Filha, Mãe, Avó e Puta por Gabriela Leite - Versão HTML

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Capa

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Folha de Rosto

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A Grande Lição

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Adoro os homens. Gosto de estar com eles, e não conheço homem feio.

Todos são bonitos: cada um com seu cheiro característico, seu andar, seu

modo de olhar. Alimentam um amor imenso pela mãe e pelo próprio corpo.

Magros ou gordos, todos têm um belo corpo, mesmo quando são

barrigudinhos. Às vezes me pergunto como eles fazem para andar: será que

o pau no meio das pernas não atrapalha? Essa pergunta eu (ainda) não tive

coragem de fazer.

Outra coisa que adoro é falar o que penso. Sem papas na língua. Quem

ler este livro vai perceber isso. Aprendi uma porção de coisas nessa

temporada na Terra. Uma delas é a importância de se ter uma opinião, de

reclamar quando não se está gostando de algo. Demorei muito para adquirir

esse direito e, por isso mesmo, não abro mão dele. Passei um pedaço da

minha vida lutando por ele. Estou gastando um outro bom naco tentando

convencer minhas colegas prostitutas de que esse direito também é delas.

Existe uma terceira coisa que eu prezo muito. Talvez seja a que mais

prezo, aliás. É a liberdade. Liberdade de pensar diferente, de vestir

diferente, de se comportar diferente... Não sei direito de onde veio essa

minha paixão pela liberdade (minha vida é feita de muitas certezas, mas

também de infinitas dúvidas e contradições), mas ela veio para ficar.

Meu destino até aqui foi norteado por esses três amores. E, como todos

nós sabemos, o amor não traz só felicidade. Ele gera muita dor também,

em nós mesmos e em quem está perto. Sei que, por causa dessa minha

obsessão por romper amarras (sejam elas políticas, culturais, morais ou

psicológicas), feri algumas pessoas queridas.

Mas acredito que também ajudei um sem-número de prostitutas a ter

uma vida mais digna. Fui, sou e vou continuar sendo responsável pelos

meus atos. O que pensar sobre eles é resultado do conceito de vida de

cada um. Enquanto eu puder continuar exercendo minha liberdade, não tenho

com o que me preocupar.

É a maior lição que aprendi. Eu: filha, mãe, avó e puta.

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Prim eiro Mandam ento

COCA-COLA COM BOLINHA

“Desce! Desce!”, a prostituta gritava para o sujeito. “Desce!” A cena era

inacreditável. Visivelmente fora de si, a mulher puxava um homem pelo

braço, tentando tirá-lo de dentro de um elevador lotado. Ele era um cliente

de um prédio inteiramente dedicado à prostituição, na São Paulo dos anos

70. Ela...Ela era eu.

As drogas sempre rondaram o universo das putas, de uma forma ou de

outra, mas nunca fizeram a minha cabeça. Naquela época, porém, não sei

bem por quê, acabei me viciando em bolinha. Talvez tenha sido falta de

informação ou vontade de experimentar tudo. As meninas daquele edifício, o

número 134 da rua Barão de Limeira, costumavam tomar Pervetin ou

bolinha. Um dia eu estava cansada e uma colega me perguntou se eu não

queria provar metade de uma bolinha. Adorei. Gostei da eletricidade, da

ligação. E fui aumentando. Todo dia aumentando. Quando eu parei, já estava

numa média de cinco por dia.

Toda manhã eu chegava no prédio, comia um pãozinho fresco com

manteiga e tomava um café puro que a Cecília, nossa cafetina, preparava

no apartamento onde transávamos com os clientes. Tinha um rapaz que

fazia as comprinhas para as meninas; assim a gente não precisava ficar

trocando de roupa toda hora para ir na padaria. Eu pedia para ele me trazer

uma coca-cola grande. Lá não podia entrar bebida, droga, nada. Mas tinha

um homem que passava pelos corredores vendendo bolinhas. Eu amassava

a bolinha com o fundo do copo, misturava na coca-cola e mandava para

dentro.

Trabalhava ligada. Muitas vezes os clientes diziam para mim: “Tá com

os olhos parados, menina! Tá fazendo bobagem?” Depois do trabalho, ia

num restaurante próximo comer, na maioria das vezes, uma saladinha de

agrião. E ficava pela noite, chapada.

Num domingo, a zona tava meio parada e acabei tomando várias

bolinhas. De repente, vi o elevador parar no meu andar completamente

lotado de homens; eles estavam espremidos lá dentro. Peguei um deles

pelo braço e disse: “Desce!” Ele disse que não queria descer e eu comecei

a puxar o sujeito pelo braço: “Desce!” O homem tentava se soltar de mim,

todo mundo começou a gritar comigo para soltá-lo. E eu, que tomava

minhas bolinhas na intenção de fazer mais e mais clientes, botei na minha

cabeça que ia tirar aquele homem do elevador de qualquer jeito. O sujeito

era um cara qualquer, não tinha nada de especial. Eu estava movida

simplesmente por uma obsessão profissional. O ascensorista começou a

gritar comigo, dizendo que ia fechar a porta, e eu respondi: “Fecha que eu

vou quebrar o braço desse desgraçado.” Coitado do homem!

