era um empresário e,

para ele, o sucesso significava, em última análise, um suspiro de alívio e um sentimento de

satisfação na hora de fazer o balanço. Os tempos heroicos da Rádio Monte Carlo, os tempos dos

programas de Awanagana e Jocelyn e de Herbert Pagani, para dar um exemplo, tinham se

acabado. Agora vivíamos os tempos econômicos.

— Devo dizer que estamos ótimos. Sobretudo você. À parte a fórmula vencedora do programa

e as evoluções que sofreu em seguida, o sucesso se deve decisivamente à sua capacidade de

apresentá-lo em italiano e francês simultaneamente. Eu só fiz meu trabalho…

Bikjalo fez um gesto vago de modéstia que certamente não combinava com ele. Referia-se, em

todo caso, à sua aguda intuição do ponto de vista empresarial. A qualidade do programa e o

talento bilíngue do apresentador animaram-no a tentar uma manobra que conseguiu concluir com

a habilidade de um diplomata consumado. Tinha criado, apoiado pelos ouvintes e pelos

resultados, uma espécie de joint-venture com a Europe 2, uma emissora francesa com linha

editorial bem próxima da Rádio Monte Carlo, que retransmitia de Paris.

O resultado disso era que Voices cobria, no ar, grande parte dos territórios italiano e francês.

Robert Bikjalo colocou os pés na escrivaninha e soprou a fumaça do cigarro para o alto. Jean-

Loup pensou que era uma posição muito institucional e alegórica. Provavelmente, o presidente

não pensaria assim.

O diretor prosseguiu, triunfal.

— Entre o fim de junho e o começo de julho teremos o Music Awards . Soube que estão

pensando em você como apresentador. E depois, tem o Festival du Cinéma et de la Télévision.

Você está na crista da onda, Jean-Loup. Muitos apresentadores do seu tipo enfrentaram

dificuldades na hora da passagem do rádio para a TV. Mas você tem uma boa aparência e, se

jogar bem suas cartas, temo que acabe sendo a causa de uma queda de braço entre rádio e TV.

Jean-Loup sorriu e olhou o relógio. Levantou-se da poltrona.

— Acho que nesse momento Laurent está fazendo uma bela queda de braço com o próprio

fígado. Ainda não nos falamos e temos que fazer toda a escaleta do programa dessa noite.

— Diga àquela espécie de redator-chefe que o olho da rua também está esperando por ele.

Jean-Loup dirigiu-se para a porta. Quando estava saindo, Robert o deteve.

— Jean-Loup?

Ele se virou. Bikjalo estava sentado na poltrona e se balançava com a expressão de um Frajola

que finalmente conseguiu devorar o canarinho.

— Diga.

— Creio que é evidente que, se todas essas histórias de televisão se realizarem, seu

empresário sou eu…

Jean-Loup pensou que Bikjalo tinha a mesma cara que o pranteado La Palisse* devia ter

quando dizia uma das suas. Decidiu que venderia bem caro a própria pele.

— Sofri muito para suportar o percentual de fumaça de seus cigarros. Para ter um percentual

do meu dinheiro você vai ter que sofrer pelo menos tanto quanto eu.

Quando fechou a porta, Robert Bikjalo olhava para o teto com expressão sonhadora. Jean-

Loup teve a impressão de que já estava contando o dinheiro que ainda não havia ganhado.

*Senhor de La Palisse (1470-1525), famoso guerreiro francês, morto em combate na batalha de

Pavia. ( N. da E. )

2

ATRAVÉS DA GRANDE VIDRAÇA DA CABINE de direção, Jean-Loup olhava a cidade e os jogos de

luzes que se refletiam na água imóvel da marina. Acima dele, envolvida na escuridão, a presença

protetora do monte Agel, cujo cume, marcado por uma série de luzes vermelhas, abrigava a

antena de transmissão da rádio, que permitia que alcançassem e cobrissem toda a Itália.

Ouviu a voz de Laurent às suas costas, saindo do interfone.

— Fim do intervalo, volta ao trabalho.

Sem se preocupar em responder, o DJ afastou-se da janela e voltou para seu lugar. Ajeitou os

fones de ouvido e sentou na frente do microfone. Através do vidro da cabine de direção, Laurent

mostrou a mão aberta a Jean-Loup, indicando que faltavam cinco segundos para o final das

inserções publicitárias.

Em seguida, colocou no ar o breve jingle de Voices para sublinhar o retorno da transmissão.

Tinha sido, pelo menos até aquele momento, um programa tranquilo, bastante divertido em alguns

momentos e sem as lamentações que às vezes tinham de suportar.

— Com vocês, mais uma vez, Jean-Loup Verdier. Voices, da Rádio Monte Carlo, está de

volta, esperando que nessa bela noite de maio ninguém esteja precisando de nossa ajuda, somente

de nossa música. Mas acabaram de me avisar que temos alguém na linha.

De fato, a luz vermelha no alto da parede estava acesa e Laurent apontava o indicador da mão

direita para ela, confirmando que tinha alguém na linha. Jean-Loup apoiou os cotovelos na mesa e

dirigiu-se ao microfone que estava na sua frente.

— Alô?

Ouviram-se dois disparos e depois, silêncio. Jean-Loup levantou a cabeça e olhou para

Laurent erguendo as sobrancelhas. O diretor deu de ombros indicando que a interferência não era

deles.

— Alô?

Finalmente a resposta chegou pelo ar, e pelo ar a rádio a retransmitiu e ela se tornou de todos.

