Experiência e memória: a palavra contada e a palavra cantada de um nordestino na Amazônia por Fabíola Holanda Barbosa - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub, Kindle para obter uma versão completa.

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA SOCIAL

EXPERIÊNCIA E MEMÓRIA

A PALAVRA CONTADA E A PALAVRA CANTADA

DE UM NORDESTINO NA AMAZÔNIA

Fabíola Holanda Barbosa

São Paulo, 2006

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA SOCIAL

EXPERIÊNCIA E MEMÓRIA

A PALAVRA CONTADA E A PALAVRA CANTADA

DE UM NORDESTINO NA AMAZÔNIA

Fabíola Holanda Barbosa

Tese apresentada ao Programa de Pós-

Graduação em História Social, do

Departamento de História da Faculdade de

Filosofia, Letras e Ciências Humanas da

Universidade de São Paulo, para obtenção

do título de doutor em História.

Orientador: Prof. Dr. José Carlos Sebe Bom Meihy

São Paulo, 2006

EXPERIÊNCIA E MEMÓRIA

A Palavra Contada e a Palavra Cantada

de um Nordestino na Amazônia

Para Adálio Pereira de Oliveira, colaborador ideal.

Para meus avôs, Antônio e Josué. (in memória)

Para minhas avós, Izabel e Ester.

AGRADECIMENTOS

Aos meus pais: Jailson e Zezinha, por confiarem sempre e pelo convívio na

“nossa” Perdizes.

À Bianca, Alexandre (que já é irmão) e Vinícius, pelo apoio e “salvamentos”.

À Diogo (também, pelas inúmeras traduções urgentes e inadiáveis) e Carol

(também, irmã), companheiros de república.

A Marcelo, pelo companheirismo e pela infra-estrutura emocional e física nos

últimos tempos.

À Luana e Filipe, pela amizade, pela capa, pelos jantares e vinhos e pela

“Liberdade”.

Á Suzana e Ioka, pelo apoio na chegada, pelos projetos conjuntos e planos

futuros.

Aos meus alunos e amigos do Centro de Hermenêutica do Presente: Ednéia,

Ariana, Cristiane, Deyvesson, Joesér, Márcia, Vanessa e Xênia, por acreditarem

no sonho.

Aos companheiros do NEHO/USP: Ana Luíza, Ana Maria, Andréa Paula,

Alfredo, Fábio, Gustavo, Maurício, Maria, Natanael, Samira e Valéria, pelo

diálogo, pela acolhida e pelo debate em história oral.

À Profª Jerusa Pires Ferreira, por ter me acolhido no grupo de Estudos da

Oralidade e pelas idéias.

Ao Prof. Januário Amaral pelo apoio institucional e incondicional.

À Universidade Federal de Rondônia, À Fundação Rio Madeira e a CAPES

pelo apoio financeiro.

E, especialmente, ao Prof. José Carlos Sebe Bom Meihy, mais que um

orientador, um exemplo amigo e intelectual.

RESUMO

Esta pesquisa buscou pensar as relações de experiência, memória e oralidade como

dimensões de uma linha específica de história oral que cada vez mais se pretende autônoma e pública.

Essas relações foram feitas a partir de duas formas narrativas: uma contada - construída em colaboração durante entrevistas com procedimentos dessa história oral e outra narrativa cantada -

composição musical que Adálio Pereira de Oliveira, um nordestino na Amazônia, fez para contar sua história de vida.

Essa linha de história oral valoriza os aspectos subjetivos das experiências narradas e possui pressupostos epistemológicos claros: a colaboração, a mediação e a dimensão pública do texto produzido.

Palavras-Chave: História Oral, Narrativa, Colaboração.

ABSTRACT

This research intended to think about experiences and their relations, memories and orality as dimensions of a specific oral history that becomes more autonomous and public.

Those relations were maid from two narrative forms: one: spoken – built on interviews with a certain oral history procedures and the other: narrative song-composed that Adálio Pereira de Oliveira, a northeastern in Amazon, made to tell his history of life.