Depois do escândalo, eu vi o que estava acontecendo comigo. Muitas

meninas já tinham passado por coisa parecida, batido nos seus clientes, e

algumas chegaram mesmo a surtar. Resolvi parar. Não era uma história de

tanto tempo e eu já estava me desconhecendo. O que poderia vir adiante?

Eu não sabia, ninguém sabia. Mas provavelmente coisa boa não era. Com

muito esforço, parei.

No começo a produtividade caiu um bocadinho. Mas valeu a pena. Sem

as bolinhas, eu conseguia bater papo com os clientes. E conversar com eles

é um dos segredos da boa prostituta. No princípio, é difícil entender como

funciona o nosso mundo. Com o passar dos anos, porém, consegui decifrá-

lo. Ou, pelo menos, parte dele.

Cliente não se trata como namorado. Mas foi dando ouvido a eles, que

sempre dizem o que gostam e o que querem, que comecei a aprender os

segredos da profissão. Homens são extremamente frágeis e toda a história

de que são grandes conhecedores da sexualidade feminina é uma grande

mentira. Eles sabem de suas vontades urgentes e suas fantasias. E estas,

na maioria das vezes, são tratadas como algo a ser escondido, uma

fraqueza que não deve ser dividida com ninguém. Inclusive e principalmente

com as mulheres que eles amam.

Aprendi com os clientes que devemos sempre fingir orgasmo, porque é

assim que eles querem. Gostam de acreditar que a mulher que eles estão

comendo goza com eles, mesmo a prostituta. Mesmo que seja numa

trepadinha de cinco minutos. Existem aqueles que gostam de pensar que

pagando um pouco mais a prostituta goza. Como se o orgasmo dependesse

de dinheiro.

O episódio do elevador foi um dos mais marcantes da minha história.

Uma história que começou muito antes, quando meus pais, Oswaldo e

Mathilde, se conheceram.

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UM CONTO DE FADAS QUE DUROU POUCO

Eles se conheceram na fazenda de café e gado dos meus avós paternos

em Araras, no interior paulista. O pai da minha mãe, seu Chico, era capataz

da fazenda e vivia lá com minha avó, dona Benedita, e seus seis filhos.

Todos trabalhavam na roça desde pequenos. Meu pai, por sua vez, era um

homem apaixonado por cassinos que morava com os pais dele num casarão

do bairro de Vila Mariana, em São Paulo, capital.

Um belo dia, cansado de tanta boemia, meu pai resolveu passar uma

temporada na fazenda, que ele pouco freqüentava. Chegando lá, conheceu

Mathilde, uma menina de 17 anos, sempre de olhos baixos, cabelos

pretíssimos, esguia, de pele amarelada. Meu pai, que tinha o dobro da idade

dela, ficou absolutamente apaixonado.

A família de minha mãe ficou entusiasmada com a possibilidade de um

casamento com o filho do patrão, e a jovem Mathilde, apesar de não sentir

coisa alguma pelo Oswaldo, foi obrigada a ir em frente. Mesmo tendo sido

obrigada a se casar, os olhos de dona Mathilde até hoje brilham com a

lembrança daquela festa. Ela guarda suas fotos com o carinho de uma

mulher apaixonada. São mistérios de uma vida a dois.

Parece que no início eles viveram muito bem. Já morando em São Paulo,

na casa da Vila Mariana, minha mãe ficou grávida, mas o bebê, muito fraco

devido a uma anemia com a qual ela conviveu muito tempo sem saber,

morreu nos primeiros dias. Foi seu único menino. Poucos meses depois,

meu pai voltou a viajar para os cassinos pelo Brasil e ela ficou sozinha no

casarão da Vila Mariana, convivendo com os sogros.

“Tenho certeza de que na viagem até aqui os homens te paqueraram,

porque você é linda e insiste em dizer que é feia.” Meu pai me disse isso

da última vez que estivemos juntos e também, de um jeito ou de outro, em

todos os momentos da nossa vida. Meus amigos já me falaram que eu

idealizo meu pai. Pode ser.

Oswaldo Leite nasceu em São Paulo no seio de uma tradicional família

quatrocentona. Era o filho mais velho do famoso capitão Juquita, José Leite

Filho, barão do café e combatente da Revolução Constitucionalista, e,

segundo reza a lenda familiar, jamais teve um emprego na juventude.

Quando percebeu que conhecia todas as manhas dos cassinos, ele descobriu

a sua profissão: crupiê.

Foi assim que conheci meu pai. Boêmio, fanático pelo seu trabalho,

elegante e perfumado. Ele adorava uma lavanda chamada Atkinsons, que eu

reconhecia na mesma hora se alguém estivesse usando. Hoje, acho que

pararam de fabricar. Sinto saudades daquele homem carinhoso, educado,

que me olhava através de seus óculos fundo de garrafa. Era um alento, uma

segurança.

Sou de um tempo em que as meninas não tinham liberdade para nada, e,

no entanto, ele sempre teve uma grande compreensão dos meus problemas.