Ocupou seu lugar nas caixas de difusão da direção, nas suas mentes e nas suas vidas. Daquele

momento em diante e por muito tempo, a escuridão ficaria um pouco mais escura e precisariam

de muito barulho para cobrir todo aquele silêncio.

Olá, Jean-Loup.

Havia algo de artificial no som daquela voz. Parecia soar dentro de um tubo e era

estranhamente igual, sem expressão e sem cor. As palavras tinham o rastro de um eco sufocado,

como a decolagem de um avião muito distante.

Mais uma vez, Jean-Loup olhou para Laurent interrogativamente. Mais uma vez ele usou o

indicador da mão direita, fazendo breves círculos no ar, para mostrar que a distorção vinha da

ligação.

— Olá. Quem é você?

Houve um instante de hesitação do outro lado da linha. Depois a resposta quase soprada,

reverberando artificialmente.

Não tem importância. Sou um e nenhum.

— Sua voz está distorcida, não o escuto bem. Onde você está?

Pausa. O rastro leve de um avião indo para não se sabe onde.

O interlocutor não deu importância à observação de Jean-Loup.

Isso também não interessa. A única coisa que conta é que chegou o momento de nos

falarmos, mesmo que isso signifique que nunca mais seremos os mesmos, nem eu nem você.

— Em que sentido?

Logo serei um homem perseguido e você vai estar entre os cães de caça que rosnam

correndo atrás de sombras. É uma pena, pois agora, nesse exato momento, eu e você somos

iguais, somos a mesma coisa.

— Somos iguais em quê?

Para o mundo, nós dois somos uma voz sem rosto, a ser ouvida com os olhos fechados,

com a imaginação. Lá fora está cheio de gente que só pensa em encontrar uma cara que possa

mostrar com orgulho, que seja diferente de todas as outras, gente sem nenhuma preocupação a

não ser essa. Chegou o momento de sair e ver o que há por trás disso…

— Não estou entendendo o que quer dizer.

Outra pausa, longa a ponto de dar a impressão de que a ligação tinha caído. Depois a voz

retornou e alguns dentre os ouvintes tiveram a impressão de sentir a sombra de um sorriso.

Vai entender, com o tempo.

— Não estou acompanhando seu raciocínio.

Mais uma pausa ligeira, como se o homem do outro lado da linha estudasse suas próximas

palavras.

— Não se preocupe. Às vezes é difícil até para mim.

— Então, por que ligou, por que está aqui falando comigo?

— Porque estou só.

Jean-Loup abaixou a cabeça sobre a mesa e apertou-a entre as mãos.

— Fala como um homem fechado numa prisão.

Todos estão fechados numa prisão. Eu construí a minha sozinho, mas nem por isso é

mais fácil sair.

— Sinto muito por você. Posso perceber que não gosta muito das pessoas.

E você, gosta?

— Nem sempre. Às vezes tento entendê-las e quando não consigo, tento pelo menos não julgá-

las.

Até nisso nós somos iguais. A única coisa que nos diferencia é que, quando acaba de

falar com elas, você tem a possibilidade de se sentir cansado. Pode ir para casa e desligar a

mente e todas as suas doenças. Eu não. Eu não consigo dormir de noite, porque meu

sofrimento nunca acaba.

— E nessas noites, o que faz para se livrar do seu sofrimento?

Jean-Loup pressionou um pouco o interlocutor. A resposta se fez esperar e foi como se um

objeto embrulhado em diversas camadas de papel cobrisse lentamente a luz.

— Eu mato

— O que signif…

A voz de Jean-Loup foi interrompida por uma música que saía das caixas. Era um trecho

delicado, melancólico, de melodia envolvente. No entanto, depois daquelas palavras, parecia se

espalhar no ar como uma ameaça. Durou cerca de dez segundos; depois, assim como tinha

chegado, se foi.

No silêncio viscoso que se seguiu, todos ouviram distintamente o clique da comunicação

interrompida. De repente, Jean-Loup levantou a cabeça para os outros. Na sala, o rumor fresco

do ar-condicionado e o gelo de seus pensamentos… No entanto, foi como se todos,

simultaneamente, tivessem olhado para o brilho ofuscante de Sodoma e Gomorra em chamas.

Depois do episódio, conseguiram, mal ou bem, arrastar a transmissão até a hora do

encerramento. Não houve outros telefonemas do público. Ou melhor, depois daquela chamada

estranha, a central ficou congestionada de telefonemas, mas nenhum deles foi para o ar.

Jean-Loup tirou os fones e deixou-os sobre a mesa, ao lado do microfone. Percebeu que

naquela noite, apesar do ar-condicionado, tinha os cabelos suados, como se tivesse corrido um

trecho pequeno.

Nunca mais seremos os mesmos, nem eu, nem você.

No tempo restante, só transmitiu música, demorando-se na análise da estranha analogia entre

Tom Waits e o italiano Paolo Conte, ambos atípicos como intérpretes e extremamente

significativos como compositores. Traduziu as letras de duas de suas canções e sublinhou sua

importância. Felizmente, dispunham de várias escapatórias para as situações de emergência, e

aquela, sem dúvida, era uma delas. Havia alguns números de reserva para servir de apoio quando

o programa não decolava. Ligaram para alguns artistas amigos pedindo que participassem e

passaram quinze minutos em companhia da poesia e do humor de Francis Cabrel.

A porta de comunicação se abriu e a cabeça de Laurent despontou no umbral.

— Tudo bem, Jean-Loup?

