Filha da Magia - Magia ou Loucura – Vol. 03 por Justine Larbalestier - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub, Kindle para obter uma versão completa.

index-1_1.png

index-1_2.jpg

index-1_3.jpg

PDL – Projeto Democratização da Leitura

Apresenta:

index-2_1.png

index-2_2.png

PDL – Projeto Democratização da Leitura

index-3_1.png

PDL – Projeto Democratização da Leitura

CIP-Brasil. Catalogação-na-fonte Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.

Larbalestier, Justine, 1967-L332f Filha da magia / Justine Larbalestier; tradução de

Ricardo Silveira. - Rio de Janeiro: Galera Record, 2009. (Trilogia Magia ou loucura; 3)

Tradução de: Magic‟s child Sequencia de Lições de magia ISBN 978-85-01-08023-3

1. Magia - Literatura infanto-juvenil. 2. Literatura infanto-juvenil australiana. I. Silveira,

Ricardo. II. Título. III. Série.

08-4650 CDD - 028.5

CDU - 087.5

Título original em inglês: MAGIC‟S CHILD

Copyright 2007 © Justine Larbalestier

Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução,

no todo ou em parte, através de quaisquer meios. Os direitos morais

da autora foram assegurados.

Design de capa: Carolina Vaz

Direitos exclusivos de publicação em língua portuguesa somente para o Brasil adquiridos

pela EDITORA RECORD LTDA.

Rua Argentina 171 - Rio de Janeiro, RJ - 20921-380 - Tel.: 2585-2000 que se reserva a

propriedade literária desta tradução

Impresso no Brasil ISBN 978-85-01-08023-3

PEDIDOS PELO REEMBOLSO POSTAL Caixa Postal 23.052 Rio de Janeiro, RJ -

20922-970

index-4_1.png

PDL – Projeto Democratização da Leitura

Em memória de Jenna Felice (1976-2001) e Marie Wilkinson (1952-2003). Uma de Nova

York, a outra de Sidney. Sinto saudades das duas.

index-5_1.png

PDL – Projeto Democratização da Leitura

1

Razão Cansino

Meu nome é Razão Cansino. Tenho 15 anos, estou grávida e sou mágica.

Poderia voar, se quisesse. Ou transformar chumbo em ouro. Ou meus inimigos em

sapos. Ou qualquer coisa, para falar a verdade.

Acho.

Ninguém sabe até onde vai minha magia. Muito menos eu.

Quando pequena, magia era, para mim, a sensação da água correndo pela minha pele

ao mergulhar no rio Roper e voltar à tona com um pitu na mão. Eu não fazia idéia de

como ele tinha ido parar lá.

Magia.

Sarafina ficava olhando da margem e aplaudia. “Isso! Isso!” E eu sentia tontura e

orgulho. Ou o gosto daquele pitu mais tarde, assado fresquinho na brasa, adocicado, e o

caldinho escorrendo pelo canto da boca.

Magia era uma chuva que caía sem parar por vários dias depois de anos de seca.

A primeira vez que tomei sorvete.

Histórias dos antepassados contadas ao pé da fogueira.

Vários Fibonacci jorrando sobre meu corpo, abrindo-se numa dança espiralada para

o infinito. Uma espiral que eu acompanhava em minha amonite, surgindo no ponto mais

minúsculo e se desenvolvendo por todo o sempre.

***

Antes de vir para a casa de Esmeralda, eu não sabia que magia existia. Agora sei que

uma pessoa com magia consegue vir de Sidney para Nova York atravessando uma porta,

consegue fazer luz simplesmente com a força do pensamento e fazer aparecer dinheiro do

index-6_1.png

PDL – Projeto Democratização da Leitura

nada, ou ainda confeccionar roupas que só faltam ter vida própria.

Sei também quanto custa essa magia. Se usar demais, você morre. E se usar de

menos, enlouquece. É a opção que há: magia ou loucura. Qual das duas?

