Experiência e memória: a palavra contada e a palavra cantada de um nordestino na Amazônia por Fabíola Holanda Barbosa - Versão HTML

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7 Colônia é um dos conceitos apresentados por Meihy no seu Manual de História Oral (1996a). Entende-se “ por

‘colônia’ um grupo amplo que tenha uma ‘comunidade de destino’ (1996a:53). “Comunidade de destino é aquilo que identifica as pessoas, o motivo, os traços que as reúnem em características afins (1996a: 53-67).

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estudo que privilegiasse a narração dos remanescentes dessa migração, os aludidos Soldados da Borracha, buscando, a partir das suas trajetórias individuais como se apresentavam na narrativa a relação entre memória e história, ou seja, como acontecia a apropriação nas suas memórias e trajetórias individuais, dos discursos historiográficos sobre a guerra, a propaganda, o alistamento e a vida nos seringais da Amazônia. Além de identificar as estratégias por eles utilizadas para se apropriarem do estímulo migratório do Estado e delinear os pressupostos oficiais do Estado Novo, que alimentaram a elaboração e a execução da “Batalha da Borracha”, como por exemplo: as idéias de Nação, como a manutenção das fronteiras do Território Nacional e ocupação da Região

Amazônica se apresentavam nos seus relatos.

Pretendia com esse projeto, partindo da possibilidade teórica da história oral como

instrumento capaz de diagnosticar o presente, explicitado por meio de um processo transcriativo (Meihy, 1990, 1991, 1996a), fazer um estudo extenso e profundo sobre a visão de mundo, planos e sonhos dessas pessoas, enfim, dos vínculos subjetivos que impulsionaram a experiência desses homens. Este estudo seria feito através de gravações constituídas num processo de entrevista, com procedimentos específicos de história oral de vida, que consiste na narração do conjunto da experiência de vida de uma pessoa e que tende a ser muito mais subjetiva, onde o colaborador é o sujeito primordial da pesquisa e, na qual, tem maior liberdade de dissertar livremente sobre sua vivência pessoal (Meihy, 2002: 130-131). O Colaborador primordial da minha pesquisa foi Adálio Pereira de Oliveira.

Esse percurso de quase sete anos faz parte de um outro: o desenvolvimento de uma certa

história oral que orientou e norteia as pesquisas desenvolvidas no “Centro de Hermenêutica do Presente”, na Universidade Federal de Rondônia. A linha de história oral que desenvolvo tem antecessores: Lewis (1959), Viezzer (1984), Burgos (1987), Porteli (1993, 1994, 2001), Patai (1991) e Meihy (1990, 1991, 1993, 1996ab, 2004), este bem mais perto de nós, que redimensiona o papel do entrevistado, colocando-o no centro da pesquisa não mais como simples depoente, mas como colaborador8, participante imprescindível, sem o qual o trabalho não seria possível e com quem

“pudemos repartir as responsabilidades” (1990: 22); e com procedimentos de entrevistas que tentavam por em prática a narração livre.

Essa perspectiva de história oral na qual atuo, explora as relações entre memória, história, narrativas e texto, redefinindo as relações entre passado-presente, onde as narrativas são construções localizadas dos sujeitos. Levando-se em consideração, não somente as informações contidas nos 8 O Conceito de Colaborador, estabelecido por Meihy (1990: 22; 1996a: 53), propõe reposicionamento do entrevistado, que deixa de ser informante, ator social ou objeto de pesquisa e passa a ser a pessoa que aceitará ser entrevistada, ocupando papel preponderante na pesquisa, sem os quais a mesma não seria viabilizada, interferindo na feitura do texto em todos os seus estágios.

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relatos, mas o próprio modo de narrar. Daí a importância de nos atermos ao momento da entrevista com cuidados éticos que garantam ao colaborador o “espaço para que sua história seja encadeada segundo sua vontade e condições” (Meihy, 2002;131; Caldas, 1999: 124), e dessa maneira, escolher por onde e como gostaria de narrar, sem impor a temporalidade e a organização narrativa do pesquisador, não tendo essa perspectiva nada a ver com uma pretensa não interferência, pois a história oral ao se desenvolver como um diálogo assume a relação entre o oralista e o colaborador.

Cabe esclarecer nesse ponto algumas questões envolvendo voluntarismo, estímulo e tom

vital.

Em primeiro lugar, o voluntarismo se dá porque é o colaborador que escolhe por onde quer começar a contar sua experiência, mas dessa escolha não estamos excluindo ou apagando o contexto em que a entrevista aconteceu, a presença do gravador e mediação do oralista. Tudo isso, é claro, interfere nessa escolha. Essa opção por fazer com que o colaborador construa sua narrativa não é ingênua, mas sim postura diante do que queremos ao realizar tal entrevista: queremos que as narrativas tenham personalidade, que elas apresentem inícios diferentes, percursos de acordo com a trajetória da vida estabelecida a partir do contar do colaborador e não entrevistas onde se pode

“adivinhar” as perguntas que cortaram os textos, as emendas, que mesmo depois da textualização aparecem, porque se repetem exaustivamente em todas as entrevistas apresentadas. Não partimos de perguntas por que não queremos informação sobre algo, queremos compreender como o nosso colaborador articula a narrativa sobre sua vida.

Dito isto, fica claro que o estímulo existe durante todo o processo, afinal é para o oralista que a entrevista será dada, é entre oralista e colaborador que se dará o diálogo e não há incoerência entre o voluntarismo e o estímulo, pois o que teremos é resultado de um processo transcriativo, que se inicia desde a elaboração do projeto até a recepção pública das narrativas (Caldas, 1999: 71-79).

Essa história oral, que era inicialmente um “locus multidisciplinar federativo” (Meihy, 1996b: 48-55), vai apresentando-se como um conhecimento autônomo e radical (Meihy, 2003: 31-41), exigindo cada vez mais uma postura teórica diferenciada e geradora de um tipo de leitura e de interpretação não somente novas, mas próprias da história oral diante dos textos transcriados nesse processo. Entre o primeiro texto que define a história oral como “locus multidisciplinar federativo”

(1996) e o texto “Radicalização da História Oral” (2003), temos as cinco versões do Manual de História Oral (Meihy, 1996; 1998, 2000, 2002, 2005), através das quais podemos perceber a mudança no estatuto dessa história oral.

No primeiro Manual a História Oral já é apresentada como um conjunto de procedimentos

específicos que vai desde a elaboração do projeto até a devolução pública do trabalho, se diferenciando dos trabalhos com Fontes Orais. A entrevista já apresentava papel preponderante no 32

trabalho e isso se notava a partir dos conceitos sistematizados por Meihy: de Colaborador, Colônia e Rede e ao estabelecer etapas operacionais para a construção do documento em história oral: pré-

entrevista, entrevista propriamente dita, transcrição, textualização, transcriação, conferência, carta de cessão, publicação e arquivamento. Nesse ponto já se assumiu uma percepção diferenciada da importância da entrevista ao constituí-la em colaboração, e por redimensionar o papel do entrevistado. Mesmo assim, o Manual apontava para outras possibilidades de trabalhos com entrevistas, aliás essa marca se manteve nas edições seguintes.

Do segundo Manual para o quarto, aparece a preocupação de diferenciar como esta linha de história oral compreendia as relações entre Memória e História; Oralidade e Escrita; Identidade. É

um momento interessante porque vai indicar que o conjunto desses conceitos, idéias e preocupações poderiam conferir-lhe um status diferenciado, a partir do estabelecimento de um corpus teórico próprio, diretamente relacionado com suas práticas. Já neste momento, não resta dúvida que não é mais possível pensar na história oral como “mera prática de registros, arquivamentos ou substituição documental”(Meihy, 2005: 9) e que é necessário a construção desse corpus e isso não pode ser feito no modelo editorial de um manual.

Do quarto Manual para o quinto toda essa idéia se reforça e ganha espaço. A parte

operacional cede espaço para a apresentação pontual dos conceitos e, pelo menos, dois caminhos se abrem: um que conduz a uma história oral política, atuante, fomentadora de políticas públicas, que diz respeito a um grupo, a uma comunidade, e outra história oral, que abre para os caminhos textuais, para as discussões sobre oralidade, para o trabalho com o indivíduo e a sua experiência, a politicidade da história oral acontecerá em outra esfera, na esfera da consciência, do eu que se diz ao narrar sua experiência de vida e consegue dar sentido a sua existência. E a radicalização está na apresentação da história oral, não mais como um lugar onde todos podem usufruir sem atravessar as fronteiras disciplinares, mas como um Sistema, ela não é mais somente a parte que vai construir o documento, somente a parte procedimental, mas toda a articulação que se compreende desde a elaboração do projeto até a construção de uma interpretação própria.