Entendia minha vontade de alçar vôos, meus planos de futuro e meu desejo

secreto de ser bonita e alta. Já mulher feita, de vez em quando eu

desabafava com ele sobre meu complexo de inferioridade por conta da

minha altura e ele me dizia: “Calma, não tenha pressa, você ainda vai

crescer mais um pouquinho.” E emendava: “E se você não crescer mais,

sempre existe o teatro de todas as mulheres com seus sapatos de saltos

altíssimos. Teatro, aliás, que você já faz: veja o tamanho dos seus saltos!”

Meu pai trabalhava em cassinos clandestinos e ficava fora de casa um,

dois meses. Quando voltava, invariavelmente eu estava em greve de fome.

Desde criança tenho uma personalidade forte, e quando minha mãe me

proibia de fazer alguma coisa eu me revoltava e deixava de comer.

Na verdade, eu dava a maior sorte. Minhas greves de fome nunca

duraram mais de dois dias. Bastava eu tomar a decisão e meu pai chegava.

Minha mãe reclamava com ele das minhas atitudes e eu, trancada no

quarto, ouvia papai dizer: “Tenha paciência, ela é uma menina. Está

descobrindo a vida e você não dá uma brecha para ela.” Minha mãe ficava

furiosa, dizia que ele perdoava tudo o que eu fazia: “Por que a Gina, que

tem quase a mesma idade dela e também está descobrindo a vida, não age

como ela?” Meu pai ficava calado, subia as escadas, entrava no nosso

quarto e, antes de me abraçar e beijar, dizia: “Será que você poderia dar

um tempo nessa greve de fome e sair comigo e sua irmã para um jantar

no Restaurante do Papai?” Num passe de mágica, todas as minhas revoltas

sumiam. Eu me levantava da minha prostração, enchia meu pai de beijos e

perguntava: “Por que você demorou tanto pra voltar?” Era uma felicidade

que não cabia dentro de mim, eu me arrumava e ficava esperando ansiosa

ele terminar de descansar da viagem.

Apanhávamos o bonde em frente à nossa casa e lá íamos nós três rumo

à praça da Sé. O Restaurante do Papai, nome mais do que perfeito, era

tradicional na boemia paulistana. Nunca fechava. Ficava no subsolo de um

prédio. As escadas eram de madeira com um corrimão dourado. Eu descia

me sentindo muito importante, segurando no corrimão, e lá embaixo

éramos recebidos calorosamente pelo garçom que servia meu pai há

décadas.

A mesa era sempre a mesma e a comida também: pizza de muçarela e

de sobremesa pêssego em calda com chantili. Papai sempre perguntava se

não queríamos outro tipo de comida e a nossa resposta era sempre não, o

que fazia ele dar gargalhadas: “Criança é sempre muito tradicional nos seus

gostos.” O fato é que ele também comia sempre a mesma coisa: um filé

simples regado com muito vinho. Duas ou três garrafas de um bom vinho

tinto seco, de preferência português.

Ele nos perguntava sobre a escola, as leituras, o motivo da minha última

greve de fome e por que eu brigava tanto com a minha mãe. Lá pelas

tantas, ele abria seu coração e falava dela. Dizia que ela era linda, mas que

tinha um gênio terrível. Reclamava por ela ser muito influenciada pela

família humilde, da roça, uma gente boa mas que jamais poderia

compreender seu modo de ser, viver e trabalhar.

Ela o acusava de nos dar mau exemplo: “Mulher nasceu para sofrer e

você ainda as trata como se a vida fosse uma grande festa. Só quero ver

quando elas se casarem e inventarem de convidar o marido para comer

lagosta de madrugada.” Chegava a ser engraçada, a minha mãe.

Uma vez ele demorou muito para voltar de viagem, uns dois meses.

Minha mãe não falou nada. Lavou e passou todas as camisas brancas que

ele trouxe e as escondeu num armário. Quando ele percebeu que não tinha

camisa para usar, ficou desesperado. Era muito vaidoso e jamais sairia sem

seus ternos e camisas imaculadamente brancas. Ficou mais de uma

semana dentro de casa andando para lá e para cá de pijama azul com

debrum preto. Passava a noite lendo ou treinando numa mini roleta que ele

tinha em casa. Dormíamos com o barulhinho da bolinha cor-de-rosa rolando

pelos números. Tão acostumado que era a viver na noite, não conseguia

dormir no horário normal.

Era uma quinta, dia de feira livre. Mamãe saiu com a Gina e eu fiquei

sozinha com meu pai. Não agüentava mais vê-lo tão triste, sem saber o

que fazer dentro de casa. Fui ao armário, peguei todas as camisas e

entreguei a ele. Mas ele se recusou a aceitar e me pediu para colocar todas

no lugar em que estavam, porque aquele era assunto dele com minha mãe

e um dia ela devolveria. Não, eu disse, pegue suas camisas e vá dar uma

volta para ficar mais alegre. Meu pai fez as malas, e quando minha mãe

voltou da feira ele já tinha ido não sei para onde.

Ela me bateu e me colocou de castigo, e a partir daí sempre que eu

desobedecia ou ia contra ela, ouvia a mesma frase: “Não tem jeito mesmo,

você é igual ao seu pai!” Frase que, aliás, ela continua dizendo até hoje

quando o assunto sou eu.

