Filha Do Sol por Heather Graham Pozzessere - Versão HTML

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lhe as faces rosadas.

— Não é uma beleza aquele riacho?

— Maravilhoso! — concordou Tess, com ênfase exagerada, fingindo tranquilidade.

Em vão. Pouco depois, um soldado juntou-se ao sargento, cumprimentando-a

solenemente.

— Espero que esteja bem, srta. Stuart — apressou-se a dizer. E, sob o olhar

interrogativo de Monahan, prosseguiu: — Hardy contou que ela quase foi pega por uma

cascavel! Por sorte o tenente estava por perto e deu cabo da cobra. É um lindo riacho,

moça, mas precisa tomar cuidado ali. Não queremos que nada de mal lhe aconteça.

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— Obrigada. É muito gentil da parte de vocês — murmurou ela, certa de que

corava de novo. Pelo visto, o regimento todo já estava a par do episódio!

Mas não sabia tudo. Não o que tinha acontecido quando aqueles olhos pousaram

nela nua. .

— A comida não é muita, srta. Stuart — desculpou-se Monahan — mas um dos

rapazes conseguiu pescar umas trutas. Posso lhe trazer um prato e um pouco de café?

— Por favor — Tess sorriu — eu agradeceria muito.

Depois disso, foi como se cada homem da companhia tivesse vindo ver como ela

estava indo, se precisava de alguma coisa, se estava bem acomodada. Tess agradeceu a

todos e, assim que se viu a sós no cair da noite, sorriu. Eles eram ianques, mas tão

bons. Talvez houvesse alguma esperança. O mundo não era feito apenas de tipos como

Von Heusen. Precisava continuar trabalhando. Tinha de proteger o rancho e dar

continuidade ao Wiltshire Sun.

— Srta. Stuart?

Ela prendeu a respiração, sentindo cada nervo do corpo se retesar. Conhecia

aquela voz. Conhecia-lhe o tom grave, rouco, capaz de arrepiar sua pele! Era uma voz

quente, sensual, que despertava nela sensações esquecidas nos anos infindáveis da

guerra.

Permaneceu quieta. Se ficasse em silêncio, talvez ele fosse embora.

Mas ele não foi. Sabia que ela estava acordada. E essa troca de energia entre

eles era do que mais Tess se ressentia.

— Sim? — respondeu, tensa.

— Só vim saber se está bem.

— Estou ótima.

— Quer alguma coisa?

— Quero que acredite em mim, tenente. E não parece disposto a me dar

confiança.

Silêncio. Tess rezou para que ele não estivesse mais lá, mas algo lhe dizia que

estava enganada. Quase podia vê-lo.. sorrindo.

— Ainda não me agradeceu por eu ter lhe salvo a vida.

— Ah, sim. Obrigada. — Ela ergueu-se de um salto, desafiando-o de cima da

carroça. — Tenente?

— Diga.

— Chegue mais perto.

Ele a obedeceu. No instante seguinte, Tess desferia um tapa no rosto moreno.

Jamie segurou-lhe o pulso e ela viu, satisfeita, os olhos cinzentos faiscarem de

raiva. Sorriu, então, ignorando os dedos de aço em sua carne, a eletricidade que

carregava o ar. Ignorou também o medo de que ele tornasse a derrubá-la na terra,

desta vez para castigá-la efetivamente pela ousadia.

— Agradeço de coração por ter me salvado, Jamie Slater. Mas isso foi pelo seu

descaramento de hoje à tarde.

Tentou se desvencilhar, sem sucesso. Os olhos dele anulavam.

— Vou tentar me lembrar de que tem uma maneira muito peculiar de agradecer

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àqueles que lhe fazem bem. srta. Stuart.

— Sabe muito bem o que eu quis dizer!

— Não tive a intenção de ofendê-la.

— Ah, não?!

— Eu juro. Mantive-me em silêncio porque, antes que pudesse me dar conta, já

estava nua em pelo. Depois disso.. — Sorriu, relutante. — Admito. Fiquei sem fala.

— Ora seu. . ianque sujo!

Tess tornou a puxar o pulso, com um tranco. A princípio, ele não a libertou.

Depois soltou-a, devagar. Estava sorrindo, percebeu ela. E despindo-a novamente com

o olhar.

Uma chama explodiu dentro dela, quente; dolorida. Não saberia dizer se estava

horrorizada. . ou fascinada.

— Boa noite, srta. Stuart — ouviu-o dizer, antes de dar as costas.

Tess continuava imóvel, ofegante, quando ele voltou-se para encará-la.

— Srta. Stuart?

— O quê?

Jamie sorriu, fitando-a com os olhos semicerrados.

— É uma mulher muito bonita. Muito bonita!

Não esperou a resposta. Afastou-se lentamente, desaparecendo na escuridão.

CAPÍTULO III

Dois dias depois, chegaram ao forte, uma típica construção militar em terras

indígenas, com paredes de paliçada que desafiavam as alturas com suas enormes toras

escuras. Tess ouviu ressoar uma corneta quando ainda estavam a alguma distância, e

então o portão gigantesco se abriu para permitir-lhes a entrada.

Estranhamente emocionada, ela ergueu a cabeça, avistando os guardas

uniformizados nas guaritas. Sentiu alívio. Ali estava segura.

Relaxou as rédeas, perguntando-se se algum dia conseguiria se livrar daqueles

calos nas mãos. E pensar que, nem por um minuto, tirara as luvas de tio Joe. Estava

suada, imunda, com os cabelos escapando da trança. Tinha teimado em vir conduzindo a

carroça e o tenente não fizera menção de impedi-la. Seus homens continuaram a

cercá-la de gentilezas e ela mostrava-se tão atenciosa quanto podia nas

circunstâncias.

Slater mantivera-se afastado. Seus olhos, entretanto, pareciam não deixá-la

nunca. Por várias vezes, durante a viagem, algo tirava sua concentração e ela se

descobria acompanhada de perto pelo garanhão ruço. Na hora das refeições, erguia a

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cabeça e o tenente estava lá, com a atenção fixa nela. Até mesmo durante a noite,

acordava com passos do lado de fora da carroça.

Ficava furiosa com aquela proteção exagerada, mas no fundo sentia-se grata,

segura. Não porque estava rodeada pela cavalaria, mas porque ele estava por perto.

Agora que haviam alcançado o forte, Slater a deixaria a cargo de seu comandante

e desapareceria de sua vida. Alguém seria convocado para escoltá-la até Wiltshire e

ela jamais tornaria a vê-lo. Não sentiria mais o calor daquele olhar, que lhe aquecia o

corpo e despertava sonhos.

Estavam em frente ao posto do comando. Tess puxou as rédeas com força e

preparou-se para descer. Sorriu ao ver que Jon Pena Vermelha tinha vindo ajudá-la.

Aprendera a gostar dele: de sua aparência rude, porém cativante, de seu silêncio, de

suas palavras cuidadosamente escolhidas. Sabia que ele acreditava nela.

Jon colocou-a no chão e ela agradeceu, olhando a confusão ao redor. Mulheres e

crianças surgiam de todos os lados numa alegre algazarra em homenagem à volta dos

pais, maridos e namorados. Slater adiantou-se, subindo os degraus do pórtico amplo

que circundava o posto, batendo continência para o homem alto e grisalho que o

aguardava.

