Feng Shui - O Caminho do Meio por Tien Pin - Versão HTML

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Feng Shui

O caminho do meio

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Tien Pin

Feng Shui

O caminho do meio

Procedimentos para evitar energias

nefastas em residências e empresas

© 1999 da autora

Direitos desta edição reservados à

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Produção gráfica: Mirian Cunha

Capa: A G design

Composição: CompLaser Studio Gráfico

Impressão:

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Pin, Tien

Feng Shui / Tien Pin. São Paulo : Nobel, 1999.

ISBN 85-213-1106-0

1. Feng Shui I. Título.

99-3089

CDD-133.33

Índice para catálogo sistemático:

1. Feng Shui : Artes divinatórias : Ciências ocultas 133.33

É PROIBIDA A REPRODUÇÃO

Nenhuma parte desta obra poderá ser reproduzida, copiada, transcrita ou mesmo trans-mitida por meios eletrônicos ou gravações, sem a permissão, por escrito, do editor. Os infratores serão punidos pela Lei nº 9.610/98.

Impresso no Brasil/ Printed in Brazil

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Prefácio

A Cia. Nacional de Estaleiros da China não tinha nenhum motivo aparente para fracassar comercialmente. Estava, entretanto, em processo de franca decadência empresarial. Sofria com cancelamentos de última hora de

encomendas, seus produtos apresentavam padrões de qualidade muito

abaixo do aceitável, ocorriam acidentes de trabalho com freqüência alarmante e suas ações caíam vertiginosamente no mercado financeiro. O

Estado nomeou, então, um interventor extraordinário, Tang Wu Shao, ge-

neral de carreira e notório administrador empresarial, num esforço desesperado em detectar e sanear os inexplicáveis problemas pelos quais estava passando a empresa.

O general, após seguidas reuniões com diretores, gerentes, consulto-

res e especialistas, não obteve nenhum resultado satisfatório. Numa última cartada, convocou uma assembléia geral, reunindo toda a diretoria e representantes dos 10 mil funcionários do estaleiro. Foi quando ouviu

uma opinião espantosa.

“Há um problema de Feng Shui, sr. Tang. Já havíamos alertado os

chefes – disseram os representantes mais idosos dos operários. A fábri-ca tem um péssimo ritmo respiratório. Qualquer chinês mais velho sabe

que os portões principais não podem ficar onde estão, bem de frente para o mar. O prédio recebe todas as cargas negativas trazidas pelas ondas, o vento agride frontalmente, sufocando a energia criadora, o que provoca apatia e desatenção.”

A primeira reação do general Tang, homem pragmático e com alto

grau de especialização técnica, foi de perplexidade. Julgou que os operá-

rios estavam de zombaria. Mas a fisionomia grave dos homens o conven-

ceu do contrário. A sugestão era muito séria e correspondia à opinião de todos os funcionários da fábrica.

Mas por desencargo de consciência, e para satisfazer o apego à tra-

dição e ao folclore, como forma de elevar o moral dos empregados, o

general ordenou a demolição dos portões principais, construiu um muro

de frente para o mar, decorado com motivos esotéricos, e reinstalou os portões na fachada lateral, orientados para sudeste, conforme proposta dos funcionários mais idosos.

Os resultados apareceram com muita rapidez. O ambiente interno

mudou, o relacionamento interpessoal melhorou sensivelmente, os aci-

dentes de trabalho reduziram-se a zero, a produção cresceu em quantidade e qualidade. Hoje, o estaleiro está completamente recuperado: a empresa readquiriu prestígio e credibilidade e está entre as mais eficientes e produtivas do mundo. O general Tang tornou-se ardoroso defensor das

teorias Feng Shui como instrumento para orientar projetos construtivos.

O episódio narrado ilustra com muita clareza alguns princípios fun-

damentais da teoria Feng Shui. O general mostrou possuir, talvez inadver-tidamente, algumas das grandes virtudes Tao: receptividade, permea-

bilidade e maleabilidade. Acatou sugestões de subalternos sem arrogân-

cia, nem preconceitos, não olhou para a hierarquia ou o nível cultural daqueles que o aconselhavam. Abriu o coração à sensibilidade dos elementos da natureza e curvou-se com humildade à experiência e sabedo-

ria dos mais velhos. Recebeu em troca uma lição preciosa: a de que nada valem investimentos financeiros, verbas publicitárias, programas moti-vacionais, tecnologia de ponta e conhecimentos técnicos fragmentados,

se não houver uma integração harmônica com o meio natural, com o pró-

ximo e com a natureza sensível.

Este livro tem o propósito de introduzir, com a máxima fidelidade,

respeitando as peculiaridades do modo chinês de expressão, os conceitos Feng Shui ao leitor brasileiro. Orientado em princípio para profissionais das áreas de arquitetura, engenharia, urbanismo, tecnologia de materiais, paisagismo e design, envolvidos em projetos de construção civil, urbanização e produtos, pode ser apreciado pelo público em geral, pois discute problemas fundamentais à compreensão do papel do ser humano na sociedade e no mundo.

O Feng Shui, enquanto manifestação prática de posturas éticas e mo-

rais do homem imerso na totalidade universal, incorpora idéias e princí-

pios filosófico-esotéricos milenares, de registros conhecidos já no século V

a.C.; a esses princípios se agregaram conhecimentos técnicos resultantes do desenvolvimento científico, modernas metodologias de pesquisa, nova gama de materiais e componentes, novos sistemas de informatização e

gerenciamento. Dessa fusão se realiza a potencialidade criadora e ins-

piradora do Feng Shui. Esta publicação não deve ser encarada como ma-

nual técnico. Pretende, isso sim, esclarecer a importância da ação espiritual ante situações determinadas; encorajar a liberdade de criação e promover uma visão totalizadora acerca do processo construtivo. Para tal, é inevitável iniciar-se com uma exposição sintética das raízes filosóficas da China Antiga, de onde emergiram os princípios de Feng Shui. É preciso

enfatizar, com toda a energia, a concepção de que o leitor, à parte sua atribuição fragmentária (arquiteto, engenheiro, marceneiro, pedreiro, gerente ou presidente de empresa), pertence, antes de tudo, a um processo integral em que o ser é parte da fusão primordial que deságua no ser coletivo, cósmico. Nesse sentido, Feng Shui é fenomenologia e realidade em interpenetração contínua.

Essa visão cosmológica enfrentou variados tipos de preconceito. A

orientação cartesiana e fragmentária predominantes no pensamento oci-

dental tinha, e ainda tem, a tentação de encarar as posturas especulativas como manifestação mística ou folclórica. Mas, cada vez mais, cientistas de primeira linha (nas áreas da física quântica e astronomia) estão chegan-do ao surpreendente resultado de que suas descobertas abrem campo a

conclusões e inferências muito próximas ao que os antigos sábios orientais já sabiam, por meio da especulação e da intuição.

Segundo a concepção primeira do Tao, ao ser humano é necessário

não o aprender e, sim, o desaprender. “Aquele que tem, perde. Aquele que perde, encontra.” O homem atual, robotizado, pressionado por exigências interiores e exteriores, vítima do individualismo exacerbado, da ganância e da arrogância, prisioneiro dos compromissos e dos horários, necessita com urgência despir-se dos preconceitos, das certezas cartesianas, do pensamento linear e do pragmatismo desintegrador, para banhar-se nas

águas do não-saber e não-fazer, a fim de desaprender suas velhas noções arbitrárias do apego ao material e da busca desenfreada ao lucro. Ao voltar-se instintivamente, como o bebê se volta ao seio materno, para a natureza, que foi sua cúmplice durante toda a existência, o homem read-

quirirá a inocência diante da plenitude do cosmos. Fechando os olhos,

enxergará a verdadeira essência do viver e do fazer. Feng Shui é o reencontro do homem com sua natureza primeira, em eterna comunhão com

o universal. É o não-saber para atingir a sabedoria.

“O TAO é o UM, o UM produz o TODO.”