É a essa concepção de história oral que meu trabalho se filia, especialmente na abertura que ela dá para pensarmos a entrevista enquanto texto transcriado em colaboração. Agora não teremos mais entrevistas, nem documento no sentido positivista, que assim como a “concepção Clássica de Texto”, institucional e corrente, como nos diz Barthes “está, evidentemente, ligada a uma metafísica, a da verdade” (2004: 264). Teremos texto no sentido barthesiano do “texto único”, integral, como “entrada de uma rede de mil entradas”, e não como acesso a um Modelo (1992: 46), que é induzido por uma formação a priori. O texto em história oral como referente de si mesmo (Caldas, 2001: 20) carrega consigo a própria teoria e se abre a múltiplos significados. O texto como 33

“intertexto”, como “uma prática significante”, como “produtividade” e não como produto, mas como teatro de uma produção. Assim tratamos as narrativas em história oral. É preciso marcar a diferença. Não estamos construindo “texto-documento”, “entrevistas-documento”, mas texto, que difere, aqui, de documento, não somente no nome, mas como postura interpretativa: “é necessário emancipar o status monológico legal da significação e pluralizá-la” (Barthes, 2004: 273), pois estamos encarando as narrativas como “espaço polissêmico no qual se entrecruzam vários sentidos possíveis” (2004: 272/273). Daí esse texto exigir outra postura de leitura, que não as das “disciplinas canônicas” (História, Sociologia, Lingüística, Psicanálise, Antropologia), e, também, que não as despreze, mas que sejam utilizadas “parcialmente, livremente e, sobretudo, relativamente”, criando um campo interpretativo “sobredeterminado, plural” (2004: 285). Por isso mesmo, essa história oral, difere das demais que estão integradas a uma disciplina como instrumentos e técnicas, ou como metodologia de pesquisa, “que apenas estabelece e ordena procedimentos de trabalho”, mas que “as soluções e explicações devem ser buscadas onde sempre tiveram: na boa e velha Teoria da História”

(Ferreira(2); Amado, 1996: XVI), e poderíamos acrescentar, na sociologia, na Antropologia, na Geografia. Essa idéia, que é aceita por boa parte dos historiadores orais brasileiros9, reduz a história oral a trabalhos com fontes orais, ou seja, as entrevistas de pessoas, de indivíduos, são utilizadas aos fragmentos para corroborar e justificar suas hipóteses e problemáticas.

Junto com essa trajetória da própria história oral se colocava a questão da História de Vida de Adálio, a forma como ele narrava, e as suas experiências que fizeram com que eu percebesse que minha contribuição se daria no sentido de colaborar com a nova face dessa história oral que se delineia.

Quanto mais entrevistava Adálio, textualizava suas entrevistas, mais me distanciava dos temas: “Era Vargas”, “Estado Novo”, “Batalha da Borracha” e me aproximava de sua vida, dos seus sonhos, da sua experiência e, nessa perspectiva, essa história oral tendia a se fundar na experiência do indivíduo. E me dava conta da minha própria experiência e como minha trajetória muitas vezes se colava e se descolava da vida de Adálio.

Ele, homem, velho, doente, nordestino, na sua ida para Amazônia deixou mulher, família e na sua narração indica esse trajeto como uma derrocada na sua vida: Eu, mulher, jovem, nordestina, na minha ida para Amazônia construí um lar, uma família, uma vida: ele foi obrigado, não escolheu migrar, eu migrei por livre escolha. Ele foi marcado pela doença e pela dor, e as perdas que teve durante sua vida, são percebidas no seu próprio corpo. A narração de Adálio sobre sua experiência 9 Para verificar os trabalhos dos historiadores orais brasileiros e ver a utilização feita e como de um modo geral se percebe a história oral no Brasil é interessante ler os artigos, textos e resenhas dos encontros nacionais e regionais da Revista da Associação Brasileira de História Oral, os livros organizados por Ferreira e Amado (1996), Meihy (1996), Simson (1997), todos listados na bibliografia.

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é emblemática de muitas outras vidas que fizeram esse percurso, diz respeito a histórias de homens comuns, a maioria dos brasileiros, que foram abandonados pelo poder público e esquecidos pelas disciplinas acadêmicas.

A História de Adálio ganha sentido e relevo porque expressa situações comuns aos grupos com os quais ele se identifica: nordestinos na Amazônia, soldados da borracha, hansenianos, e sugere na narração de sua história de vida aspectos importantes para entendermos a sociedade brasileira, o migrante nordestino. E, também, por sua característica narrativa, por esse poder de contar, ela é completa e abrangente pela coleção de fatos, situações, imagens e sensações arroladas na sua narração.

Como nos lembra Eduardo Silva (1997: 15) não podemos considerar novo “o propósito de

estudar um homem comum como individualidade pensante”, isso já foi feito por Ginzburg (1987) e por Foucault (1984), somente para citar dois importantes trabalhos que fundamentam o próprio

“Dom Oba II” (1997). Sem falar nos trabalhos de Viezzer (1984) e de Burgos (1987), que são referências do gênero de história de vida e fundamentam boa parte dos procedimentos de

entrevistas dos historiadores orais.

A diferença é que este é um trabalho de história oral que trata da experiência de um sujeito, de um indivíduo único e singular, alguém que viveu efetivamente e que, ao ser narrada, gera múltiplas imagens como se tivéssemos entrado numa sala de espelhos, e desvela-se o verdadeiro fascínio da história oral, o fascínio do vivido do qual nos fala Alberti (2004: 15). Não no sentido que ela mesma apresenta como se esse vivido pudesse colorir o passado e deixar-nos mais próximos, como “memória viva” e sim como dimensão do presente que é o tempo eleito por essa história oral (Caldas, 1999; Meihy, 2004a). E a matéria dessa história oral é a narrativa, que “é sempre e inevitavelmente construção, elaboração, seleção de fatos e impressões”(Meihy, 2005:56), no presente (momento da entrevista) sobre um possível passado (o vivido), e que podem trazer alguns elementos como a mentira e o esquecimento, nos fazendo pensar que além do fascínio, a história oral lida com a nostalgia de um passado idealizado e o idílico de um futuro desejado e imaginado. Sentimentos que ligados às emoções, às paixões e à saudade compõem o que Rubem Figgot (Meihy, 2005:56) ) chamou de “a boa narrativa”.

Esse percurso que apresentei com o Manual de História Oral, representa a trajetória de uma linha de história oral, dentre tantas outras que são praticadas no Brasil. Vale mencionar, aqui, alguns balanços feitos sobre a história oral brasileira, que podem facilitar a visualização das principais diferenças dessa outra história oral.

O Primeiro balanço é o da Prof. Alice Beatariz da silva Gordo Lang, “História Oral:

muitas dúvidas, poucas certezas e uma proposta” (1996), que discute basicamente a diferença 35

entre o trabalho com fontes orais e história oral, através de uma proposta de conceituação e a apresentação de uso das entrevistas a partir da sociologia. Neste texto fica claro que o simples uso da entrevista, não configura história oral e que o projeto de pesquisa onde se deve especificar o uso de entrevista é fundamental, bem como os objetivos da pesquisa, que não devem ser pautados “no interesse em comprovar fatos, em acrescentar informações à documentação existente, nem mesmo atestar a veracidade dos relatos, mas conhecer sua vivência e sua versão” (Lang,1996:38). A idéia de que a história oral pressupõe um projeto e que o uso da entrevista vai além do registro documental é ponto pacífico entre os pesquisadores que pensam a história oral como um conhecimento que vai além da técnica de captação de entrevistas.

Na apresentação do livro “Usos e Abusos da História Oral” (1996), as organizadoras:

profª Marieta de Moraes Ferreira e a Profª Janaína Amado, apresentam uma importante discussão sobre o status da história oral, identificando e caracterizando três linhas de atuação em história oral: uma que vê a história oral como uma técnica, e que nesse caso, não considero história oral, pois estaria mais ligado ao trabalho com fontes orais e preocupada apenas com o registro através de entrevistas; uma segunda, que pensa a história oral como uma disciplina autônoma pois considera que o fato do núcleo central da investigação gera uma série de preocupações, como por exemplo, as relações entre escrita e oralidade, que traz para a cena as trajetórias individuais, reformula a relação sujeito/objeto, elege o presente como perspectiva temporal das narrativas, tem um apelo público que ultrapassa os muros da academia que exige toda uma discussão sobre quem é quem na história oral. Nesse caso, a valorização da narrativa pede, também, caminhos alternativos de interpretação. E

uma terceira linha, que defende a história oral como uma metodologia que pode estabelecer e ordenar procedimentos de trabalho, formular as perguntas e suscitar questões, mas não pode resolvê-las - isso cabe ao campo teórico das disciplinas canônicas.

Outro importante balanço é o feito por André Gattaz, no artigo “Meio século de história oral.” (1998). Nesse artigo Gattaz apresenta as várias maneiras de se fazer história oral classificadas em seis “tendências” ou “escolas” que ele chamou de História das Elites; história oral Historicista, História dos Vencidos; Gente Ordinária, história oral Metalingüística e Outras tendências. Essa classificação não segue os critérios historiográficos, nem cronológicos, nem geográficos. Mas baseia-se no tipo de assunto/tema/objeto a ser estudado, variando enormemente os usos da história oral e seu status. Para Gattaz, na história das Elites estão os grupos vocacionados ao registro de experiência de pessoas “significantes” da sociedade, da política, entrevistando homens

representativos de uma época e um setor social. Na tendência historicista estão aqueles que acreditam que através das fontes orais pode- se “recuperar” fatos históricos do passado de um bairro, de uma cidade, de uma instituição, de um personagem, de um processo histórico. Os grupos que vêem na história oral a possibilidade de “resgatar” a história dos movimentos sociais ou 36

políticos, que foram silenciados, que não possuem registro escrito, ou que tiveram suas histórias distorcidas pela visão da elite, foram alocados na tendência história dos Vencidos. Paralelo aos historiadores dos vencidos, estão aqueles que se voltaram a gente comum, aos marginalizados e que militam uma história oral política que pretende transpor os muros acadêmicos e chegar as “lamas da favela e ao contato com o lumpesinato” (1998: 34), fazendo a história oral da gente ordinária. Na tendência história oral Metalingüística encontram-se os pesquisadores que estão mais preocupados com o depoimento oral em si, do que com a informação neles contidos. Para esse grupo, importa a forma, a maneira como foi dita e contada a história, e consideram a narrativa como uma construção da memória. Em “outras tendências” o autor colocou aqueles grupos preocupados com a criação e manutenção dos arquivos orais e a vertente biográfica que busca através dos testemunhos a vida de um personagem, geralmente público, mas não necessariamente vinculado às elites.