Pena Vermelha segurou-a pelo braço, guiando-a para lá.

— Srta. Stuart, creio que o coronel vai querer ouvi-la o mais breve possível.

Providenciarei sua acomodação e volto em seguida.

Aparentemente, Slater já havia dado algum esclarecimento a respeito dela, pois

o coronel prontificou-se a ajudá-la nos degraus, cortês.

— Minhas mais sinceras condolências pela perda de seu tio, senhorita. Ao mesmo

tempo, fico feliz que possa estar aqui conosco.

— Obrigada. — Tess piscou, pensativa. Estranho. De súbito, era como se tudo

houvesse acontecido num passado distante. Talvez pelos dias a fio passados nas

planícies. Ainda assim, à simples menção de tio, teve de volta toda dor e solidão que a

assolavam. Engoliu o nó na garganta. Tinha de impressionar aquele homem com

inteligência e determinação, não com uma torrente de lágrimas. Não precisava de

consolo. Precisava de alguém que acreditasse nela.

— Srta. Stuart. . Se estiver disposta, o coronel gostaria de ouvi-la agora mesmo

— convocou Slater. Tinha um brilho nos olhos ao fitá-la. Não de divertimento. Algo

mais. Quase um desafio. Na certa, esperava que ela voltasse atrás.

Pois que esperasse sentado, pensou Tess, entrando numa sala ampla, repleta de

armários. No centro havia uma mesa larga de madeira maciça e várias cadeiras. Slater

puxou-lhe uma delas e ela sentou, tão regiamente quanto possível, retirando as luvas

grossas de couro. Sentiu-se observada e não ousou erguer a cabeça. Ele já havia visto

os calos e vergões em suas mãos.

O coronel tomou seu lugar atrás da mesa. Era um homem idoso, cujos olhos azuis

e gentis pareciam desmentir sua posição de comando. A voz também era amável e Tess

sentiu um fio de esperança.

— Aceita um café, senhorita? Receio não ter chá para lhe oferecer.

— Café está ótimo, coronel, obrigada.

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No mesmo instante, um jovem cabo aproximou-se com uma caneca e ela murmurou

um agradecimento. Um silêncio constrangedor instalou-se em seguida. Então o coronel

curvou-se sobre a mesa, entrelaçando os dedos.

— Srta. Stuart, o tenente Slater comentou que acredita não terem sido atacados

por índios.

— Exatamente.

— Então por quem?

— Brancos. Pistoleiros contratados por um homem chamado Von Heusen, que vem

tentando tomar as propriedades de meu tio.

— Acha mesmo que ele dizimaria uma caravana inteira por causa de suas terras?

Tess cerrou os dentes. Slater a observava, impassível, e ela teve ímpetos de

chutá-lo na canela.

— Não era uma caravana muito grande, coronel. Estávamos viajando com poucas

carroças e algumas cabeças de gado. Além disso, temos boas relações com os

comanches em nossa área.

— Podem não ter sido comanches, srta. Stuart. Quem sabe um bando desgarrado

de apaches, ou shoshones das montanhas. Talvez até uma ramificação dos sioux. .

— Nenhum índio atacou a caravana, coronel — repetiu Tess, rígida.

Jon Pena Vermelha juntou-se a eles nesse instante.

— Tenho certeza de que a moça reconhece um comanche quando vê um, senhor. E

não eram apaches. Os apaches só escalpelam mexicanos. . por desforra. — Voltou-se

para ela com um sorriso. — E garanto que não foram Sioux. Eles jamais a teriam

deixado para trás.

Um arrepio correu a espinha de Tess. Não sabia se Jon queria dizer que os Sioux

a teriam levado ou, com certeza, a matado e escalpelado.

O coronel ergueu as sobrancelhas, cético. Nem mesmo a corroboração de Pena

Vermelha pareceu suficiente para convencê-lo. Ou então ele acreditava nela, mas não

tinha intenção de ajudá-la.

— Srta. Stuart, já ouvi falar desse Von Heusen. Tem muito dinheiro e muitas

ligações. Entendo que seja dono de meia cidade, mas. .

— É isso mesmo, coronel. Von Heusen comprou o juiz e o xerife.

— Srta. Stuart. . — O homem coçou a testa, nervoso. — É uma acusação um tanto

pesada!

— Mas verdadeira!

— Não entende? Teria de ir a uma corte de Justiça contra esse homem! Teria de

acusá-lo publicamente e. . bem. . — Pigarreou. — Por que não considera a hipótese de ir

para o Leste?

Ela ergueu-se de um salto.

— Ir para o Leste? Nunca estive no Leste, coronel. Nasci aqui, no Texas! — Riu,

sem vontade. — Meus avós ajudaram a fundar Wiltshire. O pouco daquela cidade que

não pertence a Von Heusen pertence a mim. E não tenho a menor intenção de entregar

minhas terras de mão beijada! Coronel, não há mais nada a ser dito. Tive momentos

difíceis e, se houver algum lugar em que eu possa descansar por uns dias, ficarei muito

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grata. Depois disso, senhor, preciso voltar para casa. Tenho uma fazenda e um jornal

que precisam de mim.

O coronel também pôs-se de pé. Imediatamente, Slater e Pena Vermelha fizeram

o mesmo. Relutante, Tess voltou-se para Jamie, certa de que ele se divertia a sua

custa.

Mas ele não estava rindo. Fitava-a de modo profundo, enigmático. Algo naquele

olhar dizia que agora conquistara certa admiração da parte dele. Que benefício isso

lhe traria, entretanto, Tess não sabia dizer. O coronel tinha sido sua última

esperança. Agora a batalha era dela. E só dela.

— Srta. Stuart, gostaria de ajudar se fosse poss. .

— Esqueça, coronel. Também não acredita em uma palavra do que estou dizendo

— descartou ela, em voz baixa. — Está no seu direito. Agora, se me dá licença. .

— A srta. Stuart pode ficar na antiga casa dos Casey enquanto estiver aqui —

Jon veio em seu socorro. — Dolly Simmons já foi para lá com roupas de cama e banho.

— Ah. . — Ela tentou sorrir. — É muita bondade dos Casey.

— Nem tanto — retorquiu Slater, com voz arrastada. — O sr. Casey está morto.

Levou uma flechada de um comanche, no ano passado. A esposa dele migrou para o

Leste. .

Tess cerrou os punhos. Voltou-se para o coronel, com um sorriso forçado.

— Será que eu podia. .?

— Claro, claro! Jamie, você e Jon, por favor, acompanhem a jovem até seus

aposentos. E, srta. Stuart, se é em Wiltshire que quer chegar, providenciarei alguém

para acompanhá-la o mais cedo possível.

— Obrigada.

Jon abriu a porta e Tess passou com graça, seguida de perto por Slater.

— É por aqui, Tess — orientou Pena Vermelha. Nunca a havia tratado pelo

primeiro, nome. Muito menos assim, com tanta intimidade, como se fossem velhos

amigos. Os olhos verdes cintilaram com uma ponta de divertimento e ela percebeu que

seu gesto era pura provocação a Jamie.