Jean-Loup olhou para ele como se não o visse.

— Sim, tudo bem.

Ele levantou e saíram juntos do estúdio, cruzando com os olhares perplexos e meio fugidios de

Barbara e de Jacques, o técnico de som. A moça usava uma camiseta azul e Jean-Loup notou que

tinha duas grandes manchas de suor nas axilas.

— Recebemos um monte de ligações. Duas perguntando se era uma história policial em

capítulos e quando seria o próximo, depois pelo menos uma dúzia de pessoas indignadas com os

meios que somos obrigados a usar para aumentar a audiência. O chefe também ligou e chegou

aqui como uma águia. Já está no gabinete do presidente, esperando por você. Ele também caiu na

história e perguntou se tínhamos ficado loucos. Parece que um dos patrocinadores ligou logo em

seguida e não acho que tenha sido um telefonema de congratulações.

Jean-Loup imaginava a sala ainda mais densa de fumaça, como se fosse possível, e um

discurso levemente menos entusiasmado do que aquele de antes da transmissão.

— Mas como a central não filtrou a ligação?

— Que me caia um raio na cabeça se consigo entender o que aconteceu. Raquel disse que a

ligação não passou por ela. Por algum motivo que não sabe explicar, foi diretamente para a linha

do estúdio. Devem ter feito um contato qualquer, sei lá. Para mim é a nova central telefônica

começando a lutar pela autoconsciência. Vai ver que um dia desse seremos obrigados a lutar

contra as máquinas, como em Exterminador do Futuro.

Saíram da sala do diretor um ao lado do outro, rumo ao gabinete de Bikjalo, sem coragem de

se olhar de frente. Entre eles, o fino acolchoado daquelas duas palavras.

Eu mato

Passaram na frente da sala dos computadores, perplexos. O som angustiante daquela voz ainda

flutuava no ar.

— E aquela música final. Tenho a impressão de que conheço…

— Eu também. Se não me engano, é uma trilha sonora. Acho que de Um homem, uma mulher,

um velho filme de Lelouch. Uma produção de 1966 ou antes.

— E o que significa isso?

— Como vou saber?

Jean-Loup parecia desorientado. Diante deles, um fato absolutamente novo, que não

conseguiam classificar em suas experiências radiofônicas anteriores. Sobretudo no nível

emocional.

— O que acha?

— Que é bobagem.

Laurent acompanhou as palavras com um gesto despreocupado da mão, mas apesar disso,

parecia ter falado mais pelo desejo de convencer a si mesmo do que para convencer o outro.

— Diga?

— À parte a questão da central, acho que é só uma brincadeira de muito mau gosto de algum

idiota.

Pararam diante da porta da sala de Bikjalo e Jean-Loup segurou a maçaneta. Finalmente,

olharam-se nos olhos. Laurent reiterou seu pensamento.

— Deve ser apenas uma coisa esquisita que a gente vai contar no Sporting Club e rir um

pouco.

Contudo, a expressão de Laurent era de alguém que não estava completamente convencido do

que dizia. Jean-Loup empurrou a porta e, enquanto entravam na sala do diretor, perguntou-se se

aquele telefonema seria uma promessa ou uma aposta.

3

JOCHEN WELDER ACIONOU O COMANDO do guincho elétrico e ficou segurando o botão até que a

corrente da âncora descesse o suficiente para manter o Forever fundeado. Quando teve certeza da

firmeza da ancoragem, desligou o motor. O barco, um esplêndido dois mastros de 22 metros,

desenhado por seu amigo Mike Farr e construído especialmente para ele nos estaleiros Beneteau,

começou a deslizar lentamente. Empurrado por uma brisa leve que soprava para a terra, seguiu a

corrente, apontando a proa na direção do mar aberto. Arijane, que tinha controlado a descida da

âncora, virou e veio até ele, caminhando desenvolta na coberta, apoiando-se de vez em quando

no corrimão para amortecer o leve balanço provocado pelas ondas. Jochen ficou olhando para

ela com os olhos semicerrados, admirando pela enésima vez sua silhueta esbelta, atlética,

vagamente andrógina. Absorveu a solidez de seu corpo e o fascínio de seus movimentos com uma

sensação de calor na boca do estômago. Sentiu o desejo crescer dentro dele como uma pequena

dor e pensou com gratidão na casualidade do destino, que tinha desenhado uma mulher que nem

mesmo ele, com suas próprias mãos, poderia ter feito tão próxima de seu conceito pessoal de

perfeição.

Ainda não tinha tido coragem de dizer que a amava.

Ela o encontrou junto da roda do timão, passou os braços ao redor de seu pescoço e apoiou a

boca em seu rosto num beijo delicado. Jochen sentiu o calor de seu hálito, o aroma natural de seu

corpo e pensou mais uma vez que não existe perfume melhor que o cheiro de uma pele cheirosa.

Cheirava a mar e a coisas que deviam ser descobertas pouco a pouco, sem pressa. O sorriso de

Arijane brilhou na contraluz do pôr do sol e Jochen imaginou, mais do que viu, o brilho refletido

em seus olhos.

— Acho que vou descer para tomar um banho. Depois, se quiser, você pode descer para tomar

uma chuveirada também e se, além disso, resolver dar um jeito nessa barbinha, talvez eu aceite

com prazer qualquer proposta que me fizer para depois do jantar…

Jochen retribuiu seu sorriso com um outro igualmente cúmplice e passou a mão na barba de

dois dias.

