Fábulas (imitadas de Esopo e La Fontaine) por Justiniano José da Rocha - Versão HTML

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Fábulas (imitadas de Esopo e La Fontaine) - Justiniano José da Rocha Ridendo Castigat Mores

Fábulas (imitadas de Esopo e La Fontaine)

Justiniano José da Rocha (1812-1863)

Edição

Ridendo Castigat Mores

Versão para eBook

eBooksBrasil.com

Fonte Digital

www.jahr.org

Ilustração da Capa

Grandville

www.lafontaine.net

Copyright:

Domínio Público

FÁBULAS

Imitadas de

Esopo

e

Fábulas (imitadas de Esopo e La Fontaine) - Justiniano José da Rocha La Fontaine

Justiniano José da Rocha

ÍNDICE

APRESENTAÇÃO.

Nélson Jahr Garcia

O galo e a pérola.

O cão e a máscara

O cão e a carne.

A mosca e o carro.

O homem e a doninha.

O Sol e as rãs.

A galinha dos ovos de ouro.

O lobo e o cordeiro.

O cão e a ovelha.

O lobo, o veado e a ovelha.

O galgo velho e seu amo.

O leão, a vaca, a ovelha e a cabra.

A rã e o rato.

O ladrão e o cão.

A mosca e o coche.

Os membros e o estômago.

O parto da montanha.

A serpente e a lima.

O leão velho.

A águia e a tartaruga.

O mono e a raposa.

Os dois viajantes.

As duas cadelas.

O homem e a víbora.

As pombas e o gavião.

O leão e o burro.

O pavão e Juno.

O galo e a raposa.

A águia e a raposa.

O bezerro e o boi velho.

As rãs querendo um rei.

O lobo e a garça.

Fábulas (imitadas de Esopo e La Fontaine) - Justiniano José da Rocha

O lobo e o cabrito.

O corvo e a raposa.

As lebres e as rãs.

Os lobos e as ovelhas.

O rato da cidade e o do campo.

Os pássaros e a andorinha.

A raposa e o socó.

O lenhador e a morte.

O lobo e o dogue.

A gralha e os pavões.

A formiga e a mosca.

O lobo e o cavalo.

A rã e o touro.

O morcego e as aves.

O corcel e o sendeiro.

O lenhador e a mata.

A raposa e as uvas.

O gavião e o sabiá.

O burro e o almocreve.

A rata e o gato.

O lobo e o pastor.

O cachorrinho e o burro.

O gavião e a sua mãe.

O leão e o rato.

A pomba e a formiga.

A porca e o lobo.

O calvo e a mosca.

O cordeiro e o lobo.

O lobo, a raposa e o macaco.

O caniço e o carvalho.

O lobo e o burro.

O veado e suas pernas.

O leão e o macaco.

A pulga e o camelo.

Os carneiros e o carniceiro.

O cavalo e o veado.

A águia e as outras aves.

O leão e a raposa.

O leão e o homem.

As duas panelas.

O cão e o jardineiro.

A doninha e a raposa.

O carreiro em apuros.

O velho barqueiro e o moço.

Fábulas (imitadas de Esopo e La Fontaine) - Justiniano José da Rocha

O corvo e o escorpião.

A cabrita e seu filho.

Hércules e os Pigmeus.

O caçador e a cobra.

A cigarra e o rouxinol.

O hortelão e o burro.

A gralha e a ovelha.

A formiga e a cigarra.

O leão e o burro.

O veado no curral.

O lobo e a raposa.

O caçador e o urso.

O leão e o mosquito.

Esopo e o mal criado.

O solitário e o seu urso.

O feixe de varas.

A lebre e a tartaruga.

A gata mudada em mulher.

A mercadora de leite e seus cálculos.

A peste dos animais.

O lavrador, seu filho e o burro.

A assembléia dos ratos.

Os ladrões e o burro.

A coruja e seus filhos.

Os dois burros.

O rato ermitão.

A águia, a gata e a porca.

A batalha dos ratos.

O burro coberto com a pele do leão.

O galo, o gato, e o ratinho.

As vespas.e as abelhas.

Os touros e a rã.

O burro e a sua prosápia.

Os perus e a raposa.

A avidez castigada.

A torrente e o rio.

O cão fiel.

O rato e o elefante.

Os dois galos.

A raposa sem rabo.

A canoa boiando.

Os dois burros.

O veado e a vinha.

O pobre e o rico.

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Fábulas (imitadas de Esopo e La Fontaine) - Justiniano José da Rocha APRESENTAÇÃO

Nélson Jahr Garcia

As fábulas constituem meios de inculcação de idéias em várias culturas do mundo, inclusive no Brasil.

São histórias que contêm concepções sobre a natureza física, a organização e funcionamento das sociedades, regras de conduta e comportamento, objetivos de vida que devem ser almejados.

São transmitidas por pais, professores, sacerdotes, até políticos e homens públicos. Estão em livros, peças de teatro, filmes, em todas as formas de comunicação enfim.

No livro, que aqui apresentamos, há várias sínteses das obras de Esopo e La Fontaine. Várias já foram absorvidas e incorporadas à cultura brasileira. Mencionando apenas algumas, temos: “A formiga e a cigarra”, “A galinha dos ovos de ouro”, “A raposa e as uvas”, “A lebre e a tartaruga”, “O lobo e o cordeiro”. Algumas se transformaram em ditados e expressões populares: “mãe coruja”, “burro em pele de leão”, “atirar pérolas aos porcos”, “contar com ovos na galinha”, “morder a mão do dono”, “unidos jamais serão vencidos”. As fábulas contêm a experiência humana de séculos e, por isso merecem ser lidas e admiradas. Mas devem ser analisadas com critério e senso crítico: até que ponto representam interesse predominantes na sociedade? Têm validade nos dias atuais? Correspondem à realidade social e à vida cotidiana? Cabe ao leitor tirar suas conclusões.

FÁBULA I.

O galo e a pérola.

Um galo andava catando em um monturo vermes ou migalhas que comesse. Deu com uma pérola, e exclamou: “Ah se te achara um lapidário! a mim porém de que vales? antes um grão de milho ou algum

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Fábulas (imitadas de Esopo e La Fontaine) - Justiniano José da Rocha bichinho”. Disse foi-se buscando por diante seu parco alimento.