Jamie. Formou o nome para si, em silêncio. "Tenente" lhe caía melhor.

Nem sempre. Pelo menos não no dia em que se encontraram no riacho. Os cabelos

despenteados pelo vento, a jaqueta entreaberta, ele a olhara com desejo. E ela havia

querido tocá-lo, sentir o calor da pele bronzeada. . Naquele momento, só poderia tê-lo

chamado de Jamie. Como se fossem amigos. . ou amantes.

— Aquele é o nosso armazém — apontou Pena Vermelha. — E ali é o bar. Não

ousamos chamá-lo de saloon. Lá embaixo há uma espécie de casa de chá para as

mulheres. Temos muitas aqui. O coronel permite que os casados mantenham suas

esposas junto deles e, pois o forte é bastante seguro. Também há algumas moças

solteiras cuidando dos estabelecimentos, o que torna os bailes muito mais divertidos

para os soldados.

— Bailes?!

— Claro, por que não? — Jon deu de ombros com um sorriso. — O fato de

estarmos no meio do deserto não impede que cultivemos alguns hábitos da civilização..

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— Chegamos — interrompeu Slater, galgando três degraus para a entrada de uma

casinha rústica, acompanhando o estilo do forte.

Antes que ele batesse, a porta abriu-se de súbito, revelando uma mulher

rechonchuda e sorridente. À primeira vista era difícil definir lhe a idade, pois tinha a

pele clara e rosada, os olhos escuros muito vivos, e os cabelos loiro-acinzentados.

— Pobrezinha! — exclamou, com exagerada ternura. — Ainda deve estar

assustada com aqueles índios!

— A srta. Stuart tem certeza de que não foram índios, Dolly — adiantou-se

Jamie.

Dolly fez um gesto com a mão.

— Não importa quem tenha sido. Foi horrendo, cruel, e ela perdeu os amigos e o

tio. Era seu tio, não era, querida?

— Era.

Dolly passou o braço pelo ombro dela, puxando-a para dentro da casa. Jon e

Jamie a teriam seguido, se a mulher não lhes barrasse a passagem.

— Vão andando vocês dois! Posso muito bem cuidar dela sozinha. Tenho certeza

de que a trataram muito bem na viagem, mas a pobrezinha passou por maus bocados.

Tudo o que precisa agora é de um bom banho, descanso e muito carinho, coisa que

vocês não estão autorizados a dar. . ainda!

— Você é quem manda, Dolly — concordou Jon, recuando com um sorriso.

Jamie ergueu o chapéu para Tess, os lábios curvados com ironia. Pela primeira

vez, a mensagem dos olhos cinzentos era bastante clara. Ela precisava de ternura,

sim. . Tanto quanto um porco-espinho!

— Boa noite, srta. Stuart. Espero que esteja se sentindo melhor mais tarde.

— Se tiver sorte, Jamie Slater, ela vai estar nova em folha para o baile de

amanhã.

— Se eu tiver sorte?

— Isso mesmo — reforçou Dolly. — Sabe que o que não falta aqui são

pretendentes. .

Tess sentiu o rosto pegar fogo. Não sabia em qual dos dois tinha mais vontade de

bater: se em Dolly, por colocá-la deliberadamente naquela situação, ou se em Jamie

Slater, por reagir como se levá-la ao tal baile fosse o mais penoso dos sacrifícios!

— Não precisam se preocupar tanto — disse, fria, tentando atingi-lo. — Estou de

luto. Um baile agora está fora de cogitação.

— Nada disso! — retorquiu Slater, passando por Dolly e segurando Tess pelo

braço. — Seu tio era um homem da fronteira, um lutador. Não acho que gostaria de

vê-la chorando pelos cantos, lamentando o que não se pode mudar. Ele sabia muito bem

que a vida aqui era dura, às vezes curta, mas também muito válida quando se quer. E

você sabe que é boa nisso. Em lutar e em viver!

— Tenente Slater, eu. .

— Ou talvez saiba como lutar. Mas não tenha ideia do que seja viver.

Ela jogou para trás os cabelos longos, ignorando o aperto em seu braço.

— Quem pensa que é para me dar lições de vida? Não passa de mais uma

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marionete ianque, tenente Slater!

Ele comprimiu os lábios, apertando-a com mais força.

— Por que não faz um teste, srta. Stuart?

— Jamie Slater! Essa moça está vulnerável e sem a menor condição de discutir

com você. .

— Tão vulnerável quanto uma onça, Dolly!

— Para tipos como você é preciso mostrar as garras! — esbravejou Tess,

possessa.

Dolly ergueu as sobrancelhas e uma risada rompeu o silêncio. Tess e Jamie

voltaram-se para Jon, que parecia divertir-se imensamente com a cena.

— Não é à toa que os brancos não suportam os índios — resmungou Jamie, mal-

humorado.

— Claro. Deixe os caras-pálidas guerrearem entre si e metade da batalha está

ganha — caçoou Pena Vermelha. — Vamos, Jamie. Está resolvido. Pode apanhar a srta.

Stuart amanhã, logo depois do pôr-do-sol.

— Não está nada resolv. .!

— Depois do pôr-do-sol — Jamie a interrompeu, categórico, não dando a Tess

chance de protestar. Bateu a porta atrás de si com tanta força, que até Dolly deu um

salto, antes de sorrir, benevolente.

— Adoro esse menino!

Tess entreabriu os lábios, pasmada.

— Posso saber por quê?

— Logo vai descobrir por quê, querida. E esse Jon, então? — Balançou a cabeça,

rindo. — Quando a coisa é séria, é um túmulo. Caso contrário, gosta de cutucar a onça

com vara curta. . — E, por falar em onça, ele deve estar pagando para ver a cara de

Eliza quando souber de você! Há tempos que ela anda tentando agarrar o Jamie. Mas

não é a mulher certa para ele. Não mesmo!

— Srta. Simmons. .

— Dolly. Nada de formalidades por aqui. Exceto entre os homens, quando estão

em serviço.

— Dolly, não tenho a menor intenção de ir ao baile com o tenente Slater. Não

gosto dele. É muito arrogante e frio como gelo!

— Arrogante, talvez. Mas não frio. Você vai ver. . — profetizou a mulher.

— Mas. .

— Vamos. Tem uma banheira cheia de água quentinha esperando-a lá dentro.

Enquanto toma um banho, vou preparar um chá bem gostoso. O jantar não demora a

ficar pronto. Depois podemos conversar sobre o tenente Slater.

— Não quero conversar sobre Slater — descartou Tess, mentindo

fragorosamente. Queria saber tudo sobre ele. E também queria ir ao baile com Jamie.

Fechar os olhos e sentir os braços dele envolvendo-a. . Desejava vê-lo outra vez, como

o havia visto naquela manhã, de pés descalços galgando as rochas com confiança e

habilidade.

— Deixe-me ajudá-la a tirar essas roupas empoeiradas. — Dolly a arrancou de

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seus devaneios. Foi ágil e cuidadosa e Tess deixou-se cuidar, sentindo-se em casa. Em

segundos mergulhava na água quente, munida com uma barra de sabão e uma esponja.