— Estranho, eu achava que as mulheres gostavam de um homem com a barba levemente por

fazer…

Parodiou a voz dos trailers dos filmes de aventura dos anos cinquenta.

— O sujeito que passa um braço em seu ombro e com o outro guia o barco para o horizonte

dourado.

Arijane entrou no jogo. Desvencilhou-se do abraço e desceu para a cabine movendo-se como

uma estrela do cinema mudo.

— Não tenho nenhuma dificuldade para me ver viajando em direção ao horizonte com você,

meu herói, mas acho que não vai mudar muito se meu rosto não estiver em chamas.

Desapareceu pela escada como uma atriz nos bastidores depois de uma frase de efeito.

— Arijane Parker, seus adversários pensam que é uma jogadora de xadrez, mas ninguém,

exceto eu, sabe o que é na verdade…

Sua cabeça despontou por um instante no vão da porta, curiosa.

— Ou seja?

— O palhaço mais lindo que já conheci.

— Certo! É por isso que sou tão boa no xadrez: porque não levo o jogo nem um pouco a sério.

E desapareceu de novo. Jochen viu o reflexo da luz acesa estampado na coberta e, em seguida,

ouviu o ruído do chuveiro.

Não conseguia apagar o sorriso do rosto.

Conhecera Arijane no Grande Prêmio do Brasil, quando fora convidado a uma recepção

organizada por um dos patrocinadores da escuderia, uma multinacional que produzia roupas

esportivas. Em geral, tentava evitar ao máximo esse tipo de compromisso mundano, sobretudo

perto da corrida, mas como se tratava de um evento beneficente, em favor da Unicef, não quis

recusar.

Apesar disso, se movimentava não muito à vontade pelos salões cheios de gente, elegantíssimo

num smoking tão perfeito que nem de longe parecia alugado para a ocasião. Tinha na mão um

copo de champanhe que não conseguia beber e no rosto um tédio que não conseguia disfarçar.

— Sempre se diverte tanto ou está se esforçando particularmente hoje?

Virou-se na direção do som daquela voz e deparou-se com o sorriso e os olhos verdes de

Arijane. Usava um smoking masculino, com a camisa aberta, sem a clássica gravata borboleta.

Nos pés, um par de tênis brancos. A roupa e os curtos cabelos pretos faziam dela uma versão

elegante de Peter Pan. Já tinha visto sua foto nos jornais várias vezes e logo reconheceu Arijane

Parker, a estranha moça de Boston que saíra do anonimato ao encurralar os maiores campeões de

xadrez do mundo. A piada tinha sido pronunciada em alemão e Jochen respondeu na mesma

língua.

— A alternativa que me deram era o fuzilamento, mas como tenho um compromisso inadiável

no fim de semana, fui obrigado a aceitar isso…

Com um aceno de cabeça indicou o salão cheio. O sorriso da jovem se acentuou e sua

expressão divertida deu a Jochen a sensação de ter passado num exame. Ela lhe estendeu a mão.

— Arijane Parker.

— Jochen Welder.

Envolveu a mão estendida com a sua e teve a nítida sensação de que aquele gesto tinha um

significado especial, que já havia no olhar que trocavam um discurso mais profundo do que

aquele que podiam fazer usando apenas as palavras. Saíram para o grande terraço aberto,

suspenso sobre a pulsação tranquila da noite brasileira.

— Como fala tão bem alemão?

— A segunda mulher de meu pai, que por acaso é minha mãe, é de Berlim. Felizmente, ficou

casada com ele tempo suficiente para me ensinar a língua.

— Por que uma moça dona de um rosto tão bonito resolveu escondê-lo por horas a fio em cima

de um tabuleiro de xadrez?

Arijane levantou uma sobrancelha e rebateu a bola, respondendo à pergunta com outra

pergunta.

— Por que o dono de uma cabeça tão interessante resolveu escondê-la dentro daquela panela

que vocês, pilotos, são obrigados a usar?

Léon Uriz, representante da Unicef que organizava o evento, chegou naquele momento para

reclamar sua presença no salão principal. Jochen deixou Arijane a contragosto e foi atrás dele,

resolvido a responder a pergunta da moça o mais rápido possível. Antes de atravessar a soleira

da enorme porta de vidro, virou-se para olhá-la. Ela estava em pé perto da balaustrada, olhando

para ele, com uma mão enfiada no bolso. Com um sorriso e um aceno de consentimento, ergueu

para ele o copo de champanhe que ainda segurava.

No dia seguinte, depois dos treinos livres de quinta-feira, foi vê-la no torneio que disputava.

Sua chegada causou um certo tumulto entre o público e os jornalistas. Era claro que a presença de

Jochen Welder, duas vezes campeão mundial de Fórmula 1, numa partida de Arijane Parker não

era casual e certamente estava bem distante de algum interesse particular, até então

completamente desconhecido, pelo xadrez. Ela estava sentada na mesa de jogo, separada por uma

cerca de madeira dos juízes e do espaço reservado ao público. Tinha virado a cabeça na direção

do burburinho e, ao vê-lo, sua expressão não se alterou, como se não o tivesse reconhecido. Seu

olhar voltou para o tabuleiro que dividia com o adversário. Jochen admirou sua concentração, a

cabeça inclinada observando a disposição das peças, a estranheza daquela delicada figura de

mulher num ambiente que normalmente fala apenas a linguagem masculina. Depois disso, Arijane

fez alguns movimentos equivocados, incompreensíveis. Ele não entendia nada de xadrez, mas

intuiu pelos comentários do público de aficionados que enchia a sala. De repente, ela levantou e

apoiou seu rei no tabuleiro, em sinal de rendição. Sem olhar para ninguém, de cabeça baixa, foi

até a porta de madeira que se abria no fundo da sala. Jochen tentou ir a seu encontro, mas ela

tinha desaparecido sem deixar rastros.