Minha mãe, Sarafina, escolheu a loucura.

Minha avó, Esmeralda, a magia.

Meu avô também, Jason Blake, e meus amigos Tom e Jay-Tee.

Cada qual com uma quantidade finita de magia, encurtando suas vidas cada vez que

a usavam. Tique-taque. Tique-taque.

Quem pratica a magia não vive muito tempo. Se você usar um pouco apenas, nem

mais nem menos que uma vez por semana, será capaz de chegar aos 40 anos; se usar

muito, sem controle, talvez nem chegue aos vinte.

Éramos assim eu e Jay-Tee: sem controle sobre nossa magia. Eu, porque não sabia;

Jay-Tee, porque não estava nem aí.

Tom era comedido, cuidadoso, porque minha avó lhe ensinara, e porque sentira o

gosto da loucura da forma mais amarga. Melhor viver pouco e são, decidiu, que muito e

louco, como sua mãe, como a minha.

E, claro, sempre dá para trapacear. Basta encontrar uma pessoa que tenha magia mas

não conheça as regras e pedir um pouco da dela. (A pessoa não precisa entender a

pergunta, basta dizer que sim.) Use um truque, sugue a magia da pessoa, viva mais tempo.

Pegue um pouquinho (ou um montão) da vida dela e acrescente esse tanto à sua.

Tal e qual fizeram meus avós. Foi por isso que minha mãe escolheu a loucura.

Se você tem magia, não pode confiar em outra pessoa que também tenha. Ela vai

querer sugar tudo, vai querer roubar a sua magia de forma que você acabe morrendo

numa questão de segundos e ela viva para sempre. Ou chegue pelo menos até os

cinqüenta.

A magia é uma doença.

index-7_1.png

PDL – Projeto Democratização da Leitura

2

Hematomas

Embora minha barriga estivesse cheia de bacon, ovos, cebolas fritas e

cogumelos, ainda peguei o quarto rambutã. Enfiei a unha do polegar na grossa casca

avermelhada e peluda, abri e arranquei-a toda de uma vez, revelando a fruta translúcida

que havia dentro. Dei uma dentada e deixei que o sumo adocicado explodisse na minha

boca. Fazer uma coisa tão normal quanto comer evitava que eu entrasse em pânico.

Jay-Tee empurrou o prato para longe. Tinha comido o bacon mas não os ovos.

— O que foi? — perguntou.

— Nada. — Dei uma piscadela. Não consegui virar o rosto bastante rápido para

evitar ver quão frágil estava sua magia. Quão perto da morte ela estava.

Fazia menos de 24 horas desde que meu antepassado, que deveria estar morto, Raul

Emilio Jesus Cansino, me modificara. Toda vez que fechava os olhos, bastava piscar que

eu via magia. Luzes de todas as intensidades pontilhando a escuridão. Toda vez que meus

olhos se fechavam, o mundo mágico de luz tinha aumentado, esticado ainda mais.

Meu temor era de que aquilo não fosse acabar. Eu temia o que aquilo significava.

Não conseguira dormir ontem à noite e não sabia se voltaria a dormir algum dia.

Acima de tudo, odiava não conseguir enxergar Jay-Tee perfeitamente. A luz de Tom

estava forte e clara; a de Esmeralda, estonteante; mas a de Jay-Tee era uma manchinha,

mais pálida que a Via Láctea.

— Nada mesmo? — Tom perguntou, me olhando intensamente. — Não parece que

não foi nada. — Deu mais uma dentada no bolinho de chocolate. Ele não gostava de

frutas.

— É — disse Jay-Tee. — Você está esquisita. Por que você anda com os olhos

arregalados desse jeito?

index-8_1.png

PDL – Projeto Democratização da Leitura

Eu estava tentando não piscar. Meu recorde até o momento era de três minutos.

