Filha Do Sol por Heather Graham Pozzessere - Versão HTML

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FILHA DO SOL

Apache Summer

Heather Graham Pozzessere

Seu nome agora é Filha do Sol. Precisa esquecer o passado e também o futuro com

Jamie, planejado numa tarde quente de paixão.

Prisioneira de índios, Tess Stuart será obrigada a casar-se com o chefe de uma

tribo Apache. Ele se encanta com a beleza de Tess e aceita o desafio de domar um

espírito rebelde.

Mas a esposa de um líder precisa ser pura. Sua fúria não conhecerá limites se

descobrir que ela pertenceu a outro homem. . um branco como todos os que dizimaram

sua família. Um tenente da Cavalaria Americana que moverá céus e terras para ter de

volta a mulher amada!

Digitalização: Akeru

Revisão: Andréa Madeira

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CLR – A Filha do Sol – Heather Graham Pozzessere

Heather Graham Pozzessere

Num cenário de guerra entre brancos e índios, a autora cria uma história de

incomparável realismo e sensualidade.

Título original: Apache Summer

Copyright: Heather Grahma Pozzessere

Publicado originalmente em 1989

Pela Harlequin Books, Toronto, Canadá

Tradução: Vânia Fernandes do Canto

Copyright para a língua portuguesa: 1990

EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.

Av. Brigadeiro Faria Lima, 2000 – 3º andar

CEP01452 - São Paulo – SP – Brasil

Essa obra foi composta na Editora Nova Cultural Ltda.

Impressão e acabamento: Círculo do Livro S.A.

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CLR – A Filha do Sol – Heather Graham Pozzessere

CAPÍTULO I

A oeste do Texas, 1870

Jamie Slater puxou as rédeas do garanhão ruço. Semicerrou os olhos cinzentos e

penetrantes, mirando o Oeste para onde o sargento Monahan apontava. Além das

dunas e das salvas, chamas vermelhas rompiam a harmonia do azul-celeste em meio a

uma parede negra de fumaça.

— Índios. . — balbuciou Monahan.

À direita do tenente, Jon Pena Vermelha se retesou. Jamie observou o amigo.

Alto, forte, de olhos verdes e feições marcantes, o descendente da tribo dos pés-

pretos há muito vivia afastado de suas origens. Graças à riqueza do avô inglês, havia

recebido uma educação esmerada, chegando até mesmo a frequentar a Universidade

de Oxford. Ainda assim, era um dos melhores rastreadores da região. E sua expressão

confirmava: algo estava muito errado.

Os apaches odiavam o homem branco. Os comanches o detestavam; e não se

ignorava a determinação da grande nação sioux em guerrear por toda a terra que lhes

fora tomada por colonizadores inescrupulosos.

Por intermédio de Jon, Jamie viera a conhecer bem os comanches. Jamais fora

logrado por um deles. Porém não cometia o desatino de considerá-los dóceis.

— Vamos ver o que é isso — suspirou. Endireitou o corpo sobre a sela e voltou-se

para a linha de quarenta e dois homens sob seu comando: — Avante, sargento! E

depressa!

Monahan repetiu a ordem aos brados. Jamie estalou as rédeas sobre o dorso do

cavalo e o animal disparou com graça. Chamava-se Lúcifer. E o nome lhe caía bem. Era

bravio e ágil como poucos.

Essa era uma das vantagens da Cavalaria americana, refletiu, enquanto

cavalgavam em direção à duna que semiocultava o fogo: oferecia bons cavalos a seus

homens. Não tinha contado com esse prazer junto aos Confederados, já que a

Secessão abatera grande parte das montadas. Agora a guerra estava terminada havia

quase cinco anos. E, por ironia, usava um uniforme azul. . do mesmo tipo no qual passara

anos atirando.

Ninguém, muito menos seus irmãos, tinha acreditado que ele, Jamie, duraria mais

que um dia na Cavalaria. Não depois da Guerra Civil.

Mas havia gostado daquela vida passada na sela, ao longo das planícies, lidando

com índios. Muito mais do que testemunhar o que se havia feito do Sul. Aquele era o

Oeste do Texas, e as retaliações da guerra não eram as mesmas que no extremo Sul.

Lá, por todos os cantos das cidades e vilarejos, podiam-se ver homens em farrapos;

muitos aleijados mancando sobre muletas. Desamparados e abatidos, tinham sido

obrigados a se render nos campos, depois forçados a situações que nem sequer podiam

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entender: impostos exorbitantes, ianques no lugar dos xerifes. .

A guerra fora horrenda. Mesmo depois de terminada.

Existiam bons ianques. Tinha consciência disso. Não culpava os bons pelo que

acontecia. Culpava a ralé, os exploradores. Apreciava o próprio trabalho porque

gostava, honestamente, de grande parte dos comanches e outros índios com os quais

convivia. Estes pelo menos ainda guardavam algum senso de honra.

Mas já não podia dizer o mesmo, daqueles aventureiros nortistas.

Entretanto, nunca se deixara enganar. Os índios eram guerreiros selvagens; até

inclementes em seus ataques.

Sentindo o vigor do animal sob ele, porém, e à medida que se aproximava do local

em chamas, Jamie soube que seus dias na Cavalaria estavam perto do fim. Tinha

necessidade de um tempo para superar os traumas da guerra. Talvez houvesse

precisado continuar a lutar um pouco mais apenas para aprender a não lutar.

Contudo, havia sido fazendeiro antes da Secessão. E começava a sentir falta de

um pedaço de terra. Terra boa, terra rica. Um lugar onde um homem pudesse criar seu

gado, onde pudesse cavalgar em sua propriedade por acres e acres sem ver cerca

alguma. Imaginava um sobrado, com uma cozinha de bom tamanho e uma sala bem

ampla com lareira para afugentar o frio cortante do inverno. Sim, já era tempo de

sossegar um pouco.

— Deus do céu! — engasgou o sargento Monahan, puxando as rédeas ao lado de

Jamie no topo da duna e trazendo-o de volta à realidade. Dura realidade!

Jamie comprimiu os lábios e um músculo pulsou-lhe nas têmporas. Uma

carnificina! Bem abaixo deles, carroças haviam sido posicionadas em círculo numa

tentativa inútil de defesa. Aparentemente fora um ataque relâmpago. Havia cadáveres

por todos os lados. Flechas salpicavam as carroças onde a lona ainda não ardia.

Comanches, concluiu Jamie. As coisas realmente não andavam bem. Monahan

ouvira rumores sobre um ataque de brancos a um vilarejo índio. Provocações daquele

gênero só podiam ocasionar unia tragédia. Ali devia estar a vingança.

— Inferno! — praguejou o sargento, inconformado.

— Vamos. — Jamie guiou o cavalo declive abaixo.

A planície era seca, com salvas crescendo por toda parte em meio aos cactos. Os

indígenas se haviam lançado num ataque rápido e fulminante, depois desaparecido

montanha acima, deixando um rastro de morte e sangue.

— Aproximem-se devagar! — instruiu os homens. — Lembrem-se de que um

comanche semimorto ainda é um comanche!

Logo atrás dele, Pena Vermelha montava em silêncio. Os cavalos arquejavam ao

alcançar o fim do declive, pisoteando a terra em busca de solidez. Então, com cautela,

circundaram as cinco carroças da caravana.