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Ícones usados nas ilustrações

espelho/tela colorida

sino de vento

(ou objeto pendente de cristal)

porta com indicação da direção

de abertura

plantas/floreiras

cama

árvores/arbustos

chafariz ou tanque de água

porta dupla

edificação (requer formatos indicados)

mesa de escritório

cadeira

Sumário

1. Feng Shui – uma introdução

11

Fundamentos

As três condicionantes

2. A dimensão moral

24

3. Feng Shui e a seleção da localidade

para edificações

26

Respiração

Iconologia e simbolismo

A sabedoria popular

4. Feng Shui e sua atuação nos grandes

meios urbanos

36

Modernização e crise

A noção do conjunto

O urbano

5. Influências desfavoráveis e a ação Feng Shui

44

6. Feng Shui e a forma

54

7. A forma do terreno e a disposição da edificação

61

8. A forma da edificação em residências e escritórios

67

Forma côncava e forma convexa – conceituação

segundo o Feng Shui

Formas favoráveis a projetos

Formas desfavoráveis a projetos

Feng Shui e o exterior/muros

9. Feng Shui e o interior

88

Portas

Janelas

Outros aspectos

Escadas

Vigas, colunas e pilares

10. Feng Shui e a espacialidade interna

110

Organização e distribuição

Incompatibilidades cósmicas

Dormitórios

Cozinhas

Banheiros

11. Feng Shui: luz e cor

128

A iluminação

Cromatismo e mobiliário

12. Feng Shui e a atividade comercial

133

Condições exteriores/integração ao meio

Condições interiores

13. Feng Shui e o poder político

149

14. O aspecto místico do Feng Shui – I-Ching

151

A posição Sun, o epicentro da fortuna

15. Considerações finais

160

Elementos atenuantes e corretivos – síntese e propriedades

10

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1. Feng Shui

uma introdução

Feng Shui é o instrumental destinado à intervenção prática no cotidi-

ano. Deriva de um sistema de conhecimentos elaborado a partir da obser-vação, reflexão e, principalmente, interação diária do homem da China

Antiga com a natureza. Partindo de visões distintas, unindo ciência, arte, astronomia, medicina, filosofia e esoterismo, o povo chinês vem coletan-do e transmitindo, de geração a geração, século a século, um conjunto

conceitual que visa a perfeita integração do homem ao seu ambiente na-

tural.

Registros e documentos indicam datar de 2.500 anos atrás as primei-

ras tentativas, surgidas no vale do Huang-Ho (Rio Amarelo), de elaborar métodos de análise de alterações climáticas, composições dos solos, pesquisas minerais e previsões meteorológicas. A humanidade ensaiava os

primeiros passos na eterna luta para subjugar o imponderável em favor de melhorias na qualidade de vida. O destino mítico começava a ser passí-

vel de mudança.

De produção eminentemente agropecuária, a China daquela época

possuía vínculos muito estreitos com o meio ambiente (hábitat). A religiosidade e o misticismo entranhavam-se e misturavam-se aos fenôme-

nos naturais porque, se a natureza oferecia ao homem uma face genero-

sa, proporcionando-lhe alimentação, vestuário, moradia e confortos ma-

teriais, também o aterrorizava, exibindo-lhe sua face caprichosa na for-ma de tempestades, enchentes, nevascas, secas e outras catástrofes im-

previsíveis. O homem da China Antiga necessitava, pois, compreender a

natureza e dialogar com ela para domá-la, apaziguá-la e respeitá-la.

11

Feng - Vento (Ar)

Shui - Água

Feng Shui é, portanto, a síntese-prática desse esforço de aproxima-

ção do cósmico. Trabalha, basicamente, com as energias positiva e negativa contidas no universo natural, as regularidades e irregularidades climáticas e pluviais, os padrões e os desvios nas ocorrências catastróficas, os fatores benéficos e maléficos da interferência humana na geografia da Terra; lida com uma gama de recursos modernos agregada ao universo da

especulação filosófica e teosófica da China Antiga. A meta final é promover o desenvolvimento econômico e cultural de todos os povos.

Os ensinamentos Feng Shui vêm se propagando da China para as re-

giões vizinhas, como Taiwan, Hong Kong e Indochina; nos últimos anos

sensibilizaram especialistas e pesquisadores europeus e norte-americanos.

Grandes corporações no mundo estão se utilizando desses conhecimen-

tos, aplicando-os na indústria da construção civil, na urbanização, em projetos e incorporações de largo porte. A sociedade contemporânea

conscientiza-se, cada vez mais, da urgente necessidade de enfrentar com eficiência e preparo os desafios das forças da natureza, tornando-as aliadas na busca da harmonia e do bem-estar.

Fundamentos

O Feng Shui é parte de um amplo sistema de conhecimentos e incor-

pora elementos das mais variadas áreas do pensamento humano. Assim,

podemos figurá-lo como uma árvore de imensa copa e inúmeras rama-

gens, em que todo o sistema se mantém sobre a mesma raiz ontológica,

alimentando-se dela.

Essa raiz é constituída de cinco grandes ramificações, que são os fun-

damentos axiais do Feng Shui.

Tao

Caminho

Ying/Yang

Claro/Escuro

Respiração

Inspiração/Expiração

Ciclo elemental

Integração/Desintegração

I-Ching

Mutações

12

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Essa divisão é feita apenas como forma de exposição e análise. É uma

divisão epistemológica, não-categórica e, assim, deve ser sempre entendida (cinco em um).

Tao

Tao é caminho. Forma síntese de todas as formas, trilha reunião de

todas as trilhas. O homem e a natureza integram-se no universo por intermédio do Tao. Tao é o método e a negação do método.

O Tao orienta a busca do equilíbrio. Esse equilíbrio foi essencial aos trabalhadores e agricultores da Antiga China (homens que interagiam diariamente com os fenômenos da natureza): saber o quê, onde, quando

semear; quando colher, como prever chuvas e estiagens, sentir o humor

dos rios e das marés. Essas necessidades deram aos homens uma sabedo-

ria fraternal sobre seu meio ambiente: o Tao nasce dessa sabedoria e a explica, simultaneamente.

O especialista ou diletante de Feng Shui traz sempre na mente a com-

pulsão em equilibrar os opostos. O Tao, aplicado em Feng Shui, signifi-ca harmonizar elementos construtivos e decorativos, acatar as peculiaridades geográficas e climáticas e atuar sobre elas, aplainando arestas e suavizando asperezas. O Tao no Feng Shui é o humano agindo no natural e sofrendo a sua ação, na dialética de fazer o caminho caminhando.

Uma viagem eterna e perfeita.

Ying/Yang (claro/escuro)

Ying/Yang é dualidade indissolúvel. A di-

fusão Ying/Yang produz Tao. Tao é apreensão

consciente e orgânica da interpenetração Ying/

Yang e sua existência em todas as coisas.

Ying – Escuridão e repouso (frio/sombra)

Yang – Claridade e ação (calor/luz)

A dualidade Ying/Yang, ao contrário da

concepção filosófica do Ocidente, não supõe

o antagonismo dos contrários mas, sim, a complementaridade e a inter-

dependência. Não há Ying sem Yang, não há Yang sem Ying. A ação/não-

13

ação Ying/Yang é o caminho essencial do viver, em todos os seus aspectos. Não existe calor sem frio, novo sem velho, morte sem vida ou céu sem terra. Ying/Yang é a apreensão inteira do homem na sua integração às

forças do universo.

A tradução dessa complementaridade, na teoria Feng Shui, se esta-

belece na compreensão das características opostas. O adepto de Feng Shui tem a tarefa de atingir a convergência no divergente; extrair o favorecimento do desfavorável; encontrar a fartura no agreste; identificar a fun-

ção do vazio. Não opera com portas ou janelas, mas com aberturas e fe-

chamentos (inspiração e expiração); não constrói paredes, organiza a espacialidade interior e exterior; não concebe o feio ou o bonito, trabalha segundo a harmonia interna e a adequação ao meio. Feng Shui conceitualiza os tênues parâmetros condutores da ação benéfica do homem em fren-te da doação generosa da natureza. A meta final é o crescimento e a paz.

Um exemplo: há uma edificação numa região inóspita e ensolarada.

Diante da edificação há um tanque, um espelho d’água. O tanque é Yang, porque é luminoso e quente; a casa é Ying, porque é sombreada e fresca.

A teoria Feng Shui ensina que a ação visual/espacial do tanque não deve prevalecer sobre a casa, nem o contrário. Se um desses casos ocorrer,

haverá uma desarmonia no conjunto. O equilíbrio Ying/Yang se rompe e

o Tao se perderá. O morador será invadido pelo desconforto e os conflitos se estenderão à sua vida pessoal e profissional.

Para restabelecer o perfeito equilíbrio, o Feng Shui recomenda a in-

trodução de elementos intermediadores, funcionais ou decorativos, para atenuar o impacto excessivo de um elemento sobre o outro. No caso de

o Ying estar prevalecendo sobre o Yang, o construtor colocará um jardim junto ao tanque. Um arranjo de plantas, uma pequena árvore, pedras coloridas, tudo isso produzirá massa e calor, refletirá a luz. No caso de o Yang estar prevalecendo sobre o Ying, o construtor dotará a edificação de uma varanda ou cobertura, de modo a obter áreas de frescor e sombra, atenuando a luz excessiva. Com essas providências, simples mas essenciais, o Feng Shui reintroduz o equilíbrio e o Tao é retomado.