Um tempo depois eles fizeram as pazes. Foram viajar e ficamos na

casa de minha tia. Na volta, soubemos que minha mãe estava grávida.

Passaram um bom tempo vivendo bem, minha mãe aceitando até as ceias

da madrugada, o que era muito legal. Ela estava sempre bem-humorada,

brincando com a gente, ensinando a fazer tricô e crochê e ao mesmo

tempo confeccionando casaquinhos e sapatinhos de bebê.

No dia do nascimento da minha irmã, acordamos para ir à escola e meu

pai preparou o café-da-manhã. Disse que iria visitar minha mãe no hospital

e aproveitar para passar pelo cartório e registrar nossa irmã recém-

nascida. Lá pelo meio da gravidez, eu e a Gina compramos um livrinho com

sugestões e significado de nomes e nós quatro tivemos muitas conversas

sobre o nome da minha nova irmã. Escolhemos Thais Helena. Meu pai foi

registrá-la, e nós, pela primeira vez na vida, tivemos a oportunidade de ir e

voltar da escola sozinhas. Nesse dia, um 31 de maio com muita garoa,

conquistamos um pedacinho da nossa liberdade e mais uma irmã.

Um dia meu pai foi embora para sempre. Não sei por que eles brigaram.

Nunca discutiam na nossa frente, a gente nunca sabia por que um estava

de cara feia com o outro. Só sei que papai fez as malas – como fazia

incontáveis vezes –, mas desta vez era para sempre. Ele me deu um

abraço, depois outro na Gina. Fez um carinho na Thais e disse que não

voltaria mais. Lá se foi ele para Caxambu e ficamos nós, quatro mulheres,

vivendo sozinhas.

De tempos em tempos papai vinha a São Paulo e se encontrava comigo

e com a Gina na casa de minha tia, irmã dele. Eram visitas escondidas,

minha mãe o tinha proibido de nos ver e minha tia fazia uma grande

ginástica para enganá-la. Era uma outra época, jamais pensaram em se

desquitar (o divórcio ainda não era lei), e os juízes dessa separação eram

eles mesmos.

Ele morreu com a esperança de um dia fazerem as pazes. Ela dizia que

desquite era uma bobagem: “Uma mulher só tem um homem na vida. O

segundo é sem-vergonhice.”

Era proibido falar do meu pai em casa, mas a gente se encontrava com

ele para matar a saudade e continuar a ir – escondido – no Restaurante do

Papai. Só que agora já não tinha a mesma magia, minha tia sempre estava

junto.

Foi assim até eu me tornar dona do meu nariz.

Quantas e quantas vezes me sentei em bares e restaurantes com meu

pai, quando ele ia a São Paulo. Depois desses encontros eu voltava para

casa tão feliz que minha mãe percebia, no ato, que eu tinha encontrado

com ele. Mas ela não dava uma palavra sobre isso. Só sei porque, faz pouco

tempo, conversando com ela no quintal de minha casa, ela me disse: “Eu

sempre soube de tudo. Não falava nada porque respeitava teu grande amor

pelo teu pai.” Assim é minha mãe: carinhosa e dura ao mesmo tempo!

UMA SOGRA, DUAS CARAS

Minha mãe é indígena, ou, como diz a sabedoria popular lá no interior de

São Paulo, cabocla. Durante toda a infância e parte da adolescência ela

trabalhou na roça, plantando e colhendo café. Nunca foi à escola, só sabe

assinar o nome, mas conhece números como ninguém. Aprendeu a costurar

com minha avó, também analfabeta, que era a costureira de roupas de

homem mais famosa de Americana, cidade do interior paulista onde meus

avós foram morar depois que desistiram de trabalhar na roça. Por saber

costurar muito bem, minha mãe tinha muitas freguesas, e foi assim que

muitas vezes – quando meu pai desaparecia por meses – ela conseguiu

manter nossa casa em pé sem nunca faltar nada.

A única amiga que minha mãe teve foi minha tia, casada com o irmão

do meu pai. Tia Olinda era uma mulher solitária e quieta, cujos parentes

viviam em Portugal. Ela veio para o Brasil trabalhar como empregada

doméstica na casa dos meus avós. Lá conheceu meu tio, que era

totalmente viciado em corrida de cavalos.

Duas mulheres jovens e bonitas, porém uma delas considerada uma índia

caipira e outra uma portuguesa ignorante. Elas se uniam para suportar os

infortúnios causados pelo desprezo da minha avó.

O grande desgosto de vovó era conviver com as duas no casarão da Vila

Mariana. A matriarca, dona Olívia, havia estudado no Sacré-Coeur e de lá

saiu para se casar com um primo. Com sua pele branca e translúcida, seus

cabelos e gestos finos, ela era uma aristocrata genuína, não admitia as

diferenças. No entanto, aquelas mulheres eram suas noras, escolhidas por

seus filhos amados e mimados como príncipes.

Com papai sempre viajando e meu tio quase autista, vovó fazia minha

mãe e tia Olinda de empregadas. Não importava que ela já dispusesse de

uma cozinheira e uma faxineira.