Os pobres nem sequer haviam tido uma chance, Jamie constatou, tenso.

Obviamente conduziam algumas cabeças de gado que agora jaziam de olhos vidrados,

seu sangue misturando-se aos dos corpos humanos ao redor.

Não havia mais vida por ali. E nem um só índio; nem mesmo morto.

Desmontou diante do cadáver de um velho com uma flecha atravessada nas

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costas. Tocou-lhe o ombro, virando-o. Engoliu em seco. O homem fora escalpelado e o

trabalho tinha sido nojento. O sangue banhava lhe a testa e parte dos olhos, ainda

viscoso e quente. Não havia acontecido há mais que meia hora. Se tivessem chegado

trinta malditos minutos antes talvez pudessem ter impedido o massacre. Jamie

suspirou, percebendo que os outros homens haviam desmontado. Sob o comando do

sargento Monahan, também procuravam algum sinal de sobrevivência.

Pôs-se de pé, balançando a cabeça. Droga. Há pouco tivera contato com os

comanches. Águas Claras, o chefe da tribo local, não era de guerra e há anos seu povo

vinha convivendo pacificamente com os brancos. Gostava de Águas Claras. Sem dúvida

um comanche podia ser perigoso quando provocado: porém não conseguia imaginar que

fatalidade poderia ter desencadeado uma fúria daquelas.

Pena Vermelha abaixou-se ao lado dele, investigando o cadáver.

— Nenhum comanche fez isso — disse.

Jamie franziu o cenho.

— Então quem foi? Um bando de cheyennes? Talvez alguns da tribo dos utes?

Estamos muito distantes do Sul para terem sido os sioux.

— Eu lhe garanto, tenente, nenhum sioux faria esse tipo de trabalho. E os

comanches são bons guerreiros também. Sabem desde pequenos como fazer um

escalpo.

— Então quem foi! — exigiu Jamie, impaciente, sentindo o sangue gelar diante da

patente insinuação de Jon de que nenhum indígena era responsável pelo hediondo

ataque. Não era possível, disse a si mesmo. Nenhum branco poderia ter matado e

mutilado sua própria raça de modo tão selvagem.

— Ei, tenente! — Charlie Forbes chamou de súbito e Jamie virou-se. O soldado

encontrava-se ao lado de um homem de costeletas grisalhas. — Parece que esse aqui

resistiu à flechada e acabou com um tiro.. bem no coração.

Jamie levou as mãos à cintura ao pressentir que Jon se erguia a suas costas.

— Não tente me dizer que os comanches não portam rifles.

— Eles os conseguem com os comancheros. . que os compram da sua gente.

Jamie já não prestava mais atenção. Num segundo passava por Jon, indo em

direção à única carroça que lhe pareceu menos avariada. Ou estava imaginando coisas

ou tinha ouvido algo. Devia estar delirando. O trabalho ali havia sido completo.

Ainda assim, caminhou a passadas largas, os ouvidos atentos. Estava enjoado,

notou, como há muito não ficava. Havia praticamente crescido no meio de sangue.

Antes dos vinte anos, uma de suas cunhadas tinha sido assassinada por pistoleiros do

Kansas. Logo depois fora declarada a guerra e, embora houvesse lutado, num

regimento decente sob o comando de John Hunt Morgan, jamais pudera escapar aos

horrores das batalhas nas fronteiras.

Não tinha o direito de pensar que os índios eram mais perversos que os homens

brancos. Nenhum direito.

Soltou o ar, lentamente. Ter consciência da viciosidade da própria raça fora um

dos motivos que o levaram a usar aquele uniforme azul bem talhado e a espada de

oficial de Cavalaria. Não costumava carregar o rifle, contudo.

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Habituara-se a usar os Colt nos quatro anos do conflito civil, e os mantinha desde

então.

Estreitou os olhos. Podia jurar ter visto algum movimento dentro da carroça.

Olhou por cima dos ombros. Jon o seguia e fez sinal com a cabeça, confirmando lhe as

suspeitas. Em seguida circundou o carro, enquanto ele rumava direto para a abertura

da traseira.

Olhou para dentro e a princípio só pôde ver sombras. Até que as coisas

começaram a tomar forma. Havia dois beliches. Ironicamente, ambos estavam feitos,

com os lençóis limpos, os cobertores, dobrados convidativamente.

Depois malas, baús e caixas. Tudo em perfeita ordem.

Nem tudo. Mais uma vez, pressentiu algum movimento. Não saberia dizer se

ouviu. Tinha os sentidos aguçados. Não vivera em território índio e convivera com Pena

Vermelha sem aprender a trabalhar os sentidos. Havia alguém ali! Podia sentir na pele,

na nuca, na espinha. Havia alguém, e muito perto.

— Saia daí, vamos! — ordenou em voz baixa. — Pode sair. Não queremos machucar

ninguém aqui, só queremos que saia.

Nada. Jon moveu-se para frente da carroça e os cavalos, ainda farejando

fumaça, relincharam, batendo os cascos nervosamente.

Jamie subiu no carro, os olhos no beliche a sua esquerda, sobre o qual havia uma

camisola. Era rendada, branca e sem mangas. Bonita demais para enfrentar a poeira

das estradas. Podia combinar com a arrumação de camas, mas não com o resto ao

redor! Onde estava sua dona? Estaria viva? Seria namorada de algum dos rapazes

mortos? Não tinha visto nenhum cadáver de mulher. Não ainda.

— Tem alguém aqui? — repetiu, movimentando-se além dos baús. Deteve-se,

notando um bule de café caído a um canto, o líquido esparramado pelo chão. — Pode

sair, está tudo bem agora!

Continuou procurando. A escuridão dentro da carroça era total, tornando difícil a

visão. De súbito, porém, distinguiu uma saia rodada de tafetá cor de malva. Abaixou-se

devagar, temendo ter achado outro cadáver.

Tocou o corpo de leve e sentiu lhe o calor. Moveu a mão instintivamente e seus

dedos encontraram as formas arredondadas do seio de uma mulher. Ela estava quente,

mas quieta demais.

"Deus meu, faça com que esteja viva", pediu, perturbado pelo inesperado contato.

Ela estava viva. Viva até demais. Pulou de repente, com um grito de horror.

Sobressaltado, Jamie recuou. Estivera preparando-se para encontrar um comanche.

Mas ao tocar as formas suaves e femininas tinha baixado as guardas.

Ela tornou a gritar feito um animal ferido, e ele buscou o Colt, num gesto

automático. Deixou cair as mãos, então, atordoado. Era só uma mulher. Uma mulher

pequena e delicada.

— Moça. .

Inesperadamente ela se atirou sobre ele com fúria, atingindo-o com uma força

descomunal.

— Ei! — protestou o tenente, mas ela o ignorou. Chutou-o nas pernas,

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esmurrando-o nos ombros na tentativa de desequilibrá-lo. Jamie ergueu os braços

para se defender, mas no momento seguinte desabava no chão da carroça. — Pare com

isso, droga! — gritou, consciente do corpo frágil sobre o seu, da cascata de cabelos

castanho-avermelhados, dos seios redondos agora tão próximos a seu rosto.. Ainda,

podia senti-los nos dedos. Ela era perfeita. Mas perigosa. Socou-o no peito, atingindo-

o com a ira de dez comanches. Depois no queixo, fazendo tremer-lhe os dentes.