MORALIDADE: A riqueza só tem valor para quem a sabe aproveitar.

FÁBULA II

O cão e a máscara.

Procurando um osso que roer, encontrou um cão uma máscara: era formosíssima, e de cores tão belas quão animadas; o cão farejou-a, e reconhecendo o que era, desviou-se com desdém.

A cabeça é de certo bonita, disse; mas não tem miolos.

MORALIDADE: Sobram neste mundo cabeças bonitas, porém desmioladas que só merecem desprezo.

FÁBULA III.

O cão e a carne.

Ia um cão atravessando um rio; levava na boca um bom pedaço de carne. No fundo da água viu a sombra da carne; era muito maior. Cobiçoso, soltou a que tinha na boca para agarrar na outra; por mais,

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Fábulas (imitadas de Esopo e La Fontaine) - Justiniano José da Rocha porém, que mergulhasse, ficou logrado.

MORALIDADE: Nunca deixes o certo pelo duvidoso. De todas as fraquezas humanas a cobiça é a mais comum, e é todavia a mais castigada.

FÁBULA IV.

A mosca e o carro.

Ia uma mula puxando um carro estava ele pesadíssimo; a estrada era pedregosa e cheia de covas, e a mula suava dobrando de esforço, e tendo em paga as chicotadas do arreieiro. Uma mosca que estava então sobre a cabeça do animal, compadeceu-se dele e disse-lhe ao ouvido: “Pobrezinho, vou aliviar-te do meu peso; agora já poderás puxar o carro”.

MORALIDADE: Quanta gente, tendo a importância da mosca, tem igual presunção?

FÁBULA V.

O homem e a doninha.

Um homem armou uma ratoeira; sucedeu cair nela uma doninha. Vendo-se preso, suplicou-lhe o malfazejo animal que se lembrasse dos benefícios que lhe havia feito, limpando-lhe a casa de ratos e de

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Fábulas (imitadas de Esopo e La Fontaine) - Justiniano José da Rocha animais daninhos. Não serei ingrato, respondeu-lhe o homem, pois nada fizeste com tenção de servir-me; só tratavas de fartar-te: se ratos não houvesses achado, terias despovoado o meu galinheiro.

MORALIDADE: Muitos querem que aceitemos como obséquio o que só fazem por prazer ou utilidade própria.

FÁBULA VI.

O Sol e as rãs.

Correu boato de que o sol ia casar-se; e logo as rãs se assustaram, multiplicaram orações para que tal não acontecesse. Um Sol já nos custa a suportar: com a sua presença os charcos e os paúes ficam secos; mal podemos achar um ou outro esconderijo que nos conserve algum fresco, alguma umidade: o que será se, casando, tiver filhos?

MORALIDADE: É prudente evitar que se multipliquem os maus.

FÁBULA VII.

A galinha dos ovos de ouro.

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Fábulas (imitadas de Esopo e La Fontaine) - Justiniano José da Rocha Tinha certa velha uma galinha que lhe punha ovos de ouro; e bem que raros fossem, davam-lhe para viver em abastança. Um seu afilhado continuamente lhe dizia: “Como pode minha madrinha esperar pelos ovos desta galinha? Se põe ovos de ouro, é por certo toda de ouro; matemo-la”. A velha por fim cedeu. Morta a galinha, era por dentro como todas as galinhas.

MORALIDADE: Contentemo-nos, agradecidos, com os presentes que Deus nos dá no tempo e nos períodos que sua sabedoria entende convenientes.

FÁBULA VIII.

O lobo e o cordeiro.

Estava um cordeiro bebendo água na parte inferior de um rio; chegou um lobo, e cravando nele torvos olhos, disse-lhe com voz cheia de ameaça: “Quem te deu o atrevimento de turvar a água que pretendo beber?” — Senhor, respondeu humilde o cordeiro, repare que a agua desce para mim: assim não a posso turvar. — Respondes, insolente! tornou o lobo arreganhando os dentes ;já o ano passado falaste mal de mim. — Como o faria, se não tenho seis meses então ainda não tinha nascido. — Pois se não foste tu, foi o teu pai, teu irmão, algum dos teus e por ele pagarás. E atirando-se ao cordeiro, o foi devorando.

MORALIDADE: Foge do mau, com ele não argumentes: as melhores razões te não poderão livrar da sua fúria. Evita-o fugindo.

FÁBULA IX.

O cão e a ovelha.

Um cão pôs demanda a uma ovelha, dizendo que lhe havia emprestado, para matar-lhe a fome, um belo osso de presunto. A ovelha respondia que nunca lhe pedira emprestada coisa alguma, e ainda menos ossos de presuntos, pois nem seus dentes nem seu estômago se acomodavam em semelhante alimento.

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Fábulas (imitadas de Esopo e La Fontaine) - Justiniano José da Rocha Mas, pobre dela! o cão achou por testemunha um lobo, um urubú e um gavião, e jurando os três terem visto a ovelha receber do cão presunto, roe-lo faminta, foi ela condenada.

MORALIDADE: Por mais razão que tenhas, foge de demandas; ao rico contra o pobre nunca falta apoio de testemunhas capazes de tudo.

FÁBULA X.

O lobo, o veado e a ovelha.

Tendo-se ajustado com um lobo, foi um veado ter com uma ovelha, e lhe pediu que restituísse o trigo que lhe havia emprestado. A ovelha, vendo o reforço a que o impostor havia recorrido, percebeu que só por manha livrar-se-ia. Bem, disse; mas ando agora em tais apuros, que não posso cuidar de negócios, nem tenho um grão de trigo. Volte daqui a oito dias, e conversaremos. Retirou-se o veado., satisfeito com a esperança. Passados alguns dias, encontrando-se com ele, a ovelha o desengana, declarando que nada lhe devia, e nada lhe havia de dar.

MORALIDADE: Quando contra nós alguém se levanta em presença de nossos inimigos, manda a prudência calar, até que venha a oportunidade de nos desagravarmos.

FÁBULA XI

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Fábulas (imitadas de Esopo e La Fontaine) - Justiniano José da Rocha O galgo velho e seu amo.