Os treinos classificatórios e todo o empenho dos momentos anteriores à corrida impediram

que procurasse por ela. Encontrou-a de surpresa nos boxes, na manhã do Grande Prêmio, logo

depois do briefing dos pilotos. Estava controlando a execução dos acertos sugeridos aos

mecânicos depois do warm-up, quando a voz dela o surpreendeu, como tinha acontecido em seu

primeiro encontro.

— Bem, devo dizer que o macacão não é tão charmoso quanto o smoking, mas pelo menos é

mais alegre.

Virou-se e ela estava diante dele, os imensos olhos verdes brilhando, os cabelos meio

escondidos por um boné com o logotipo de um patrocinador. Usava uma camiseta leve, sob a

qual se adivinhavam os seios livres de apertos, e bermudas coloridas, como quase todo mundo

por ali. Pendurados no pescoço, um passe da Foca e um par de óculos escuros presos por um fio

de plástico. A surpresa o deixou paralisado, tanto que Alberto Regosa, seu engenheiro de pista,

resolveu fazer piada.

— Ei, Jochen, se não fechar a boca vai ser difícil colocar o capacete…

Ele apoiou a mão no ombro de Arijane e respondeu a ela e à piada do amigo ao mesmo tempo.

— Venha, vamos embora daqui. Poderia lhe apresentar alguém, mas não vale a pena conhecê-

lo: amanhã ele não estará mais conosco, porque vai ter que procurar outro emprego.

Acompanhou a jovem para fora dos boxes e respondeu à piada do engenheiro com o dedo

médio da mão direita escondido nas costas. Examinou descaradamente as belas pernas que as

bermudas deixavam à mostra.

— Honestamente, devo dizer que o smoking também não lhe ficava mal, mas prefiro assim.

Existe uma sombra legítima de suspeita sobre as pernas das mulheres de calças compridas.

Riram juntos e, em seguida, Jochen explicou brevemente a confusão e a atividade do mundo

das corridas de automóvel, que Arijane desconhecia totalmente. Explicou o que era cada coisa e

cada pessoa, levantando a voz de vez em quando para não ser abafado pelo barulho dos motores.

Quando chegou a hora do alinhamento no grid de largada, convidou-a para assistir à corrida dos

boxes.

— Temo que terei que colocar minha panela na cabeça, como você diz. Nos vemos depois.

Despediu-se e entregou-a aos cuidados de Greta Ringer, a relações-públicas da escuderia.

Enfiou-se no carro e, enquanto os mecânicos apertavam os cintos, ergueu a cabeça e olhou para

ela. Através da viseira do capacete, seus olhos se falaram novamente e era uma linguagem que

superava a emoção da corrida. Saiu da corrida logo, depois de umas dez voltas. Tinha feito uma

boa largada, mas depois, quando estava em quarto, a suspensão traseira, ponto fraco de seu

carro, quebrou de uma hora para outra, e ele rodou na saída de uma curva veloz à esquerda.

Bateu violentamente contra a proteção e foi lançado de volta para o centro da pista, capotando

com a Klover F109 semidestruída. Pelo rádio, avisou à equipe que estava tudo bem e retornou a

pé. Assim que chegou ao boxe, procurou Arijane com os olhos, mas não a encontrou. Só pôde ir

procurá-la depois de explicar o motivo do acidente ao chefe da equipe e aos técnicos. Encontrou-

a no trailer, sentada ao lado de Greta, que se afastou discretamente quando ele chegou. Arijane

levantou-se e enroscou os braços em seu pescoço.

— Posso aceitar que sua presença me faça perder a semifinal de um torneio importantíssimo,

mas creio que vai ser difícil perder um pouco de vida cada vez que você arrisca a sua. Mas

agora, pode me beijar, se quiser…

Desde aquele dia, nunca mais se separaram.

Jochen acendeu um cigarro e ficou sozinho, sentado na semiescuridão, fumando e observando

as luzes da costa. Tinha ancorado o barco um pouco além de Cap Martin, diante de Roquebrune,

ligeiramente à esquerda do grande V azul sobre a montanha, a marca do Vista Palace, o grande

hotel construído sobre a rocha. À esquerda, Montecarlo brilhava, bela e falsa como uma

dentadura, imensa nas luzes que não merecia e no dinheiro que não lhe pertencia. Tinham se

passado três dias desde o Grande Prêmio e, depois do alvoroço da multidão do fim de semana de

corrida, a cidade retornava rapidamente à sua normalidade plastificada. Onde pouco antes

dominava a velocidade dos carros de corrida, retornava o tráfego preguiçoso e ordenado sob o

sol de maio, com a perspectiva de um verão que não era como antes, nem para ele, nem para

ninguém.

Jochen Welder, aos 34 anos, sentia-se velho e tinha medo.