Para que ser gentil?, concluiu o tenente. Aquela mulher era um monstro! Nenhum

mortal sobreviveria a ela usando de gentilezas!

Comprimindo os lábios, agarrou-a-pelos pulsos, tentando não machucá-la demais.

Em vão. Com um grito, ela se libertou e no instante seguinte uma sombra de satisfação

iluminou lhe as feições, Seus dedos fecharam-se ao redor de algo que ela ergueu no

ar, ameaçadora.

— Ei! Ei! — exclamou Jamie, os olhos se arregalando diante do brilho letal de uma

faca. — Está maluc. .?!

Ela desferiu o golpe com ímpeto e a lâmina parou a poucos centímetros da

garganta dele. Num movimento ágil, Jamie girou o corpo, desequilibrando-a, para então

dominá-la com dificuldade, a respiração saindo em espasmos.

— Sou da Cavalaria, droga! !

Ela não pareceu ouvir, nem mesmo enxergar nada. O punhal traçou nova e

perigosa investida, mas desta vez ele conseguiu atingi-la no braço, atirando-o para

longe. Mas as unhas afiadas buscaram lhe os olhos e Jamie praguejou, obrigando-se a

empurrá-la e prendê-la contra o chão com o próprio corpo.

Ainda lutando para mantê-la imóvel, ergueu a cabeça e deparou-se com Pena

Vermelha sentado no banco da frente da carroça.

— Podia ter me ajudado, inferno! — vociferou.

Jon limitou-se a sorrir.

— Contra uma garotinha indefesa? Francamente!

Garotinha? Uma vez sobre ela, Jamie pôde fazer seu julgamento. Observou o

arfar dos seios fartos e provocantes. Ela podia ser pequena e delicada, mas aquelas

curvas não eram as de uma menina.

Como uma gata selvagem, ela continuou a se debater sob ele, permitindo a Jamie

tomar total consciência de suas formas. E o contato foi de tal modo perturbador, que

ele acabou por relaxar a guarda. Mais um pouco e ambos aterrissavam na terra seca do

lado de fora da carroça. Membros entrelaçados em meio a metros de tecidos e

rendas, os dois eram o único ponto de movimento na paisagem árida. Quando ela tentou

mordê-lo no ombro, Jamie empurrou-a para trás com um tranco.

— Já chega! — gritou, a mão erguendo-se ameaçadoramente, porém estancando

no ar diante da expressão de terror no rosto incrivelmente bonito. Com um suspiro,

prendeu os braços dela sobre a cabeleira vermelhada, sem delicadeza.

Sua raiva cedeu, contudo, quando viu os olhos azuis encherem-se de lágrimas. Ela

havia estado histérica, percebeu. Daí aquele impulso quase assassino. Sentiu os

tremores que sacudiam o corpo delicado, mas não ousou libertá-la.

— Somos da Cavalaria! — repetiu. — Ouça-me! Ninguém vai machucá-la. Os índios

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já se foram! Somos da Cavalaria, entendeu? Só queremos ajudar. Fala inglês, não fala?

— Claro que sim, seu bastardo! — ela gritou de volta, para espanto dele.—

Assassino, maldito!

— Assassino, eu?! Só estou tentando ajudar!

— É mentira!

Pasmado, Jamie emudeceu. Fitou os olhos enormes e marejados, os cabelos longos

espalhados na terra feito raios de sol no crepúsculo. Por um instante, quase se

esqueceu por que a mantinha cativa.

Ela não confiava nele. Tinha vindo para salvá-la de um ataque indígena e ela não

acreditava nele!

— Escute aqui moça, já disse que não vou lhe fazer mal. Estes homens. . todos nós

somos da Cavalaria americana.

— Esse uniforme não quer dizer nada!

— Está maluca, mulher?! — Era isso. Ela havia enlouquecido. Presenciara a

carnificina e ainda devia estar em choque. — Está tudo bem agora! Melhor ainda se

parar de me bater. Os índios já foram emb. .

— Não havia índios!

— Como não?!

— Estavam disfarçados de índios, mas não eram índios! — Ela balançava a cabeça,

convulsivamente. — A lei aqui é corrupta, por que não a Cavalaria?

— Moça, não sei do que está falando. Sou o tenente Slater do Forte Vickers e

chegamos até aqui por mero acaso.

Ela piscou e uma sombra de dúvida passou pelos olhos amendoados. O regimento

aproximava-se pouco a pouco, movido pela curiosidade, e ela olhou ao redor, confusa.

Todos a fitavam em silêncio. Quanto tornou a se concentrar em Jamie, um ligeiro

rubor tingiu lhe as faces, como se só então se houvesse dado conta da posição

constrangedora em que se encontrava: com as pernas e quadris semidesnudos sob os

dele. Também não usava espartilho; e o tenente pareceu bem se aperceber disso..

Umedeceu os lábios, nervosa. O gesto, porém, só fez piorar sua situação. Os olhos

cinzentos se estreitavam com indisfarçável desejo, e ela se contorceu sob ele,

mortificada.

Mas o tenente não cedeu um só milímetro. Afinal, havia tentado ser o mais gentil

possível e agora sangrava como se atacado pelo mais selvagem dos felinos. Um fio de

sangue escorria lhe pelo queixo e ela engoliu em seco.

— Tenente, pode me. .

— Qual é o seu nome?

— Se me soltar, eu. .

— Qual é o seu nome?

Ela comprimiu os lábios.

— Tess — respondeu, por fim.

— Tess o que?

— Tess Stuart.

— Para onde estava indo e de onde vinha?

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— Wiltshire. Vínhamos de Demedin, uma cidade quase fantasma, trazendo gado e

uma prensa. Não precisam mais dela lá.

— Disse "vínhamos". Com quem estava?

— Com meu. . — Ela hesitou por um momento, piscando, confusa. — Meu. . tio e eu

— disse com voz embargada. — Estávamos indo para casa. Para Wiltshire.

O tenente ergueu o corpo de leve e ela soltou o ar, sentindo as pernas musculosas

pressionando-lhe os quadris. Depois ergueu o queixo determinada a ignorá-lo, e

também à dor e a revolta que a consumiam.

Era de uma coragem inestimável, concluiu Jamie. Não importava o quanto

estivesse abatida. Jamais se rendia. E tal determinação se lia naqueles olhos de um

azul difícil de se descrever. Difícil de se crer. Ou era uma tola, ou a mulher mais

extraordinária que ele já havia conhecido. Apesar dos cabelos de seda, dos olhos

grandes e amendoados como os de uma criança, dos contornos delicados, ela parecia

feita de aço.

E tal qualidade, mesmo que numa mulher aparentemente frágil, podia ser fatal ali,

no Oeste. Jamie bem o sabia e por isso a mantinha imobilizada. Ela precisava aprender

a não ultrapassar seus limites.

— Foi muita sorte sua não ter sido vista pelos índios — murmurou, sucinto.

— Eu já disse que não foram índios! — rebateu ela entre os dentes.

— Então quem?

— Os homens de Von Heusen, droga!

— E quem, diabos, é esse Von Heusen? — O tenente franziu o cenho ao ouvir uma

exclamação abafada atrás dele. Ainda sem soltá-la, voltou a cabeça. — Alguém por

acaso sabe?

Foi Pena Vermelha quem deu a resposta:

— Richard von Heusen. O que se diz fazendeiro. Nunca ouviu falar dele?