Há muitas maneiras de se fazer história oral, e na ânsia de filiação da minha prática identifico alguns pressupostos básicos que diferenciam e destacam essa maneira “nossa” de fazer, e por isso mesmo, reivindicamos uma “outra história oral”:

Em primeiro lugar, o fato de privilegiarmos a narrativa do colaborador como núcleo

documental principal nos nossos trabalhos, onde a preocupação com a constituição desse corpus narrativo exige uma postura diferenciada diante do nosso entrevistado. Mais do que a mudança de sujeito-objeto para sujeito-sujeito, praticamos a colaboração, onde o sujeito se transforma em colaborador cuja fala será construída e autorizada por ele. Nossa interferência se dará num nível de mediação e não mais de autoria do texto.

Em segundo lugar, a preocupação com a devolução dessa história oral, que nos remete às

perguntas que Meihy nos faz em seu manual: história oral de quem? para quem? por que? E como?

sugerindo um comprometimento político com os colaboradores envolvidos na pesquisa e propondo uma história oral pública que ultrapasse os muros acadêmicos e que seja geradora de políticas públicas.

Em terceiro lugar, a maneira como apresentamos os resultados das entrevistas, de maneira sempre integral, um texto transcriado, em contraposição ao uso fragmentado das narrativas. Esse modo de apresentar as narrações das histórias de vida dos colaboradores, completa e dá sentido à idéia de colaboração e mediação. Com as histórias integrais vislumbramos mais e melhor as possibilidades de interpretação, e dimensionamos a importância do tema ou assunto que queremos tratar, na fala do colaborador.

Em quase todas as experiências de história oral no Brasil, seguindo qualquer um dos

balanços acima, ou qualquer “tendência” ou “escola”, o uso da entrevista é fragmentário, é aos pedaços, sem possibilidade de contextualização na fala que originou o fragmento. Pois muitas vezes 37

só se transcreve e textualiza (mesmo sem estar explícito que esse procedimento é praticado), o fragmento da narrativa que será usado. O que não faz parte dos “objetivos” e “interesses” da pesquisa é descartado. Daí, também, o descaso na conferência e na autorização de uso das narrativas.

Com o procedimento transcriativo assumido , o retorno ao colaborador com o texto final, para sua leitura, negociação, colaboração e aprovação, é inevitável. É a parte final do processo que iniciou-se no primeiro contato. E a sua apresentação/publicação de maneira integral no trabalho torna-se imprescindível para essa história oral, que se pretende pública e comprometida com o outro e com a comunidade pesquisada.

A Comunidade Santa Marcelina e o Encontro com Adálio

A Comunidade Santa Marcelina10 é uma instituição localizada na BR 364, Km 17, sentido

Cuiabá, entre as cidades de Porto Velho e Candeias do Jamarí, no Estado de Rondônia,

administrada por Freiras Marcelinas, na qual funcionam a Escola Municipal Dr. Marcelo Cândia11, o Hospital Dr. Marcelo Cândia12. Nela há também uma capela13, um refeitório com uma cantina, uma oficina ortopédica14 e uma pequena área residencial na entrada da comunidade15, onde moram famílias de ex-hansenianos e ainda mais quatro pavilhões, onde vivem pessoas que foram

hansenianas e perderam suas famílias ou foram abandonadas lá, quando deram entrada para tratar da doença.

Essa Comunidade possui as mesmas características das instituições que começaram a ser

criadas no Brasil, a partir dos anos 1930, como instrumentos de controle e confinamento, na campanha de erradicação da hanseníase (Gomide,1991). Foram edificadas em todo o país

instituições “amparadas num discurso caritativo, higienista, profilático e nacionalista. Duas categorias de instituições foram construídas: de um lado, os hospitais colônias, voltados à reclusão dos doentes; de outro, os estabelecimentos preventoriais, destinados à sua prole sadia”

(Mattos, 2002). A Comunidade Santa Marcelina, surge inicialmente como “hospital colônia”, mas atualmente, possui, também, aspectos dos chamados “estabelecimentos preventoriais”.

10 Ver Foto 1,2 e 3

11 Ver Foto 4

12 Ver Foto 5

13 Ver Foto 6

14 Ver Foto 7

15 Ver Foto 8

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O cotidiano de cada uma dessas instituições é diferente, sendo a doença uma forte ligação entre elas. No setor residencial moram pessoas que chegaram com suas famílias acometidas pela hanseníase e não tinham onde ficar. Foram admitidas como funcionários, trabalham no Hospital, na Escola ou no Refeitório e receberam casa para morar. São ao todo catorze casas que se localizam na entrada da Comunidade, formando um corredor com sete casas de um lado e sete casas do outro. A maioria dos residentes nas casas são viúvas que moram sozinhas ou com seus filhos e netos. O

Hospital atende, hoje, a comunidade e moradores da cidade de Candeias do Jamari, município vizinho da cidade de Porto Velho. A especialidade do hospital não é mais a hanseníase. Desde a década de 1970 tornou-se um Hospital Geral, com algumas clínicas especializadas em oftalmologia e ginecologia-obstetrícia. O hospital se localiza entre a moradia das Irmãs Marcelinas16, a Igreja, os Pavilhões e as antigas Residências dos Médicos. O Refeitório que fica de frente para o hospital serve aos internos dos pavilhões e possui uma lanchonete com atendimento aos usuários, acompanhantes dos internos e visitantes. A Escola, que funciona logo após as casas da entrada, é pública e atende as crianças da Comunidade Santa Marcelina e do entorno. Os pavilhões17 ficam no final da

Comunidade, logo após o hospital, sendo área mais restrita. São quatro pavilhões; três onde moram os internos, todos eles homens e, o outro, fica mais ao centro, onde funciona a sapataria e a oficina de próteses. Ao fundo, depois dos pavilhões, há um salão18 com televisão, mesas, cadeiras, um espaço de convivência. Cada pavilhão possui um banheiro coletivo, cozinha coletiva e enfermaria, além dos quartos, onde vivem pelo menos duas pessoas. Os quartos são bem modestos, cada um deles com duas camas, uma mesinha separando-as, um guarda-roupa e duas ou três cadeiras.

É importante a descrição das dependências desse lugar porque foi num desses pavilhões que conheci Adálio Pereira de Oliveira19. Estava tomando seu medicamento diário na enfermaria do Pavilhão onde morava. Ajudei com a cadeira de rodas e o levei para seu quarto que ficava no mesmo corredor. Ele vestia um pijama listrado, estava com a camisa desabotoada. Seus olhos estavam vivos, alegres e claros, mostrando toda sua expectativa e espanto: “Sou eu que vou falar? Vou poder falar o que eu quiser? Então tá bom.” Já no seu quarto passou sem ajuda da cadeira de rodas para a cama.

Sua perna direita havia sido amputada logo abaixo do joelho. No outro pé o zelo: um sapato preto bem engraxado. Suas mãos são atrofiadas. Enquanto falava esfregava uma na outra e ao sorrir (faz isso com freqüência), batia palmas e depois passava as mãos nas pernas. Quando contava algo que o deixava envergonhado, levava as mãos ao rosto, cobria o parcialmente e soltava uma boa risada.

Apesar das deformidades nas mãos, Adálio tocou violão e num momento durante as entrevista, cantou uma toada que fez sobre sua vida e outra que fez para o Lula, atual Presidente.

16 Ver Foto 9

17 Ver Fotos 10/11

18 Ver Foto 12

19 Ver Foto 13/14

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Adálio contou-me que é filho de Vicente Pereira de Souza, nascido em Grossos - Município de Aurora-CE, e de Inácia Pereira de Oliveira, de Pajeú das Flores-PE. Nasceu em Aurora-CE

(19/04/1923), é Católico; tinha, no tempo da primeira entrevista (1998), 75 anos. É aposentado pelo FUNRURAL, mas já foi soldado da borracha, caixeiro de loja, agricultor. Cursou até o 3º ano ginasial, chegou na comunidade Santa Marcelina pela primeira vez em 05 de abril de 1978 e saiu em 09 de janeiro de 1979, voltou, definitivamente, em 19 de março de 1997, quase um ano após a morte da sua segunda mulher. Lá permaneceu até 2001, quando saiu para morar num quarto alugado em Candeias do Jamarí. Era seu sonho maior sair da comunidade, conseguir uma prótese e deixar a comunidade. Apesar das irmãs “serem boas e generosas”, ele não agüentava a dependência. Foi nas dependências desse quartinho alugado que fizemos a última conferência da sua narrativa, em Maio de 2005.

Mas essa história foi contada por ele mesmo, do jeito que ele quis, por onde quis começar.

A narrativa de Adálio fluiu, ele estava disposto a contar e cantar. Sabia da experiência que podia e queria dispor, como se já nos esperasse. A sua “faculdade de intercambiar experiências estava intacta” (Benjamin, 1994: 198). Ele é um narrador do tipo que Walter Benjamin reclamava estar se perdendo porque as ações da experiência não eram mais consideradas. Adálio é um pouco o

“camponês sedentário”, tendo sido, também o “marinheiro comerciante”, exemplos de tipos de narradores benjaminianos. Fez uma longa viagem, atravessou o sertão e o interior do país até a Amazônia e lá se fixou. Carrega consigo as experiências do viajante e do homem do lugar. Isso faz dele um narrador especial, pois ele intercambia esses dois tipos de narradores e, como disse Benjamin: “A figura do narrador só se torna plenamente tangível se temos presente esses dois grupos [o camponês sedentário e o marinheiro comerciante]” (1994: 198).