Mais que isso, meus olhos ardiam e lacrimejavam até que as pálpebras se fechavam. E lá

estavam as luzes da magia, só me esperando.

— Razão, lá vai você de novo! — Jay-Tee se levantou e caminhou na direção da

porta dos fundos. Recostou-se ali e ficou me olhando.

— Desculpe — falei. — Você não está pensando em atravessar a porta, está?

Jay-Tee soltou um riso contido.

— É claro que não. Esmeralda deixou bem claro que daqui não devemos passar.

Além disso, não sei onde está a chave.

— Ora, mesmo que soubesse, você não pode. Gastaria muita magia. E você não tem

o suficiente.

— Você está dizendo que não posso nem. .

A campainha tocou. Jay-Tee se afastou da porta.

— Eu atendo — disse, já partindo pelo corredor —, mas você vai ter de nos dizer o

que está acontecendo.

— É — disse Tom. — Não dá para ficar escondendo quando algo assim está

acontecendo com você. É uma droga para nós também, sabe? — A porta da frente se

abriu com um rangido. — Provavelmente são mórmons ou algo parecido.

Fechei os olhos e Tom era só magia, tão reluzente quanto a porta que dava na

cidade de Nova York. Agora já reconhecia a magia dele, sentia sua essência nela. Ele

ainda tinha vários anos pela frente. Jay-Tee estava mais para alguns minutos. Quis saber

quanto eu ainda tinha. Será que essa nova magia se esgotava do mesmo jeito que a antiga?

Jason Blake, pelo jeito, achava que sim, ao menos com relação à magia Cansino que ele e

Esmeralda tinham. Eu tinha algo diferente. Raul Emilio Jesús Cansino havia me

escolhido. Gostaria de poder enxergar dentro de mim mesma do jeito que os enxergava.

— O que foi? — Tom perguntou. — O que está acontecendo, Razão?

— Nada. Sério. O que são mórmons? — perguntei.

Do hall de entrada chegavam os sons de Jay-Tee conversando com alguém, mas

não dava para entender o que estavam dizendo.

index-9_1.png

PDL – Projeto Democratização da Leitura

— Ah, nem vem! — disse Tom. — Nem vem que você não sabe o que são os

mórmons!

Não fazia idéia mesmo. Deixei Tom me encher a paciência dizendo que eu não sabia

de nada, embora àquela altura ele já devesse ter se acostumado a isso. Peguei mais um

rambutã, desejando que o irmão da Jay-Tee estivesse conosco. Ele não riria de mim;

simplesmente me diria o que é um mórmon. Fiquei pensando se Danny ainda gostaria de

mim com os olhos vermelhos e lacrimejantes e barriguda, grávida do nosso filho. Como

eu iria lhe contar isso?

— Você nunca ouviu falar mesmo dos mórmons?

— Não.

— Razão! — Jay-Tee berrou lá da porta da frente. — É para você.

Coloquei a fruta em cima da mesa, limpei a boca e saí da cozinha pelo corredor. No

hall havia uma mulher de jeans e camiseta, cabelos curtos e emplumados, e uma mochila

pendurada num ombro só. Estava sorrindo para mim.. melhor dizendo, estava radiante

em me ver.

Quando pisquei, só havia escuridão onde ela estava.

— Então, você deve ser a Razão. Achei que fosse a Jay-Tee aqui, mas já

esclarecemos isso. Não que vocês se pareçam. Exceto pelos hematomas. Vocês duas

andaram se metendo em briga?

Jay-Tee levou a mão ao rosto e eu ao olho no mesmo instante. O hematoma de Jay-

Tee tinha tons variados de roxo, vermelho e azul, uma recordação da tentativa de

Esmeralda para lhe dar a magia de Raul Cansino. Como ela não era Cansino, a magia não

pegou.

— Duas brigas diferentes, pelo jeito. Seu hematoma é mais antigo, não é? —

perguntou ela, olhando meu rosto mais de perto. Eu quase tinha me esquecido; já fazia

alguns dias e a mancha estava diluída em tons esmaecidos de amarelo e marrom.