Conhecia bem o medo, era uma companhia habitual para um piloto de Fórmula 1. Costumava

se deitar com ele há anos, todo sábado antes da corrida, não importa quem fosse a mulher com

quem dividia a vida e a cama no momento. Já tinha até aprendido a reconhecer seu cheiro nos

macacões impregnados de suor pendurados para secar nos boxes. Por muito tempo tinha lapidado

e lustrado seu medo, para esquecê-lo a cada vez que enfiava o capacete ou entrava no carro e

afivelava os cintos de segurança, esperando o sopro potente da adrenalina se espalhar em suas

veias. Agora era diferente, agora tinha medo do medo. Aquele que substitui o instinto pelo

raciocínio, que faz você tirar o pé do acelerador um segundo antes do necessário e que, um

segundo antes do necessário, faz seu pé procurar o freio. Aquele que o emudece de repente e fala

apenas através de um cronômetro, explicando o quanto um segundo pode ser veloz para um

homem comum, e lento, ao contrário, para um piloto.

O celular apoiado no suporte a seu lado começou a tocar. Tinha certeza de que desligara o

telefone e olhou para ele com a intenção de fazer isso imediatamente. Depois, com um suspiro,

tirou-o de seu ninho e apertou o botão para responder.

— Onde diabo você se enfiou?

A voz de Roland Shatz, seu empresário, pulou do aparelho como a de um apresentador de

televisão diante da resposta certa do participante de um quizz. Só que em geral os apresentadores

não ficam furiosos com os concorrentes. Já esperava por aquilo, mas não estava totalmente

pronto.

— Por aí… — respondeu evasivo.

— Por aí o cacete! Não sabe da confusão que está acontecendo?

Não sabia, mas podia imaginar muito bem. Afinal, um piloto que perdia uma corrida

praticamente ganha graças a um erro nas últimas curvas era sempre um bocado de assunto para as

páginas da imprensa esportiva do mundo inteiro. Roland não lhe deu tempo de responder e

continuou.

— A equipe tentou cobri-lo diante dos jornalistas da melhor forma possível, mas Ferguson

está espumando como uma hiena. Você não fez uma única ultrapassagem em toda a corrida,

estava na frente só porque os outros pilotos abandonaram ou quebraram. Ainda por cima, jogou

para o alto daquela forma uma corrida ganha! A manchete mais delicada dos jornais foi Jochen

Welder perde a corrida e a pose em Montecarlo.

Tentou um frágil protesto, mas nem ele parecia acreditar.

— Eu disse que tinha alguma coisa no acerto…

O empresário não o deixou continuar.

— Conversa fiada! Os dados de telemetria estão lá e cantam melhor que Pavarotti! O carro

estava perfeito e enquanto o motor dele segurou, Malot estava na sua cola com toda a razão,

mesmo depois de largar atrás de você no grid.

François Malot era o segundo piloto da equipe, um jovem talento ainda não lapidado que

Ferguson, o chefe de equipe da Klover F1 Racing Team, estava criando e paparicando há tempos.

Ainda não tinha a experiência necessária, mas era um ótimo piloto de testes e possuía garra e

coragem para dar e vender. Não era por acaso que todos os empresários do circo da Fórmula 1

estavam de olho nele desde os tempos da Fórmula 3, só que Ferguson conseguiu chegar antes

deles, contratando-o por dois anos. O próprio Shatz, aliás, brigou bastante para ser seu

procurador. Era a lei do esporte e em particular da Fórmula 1, planeta mínimo onde o sol nasce e

se põe com uma rapidez impiedosa.

No telefone, Roland mudou repentinamente de tom. Em sua voz havia agora a marca evidente

da amizade que o ligava a Jochen e que ia bem além de uma simples relação de trabalho. Dava,

contudo, a impressão de representar sozinho o policial bonzinho e o policial malvado das

técnicas de interrogatório policial.

— Jochen, estamos com problemas. Está prevista para a semana que vem uma bateria de testes

em Silverstone, com a Williams e a Jordan. Se entendi bem, você não foi chamado. Preferem que

Malot e Barendson, o piloto de testes, testem a nova suspensão. Sabe o que isso significa, não?

Claro que sabia. Conhecia o mundo das corridas bem demais para não saber. Quando um

piloto não é informado das últimas novidades técnicas da equipe, é bastante provável que os

responsáveis estejam tentando evitar que ele leve informações preciosas para outra escuderia —

ou seja, nada de renovação do contrato.

— O que quer que eu diga, Roland?

— Nada, não espero que diga nada. Só queria que você usasse o cérebro e o pé que sempre

mostrou ter nas corridas.

Houve um instante quase imperceptível de pausa.

— Está com ela, não?

Jochen não pôde evitar um sorriso.

Roland não tinha qualquer simpatia por Arijane, que, em suas conversas, não tinha nome, era

simplesmente “ela”. A bem da verdade, nenhum empresário teria simpatia pela mulher que

considera responsável pelo esmorecimento de um de seus pilotos. Houve dezenas de mulheres

antes, que Shatz tinha avaliado exatamente pelo que eram: o inevitável corolário de alguém que,

como ele, estava no centro das atenções, inúmeras pequenas e belas luas que brilhavam com a luz

refletida pelo sol do campeão. Estranhamente, tinha ligado as antenas quando Arijane entrou em

sua vida, e se colocara na defensiva. Talvez fosse a hora de explicar que Arijane não era a

doença e sim, se fosse alguma coisa, o sintoma. Jochen escolheu o tom de quem precisa

convencer uma criança teimosa a lavar atrás da orelha.

— Roland, nunca lhe passou pela cabeça que esse filme possa ter chegado ao fim? Tenho 34

anos e muitos pilotos já se aposentaram na minha idade. Os que ainda estão na ativa parecem uma

caricatura do que foram.