Recostou a cabeça na parede de banheira rústica, com um suspiro.

— O que aconteceu com suas mãos, menina? — Dolly quis saber, preocupada.

Tess fitou os calos nas palmas brancas, dando de ombros.

— Vim guiando uma das carroças. Estou acostumada. Mas tio Joe costumava

fazer a maior parte do trajeto. — Estancou, as lágrimas embaçando lhe os olhos azuis.

— Chore, meu amor — incentivou Dolly. — Precisa desabafar.

Ela balançou a cabeça. Não queria perder o controle de novo.

— Ele me criou — começou a falar, reprimindo o choro. — Meus pais morreram

quando eu era criança, vítimas de uma onda de pneumonia. Joe era irmão de papai.

Vendeu as terras dele e pôs o dinheiro para render em meu benefício. Levou-me para

morar com ele e me ensinou a amar nossas terras, além do jornal e do Texas. Mais que

tudo, Dolly, ele me ensinou a amar a verdade. E jamais desistir dela. Por isso tenho de

continuar lutando, Joe sempre me deu tudo..

A voz dela falhou. Lembrava-se de como ele a ensinara a cavalgar, a colocar tinta

na prensa, a publicar histórias.

Também a ensinara a conviver com a dor e a se reerguer quando preciso. Joe

estava a seu lado quando ela se apaixonou pelo capitão David Tyler, membro de um

corpo de Infantaria dos Confederados, em Wiltshire. Na época tinha apenas

dezessete anos. E nenhuma experiência com o amor. Com David havia aprendido o que

era gostar realmente de alguém. Ambos sabiam que a guerra não iria muito longe. Por

isso planejaram casar-se assim que a tragédia terminasse.

Então a companhia dele foi convocada para juntar-se à de Kirby-Smith. A maior

parte dos homens, rebeldes e ianques, já baixava as armas e percorria a longa jornada

de volta para casa. Mas não David. Kirby-Smith resolveu lutar até o fim. E David

morreu.

De repente, ela se viu sem rumo e sem forças para viver. E Joe estivera sempre a

seu lado. Em silêncio. Não tentara amainar seu sofrimento incentivando-a a negar a

dor. Apenas a havia abraçado e estado ali, junto dela. Ajudara-a a reerguer-se, dando-

lhe possibilidades de trabalho, e ela acabara compreendendo que, se não poderia

jamais esquecer David, pelo menos aprenderia a conviver com a dor de sua perda. E

até mesmo sorrir com a lembrança. Joe a ensinara assim. E não havia de querer vê-la

fraquejando diante da vida agora.

Talvez viesse se esquecendo mesmo de se divertir, meditou Tess. Estava com

vinte e quatro anos. Muitos diriam que já passava da idade de se casar e ter uma

família. Mas não só ela. Por causa da guerra, grande parte das mulheres continuava só.

Além disso, nunca dera muita importância ao assunto. Não via o casamento como um

acordo inevitável a que os jovens se obrigavam.

Joe, além de tudo, havia lhe dado independência. Podia tocar o jornal sem ele.

Quantas vezes não o fizera, durante as constantes viagens do tio?

Tocou o rosto com os dedos úmidos. E, a despeito de todo esforço para

enfrentar a realidade agora, teve medo. Medo de estar se tornando envelhecida e

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amarga. Há tempos não se importava com a aparência, embora não houvesse

desperdiçado charme no trato com os homens do tenente. Chegara até a fingir algum

flerte, só para irritá-lo.

Fato que ele nem parecera notar. Ao contrário dos outros rapazes, nem sequer

fizera menção de se mostrar solícito depois daquela noite. .

No entanto, ele demonstrava um certo interesse. Percebia isso em seu olhar.

Bastou pensar na atração que o tenente lhe despertava para sentir uma onda de

calor invadir seu corpo. Engoliu em seco, aturdida. Só a lembrança de Jamie e seu

olhar conseguiam perturbar seus sentimentos. Nunca experimentara aquelas

sensações nos braços de David.

Não estava apaixonada por Slater. Detestava-o. Ele era arrogante, convencido e

não lhe dava nenhum crédito. Era o tipo de homem contra o qual precisava e gostava

de lutar: mais um explorador ianque que sugava o Texas.

— Sente-se melhor, Tess? — indagou Dolly, preocupada.

Ela abriu os olhos e tentou sorrir.

— Sim. Estou bem. Obrigada pelo apoio.

— Não faço mais do que minha obrigação cuidando de uma menina tão bonita

quanto você. Não é à toa que os rapazes estão todos bobos!

— Dolly!

— É verdade. — Os olhos dela brilharam. — Amanhã à noite não vai mais estar

com essa carinha triste. Podemos fazer cachos em seu cabelo e então nem Eliza será

páreo para Tess Stuart!

— Dolly, não quero competir com Eliza, nem com ninguém. Tenho muito trabalho

pela frente. Preciso voltar para Wiltshire o mais rápido possível. Tenho um bom

capataz na fazenda e um ótimo editor cuidando do jornal, mas preciso estar lá. Afinal;

agora sou a única dona.

A mulher bufou, com desdém.

— Certas coisas não são para uma moça. Devia arranjar um bom marido e passar

para ele essas responsabilidades.

Tess afundou mais na água morna, com um suspiro de desânimo.

— Preciso arranjar um pistoleiro, isso sim.

Dolly manteve-se em silêncio por um instante, os olhos arregalados.

— Ora, então já encontrou! — Sorriu, radiante.

Tess franziu o cenho.

— Quem?

A mulher rodeou a banheira, acomodando-se numa banqueta. Estava

entusiasmada.

— Jamie Slater, minha querida! Ora essa, pois não foi até acusado de ser um

fora-da-lei? Ele e os irmãos também! Aconteceu num desses tiroteios. . Os três

descarregaram aqueles Colt como nunca se viu! Mesmo assim acabaram detidos. Só

que, no julgamento, foram considerados totalmente inocentes! Precisava ter visto

aqueles rapazes. . Jamie, em particular, é mais rápido que um raio com aquele revólver.

Tess ouvia o relato com atenção. Na verdade havia tido a oportunidade de vê-lo

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em ação. No dia em que atirara na cobra ficara impressionada com sua habilidade.

Estremeceu. Agora não só desejava Jamie Slater, como também precisava dele.

Um homem insuperável no gatilho. Um homem de ombros largos, peito musculoso, mãos

firmes. . E olhos cinzentos que invadiam a alma.

— Alguém tem de escoltá-la até Wiltshire — declarou Dolly. — E Jamie está

prestes a tirar uma licença. Não é nenhum tolo. Seja quem for que a tenha atacado,

brancos ou índios, ele vai descobrir!

— Ele não acredita em uma palavra do que eu disse!

— Mesmo assim, não vai sossegar enquanto não esclarecer tudo isso. Conhece os

shoshones, os comanches, os cheyennes, os kiowas e até os apaches como ninguém.