Consegui aquilo mexendo na caixa pesada enterrada no porão, que esbarrou forte no meu

rosto quando puxei para arrancá-la do fundo. Lá dentro foi que encontrei o cadáver

ressecado de Le Roi, o gato da minha mãe.

index-10_1.png

PDL – Projeto Democratização da Leitura

A mulher esticou a mão.

Eu a apertei, querendo saber quem seria. Ela percebeu minha expressão e soltou

uma risada.

— Sou sua assistente social. Jennifer Ishii.

— Olá — falei, pensando, Minha assistente social? Depois me lembrei. Um milhão de

anos atrás, quando minha mãe Sarafina enlouqueceu e foi mandada para Kalder Park e eu

enviada para a casa de minha avó, Esmeralda, disseram que uma assistente social viria me

ver quinzenalmente. Disseram várias outras coisas também. Eu estava tão atarantada que

não ouvi nem metade. Embora não fizesse um milhão de anos: tinha acontecido há

apenas 12 dias.

Duas semanas atrás eu não tinha um amigo sequer no mundo; agora tinha Tom, Jay-

Tee e, lá em Nova York, Danny. Duas semanas atrás, eu não estava grávida. Nem sabia

que era mágica.

— Esqueceu que eu viria hoje?

— Hã. . — Não sabia ao certo se Esmeralda tinha me dito o dia exato que a

assistente social deveria vir me visitar.

— Posso entrar?

— Ah — falei. Tom veio e parou atrás de mim. Jennifer Ishii deu um passo para

dentro da casa de Esmeralda e estendeu a mão para ele.

— E você, quem é?

— Tom. Meu nome é Tom Yarbro.

— E esteve na mesma briga que Razão e Jay-Tee? — ela se inclinou para frente,

espiando o rosto dele.

Tom ficou confuso.

— Ah, está falando disto? — ele tocou no curativo do arranhão que arranjara por

cortesia do meu avô, Jason Blake.

— É minha assistente social — sussurrei para ele, o que foi uma besteira, pois ela

estava bem ali na nossa frente.

Antigamente, antes de saber sobre magia, tudo que eu queria era fugir da minha avó

index-11_1.png

PDL – Projeto Democratização da Leitura

e resgatar minha mãe. Naquela época, eu tinha planejado convencer a assistente social de

que estava sendo maltratada, para que me tirassem de perto da Esmeralda. E lá estava eu

com um hematoma incriminador estampado no meio do rosto. Bastava eu dizer Ela me

bateu! Ela bate em todo mundo! que Jennifer Ishii me tiraria dali mais rápido que um

crocodilo pegando a presa. Mas eu não queria ir. Queria ficar na casa de Esmeralda.

Ainda não confiava nela. De todo, não. Mas me sentia segura ali, com meus amigos e

longe das garras do meu avô.

— Assistente social? Hum — disse Tom.

— Isso mesmo. Meu dever é olhar pelo bem-estar de Razão. Como vão as coisas, se

ela está sendo bem cuidada. Tem sido alimentada? Você não parece estar passando fome,

Razão. Está bem acomodada? — Ela olhou à volta. — As instalações me parecem

fabulosas.

— Você não parece assistente social — disse Tom. — Não deveria estar usando um

terninho, ou algo que o valha?

Jennifer Ishii soltou mais uma risada.

— Devemos nos apresentar com decência. Não gosto de terninhos e já descobri que

a maioria dos meus clientes também não.

— Clientes? — Jay-Tee perguntou.

A mulher deu de ombros.

— É assim que chamamos as pessoas que fiscalizo. Então, o que têm a me dizer

sobre esses machucados em todos vocês?

— Só estávamos... — Não concluí a frase.

— Arrumando encrenca — Jay-Tee concluiu.