Tchi – respiração

A respiração é o caminho do ar, curso dos ventos. Na metafísica chi-

nesa, a respiração é propriedade inerente a todos os seres, vivos ou ina-14

nimados. Tudo respira no universo: homens, animais, plantas, rochas e

líquidos; cada qual no seu próprio ritmo e segundo suas próprias necessidades. Em um Todo equilibrado, as respirações interagem em perfeita

harmonia e cada uma interfere beneficamente nas demais.

O curso dos ventos (Tchi) é vital para o organismo, seja um corpo

seja uma edificação. Permite a entrada de componentes purificadores e

renovadores, oxigena o cérebro e todos os órgãos, elimina os elemen-

tos degeneradores. A complementaridade Ying/Yang do aspirar/expe-

lir manifesta o equilíbrio do Tao.

Sábios da China Antiga atribuíam o sucesso individual à conjunção

de diversos fatores: oportunidades aproveitadas, sorte, ações realizadas em outras vidas, grau de instrução e talento ... Nenhum fator superava contudo, em importância, a sabedoria respiratória (Tchi-Kun). A respira-

ção correta proporciona energia e saúde, condições primeiras para o crescimento material ou espiritual. Essa concepção encontra correspondên-

cia no pensamento filosófico das grandes civilizações ocidentais da antiguidade. Basta nos lembrarmos dos exemplos de Esparta, Macedônia ou

Roma: Mens sana in corpore sano.

Pelo exposto, podemos inferir que a sabedoria chinesa entendia a res-

piração (Tchi) não apenas como ato mecânico, mas também como repre-

sentação simbólica da energia vital de todas as entidades universais. O

sopro da vida é motor da existência. Ser é respirar. A perfeita respiração ordena o fluxo vital a todas as partes do organismo, suprindo todos os órgãos. A aparência externa demonstra claramente quando uma entidade

é deficiente na sua capacidade respiratória, seja um homem, uma mora-

dia, uma árvore. Os sábios sabiam avaliar, apenas pela fisionomia e postura física, a qualidade respiratória de uma pessoa. Desenvolveram inclusive exercícios de condicionamento aeróbico (Tchi-Kun) para tratamen-

to de males físicos e como meio de obter total concentração ou relaxamento. O curso dos ventos regula o curso da mente.

A boa aptidão respiratória e a correta ordenação do curso dos ventos

é matéria de fundamental importância para a teoria Feng Shui. Os chineses crêem que cada ser humano tem um destino individual, uma determi-

nação básica que pode ser boa, regular ou má. Uma má determinação

básica pode, no entanto, ser melhorada através de métodos de correção

respiratória. Um bom fluxo aeróbico acarreta maior acúmulo de energias, promove maior vigor interno e incrementa o desenvolvimento pessoal.

Tal premissa, aplicada às edificações, fornece os subsídios aos proce-

15

dimentos construtivos. Assim como certos locais transmitem sensações

de prazer, conforto e felicidade, outros sugerem retração, desconforto e depressão. Essas sensações influem decisivamente no rendimento espiritual de seus usuários e podem promover ou bloquear o crescimento e desenvolvimento.

O teórico de Feng Shui tem como função projetar respeitando o curso

dos ventos, cuidando de elaborar a distribuição ambiental de modo a permitir a circulação harmoniosa das correntes. Terá a preocupação, por

exemplo, em nunca alinhar duas aberturas (porta/porta, porta/janela, janela/janela) para impedir a formação do tubo aeróbico, prejudicial porque os ventos caminharão com muita velocidade, levando consigo as energias positivas. Evitará, também, criar barreiras difíceis de transpor, pois os ventos, impedidos da livre circulação, acumularão cargas nocivas, comprometendo assim a saúde de seus ocupantes.

O homem atua sobre o espaço e o espaço age sobre o homem, inte-

grados numa respiração comum. Formam assim o UM, e o UM torna-se

o TODO.

Ciclo elemental – integração, desintegração

Chegamos ao item dos elementos primordiais, o ciclo dialético da

eterna renovação. A teoria começa a penetrar no território das noções

concretas. Estamos pisando em terreno um pouco mais firme.

Antes, no entanto, deve-se ressaltar e agrupar algumas características fundamentais do Ying/Yang como base para retomar o raciocínio. Vimos

que o processo de complementaridade Ying/Yang engloba todos os seres

e todos os acontecimentos do universo, determina e explica todas as ocorrências e coisas. Assim, a cosmologia chinesa chega à noção dos ciclos, central a todo o pensamento filosófico e metafísico chinês. Tudo é o

começar e o terminar perenes: Yang/Ying, Ying/Yang. A primavera e o

verão, o dia, o calor, o sol, o início das semeaduras e das obras em geral são todos associados ao Yang. Yang é expansão, atividade, energia e força.

Do mesmo modo, o outono e o inverno, a noite, o frio, as sombras, as

colheitas e a finalização das obras, pertencem a Ying. Ying é repouso, retração, suavidade e introspecção. A face ensolarada de uma edificação é Yang e a face sombreada é Ying. A interação estende-se até mesmo aos pontos cardeais: tomando-se como referência o Brasil, no hemisfério sul, 16

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o norte e o leste são Yang pois estão voltados para o nascente; o sul e o oeste são Ying, voltados para o poente.

Da ação Ying/Yang conjugada à ação respiratória, originam-se os

cinco elementos primordiais que interagem e produzem o ciclo primor-

dial ou ciclo elemental, que é o princípio de tudo, o homem e a natureza.

São eles: o metal, a madeira, a água, o fogo e a terra. Cada elemento possui uma representação simbólica que se expressa numa posição geográ-

fica, uma cor, um clima e sua essência Ying/Yang: relacionam-se segun-

do direções determinadas por suas especificidades e formam o cerne da

natureza real. Geograficamente, a terra situa-se no centro da relação, pois, em relação ao homem, é o eixo do Todo.

Elemento

Posição

Cor

Estação

Essência

Água

Norte

Preto

Outono

Ying

Fogo

Sul

Vermelho

Verão

Yang

Madeira

Leste

Verde

Primavera

Yang

Metal

Oeste

Branco

Inverno

Ying

Terra

Centro

Amarelo

Fusão/Alternância

Ying/Yang

A Terra, portanto, é central e centraliza o inter-relacionamento cíclico.

O inter-relacionamento, como complementaridade Ying/Yang, tem duas

faces, uma construtiva (integradora), outra destrutiva (desintegradora).

Face integradora - Construção

Formulação do ciclo: o fogo produz a terra (cinzas); a terra produz o

metal (minérios que a constituem); o metal produz a água (liquefação,

veios e nascentes); a água produz a madeira (a seiva) e a madeira produz o fogo (alimenta a combustão).

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O ciclo se completa e recomeça eternamente.

Face desintegradora Diluição, destruição

Formulação do ciclo: a madeira consome a terra (alimenta-se de seus

componentes); a terra consome a água (absorção); a água consome o fogo (apaga-o); o fogo consome o metal (derretendo-o) e o metal destrói a madeira (na forma de ferramentas).

O ciclo se completa e recomeça eternamente.

Afora a integração cíclica escritos antigos mostram que médicos e al-

quimistas da China Imperial atribuíam à respiração (Tchi) dos elementos propriedades de sabor e as relacionavam a órgãos humanos. Baseavam-se nessas propriedades para a produção de medicamentos e fórmulas. Assim: Madeira

Cor verde, sabor azedo, age sobre o fígado.

Fogo

Cor vermelha, sabor amargo, age sobre o coração.

Terra

Cor amarela, sabor doce, age sobre os pulmões.

Metal

Cor branca, sabor picante, age sobre a vesícula.

Água

Cor azul, sabor salgado, atua sobre os rins.

Como os antigos médicos, que harmonizavam a respiração dos ele-

mentos ao corpo humano, o papel do adepto de Feng Shui é verificar os

ciclos de uma perspectiva geográfica, climática e respiratória. No projeto e na construção, deve observar a disposição harmoniosa dos elemen-

tos, ordenar os espaços, selecionar materiais adequados ao meio, atentar para a direção correta e para o uso simbólico das cores. Dessa forma atingirá o equilíbrio Ying/Yang anulando os fatores negativos e, principalmente, promovendo o respeito ao ciclo eterno, integrando-se ao meio

circundante de modo natural e suave. A natureza será receptiva e gene-

rosa à obra.