— Não.

— Acho que passou tempo demais lidando com índios, tenente. Não faz nem ideia

do que está acontecendo por aqui.

Era verdade, Jamie pensou. Nem sequer quisera ouvir falar naqueles malditos

rancheiros.

— Está querendo concordar que esse tal Von Heusen pode ser o responsável por

isso?

Jon deu de ombros.

— Não posso afirmar nada.

— Só sei que ele é dono da metade do Texas — exagerou Monahan.

Jamie tornou a se concentrar na garota. Agora ela o fitava com interesse, que

logo se transformou em hostilidade, quando os olhares se encontraram.

— Ele é um explorador ianque — ela falou com desprezo. — Quer me dizer que

nunca ouviu falar deles? São verdadeiros abutres! Vieram voando se aproveitar do que

restou do Sul e nos chutaram como a cachorros. Compraram as terras que os sulistas

não conseguiram porque a União não queria dinheiro dos Confederados. Von Heusen

comprou Wiltshire. . tenente.

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— Quer dizer então que esse tal ianque atacou sua caravana a flechadas assim,

em plena luz do dia?

— Não foi bem assim — retorquiu ela, — Duvido que ele estivesse junto. Apenas

mandou seus homens todos pintados e vestidos como comanches para não serem

reconhecidos, caso alguém sobrevivesse.

— Então viu mesmo comanches atacando as carroças.

— Não! Não é isso que estou dizendo. Não sou nenhuma idiota, tenente. Nasci e

cresci aqui e reconheço um comanche quando vejo um! E também sei quando estou

diante de uma farsa!

— Está dizendo, então, que um grupo de homens brancos fez essa sujeira com

gente de sua própria raça?

— Quanta perspicácia! Deve ter estudado em West Point. — Os lábios carnudos

torceram-se com ironia. — Von Heusen tramou tudo isso, homem! Precisa prendê-lo

por homicídio em massa.

— Você mesma disse: Von Heusen provavelmente nem esteve aqui.

Os olhos dela faiscaram, mas sua fúria veio contida na voz baixa e controlada:

— Não vai mandar prendê-lo?

— Para começar, não sou xerife, srta. Stuart. E, mesmo que fosse, necessitaria

de algum tipo de prova.

— Eu sou sua prova!

— Seria sua palavra contra a dele!

— Ele queria nossas terras!

— Muita gente quer comprar terras e nem por isso se tornou uma assassina!

Ela fechou os olhos, esforçando-se para não gritar.

— É um imbecil, tenente!

— Obrigado pelo elogio, madame.

Ela cerrou os dentes, os olhos marejados.

— Saia de cima de mim! — sibilou.

Ele piscou, só então dando-se conta de que ainda a mantinha presa sob o corpo.

Ela não tentaria mais agredi-lo. Pela expressão de repulsa, só queria escapar a seu

toque, ou à simples visão dele.

— Não posso sair por aí prendendo as pessoas sem prova! — explodiu Jamie,

irritado. — Ainda mais quando a testemunha é uma louca varrida!

— Ah! — Ela tentou arranhá-lo mais uma vez e Jamie a deteve, pondo-se de pé e

erguendo-a aos trancos. Cerrou o maxilar diante do ódio que cintilava nos olhos azuis.

— Escute, moça. .

— Tenente! — Charlie chamou, circundando os corpos. — Acho melhor

providenciarmos os enterros.

Ao avistar o cadáver do velho com a flecha atravessada e o tiro no coração, a

expressão de Tess se transformou.

— Oh, Deus! — As palavras falharam, enquanto ela caía de joelhos, tentando

tocá-lo. A cor abandonou lhe as faces. — Não, tio.. Você não.. — Chorou baixinho,

estendendo a mão.

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Mas não chegou a alcançá-lo. Começou a desabar, os olhos turvos.

Instintivamente, Jamie adiantou-se e a segurou, erguendo-a nos braços. Estava

gelada, pálida como a própria morte.

O silêncio ao redor deles também era mortal.

— Charlie, ande logo com isso! — ordenou, nervoso. Os homens puseram-se em

movimento.

Jamie fitou Tess, indignado. Precisava deitá-la em algum lugar. Carregou-a para a

carroça, pousando-a com cuidado numa das camas. Quis dar meia-volta e chamar o

médico do regimento, mas de súbito se viu acariciando os cabelos longos e sedosos

espalhados sobre o lençol. Uma estranha sensação o fez voltar-se. Jon Pena Vermelha

o observava da entrada.

— Ela ainda está gelada. — suspirou.

— Vou chamar o capitão Peters. Não temos muita esperança, mas ele continua

checando os corpos à procura de sobreviventes.

— Talvez seja melhor que ela fique desacordada por algum tempo — disse Jamie

em voz baixa.

— Talvez — hesitou Jon. — O que vai fazer com ela?

— Vou levá-la para o forte. Depois alguém poderá escoltá-la até em casa.

— Alguém? — Jon sorriu.

— É, sim. Alguém.

— Essa é responsabilidade sua. Você a encontrou. O fardo é todo seu, meu amigo.

— Acabei de me livrar do "fardo", olhe aqui — apontou-a sobre a cama, irônico.

— Tem certeza? Pois acho que se meteu numa bela enrascada. Não vai se livrar

dela tão cedo.

— Não me venha com essa, Pena Vermelha! Não acredito nela. Esse tal de Von

Heusen deve ser mesmo um canalha, mas duvido que tenha tido participação numa

selvageria dessas.

— Tem de ver para crer, não é?

— Não é meu trabalho, Jon.

— Isso é o que menos importa agora, Jamie. Porque, se a garota está certa, então

está em perigo. Vai ter de esclarecer a situação, caso contrário poderá estar

assinando o atestado de óbito dela.

— Isso é ridículo!

— Não, não é. Não pode abandoná-la.

— Não posso uma ova!

— Ah, pode? — Jon ergueu uma sobrancelha. — Ainda está com os dedos presos

aos cabelos dela, tenente. Como se numa teia. E algo me diz que não são apenas seus

dedos. .

Jamie olhou a própria mão. Tinha-a mergulhada nos fios sedosos e longos, de um

tom castanho-avermelhado, com reflexos dourados do sol. Não chegavam a ser loiros.

Tampouco eram escuros. Assim como os olhos eram de um azul quase indefinível.

Recuou a mão, encarando o amigo com uma recusa no olhar. Mas Jon, sorrindo

com sapiência, deu meia-volta.

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— O dr. Peters já deve estar desocupado — disse, apenas, afastando-se.

Jamie tornou a olhar a garota. Preso numa teia. . Suspirou, as palavras ecoando

em sua mente. Jon estava certo em uma coisa. Teria de pôr as acusações dela à prova.

Por mais que duvidasse delas. Se fosse verdade, deixá-la sozinha em Wiltshire era

jogá-la aos leões.

Praguejando baixinho, saltou da carroça, Ainda sentia a perna doer onde ela o

havia chutado, assim como o arranhão no queixo. Sabia que estava sangrando. Maldita

mulher. Era tão rápida quanto um falcão, tão traiçoeira quanto uma cobra. Ainda

sentia a intensidade de sua ira na pele.

Fez uma pausa, os pensamentos mudando de rumo. Lembrava-se de muito mais.

Dos seios roliços sob seus dedos, da maciez dos cabelos, do calor de seu corpo.