This oral history line values the subjective aspects of narrated experiences and clear

epistemological beddings: common work, mediation and the public dimension of the document.

Key Words: Oral History, Narrative, common work.

ÍNDICE

APRESENTAÇÃO

23

PARTE I EXPERIÊNCIA E MEMÓRIA

OS CAMINHOS DA NARRATIVA OU HISTÓRIA DO PROJETO 26

UM POUCO DE VIDA

26

A ESCOLHA DO TEMA E A HISTÓRIA DO PROJETO

28

A COMUNIDADE SANTA MARCELINA E O ENCONTRO COM ADÁLIO 37

OS CAMINHOS DA NARRATIVA E AS ENTREVISTAS

41

PARTE II A HISTÓRIA DE UM NORDESTINO NA AMAZÔNIA

ADÁLIO PEREIRA DE OLIVEIRA 47

A PALAVRA CONTADA

A JORNADA

48

A ESCOLA

65

OS SONHOS

82

A MÚSICA

93

A PALAVRA CANTADA

HISTÓRIA DE UM NORDESTINO NA AMAZÔNIA

100

PARTE III A PALAVRA CONTADA E A PALAVRA CANTADA: UMA LEITURA

PALAVRA CONTADA E A PALAVRA CANTADA: UMA LEITURA POSSÍVEL 116

ABERTURA

116

A PALAVRA CONTADA

118

A Jornada

118

A Escola

148

Os Sonhos

152

A Música

153

PALVARA CANTADA

156

A PALAVRA CONTADA E A PALAVRA CANTADA: UMA CONCLUSÃO POSSÍVEL 162

BIBLIOGRAFIA

HISTÓRIA ORAL/ ORALIDADE/ MEMÓRIA

167

AMAZÔNIA/RONDÔNIA

169

GERAL

170

GALERIA

173

23

APRESENTAÇÃO

Quero iniciar a apresentação da minha tese pelo título que escolhi: “Experiência e Memória: A Palavra Contada e a Palavra Cantada de um Nordestino na Amazônia”.

Experiência e Memória por serem dimensões que delimitam o campo da história oral que

milito. Experiência como resultado de uma vivência específica, singular, do aprendizado da vida.

Memória como exercício, construção, uma elaboração sobre a experiência vivenciada, narrada no momento da entrevista.

A “Palavra Contada” e a “Palavra Cantada” por serem dimensões dadas por Adálio na

própria maneira de narrar sua experiência. Durante sua entrevista, construída em colaboração a partir de procedimentos de uma dada história oral, ele cantou uma música que compôs durante os anos em que esteve nos seringais da Amazônia. A música, “A História de um Nordestino na Amazônia”, é sobre sua vida e nos deu um eixo próprio, advindo da sua compreensão sobre o que significou sua vida. A palavra cantada se apresentou como fio condutor da palavra contada, mas que em alguns momentos silenciava sobre determinados temas que foram contados na entrevista. Esses vazios, silêncios, omissões, geraram em mim inquietações e muitas perguntas sobre narratividade, oralidade, memória, tudo isso como aspectos de uma narrativa que conta uma experiência única, preocupação central da história oral em que me insiro. Estou pensando narrativa como maneira de contar essas experiências vividas, valorizando-a, como nos diz Meihy, enquanto “elemento comunicativo prenhe de sugestões” (1991: 31) e, ao mesmo tempo, como idéia de captação de cultura desenvolvida por Ferreira1 (2004), nos seus trabalhos sobre oralidade e memória. O fazer desse novo texto (a narrativa) permite, como afirma Meihy, “que se pense a entrevista como algo ficcional e, sem constrangimento, se aceita esta condição no lugar de uma cientificidade que seria ainda mais postiça” (1991: 31).

De “um nordestino na Amazônia” porque é dessa maneira que Adálio se apresenta e por ser um dos elos de aproximação entre eu e meu colaborador. Demorei a entender os motivos de tanta identificação, da necessidade de compreender esse homem e de lutar por sua narrativa em particular.