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I-Ching

I-Ching é a representação gráfica da complementaridade Ying/Yang

no cosmos. É uma codificação simbólica que utiliza apenas duas linhas, uma cheia e outra interrompida. Assim, o Yang é um traço cheio

e o Ying é um traço interrompido . Os dois traços, acrescidos de um terceiro, formam um módulo conotativo, altamente simbólico: o trigrama.

Cada trigrama simboliza entidades, características, elementos da natureza, fenômenos naturais, sensações e propriedades inerentes. Dois trigramas sobrepostos, seis traços, constituem um hexagrama. A combinação de oito trigramas forma o Pa-Kua. O Pa-Kua é a tradução imagética e simbólica

do próprio universo. O Todo está contido nos trigramas, nos hexagramas e no Pa-Kua: o I-Ching.

As origens do I-Ching remontam a tempos perdidos. É um livro que,

pela análise de 64 hexagramas, formula o Todo Cósmico, apreendendo to-

dos os momentos e concebendo o universo como a realização da

integração Ying/Yang, ou seja, a transformação perene. Por isso, é tam-bém denominado o “Livro das Mutações”. Nada é estático, nada é abso-

luto. O Todo é o momento e o relativo.

O I-Ching admite várias formas de utilização, que vão desde a leitu-

ra da sorte e previsões de futuro até a orientação no sentido da apreensão do ser universal: a busca do Tao. A teoria Feng Shui aproxima-se dessa segunda característica. O teórico de Feng Shui aplica as referências do I-Ching como instrumento essencial no diagnóstico, na detecção e no

saneamento de males físicos e espirituais, tomando uma edificação como organismo cósmico e vivo. Utiliza-as na análise e seleção de localidades, disposições de fachada, iluminação, aeração, posição, materiais, enfim, tudo o que constitui um projeto arquitetônico, paisagístico, urbanístico ou de um produto.

Por exemplo, baseado no I-Ching, um teórico desaconselha a cons-

trução de ambientes ou edificações em formato longo e estreito. Paredes próximas e compridas têm características compressivas; obstruem a expansão, a livre circulação dos ventos, e concentram energias opressivas.

Os usuários terão conflitos, sofrerão depressão mental e desenvolverão relacionamento agressivo. Não sendo possível evitar tais características, (por limitações de terreno ou finalidade de uso), a recomendação é introduzir múltiplos espelhos (elementos Yang) nas paredes laterais para per-19

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mitir expansão espacial, além de prover o ambiente de ampla iluminação dotando-o de largas aberturas para captar a luz solar e potentes luminá-

rias. Essas medidas contribuirão para reequilibrar as entidades conflituosas, introduzindo a harmonização dos opostos. A edificação concen-

trará energias positivas permitindo conforto espiritual e paz interior.

A aplicação do I-Ching no Feng Shui significa, portanto, a apreensão

orgânica da adequação espacial, a integração respiratória do interno ao externo, pela utilização sensível dos materiais, da estética e do conhecimento técnico. O fragmentário deve fundir-se no Um, e a edificação refletirá o Tao.

Trigramas I-Ching – Simbologia

Céu – Origem. Pai. Força. Energia. Solar. Masculino.

Terra – Mãe. Suavidade. Submissão. Lunar. Feminino.

Trovão – Movimento. Amanhecer. Impulsão.

Montanha – Dureza. Resistência. Estabilidade.

Fogo – Calor. Sol. Beleza. Talento. Crescimento.

Vento – Suavidade. Persistência. Sedução.

Rio – Alegria. Fertilidade. Abundância. Serenidade.

Água – Instabilidade. Desvios. Perigo. Dúvida.

Observação

Afora as conotações simbólicas dadas, cada trigrama possui várias

outras representações. Mencionamos apenas as mais usuais e as que me-

lhor se aplicam à teoria Feng Shui.

Pa-Kua

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... Em síntese

Nesta primeira parte foram expostos os fundamentos da raiz ontológica que per-meiam toda a teoria Feng Shui. A síntese desses fundamentos se dá da seguinte maneira:

Feng Shui é a ação/não-ação da dialética do caminhar Tao. Tao é atuar orien-tando-se na sabedoria, no respeito ao próximo e à natureza. Acatar as peculiaridades de cada ser e cada coisa, compreendendo que o Um produz o Todo.

Tao é difundido no Ying/Yang, interpenetração dos opostos; na simultaneidade universal/particular, concreto/abstrato. Ying/Yang substancia-se nos ciclos, na integração/desintegração eterna, não-estática. O Todo está em mutação perene, e desta mutação se originam os seres, as coisas e os acontecimentos. O

Todo respira na respiração do Um (Tchi). A harmonia respiratória do Um interagindo harmonicamente com a harmonia respiratória do Todo é o equilí-

...

brio cósmico. O equilíbrio é produto e produz o Tao.

As três condicionantes

Nesta segunda parte, passamos da ontologia para a teoria Feng Shui

propriamente dita, com sua técnica e instrumental voltados à atividade construtiva. O que se abordará não constitui regras ou normas limitadoras, mas orientações gerais que colaborem para o leitor assimilar o “pensar”

Feng Shui. Um especialista em Feng Shui não trabalha segundo regula-

mentos que aprisionam sua capacidade criadora e sua sensibilidade natural. Ao contrário, a única regra Feng Shui é a de que não existem regras.

Tudo é processo, mutabilidade, momento e sensibilidade. O teórico de

Feng Shui trabalha momentaneamente no fragmentário, como método

adequado aos modernos processos ocidentais de produção (um projeto

precisa ser dividido em etapas, seqüências, atividades diversificadas etc.), mas não perde nunca o sentido do Total, não se esquece jamais de que seu produto não se realiza por si, mas integrado à natureza real, pelo uso em harmonia com o meio.

O Feng Shui, enquanto teoria, opera com algumas condicionantes que

atuam simultaneamente, tanto na vida pessoal quanto na existência de um produto (edificação). Dentre elas, destacam-se três, que são as mais importantes ao bom desenvolvimento de um projeto:

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Condicionante temporal

A existência de um ser (qualquer ser) está submetida ao fator con-

dicionante que é o Tempo. Os antigos usavam a denominação “tempo

favorável” ou “tempo desfavorável”.

Tempo, aqui, é entendido no seu sentido mais abrangente, que é o da

temporalidade, relacionado de modo bastante estreito a um ciclo. Com-

preende os momentos, as estações do ano, as marés, as cheias dos rios, ou seja, o eterno pulsar do imponderável. Um homem, uma edificação, tem

seu nascimento, desenvolvimento e fim submetidos à temporalidade. Essa temporalidade compõe-se de duas variantes determinadoras:

O destino – O destino é dado e imutável. É determinação cósmica exte-

rior à vontade. O local do nascimento, as condições do nascimento, a

situação socioeconômica dos pais e da família, as características físicas e psicológicas, o talento e o magnetismo pessoal; tudo isso se dá independentemente da vontade do “ser”. Tudo isso “é”.

O acaso – Entendido comumente como sorte, o acaso é contingencial e

mutável, não-sujeito a determinações cósmicas. Submetido à vontade

individual ou coletiva, o acaso é passível de interferência e beneficia-se do método e do mérito.

Condicionante espacial

Do universal ao particular e novamente ao universal, o Tao ensina que

os ciclos são perenes. A condicionante espacial capta a mutação do cósmico, e o Feng Shui detalha sua ação no local, no ambiente circundante e na própria edificação. Esse detalhamento se processa na avaliação das condições geográficas, na topografia, no impacto ecológico, na circun-vizinhança e nas peculiaridades climáticas de um local escolhido para

construir.

O especialista em Feng Shui intervém através da não-intervenção, es-

tabelecendo a harmonia do conjunto homem-obra-natureza no seu equi-

líbrio interno Ying/Yang, organizando a espacialidade, respeitando o ritmo respiratório do meio natural (Tchi) e promovendo a livre fluência de todos os elementos do cosmos, eliminando a agressão e a invasão.

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Condicionante pessoal – apreensão do “eu”/“não-eu”

O Tao concebe a manifestação do “eu” como instante relativo da per-

manente mutação. A individualidade é um lampejo e os objetivos indivi-

duais fundem-se no pulsar único do Todo. A totalidade das ocorrências

de cada ser integra-se na totalidade histórica do universo tornando-se relativo na fusão do Todo. É a existência temporária do “eu” transforman-do-se e resultando no “não-eu”. Minha existência é existência à medida que integra a existência do Total e, aí, minha existência deixa de ser minha, para ser do Todo. A fragmentação torna-se união e o parcial é abandonado para a apreensão do Total.