Vovó Olívia vivia na cama com um problema nas pernas e sua maior

diversão era gritar: “Mathilde, me traga a comadre!”, “Olinda, você é uma

lesma e demora para trazer minha comida!”. Eu, menina, ficava

amedrontada com seus gritos estridentes.

Quando meu pai voltava, ela se tornava a gentileza em pessoa e na

frente dele dizia em voz baixa e educada: “Minha querida nora, por favor,

você pode me trazer uma xícara de café?” Assim, as reclamações de

minha mãe caíam no vazio. Meu pai não acreditava que ela era maltratada

pela sogra. Sob essas condições, mamãe ficou grávida de mim e logo na

seqüência de minha irmã, Gina.

Que casa estranha era aquela em que vivi os primeiros 12 anos de

minha vida. Quando nasci, minha avó Olívia já tinha a “doença estranha nas

pernas”, como se dizia na família. Ela vivia confinada na sala de estar que

se tornou seu quarto, no térreo da casa, rodeada de quinquilharias, retratos

de família, cadernos e mais cadernos nos quais registrou diários e livros,

muitos livros que lia avidamente. Ninguém sabia qual era o problema, e

como ela não se deixava examinar pelo médico da família e ninguém

insistia, a doença piorava e muitas vezes ela acordava de madrugada aos

gritos de tanta dor. Nunca vi minha avó andando.

Meus pais viviam num grande quarto com amplas janelas e varanda

dando para a frente da rua Domingos de Moraes. Móveis de madeira nobre,

pesada e escura mostravam o gosto clássico de meu pai. Lá, ele se

refugiava para ler seus livros nos dias em que estava em São Paulo. De

noite, como todos os homens da casa, saía para a madrugada paulistana.

MATHILDE: DE TÍMIDA A TEMIDA

Havia uma garagem gigantesca e abandonada nos fundos da casa, e

minha mãe deu o grito de independência e decidiu que íamos nos mudar

para lá. Bastava de comer, beber e fazer o que minha avó exigia. Bastava

de viver na casa em que ela era soberana, ainda que deitada na cama.

Embora fosse uma garagem dentro da mesma casa, Mathilde decretou

que aquele território seria seu e de suas filhas. Para chegar lá tínhamos que

descer uma rampa de carros e abrir um grande portão de duas faces. E a

garagem se tornou uma boa casa: com a reforma que minha mãe fez,

passamos a ter uma sala de estar, outra de jantar, dois quartos, uma

cozinha, um banheiro pequeno e até um quartinho de brinquedos.

Apesar de tudo, era muito bonita. Papai comprou móveis: uma bela

mobília de jantar, um lindo divã vermelho e tapetes. Minha mãe, pela

primeira vez desde o início do seu casamento, passou a ter o seu próprio

fogão, sua própria despensa e sua própria vida de mulher casada, mãe de

duas filhas.

Dona Mathilde, a caipira indígena e analfabeta, conseguiu mostrar para

aquela família aristocrática que era uma mulher forte e dona do próprio

nariz. Vovó passou a ter enorme respeito pela força de minha mãe, chegava

inclusive a ter receio de levantar a voz com ela.

Apesar de nossa própria casa, do quartinho de brinquedos e da comida

fenomenal, nossa vida de crianças ficou muito mais difícil. Minha mãe se

tornou uma pessoa rígida, de poucas palavras e olhares repressivos, o que

até então não tinha se manifestado com tanta força para nós. Embora eu

ainda tivesse 10 anos, começava o estranhamento mútuo que viveríamos

até o dia em que saí de casa.

Minha mãe tinha uma vara de marmelo que trouxera do interior para

“nos educar”. Apanhamos muito. Ainda tenho mágoas por aquela e por

outras surras: vara de marmelo, fio de ferro e cinto de couro com fivela.

Tudo isso fez com que jamais, em toda a minha vida, eu levantasse minha

mão para bater em criança. E quando vejo uma mãe bater em um filho na

rua, paro e brigo com ela.

Por um lado, reconheço a incompreensão de uma menina construindo sua

personalidade. Por outro, sei o quanto minha mãe, por sua própria educação

e por medo de falhar, bloqueou qualquer camaradagem e preferiu jamais

confiar nos nossos sonhos.

Sei que, assim como foi difícil para mim, também foi muito difícil para

ela viver com uma filha que nunca concordava com suas regras e ordens,

que tinha vergonha do seu modo caipira de falar e raiva do seu jeito de ser.

Rua Domingos de Moraes, 2.026. O estranho casarão da Vila Mariana,

com seus habitantes isolados na solidão de seus quartos, moldou muito

minha vida. Sempre me lembro daquele tempo de criança e daqueles

imensos corredores. As pessoas escondidas dentro de seus silêncios, os

diálogos

monossilábicos,

o

sentimento

aristocrático

envolto

em

preconceitos de classe social.

PRIMEIRO ATO DE REBELDIA: PELO DIREITO DE BATER PAPO DEPOIS

DA ESCOLA

Vovó morreu e os filhos resolveram vender o casarão. Com a parte que

coube a meu pai, compraram uma casa no Jabaquara. Naquele tempo, o

Jabaquara era ainda um bairro de periferia da classe média baixa, com

muitas ruas sem asfalto. Nossa casa era muito grande e tinha um enorme

quintal com árvores, onde minha mãe plantava verduras e legumes. Já

estávamos no ginásio e continuamos a estudar no Colégio Brasílio Machado,

na Vila Mariana.