Cerrou os punhos. Jon estava coberto de razão. Teria de protegê-la de alguma

forma, até pôr tudo em pratos limpos.

Mas era uma feiticeira. E tão hostil! Mesmo assim, Santo Deus, queria estar com

ela. Quase precisava dela! Ansiava por tocá-la, por senti-la.

Sacudiu a cabeça, confuso. Precisava comportar-se como um oficial digno do Sul e

dar cabo daquele dilema sem mais fantasias a respeito daquela mulher.

De súbito, porém, ele estancou. Um choro convulsivo chegou-lhe aos ouvidos. Ela

derramava sua dor em meio a soluços e gemidos abafados, talvez, contra o

travesseiro. Devia ter voltado à consciência. E a volta era amarga. Tess chorava; ele

podia sentir sua agonia atravessando o próprio peito. E essa dor o contaminou,

tocando-lhe o coração como há muito não acontecia. Aqueles soluços trouxeram à tona

as emoções que ele julgava mortas pela guerra.

Jamie quis correr de volta para ela, mas se conteve. Ela não havia de querer seu

consolo.

CAPÍTULO II

Ao cair da tarde, todas as sepulturas haviam sido terminadas e, sob a luz pálida

dos lampiões, o reverendo Thorne Dryer, da Companhia B, conduzia a cerimônia de

enterro. Tess Stuart mantinha-se de pé ao lado dele, em silêncio, os olhos secos. Algo

em sua quietude tocou Jamie profundamente. Ela era pequena, mas sempre tão ereta,

os ombros retos. Os cabelos brilhantes estavam agora ocultos sob um chapéu e um véu

negros, a silhueta harmoniosa envolta num vestido da mesma cor, com pérolas cinzas

nas mangas e na altura da gola.

O reverendo pediu piedade para as almas, consolo para os que permaneciam e

Tess deu um passo para frente jogando uma flor na sepultura do tio. Continuou quieta

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e nenhuma lágrima maculou a beleza etérea, quase trágica, de seu rosto. Pouco depois

retornava à carroça.

Jamie não teve a intenção de segui-la. Apenas se viu caminhando atrás dela.

Tess percebeu sua presença pouco antes de alcançar o carro.

— Sim, capitão?

— Tenente, moça. Tenente Slater.

— Que seja — rebateu ela, fria. — O que quer?

Ele comprimiu os lábios. Aquela mulher era mais hostil do que qualquer tribo que

já encontrara pela frente. Era muito estúpido em querer bancar o guarda-costas.

Devia deixá-la sozinha, afinal ela não o queria como protetor. Se é que precisava de

proteção.

— Só vim para oferecer minhas condolências, srta. Stuart. E para saber se

necessita de algo.

— Estou perfeitamente bem, tenente. — Tess hesitou por um segundo. —

Obrigada. — Fez meia-volta, agitando a saia negra, e subiu no carroção.

Jamie apertou os lábios. Resolveu voltar, encontrando o funeral quase terminado.

Jon, Monahan e mais alguns achatavam a terra, fincando cruzes de madeira sobre as

covas.

As cruzes não durariam muito tempo. O vento acabaria por carregá-las, a areia

por cobri-las. O Oeste era assim. Os homens viviam e morriam e menos que um

punhado de ossos era o que deixavam. Ossos e sonhos.

— Já mandei os homens montarem acampamento como ordenou, tenente —

comunicou Monahan.

— Obrigado, sargento.

— Isso é tudo?

— Não. Divida o grupo. Metade pode dormir. A outra fica de guarda. Só por

precaução.

— No caso de os índios voltarem.

— No caso de qualquer coisa. Esta é a Cavalaria, Monahan.

— Sim, senhor! — O homem bateu continência, vivaz. Gritou as ordens, a voz

grave ferindo a quietude da noite.

Pensativo, Jamie observou a movimentação do regimento. Era uma tropa bem

treinada. Havia operado nos mais rudes territórios indígenas do Oeste e sempre a

contento. Aqueles homens podiam deslocar-se tão sorrateiramente quanto qualquer

pele-vermelha; atirar com a mesma acuidade ou entrar numa briga com a habilidade de

um guerreiro.

Não havia sido fácil para ele, Jamie. Não no princípio. Alguns ressentiam-se do

rebelde que alcançara suas promoções tão rápido. Muitos se indignaram por alguém

como ele poder portar uma arma e agir em território índio. Por isso tinha sido

obrigado a provar seu valor em cada batalha, em cada negociação. Certa vez havia

cruzado com uma tribo guerreira de apaches, próximo à fronteira, o que lhe deu a

chance de demonstrar sua habilidade no manejo dos Colt. Desde então, os comentários

sobre a coragem dos irmãos Slater não tinham cessado. Agora todos sabiam o quanto

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ele, Cole e Malachi podiam ser implacáveis. Da noite para o dia, se haviam tornado

quase legendários.

Jamie sorriu de leve. Valera a pena. Ganhara bons, homens e companheiros leais.

Ninguém ultrapassaria sua linha de guarda naquela noite. Poderia dormir em paz.

Se conseguisse dormir.

A despeito de si próprio, viu-se olhando para a carroça em meio ao pequeno

número de tendas armadas pelos soldados.

— Ainda enfeitiçado, companheiro? — a voz preguiçosa de Jon soou atrás dele.

Jamie virou-se, erguendo uma sobrancelha. Pena Vermelha não era um

subordinado comum. E ele nem esperava que o fosse.

— Por que não para com as piadinhas e começa a me falar sobre esse Von

Heusen?

— Está mesmo interessado?

— Por que perguntaria se não estivesse? Vamos tomar um café e andar um pouco.

Monahan os serviu da pequena chaleira que fumegava sobre o fogo e os dois se

afastaram, devagar. Jamie encontrou assento numa rocha e descansou as botinas numa

outra. Jon permaneceu de pé, mirando a extensão da pradaria. Sob a luz tênue da lua,

era um lugar bonito, com as montanhas erguendo-se em sombras a distância, as salvas

assumindo formas quase fantasmagóricas na escuridão suavizada pelo brilho das

estrelas.

— A moça. . está dizendo a verdade — disse, de repente.

— Como pode saber?

Ele deu de ombros. Arrastou as botas e deixou-se sentar ao lado do amigo.

— Sei porque já ouvi falar desse homem antes. Queria terras além do Norte

durante a guerra. Era um barão do gado lá em cima e o governo exigiu que fornecesse

carne para a reserva dos Oglala Sioux. Sabe o que ele fez? Mandou uma carne que não

daria nem para os próprios porcos. Crivada de vermes. Os índios formaram uma

delegação e foram tirar satisfações. Von Heusen respondeu batizando o ato de

levante e logo todos os fazendeiros da região estavam em guerra com os sioux.

Centenas de brancos e pele-vermelhas morreram. À toa. E Von Heusen jamais foi

punido.

Jamie permaneceu em silêncio por alguns instantes, o olhar perdido nas ruínas da

caravana.

— Entendo. O calhorda adquiriu propriedades em Wiltshire e não se contentou. E

gosta de aborrecer os índios. . — Apertou os lábios. — Mesmo assim, Jon, não posso

fazer nada. Ainda que acredite na versão da moça. Não há o que fazer!

— Por que não pode provar nada?

— Exatamente. Difícil alguém acreditar nessa história sem provas.