O Feng Shui, como face operacional do Tao, busca a abordagem das

relações pessoais e interpessoais, a partir de uma postura atenuante do

“eu” individualizado. Um projeto, uma obra, um empreendimento, podem

atingir o Tao, que engendra o desenvolvimento saudável, à medida que

seus participantes alcancem a superação do “eu” individual e exacerba-

do, encontrando o “eu” coletivo (“não-eu”). Como um organismo vivo,

cujos órgãos cumprem funções diversas, e só adquirem sentido ao fundir-se em favor do organismo como um todo; um grupo de trabalho, ou um

núcleo familiar só cresce na submissão dos interesses e das vaidades particulares ao interesse do coletivo. Realiza-se, desse modo, a emergência do grande “eu” indivisível, respirando num único ritmo cósmico. Tao é

o Um, ligado ao Dois, formando o Todo.

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2. A dimensão moral

Como vimos no capítulo anterior, a teoria Feng Shui visa a apreensão

do ser, enquanto edificação, nas suas múltiplas relações com o meio. Para isso, opera com as grandes condicionantes que abrangem dimensões históricas, sociais, individuais e metafísicas. Mas o princípio axiomático fundamental do Feng Shui é o adequar-se à dimensão moral. Se o Feng

Shui origina-se do Tao, deve acatar o Tao.

“O universo é bom, a natureza é generosa e a ação do homem deve

buscar a virtude.” O que isso significa?

Atos prejudiciais, como agressões ao meio ambiente, maus tratos ao

semelhante, crueldade, vaidade e prepotência, trazem apenas a desintegra-

ção e a individualização. O Um não se realiza e a respiração é viciosa.

Nessas condições, mesmo a conjunção favorável de todas as condi-

cionantes será impotente para conter a degeneração interna do conjunto.

Nenhum favorecimento geográfico, psicológico, temporal ou ocasional

terá utilidade inserido num organismo degenerativo. É o que os sábios

denominam “ação nefasta”. A teoria Feng Shui enfatiza algumas dessas

ações nefastas, que bloqueiam qualquer tentativa de interferência bené-

fica: a poluição ambiental, a especulação imobiliária, o abuso do poder econômico, o desrespeito ao patrimônio humano e a construção de locais com finalidade perversa, tais como o tráfico de entorpecentes, locais de tortura, matadouros, casas de vício ou empreendimentos comerciais que

visam lucros excessivos.

Segundo os escritos éticos e morais dos sábios da China Antiga, cada

ação nefasta fere o equilíbrio universal e atrai uma retribuição igualmente 24

nefasta. A intercorrespondência Ying/Yang lutará para restabelecer o

equilíbrio rompido, reagindo à agressão e à desintegração. O adepto de Feng Shui não deve, portanto, fechar os olhos à finalidade última do seu produto. A responsabilidade é do Um, a responsabilidade é do Todo.

“Perdido o Tao, perdida a virtude. Perdida a virtude, perdida a bene-

volência. Perdida a benevolência, perdida a moral.” Como desenvolver-

se beneficamente nessas condições? A dimensão moral é condição pri-

meira. É a dimensão das dimensões para o praticante de Feng Shui. Caso contrário, não haverá comunhão com o Tao, e tudo o que produzirá será

destruído.

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3. Feng Shui e a

seleção da localidade para edificações

A escolha de um terreno, lote ou gleba é tarefa sempre complexa

para o construtor ou para a empresa. Há fatores de toda ordem a serem

levados em consideração: capacidade financeira, perspectivas de valo-

rização, localização propícia às finalidades, facilidades de acesso, serviços públicos apropriados; uma infinidade de determinantes, enfim,

cujos pontos favoráveis e desfavoráveis devem ser cuidadosamente

ponderados para uma tomada de decisão. Essa definição é o primeiro

passo, essencial para o sucesso posterior da empreitada. É, também, a

preocupação inicial para o especialista em Feng Shui.

A teoria Feng Shui possui alguns preceitos básicos que servem de ori-

entação na escolha do local.

Análise do meio circundante

O meio ambiente saudável é essencial à saúde da obra e da edificação.

O Feng Shui recomenda a observação da adequação respiratória da região circundante. A vegetação deve ser verde e viçosa, as árvores fortes e

eretas, o solo deve ter cores fortes e transmitir sensação de fertilidade. É

um sinal altamente favorável à existência de aves e animais ao redor. Cães e gatos devem mostrar aparência saudável e ativa. Devem-se evitar re-giões com proliferação de terrenos baldios, acúmulo de lixo pelas ruas, animais de energia destrutiva como roedores, insetos, répteis e urubus. A má conservação das ruas ou casas na vizinhança é também indício de má

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capacidade respiratória, fluxo desordenado dos ventos, desequilíbrio

Ying/Yang. A existência de muitos estabelecimentos comerciais em de-

cadência ou falidos também é um fator de desencorajamento, porque

propicia o acúmulo excessivo de cargas negativas, paralisando, por con-tágio, qualquer nova iniciativa empresarial. Um órgão doente acaba por contaminar todo o organismo.

Além disso, a teoria Feng Shui dá muita relevância à sensibilidade es-

piritual. Por isso não se devem desprezar as impressões premonitórias.

Qualquer incidente desagradável ou trágico no trajeto ao local, ou durante o tempo de observação, deve ser pesado como fator desfavorável: um

atropelamento, um incêndio, um acidente, um féretro, defeitos no auto-

móvel etc., devem ser tomados por sinais de alerta das forças cósmicas, uma significação subjetiva sobre a inconveniência de dar continuidade ao projeto.

Análise da interpenetração temporal – pesquisa do passado

Dizemos passado apenas para efeito de exposição, porque o Tao não

admite a seqüência linear, cartesiana, dos acontecimentos. Até mesmo o Ocidente, com a formulação da Teoria da Relatividade, está em via de

abandonar o conceito fragmentado e seqüencial da entidade Tempo. Mas,

como procedimento prático, o teórico de Feng Shui deve reunir o máxi-

mo possível de dados acerca das destinações anteriores pelas quais passou o local.

O local não deve ter servido de palco a ocorrências sinistras ou per-

versas. Não se recomenda a utilização de localidades que serviram a hospitais, necrotérios, cemitérios, prisões, matadouros etc. A ocorrência de incêndios ou inundações anteriores é outro fator desfavorecedor, pois tais acontecimentos consomem e envenenam a respiração espiritual do ambiente, ferem a natureza sensível e eliminam o Tao.

Não havendo alternativa, forçado a aproveitar um terreno nessas con-

dições, o especialista em Feng Shui iniciará seu trabalho realizando uma profunda e completa limpeza em toda a área. Deve utilizar escavadeiras para retirar toda a camada superficial do solo, substituindo-a por terra nova e fresca, livre das energias negativas. A futura edificação deverá dispor de muitas aberturas e espelhos para captar e refletir a luz e ampliar 27

a espacialidade. Deve plantar árvores, construir espelhos d’água, jardins e viveiros de animais, para exacerbar a manifestação da vida, contra-balançando a imanência das mortes passadas e equilibrar-se na essência Ying/Yang. Abre-se a possibilidade ao Tao.

Análise dos fatores geográficos

A teoria Feng Shui recomenda localidades elevadas e de solo firme.

Terrenos situados em charcos ou córregos aterrados, solo pantanoso ou

muito seco não favorecem uma base estrutural sólida, o que irá compro-

meter todo o conjunto. É importante observar a região em volta, porque o Feng Shui adota, como situação ideal, a construção em locais que con-greguem terreno plano, cursos d’água (rios, córregos, lagos, mar) e montanhas. Mas as proporções devem ser cuidadosamente respeitadas para

não se romper o equilíbrio natural. Não se aconselham edificações nas

encostas de montanhas ou muito juntas do sopé. A massa montanhosa é

Ying e encobre o Yang com muita freqüência. Edificações no meio de

encostas denotam a eminência do abismo causando desequilíbrio e ins-

tabilidade. A porta de entrada não deve estar de frente para a montanha porque se estabelece o bloqueio ao curso dos ventos e a edificação não respirará adequadamente. A situação mais próxima do ideal seria uma

edificação com a parte posterior voltada para uma montanha, a uma dis-

tância razoável (mais de 500 metros), a frente voltada para um gramado amplo e extenso, onde haja um jardim e um espelho d’água, ou um rio correndo paralelamente à casa, a uma distância equivalente à da montanha.

A frente da edificação deve estar orientada para o lado do nascente do sol e o fundo para o poente.