Para ter uma ideia, fala quase todas as línguas deles! Pode dizer numa fração de

segundo que tribos se relacionam ou não, conhece todos os seus costumes e onde

vivem. Às vezes se entende melhor com outros índios do que com o próprio Pena

Vermelha! Sabe como é, Jon é descendente dos pés-pretos e acha que o mundo

começa e acaba com os sioux. . Se você estiver dizendo a verdade. . Oh, perdão,

querida! Sei que não está inventando coisas! Mas, se está certa a respeito do ataque,

Jamie vai pôr os pingos nos is. Não vai deixar que os comanches sejam

responsabilizados por uma atrocidade que não cometeram.

Tess permaneceu em silêncio e Dolly tomou fôlego:

— Espere um instante. Acho que tenho xampu aqui. Vindo de Boston!

— Dolly, não precisa se incomodar.

— Ora, que benefício ele pode trazer para uma velha cabeça branca? Tome! Seus

cabelos vão ficar com o perfume das rosas em botão e brilhantes como o sol!

Tess sorriu, aceitando o frasco. Esfregou a cabeleira de olhos fechados, depois

desapareceu sob a água por um segundo. Quando emergiu, Dolly continuava falando:

— . . há também o tenente Lorsby, que podia escoltá-la. É um bom homem, mas

aposto que não sabe distinguir um kiowa de um shoshone!

Tess suspirou, estremecendo ligeiramente. A água já estava quase fria. — Pode

me passar a toalha?

Dolly atendeu-a de pronto e ela saiu da banheira, enrolando-se e sentando-se

numa banqueta a fim de secar os cabelos.

— Agora me conte, Dolly. . — sorriu. — O que tem contra essa tal de Eliza?

— Hum. Nada. A não ser que se considera um presente dos deuses para os jovens

da Cavalaria. Jamie é o único que nunca lhe deu muita trela. Não é à toa que Eliza não

lhe dá sossego! Ele bem que gosta da situação. Mas a mulher é um demônio de ruim.

Você vai ver. Agora fique quietinha aí que vou trazer seu chá e depois o ensopado

irlandês mais delicioso que já provou na vida!

Tess abriu um sorriso. Não se sentia tão querida e mimada desde. . desde que

Joe havia morrido.

O pensamento quase a levou às lágrimas outra vez. Mas tratou de contê-las.

Comeu o cozido de Dolly e vestiu a camisola emprestada, deixando-se cair na cama,

exausta.

— Obrigada por tudo, Dolly.

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— Não é nada, criança.

— Dolly?

— Sim?

— Eu não a fiz deixar sua família, fiz?

— Claro que não. — Ela sorriu. — Não tenho mesmo muito o que fazer além de

ficar lembrando de Will. . meu marido. Era da Cavalaria e morreu alguns anos atrás,

numa emboscada. Foi Jamie quem o trouxe de volta para casa. — Fez uma pausa

emocionada. — Agora só fico no armazém algumas horas por dia e cuido de quem

precisar de alguma ajuda. Por isso é um prazer cuidar de você, querida. — Acariciou-a

no rosto. — Agora descanse.

Dolly deixou o quarto, por fim, e Tess permitiu-se um bocejo, espreguiçando-se

na cama macia. O cansaço poderia levá-la a um sono profundo, se a tristeza por Joe

não lhe pesasse no coração.

Mas não foi Joe o responsável por sua insônia. Mesmo no conforto e na penumbra,

pequenos tremores corriam-lhe pelo corpo, mantendo-a desperta. Imagens difusas de

um rosto moreno de olhos cinzentos insistiam em assombrá-la na escuridão. Viu-se

outra vez à margem do córrego e a ansiedade a dominou.

Não. Não desejava um amante. Queria um pistoleiro. Talvez precisasse negociar

para chegar onde necessitava.

Negociar. Fechou os olhos com força. Sabia que Slater podia ser tão maleável

quanto uma rocha. Possivelmente nem sequer se importava com ela, e sua aparente

preocupação não passava de mera curiosidade.

O que não tinha a menor importância, tentou convencer-se. Afinal, não estava

sozinha há mais de cinco anos?

O problema era que agora precisava de um homem. E de um que soubesse lidar

com uma arma.

Quando flutuou para a semi-inconsciência, foi com o peso de não ter sequer

iniciado uma oração. E com a certeza de que o estoico coronel, e não Jaime, a

acompanharia de volta a Wiltshire. Teria de lutar sozinha contra Von Heusen, e o

faria. Só não sabia se podia combater do mesmo modo, e ao mesmo tempo, os

pensamentos vergonhosos que Jamie Slater lhe inspirava.

Porém, tinha consciência de que seria inútil lutar contra os próprios sentimentos.

Mesmo que lhe trouxessem dor.

A exaustão a venceu, por fim, e Tess adormeceu. E sonhou. Com um homem alto,

de olhos cinzentos, tomando-a nos braços. .

Nua, como estivera à margem do riacho.

Estava caminhando para uma armadilha, concluiu Jamie, enquanto rumava para a

antiga residência dos Casey. Definitivamente, não podia afirmar que Tess mentia.

Conhecia bem demais os índios. Não podia permitir que uma guerra se deflagrasse só

porque algum imbecil tentava responsabilizar os comanches por seu crime. Precisava

levantar a verdade dos fatos.

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Fez uma pausa antes de bater na porta, reprimindo um ímpeto absurdo, quase

selvagem, de entrar ali e tomar a provocante e deliciosa srta. Stuart nos braços. Não

importa o quanto se esforçasse. Não conseguia tirá-la da cabeça. E não adiantava ela

cobrir-se com uma profusão de tecidos, laços e rendas. Continuava viva em sua

memória a imagem de Tess nua, banhando-se no rio.

Ao contrário da acusação que lhe fizera, Tess era um mar de vida. Irradiava

paixão em cada palavra, em cada gesto. Possuía um espírito guerreiro que jamais

esmoreceria. Permaneceria em Wiltshire ignorando todos os riscos. Era capaz de

querer enfrentar Von Heusen, nem que fosse numa planície deserta, sem nenhuma

arma.

Mas, que diabos. . O homem seria assim tão perigoso?

Jamie preferia não crer nisso. Mas Tess fazia afirmações com plena convicção. A

honestidade se estampava cristalina nos olhos cor do mar, no rosto de anjo

emoldurado por cabelos que eram uma verdadeira teia de paixão.

Sempre que se aproximava dela parecia que a terra lhe tremia sob os pés. Se não

usasse de cautela, chegaria o dia em que a tomaria nos braços à força. E então que se

danassem os índios, os brancos, o planeta inteiro. Nada mais importaria a não ser o

perfume daquele corpo, a maciez da pele de seda. .

Engoliu com dificuldade, respirando fundo na tentativa de controlar o desejo que

ameaçava sabotar lhe a razão. Bateu à porta.

— Entre, tenente.

Ele o fez, irritado coma própria reação ao simples reconhecimento da voz doce e

aveludada. Na certa ela estava atrasada, quis se convencer. As mulheres sempre se

atrasavam. Provavelmente tentava prender o cabelo ou ajeitar o corpete ou a saia. .

Engano seu. Tess encontrava-se de pé, ao lado do fogo tímido da lareira. Não

precisava mudar um detalhe sequer. Tinha os cabelos semi presos por uma fita azul, o

resto solto numa cascata de cachos que adornavam o pescoço alvo. O vestido também

era azul, com um corpete de veludo num tom mais escuro e saia rodada até os pés. As

mangas, curtas e bufantes, deixavam os braços quase desnudados, e o decote baixo

revelava parte dos seios. Parecia ainda mais bonita do que ele podia se lembrar, os

olhos cintilantes e. . provocantes?