— Isso é mau — concluiu Pena Vermelha. — Muito mau. Não acho que a srta.

Stuart possa ir muito longe assim.

— Ora, Jon, pare com isso! Von Heusen pode ser poderoso, mas não vai chegar e

matá-la, assim, sem mais nem menos! Não é dono de Wiltshire!

— Tem poder sobre o xerife de Wiltshire — contrapôs o outro. — E não precisa

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matá-la "assim, sem mais nem menos". Sabe muito bem que existem meios e meios!

— Droga! — Jamie ergueu-se de um salto, expulsando a poeira do traseiro com o

chapéu.

— O que vai fazer?

— Já disse. Vamos para o forte.

— E depois?

— Deixe-me chegar lá primeiro, está bem?

Jon pôs-se de pé.

— Só queria que soubesse, Jamie. Se resolver tirar aquela licença que o governo

lhe deve. . Vou com você.

— Não vou tirar nenhuma licença.

— Não?

Slater fez uma pausa, depois sorriu.

— Obrigado, Pena Vermelha. Mas acredite: não sou a escolta que a srta. Stuart

tem em mente.

Jon puxou o chapéu sobre a testa, fingindo um suspiro.

— É. . Nem sempre sabemos o que é melhor para nós mesmos. . Boa noite. — Sem

esperar pela resposta, retornou às tendas.

Jamie permaneceu afastado por mais algum tempo, observando o acampamento.

Ficaria com o primeiro grupo e Monahan com o segundo.

Mas a hora da troca da guarda chegou, o sargento assumiu seu lugar e Jamie

descobriu que não podia dormir. Não pela cama de lona. Sempre sobrevivera ao

desconforto. Nem pelos ruídos noturnos. Tampouco pelos momentos de pesadelo por

que havia passado.

Ela o perturbava.

Soltou um gemido de frustração, cobrindo a cabeça com o travesseiro: Tess não

vinha implorando por sua ajuda. Havia deixado bem claro que não desejava ouvir nem

mesmo a voz dele. . Que fosse para o inferno, então. Não lhe devia nada!

Devia, sim, seu bom senso o contrapôs. Devia às pessoas que tinham perdido a

vida ali; devia aos comanches que seriam responsabilizados pelo massacre.

E devia a todos que um dia poderiam morrer em mais alguma batalha sangrenta,

se o crime não ficasse provado de um modo ou de outro.

Não pregou mais os olhos. Permaneceu desperto, o pensamento fugindo,

insistente, para a mulher de cabelos cor de mel que dormia ali, não muito longe.

Tess dormiu por algum tempo, porém muito antes da aurora estava desperta,

revivendo a agonia do dia anterior. Sua dor e revolta eram tão intensas que tinha

vontade de gritar. Mas gritar era inútil e já havia chorado até se sentir como um rio

na estiagem.

Arrastou as pernas para fora do colchão e fitou a cama onde, outrora, o tio

dormia. E onde não dormiria nunca mais. Joe descansaria ali, na planície, pela

eternidade; e nos anos que viriam ninguém saberia que um homem bravo e corajoso

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havia morrido ali, lutando. Mesmo que nem sequer tivesse tido a chance de erguer sua

arma. Pois Joe jamais tinha cedido. Nem uma vez. Não se deixava intimidar. Imprimira

a verdade no Whiltshire Sun, agarrando-se a tudo que acreditava justo.

E havia morrido por isso.

Deprimida, calçou os sapatos, amarrando-os até o tornozelo, depois, deixou a

carroça, silenciosamente. As fogueiras ainda queimavam, porém já quase extintas. O

dia não demoraria a nascer. Parte dos soldados permanecia de sentinela. . contra

índios. Cerrou os dentes, alimentando a própria raiva. Pelo menos, assim, sentia

aplacado um pouco de seu sofrimento. Tratavam-na como a uma idiota. Não.. Ele a

tratava. Aquele tenente ianque de fala arrastada. Um dos que gostaria de ver

abandonado às formigas!

Movendo-se discreta pela madrugada Tess alcançou as sepulturas. Fechou os

olhos e quis rezar, mas nenhuma oração lhe veio aos lábios.

"Adeus, Joe. Meu amado tio Joe! Sei que não poderá mais voltar aqui, por isso

quero lhe agradecer agora. Você foi tão bonito. Bonito, sim!” Sorriu tristemente,

mordendo o lábio trêmulo. Mesmo com o nariz quebrado, os cabelos despenteados. . Foi

a pessoa mais bonita que já conheci na vida. E vou fincar pé em nossas terras. Não sei

como, mas é o que vou fazer. Eu prometo! Prometo do fundo do meu coração! Eu. .”

O curso de seus pensamentos se interrompeu pela súbita e estranha sensação de

não estar mais sozinha.

Não estava. A poucos passos dali, o tenente Slater a observava. Em meio à bruma

da manhã que se aproximava, sua silhueta assumia uma forma quase assustadora. Não

era um homem gigantesco. Na luta que travaram, contudo, ela descobrira ombros

largos e fortes, braços musculosos, num corpo ágil como o de um puma. Seus olhos

eram de um cinzento incomum; remotos, enigmáticos. E no entanto, sentia lhes a

perspicácia cada vez que pousavam nela. Tess percebeu, naquele instante, o quão

devastador era aquele homem. Bonito. Mas não pelos contornos da face morena:

Tampouco pela gentileza de seus gestos. Possuía traços angulosos, rudes; porém

fortes. O queixo era quadrado e firme, o nariz bem desenhado, os olhos grandes e

penetrantes. Tinha um quê do Oeste. E talvez de guerra.

Algo brotou dentro dela, alarmando-a. Ele era de uma masculinidade

perturbadora. Os lábios, que frequentemente via apertados numa linha controlada e

severa, de repente lhe pareciam absurdamente sensuais. E aqueles olhos. . o modo

como a miravam. . Tess percebeu as palmas das mãos úmidas, a boca seca, o corpo

tomado por uma inusitada emoção. Já o havia tocado. Conhecera o calor daqueles

músculos sob os dedos, a tensão daquele corpo estirado sobre o dela. Não tinha se

apercebido do poder daquele contato até então.

Mas agora podia recordar. Vívida, detalhadamente.

Cerrou os punhos, obrigando-se a lembrar que aquele era Jamie Slater, o tenente

que se recusava a acreditar nela. Nela que passara a vida ali. Que sabia como ninguém

a diferença entre um comanche e um capanga de Von Heusen.

— O que está fazendo aqui? — exigiu, determinada a manter a cabeça erguida, a

dignidade. Slater jamais a veria descontrolada de novo.

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— Percebi que tinha vindo até aqui. Não quis perturbá-la. Achei que pudesse

estar precisando de alguma coisa.

Tess não pôde evitar. Sentiu os pelos se eriçarem, os nervos à flor da pele. Era

como se houvesse eletricidade no ar. Quem ele julgava que ela fosse afinal? Alguma

demente?

— Estou ótima, não está vendo?

— Escute aqui, eu. .

— Escute você Slater. Tem suas opiniões, eu tenho as minhas. E parece que elas

não coincidem em ponto algum. Estou sã e inteira, graças a seus homens. Sei que nem

urna mosca passaria por eles. Afinal de contas são seus homens. Todos tementes a

Deus, certo?

— Tementes a Deus? — Ele inclinou a cabeça, os lábios movendo-se divertida e

sensualmente.