Bom caçador fora outrora um galgo; sempre farejava e descobria a presa, e quanta farejava, pronto fisgava. Seu amo enchia-o, de afagos e carinhos. Mas para os galgos, como para a gente, passam os anos, chega a velhice; o pobre galgo perdeu o faro, perdeu os dentes, e já não descobria a presa; e se a descobria, a não apanhava. Uma vez, um coelho, que ele conseguira apanhar, safou-se-lhe da desdentada boca. O amo chega, e irado o açoita.

Senhor, disse-lhe chorando o velho, pois não mereço, em atenção aos serviços passados, não mereço alguma compaixão?

MORALIDADE: A lição deste galgo vos diz como sereis tratados por aqueles a quem já não puderdes servir.

FÁBULA XII

O leão, a vaca, a ovelha e a cabra.

Fizeram sociedade (quem tal diria?) uma cabra, uma vaca, e uma ovelha, com o leão, rei dos animais, e de parceria se puseram a caçar. Pilharam um veado, e para logo felicitando-se e esquecendo o cansaço, dividiram-no, em quatro partes. Chegou o leão e disse: “Esta é minha, pela lei do nosso ajuste: esta outra quero-a para mim, porque sou rei dos animais; a terceira me haveis de dar em obséquio à minha valentia; e quem tiver o arrojo de bulir na quarta há de haver-se comigo”. Os parceiros calaram-se: e que haviam de fazer? antes perder o seu quinhão do veado, do que ter a mesma sorte que ele.

MORALIDADE: Em tudo lidai com os vossos iguais; pois sereis os primeiros que pagareis a superioridade de vossos aliados.

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Fábulas (imitadas de Esopo e La Fontaine) - Justiniano José da Rocha FÁBULA XIII.

A rã e o rato.

Desejava um rato passar um rio; porém tinha medo, não saber nadar. Ofereceu-lhe uma rã os seus serviços, pronta a levá-lo para outra banda, se quisesse atar-se com ela. Consentiu o rato, e com um cordel amarrou uma das suas patas, e atou na outra ponta o pé da rã. Entraram na água; a maliciosa rã, escarnecendo do companheiro, procurava, mergulhando, puxá-lo para o fundo e afogá-lo. O rato forcejava em resistir-lhe. Nesta lida estavam, quando vem voando um gavião; dá com eles, e de ambos faz seu almoço.

MORALIDADE: Raramente os maus triunfam: se conseguem prejudicar os bons que neles se fiam, acham logo outro mau que os castiga.

FÁBULA XIV.

O ladrão e o cão.

Quis um ladrão entrar em uma casa; mas para guardá-la havia um cão, que com seus latidos o impedia.

Para fazê-lo calar-se, o ladrão atirou-lhe um pedaço de pão. Bem te entendo, disse o cão, queres que por esse pão te venda o meu senhor que me dá de comer toda a minha vida, e que me confiou a defesa do que é seu; guarde teu pão; hei de ladrar até que acorde a gente da casa; e se te pilho, fisgo-te os dentes que te hão de curar do ofício. Não podendo corromper essa fidelidade, nem iludir essa vigilância o ladrão foi ver se achava alguma casa mais descuidada.

MORALIDADE: Não acredites de leve na generosidade de quem mostra querer obsequiar-te, e nunca, por consideração alguma, atraiçoes aos que em ti houverem confiado.

FÁBULA XV.

A mosca e o coche.

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Fábulas (imitadas de Esopo e La Fontaine) - Justiniano José da Rocha Ia um coche com excesso carregado, e as vigorosas mulas que o puxavam por entre as pedras e lamas do caminho, pouco adiantavam. Animava-as o cocheiro com a voz, incitava-as com o chicote. Entretanto esvoaçava de uma para outra, em continua lida, uma mosca importuna fazendo o seu zunido. Por fim, venceu o coche as dificuldades do caminho: Graças a Deus, exclamou a mosca, cansei-me e afadiguei-me; mas enfim eis aí desembaraçado o coche; como não estariam essas pobres mulas, e esse pobre cocheiro, se lhe não tivesse valido!

MORALIDADE: Moscas destas não são raras de encontrar em toda a casta de negócios.

FÁBULA XVI.

Os membros e o estômago.

As mãos e os pés revoltaram-se um dia. Trabalhamos tanto, estamos em contínuo lidar e tudo é em proveito do estômago, que aí fica folgado, empregando em vantagem sua quanto adquirimos. Não estamos mais por isso, queremos folgar, e viva o estômago como puder. Admoestações, rogos, instâncias, nada valeu. O estômago ficou em jejum; mas para logo todo o corpo caiu em debilidade; braços, pernas, pés e mãos foram dos primeiros a sentir um entorpecimento, uma languidez que os assustou; compreenderam que iam morrendo; voltaram pois ao seu antigo ofício, e dentro em pouco, graças ao condescendente estômago, se acharam restituídos à antiga robustez.

MORALIDADE: Todos somos membros de um vasto corpo, que é a sociedade; cada um exerce funções especiais, mais subidas, mais humildes, porém todas indispensáveis pára a prosperidade e até para a existência de todos.

FÁBULA XVII.

O parto da montanha.

Uma montanha começou a dar urros e berros, que a tudo assustavam. “O que será, o que não?”

perguntavam todos inquietos. É a montanha que está para parir. “Que imenso monstro, Deus se condoa de nós, será o seu filho!” dizia a gente. Vai se não quando pare a montanha um ratinho.

MORALIDADE: Os que prometem mundos e fundos espantam-nos a final com o nada que dão de si.

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Fábulas (imitadas de Esopo e La Fontaine) - Justiniano José da Rocha FÁBULA XVIII.

A serpente e a lima.

Entrando uma serpente na casa de um ferreiro mordeu em uma lima, e como lhe esta resistisse, com mais força lhe aplicou os dentes; porém em vez de conseguir cravá-los, ficaram-lhe eles abalados, e a boca cheia de sangue. Então a lima lhe disse: e o que fazes, néscia, não vês que sou de aço, e de boa têmpera! Nem todas as serpentes do mundo me podem fazer mal; inerte lhes resisto, e se persistem, em pouco tempo ficam desdentadas.

MORALIDADE: Uma vida honesta e pura é como a lima: por mais que a serpente da calúnia lhe queira cravar os dentes, nada consegue.

FÁBULA XIX.

O leão velho.