Com isso, conquistamos uma grande liberdade: ir para a escola sozinhas

e de ônibus. Era muito divertido e ao mesmo tempo angustiante, porque

minha mãe nos dava uma hora para chegar em casa depois do colégio, e

eram tempos em que os ônibus tinham horários muito espaçados. Saíamos

da escola em corrida acelerada até o ponto do ônibus para não perder o das

12h10 e assim poder chegar a tempo em casa. Nunca ficávamos na escola

conversando com as colegas depois da aula ou então rindo e brincando no

ponto como todo mundo fazia: era sempre correr e correr para almoçar na

hora que minha mãe designava, impreterivelmente à uma da tarde.

Um dia me cansei e resolvi enfrentá-la. Decidi que não ia correr na saída

da escola, mas andar devagar, conversando com minhas colegas até o

ponto de ônibus.

Gina ficou desesperada e não conseguiu ficar. Saiu correndo, chorando

muito, e pegou o ônibus de todos os dias. Fiquei e deixei passar o segundo,

o terceiro... Só fui para casa quando não tinha mais nenhuma colega para

conversar.

Cheguei em casa tarde e com muito medo da reação de minha mãe. Ela

não me bateu, somente falou e gritou, extravasando todas as suas

angústias pela responsabilidade de criar três meninas: “Esta casa não é

uma pensão, que espera seus hóspedes a qualquer hora para comer. Esta é

a minha casa e aqui se come nas horas que eu determino!” Assim ela

justificou o castigo de me deixar sem almoçar.

Foi minha primeira grande desobediência, e a partir daí não tinha um dia

em que eu não fizesse alguma coisa para afrontar minha mãe. Perdi uma

parte de meu medo e resolvi que seria feliz. Estava com 14 anos, tinha

muitos sonhos e vontade de conhecer a vida.

UM EMPREGO PARA SE ESQUECER

Foi com essa idade que resolvi que iria trabalhar. Minha mãe costurava

para fora e meu pai já não vivia com a gente. Eu queria ter um pouco de

liberdade e, ao mesmo tempo, ajudar minha mãe, como filha mais velha, a

sustentar a casa. Naquele ano eu terminaria o ginásio e queria muito

continuar a estudar e cursar o clássico. Claro que o desejo de minha mãe

era que eu fizesse o curso de normalista para ser professora da escola

pública e esperar o noivo e o casamento. Mas meu objetivo era estudar

literatura, porque queria conhecer melhor os livros, meus companheiros de

solidão.

Terminado o ginásio, me matriculei no clássico, fui para o curso noturno

e encontrei um emprego como recepcionista em um consultório dentário. Só

depois de tudo arranjado contei para minha mãe. Foi um horror, mas um

horror previsível. Nada que me fizesse voltar atrás.

O primeiro dia no consultório e ao mesmo tempo na escola noturna foi

inesquecível. Me considerei uma pessoa importante, responsável e,

finalmente, uma mulher. Era um empreguinho de meio salário mínimo para

menores: eu limpava o consultório, lavava as ferramentas, marcava as

consultas e depois auxiliava no atendimento.

Os dentistas eram dois irmãos árabes de sobrenome Abdala, com

muitas clientes ricas e poucos clientes homens. Um trabalhava pela manhã

e o outro à tarde. Todos os dias eu levava marmita e esquentava na

padaria ao lado do prédio. Um dia, subi depois do almoço e um dos irmãos

já estava no consultório. Quando estava entrando, eu o vi sentado em sua

cadeira atrás da escrivaninha, com suas roupas branquíssimas, as pernas

abertas e uma das mãos segurando o pau duro fora da braguilha. Foi a

primeira vez que vi um pau duro ao vivo e em cores, e levei um tremendo

susto. Parei na porta. Ele ficou me olhando com olhos de desejo e me

perguntou: “Gostou? É bonito?” E ficava esfregando o pau imenso para cima

e para baixo. Não sabia o que fazer. Fiquei parada com os olhos fixos na

cena, sentindo nojo de tudo aquilo. Não sei quanto tempo durou. Só sei que

de repente acordei e falei: “Doutor, guarde essa coisa dentro de sua calça.”

Me virei e fui tratar do meu trabalho, nervosa, trêmula. Ele foi atrás de

mim e começou a se esfregar na minha bunda. Não falei nada, peguei

minha bolsa e saí chorando elevador afora.

Fiquei perambulando pela rua meio desorientada. Não contei nada para

minhas colegas e tampouco para minha mãe ou minha irmã. Naquela noite

não dormi, pensando no que fazer. Eu queria continuar a trabalhar para, pelo

menos, completar um mês e conseguir o salário inteiro. Mas estava com

medo de voltar e ele fazer tudo outra vez, e talvez até me mandar embora,

depois que saí correndo.