Adálio é um narrador, fez uma canção para não esquecer o que viveu. Teve um grande

prazer em me contar a sua história de vida e se sentiu estimulado a fazê-lo quando percebeu ter encontrado interlocutores que estavam interessados na sua vida, foi como se ele tivesse se preparado a vida inteira para contar. Por seu isolamento e solidão não pôde ser inserido numa tradição nordestina de cantadores que se utilizam do cordel, dos martelos e dos repentes para narrar suas experiências de vida como Patativa do Assaré (2000), ou como contadores de histórias. Apesar de trazer, claramente, nos seus versos, a influencia desse canto. Sua narrativa também não se insere no gênero dos testemunhos, como Domitila (Viezzer, 1984) e Rigoberta (Burgos, 1987), ou mesmo de escritores populares, como Carolina Maria de Jesus (Meihy, 1994; 1996). Não é também o Moleiro do “Queijo e os Vermes” (Guinzburg, 1987), nem o homem livre de cor do “Dom Oba II” (Silva, 1997), nem o degolador “Pierre Riviere” (Foucault, 2003). O texto-Adálio reúne aspectos desses personagens e poderia ser transformado e adequado a qualquer um dos gêneros acima citados, mas isso seria forçar a sua entrada no “grande livro” (Deleuze; Guattari, 1997), adequar seu discurso para 40

que ele se filie como uma folha, a um galho da árvore da “grande narrativa da história”, cooperando com o processo de encontrar, no discurso linear da História Universal, um lugar para aquele outro, sempre numa tentativa de assimilação e eliminação das diferenças (Bhabha, 1998). Contextualizar sua fala para ela poder significar. Então, o significado está para além, fora e antes da narrativa de Adálio? É exatamente o contrário que estamos propondo para pensar Adálio. O texto produzido em colaboração por essa história oral possibilita essas leituras, mas clama por uma nova interpretação que flua da própria narrativa, os temas serão discutidos na medida em que aparecem na palavra contada de Adálio e não como perspectiva a priori, ou seja, a narrativa de Adálio possibilita uma leitura sobre o cotidiano e a vida nos seringais da Amazônia durante a segunda guerra mundial, possibilita uma leitura sociológica sobre a hanseníase e seus estigmas (Claro, 1995). Possibilita, também, uma leitura psicológica de um homem que perdeu tudo ao longo de sua vida, inclusive seu próprio corpo. São muitas possibilidades que podem e devem aparecer como pontos importantes da leitura que pretendo realizar, mas elas devem vir dimensionadas na própria narrativa e desenvolvidas segundo o prazer (Barthes, 1977a/ 1984), e as afinidades do oralista.

Os temas que podem ser trabalhados a partir da narrativa de Adálio estão ligados à maneira de lembrar, a relação entre o oral e o escrito, e a forma oral que se quer narrar. Isso é importante porque estou trabalhando com um conhecimento, a história oral, onde a transposição do oral para o escrito é fundamental. É nessa passagem que se estabelece, num processo de transcriação, o corpus textual no qual nos debruçaremos. É impossível recuperar o acontecido, então o que temos a partir das entrevistas, do que o colaborador nos conta é momento narrativo, e não relato sobre o que realmente aconteceu, transformando as relações entre a oralidade e a escrita numa “relação necessária, incontornável no domínio do simbólico” (Orlandi, 1999: 152). Ou seja, aquilo que constituímos em entrevista colaborativa é a maneira como o colaborador está significando sua experiência, como ele simboliza sua vida, como lhe dá organização, naquele momento, naquelas condições específicas, onde e quando se deu a entrevista. Podendo, portanto se modificar, significar diferente, coisas que foram contadas de um jeito, serão contadas de outra maneira, ou mesmo omitidas.

Sendo esse momento narrativo constituído por um modo de lembrar que é fluido e mutável, temos que considerar, também, o esquecimento, o silêncio, as falhas de memória, as mentiras, as versões, como aspectos desse lembrar - que serão identificados, pensados e relacionados no momento da análise e também, no momento da recepção.

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Os Caminhos da Narrativa e as Entrevistas

Importa pensar como essas reflexões geraram e ao mesmo tempo foram geradas por uma

postura metodológica, por uma posição diante do outro, das suas experiências e das redes interpessoais envolvidas. Essa dimensão pode ser medida pela maneira como procedemos nas e com as entrevistas. Aqui também ocorre uma mudança na percepção de um dos conceitos fundamentais da história oral que estamos falando: o de Transcriação.

Para Meihy, até a publicação da 5ª edição de seu Manual de História Oral em 2005, a

transcrição é a última etapa de um processo de estabelecimento do texto que se inicia com o Projeto, passa pela Pré-entrevista, depois pela Entrevista, propriamente dita, levando a uma textualização, até chegar:

... a fase final do trabalho dos discursos. (...) Teatralizando o que foi dito, recriando-se a atmosfera da entrevista, procura-se trazer ao leitor o mundo de sensações provocadas pelo contato, e como é evidente, isso não ocorreria reproduzindo-se o que foi dito palavra por palavra. (...) tem como fito trazer ao leitor a aura do momento da gravação. (...) O fazer do novo texto permite que se pense a entrevista como algo ficcional e, sem constrangimento, se aceita esta condição no lugar de uma cientificidade que seria mais postiça. Com isso valoriza-se a narrativa enquanto um elemento comunicativo prenhe de sugestões. (Meihy, 1991: 30-31) Considerando ainda que temos uma fase de efetivação da colaboração, onde fazemos a

conferência do texto com o colaborador, e posteriormente, a fase da devolução pública.

Quando iniciei as entrevistas com Adálio, já estava imbuída de uma idéia apresentada por Caldas, que vê a transcriação não como uma das etapas da Entrevista, mas todo o processo como uma “Transcriação Hermenêutica”:

... concepção e visão de mundo, não somente de como se produz um texto, mas sobre o

fundamento da própria realidade e de como podemos compreendê-la e modificá-la. (Caldas, 1999: 74)

Essa “concepção e visão de mundo” impõe uma busca mais radical pelo colaborador, pela

sua experiência e leva a um afastamento do tema que eventualmente tenha motivado inicialmente o projeto, pois ao nos colocarmos em diálogo com o outro, vemos que ele extrapola com sua vivência qualquer categoria, rótulo, rede ou comunidade de destino20. E devemos buscar nesse colaborador 20 Para Meihy a Colônia é definida “... pelos padrões gerais de sua comunidade de destino”, que é “aquilo que identifica as pessoas, os motivos, as trajetórias que as reúnem em características afins” (1996: 53); a Rede é “... uma 42

através da sua visão particular de mundo a humanização das percepções, aquilo que Meihy (2004a: 40), apontou como sendo a matéria essencial da história oral:

A história oral se apresenta como forma de captação de experiência de pessoas dispostas a falar sobre aspectos de sua vida. Quanto mais elas os contarem a seu modo, mais eficiente será seu depoimento. (2004a: 51)

E “quanto mais elas contarem ao seu modo”, mais realizaremos essa história oral que se preocupa com uma percepção do indivíduo, com uma visão singular de mundo, com os

sentimentos, as mentiras, os esquecimentos, o sonho, a subjetividade, as redes simbólicas da singularidade, como outras dimensões do conhecimento, que se diferencia daquela que é gerada por estudos de temas, análises estruturais, partidos políticos e de um tipo de trabalho com entrevistas que usam o outro como mero informante ou “objeto” fragmentado para servir ao projeto.

Essa história oral exigiu uma postura frente à entrevista que pudesse deixar fluir essa experiência, esse modo de contar e de narrar a vida. Postura que permitisse que o colaborador pudesse falar mais livremente, sem direcionamentos marcantes, sem imposições de uma

temporalidade estranha e dominadora que tornam todos iguais e se sobrepõe às singularidades, sem o pleno fantasma do pesquisador e da sua disciplina, mas de um pesquisador também humanizado, marcando a entrevista apenas com sua presença humana e não mais como um advogado, um

delegado ou um cientista. O oralista se separando do historiador oral.

Sempre soube que o fato de estar ali, de ser de uma universidade, e o próprio contexto em que nos encontrávamos daria formato prévio e geraria um tipo de narrativa. Por isso quero deixar claro que não se trata do “mito da não interferência” (Portelli, 1997: 32), ou de uma objetividade às avessas, muito menos de nos colocarmos como os que “dão voz” aos excluídos. Mas ter uma postura que permita que as diferentes temporalidades e concepções de mundo se digam do modo que acharem melhor.

Aqui, a idéia de transcriação retoma seu sentido de origem, transcriar para comunicar melhor o sentido, a intenção. A “tradução” do oral para o escrito não se opera com uma simples transcrição, assim como uma tradução de idiomas diferentes, especialmente quando se trata de um texto subjetivo como a poesia e a narrativa do colaborador. Blanco, em espanhol, não se traduz para branco em português, simplesmente. Essa simples transposição de línguas gerou um texto conjunto de dois importantes poetas Otávio Paz e Haroldo de Campos: Transblanco (1986) e é de onde subdivisão da colônia e que visa estabelecer parâmetros para decidir sobre quem deve ser entrevistado ou não...”

(1996: 53), ou seja, define “colaborador” como uma pessoa que aceitará ser entrevistada e que ocupará papel preponderante na pesquisa, sem os quais a mesma não seria viabilizada.