Somente numa conversa com meu orientador, quando ele apontou para o subtítulo inicial do meu trabalho: “História Oral de um Nordestino na Amazônia” e me perguntou: “Quem é esse

nordestino na Amazônia?” E eu respondi: “É o meu colaborador, ele é nordestino, foi para a Amazônia como “Soldado da Borracha”, durante a Segunda Guerra Mundial.” E ele pacientemente me olhou e insistiu: “Quem é esse nordestino na Amazônia?” E eu continuei sem entender. Até que 1 Essa idéia foi apresentada pela Professora Jerusa Pires Ferreira durante a disciplina: “Poéticas do Oral, Ritmos, Velocidades, Movimentos” ministrada no Programa de Pós-Graduação em Semiótica-PUC/SP no segundo semestre de 2004.

24

ele percebendo que eu não chegaria sozinha perguntou: “O que você é? Onde você está agora?” E

eu entendi: era sobre mim que estávamos falando: sou uma nordestina na Amazônia.

Para ser coerente com a história oral que estou seguindo, que se pauta nos princípios de colaboração e que põe a entrevista no centro da pesquisa, precisava de uma estrutura que evidenciasse a narrativa, colocando meu colaborador no centro do trabalho.

Por isso iniciei com a Parte I “História do Projeto ou Os Caminhos da Narrativa”,

pretendendo fazer uma “descrição” de minha trajetória enquanto oralista, dos passos do projeto, dos caminhos escolhidos, das reflexões teóricas em torno da história oral e das questões que ela incita, de como realizei as entrevistas com Adálio e como estou apresentando-as nesse trabalho. É tentativa de preparar o leitor para a parte principal do trabalho, mas preparar não no sentido de dirigir o olhar e a compreensão, mas de explicar como cheguei até aquele corpus narrativo que apresentarei no capítulo seguinte e que é parte fundamental do trabalho.

A Parte II é o texto de Adálio Pereira de Oliveira, meu colaborador. Nessa parte é ele que se expõe, ele mesmo quem fala, ele quem conta e articula sua experiência. É o momento dele. Sua narrativa está dividida em duas partes: a “Palavra Contada” e a “Palavra Cantada”. As explicações sobre essa divisão se encontra já delineada no primeiro capítulo.

Na terceiro Parte, desenvolvo uma leitura geral do texto-Adálio. E depois pretendo discutir as escolhas temáticas entre a narrativa da canção e do texto geral da entrevista.

Defini Adálio como “texto” para indicar que a compreensão “cristalizada” do homem, do

poeta e da sua narrativa é constructo verbal, estruturado e culturalmente localizado, simbolicamente produzido por diversas instâncias sociais. A narrativa de Adálio é texto no sentido de que os elementos sociais (seca, miséria, sertão, soldado da borracha, Amazônia, doença, etc), que o circunscrevem, podem determinar as escolhas temáticas apresentadas em suas entrevistas e na sua música. Essa é perspectiva de análise encontrada na história oral, na medida que valoriza a narrativa, que é texto construído em colaboração. A minha expectativa é que isso gerasse uma outra interpretação própria dessa história oral, mas aqui na tese só consegui indicar um possível caminho.

O caminho pode ser de uma história pública, essa história oral, que valoriza a construção da narrativa e que possui pressupostos epistemológicos claros: a colaboração, a mediação e a dimensão pública do texto produzido, buscando saltar os muros da academia e buscando um maior impacto e inserção social do texto em história oral em espaços maiores.

Por fim, gostaria de apresentar como anexo um CD com a composição do meu colaborador

e algumas fotos ilustrativas para que o leitor possa visualizar melhor o local das entrevistas e conhecer o meu colaborador.