De velho e enfermo jazia moribundo um leão que, em moço, havia sido o terror das brenhas. Apareceu Fábulas (imitadas de Esopo e La Fontaine) - Justiniano José da Rocha um javali, e, para vingar-se da antiga injúria, deu-lhe com o focinho, e foi-se; após o javali veio um touro; seguiram-se outros animais e cada qual se desforrava a seu modo. O leão sofria calado. Veio por fim um burro, e deu-lhe um coice: o leão não pode conter-se: Até aqui sofri resignado, disse, e a quantos insultos recebia opunha a lembrança do que tinha sido outrora, quando até do meu rugido todos esses tremiam; mas agora tu também, tu miserável burro!... Isto é morrer duas vezes!

MORALIDADE: Quando a desgraça acomete um homem, não falta quem venha com ele ajustar contas: o homem nobre e infeliz tudo sofre resignado; há porém burro tão burro e tão vil, que torna impossível a resignação.

FÁBULA XX.

A águia e a tartaruga.

Uma águia agarrou em uma tartaruga; mas embora faminta, não sabia como haver-se para comê-la; porquanto na eminência do perigo, a tartaruga se encolhia toda na sua concha, e nem bico nem garras podiam romper essa muralha. Vendo-a assim, lidar debalde, outra águia matreira lhe disse: A presa é boa, minha filha; carne de tartaruga é manjar delicado; mas nunca poderás pôr-lhe o bico se te eu não valer. —

Pois vale-me e dou-te metade da presa. — Vá feito: sobe o mais que puderes nas nuvens, e de cima deixa cair a tartaruga, a concha ficará quebrada. Dito e feito; a pobre tartaruga, mal defendida contra tamanho baque, foi o almoço de ambas.

MORALIDADE: Em tudo menos vale a força de que o jeito; em tudo a experiência é proveitosa.

FÁBULA XXI.

O mono e a raposa.

Tinha uma raposa um rabo tão comprido, que andava sempre caído, sem graça, e varrendo o chão. Um mono, que tão pelado tinha o seu, que andava sempre descomposto, lhe disse: “Camarada, podes servir-te a ti própria, servindo-me a mim; dá-me o que de rabo te sobra, para suprir o que me falta; assim ficarei eu em estado de poder passear sem pejo, e tu ficarás mais elegante e mais leve”. — Antes quero ter o meu rabo assim mesmo pesado, e arrastando, do que dar-to. Cada um com o que é seu, cada um por si, disse a raposa.

MORALIDADE: Há muitos que antes querem conservar coisas inúteis e até nocivas, só por serem suas, do que dá-las a quem, aproveitando-as, retribuir-lhes-ia com tesouros que nunca são excessivos às bênçãos dos desvalidos.

FÁBULA XXII.

Os dois viajantes.

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Fábulas (imitadas de Esopo e La Fontaine) - Justiniano José da Rocha Dois viajantes perderam-se no caminho, e depois de muito terem andado, chegaram a uma terra desconhecida. Os guardas da fronteira os prenderam e levaram à presença do rei. Guardas, rei, todos na terra eram macacos. O que vos parece de mim e do meu povo? perguntou-lhes o rei depois dos primeiros cortejos. — Senhor, disse um dos viajantes, facilmente se vê que sois o magnânimo rei de um povo generoso e ilustrado. O rei sorriu-se benigno. Senhor, disse o outro, basta ter olhos para ver que vosso povo se compõe de monos, e tudo, até esse feio rabo que ali se enrosca detrás de vosso trono, diz que também sois mono. Tanto bastou para que os guardas do rei caíssem sobre o indiscreto, e o esquartejassem; o outro foi muito agasalhado, e retirou-se cheio de presentes.

MORALIDADE: A verdade irrita os maus, a mentira é por eles bem acolhida.

FÁBULA XXIII.

As duas cadelas.

Sentindo-se na hora de parir, e não tendo onde acolher-se, pediu uma cadela à sua camarada que lhe emprestasse a sua cama. A outra, compadecida, atendeu-lhe, prometendo ela retirar-se logo que os filhinhos se pudessem arrastar. Chegou o dia da restituição, e não mostrando a hóspede muita vontade de cumprir o ajuste, pediu-lhe a compassiva o seu palheiro. A parida, porém, arreganhando os dentes: Retirar-me-ei, disse, se fores capaz de deitar-me fora a mim e aos meus. Tinha então consigo meia dúzia de cachorrinhos que já ladravam e sabiam morder.

MORALIDADE: Há assim muitos que, como a cadela mal agradecida, humildes imploram a caridade, e depois se levantam contra quem lhes valeu.

FÁBULA XXIV.

O homem e a víbora.

Em manhã de rigoroso inverno ia um pobre camponês para seu trabalho; viu uma víbora, tolhida de

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Fábulas (imitadas de Esopo e La Fontaine) - Justiniano José da Rocha frio, que estava morrendo. O pobre na lição do sofrimento aprende a ser compassivo; condoído, o camponês não refletiu; tomou a víbora, agasalhou-a no seio. A malvada mal sentiu a benígna influência ao calor, cobrou forças, e com elas a natural perversidade, e com venenosa mordidela retribuiu ao imprudente o seu beneficio.

MORALIDADE: Manda a humanidade que socorramos ainda mesmo aos maus; cumpre porém ver que não seja dando-lhes meios de continuar as suas maldades.

FÁBULA XXV.

As pombas e o gavião.

Perseguidas pelas aves de rapina, as pombas julgaram conveniente valer-se do gavião. Generoso, outorgou-lhes este a sua proteção, e foi as matando e comendo que era um regalo. Entregues sem defesa a desapiedado inimigo: Com, razão padecemos, dizem as pombas; quem nos mandou querer protetores?

MORALIDADE: Fujamos de protetores de ofício, especialmente quando são de conhecida avidez e perversidade; caro custa-nos tal proteção.

FÁBULA XXVI.

O leão e o burro.

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Fábulas (imitadas de Esopo e La Fontaine) - Justiniano José da Rocha Ia um burro ufano de si, pois o arrieiro lhe havia posto campainhas, cascavéis e penachos, e o coitado achava-se formosíssimo. Encontrou um leão: “Tira-te daqui, disse-lhe arrogante, não me embaraces o caminho”. 0 leão parou vendo tanto atrevimento, irresoluto se o devia castigar: por fim sorriu-se, e disse:

“Não; carne tão vil desdouraria as minhas garras”. Riu-se outra vez e foi-se.