Ela sorriu. Nada mais naquele rosto lembrava dor ou revolta.

— Está pronta?

— Claro. Não combinamos depois do pôr-do-sol?

Jamie fez que sim com a cabeça, em silêncio.

Tess apanhou um xale franjado e o estendeu a ele, que o tomou devagar,

ajeitando-o sobre os ombros dela. Deliciado, ele aspirou fundo o perfume de rosas.

Inferno. Ela derrubava seu autocontrole com mínimos detalhes!

— Podemos ir?

— Claro.

Ela abriu um novo sorriso. Um sorriso travesso. Não era ingênua. Era, isso sim,

uma mulher consciente do próprio poder de sedução. Somada à sensualidade, sua

inteligência transparecia nos olhos amendoados e felinos.

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Era de uma feminilidade estonteante. E pensar que tal qualidade não passara

despercebida por nenhum dos homens do regimento..

— Onde é o baile?

— No salão— respondeu, sucinto. Mas então pensou que também conhecia aquele

jogo. Sorriu de volta, cativante, capturando a mão delicada e pousando-a no próprio

braço. — O descanso parece ter-lhe feito muito bem. Está muito bonita. . e saudável.

- Hum. . Obrigada. — Tess olhou-o de lado, os lábios curvados num sorriso

devastador. — Muitas garotas perderiam a cabeça comum elogio desses vindo de você.

— Cínica. Já você não iria se abalar se a nação apache em peso a estivesse

cortejando, certo?

— Mais cumprimentos, tenente?

— Não precisa deles?

— Eu não disse isso.

Alcançaram o portal já aberto do saloon, de onde acordes alegres e agudos

vibravam, animando a dança. Tess estancou na entrada e uma sombra anuviou lhe a

expressão. Jamie a observou, subitamente desgostoso consigo mesmo. Ela fora vítima

de uma experiência dolorosa e, por mais forte que fosse, ainda devia sofrer muito. Os

olhos azuis buscaram os dele, tão indefesos à luz fraca que incidia lá de dentro, que só

com muito esforço não a puxou para si. De repente, desejou que Tess não fosse tão

jovem nem tão bonita. Que não fosse tão diferente das mulheres que conhecia.

— Talvez não devesse mesmo ter vindo.

— Estou bem, tenente. — Ela esboçou um sorriso. — Não quer entrar?

Ele concordou, relutante, guiando-a para dentro. Dezenas de casais lotavam o

salão. Os oficiais com dragonas e faixas coloridas na cintura acompanhavam mulheres

em seus mais belos vestidos e adornos. O lugar cintilava com o azul e dourado dos

uniformes, mesclados com os tons vivos dos bordados, sedas e cetins.

Mas nada se comparava à simplicidade marcante de Tess Stuart. Nenhum outro

traje cobria um corpo com tanta perfeição. Nenhum tinha o poder de ocultar e revelar

nos lugares certos. Nenhum possuía a rara combinação de pureza e sensualidade.

Assim como o toque da mão delicada em seu braço. Ou o perfume de rosas que

continuava a embriagá-lo, tornando-o alheio a tudo e a todos.

Jamie percebeu que Pena Vermelha se aproximava e praguejou baixinho.

Normalmente o índio era fechado e silencioso como a noite! Nos últimos dias,

entretanto, vinha abusando de sua eloquência oxfordiana. .

— Srta. Stuart! Jamie! Até que enfim chegaram. Desculpe-me o atrevimento,

tenente, mas faço questão da primeira dança.

— Jon. . — Jamie começou um protesto.

— Será um prazer!

O deleite na resposta de Tess foi tanto, que Jamie teve vontade de agredir os

dois. Se estavam tão ansiosos para ficarem juntos, então Pena Vermelha é quem

deveria tê-la acompanhado ao baile. Não teria feito a menor diferença.

De jeito nenhum!, uma voz contrapôs em seu íntimo. Tess era sua. Ele a

encontrara, ele a trouxera para o forte.

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Relacionar-se com Tess Stuart, percebeu, era um jogo perigoso, no qual já havia

entrado. E não conseguia sair.

Pena que não estavam nas planícies. Lá, ele e Pena Vermelha poderiam resolver a

questão no braço, como tinham feito tantas vezes.

Resignado, abriu um sorriso artificial, e curvou-se ao melhor estilo da Cavalaria

sulista de antes da guerra.

— Fiquem à vontade. Mas devolva-a inteira, Pena Vermelha.

— Ele está tentando insinuar que também pratico escalpelos, Tess. Não se

impressione.

Ela abriu um sorriso largo e cintilante. Desabrochara feito uma flor na presença

de Jon. Toda sorrisos para aquele cínico e um poço de escárnio para ele.

Mas aquele jogo não ia durar muito. Não, se dependesse dele.

— Como vai, Jamie? — O coronel se aproximou, as mãos cruzadas atrás das

costas.

— Senhor. . — Bateu continência de leve.

— Parece que lhe roubaram a companhia. — Fez um gesto de cabeça em direção à

pista. — Ela é mesmo adorável. Uma excelente aquisição para a nossa pequena soirée,

hã?

— Sem dúvida.

— Ah! Mas não vai continuar desamparado por muito tempo. Olhe lá. Eliza já vem

vindo.

Jamie arriscou um olhar de soslaio. Avistou-a parar para conversar no balcão por

um segundo e depois flutuar entre os casais, na direção dele. Não a via desde que

partira da última vez.

Mas Eliza já sabia que Jamie tinha chegado, e com uma mulher que o

acompanhava naquela noite. Estava escrito nos olhos castanhos. Sorria, embora os

lábios vermelhos não conseguissem disfarçar o desagrado.

Ainda assim era de uma beleza difícil de se ignorar. Tinha a pele alva, os cabelos

escuros como ébano e traços perfeitos. Embora fosse esguia e graciosa, um homem

podia perder-se no volume de seus seios. .

Jamie sabia que a moça continuava disposta a atormentá-lo. Geralmente gostava

de sua companhia, no mínimo "ardente". Havia partido pelo menos uma dezena de

corações antes de resolver se concentrar nele, desta vez sem muito sucesso. Alerta,

Jamie mantivera uma distância segura e o cuidado de não proferir qualquer palavra

que pudesse lembrar compromisso.

Todavia nem sempre pudera resistir à constante sedução. Não era seu primeiro

amante, tampouco seria o último.

E Eliza estava especialmente sedutora naquela noite. Tinha os cabelos negros

presos a um só lado, caindo-lhe pelo ombro, o decote redondo expondo os seios fartos,

o vestido verde-esmeralda contrastando com a pele clara.

— Jamie, querido! Aposto que reservou a primeira dança para mim. Senti tanto a

sua falta!

Ignorando o número de pessoas ao redor, ela deslizou os braços pelo pescoço

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dele, pôs-se na ponta dos pés e beijou-o na boca, lascivamente. Pego de surpresa,

Jamie só pôde analisar a própria reação. Nada brotou dentro dele. Nem uma emoção

sequer.