25

PARTE I

EXPERIÊNCIA E MEMÓRIA

26

OS CAMINHOS DA NARRATIVA OU HISTÓRIA DO PROJETO

Contar a história de um projeto é quase um trabalho de ego-história2. Explicitar esse trajeto é fundamental em trabalhos acadêmicos, especialmente em história oral, onde as escolhas

operacionais, caminhos trilhados, estão muito ligadas às questões pessoais, de experiências compartilhadas com sua comunidade de destino3. Daí iniciar o texto contando um pouco do caminho pessoal e como cheguei ao tema de pesquisa. Depois, os rumos e procedimentos que tomei, até o encontro com o tema deste trabalho. Explicando de onde falo e justificando o meu campo de atuação em história oral, esperando não ter caído na ilusão biográfica ou autobiográfica que nos alerta Bourdieu (1996, 183-191), de que essas narrativas tratam, normalmente, uma vida como uma trajetória de coerência, como um fio único, quando sabemos que, na existência de qualquer pessoa, multiplicam-se as causalidades, as oportunidades, as escolhas, as sortes.

Um pouco de vida

Cheguei a Porto Velho, Rondônia, indo do Recife, em julho de 1993, e, ainda, finalizando minha graduação em história. Tinha quase 20 anos e muitos e novos caminhos se apresentaram, e fui assumindo-os intuitivamente. A primeira decisão foi escolher entre finalizar o curso na Universidade Federal de Rondônia ou voltar para Recife e concluí-lo onde iniciei, na Universidade Federal de Pernambuco. As minhas pretensões acadêmicas eram jovens como eu mesma o era nesse período. Optei por ficar em Porto Velho e concluir o curso na UNIR. Essa escolha me aproximou dos temas da região, das problemáticas locais e pouco a pouco fui adentrando no cosmo amazônico.

A aproximação com este “novo mundo” foi fundamental, pois vinha de uma experiência de

pesquisa em História, iniciada no segundo semestre da graduação, onde tinha como foco o Nordeste e o trabalho de pesquisa em arquivo público, com uma documentação muito peculiar. Num primeiro momento trabalhei com jornais da segunda metade do século XIX buscando compreender a partir das notícias sobre conflitos entre portugueses e brasileiros o comércio a retalho na cidade do Recife.

Essa pesquisa se vinculava a um projeto multidisciplinar sobre a História do Nordeste e envolvia os cursos de História, Direito e Economia da UFPE, sob a orientação do Prof. Dr. Marc Jay Hoffnagel, 2 Pierre Nora lançou a idéia de “ego-história” numa coletânea de ensaios onde estão reunidas oito autobiografias: George Duby, Jacques Le Goff, Pierre Duby, dentre outros. Eram autores conhecidos falando sobre sua trajetória pessoal ou relacionando-a com a escolha de determinado período ou campo histórico.

3 O Conceito de comunidade de destino foi estabelecido por meihy para designar o grupo de pessoas que iremos estudar, é aquilo que identifica as pessoas, o motivo, os traços que as reúnem em características afins (1996: 53-67).

27

do departamento de História daquela Universidade. Então, meu plano individual de trabalho consistiu em buscar e analisar as notícias sobre os conflitos entre Portugueses e Brasileiros no jornal

“O Brado do Povo” que veiculava no período pesquisado e apresentava uma linha editorial que se posicionava a favor dos comerciantes brasileiros. Outra experiência importante com a pesquisa em História foi o estágio no Arquivo Público Estadual de Pernambuco na organização do acervo do Departamento de Ordem Política e Social-DOPS, que estava saindo da guarda da Secretaria de Segurança Pública e sendo recebido pela Secretaria de Educação e Cultura, para que fosse organizado e disponibilizado, posteriormente, ao público. Além disso, realizei pesquisas particulares em jornais e na seção de manuscritos. Essa vivência no Arquivo, que durou até minha ida para Porto Velho, me pôs em contato com a documentação que fundamentou minha monografia de final de curso sobre insurreições de escravos ocorridas nos municípios da Zona da Mata de Pernambuco, no período de 1842/1866. A base documental foram as correspondências trocadas entre delegados, chefes de polícia e senhores de escravos, que faziam parte do Códice Polícia Civil, da Seção de Manuscritos do Arquivo Público Estadual de Pernambuco.