MORALIDADE: Há insolências que partem de tão baixo, e a tão alto se dirigem, que só o desprezo merecem.

FÁBULA XXVII.

O pavão e Juno.

Um formoso pavão excitava com a beleza das suas penas a curiosa atenção de alguns homens que o estavam admirando, e que lhe não poupavam gabos. Súbito ouviram estes o cantar de um rouxinol, e logo tudo esquecendo, procuram chegar-se para o lugar de onde partiam tão suaves melodias. Abandonado, o pavão encheu-se de raiva, e queixoso foi ter com Juno. Porque há de um passarinho, feio e sem graça, cantar melhor do que eu; porque me não deste a voz do rouxinol? perguntou. Não sejas ingrato, respondeu lhe Juno; cada animal tem suas prendas, nenhum tem tudo; à águia coube a força, ao rouxinol a voz, a ti essa plumagem recamada de estrelas e de esmeraldas; não és dos mais mal aquinhoados. —

Sim; mas quisera cantar como o rouxinol, tornou o pavão.

MORALIDADE: Poucos se contentam com o que têm, todos invejam o alheio, e assim se fazem desgraçados.

FÁBULA XXVIII.

O galo e a raposa.

Vendo aproximar-se uma raposa, um galo trepou com as galinhas a um alto pinheiro. A tanta altura não podia alcançar o malfazejo bicho, procurou pois valer-se da astúcia. “Olá! Sr Galo, disse, de que tem Fábulas (imitadas de Esopo e La Fontaine) - Justiniano José da Rocha medo? porque sobe tão alto? pois ignora que está feita a paz eterna entre todos os animais! pois ainda não lhe foi comunicada tão grata noticia? Neste caso, quero alvíssaras. Ora desça, abracemo-nos, festejemos este dia de universal reconciliação”. Percebeu o galo a mentira; dissimulando porém, e não se dando por achado: Muito folgo com a notícia, respondeu, e já desço para mostrar-lhe o meu contentamento: mas aí vem chegando uns cães, junto com eles melhor festejaremos tão bela paz.

“Aí vem cães?” disse a raposa; “pode ser que os malditos ainda não saibam da paz”. E safou-se mais ligeira do que tinha vindo.

MORALIDADE: Não crer de leve é o conselho da prudência; reconhecendo a impostura, dissimular é o melhor meio de evitá-la.

FÁBULA XXIX.

A águia e a raposa.

Uma águia tinha filhos; para os alimentar, apanhou os filhos de uma raposa. A aflita raposa suplicou, instou; nada conseguiu. Altiva e desdenhosa, a águia zombou dos seus rogos, e preparou-se para devorar os raposinhos. Então a raposa valeu-se de bem inspirado estratagema: começou a cercar com muita palha e folha seca a árvore em que tinha a águia o ninho, e pôs-lhe fogo. Vendo-se ameaçada pela labareda, e reconhecendo que perdidos estavam os seus filhos, a águia pediu paz; entregando os raposinhos, a conseguiu.

MORALIDADE: Forte ou poderoso não ofendas a quem supões fraco; pois hás de ter um lado vulnerável, e o fraco saberá descobri-lo.

FÁBULA XXX.

O bezerro e o boi velho.

Tinha um lavrador um boi já idoso, mestre no ofício de puxar carros; deu-lhe por companheiro um bezerro ainda mal domado e todo fogo. O boi velho viu um insulto em semelhante parceria: “Olha”, disse-lhe o lavrador, “não te emparelho com ele na minha estima; junjo-o comigo, para que com o teu exemplo aprenda, e melhor aproveite, as lições que lhe dará meu aguilhão; entretanto, como é ele robusto, poderás tu próprio deixar-lhe carregar o maior peso, e de tanto te acharás aliviado”.

MORALIDADE: Cumpre dar aos mancebos boa companhia de homens sisudos e circunspectos; uns e outros com isso aproveitam.

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Fábulas (imitadas de Esopo e La Fontaine) - Justiniano José da Rocha FÁBULA XXXI.

As rãs querendo um rei.

Amigas de novidade, quiseram um dia as rãs ter seu rei, e pediram-no a Júpiter. O deus prestou-se benigno a seus desejos, e atirou ao charco em que viviam um pedaço de pão. Com o baque a água estremeceu, e as rãs, cheias de pavor, esconderam-se no fundo mais fundo, no lodo do charco. Para logo porém foram cobrando alento; levada pela curiosidade, uma sobe à tona d’água, levanta a cabeça e põe-se a admirar o seu rei. Imita a outra, e outra, e todas. E tomam ânimo, e aproximam-se nadando; vendo que o rei nem se movia, põem do lado toda a timidez, e começam a saltar sobre a inerte majestade.

Não era isso que queriam as rãs; ei-las de novo ante o trono de Júpiter, queixosas do logro que lhes havia pregado. Já que por bom e manso vos não serve o rei que vos dei ides ficar satisfeitas, disse o deus, cansado desta tão louca importunação. E deu-lhes a cobra, a cobra que de hora em hora abria a goela, e engolia alguma de suas súditas.

MORALIDADE: Contentemo-nos com o que temos; não queiramos novidades.

FÁBULA XXXII.

O lobo e a garça.

Voraz, como sempre, um lobo, estando a comer, engoliu um osso. Ficou-lhe este atravessado na

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Fábulas (imitadas de Esopo e La Fontaine) - Justiniano José da Rocha garganta, e o sufocava. Nesta aflição viu ele uma garça de compridíssimo pescoço, e suplicou-lhe que lhe valesse, prometendo mundos fundos, se lhe arrancasse o osso da goela. Compadecida a garça o fez. Livre o lobo recusou dar-lhe o que prometera. Ingrata, não vês que és tu que me deves retribuir a generosidade; dentro da minha boca esteve a tua cabeça, podendo apertar os dentes, deixei que te safasses! e queres paga! A garça calou-se: o que havia de fazer? Emendar a mão, e nunca valer a lobos.

MORALIDADE: Quantos na hora dos apuros tudo prometem aos homens, aos santos, a Deus e depois esquecem o prometido, e chasqueam de quem neles se fiou.