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Meihy assimilou o conceito de “transcriação”. O poema é outro, e é o mesmo, a entrevista transcriada é outra e é a mesma. A transcriação nos aproxima do sentido e da intenção original que o colaborador quer comunicar. Essa história oral é, portanto, “comunicação em presença, a energia, o envolvimento multisensorial que inclui, entre outras, a categoria da fascinação” (Ferreira, 1997:66), da nostalgia, do idílico. E que precisam permanecer na escrita, quando já não existir mais “a presença”, “o diálogo”.

Nesse sentido, a idéia de transcriação como aquilo que compreende todo o processo

norteou os procedimentos da entrevista com Adálio, que se deu de maneira intuitiva. Não sabia exatamente como fazer, mas sabia o que não gostaria de fazer.

1. Não queria fazer uma entrevista dirigida com pergunta e resposta que impõem

ordenamentos narrativos e, conseqüentemente, temporais, gerados por perguntas como: “onde e quando nasceu?”, “nome do pai e da mãe?”, “profissão?”, que têm como função obter “informação”

para complementar dados de pesquisas ao mesmo tempo em que formatam o conjunto narrativo à imagem das “crenças” do pesquisador;

2. Não queria fazer entrevistas com perguntas abertas para esclarecer temas da pesquisa, para saber a opinião das pessoas sobre determinado assunto ou acontecimento histórico, realizando um estudo temático, seja sociológico, histórico, geográfico, educacional, sob o título de história oral temática, que terminaria servindo somente ao pesquisador, sem atingir a plenitude possível do colaborador, realizando na verdade um trabalho com fontes orais;

Daí comecei a pensar na entrevista como diálogo que pudesse ser “aberto ao aconchego, à confidência e ao respeito” (Meihy, 1996a: 55), e colocando-a, como diz Caldas (1999: 99), “em patamar diferente de uma simples técnica”, pois não se trata de obter informações, criar documentos, mas de estabelecer comunicação entre pessoas com o único objetivo de compreender (Garret, 1967: 18) com plenitude um outro que, sem nós, sem esta história oral, estaria fadada a não ser uma experiência compartilhada, como é dado aos heróis, aos vencedores.

Essa entrevista gera um tipo de texto que praticamente elimina o primeiro trabalho da

textualização que tem como um de seus objetivos transformar a entrevista (pergunta e resposta) em texto fluido, essa operação começa com a:

Anulação da voz do “entrevistador”, dando espaço a fala do narrador. [...] Consta desta tarefa a reorganização do discurso, obedecendo à estruturação requerida para o texto escrito. Pelas palavras-chave estabelece-se o corpus, isto é, a soma de assuntos que constituem o argumento.

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Faz parte do momento da textualização a rearticulação da entrevista de maneira a fazê-la compreensível, literariamente agradável. (Meihy, 1991:30)

É bem verdade que essa “ anulação” não é a simples eliminação da voz, das perguntas do

entrevistador, mas “inclusão na dialogicidade do texto” Caldas (1998:41), quando isso for pertinente e exigido pela estrutura narrativa. Dessa maneira a textualização não é, também, correção de gramática, passagem da linguagem popular para uma, pretensa, norma culta, apagamento das repetições, junções de temas iguais que se repetem na fala, reordenamento temporal da narrativa em ordem cronológica, mas a transformação da entrevista em texto. Essa transformação exige sensibilidade do oralista em relação ao que o colaborador quer comunicar, e mediar essa comunicação, sem apagar as marcas da oralidade e as características identificadoras da fala do colaborador.

O que pretendíamos nas entrevistas era assumir a participação efetiva no diálogo, mas

garantindo ao colaborador a escolha do quê e como gostaria de narrar sua experiência. Pensamos então num tipo de abordagem que garantisse a Adálio perceber que o que gostaríamos de ouvir era sua experiência e não sua “história de vida”, ou sua “vida de hanseniano”, de “Soldado da Borracha”, porque queríamos que essas situações viessem dimensionadas na própria narrativa, como escolha sua e não como imposição temática. Foi dessa idéia que Caldas desenvolveu o conceito de

“origem voluntária”, que mais tarde e, com a realização de várias entrevistas feitas com essa preocupação, gerou um conceito mais amplo, o de “cápsula narrativa”, que foi utilizado nos projetos e nas entrevistas seguintes que realizamos no projeto com a Comunidade Santa Marcelina e ex-soldados da borracha. O texto no segundo capítulo: “Adálio Pereira de Oliveira” nasce nesse momento teórico.

Os textos de Adálio são resultados de encontros realizados entre os anos de 1998 e 2000, na Comunidade Santa Marcelina. Ao todo foram 15 encontros para gravação das entrevistas, num total de 6 horas de gravação. Embora tenha ido lá outras tantas vezes apenas para vê-lo.

A primeira entrevista durou quase 2 horas, e foi dividida em duas etapas. Na primeira etapa Adálio falou livremente, escolheu por onde queria começar a contar, essa parte é o que se transformou no que estou chamando de “a jornada”. A segunda parte foi estimulada, perguntamos a ele do que ele gostaria de falar mais, de aprofundar, e ele nos deu o tema da escola e dos estudos e depois perguntamos sobre a doença, percebi que esse era um assunto que o incomodava, esse tema foi retomado por ele na entrevista sobre “a música”.

Depois marcamos um novo encontro e propus que conversássemos sobre “os sonhos” dele.

A entrevista sobre sonhos rendeu dois encontros e mais uma hora e meia de gravação.

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A essa altura já sabíamos das suas composições, de que ele cantava e tocava violão.

Combinamos então um encontro só para falarmos sobre a música e para que ele as tocasse para nós.

A etapa da música se desdobrou em muitos outros encontros e trouxe para Adálio e para mim muita satisfação.

Passei com ele dias, corrigindo a transcrição das suas composições. Eu trazia a transcrição, lia com ele, corrigia algumas palavras, deixava com ele e no encontro seguinte ele me entregava com as suas correções. Eu levava para casa passava as correções dele para o computador, imprimia e devolvia para ele novamente, até que ele dizia: “Agora tá certo!”

Ele ficou radiante quando levei para presenteá-lo um livrinho caseiro, feito com recursos de computador, com a letra da música sobre sua vida. Na capa imprimi o título da música dado por ele mesmo: “A História de um Nordestino na Amazônia” e o seu nome, “Adálio Pereira de Oliveira” e, no miolo, os seus versos. Imprimi dez cópias para entregar a quem ele tivesse vontade e ele fez isso com muita satisfação e orgulho.

Posso dizer que os temas foram negociados, pois numa entrevista sempre há o que

desejamos saber e o que nos é contado, e estão apresentados pela ordem das entrevistas realizadas.

A primeira entrevista corresponde à primeira parte da “Palavra Contada”: a jornada. Essa parte é o que estamos considerando a “narrativa primordial” e da qual decorrem todas as outras, que são os aprofundamentos temáticos, entrevistas geradas por temas e assuntos dessa primeira narrativa: os sonhos, a escola. E por fim uma segunda parte que veio com tal força que se tornou a

“Palavra Cantada” que são as narrativas de sua experiência com a música e a poesia. Além de conter duas composições suas: “A História de um Nordestino na Amazônia” e a “Música para o Lula” e o desdobramento dessa entrevista é a narrativa sobre a doença, que não foi separada, mas mantida no contexto da sua fala. Foi, portanto, da própria narrativa de Adálio que construí a estrutura da tese e seu título: Experiência e Memória: A palavra contada e a palavra cantada de um nordestino na Amazônia.

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PARTE II

A HISTÓRIA DE UM NORDESTINO NA AMAZÔNIA

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ADÁLIO PEREIRA DE OLIVEIRA

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A PALAVRA CONTADA

A JORNADA

“ Agora eu um homem aleijado de uma perna, o que quê ele faz?

Não faz nada! Aqui já tenho uma perna prometida que chamam

prótese para botar no lugar! Tiraram a medida um dia desse

e agora tem que me chamar pra experimentar, mas ainda não

chamaram não e eu estou aguardando. A barra é pesada.”

Eu saí para cá1 em fevereiro de 1943, por causa da guerra de 1939 2. Nós viemos contratados como soldado da borracha3 para o serviço para o americano. E Teve aquele Osvaldo Aranha, que era o primeiro ministro brasileiro que falou nas Nações Unidas, que empatou esse negócio e o presidente Getúlio Vargas não podia entregar o Amazonas para o americano, desapropriar os patrões que eram os donos e depois disso ele ficasse na posse e quando chegasse o fim do contrato ele não queria entregar, aí isso foi abaixo, nós fiquemos, com se diz, bem dizer desamparados no meio do mundo4, já no Pará. Eu estava no meio de 35 mil homens. Antes eu morava no Ceará em Cascavel, era uma cidade boa, rica e muito produtiva5.

A pessoa naquele tempo tinha era que obedecer! Eu tava casado e não queria vir, mas tinha que obedecer. Mesmo casado tinha que deixar tudo!6 E eu deixei minha mulher com seis meses de casado, mas ou ia pra guerra ou vinha pra borracha7.

Pra vim pra cá tive que vender tudo, porque o que já se tinha de roupas, calçado, qualquer luxo que a gente tivesse, um relógio, uma aliança, não podia trazer nada8. E aí eu recebi uma mala de carregar nas costas com uma rede pequena, uma coberta pequena, um caneco de esmalte e um par de alpercata de rabicho. Uma calça de mescla e uma camisa de um pano ordinário que nós chama americano9. Assim era a farda. E um chapéu de palha. E uma carteira de 3ª categoria10 também. E

trazia-se 2 folhas, isso no começo, que era pra entregar uma paro americano que era o contrato e a gente ficava com a outra pra depois saber se o americano tava fazendo o negócio direito, era pra conferir com aquela outra folha.