Tess pilhou-se a observá-lo. Deu um passo para trás, como se ele houvesse

tentado tocá-la, o que não aconteceu. Jamie mantinha distância, as pernas

ligeiramente afastadas, os braços cruzados diante do peito.

— Disciplina ianque — justificou ela, docemente.

Ele não respondeu. Algo hostil cintilou nos olhos cinzentos, e Tess engoliu em

seco. Não queria continuar odiando o Norte. A guerra fora exaustiva. Tinha sido tão

bom ouvir que estava terminada; que não haveriam mais mortes. Mas então tinham

vindo os exploradores. Von Heusen, em particular, e muitos mais de sua laia. Homens

sem nenhum escrúpulo que compravam terras de gente que não podia mais custeá-las.,

Von Heusen ia mais longe. Quando queria uma fazenda, o gado costumava sumir.

Os pastos se estragavam e às vezes até mesmo o fazendeiro desaparecia.

E o maldito andava cercado de capangas. Pistoleiros que se tingiam de bronze,

vestiam peles e atacavam com rifles e machados. .

Estava sendo hostil. Tess tinha consciência disso. Talvez aquele tenente ianque

não fosse como Von Heusen. Todavia, não lhe prometia ajuda. Não se importava com

nada. Os únicos que se importavam eram os habitantes de Wiltshire. Ou o pouco que

restara deles. Lá, até mesmo o xerife era da corja de Von Heusen, elevado ao cargo na

mais corrupta das eleições.

Já estava claro. O dia tinha nascido enquanto ficavam ali, estudando um ao outro.

Contra o rosa intenso do céu, Jamie Slater parecia uma miragem.

Mas não era. Estava ali em carne e osso. Quase podia absorver o calor de sua

presença. Sentiu o coração se acelerar, o abdômen se contrair estranhamente.

Precisava ficar longe dele. Desprezava sua atitude, desprezava aquele uniforme azul

que trazia imagens doloridas e inevitáveis da guerra. Uniforme que, no entanto, caía

tão bem sobre o peito largo, sobre as pernas musculosas.

Tess engoliu com dificuldade. Tinha de ir embora.

— Se me dá licença. . Sei que quer partir o mais rápido possível.

Prendeu a respiração e desatou a andar. Mas dedos firmes se fecharam em torno

de seu braço, fazendo o sangue correr mais rápido por suas veias. Ergueu a cabeça, o

olhar encontrando o dele sob a aba do chapéu.

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— Eu sinto muito, srta. Stuart. De verdade.

Tess quis responder, mas tinha a garganta seca. A proximidade dele era

devastadora.

Desvencilhou-se com ímpeto, a respiração entrecortada.

— Não precisa, tenente — conseguiu murmurar, antes de correr dali.

Em uma hora estavam prontos para partir. Quando o tenente Slater ordenou a

queima dos carroções mais avariados, Tess esqueceu o bom comportamento e, aos

berros, impediu a tempo que a prensa fosse destruída.

— Que diabo é isso? — indagou Jamie, impaciente.

— Uma prensa! Preciso dela para o Wiltshire Sun!

— O jornal do seu tio? Mas. . ele está morto, srta. Stuart!

— O jornal não está morto, tenente. Não, se depender de mim! — redarguiu. —

Não dou um passo sem essa prensa, fique sabendo!

Olhos cinzentos faiscaram.

— Isso é uma ameaça?

— Não estou ameaçando ninguém! Só estou comunicando o que vai ou não

acontecer!

Ele deu um passo à frente, a voz saindo baixa e controlada.

— A senhorita vai aonde eu quiser, na hora em que eu quiser. Caso contrário será

um prazer colocar pessoalmente seu ilustre traseiro naquele banco!

— Não ousaria! Conto tudo a seus superiores se. .

— Conte o que quiser! Quer ver?

Ela comprimiu os lábios.

— Preciso dessa prensa, tenente.

Ele permaneceu imóvel, o olhar estreito.

— Tenente, por favor! — Tess engoliu o orgulho. — Só vai levar alguns minutos!

— Soldado Harper! — convocou ele, sem desviar o olhar do dela. — Use seu cavalo

para transportar a máquina.

— Sim, senhor.

Pouco depois, a prensa era acomodada num carreto.

Tess soltou o ar. Jamie lançou-lhe um olhar enviesado, e então montou,

afastando-se.

Ainda assim, ela sentia-se observada. Voltou a cabeça deparando-se com um

homem bonito de traços indígenas. Seus olhos sorriam para ela, amigáveis, como se

aprovando sua atitude. Em seguida ele também se afastou a cavalo.

Tess tinha consciência de que aquele seria um dia puxado também para a

Cavalaria. Os homens estavam habituados a deslocar-se com facilidade e agora viam-

se amarrados pelo transporte das carroças. A paisagem era deslumbrante, porém

monótona. A terra de um vermelho pálido, pontilhada aqui e ali pelo verde das salvas e

cactos.

Tess estava determinada a não reclamar. Todavia, conduzir os seis cavalos do

carroção sob aquele sol, e em meio a nuvens de poeira, deixou-a simplesmente exausta.

Sentia os braços doerem onde nem sabia possuir músculos. Poderia aceitar auxílio, sem

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dúvida. A maioria dos rapazes era gentil e solícita. Mas, cada vez que um deles se

aproximava, Slater ficava a observá-la perturbadoramente. Assim, limitava-se a sorrir

e recusar a ajuda.

Afinal, ele tinha de parar alguma hora!

Por fim Jamie fez alto, quando o sol começava a descer no horizonte e o céu se

fazia cor-de-rosa uma vez mais. Não fez menção de se aproximar dela, porém Tess

sabia-se vigiada. Seria possível que ele ainda a estivesse julgando? Tentando se

decidir se sua versão dos fatos era absurda ou apenas mais um capricho feminino?

Suspirou pesadamente. Precisava se controlar. Não importava o que ele dissesse ou

fizesse. Quando alcançassem o forte, falaria calma e racionalmente com o comandante

e o faria entender.

— Srta. Stuart! — O sargento Monahan desmontou ao lado dela. — Deixe-me

ajudá-la a descer. Tomo conta das rédeas.

— Obrigada, sargento, eu. . — Deteve-se, quase despencando do banco. O

sargento amparou-lhe a queda e ela sorriu, embaraçada. — Obrigada! Acho que

precisava mesmo de ajuda.

— Às suas ordens, moça.

De novo uma estranha sensação a invadiu e ela ergueu a cabeça. Viu Slater por

cima dos ombros de Monahan, ainda sobre o imenso garanhão. Inclinou o chapéu para

ela num cumprimento breve, e mais uma vez Tess sentiu-se enfraquecer. Reação

estúpida! Na certa ele já tirara suas conclusões ao vê-la nos braços do sargento,

deduziu, contrariada.

Monahan deu um passo para trás, os olhos azuis cheios de ternura, quase de

adoração. Era um encanto de pessoa, concluiu Tess, disfarçando um sorriso.

Para o inferno o tenente Slater! Se seus homens desejavam comportar-se como

cavalheiros, ela é que não iria impedi-los!

— Srta. Stuart, o tenente Slater quis chegar até aqui porque conhecemos o

lugar. Se ultrapassar aquele pequeno monte, vai encontrar um riacho. Vamos lá para

cima dar de beber aos cavalos. Assim pode ter um pouco de privacidade.