FÁBULA XXXIII

O lobo e o cabrito.

Uma cabra, indo pastar, deixou em casa o filho dizendo-lhe que não abrisse a porta a urso ou a lobo; pois mal lhe iria. Para melhor livrá-lo, ajustou com ele uma senha: Quando eu voltar disse, para que me abras, hei de bater três vezes, dizendo — abre que está frio: — só então abrirás. Um lobo estava à espreita, e ouviu a senha; daí a algumas horas voltou, bateu na porta, e disse: — Abre que está frio. —

Por mais, porém, que disfarçasse a voz, e procurasse imitar a da cabra, o cabrito teve desconfianças, e chegando-se à porta, disse: Minha mãe, mostre pela fresta a sua pata branca; só então lhe abrirei. Pata branca é coisa de que o lobo nunca dispôs; o nosso espertalhão não teve remédio senão retirar-se em jejum MORALIDADE: Nunca sobram precauções ; se fiando-se à senha, o cabrito tivesse aberto a porta, onde teria ido parar?

FÁBULA XXXIV.

O corvo e a raposa.

Um corvo pilhou um queijo, e com ele no bico foi pousar em uma árvore. Pelo cheiro atraída, acudiu uma raposa, e logo assentou que seria ela quem comesse o queijo; mas como! a árvore era alta, e o corvo tem asas, e sabe voar. Recorreu pois a raposa às suas manhas: Bons dias, meu amo, disse; quanto folgo de

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Fábulas (imitadas de Esopo e La Fontaine) - Justiniano José da Rocha o ver assim belo e nédio. Certo entre o povo aligero não há quem o iguale. Dizem que o rouxinol o excede, porque canta; pois eu afirmo que V. Exa. não canta porque não quer; se o quisesse, desbancaria a todos os rouxinóis. Ufano por se ver com tanta justiça apreciado, o corvo quis mostrar que também cantava, e logo abre o bico, cai-lhe o queijo, a raposa o apanha, e safa-se dizendo: Adeus, Sr. Corvo, aprenda a desconfiar das adulações, e não lhe ficará cara a lição pelo preço desse queijo.

MORALIDADE: Desconfiai quando vos virdes mui gabados; o adulador escarnece de vossa credulidade, e prepara-se para vos fazer pagar por bom preço os seus elogios.

FÁBULA XXXV.

As lebres e as rãs.

Corridas pelos galgos, de tudo espantadas, vivendo em contínuo sobressalto, reconheceram as lebres que um viver assim era um constante penar e resolveram morrer deitando-se todas juntas a afogar.

Antes morrer uma vez do que andar morrendo a todas as horas do dia... Enfileiram-se, partem à desfilada, e arremetem para o rio. Súbito salta na água espavorido um bando de rãs. 0h! oh! pois já metemos medo! dizem as lebres; já somos gente! Para que então nos havemos de matar? soframos; pois há quem sofra ainda mais do que nós.

MORALIDADE: Não deve o homem maldizer sua sorte; em posição nenhuma é ela tão má que outra pior se lhe não ache.

FÁBULA XXXVI.

Os lobos e as ovelhas.

Desde o começo do mundo houve guerra encarniçada entre as ovelhas e os lobos: por serem fracas e incapazes de defender-se, as ovelhas puseram-se debaixo da proteção dos cães. Então os lobos viram-se perdidos; às ocultas, só de emboscada, podiam pilhar alguma inimiga com que matassem a fome. Acudiu-lhes um estratagema: humilharam-se, pediram pazes; fizeram com que as crédulas ovelhas se

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Fábulas (imitadas de Esopo e La Fontaine) - Justiniano José da Rocha convencessem de sua credulidade; o que aliás lhes foi fácil, pois ofereceram dar como reféns os seus filhos. As ovelhas tudo aceitaram, e até calcularam a grande economia que fariam, dispensando a guarda e a proteção dos cães.

Fez-se a paz, foram dados os reféns, despedidos por economia os cães. Uma noite, os filhos dos lobos põem-se a uivar: acodem os pais bradando que estão maltratando seus filhos, que assim faltam à fé prometida, e restauram a guerra, e logo vão fazendo tal carnificina, que de ovelhas não sabemos como alguma escapou para continuar a raça.

MORALIDADE: No mau que diz arrepender-se não se deve confiar antes de boa prova.

FÁBULA XXXVII.

O rato da cidade e o do campo.

Um rato que morava na cidade, foi dar um passeio ao campo. Recebeu-o e agasalhou-o um amigo que o levou para os seus palácios subterrâneos, e deu-lhe um banquete de ervas e raízes. Maldizendo em presença de tais iguarias a louca lembrança do seu rústico passeio, o rato da cidade, obrigado a jejuar, disse por fim: “Amigo, tenho dó de ti; como te podes resignar a semelhante passadio? vem comigo para a cidade, verás o que é fartura, o que é viver”. O outro aceitou. À noitinha estavam ambos em uma bela e rica residência, em bem provida despensa; queijos, lombos, o perfumado toucinho, tudo os incitava; desforrando-se de sua longa dieta, o rato do campo regalava-se. Súbito range a porta, entra o despenseiro: vem com ele dois gatos. O rato da casa achou logo o seu buraco; o hóspede, sobressaltado, pulando de prateleira em prateleira, mal escapou com a vida, e despedindo-se do amigo: “Adeus, camarada”, disse,

“ficai-vos com as vossas farturas; mais vale magro e faminto no mato, do que gordo na boca do gato”.

MORALIDADE: Sem sossego de espírito de que valem os outros bens?

FÁBULA XXXVIII.

Os pássaros e a andorinha.

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Fábulas (imitadas de Esopo e La Fontaine) - Justiniano José da Rocha Em um campo muito tempo abandonado, e que por isso tinha se coberto de plantas agrestes, de cujas sementes se alimentavam muitas famílias de pássaros, apareceram um dia alguns homens de enxada na mão, revolvendo a terra, e semeando tinhaça. Uma andorinha que muito tinha viajado, e portanto ganhado experiência, convocou em assembléia todo o povo de penas e disse: Não é de bom agouro o que esses homens estão fazendo; da semente que deitam na terra há de nascer linho; com ele farão cordéis, laços, redes. Enquanto, pois, é tempo, caiamos na sementeira, não deixemos que brote um só grão. Os passarinhos puseram-se a rir e a chasquear. A andorinha retirou-se triste, e a sementeira ficou salva. Mas daí a pouco, redes e laços multiplicaram-se, e a imprudente passarinhada deu boas ceias aos lavradores.