Aí nós fiquemos encurralado, mas se o camarada voltasse na idade que eu tava, que era na idade de ir pra guerra, não dava porque ir pra guerra era pior; aí eu vim pra cá.

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Cheguei aqui no Amazonas. Primeiro eu cortei muita lenha pra navio. Naquele tempo do

atraso11 os navios tudo era a lenha. Esses navios de convés baixo era tudo a lenha. E eu cortei muita lenha! Passei um ano antes trabalhando no Rio Purus, fazendo lenha pra navio e trabalhando de todo serviço12.

Quando eu vim para o seringal foi em 1944, eu vim cortar seringa. Agora eu só não queria era voltar pra lá porque podia ser convocado. Porque a guerra só veio se acabar em 1945 e eu vim pra cá por causa disso. Faziam a gente vim pra seringa como à guerra, porque se não fosse para seringa ia pra lá. Na idade que eu tava era convocado mesmo! Agora aquele de idade maior não, vinha porque queria. Eu vim obrigado13, vim com medo da guerra14.

Aí nós viemos até Coroatá no Maranhão de carro. Agora do Maranhão pra frente nós

viemos num trem. Era um trem de carga, com muitos carros, e vinha cheio de muitos homens.

Tudinho era soldados da borracha! No meu alistamento foram 75.000 soldados da borracha e veio tudinho pra cá. E o que é certo é que cheguemos em São Luís, onde tive uns dias lá num pouso chamado Maracanã. Adispôs, embarquemos numa barcaça para embarcar num navio maior

chamado Itapuí da Companhia Ícaro, lá no meio do mar. Ia levar a gente para Belém15. Quando cheguemos num mar mais fundo que tem lá, o submarino se apresentou assim longe de nós uns 4

km. Dentro do mar a gente enxerga longe, num navio de convés alto a gente enxerga longe! Ainda o pessoal do navio deram uns suspensórios para nós com cinturão e aquelas cortiças, quatro cortiças, uma na frente, outra de um lado, outra de outro e uma nas costas, um salva-vidas, onde a gente atacava o cinto nele. Porque tava vendo a hora o submarino botar o navio no fundo, afundar, o submarino chegar, o submarino, que tava ali no fundo. Pediram socorro. Quando o avião vinha chegando, aquele intruso que tava lá no meio do mar, abaixou. O avião jogou uma bomba, mas errou o alvo porque não explodiu, errou!16 E veio mais um caça-mina que é um barco de guerra muito decente, muito medonho, acompanhou nós com uma bóia que tem uma lâmpada que ia

apagando e acendendo até mesmo na entrada do Porto de Belém, indo pra dentro da baía de Marajó.

Fumos lá pro pouso chamado Tapanã em Belém. Lá quando nós cheguemos com poucos dias já tinha 35 mil homens reunidos lá.

Aí foi que veio essa notícia do Ministro Oswaldo Aranha, que não aceitou o negócio do

Presidente Vargas com o americano. O Presidente Vargas tinha dado os seringais todinho pros americanos tomar conta. E nós vinha como soldado para o americano, nós não vinha por conta do governo brasileiro não. A companhia era americana. E o que é certo é que o Osvaldo Aranha chegou lá das Nações Unidas, não aceitou e disse que não aceitava não, porque quando o americano 50

empossasse, tomasse conta do Amazonas não queria entregar mais, mesmo com o fim do contrato17.

Aí foi a baixo e nós fiquemos aí.

Viajei para Manaus num navio chamado Pedro II que é do Lóide Brasileiro. Aí quando

cheguemos os patrões do Acre, do Amazonas mesmo, chegava tirava assim: um patrão chegava tirava vinte, outros chegava tirava trinta, outros escolheram gente morena que era mais resistente, por causa do tifo, outros escolheram gente da perna fina, que não eram preguiçoso. Isso tudo acontecia com o soldado da borracha 18.

E o que é certo é que foi assim e até que foi tudo amparado. E teve uma manada de carioca que adipôis que caiu a companhia americana voltou tudo pra trás, voltaram tudo pro Rio, o governo deu passagem de volta. Eles vinham atrás é de aventura, não era de cortar seringa, mas não sendo pro americano não vinha pra cá nenhum. Eu acho até graça quando lembro disso!19

Eu fiquei em Manaus, em Ponta Pelada. Dali foi que os patrões iam tirando os homens, aí chegou minha vez. Eu vim numa manada de duzentos20, para uma cidade que tem aqui no berço do Purus, chamada Lábrea. De lá vim trabalhar com um patrão chamado Matias Quaresma que era um dos patrões mais ricos aqui do Amazonas21, com relação a seringa. Vim trabalhar com ele e na turma que eu vim, veio uns sessenta. Tudo pra esse patrão. Desses alguns foram aproveitados para um serviço mais maneiro22, mas a maior parte foi tudo pra seringa. E eu fui pra uma colocação de seringa chamada Rarizal, cortar seringa23. Ele mandou um homem me ensinar, que eu não sabia cortar, não sabia defumar. O serviço é um pouco enrrascado! Tem de riscar, bota a escada em pico, aí o camarada roça pra ficar o piso limpo não ter toco, depois vem o fiscal, que é da casa limita ali o tanto de tigelinha, aquelas canequinhas, que pode a seringa pegar de madeira. Um dois homens bota abaixo três tigelas, e quando tinha que ser direito um traço e botava uma polegada só. Aí botei aquela caneca, o camarada ficava já fraquejado, aí começava produzir.

Nos primeiros anos a pessoa nunca faz nada, sempre apanhando porque o serviço é um

pouco dificultoso! E ainda tem um tal de paludismo aqui, que hoje em dia é chamado de malária, quando agarrava a pessoa, o camarada tremia uma hora, bolando assim no meio da mata. E se ele não fizesse a borracha no fim do mês o patrão também não vendia ou ele morria com a malária ou de fome. A sujeição era essa! E a gente era obrigado a trabalhar a noite. E assim a pessoa vai sofrendo, muitos morreram, mas eu sofrendo muito atravessei!24

Daí cortei seringa nesse seringal, tirava Sábado baixava pra Manaus, o escritório do meu patrão era em Manaus, ali na Rua Marcílio Dias. Ele lá pagava todo sábado o que a gente tirava corretamente. Eu sei que eu voltava pro mesmo seringal de novo e ia trabalhar. E assim quando foi 51

uns anos aí que eu não tô bem lembrado o meu patrão morreu. Aí ficou mais difícil! Eu fiquei trabalhando pra um afilhado dele, mas já uma coisa assim com pouca garantia. Aí ele inventou de ser prefeito em Lábrea. Eu digo: “bem, o senhor indo ser prefeito na Lábrea aqui no seu seringal eu não fico mesmo”. Fui trabalhar com ele. Porque eu não me dava muito com o gerente geral que tinha ali, ele não era boa pessoa.

Depois eu saí do seringal de lá e vim trabalhar aqui pro Acre. Trabalhei num seringal

chamado Porto Rico. Lá também fiz muita borracha! Cansei de produzir25 até duas toneladas por ano26. Agora aí o patrão quando dá fé essa casa que eu tava trabalhando quebrou, ainda ficou um saldo lá para me pagarem e não pagaram. Saldo pouco, dinheiro pouco. O patrão forte quebrou. Me mudei pra outro e aí fui assim bolando e sofrendo!27

Vim pra outro seringal chamado Novo Acordo, essa BR 364 que vai pro Acre passa lá.

Trabalhei com um patrão chamado João Barbosa. Ali eu me dei bem! Comecei a trabalhar, o patrão pagava bem um saco. Esse homem se desnorteou, se desmantelou e também foi abaixo. E assim eu fui, também28. E baixava pra Manaus também, era o sistema.

Pra vim pro Acre ou pra cá, naquele tempo era atrasado, não dava! E assim Manaus era uma capital do Estado era melhor a gente ficar lá do que ir pra uma capital de território. Aí eu fiquei trabalhando, até 1976 eu cortei seringa!

Vim pra cá pra beira do Rio Madeira, comprei um lugarzinho com uma economiazinha que

eu tinha e estava morando agora de sitiante e tava muito bem29. Eu cheguei lá no dia 26 de setembro de 1977. Tá com vinte anos que eu trabalhei lá e esse lugar é meu30. E o meu lugarzinho tem uns quinhentos metros de frente, 1400 de fundo. Mas na entrada não deu de fazer a casa porque tem uma água, com 150 metros tem uma água. Aí fui fazer a casa mais na frente, no meio do lote porque lá a terra era alta! E fiz essa benfeitoria. Mas, eu trabalhei esses vinte anos lá todo tempo. E esse lugar é meu!31 Fiz muita plantação, e ainda tem muita plantação. Mas quando foi num dia que eu vim aqui para cidade, tinha uns camaradas que tava enfezando, botando animal porque pra lá ninguém trabalha e quando tem um que trabalha eles fica de cima, perseguindo, soltando animal dentro do meu lugar pra estragar32.

Porque tinha muito milho, macaxeira e plantação como laranja, biribá, esse limãozinho nosso legitimo e cupuaçu, e muita mangueira, coqueiro. Tudo isso eu deixei plantado lá33! Aí vim aqui no Porto Velho receber meu saldo, que sou aposentado pela Funrural, recebo um salário mínimo e eu recebo ali naquele Banespa lá na rua Sete de Setembro em Porto Velho. E eu ia comprar uns 52

cartuchos de bala pra eu me garanti mais. Eu queria atirar nos animais e até em gente se fosse preciso, porque eles queriam invadir o que era meu34.