Demorei a me desvincular dos temas do Nordeste e do século XIX, pois apesar de estar cursando o Bacharelado na Federal de Rondônia, minha monografia versava sobre História de Pernambuco e, ainda que tivesse cursado disciplinas como: História Regional; História da Amazônia, não conseguia identificar-me com temas regionais macro: ciclos econômicos da Amazônia, o garimpo, a borracha, a construção da BR 364; os projetos de colonização; os ribeirinhos, os índios.

Só alguns anos mais tarde é que encontrei o “meu Norte”.

Os três anos seguintes após o término do curso foram dedicados ao ensino de História:

ministrei aulas em turmas do ensino fundamental, médio e pré-vestibulares e ainda tive uma experiência especial como coordenadora pedagógica do ensino médio. Dessa experiência nasceu em mim o gosto pelo ensino, pela sala de aula, pois antes, quando ainda cursava a graduação, meu objetivo era a pesquisa em História, e de preferência, em arquivo. Não me sentia nem um pouco inclinada ao ensino. Mas os caminhos eram novos e eu precisava trilhá-los à maneira do lugar.

Percorri os caminhos do ensino secundário quando surgiu a oportunidade de concurso

público para docente no departamento de História na Universidade Federal de Rondônia. O

Concurso era na área de História Regional e, de alguma maneira, me vi impelida a tentar por alguns motivos: a possibilidade de retomar minha trajetória de pesquisa em História; das possibilidades que o Ensino Superior representava na minha carreira como docente; a oportunidade de estudar pontualmente os temas regionais e, também, porque queria compartilhar da construção de uma universidade que se fazia nos porões, mais especificamente, na sala 18, no prédio central. Ali se reuniam os professores que estavam fazendo pós-graduação e que aos poucos se constituíram num 28

grupo de estudos que deu origem aos principais grupos de pesquisa em ciências humanas que atuam, hoje, na universidade.

Um desses grupos é o Centro de Hermenêutica do Presente4, do qual faço parte desde 1996, antes mesmo de ter me tornado docente, em 1997. Fazer parte do Centro de Pesquisa e me tornar professora da Universidade me puseram em contato com os estudos sobre o lugar e com a história oral. Esses dois encontros foram definidores do rumo que tomei, pois foi com a história oral que encontrei sentido em estudar o meu novo lugar.

A Escolha do Tema e a História do Projeto

A escolha pelo tema nordestinos na Amazônia se justificava não só pelo fato de eu mesma ser uma nordestina que migrou para a Amazônia, mas porque essa temática é geradora de uma linha explicativa sobre a colonização e ocupação do lugar, que consideram os dois momentos da migração nordestina para Amazônia, o primeiro no final do século XIX, motivado pela seca, caracterizando-se como uma migração familiar e sertaneja, e a segunda, no período de 1943 a 1945, motivada pela chamada “Batalha da Borracha” em decorrência do envolvimento do Brasil na Segunda Guerra Mundial, como processos migratórios efetivos, planejados e incentivados pelo governo dos respectivos períodos e que foram responsáveis pela produção do espaço dessa região5.

Durante os anos de 1942 e 1945, cerca de 60 mil pessoas foram enviadas para os seringais da Amazônia (Benchimol, 1965/1977/1999; Neces, 2004). Considerando o que nos diz Ferreira(2), que a “história oral nasceu e se desenvolveu extremamente vinculada a problemática dos estudos das identidades” (Meihy, 2002:69), as duas questões se aproximavam, o fato da migração nordestina ter sido intensa na região e a possibilidade de trazer a questão por uma outra perspectiva, a dos migrantes.