MORALIDADE: Não escarneças de quem te dá bons conselhos; quando não, algum dia no infortúnio dirás ah! se tivesse pensado!

FÁBULA XXXIX.

A raposa e o socó.

Convidou a raposa a um socó para jantar em sua companhia; devia-lhe obrigações, dizia, e queria obsequiá-lo. O socó aceitou o convite, e foi-se preparando para fazer honra ao banquete de sua amiga.

Essa, porém, fez servir uma espécie de sorda, posta em um prato raso. Devia estar saborosa, pois só o seu perfume despertava o apetite; mas como a sorveria o socó com seu comprido e agudo bico? Multiplicou bicadas, magoou-se todo, e ficou jejuando, entretanto a raposa foi lambendo, e deu com tudo no bucho.

Desejoso de vingar-se, mas ocultando sua tenção, o socó agradeceu a raposa a fineza do convite, e disse que lho queria retribuir, convidando-a para daí a oito dias jantar em sua casa. A raposa, que é voraz, aceitou pressurosa. O vingativo socó apresentou-lhe em um vaso de comprido gargalo uma espécie de carne desfiada. No vaso não podia à raposa introduzir o focinho para alcançar a comida, e o socó de cada bicada arrancava e engolia um comprido naco. Quis enfadar-se a raposa, refletiu porém, e vendo que era uma justa desforra da sua graça, meteu o caso à bulha, e foi-se em jejum, ainda que não emendada.

MORALIDADE: Não zombes com os outros, pois achar-te-as exposto a iguais zombarias.

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Fábulas (imitadas de Esopo e La Fontaine) - Justiniano José da Rocha FÁBULA XL.

O lenhador e a morte.

“Que lidar insuportável este a que me sujeita a sorte!” exclamou um pobre lenhador atirando ao chão um grande feixe de lenha que vinha carregando. “Desde que amanhece vou para o mato, e até que anoitece meus pobres braços não largam o machado. E com tanto trabalho, mal tenho um bocado de pão negro e duro para matar-me a fome, mal velhos andrajos, que me não resguardam do frio. De que me serve a vida? Morte, vem valer-me”. Nesse momento apareceu-lhe a morte. “O que queres?” disse-lhe;

“aqui estou para te servir”. O lenhador estremeceu, e já arrependido dos seus votos, lhe disse: “Chamei-te para me ajudares a carregar a minha lenha”.

MORALIDADE: Os que nas aflições da vida invocam a morte, grande logro levariam, se fossem atendidos.

FÁBULA. XLI.

O lobo e o dogue.

Magro e faminto lobo encontrou um nédio e gordo dogue. Veio-lhe vontade de mandá-lo para o bucho; mas o cão mostrava não ser dos que se deixam facilmente vencer. Mudou, pois, de parecer, e tendo refletido, disse: Muito folgo, primo, de ver-vos assim tão belo, e de pelo tão luzido, enquanto ando eu sempre magro e arrepiado. “Se fizesses o que eu faço, tornou-lhe o dogue, viverias como vivo. Moro

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Fábulas (imitadas de Esopo e La Fontaine) - Justiniano José da Rocha em uma casa em que todos me querem bem; tratam-me como um duque: e só tenho o trabalho de ladrar à noite, quando dou fé de ladrões. Se te agrada esse ofício, eu te apresentarei a meu amo, e, por mim recomendado, serás aceito”. O lobo não soube como agradecer.. Puseram-se a caminho. Então reparou o lobo no pescoço do dogue, e perguntou-lhe: “O que é isto, primo? tens o pescoço esfolado?” — Não te dê isso cuidado, tornou-lhe o cão; de dia, para que não morda aos que entram em casa, prendem-me a uma corrente; porém de noite estou solto, e posso fazer o que me dá na cabeça. — Então de dia estás acorrentado por semelhante preço não quero a tua fartura; antes livre e faminto, do que cativo e farto.

MORALIDADE: Não há cômodos nem prazeres que compensem o sacrifício da liberdade.

FÁBULA XLII.

A gralha e os pavões.

Estando na muda os pavões, uma gralha. seduzida pelo brilho das penas que deles caíam, apanhou-as e com elas se enfeitou. Desdenhando das irmãs, foi então meter-se em um bando de pavões. Estes, porém, logo a reconheceram, e às bicadas lhe arrancaram as penas que lhe não pertenciam; e com elas, pele e carne. Ensangüentada, voltou a coitada para suas irmãs, que só depois de muito a terem, chasqueado, perdoaram ao seu arrependimento.

MORALIDADE: Nunca por ostentação ou interesse dês o alheio por teu; pois a fraude é logo descoberta, e o castigo imediato.

FÁBULA XLIII.

A formiga e a mosca.

Altercavam uma vez a mosca e a formiga sobre nobreza e fidalguia. Eu, sim, dizia a mosca, eu sou fidalga; vivo sem trabalhar, passeio todo o dia por onde quero, janto à mesa dos reis, entro nos templos, pouso nos lugares mais sagrados; as faces, o colo da dama mais formosa e recatada são meus tronos. — É

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Fábulas (imitadas de Esopo e La Fontaine) - Justiniano José da Rocha assim, diz a formiga, e não te invejo; de toda a parte te enxotam por imunda, todos te praguejam por importuna, e mais vives em esterqueiras do que em palácios; mas quando vem o frio, o que é de ti? Ficas mirrada pelas paredes. Pois eu trabalho sempre, e sem descanso; aí a minha nobreza a ninguém importuna, e não há estaçâo que me ache desprovida.

MORALIDADE: Entre o parasita e o homem laborioso que com o suor do seu rosto ganha parco alimento, vai a diferença que separa a mosca da formiga. Trabalhai, como esta; conquistai pelo trabalho a doce independência, ganhareis, em duplo galardão a estima própria e a de todos.

FÁBULA XLIV.

O lobo e o cavalo.