Voltei e parecia que nada tinha acontecido. Ele não tocou no assunto e

me tratava com a mesma frieza de sempre, até que um dia novamente se

aproximou de mim e começou a se esfregar. Dizia que ia me mostrar a

gostosura que ele era e que eu ia aprender a ser mulher. Quando tentei me

desvencilhar, ele me agarrou com toda a força. Comecei a gritar e nesse

momento chegou uma cliente na sala da frente. Assim que ele ouviu o sino

da porta tocar, se arrumou, passou um pente no cabelo, sem olhar para

mim, abriu a porta e com um largo sorriso recebeu sua cliente. Fui ao

banheiro, tirei o avental, peguei minha bolsa e outra vez fui perambular

pelas ruas chorando, sem saber o que fazer.

Resolvi na minha andança que não trabalharia mais com aquele maluco e

no dia seguinte fui ao consultório pela manhã, no turno do irmão dele. Disse

que tinha encontrado um emprego que seria melhor para mim, recebi meu

dinheiro e nunca mais vi esses senhores. Não contei para a minha mãe o

que tinha acontecido, nem que eu tinha deixado o emprego. Simplesmente

continuei a sair todos os dias no mesmo horário e com a minha marmita

na bolsa. Comprava o jornal, ia até o Centro, me sentava no jardim da

Biblioteca Municipal e ali ficava procurando nos classificados um emprego

de recepcionista.

PAIXÕES ESCOLARES

Eu adorava o curso clássico e tinha ótimos professores. Violanda, que

dava aulas de filosofia, era a minha predileta. Gostava tanto dela que

imitava seus gestos e seu corte de cabelo. Com ela conheci a filosofia. Por

sua influência decidi prestar vestibular para essa disciplina e dizia

pomposamente a minhas colegas que seria filósofa.

Nessa época, volta e meia apareciam no movimento secundarista o Luiz

Travassos, tão interessante e que morreu tão cedo, o Zé Dirceu, que era

meio bobinho mas muito bonito, e o Wladimir Palmeira, que subia num

poste e fazia um discurso maravilhoso pendurado lá. Nós todos tínhamos

um certo engajamento político nas escolas públicas, mas diante do

Wladimir nos tornávamos uns tontos. Quando ele aparecia, tacava fogo na

moçada. Eu jamais poderia imaginar que seríamos colegas de partido. Ele

era simplesmente demais. A maioria das meninas se apaixonava pelo Zé,

mas eu alimentava meu amor platônico pelo Wladimir.

Eu estava muito interessada nos rapazinhos. Paquerava no ônibus e na

escola, mas não tinha namorado. Os meninos me olhavam, mas não se

aproximavam. Eu era extremamente caxias, tinha mania de saber de tudo e

ler todos os livros. E apesar de estudar à noite e chegar em casa sempre

depois das 23h, minha mãe não me deixava ir aos bailes. Eu tinha uma

curiosidade imensa sobre sexo e o sonho de beijar um garoto. Só que o dia

não chegava e eu não me dava oportunidade. Culpava a beleza de minha

irmã, imaginando secretamente que ela me ofuscava.

Gina, 11 meses mais nova que eu, já tinha namorado, andado de mãos

dadas, beijado garotos no famoso muro da escola; e quanto mais ela

namorava, mais garotos ficavam atrás dela. Gina era jovial, feliz com seu

rabo-de-cavalo balançando de um lado para outro e seu bom humor eterno.

Eu era infeliz. Achava que o mundo estava contra mim e me sentia a

garota mais sofredora e injustiçada do planeta. Os garotos fugiam!

O PRIMEIRO NAMORADO

Com 15 anos ganhei permissão para freqüentar as festinhas dos jovens

da paróquia do bairro. O bispo era dom Mauro Morelli, que antes de ir para

Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, fora o responsável pela diocese do

Jabaquara. Por ser um clérigo moderno, havia muitas atividades na igreja

local, principalmente com os jovens. Apesar da formação católica, eu não

me interessava por elas, mas passei a freqüentá-las porque era a única

chance de me divertir nos finais de semana. Havia uma turma de meninos

considerados os rebeldes do bairro, e os jovens da igreja, todos muito

certinhos, detestavam esses garotos.

Nos bailes de sábado, ao som de Bee Gees, os rebeldes chegavam com

LPs de rock pesado. Sem pedir licença, tiravam nossos compactos da

vitrola e colocavam seus discos. Eles dançavam levantando poeira do chão

de terra e obrigando todos os certinhos a sair de perto. Passei a gostar de

rock pauleira. Eu adorava aqueles meninos, e um deles se interessou por

mim.

Márcio, meu primeiro namorado e meu primeiro amor. O namoro com

ele fez com que as brigas em casa se tornassem mais e mais freqüentes.

Minha mãe detestava aquele rebelde, que não trabalhava, matava aula

constantemente e, pior, fumava maconha, sem esconder de ninguém. Passei

a fazer parte da turma e nos finais de semana azucrinava a vida de toda a

juventude do bairro, inclusive da minha irmã.

Todos os dias o Márcio ia me buscar. Sozinho comigo ele não se

mostrava um rebelde, pelo contrário, era um menino cheio de sonhos.