Edificações implantadas em escarpas rochosas, terminando num

paredão sobre o mar, como muitas mansões de magnatas ou astros popu-

lares, são altamente inadequadas segundo a teoria Feng Shui. A proximidade do abismo, a fúria da arrebentação e a aspereza das rochas criam um verdadeiro cadinho de elementos agressivos; a interpenetração Ying/Yang dá-se com demasiada violência e velocidade, acarretando o cansaço e o

esgotamento psíquico, o desequilíbrio emocional e a procura do abismo.

Locais assim só devem ser utilizados para curtas permanências (restau-

rantes, clubes, templos etc.).

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Os vales, naturais ou artificiais (entre arranha-céus, por exemplo), são locais não-recomendáveis para edificações. A concentração da massa

atmosférica ocasiona o aprisionamento dos ventos e seu direcionamento

num só sentido causa opressão ambiental e acúmulo de energias negati-

vas. O ocupante sofrerá crises de pânico, perderá a noção da espacialidade e terá sua visão bloqueada lateralmente, o que lhe dificultará fazer alterações no rumo de vida.

Influência das águas

A água é pólo constituinte da teoria Feng Shui. Não entraremos no

momento na questão das águas pluviais. Tudo em Feng Shui refere-se à

ação do vento (Feng)/respirar e da água (Shui)/fluir.

A água exerce, em primeiro lugar, o papel de espelho da natureza. Já

tivemos ocasião de ver que os espelhos são muito importantes como ele-

mentos atenuantes, justamente porque, réplicas artificiais da água, são entidades Yang por natureza. Refletem luminosidade, devolvem a imagem com generosidade e fidelidade, aceitam e devolvem vida, mas nada

absorvem, porque se mantêm fiéis à sua essência primeira: refletir. Espelho/água cumprem o papel síntese do Tao, são o Relativo, a Mutação.

O praticante de Feng Shui terá sempre em mente as vantagens da

opção por localidades próximas à presença da água. Locais à beira-mar, próximos a rios, lagos ou córregos são muito caros a ele. Mesmo quando não houver essa possibilidade, ele fará construir um lago artificial, um riacho ou um córrego, porque a água é elemento essencial para compor

o equilíbrio Ying/Yang no conjunto construtivo.

Alguns cuidados são, no entanto, fundamentais. A ação visual e física

da água resulta numa ampliação de perspectivas e de dinamismo, mas sua influência é tão decisiva e incisiva quanto a dos ventos no processo respiratório. Água em excesso, ou muito próxima, ocasiona asfixia e afogamento. Por isso, a edificação deve postar-se a uma distância razoável (não menos de 100 metros) da água, para prevenir e impedir a eliminação total do lado Ying. Históricos extraídos de ocupantes de casas muito pró-

ximas a rios, lagos ou oceanos mostram que essas situações geram aridez nos aspectos particulares da vida; excesso de euforia, causando precipitação e imprudência; apatia e negligência. É como se o caráter superenergizado do meio drenasse a energia particular dos seres humanos subme-

tidos ao seu raio de ação.

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Quanto à posição, aconselha-se sempre optar por níveis acima da

água para obter maior estabilidade. Desde os primórdios, os chineses

sabem que o riacho mais inocente e estável pode vir a tornar-se um flagelo da natureza quando tomado da ira imprevisível dos elementos selvagens.

A recomendação é, pois, edificar num nível sempre acima do leito.

Tratando-se de rio ou mar, com correntes e ondas, o especialista em

Feng Shui trabalhará o projeto de modo a dispor a edificação orientada corretamente. Executará uma operação pivotante com a finalidade de não posicionar a porta principal e as janelas alinhadas na direção da corrente ou das marés. A edificação não deve se posicionar como um anteparo ou

bloqueio ao sentido das forças naturais. As duas entidades, água e edificação, devem coexistir em harmonia perfeita, não interferindo uma com a outra.

Não-recomendável

Recomendável

Em situações em que se edifica junto a uma curva ou cotovelo de rio,

a construção deve ser situada sempre no lado oposto ao vértice. Deve

situar-se numa posição tal, como se o rio a acolhesse e envolvesse cari-nhosamente, e não como se a rejeitasse ou se desviasse num gesto de

medo ou repulsa. Assim, o elemento construção se integra ao elemento

água, sem agressão ao meio natural.

O Feng Shui recomenda, também, evitar construções próximo a nas-

centes de rios e córregos. Além de o solo não oferecer condições adequadas de solidez, o embate direto terra x água produz um ritmo respiratório crítico e acelerado, que dispersa as energias positivas ao redor. Com efeito, a energia circundante é toda consumida no processo do “parto das

águas”, pouco restando aos homens e à edificação. Pelo mesmo motivo,

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devem ser evitadas corredeiras, quedas d’água, cascatas, cachoeiras e

represas, locais em que há concentração de energias conflituosas da natureza. Esses locais têm a respiração acelerada, inquietação acirrada e desordem interna que prejudicam o conjunto a eles submetido. Por outro

lado, construir junto a deltas, afluentes e foz de rios é altamente recomendável, pois a edificação está sempre defronte do espetáculo da mutação criadora, da doação generosa e da infinita cooperação entre os elementos da natureza. É um posicionamento para saborear a eterna e cintilante permuta Ying/Yang. É conscientizar-se do final de uma jornada e início de outra, na eterna construção do Tao.

Com isso, encerra-se a exposição acerca dos princípios gerais que

orientam a escolha das localidades adequadas a uma boa edificação. O assunto não se esgota nos tópicos relacionados. O teórico de Feng Shui deve estar sempre munido da sensibilidade espiritual para prever e organizar um andamento orgânico do projeto e sua inserção no meio ambiente. Situações imprevistas tenderão a surgir no decorrer do processo, e isso também faz parte da complementaridade Ying/Yang; nesses momentos é que

será possível distinguir os verdadeiros iluminados pelo espírito Tao dos espíritos fragmentadores, que só conseguem visualizar aspectos parciais de um projeto.

Respiração

A respiração (Tchi) e a luz (Kwan) são matérias essenciais ao ser. O

Feng Shui atribui um ritmo respiratório a todas as entidades do universo.

A manifestação do Total é a integração da manifestação parcial de cada elemento. O parcial pode não dispor de vida sensível ( animus), mas tem respiração. Ser é respirar. A respiração, segundo o Tao, não é apenas ação física (biológica) mas, também, metafísica. Por trás da aparência fenomenológica, o Tao desvenda a realidade última: o pulsar cósmico. Daí

advêm as referências fundamentais do Feng Shui.

O Ser (enquanto manifestação do Um) é respiração. Todos os fa-

tores que caracterizam o Ser são dados pela sua “qualidade” respiratória.

Um homem é homem porque sua respiração é humana; um homem pací-

fico tem uma respiração pacífica. A pedra é a respiração da pedra, o mar é a respiração do mar e a terra é a respiração da terra. A aparência, a forma, o temperamento, são componentes circunstanciais. Não têm signifi-

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cado na metafísica do abrangente. Proporcionam entidades respiratórias que, por acaso, se chamam Paulo ou Maria, Pão ou Pedra, Presente, Passado ou Futuro. Na instância total (final/inicial) são manifestações espontâneas do devenir cósmico, sem hierarquias, nem seqüências. Apenas uma entidade é imutável e eterna: o movimento Ying/Yang. A respiração é sua representação.

Iconologia e simbolismo

O sistema chinês de escrita baseia-se em ideogramas, que são repre-

sentações simbólicas das entidades a que se referem. O ideograma é um

conceito em si, inteiro e acabado, contido num signo. Há uma inerência, portanto, entre significante e significado, numa relação direta. Ao contrá-

rio do nosso sistema alfabético, não possui a separação estanque entre significante e significado. Uma criança ocidental, ao ser alfabetizada, condiciona-se a relacionar as letras às palavras, que são o significante. Processa-se mentalmente uma operação de encadeamento linear (não-simbó-

lico) de signos. O vocábulo (significante) significa um conceito (significado). A criança chinesa, no seu processo, é levada a entender o concei-to do próprio signo, sua “idéia contida”. É um processo de sobreposição, altamente simbólico. O signo é o próprio significante e o próprio significado, expressando uma idéia-síntese e graficamente representada por

um ideograma. A idéia, ela mesma, se mostra e se explica.