Pastava em bela campina um nédio cavalo; um lobo o viu, é como trazia jejum de quinze dias, assentou em devorá-lo; mas o cavalo era forte, e ele... quinze dias de jejum dão cabo do mais valente.

Recorreu, pois, à astúcia. Aproximou-se, e ofereceu os seus serviços, dizendo que, como médico que era, estudara botânica, e podia mostrar-lhe das ervas da campina em que pastava quais as boas, quais as que lhe podiam fazer mal. Ai meu amigo, disse-lhe o cavalo, chegaste muito a tempo; não para me resguardares de más plantas, pois também as sei distinguir; porém para curar-me de grave incômodo; há dias magoei um pé; parece que se está formando um tumor; olha. Então levantou a pata, e assentou-lhe um formidável coice que lhe quebrou a queixada.

MORALIDADE: Se todos os lobos charlatães encontrassem cavalos como o desta fábula, não veríamos o triunfo de tanta impostura.

FÁBULA XLV.

A rã e o touro.

Soberbo e possante touro passeava pelas vizinhanças de um charco; viu-o uma rã, e logo dominada pela inveja, quis igualá-lo. Começou a inchar-se, a inchar-se, e quando mais não pôde, perguntou às Fábulas (imitadas de Esopo e La Fontaine) - Justiniano José da Rocha outras rãs: que lhes parece, manas? — já não estou do tamanho do boi? — Nem para lá caminhas, respondem-lhe elas. A rã fez dobrado esforço: E agora? disse. As outras riram-se. Indignada com este escárnio, a rã incha-se tanto, estica a frouxa e tênue pele, que arrebenta.

MORALIDADE: A inveja, vício tão comum, é a origem de todas as desgraças do homem; como a rã, o invejoso quase sempre arrebenta.

FÁBULA XLVI.

O morcego e as aves.

Houve guerra entre as aves e os outros irracionais; o povo de penas, tendo à frente a águia, o povo de pêlo tendo por chefe o leão, disputavam a primazia. As aves foram vencidas. Entre elas, em razão de ter asas e somente duas patas, militava o morcego; vendo este mal parada a causa dos seus aliados, passou-se para os inimigos. Como é isso? disse-lhe um deles, tu por aqui! pois não és ave? — Ave eu! exclamou o morcego, e o meu pêlo, onde está o meu bico? sou primo irmão do rato; morram as aves! Dá-se um combate, o covarde morcego cai no poder de uma coruja; iam matá-lo, quando ele: “Pois assim desconheceis um dos vossos! exclama; não vedes as minhas asas? vivam as aves!”

MORALIDADE: Morcegos assim não faltam neste mundo; nas discórdias civis só querem eles quinhão de despojos, estão sempre com o vencedor.

FÁBULA XLVII.

O corcel e o sendeiro.

Ricamente ajaezado, ia um soberbo corcel dar o seu passeio. Pesadamente carregado vinha um sendeiro para o mercado. Encontraram-se. Tira-te daí, miserável, bradou o corcel irado, vê lá que me não sujes. O outro calou-se, e sofreu. Daí a tempos, o cavalo adoeceu, e perdido todo o seu merecimento, foi vendido para cargueiro; puseram-no a carregar carvão. Encontrou um dia o sendeiro. “Irmão! onde está aquela arrogância? onde aqueles jaezes? sendeiro como eu, e ainda menos que eu, carregas carvão! Tira-te daí; vê lá que me não sujes!”

MORALIDADE: Por mais elevados que estejais, não desprezeis ao vosso semelhante; a roda da fortuna desanda tão fácil quão imprevistamente.

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Fábulas (imitadas de Esopo e La Fontaine) - Justiniano José da Rocha FÁBULA XLVIII.

O lenhador e a mata.

Descuidando-se um dia, um lenhador quebrou o cabo de seu machado, e assim desarmado, deixou em sossego as árvores. Por fim, muito humilde e choroso, foi pedir-lhes que lhe emprestassem um galho, com que pudesse fazer um cabo para o seu machado, declarando que era o único recurso com que ganhava, suando e lidando, o parco alimento de sua numerosa família; dessem-lhe o precioso cabo e prometia não trabalhar mais nessa mata, e respeitar todas as suas árvores e arbustos; não lhe faltaria em que ocupar-se. Movidas de tanta dor e de tanta súplica, confiadas em tão positiva promessa, até as árvores deram o pedido galho. E logo o lenhador pôs ao machado um cabo, novo e forte, e logo viçosos galhos, troncos robustos caíram ao afiado gume de machado, que pouco tempo deixou às árvores para chorarem arrependidas a sua crédula benignidade.

MORALIDADE: Quantos se servem do benefício em dano imediato do benfeitor! Perdoai ao vosso inimigo: mas é de louco dar-lhe meios de continuar a fazer mal.

FÁBULA XLIX.

A raposa e as uvas.

Estava uma parreira carregada das uvas mais apetitosas e maduras; cada cacho fazia vir um favo de mel à boca. Apareceu uma raposa; como as não cobiçaria? Começou a fazer esforços e diligências por alcançá-las mas qual! estavam muito altas. Por fim vendo perdido o tempo e o trabalho: “Agora reconheço que estão verdes, disse o animal, não gosto da fruta assim.” E foi-se consolada.

MORALIDADE: É costume de muitos desfazer naquilo que não podem possuir. A cobiça consola-se, deprimindo o que não pode alcançar.

FÁBULA L.

O gavião e o sabiá.

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Fábulas (imitadas de Esopo e La Fontaine) - Justiniano José da Rocha Já tendo crescidinhos os filhos, o sabiá largou uma vez o ninho, para ir em busca de alimento. De volta achou próximo um gavião. Espavorida a mãe com a presença da ave de rapina, não fugiu, pois era mãe, e procurou com súplicas salvar a prole. “Bem,” disse o outro, “não matarei teus filhos, se quiseres cantar alguma coisa que me divirta.” Impondo silêncio à sua aflição, começou o sabiá as suas mais belas, mais suaves melodias. Não presta, não presta, brada o gavião, é velha como minha avó esta música. Disse e ia devorar os filhinhos do sabiá, quando atraído pelo canto chega um caçador, que o mata.

MORALIDADE: O malvado que escarnece do desgraçado, acha sempre castigo imediato.

FÁBULA LI.

O burro e o almocreve.