— Muito obrigada, sargento — alegrou-se Tess. — Estou mesmo louca por um

banho! — Correu para a traseira da carroça, apanhou uma muda de roupa limpa, sabão

e uma toalha. Ao retornar, Monahan já tirava os arreios dos cavalos. Apontou-lhe o

caminho e ela agradeceu, notando que os soldados seguiam em direção oposta.

Ofegante, alcançou o topo da elevação. E assim que o fez soltou uma exclamação

de prazer. O córrego era mesmo rodeado por formações rochosas, porém pequenos

tufos de grama e vegetação encarapitavam-se por entre as pedras adornadas por

flores-do-campo coloridas. A tarde descia dourada e preguiçosa, embalada pelo canto

das águas cristalinas.

Ela suspirou, deliciada. Mal contendo a ansiedade, caminhou com cuidado até

chegar a uma rocha mais achatada, largou as roupas limpas e sentou-se, desamarrando

os sapatos. Fitou a água transparente e convidativa, depois livrou-se do vestido, do

corpete e dos calções, tão hipnotizada pela beleza do riacho que não reparou que não

estava sozinha. .

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A poucos metros dali, descalço, com a jaqueta aberta e as barras da calça

enroladas até o joelho Jamie Slater abaixou-se sobre uma pedra, praguejando

baixinho. Não pretendia atuar de voyeur, mas ela se despira tão rápido! E a surpresa

tinha sido tanta que ele não pôde fazer nada além de ficar ali. Enfeitiçado.

Ela era como uma ninfa, um anjo saído do nada, uma miragem, talvez. Tinha a pele

alva, os seios redondos e perfeitos. A cintura era fina, os quadris e nádegas

voluptuosos, as pernas longas e bem torneadas num jogo de curvas fantástico que

sugeria as imagens mais sensuais, os sonhos mais delirantes. . Uma fêmea. Os cabelos

refletiam os raios vermelhos do crepúsculo, caindo em cascata pelos ombros nus,

rodeando os seios, obsedante, despudorada, provocantemente.

Jamie conteve a respiração, depois endireitou o corpo com um gemido abafado.

Tess não o notou. Deixou-se acariciar pelas águas, surpresa em poder extrair dali

tanto prazer quando a dor pela perda de Joe ainda lhe era tão pungente. Porém, ela

continuava viva. E a água parecia tão fresca e deliciosa depois da viagem pela planície!

Circundou lhe os tornozelos, refrescante, e ela se arrepiou, feliz, caminhando com

cuidado sobre os pedregulhos. Assim que pôde, deixou-se envolver por inteiro, com um

suspiro, mergulhando os cabelos e o rosto. O sol ainda estava quente, a água quase

gelada. Juntos eram um delírio. Nadou pelas partes mais fundas, cuidando para não se

ferir, então ergueu-se sobre uma pequena plataforma para se ensaboar. Acariciou o

corpo lentamente, depois a cabeleira, oferecendo os seios ao sol, tomada de

sensualidade. Por fim tornou a mergulhar, sentindo-se renovada. Demorou-se mais

algum tempo nas águas límpidas, depois saiu do riacho. Enxugou-se languidamente

antes de sentar-se sobre a rocha para secar os cabelos. Sucumbiu ao langor da tarde,

contudo, e deitou-se de olhos fechados, permitindo que os últimos raios de sol lhe

afagassem a pele.

Quando tornou a abri-los, quase soltou um grito. O tenente encontrava-se de pé a

seu lado, com a jaqueta aberta no peito e uma expressão indefinível no olhar. Tess

empalideceu. Estava nua e ele ali, invadindo sua intimidade sem o menor

constrangimento!

Abriu a boca para protestar. Nesse instante, contudo, ele sacou o revólver e

disparou vários tiros. Ela prendeu a respiração. Jamais vira tamanha rapidez no

manejo de um Colt. Não chegou a gritar. Sequer a piscar. Achou que ele estivesse fora

de si, mas, quando quis se proteger com a toalha, ficou paralisada. A menos dê um

metro, uma cascavel sangrava.

Voltou a olhar para ele, incapaz de mover-se, incapaz de dizer qualquer coisa. Seu

descuido fora tal, que nem sequer percebera a aproximação da cobra. E Slater salvara

sua vida. Ele não fez comentário. Apenas a fitou, os olhos cinzentos deslizando pelo

corpo alvo e trêmulo. Em cada lugar que pousavam, ateavam fogo. Horrorizada, Tess

pôde sentir os mamilos intumescerem. Ainda assim não conseguiu se mover.

— É bom tomar mais cuidado daqui para frente — ouviu-o murmurar por fim,

devolvendo a arma ao coldre.

Antes que ela pudesse reencontrar a voz, passos apressados se aproximaram.

Num gesto rápido, Jamie jogou-lhe a toalha, que ela levou ao peito, ao mesmo tempo

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em que um jovem soldado surgia.

— Tenente!? Ouvi os tiros!

— Está tudo bem, Hardy. Foi uma cobra. Nada que pudesse atirar de volta. .

O rapaz fitou-os, os olhos arregalados.

— Isso é tudo, Hardy.

— Sim, senhor. . tenente. — Bateu continência.

Slater respondeu à saudação, depois ergueu o chapéu para ela, num cumprimento,

antes de dar-lhe as costas. Tess enrubesceu até a raiz dos cabelos ao vê-lo dirigir-se

riacho acima. Notou as botas e meias numa pedra e o ar tornou a lhe faltar. Ele

estivera ali o tempo todo!

Ergueu-se com dificuldade, apanhando as roupas limpas com mãos trêmulas. Mal

pôde amarrar o corpete cor-de-rosa e por duas vezes teve de abotoar o vestido.

Calçou os sapatos, descoordenada, e ergueu a cabeça. Slater continuava no mesmo

lugar. Voltou-se para encará-la como se pressentisse seu olhar.

— Já está ficando escuro, srta. Stuart, se não se importa. .

— Se não me importo?! Você. . Você ficou o tempo todo aí me olhando!

— Sorte sua — replicou ele, com naturalidade.

Ela piscou confusa. Talvez ele estivesse certo. Afinal, estava viva.

Mas não era o caso!

Jamie deu de ombros antes de se pôr de pé e livrar-se da camisa.

— Para mim não faz diferença moça. Pode até ficar se quiser. Quem sabe não

quer entrar junto?

Ela deu as costas, possessa. Ele estava prestes a se despir mesmo na presença

dela! E pensar que permanecera ali o tempo inteiro, assistindo, enquanto ela se

banhava. . Que espetáculo ela não devia ter dado!

Com um palavrão abafado, Tess pôs-se a andar, ansiosa por se afastar dali.

Correu para o carroção e sentou-se no beliche, cruzando os braços diante do peito.

Maldito. Somente a lembrança daquele olhar sobre seu corpo fazia seus seios

arderem. Se fechava os olhos, de nada adiantava. Podia enxergar a jaqueta

entreaberta, a pele bronzeada, os pelos escuros e sedosos em profusão, os músculos

rígidos do abdômen, as curvas ligeiras e bem torneadas do peito e dos ombros. .

— Srta. Stuart?

— Sim! — Ela deu um salto, quase gritando a resposta.

O sargento Monahan espiava pela traseira da carroça com um sorriso iluminando