Era Tess. Encontrava-se obcecado. Qualquer outra mulher estava fadada a

fracassar em sua habilidade de sedução enquanto ela não o satisfizesse.

— Eliza — cumprimentou, seco, retirando os braços dela gentil e firmemente, Ela

o fitou amuada, porém Jamie sequer percebeu. Olhava além dela, para a pista de dança

onde Tess rodopiava e sorria nos braços de seu melhor amigo. Estavam

perturbadoramente juntos. — Vamos dançar — sugeriu sem muito entusiasmo,

carregando Eliza para o meio do salão.

— Pensei que não tivesse sentido saudades — balbuciou a moça feito uma criança

mimada.

— Claro que senti.

— Não foi me ver ontem à noite.

— Precisei preencher uns relatórios.

— Fiquei esperando até tarde!

— Desculpe.

— Não faz mal. — Ela sorriu, sensualmente. — Espero outra vez.

Jamie piscou, aturdido. Fitou os lábios cheios e entreabertos. Quem sabe

pudesse fechar os olhos e imaginar que tinha Tess nos braços. . Não. Não seria justo.

— Eliza, vim com a srta. Stuart ao baile.

— Srta. Stuart? Ah! Já ouvi falar dela. A maluca que confunde comanches com

brancos. . Francamente, Jamie, entendo que se sinta responsável, mas limite-se a levá-

la para casa e depois volte para ficar comigo.

— Não posso, Eliza. Não hoje.

Ela comprimiu os lábios vermelhos por um segundo. Então ergueu as sobrancelhas,

com uma resignação fingida, antes de pressionar o corpo contra o dele. A tentativa

pouco sutil de excitá-lo divertiu Jamie. .

— Ainda bem que compreendeu, Eliza — comentou, com cinismo.

— Sempre fui compreensiva. .

Ele ensaiou um sorriso para ocultar o enfado.

Jon já não dançava com Tess. Em compensação, ela já rodopiara com vários

rapazes do regimento e agora estava nos braços de um jovem pirralho sardento que

provavelmente nem se barbeava.

A alegria do rapaz não durou muito, pois logo Pena Vermelha voltou para roubá-la.

Jamie cerrou os lábios. Não estava disposto a passar a noite sendo privado de

sua companhia.

Não tinha a menor ideia de que Tess também o observava veladamente. Cada vez

que a mulher de verde se abraçava ao tenente tinha vontade de gritar. Felizmente

estava de novo com Pena Vermelha. Assim, pelo menos, podia desabafar um pouco:

— Jon?

— Sim?

— Quem é aquela árvore de Natal?

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Ele soltou uma gargalhada antes de curvar-se para sussurrar-lhe ao ouvido:

— Eliza, srta. Stuart. — Ergueu a cabeça e lançou um sorriso travesso para

Jamie. — Mas acho que não é com ela que precisa se preocupar. .

— Eu sei. — Tess sorriu docemente, depois jogou para trás os cabelos com uma

risada.

CAPÍTULO IV

Tess não viu como ou quando o tenente desenredou-se de Eliza. Em segundos,

porém, ele cutucava o ombro de Jon, reclamando-a para uma dança.

Com o coração aos saltos, ela se deixou guiar. Jamie devia ser frequentador

assíduo daqueles bailes, pensou, entre surpresa e enciumada. Era um exímio dançarino.

Fechou os olhos por um instante e foi como se levitasse, como se o salão e o

resto das pessoas houvessem desaparecido e só existissem eles dois.

Devia estar certa. Quando abriu os olhos, tudo o que viu foram os lábios dele,

perto demais.

— Pensando nas conquistas, srta. Stuart? — ouviu a voz rouca.

— Como assim?

— Não há um só pirralho aqui que não esteja pronto a dar a vida para tê-la alguns

minutos nos braços.

— Verdade? — Ela fingiu espanto. — Ora, é muita gentileza, dos rapazes. Agora,

como estou me saindo com os mais velhos, tenente?

Ele respirou fundo, uma ponta de divertimento ainda sustentando seu sorriso.

— Digamos que os barbados estejam dispostos a cavar a própria sepultura por

sua causa.

— Meu Deus! Isso é que eu chamo de extremismo. — Ela riu. — Mas agora estou

curiosa. . E quanto àqueles entre dezenove e trinta e nove?

— Não hesitariam em cortar a garganta um dos outros por um mero sorriso seu.

Tess já não sabia se ele continuava brincando. Jamie baixara o tom de voz,

fitando-a intensamente. Baixou os olhos, estremecendo. Começara a achar perigoso

prosseguir aquele jogo.

Mas algo a fez erguer a cabeça, num desafio.

— Ainda bem que não está incluído nesse rol. Quero dizer, não quando todos

sabem que está comprometido..

— O quê? — Ele soltou uma risada fraca.

— Estou falando da morena, tenente. Srta. Eliza.

— Ah. .

A expressão de Jamie se transformou, mas ela não soube dizer se com

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preocupação ou indiferença.

— Estão noivos?

— Deus do céu, claro que não!

— Esse horror todo é pela ideia de noivado ou por Eliza?

— Não acha que está sendo muito indiscreta, srta. Stuart?

Ela deu de ombros.

— Quem mandou querer dançar comigo?

Como resposta, ele a apertou ainda mais nos braços. Tess engoliu em seco, estava

brincando com fogo, mas provocá-lo naquele momento lhe pareceu inevitável.

— Fiz uma pergunta, tenente.

— Acho que se esqueceu de que fui eu quem a trouxe ao baile. Estou no meu

direito.

— Ah, sim. Claro. Mas quando vi o modo.. "esfuziante" com que cumprimentou a

srta. Eliza. .

— Está com ciúme?

— Por que estaria? Mal o conheço, tenente Slater. Não poderia tentar dissuadi-lo

a romper esse tipo de relacionamento.

Tess prendeu a respiração diante da mudança na expressão de Jamie. Sentiu a

cintura pressionada, os dedos entrelaçados tão fortemente com os dele que chegavam

a doer. Quis tomar ar e acabou aspirando o perfume de Jamie, um misto de banho

recém-tomado e tabaco. Rude e ao mesmo tempo embriagador.

— Costuma ser imprudente com tudo que fala, srta. Stuart? — ele interrompeu

seus pensamentos.

— Por que diz isso, tenente? Só porque sou franca?

— Porque parece ter farpas na língua. — Fitou os lábios rosados. — Talvez eu

devesse descobrir por mim mesmo..

Com incrível rapidez, foi afastando-se com ela porta afora, guiando-a para as

sombras do pórtico. Prendeu-a contra um pilar, então cobriu-lhe a boca com a dele num

beijo ardente.

Estava feito. Não era isso o que ela havia buscado todo o tempo? Tinha

provocado e incitado Jamie a fazê-lo. Não podia reclamar. Tess sentiu-se

enfraquecer, cedendo docemente à carícia que lhe inflamava os sentidos.

Inacreditável que não sentisse nenhuma vergonha, nenhum remorso. Permitiu-se

ficar nos braços dele, tatear lhe o corpo, acariciar lhe as costas. .