Esse sistema produziu, no povo chinês, e nos demais povos que se uti-

lizam da representação ideográfica, um modo peculiar de raciocinar, fundamentalmente apoiado na associação iconológica e simbólica. O chinês

vê uma paisagem, uma construção, uma ponte, um rio etc. ao mesmo

tempo em que os lê. Associa sua forma significante ao significado ico-

nográfico. Em outras palavras, uma paisagem ou um elemento da paisa-

gem expressa um conceito através da forma, e o faz porque respira. É um ideograma de proporções monumentais, multifacetado, de origem cósmica, para satisfazer o irreprimível impulso expressivo da natureza. Eis aí um passo adiante na noção inicial da respiração. Ser é respirar, mas Ser é também expressar. Conviver com a natureza é ler e interpretar os

ideogramas cósmicos, agir ou não conforme suas mensagens acolhedo-

ras, agressivas ou alarmantes: o ser humano não pode nunca estar indiferente a elas, principalmente no ato de edificar.

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São noções de certa complexidade que requerem um esforço no sen-

tido da abstração, mas apreendê-las significa apossar-se da chave-mestra para a compreensão da essência teórica do Feng Shui.

Velhos esotéricos da China Antiga estabeleceram associações ico-

nográficas entre os diversos elementos naturais e acidentes geográficos com animais ou aves, atribuindo-lhes características respiratórias similares. Essas concepções acabaram por se entranhar no imaginário do povo, passando a fazer parte da herança cultural do país. O Feng Shui as utiliza, por sua vez, como modo de leitura e recuperação da tradução simbó-

lica.

Assim, a Terra representa o dragão. Portanto, a respiração da Terra é

uma respiração de dragão. Por isso, o dragão é uma entidade tão cara aos chineses. Personifica o berço, a força da natureza e o poder ilimitado do mundo. Baseados nessa interpretação, os sábios atribuíram às montanhas o “pulsar respiratório” do dragão. Uma cordilheira simboliza iconograficamente um dragão, com suas corcovas, asas, cauda e patas. As garras estão fincadas nos vales, nos sopés de montes. As encostas são o dorso do dragão; a vegetação, as rochas, os córregos e nascentes representam os poros, as escamas e o musgo de sua pele. Em certos casos, admitem-se

também outras interpretações. Certos formatos de montanhas são associados às imagens do tigre, do urso ou do cão. Segundo o Feng Shui, mon-

tanhas que expressam a imagem de tigres são dotadas de temperamento

feroz, enquanto as que representam ursos ou cães conotam temperamen-

tos pacíficos, mais acolhedores, e oferecem melhores condições para implantação de edificações. (Convivem melhor com o ser humano.) Outra

recomendação importante é evitar sempre regiões próximas a bocas e

garras. São locais de respiração agressiva, produtores de desequilíbrio energético: causam instabilidade psicológica e conflitos emocionais.

O rio simboliza a serpente, outro animal muito importante do ima-

ginário chinês. O dragão e a serpente travam um relacionamento de es-

treita integração respiratória. Assim deve ocorrer entre montanhas e

rios. A montanha necessita do rio, que lhe irriga as bases, proporcionando a vida. O rio necessita da montanha para delinear suas margens e

conter as águas. O rio é Yang, pois tem caráter móvel, expansivo e di-

nâmico. A montanha é Ying, por representar a serenidade, a força con-

centrada e a imobilidade. O Feng Shui concebe essa interação como a

mais alta simbolização iconográfica do movimento Ying/Yang.

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O local ideal para edificações deve pressupor a proximidade desses

dois elementos, ou do mar. Deve estar organicamente contido num siste-

ma interativo de vento/água, luz/sombra, movimento/repouso, expan-

sividade/concentração. Optando por edificar na própria montanha, o es-

pecialista em Feng Shui deve observar a leitura iconográfica de seu perfil, a fim de estabelecer orientações construtivas. Deve dar preferência às encostas suaves, de declive pouco acentuado, com vegetação verde e fértil, que indicam respiração harmoniosa. Lados sul e oeste devem ser evitados pois estão submetidos ao vento sudoeste desordenado, e à luz so-

lar recessiva do poente. As encostas norte e leste, ao contrário, proporcionam a luz expansiva do sol nascente e a brisa suave do vento nordeste.

A proximidade a um rio é muito bem-vinda, mas é importante manter um

afastamento mínimo de suas margens. A mistura entre as respirações de

edificação e de água de rio ou mar produz forças de difícil controle. Pode levar a crises de ansiedade e moléstias ósseas.

Os picos de montanhas são locais a serem evitados. Pertencem à re-

gião denominada “boca do tigre”, muito instável, por situar-se perto demais dos dentes e do hálito selvagem. Produzem forças maléficas, prejudiciais à saúde física e psíquica. Não convém, ainda, construir em montanhas de vegetação árida, sem árvores e animais silvestres. A aridez con-trasta com a perspectiva da prosperidade e bloqueia as energias positivas.

Montanhas com perfil de navio são os piores locais para construir, porque não oferecem as mínimas condições de equilíbrio energético que per-mitam o bom desenvolvimento da habitação. Sentenciam os moradores

a desgraças permanentes.

A sabedoria popular

Conforme foi visto no tópico anterior, a teoria Feng Shui recomen-

da buscar sempre uma “leitura visual” iconológica da natureza, para interpretar suas mensagens intrínsecas. Edificar, segundo essa teoria, é integrar e adaptar o “desejo humano” num meio onde prevalecia apenas o

“desejo natural”. Construir é intervir e modificar, impor uma respiração nova à situação respiratória existente. Qualquer edificação, boa ou má, acaba por produzir alterações num sistema preexistente. Daí, a suprema importância de edificar de forma respeitosa, benéfica e harmoniosa.

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Luo Bo, administrador-geral do Departamento de Uso de Solo e Meio

Ambiente do Distrito de Shingo, em Hong Kong, com uma vida de expe-

riência na implementação de projetos de industrialização no meio rural, de pequeno e grande porte como hospitais, escolas, fábricas e eletrifica-

ção, tem uma consideração enfática acerca da intervenção humana na

natureza: todo projeto, independentemente dos objetivos finais, deve ser precedido de um levantamento Feng Shui para avaliar sua capacidade de

respeitar a harmonia ambiental. Parques, nascentes, áreas florestais e reservas animais garantem a perspectiva da renovação da vida. Devem ser acatados, mantidos e protegidos como condição primeira e essencial na

captação de forças benéficas ao projeto. Acrescenta ele que arquitetos e paisagistas oriundos das cidades devem, antes de tudo, procurar ouvir e acatar as opiniões dos habitantes do meio rural. Independentemente da

falta de conhecimentos técnicos específicos, essas pessoas mantêm um relacionamento íntimo com a natureza, percebem de forma intuitiva as in-

clinações e as características do meio natural e sabem realizar leituras iconográficas que proporcionam dados preciosos quanto aos fatores favoráveis de um projeto. Os camponeses e os trabalhadores rurais, diz ele, são dotados dessa milagrosa habilidade em decifrar os desejos mais re-cônditos da natureza em manifestações insignificantes como a posição de uma rocha, a inclinação de uma árvore, o perfil de uma colina e outros sinais. A palavra deles, finaliza Luo Bo, deve ter o poder de deter um projeto, por mais lucrativo ou beneficente que seja, porque eles dialogam diariamente com as forças primordiais do cosmos.

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4. Feng Shui e sua atuação nos

grandes meios urbanos

Modernização e crise

A vida moderna é simbolizada e regida pela existência das grandes

megalópoles, que comandam as ações e a abrangência da industrialização, automação, informatização e massificação. O progresso tecnológico é o

“fogo de Prometeu”, que escancarou ao ser humano as portas da fartura, do conforto, da variedade e do conhecimento. Pelo menos em tese, qualquer um tem acesso aos benefícios da informática e da máxima qualidade de produto, além de opções quase infinitas de lazer.

Qual o sentido, então, de introduzir teorias fundadas em concepções

filosóficas produzidas há quase três milênios, num país do Extremo Oriente, por esotéricos maltrapilhos que não tiveram acesso sequer a má-

quinas a vapor? Como encarar com seriedade as especulações metafísicas de homens que nunca viram uma moeda e nada conheciam acerca dos

Estados Nacionais, quanto mais os Internacionais e Transnacionais?

A teoria Feng Shui responde a essas indagações muito pertinentes,

observando apenas que, à longa relação de benefícios produzidos pelo

progresso tecnológico, corresponde outra longa relação de malefícios, na mais perfeita tradução assertiva do movimento Ying/Yang. A sociedade

contemporânea engendrou, também, ao mesmo tempo, a alienação, a soli-

dão, o egoísmo, a violência, a competição desenfreada, a especulação

imobiliária, a exploração financeira, a estandartização, a poluição ambiental, a dissolução dos relacionamentos profundos na família e na so-36

ciedade, a ostentação fútil e a dissipação completa da sensibilidade interior (o animus), isso tudo levando à ruptura do homem com suas qualidades essenciais e sua vinculação integrada com a natureza.