E o que é certo é que eu vinha na “Caça e Pesca” na Rua Sete de setembro, comprei uns

cartuchos e levei pra casa, mas aí eu carreguei um volume de uns 36 quilos na costa, 800 metros pra ir pra casa, mas esses oitocentos metros já era dentro do meu terreno, aí saiu uma borbulha assim do lado do meu pé direito. Deu uma tal de infecção e aí eu vim pra cá35 no dia dezenove de março de 1997, dezenove de março que vem agora, 1998, vai fazer um ano, eu cheguei aqui às oito horas da manhã e quando foi umas cinco e meia da tarde me cortaram a perna36. Aí por causa de terem cortado a perna veio gente conhecido me visitar aqui. Aí invadiram tudo e carregaram tudo que eu tinha e eu fiquei sem nada! Só tenho o lugar, a casa também era de pobre, mal construída com assoalhado de açaí e coberta de palha de babaçu37.

E daí pra cá eu tô vivendo aqui nessa comunidade. E sempre me dando bem! O povo aqui

coopera bem com a pessoa. A gente tem um café pela manhã com pão, tem o almoço, tem a janta, tem roupa lavada, também tem a cama pra dormir. E eles assisti bem com o remédio. E se a pessoa que tá aqui no pavilhão se ele adoecer aqui levam pro hospital porque lá é aonde os doutor convivem e os enfermeiros, aí gente tem uma assistência medonha!

Eu acho muito bom esse lugar, o pessoal trata bem da gente! É um povo muito bom, legal.

As irmãs são boas, os doutor também são muito popular, são bom38. Agora aqui o fracasso mesmo foi só o meu!39 Porque um homem cortar a perna de uma pessoa é o mesmo que cortar o pescoço e fica a pessoa aleijada para sempre40. Esperando uma perna, qualquer dia tiram a medida, mas só vai quando os homens chama. Ainda não me chamaram. E eu sentando nessa cadeira! Me deslocando pra cima e pra baixo41.

Agora antes desse tempo42 de vim pra cá eu tinha pai e tinha mãe43! Eu nasci no sertão do Ceará chamado Aurora44! Nasci lá em 19 de abril de 192345. Eu vivia lá! O meu pai não era muito pobre. Lá nós tinha gado, tinha muito animal!46 No sertão quando a gente chama animal já sabe! É

cavalo, burro, jumento47, essas coisas, agora gado já é outra. Pois aí nós tinha isso tudo48.

Quando foi em 1932 houve uma estiagem49 pra lá e tava dificultando água para os animais, aí ele vendeu os animais que tinha, o gado e nos mudamos para Cascavel50 que é bem perto de Fortaleza no Ceará, são 12 léguas, 72 km pra Fortaleza. Aí lá nós tava vivendo, mas lá ele ficou com uma bodega, pra viver no comércio e com dois sítios de cana, um com alambique de cachaça51. Nós não tinha a casa de farinha, mas tinha o engenho do alambique de Cachaça. Quando era pra fazer 53

farinha a gente pagava aluguel nas casas de farinha dos outros particular, pra fazer a farinha pra lá, mas pra a rapadura e a cachaça fazia no engenho lá de casa52. Nós tinha um engenho, um alemãozão número cinco e um alambique grande, fazia a cachaça. E vendia a cachaça em grosso53, dava muita cachaça! Dá muita cachaça! Tinha uns quatro quilômetros de cana54 a pessoa tira um tanto pra rapadura e outra pra cachaça. Fazer aquela cana que já é mais assim azulada e aquela que dá a rapadura meio morena. A gente sempre fazia rapadura com a cachaça é mais vendável e eu acho que mais fácil de botar.

Pois bem, agora eu nesse tempo, em 32, eu tava com nove anos, quando eu era menino meu

pai botou nós pra aprende na escola55, lá com professor velho que sabia muito pouco, com distância de légua e meia, tinha que andar 9 quilômetros, de pés! pra chega lá pra pegar bolo, um carão! Só bastava a pessoa errar uma besteira que pegava dois bolos! Uma carranca mais feia do mundo. E

tinha menino fraco que se urinava. Eu acho muita graça quando lembro disso! Era uma bagunça e quando o camarada não dava a lição já viu, colocava ali uma tábua um bocado de caroço de milho e ele ficava de joelho em cima dos caroços de milho até segunda a ordem, só saía de lá quando ele desse ordem pra gente sair! E aí ficava ali aguardando. A gente ia pra escola tudo já apavorado por medo do professor que era muito carrasco. Alguns choravam e aqueles mais fortes agüentava sem chorar56. Assim a gente ia estudando a carta de A B C, depois passei pra uma cartilha e me arrumaram uma tabuada também. Meu pai pagava a ele por esse luxo cinco mil réis por mês57.

Naquele tempo era réis! Ele tinha mais valor do que o real hoje em dia! Naquele tempo era o réis! E

o meu pai pagava cinco mil réis por cada um de nós, porque nós era sete irmãos58. Nesse tempo eu ainda era o caçula, era o mais novo. E o que é certo é que passei pra cartilha e aí da cartilha foi que nós saímos pra Cascavel. Eu vim terminar os meus estudos já em Cascavel59. Fui estudar já o primeiro livro60.

Em 1932 nós nos mudamos pra Cascavel e tudo mudou. Porque em Aurora nós tinha gado,

tinha cavalo, tinha burro, tinha muito animal! Tinha umas 600 cabeças de gado! Era uma fazenda no sertão! Aurora é o maior sertão do Ceará! De Aurora pra o mar de Fortaleza dá os 800 km, é longe!

Eu gostava muito de Aurora, porque a gente nasce num canto, o lugar que a gente quer mais bem é ali. Mas menino não faz o que quer!61

Quando o meu pai tirou as passagens de trem pra nós vir pra Cascavel eu estranhei o

negócio do trem, tive medo! Aí eu fiquei, e veio a família todinha. Fiquei pro homem vir me trazer em costas de animal pra Cascavel. Nunca tinha andado de trem! Eu via ele passar assim lá longe! No tempo só tinha duas máquinas: tinha a máquina Mariquinha e a “301”. Arrastava 25 carro cada uma!

Passava com aquela zuadona feia, medonha! Me assombrei! Com nove anos assim, caboclo do sertão 54

é meio bravo. E eu achei que aquilo era um absurdo e eu tive medo! É engraçado contando isso agora!62 Aí veio esse homem que lá nós chama arrieiro que trabalhava por patrão, aí veio. Gastemo não sei quantos dias de viagem. Teve lugar no Ceará, travessia que ninguém podia beber água, que a água era puro sal, principalmente lá pras bandas de Iguatú e aquele Icó, é o lugar. Em Iguatú até nem tanto que tinha aquele riozão seco chamado Jaguari, mas do Iguatú pra frente e passando o Icó, aí o camarada sofria! Dava sede ia beber e não podia, a água era mesmo que sal. E deles que tinha água doce mas negava, porque a água era pouco, só dava pro consumo da família. Imagina que passageiro assim, aquilo só ia uma vez, não adianta agrada muito, ele só vai passar ali aquela vez, e negava água pra nós, mas assim nós encontremos também gente boa63, até que eu cheguei em Cascavel.

Agora quando eu cheguei em Cascavel aí a vida mudou! Porque lá em Aurora, nós tinha

muito leite, a coalhada, o queijo!64 É as coisas do sertão! Tudo imperava muito lá em casa, agora rapadura nós comprava particular num lugar chamado Cariri. O pai comprava quatro carga de rapadura botava na dispensa, que é pra manutenção da casa. Isso em Aurora!

Agora em Cascavel, mudou! Nós viemos nove km pra beira do mar! Eram dois sítios grandes de cana, tinha o sítio do córrego e o sítio da bica. Um engenhozão alemão número 05 com três moenda e o alambique de cachaça, casa de engenho e os bois rodando dentro da casa65. Agora aquela cana caiana e a manteiga que dá rapadura branca tipo uma canjica, nós tirava pra fazer a rapadura. A cana pitu, a cana rosa, denerária, calvangi e flor de pulba essa a pessoa tirava pra fazer a cachaça, porque ela dá o mesmo álcool, mas sendo pra rapadura a garapa saí meio morena e ela não tem a garapa branca! Aí só ia destilar normalmente: pegava aquela moí, tira aquela garapa, abre um carreira de dorna de quase 2 metros de altura, mas sendo roliço, todo feito de tábua! E enche aquelas dornas tudinho de garapa! Agora bota até lá em cima porque não pode fechar, porque senão ela espoca, estoura! Bem feita com aqueles arco de madeira, aqueles arco medonho. E o que é certo é que com 8 dias é que a garapa pode ser destilada, aí bota dentro do alambique aquela garapa com 8

dias que tá armazenada na dorna que é um barriuzão de madeira serrada. Um bicho daquele pega uns 400 litros de garapa cada um e tinha uma carreira de 16, tudo cheia pra desmanchar com cachaça! E aí é como se diz: é secando um e botando a garapa de novo! Agora aquela que a gente bota só com 8 dias que vai destilar e a primeira cabeçada é álcool que sai! Sai o álcool! Agora a gente ali com o termômetro marcando o grau, naquele tempo era 48 graus o álcool, caindo ali naquela dornazinha pequena, na coretazinha pequena caindo. Quando ela caía dos 48 que ficava nos 40, aí vai descambando pra 22, a gente tirava aquela e botava uma etiqueta na boca dela, que aquela é álcool separado. Botava a outra separada, aí era a cachaça. Aí ela agüenta em 23, 22 graus é cachaça boa todo tempo! Agora quando ela quis cair daí, também para o negócio porque aí não é mais cachaça, começa a ficar xixi, não é mais cachaça, é fraco! Tem que ser destilada novamente com a 55

garapa até aproveitar aquele álcool todo que ela tiver! E assim ia lutando e aquela cachaça dava um rendimento grande. Agora a pessoa bota um nome na cachaça e compra o selo e compra o rótulo pra botar nas garrafas e compra as garrafas, faz o engarrafamento e as cortiças, muitos sacos de cortiça pra tampar aquilo tudo! Quem fazia isso era os trabalhador!66