Não mencionou propositalmente os nomes dos que estavam mortos. Eram nomes e rostos e

olhos e risos de homens que, de um momento para outro, se transformaram em corpos presos na

carroceria retorcida de um carro, um capacete colorido inclinado de lado, uma ambulância que

nunca é tão rápida quanto deveria, um helicóptero que nunca é tão rápido quanto deveria, um

médico que nunca é tão bom quanto deveria.

Roland teve um rompante de rebelião contra suas palavras.

— Mas o que você está dizendo, Jochen? Nós dois sabemos muito bem como é a Fórmula 1,

mas tenho um monte de propostas vindas dos Estados Unidos para a Cart. Você ainda tem muito

tempo para se divertir e ganhar um monte de dinheiro sem correr muitos riscos.

Jochen não teve coragem de jogar água na fogueira empresarial de Roland. Dinheiro não era

seguramente o incentivo que poderia mudar seu estado de espírito. Tinha o suficiente para duas

gerações, dinheiro ganho arriscando o pescoço por todos aqueles anos. Nunca se deixou

envolver, como vários de seus colegas, pelo turbilhão do avião particular, do helicóptero ou das

mansões espalhadas por vários lugares no mundo. Não teve ânimo de dizer a Shatz que o

problema era outro; que, infelizmente, ele não se divertia mais. Por algum motivo, a corda havia

se rompido e, por sorte, não aconteceu quando ele estava equilibrado em cima dela.

— Tudo bem, podemos conversar.

Shatz entendeu que não era o caso de insistir, pelo menos por enquanto.

— Certo, tente recuperar a forma para a Espanha. O mundial ainda não está decidido e basta

um par de belas corridas para entrar no páreo de novo. E trate de se divertir nesse meio-tempo,

bonitão!

Roland desligou e Jochen ficou olhando o aparelho, quase vendo o rosto pensativo do

empresário do outro lado.

— Muito bem! É só eu me afastar e você gruda no telefone. Devo suspeitar que existe outra

mulher na sua vida?

Arijane saiu para o convés e caminhou em sua direção esfregando os cabelos com uma toalha.

— Não, era o Roland.

— Ah!

O monossílabo retratava toda a situação entre eles.

— Ele não tem muita simpatia por mim, não é?

Jochen puxou-a para si, envolvendo sua cintura delicada com os braços. Encostou o rosto em

seu ventre e falou sem olhá-la nos olhos.

— O problema não é esse. Roland tem lá suas preocupações, como todo mundo, mas é um

amigo e age com absoluta boa-fé.

Arijane acariciou seus cabelos.

— Falou com ele?

— Não, preferi não falar pelo telefone. Acho que vou falar com ele e com Ferguson em

Barcelona, na semana que vem. Em todo caso, vou fazer o anúncio oficial da aposentadoria no

fim da temporada. Não quero que os jornalistas me persigam mais do que já perseguem.

A história deles tinha sido um prato saborosíssimo para a imprensa do mundo inteiro. Seus

rostos estiveram nas primeiras páginas de revistas e jornais por meses e os repórteres tinham

feito a festa, escrevendo e inventando tudo o que podiam a seu respeito.

Jochen levantou o rosto para ela e procurou seus olhos. Sua voz era um sussurro emocionado.

— Eu te amo, Arijane. Amava você antes mesmo de te conhecer e não sabia.

Ela não respondeu. Limitou-se a olhar para ele sob o reflexo da luz que vinha da cabine.

Jochen sentiu um pequeno arrepio de insegurança, mas agora tinha dito e não podia, nem queria,

voltar atrás.

SEGUNDO CARNAVAL

A CABEÇA DO HOMEM EMERGE da água não muito longe da proa do Beneteau. Através da viseira

da máscara de mergulho identifica a corrente da âncora e, batendo os pés lentamente, se

aproxima. Agarra-se com a mão direita e fica observando o barco que reflete a luz da lua cheia

no casco de fibra de vidro. Sua respiração no snorkel é calma e tranquila.

O cilindro de cinco litros que carrega nas costas não é adequado para longas imersões, mas é

leve, manejável e garante autonomia suficiente para suas necessidades. Usa um macacão preto,

anônimo, sem inscrições ou logotipos coloridos, suficientemente grosso para garantir uma boa

proteção contra o frio durante sua permanência na água. Não pode usar nenhum tipo de lanterna

elétrica, mas a luz quase descarada da lua cheia evita que sinta falta dela. Prestando bastante

atenção para não provocar a menor marola, desliza de novo à flor-d’água, margeia a silhueta do

casco submerso, com a longa quilha à contraluz voltada para as profundezas escuras, mais

abaixo. Emerge na popa da embarcação e pendura-se na escada que ficou abaixada.

Tudo bem.

Isso evita evoluções para conseguir subir a bordo. Desamarra o pedaço de corda que traz ao

redor da cintura. Engancha um mosquetão na escada e antes de mais nada pendura no que deixou

na outra extremidade a caixa hermeticamente fechada que trouxe consigo. Quer tirar o cilindro, os

pés de pato e os pesos de chumbo e deixá-los amarrados à escada, um metro acima da linha da

água.

Não pode se dar ao luxo de ter os movimentos limitados, embora o fato de agir de surpresa

contra duas pessoas adormecidas conte a seu favor e facilite sua tarefa.