A cada novo avanço da humanidade rumo à emancipação técnico-

científica corresponde, igualmente, um avanço em direção à perda da

autoconsciência e da identidade fundamental do Ser. Esse é o princípio maior do Tao. A objetividade gerando instabilidade psíquica; a fartura provocando fome de multidões; a velocidade dos meios de comunicação

sendo travada por burocracias paralisantes; a ânsia ao ter desintegrando o sentido do usufruir; pesquisas de alto nível voltadas a métodos mais eficientes de matar e a liberdade aprisionada no cárcere da má consciência.

Os antigos metafísicos intuíram o paradoxo ao formular a pendularidade Ying/Yang, localizaram o princípio da miséria na plenitude farta e o germe da destruição no auge da realização. O Ser e o Não-Ser interpenetrando-se mutuamente é a essência do Tao. Por esse motivo, o homem do sécu-

lo XXI, armado de um formidável arsenal de possibilidades científicas

para a resolução de problemas práticos, percebe a urgente necessidade em resgatar a sua essência primordial, revendo suas posições diante da natureza. Ao praticar esse gesto, vê-se repentinamente frente a frente com os esotéricos do século VI a.C.

Administradores, arquitetos, engenheiros, urbanistas, sociólogos, en-

fim, profissionais que têm a função de “pensar” a cidade, desde os canais rotineiros de funcionamento e fluxo, até os componentes sociopolíticos reguladores das relações sociais, esbarram cada vez mais em determinantes políticas que deformam o sentido de sua atuação. São restrições de caráter econômico-financeiro, interesses setoriais na destinação de recursos. Não é por acaso que nenhum dirigente consiga desempenho satis-

fatório quando no comando e haja tanta alternância nas tendências polí-

ticas de governo. Nenhum projeto simplesmente técnico tem hoje a capa-

cidade de enfrentar vitoriosamente o desafio da realidade. Esta ensina de modo duro aos governantes de plantão que não se admite mais a visão

fragmentária no enfrentamento das complexidades de um grande centro

urbano. O momento exige o resgate do Tao: “Fazer o caminho caminhan-

do”. Essa é a chave e seu portador é Feng Shui.

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A noção do conjunto

A teoria tem como principal preocupação não perder a visão do con-

junto. A partir da análise do desenvolvimento deste livro se afigura bastante claro o processo sempre presente de relacionar elementos a sistemas, e sistemas a conjuntos. Um dormitório, uma planta ou um espelho

são elementos. Articulam-se entre si na formação de um sistema (a edi-

ficação). A interação dos sistemas interno e externo forma, por sua vez, o conjunto. Esse conjunto formado interage com outros conjuntos aná-

logos. Constituem, assim, um subconjunto integrante de um conjunto

maior: uma quadra, que, por sua vez, é subconjunto de um conjunto de-

nominado bairro, que passa a ser subconjunto de um conjunto denomi-

nado região. A região é subconjunto do conjunto maior: cidade. O en-

cadeamento sucessivo de subconjuntos e conjuntos termina por consti-

tuir o planeta, o conjunto solar, o galáctico, até o conjunto universo, que se expressa no Tao.

O urbano

As concentrações urbanas tornaram-se inevitáveis ao mundo moder-

no. A sociedade industrial exige pólos concentradores de serviços. Em

linhas gerais, a teoria estabelece alguns serviços que são essenciais no atendimento ao sistema produtivo.

Existe uma atividade central, que é a produção em si: as indústrias de base, as secundárias, as terciárias, e assim por diante. Em torno dessa atividade central, articula-se uma extensa rede de atividades, denominada

“de serviços”, pois seu objetivo é, em última instância, servir ao funcionamento, escoamento e consumo dos produtos industriais. São os servi-

ços de administração, finanças, transporte de cargas, armazenamento,

comercialização, distribuição, publicidade e serviços públicos, incluindo transportes. Esse conjunto de tarefas requer, em primeiro lugar, a proximidade geográfica para operar com rapidez e simultaneidade. O centro

urbano surgiu para atender a essa solicitação.

O desenvolvimento das cidades motivou o desenvolvimento de no-

vas teorias e técnicas construtivas. O novo pensamento arquitetônico e urbanístico tem presente a necessidade de adotar o conceito do planeja-38

mento global. As propostas estão cada vez mais voltadas à organização

racional do espaço destinado a atividades distintas. Projetos de distritos industriais, centros empresariais, conjuntos comerciais e financeiros, bairros residenciais e centros de lazer são elaborações imprescindíveis à organização dos fluxos de locomoção, distribuição e fiscalização. Projetar

“enxergando” a cidade como um conjunto de atividades inter-relaciona-

das deve permear as preocupações técnicas, como única forma de atenuar o impacto dos malefícios gerados pela vida moderna. O passo seguinte é a conscientização, por parte dos administradores urbanos, da necessidade de integrar os diferentes centros de atividade. Devem ser conjugados

segundo critérios de rendimento respiratório, captação energética e harmonização com o meio circundante. Essa é a recomendação da teoria

Feng Shui. Sua prática, certamente, contribuirá para a melhoria geral da qualidade de vida.

Forças que atuam nas cidades

O especialista em Feng Shui, ao debruçar-se sobre a malha urbana,

deve tornar relativos os elementos da natureza em si, concentrando-se na leitura “iconográfica” segundo uma nova realidade. Os materiais construtivos, a pavimentação e o calçamento, as edificações e todo o restante da paisagem urbana proporcionam novos elementos de enfoque. Entidades

naturais, como montanhas, rios, árvores etc., têm pouquíssima influência nos meios urbanos.

A visão do urbano deve assumir, portanto, para o teórico de Feng

Shui, uma perspectiva atenta às conotações. As obras de engenharia ga-

nham um colorido simbólico e passam a exercer influências decisivas na trajetória dos ventos, na captação e na distribuição de energias ao meio.

Prédios e arranha-céus adquirem, assim, o papel representativo das

montanhas; as avenidas, dos rios; as ruas, de riachos e córregos; os viadutos, de pontes; as ladeiras e rampas, de cascatas e cachoeiras; os postes, de árvores e assim por diante. Cada elemento assume o caráter respiratório do elemento simbolizado e integra-se aos demais de modo análogo.

As analogias devem manter, evidentemente, as devidas proporções.

Um poste não poderá jamais substituir uma árvore, nem exercer as fun-

ções inerentes a esta; são respirações distintas. A aproximação tem caráter 39

unicamente simbólico e refere-se mais aos efeitos similares que exerce ao seu redor. Um prédio, por exemplo, produz um efeito de compressão ambiental de modo muito próximo ao que faria uma montanha, e daí parte

o relacionamento. Os especialistas devem trabalhar, contudo, com mui-

to critério, a fim de evitar associações aleatórias. O fluxo é também muito importante. As mãos de direção do trânsito produzem fluxos aéreos que

devem ser considerados num projeto. Correspondem às direções das cor-

rentes do rio.

Escolha de apartamentos

Uma das premissas com que trabalha a teoria é a da situação posta.

O crescimento rápido dos centros urbanos gera instâncias preexistentes de desorganização e desequilíbrio. O especialista é geralmente convocado a intervir em situações já existentes. Seu trabalho é selecionar e atenuar situações e elementos, e um dos casos mais freqüentes da necessidade da teoria é quando é preciso escolher um apartamento para moradia ou trabalho.

O prédio simboliza a montanha e a montanha simboliza o dragão.

Portanto, o apartamento a ser selecionado deve, preferivelmente, situar-se na região do dorso. Isto é, num andar intermediário, o mais central possível. Andares muito altos trazem amplitude visual e espacial, mas

estão nas imediações da boca. Os ventos circulam com violência descon-

trolada, gerando dispersão das energias favoráveis. O morador sofrerá de impaciência e vertigens, além de não poder contar com a serenidade necessária à tomada de decisões importantes. Andares baixos proporcionam estabilidade, mas a massa física dos andares acima produz compressão

ambiental e irregularidade respiratória. O excesso de concentração Ying causa apatia e perda das expectativas expansivas. A proximidade da rua é a proximidade excessiva do rio. Produz turbulência respiratória e energias maléficas trazidas pela poluição sonora e atmosférica.

Edifícios de apartamentos de fachada irregular são contra-indicados

por especialistas em Feng Shui, principalmente os que têm duas alturas diferentes. São denominados “facões” (Figuras 1 e 2).