O meu pai vivia na bodega, no comércio, para trabalhar na cana tinha os trabalhador!67 Eu quando cheguei em Cascavel tinha nove anos, eu tangia os bois no engenho68 que tem o moinho gigante do engenho, uma manjarra grande que ficava rodando todo o tempo, uma manjarra com três juntas de boi arrastando, porque o engenho era grande! Era esse alemão número cinco. Cada moenda dá quase uma tonelada! Agora botava uns quatro pedaços de cana, daquela caiana e manteiga, aquela cana boa! Fica pesado pros bois! Duas juntas é pouco pra arrastar. E eu era tangendo os bois, com uma vara com um prego na ponta. Às vezes de malvadeza dava umas

cutucadas nele, pra ele ajudar o outro porque tem gente que é escorão e boi também!69

E o que é certo é que foi assim até que quando foi em 1936 meu pai morreu com 54 anos.

Apareceu uma doença aí! Um camarada chamou ele para andar aí numas terras, pra ir limitando umas terras mais outro, um grande proprietário de canavial, chamado Juarez; e eu sei que quando ele voltou, voltou já se sentido mal. E o doutor melhor que tinha em Fortaleza nesse tempo era o Costa Araújo, ele foi pra lá, bateram a chapa de raio x nele, e veio pra lá, a gente via tudo que ele tinha, agora dizia que ele tinha uma infecçãozinha boba! E eu sei que ele durou uns catorze dias depois que se queixou doente, morreu logo! Com 54 anos, homem forte ainda70.

Aí minha mãe ficou viúva, viúva de boa vida! Sempre naquele papel de mulher correta, de respeito e na companhia de oito filhos71. Tinha nove, mas uma era casada, a Etelvira, a mais velha já estava fora. Minha mãe teve doze filhos. Morreu três e criou nove. Agora sete são homem e duas era mulher, a Etelvira e Maria. Essa é arriscado tá viva, ela está com 60 e poucos anos, agora a Etelvira não essa já tá bem de idade, essa já sei que morreu. E o que é certo é que ela ficou na luta dos sítios, lutando! Mas a mulher nunca é como homem e aí foi indo pra trás!72 Quando dá fé o rapaz se formando rapaz não queria mais ir pro serviço outro pensando em casar, outros cantos pra sair e com pouco tempo o negócio foi fracassando73. Mas meu pai antes de morrer tinha comprado uma casa particular porque esse negócio do sítio era sociedade. E o negócio foi fracassando e os filhos saindo. Começou a vender a cana pra uma usina em Cascavel muito grande! Do Francisco Augusto de Deus. Não tava mais fazendo rapadura, nem mel, nem cachaça e saímos de lá e fomos pra essa casa que o meu pai comprou quando era vivo. Aí fiquemos lá nessa vida, fiquemos só com o sítio da bica mas não se fazia nada, só cultivar a cana. Muita plantação, muita fruta! Muita bananeira dando fruto e cajueiro muito! Coqueiro tinha demais! Tinha umas duzentas árvores de coqueiro e tudo 56

carregava bem! Agora vivíamos só daquilo. A cana era cortada e vendida a carga a cinco mil réis naquele tempo. Era vendida pra usina: o camarada mandava cortar, pagava o cortador e se a pessoa quisesse que nós carregasse tinha uma tropa de trinta burro. Ainda houve uns lá dos meus irmãos que carregaram uns vinte e eles pagavam, assim mil e quinhentos por cada carro ao todo pagava o frete. E assim foi indo, foi indo até que chegou um tempo que eu também me casei e foi quando veio esse desmantelo da guerra de 39 74.

Quando conheci minha mulher eu estudava num colégio chamado Rio Branco colégio

particular e ela estudava no Grupo75. Naquele tempo o Getúlio Vargas tinha liderado aí um negócio das professoras quintanista, naquele tempo ela fazia o quinto ano, que depois que tirava o diploma do quinto aí podia lecionar. E a gente sempre se via perto dali. Desse jeito atraiu amizade e a mãe dela também, que ela não tinha pai só tinha mãe76. A mãe dela mesmo foi quem se interessou de casar a filha dela comigo. Eu também não era má pessoa, também não vivia muito mau. Tava empregado nesse tempo numa loja de um homem chamado Vinício. Ganhava pouco! Noventa mil réis por mês, isso pra mim é pouco!

E o que é certo é que nessa vida boa que eu tava com seis meses de casado a minha mulher já tava grávida e lá vem essa guerra de 39, então eu fui convocado77. E nunca mais encontrei com ela. Quando tinha condição de voltar pra lá que escrevi pra lá a mulher tinha morrido. Morreu a mulher e a criança, tinha nascido uma criança, morreram naquele ano mesmo. Chamava-se Maria Estela Pereira, antes de casar comigo Maria Estela Barros, mas quando casou ficou assim. Então eu nunca mais voltei, no ano que a gente chega assim novato não tem como voltar, é muito longe! A gente tem que ganhar primeiro, tirar saldo do patrão pra fazer aquele dinheiro pra poder voltar e eu só pude conseguir isso com dois anos de serviço. Porque o primeiro ano o sujeito compra tigela de seringa, compra faca pra cortar seringa, compra um machado, compra fazenda pra fazer o saco. Aí vai abrir a colocação. Tudo caro! Naquele primeiro ano quando o sujeito é feliz e tem espírito de trabalhar, tem coragem de trabalhar ainda paga a contas. Agora no outro é que ele vai trabalhar pra ele! 78

E foi o que aconteceu comigo, quando foi com dois anos que eu tinha condições de voltar, escrevi pra lá e já veio essa notícia que minha mulher tinha morrido! Eu digo: “bem, agora a vaca foi pro brejo!” Não tenho mais nada a fazer, vou ficar por aqui mesmo! Porque eu não tinha porque voltar, casado ainda ia, podia adquirir alguma coisa, porque era casado no católico e civil, mas eu imaginei que quando chegasse lá não arrumava nada e assim eu me agüentei por aqui. 79

Quando fui vendo a Amazônia, porque eu não vinha do sertão, eu já vinha de dentro da

praia de Cascavel, não é dentro do sertão! Mas nasci no sertão! Vinha da praia, da beira da praia e eu 57

vim achando assim uma coisa muito diferente da nossa terra, umas árvores muito monstruosa!

Muito grande! E um sistema todo diferente80.A gente vem estranhando, porque na nossa terra a gente vê o vaqueiro passar na porta da gente tocaiando uma manada de gado, depois vem o boiadeiro naquela vida mais animada! E cantador repentista, aquele violeiro chamavam e tudo aquilo alegra muito! E pra cá o camarada passou do Maranhão não se vê mais essas coisas de jeito nenhum e só se vê água e mata selvagem medonha! E quando chega aqui no seringal é doença, é carapanã, pium, borrachudo e cobra tem em tudo quanto é canto. E tudo é só pra acabrunhar a pessoa que vem pra cá! E quando o sujeito atravessa, na idade que eu tô, mesmo alejado, com setenta e cinco anos que vou fazer agora no dia 19 de abril, ainda é aqueles feliz! Mas Muitos se acabaram aqui mesmo! Só o clima do lugar é muito diferente do nosso. As chuvas aqui tá mais pouca, tá parcelada, mas quando nós chegamos aqui chovia quase todo dia, chovia demais aqui no norte! E para quem nasce no sertão que quando dá uma chuva pra gente é uma novidade, chegar num lugar desse, aí a pessoa vai estranhando muito! Chega a ser engraçado! Quando chega no seringal aí é que a pessoa estranha!81 Porque sempre no Ceará, apesar da má reputação do Estado, mas o Ceará é um estado bom, Eu gosto muito da minha terra! Lá a gente sabe que tem uma vida muito sofrida, vem pra cá que é um lugar que ainda ta tudo avulso, e quem quer um pedaço de terra vem pra cá, porque lá não tinha mais condições pra isso, mas lá não é ruim não!82 E o que é certo é que lá quando agente tem um patrão na chegada conhece quem é o patrão ali no meio dos trabalhadores e aqui se misturam um com o outro, e às vezes o patrão é mais a toa do que os trabalhador, principalmente no seringal.

Eu trabalhei com um moreno lá no seringal só tinha muito era dinheiro, sem presença de tudo, era um cabra assim medonho! E assim a gente estranha tudo porque no nordeste o patrão é sempre o homem mais vistoso quem tem por ali, o mais bem trajado. Pra cá a pessoa ignora andar limpo! O

patrão do seringal, um homem que dava mais 400, 500 tonelada de borracha andava com o pé no chão, roupa de mescla com um remendo aqui e outro acolá! Eu acho é graça nisso! Mas isso eu recebia com muita estranheza! Porque lá pra nós não existia isso não, lá o patrão sempre se distinguia do trabalhador, mas aqui é assim e isso tudo a gente estranha um pouco!83

Agora os seringais são bonitos! O primeiro seringal que eu fui era o Seringal São Domingos.