Cheguei ao tema inicial do meu projeto, “História Oral de Nordestinos na Amazônia”, por vias tortas. Em 1996 entrei em contato efetivo com a história oral através de textos que me eram enviados por Alberto Lins Caldas, que estava fazendo seu doutorado em Geografia Humana na USP

4 O Centro de Hermenêutica do Presente foi criado partir de 1996 e é constituído por professores e alunos da Universidade Federal de Rondônia (UFRO), que desenvolvem atividades acadêmicas e de pesquisa que tem como referência a Hermenêutica do Presente, crítica desenvolvida pelo Prof. Alberto Lins Caldas. Os vínculos entre a perspectiva teórica da Hermenêutica do Presente e a prática de pesquisa tem sido concretizada a partir de uma dada história oral, que tem como teórico principal o Prof. José Carlos Sebe Bom Meihy (USP).

5 Essa linha explicativa pode ser encontrada nos trabalhos de Benchimol (1977,1992); Medeiros Filho e Souza (1983); Martinello (1985); Silva (2000) e Neces (2004). E gostaria, também de esclarecer que quando me refiro a produção do espaço, me refiro à aqueles gerados pela colonização como programa governamental e pela migração, nesse caso nordestina, e não os espaços definidos pela população do lugar, como os povos indígenas e ribeirinhos.

29

e cursando uma disciplina na História, ministrada pelo Prof. José Carlos Sebe Bom Meihy, intitulada: “História Oral, Memória e Relações Disciplinares”.

Ao mesmo tempo, tomei conhecimento de uma Comunidade administrada por Freiras

Marcelinas, um lugar diferenciado não só pela sua formação forçada, a partir de uma doença historicamente conhecida como doença dos impuros, a Lepra, mas por reproduzir espaços de convivência diferentes num mesmo lugar: o hospitalar, o religioso, o escolar, o de lazer e as moradias. O passo seguinte foi a elaboração de um Projeto de história oral, nos moldes do Manual de História Oral (Meihy, 1996), que foi o primeiro dos muitos textos que me foi enviado e que possibilitou a elaboração do Texto de pesquisa, já considerando os procedimentos e conceitos que ele trazia e que eram inovadores no sentido de diferenciar a pesquisa em história oral da pesquisa com fontes orais.

O Projeto intitulava-se: “Cidade dos Excluídos: História de Vida com Moradores da

Comunidade Santa Marcelina”6 e o objetivo geral era compreender os modos de vida de pessoas que vivem forçadas numa comunidade em torno de uma instituição localizada na BR 364, sentido Cuiabá, entre as cidades de Porto Velho e Candeias do Jamari, no Estado de Rondônia, onde funciona uma escola, um Hospital, uma pequena área residencial na entrada da comunidade e mais quatro pavilhões, onde moram pessoas que foram hansenianas e perderam suas famílias ou foram abandonadas, tendo como alvo exatamente essas pessoas que moram na comunidade. Esta

"colônia"7 serviu para discutirmos se havia realmente uma percepção sobre o confinamento familiar e social sofrido e principalmente, para compreendermos qual a visão de mundo e as expectativas de vida dessas pessoas.

Foi nessa comunidade que conheci meu colaborador: Adálio Pereira de Oliveira, ex-soldado da borracha, hanseniano, poeta, um narrador que se predispôs a contar sua história de vida. Das conversas iniciais com Adálio nasceu o projeto de história oral com a comunidade e ao mesmo tempo, o de estudar nordestinos, ex-soldados da borracha, em programa de pós-graduação.

“A Jornada do Herói: História Oral com Ex-Soldados da Borracha” seria o título inicial do meu projeto, que tinha como objetivo estudar o processo de deslocamento de nordestinos para os seringais de Rondônia, feito no Estado Novo, durante a Segunda Guerra Mundial. A esse

deslocamento a propaganda oficial denominou de "Batalha da Borracha" e os migrantes que dela participaram foram chamados de "Soldados da Borracha". A idéia era pautar por uma linha de 6 Essa pesquisa recebeu apoio financeiro do CNPq e contou com a colaboração de Ednéia Bento de Souza e Ariana Boaventura, alunas do Departamento de História da Universidade Federal de Rondônia e bolsistas do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação Científica no período 2000-2002. Ver também os resumos publicados no Anais do VI Encontro Nacional de História Oral, realizado em São Paulo no ano de 2002.