Está começando a tirar o pé de pato quando ouve passos sobre o convés do barco. Abandona a

escada e desloca-se para a direita, para ter a proteção da amurada. De seu posto entre as

sombras, vê a moça sair a céu aberto e ficar em pé, como encantada pelo jogo da lua no mar

calmo e liso. Por alguns instantes, o roupão branco que usa é apenas mais um reflexo, mas

depois, com um gesto fluido, a moça o deixa cair no chão e fica nua sob o luar.

De sua posição, o homem pode ver seu perfil: admira seu corpo sólido, a linha perfeita do seio

pequeno e firme e segue com o olhar a linha das nádegas que se dissolve nas pernas longas e

inquietas.

Com movimentos que parecem de mercúrio, a jovem mulher vai até a escada e estica um pé

para experimentar a temperatura da água.

O homem sorri e é o sorriso pontiagudo de um tubarão.

Não consegue acreditar na própria sorte.

Espera ardentemente que a moça não tema o confronto com a água fria e sucumba ao fascínio

de um banho de mar à luz da lua cheia. Como se tivesse captado seu pensamento, a moça se volta,

começa a descer a escada e se deixa levar pelas ondas, estremecendo com a temperatura frisante

da água, que deixa sua pele arrepiada e os bicos dos seios eriçados.

Afasta-se do barco nadando em direção ao mar aberto, do lado oposto àquele onde a figura de

macacão preto espreita. O movimento silencioso com que o homem afunda para dentro d’água

tem a sinistra fluidez do predador que dá início ao jogo da caça contra a presa indefesa, um jogo

cruel que sempre tem a vida como prêmio.

Ajudando-se com as mãos, esvazia completamente os pulmões através do bocal para descer

com mais facilidade. Em seguida, paralelamente ao fundo do barco, começa a se mover na

direção da moça. Pouco depois, chega embaixo dela, levanta a cabeça e consegue vê-la lá no

alto, mancha escura na superfície contra a luz, movendo pés e mãos para se manter à tona. Sobe

lentamente, respirando devagar para não trair sua presença com bolhas d’água. Quando a moça

está ao alcance de suas mãos, agarra seus tornozelos e puxa-a para baixo com toda a força.

Surpresa, Arijane sente o puxão violento que a arrasta da superfície. O movimento que a puxa

para o fundo foi tão repentino que não teve nem tempo de encher os pulmões de ar. Num segundo,

está a um metro de profundidade e quase imediatamente sente que a garra em seu tornozelo se

solta. Bate os pés instintivamente para tentar subir, mas duas mãos pousam em seus ombros, com

um peso que a empurra para baixo, para o fundo, longe da superfície que brilha sobre sua cabeça

como uma promessa mentirosa de ar e de luz. Sente dois braços de ferro circundarem seu busto

fechando-se como um cinto sobre os seios, o contato viscoso do neoprene do macacão de

mergulho aderindo às suas costas nuas e um corpo desconhecido enlaçado ao seu, enquanto o

agressor circunda sua bacia com as pernas tentando impedir qualquer movimento.

O terror envolve a razão como um muro de gelo.

Começa a tentar se soltar selvagemente, gemendo, mas seus pulmões, já sem oxigênio,

queimam num segundo todas as suas parcas reservas. Na mesma medida em que cresce a

necessidade de ar, Arijane sente suas forças se apagarem, cada vez mais à mercê do abraço

mortal do corpo solidamente colado ao seu, que a arrasta inexoravelmente para a noite sem lua

das profundezas.

Percebe que está morrendo, que alguém a está matando sem que lhe seja concedido nem saber

o porquê. De seus olhos escorrem salgadas as lágrimas de lamento que vão se confundir com os

milhares de gotas anônimas no mar indiferente que a envolve. Sente a escuridão daquele abraço

se expandir e começar a fazer parte dela mesma, como um vidrinho de tinta negra jogado na água

limpa de uma bacia. Uma mão fria e impiedosa começa a penetrar freneticamente em todo o seu

corpo, dentro e fora, como se tentasse extinguir qualquer mínima centelha de vida em seu

caminho, até conseguir atingir seu jovem coração de mulher e pará-lo para sempre.

O homem sente aquele corpo relaxar repentinamente, no momento em que a vida o abandona.

Espera alguns instantes, vira o cadáver da moça com o rosto para si, enfia os braços sob as

axilas e começa a mover os pés de pato em direção ao alto. À medida que se aproxima da

superfície luminosa, o rosto da jovem mulher deixa de ser uma mancha escura e ganha forma

lentamente do outro lado da viseira da máscara. Aparecem as feições delicadas, o nariz sutil, a

boca semiaberta da qual saem algumas poucas, últimas, enganadoras bolinhas de ar. Aparecem os

esplêndidos olhos verdes sem vida fixados pelo flash impiedoso da morte no momento em que se

aproximam daquela luz que não podem mais ver e que não lhes pertence mais.

O homem vê surgir o rosto da mulher que matou como um fotógrafo revela uma fotografia cujo

resultado o deixa particularmente ansioso. Quando está perfeitamente seguro da beleza daquele

rosto, o tubarão sorri novamente.

A cabeça do homem emerge finalmente na superfície da água. Sempre segurando o cadáver,

aproxima-se da escada. Pega a corda previamente amarrada à estrutura tubular de metal e passa

ao redor do pescoço da mulher, para que a segure enquanto ele se livra do cilindro e do snorkel.

O corpo desliza sob a superfície da água provocando um leve remoinho. Os cabelos da moça

ficam boiando a poucos centímetros da superfície, seguindo o movimento das ondas contra o

casco, balançando levemente como os tentáculos de uma medusa sob a luz da lua.