Queria ser aviador e lia muito. Ele me ensinou a beijar de língua. Eu achava

que os beijos eram de boca fechada. Às vezes eu matava aula para ficar

beijando o Márcio por horas e horas. Tirei todo o atraso da adolescência.

Muito amasso no muro do colégio, carinhos nos seios, passadas tímidas de

mão pelo pau dele e só isso! Entre momentos de intimidade durante a

semana e vida de rebelde sábado e domingo, namoramos um tempão, mas

nunca transamos. Eu morria de medo de perder a virgindade e de ficar

grávida.

Passado muito tempo, já morando sozinha, encontrei o Márcio por acaso,

no metrô de São Paulo. Ele não conseguiu ser aviador, mas era comissário

de bordo e estava lindo no uniforme da Varig, segurando o quepe debaixo do

braço. Descemos numa estação qualquer para botar o papo em dia e

finalmente transamos. Passamos toda a noite no hotel numa loucura total.

Eu tinha imaginado muito como seria esse momento, e ele não me

decepcionou. Pela manhã nos despedimos e fiquei olhando aquele homem

bonito, com seu quepe debaixo do braço, descendo a rua, sem olhar para

trás. Nunca mais o vi e toda vez, até hoje, que sinto o cheiro de maconha,

me lembro dele, da sua beleza rústica e ao mesmo tempo doce. Da sua

boca, que foi a primeira que beijei.

SEM SALTO, JAMAIS!

Mais tarde consegui um emprego temporário na Partime, uma empresa

que selecionava pessoas para trabalhar nos períodos de férias dos efetivos.

Ganhava razoavelmente bem e podia parar de trabalhar em período de

provas e exames na escola.

Minha mãe exigia que eu passasse a ela meu pagamento integral porque

dizia que eu era muito jovem para saber administrar meu salário. Todo dia

ela me dava a quantia certinha para a condução. Eu ficava revoltada de não

poder usar o meu dinheiro. Tinha vontade de vestir roupas bonitas e não

mais os vestidinhos compridos feitos pela minha mãe. Queria ter muitos

sapatos e não podia.

Eu usava sandálias e carregava na bolsa um par de sapatos clássicos de

salto alto. Subia a ladeira em que morávamos com as sandálias, que,

quando chovia, ficavam pesadas, com uma grossa camada de barro da rua

sem asfaltamento. Quando chegava no ponto do ônibus, colocava as

sandálias em um saco plástico e calçava os sapatos limpos. Descia no

centro da cidade como uma moça que morava em rua asfaltada.

Comecei a fumar porque achava muito elegante uma mulher com as

unhas bem-feitas, um ar inteligente no rosto e um cigarro entre os dedos.

Passei a fazer trabalhos avulsos de datilografia no horário do almoço para

ter um pouco de dinheiro para minhas despesas pessoais. Me vestia como

uma autêntica secretária paulistana: saias godês ou justas, blusas com

babadinhos e debruns e blazer preto ou cinza com sapatos de salto, de

preferência modelo Chanel, meus prediletos. Tudo comprado à prestação

nas lojas da rua Direita, no centro de São Paulo.

Jamais usava sapatos sem salto por causa do meu complexo de

baixinha. Ele era tão arraigado que, se eu precisasse ir à padaria ao lado de

casa, tirava minhas velhas Havaianas e colocava um salto. Eu era uma

escrava do tom sobre tom em cores pastel, com a única exceção para o

preto, influência da professora Violanda. Jamais usava cores fortes, e

vermelho só passou a fazer parte da minha vida quando comecei a

freqüentar escolas de samba. Algum tempo depois, quando me envolvi com

a modernidade e a liberdade típicas da época, abandonei o estilo clássico e

passei a me vestir como uma hippie. Dei todas as minhas roupas e sapatos

de secretária para a Gina.

ENTRE MACHADO DE ASSIS E MARX

Terminei o clássico com ótimas notas, com exceção de francês e inglês.

Resolvi me matricular em um cursinho pré-vestibular. O curso Objetivo,

febre de todos os vestibulandos da época, era inacessível para mim, que

não tinha dinheiro. O fato é que, na verdade, eu não tinha dinheiro para

nenhum cursinho, mesmo o mais barato.

Descobri que na rua da Consolação havia o curso Etapa, que funcionava

em uma pequena casa com somente duas salas de aula, uma para o

Cescem, exames para as ciências exatas, e outro para o Cescea, exames

para as ciências humanas. Com a cara e a coragem, fui até lá e pedi uma

entrevista com o diretor. Contei minha história triste e ele me passou um

teste para saber o meu nível escolar. Consegui uma ótima contagem de

pontos e o diretor, um sujeito politizado, me considerou uma menina

esforçada, vítima da má distribuição de renda, e me deu uma bolsa de

estudos integral para o curso noturno intensivo. Exigiu apenas a promessa

de que eu iria estudar muito e ser uma das mais bem colocadas no

vestibular. Era exatamente o que eu queria.

Começa aí a primeira grande mudança na minha vida, uma mudança

radical, inclusive uma revisão de tudo o que eu havia aprendido sobre

história, geografia e literatura, principalmente a brasileira. Logo nas

primeiras aulas fiquei pasmada, achando que tudo o que haviam me