De súbito as bocas se apartaram e ele se afastou. Tess buscou ar, o olhar

embaçado encontrando o dele. Jamie a havia posto à prova. Não estivera preparada

para aquilo. Para um beijo roubado, talvez. Não para um contato tão íntimo. De repente

sentiu medo de que seus olhos traíssem a intensidade de sua inocência e de seu

choque; a intensidade das sensações que a invadiram.

Os olhos de Jamie também estavam enevoados e, ao contrário do que ela

imaginara, sua expressão não era a de um homem regozijando-se com mais uma

conquista. Também parecia consumido pela emoção. Quis tocá-lo no rosto, acariciar lhe

os cabelos castanhos, mas não ousou mover-se.

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— Então está aí. .

A acusação quase gritada rompeu o clima de encantamento. Jamie deu um passo

para trás, notando, surpreso, a mulher no alpendre. Era pequena e grisalha, o rosto

sofrido marcado pelo tempo. Tinha os cabelos brancos presos por um velho gorro, o

vestido surrado e um xale puído jogado nos ombros. Não estava só. Várias pessoas

postavam-se atrás dela, com ares de expectativa.

— Clara. . — Jamie murmurou, com estranhamento. — Algum problema?

Clara nem sequer quis ouvi-lo. Apontava Tess, acusadora.

— Você! Sua prostituta, leviana, traidora! Como ousa acusar gente de sua própria

raça de ter lhe atacado?! Devia morrer por isso! Abatida por uma flechada! Ordinária!

— Clara! — gritou Jamie em protesto.

Presa à balaustrada Tess ouvia tudo em choque.

— Clara! Está fora de si! Peça desculpas à moça. Não pode acusá-la sem saber o

que. .

— Ele é cria do demônio! — cuspiu a mulher, os olhos quase saltando do rosto.

Tess agarrou-se ao pilar, olhando ao redor. O pórtico estava tomado de gente. Os

soldados que antes a haviam coberto de gentilezas agora a fitavam, distantes.

— Quantas de nós não perdemos os nossos para aqueles selvagens — prosseguiu a

mulher, ofegante. — Você, Lídia, os pawnees levaram sua única filha! Charlie perdeu o

braço para um comanche e seu filho Jimmie na luta com os apaches! Bárbaros! Animais!

Todos eles! E agora essa infeliz tenta protegê-los e provocar uma guerra entre os

brancos! Quer que nos trucidemos uns aos outros para abrir caminho para seus amigos

índios!

— Não! — Tess balançou a cabeça, aflita. — Como pode afirmar isso? Não estava

lá quando..

— Vamos entregá-la aos comanches, já que é do lado deles que quer ficar. .

Um ruído de esporas soou no pórtico quando Jamie avançou, pondo-se entre Clara

e Tess.

— Já chega! — disse com firmeza. — Não sei o que lhe disseram, Clara, mas não

tem o direito de julgar esta moça. Peça desculpas a ela! Agora.

A mulher piscou, o rosto enrugado marcado por um misto de espanto e dúvida.

Jamie ergueu a cabeça, olhando agora em outra direção.

Para Eliza.

Tess sentia o sangue gelar nas veias. Estava tudo escrito no rosto de traços

perfeitos, embora a moça tentasse devolver o olhar de Jamie com inocência. Eliza

havia inflamado as pessoas, incitando as mais vulneráveis contra ela.

— M-mas, tenente, e se a srta. Stuart estiver enganada? — A voz de Clara agora

era menos que um murmúrio. — Os comanches ou outra tribo qualquer podem estar em

pé de guerra. Precisamos nos defender!

— Se for isso, logo ficarão sabendo. Eu vou descobrir, Clara.

Uma exclamação de puro desgosto emergiu do grupo atrás dela. Partiu de Eliza,

percebeu Tess, chocada. O plano dela havia falhado.

Contudo não tinha muita certeza da vitória. Se Jamie tomara uma atitude, esta

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fora provocada pelas circunstâncias. Um cavalheiro defendendo a honra de uma dama,

nada mais.

— Vou escoltar a srta. Stuart até sua cidade e ver como andam as coisas —

ouviu-o dizer e pensou estar delirando. Pena Vermelha juntara-se a eles numa atitude

casual e ao mesmo tempo defensiva. Tomou Clara pelas mãos.

— Dê um tempo a Slater, amiga.

A mulher ergueu o olhar atormentado para ele.

— Oh, Jon, eu não quis ofendê-lo!

— Eu sei que não. — Sorriu. — Sou apenas meio selvagem, meio animal e meio

bárbaro.

Ela enrubesceu.

— Jon, eu. .

— Eu sei, eu sei, Clara. Deus nos livre de algum dia os sioux declararem guerra

aos brancos. Provavelmente eu não saberia de que lado ficar. — Ergueu a voz. —

Afinal, os brancos nem sempre são tão inocentes quanto parecem. Quem de nós ainda

não viu alguma atrocidade cometida per caras-pálidas? Quantos comandantes já não

deram sentença de morte a mulheres e crianças índias? Como pode duvidar da versão

da srta. Stuart, Clara?

Uma onda de murmúrios cresceu atrás deles quando Clara pôs-se a chorar,

copiosamente.

— Vou levá-la para casa — Jon comunicou discretamente a Jamie, enquanto as

pessoas se dispersavam, aborrecidas.

Jamie voltou-se para Tess, o rosto moreno estranhamente fechado.

— Era exatamente isso o que queria, não era?

Parecia tão diferente do homem que acabara de beijá-la com tanta paixão! Tess

entreabriu os lábios, emudecida.

— O que eu queria? — repetiu, com um sorriso amargo. — Acha mesmo que gostei

de ser acusada e ofendida na frente de toda essa gente? Que gostei de ver o

sofrimento daquela mulher?

— Não foi isso o que eu quis dizer. Queria que eu também entrasse em sua luta

contra Von Heusen.

— Ah! — Tess soltou uma exclamação abafada. Desviou o olhar do dele.— Tem

razão, tenente. Eu não queria mesmo ficar sozinha nisso.

Ele avançou um passo, pressionando-a contra a balaustrada, os braços e o corpo

impedindo qualquer movimento.

— E me escolheu para dar cabo de sua missão..

Ela engoliu com dificuldade.

— É da Cavalaria, não é? Gastou muito do seu tempo tentando me convencer

disso, outro dia, quando me derrubou no chão.

— Eu a derrubei?! — ele bufou. — Ou foi você que voou sobre mim feito uma

águia?

Acontecia outra vez. Aquela impressão de que tudo entre eles era tensão, de que

o ar carregava-se de eletricidade. Tinha de reagir, Tess pensou aflita, ou estaria

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perdida.

— Eu estava descontrolada! Apesar de ter merecido cada arranhão que levou!

— Ah! Então confessa que fez seu julgamento sobre mim quando estava

descontrolada!

— E você não fez o mesmo?

Nesse instante, alguém limpou a garganta, interrompendo-os mais uma vez. Jamie

voltou-se com um palavrão ficando frente a frente com o sargento Monahan.

— Perdoe-me, tenente — o homem se desculpou, vermelho feito um tomate.

— O que foi?