— Razão caiu no porão. — Tom falou ao mesmo tempo.

Eu confirmei.

— Tropecei.

— No porão?

— Hum, hum.

— Estavam todos fazendo bagunça no porão?

index-12_1.png

PDL – Projeto Democratização da Leitura

— Ah, não — disse Jay-Tee. — Tom e eu não. Nós estávamos brigando e a coisa

saiu um pouco do controle. Mas eu ganhei, porque o Tom levou um talho, mas só fiquei

com essa mancha.

— Essa não. Quem disse que você ganhou? O meu corte foi pequenininho. Esse

hematoma é que é dos grandes. Toma quase o rosto inteiro. Não dá para você dizer que..

— Entendi. — Jennifer Ishii cortou, sorrindo um pouco menos agora. — Quer me

mostrar seu quarto, Razão? Mostre a casa, também, por favor. Ou prefere sentar e bater

um papo antes? Acho que precisamos conversar, você não acha?

Dei uma piscadela. Enxerguei a luz fraca de Jay-Tee, a mais forte de Tom e a

inexistente de Jennifer Ishii. Ela não tinha magia. Como Danny, era totalmente

desprovida de magia. Não havia como ela gastar magia. Nem corria o risco de morrer

jovem.

— Acho que sim. Estávamos acabando de tomar o café-da-manhã.

Levei-a até a cozinha e puxei um banco debaixo da mesa. Ela se sentou, olhando

pela janela para a figueira imensa no quintal dos fundos que, por alguma razão, Tom e

Esmeralda chamavam de Filomena.

— Ótima cozinha! Quintal bacana! Você sobe naquela árvore?

Confirmei que subia, mas logo pensei se deveria. Subir em árvores era uma coisa

ruim? Complicaria as coisas para o lado da Esmeralda? — Quer dizer, só de vez em

quando. E com todo o cuidado.

— Quer comer alguma coisa, Sra. Ishii? — disse Jay-Tee, me socorrendo.

— Pode me chamar de Jennifer.

— Jennifer — Jay-Tee continuou, obediente. — Tem fruta. Embora algumas sejam

meio esquisitas. — Ela empurrou a travessa de frutas mais para perto da assistente social.

— Ou beber algo? — perguntei.

— Alguma coisa para beber seria ótimo. Isso é suco de laranja?

Jay-Tee se levantou num pulo, pegou um copo e serviu.

— Obrigada — disse a mulher, e tomou um gole. — Então, vocês dois também

moram aqui? — perguntou para Jay-Tee e Tom.

index-13_1.png

PDL – Projeto Democratização da Leitura

Jay-Tee confirmou. Tom balançou a cabeça.

— Ela é uma amiga — soltei logo. — Dos Estados Unidos.

— Eu sou vizinho — Tom respondeu ao mesmo tempo.

Jennifer Ishii sorriu.

— Que interessante! Eu não sabia que você já tinha ido aos Estados Unidos, Razão.

Como foi que as duas se conheceram?

— Os pais dela são amigos da Esmeralda — disse rapidinho, na esperança de que

ela não pedisse para ver o passaporte de Jay-Tee ou algo semelhante. Não achei que Jay-

Tee tivesse um. Mesmo que tivesse, provavelmente estaria em Nova York, do outro lado

da porta.

— Você sempre chama sua avó pelo nome?

Confirmei, piscando novamente, e tornei a me surpreender ante a total falta de magia

de Jennifer Ishii. De olhos fechados, parecia que ela não estava ali. Comecei a temer o

momento em que Jay-Tee iria desaparecer daquele jeito.

— Todo mundo a chama desse jeito — disse Jay-Tee. — Acho que ela quer parecer

mais jovem. — Jay-Tee esticou as mãos com as palmas voltadas para cima como que

dizendo Sei lá! — A princípio achei que fosse coisa de australiano. Razão nunca chama a

mãe dela de “mãe”. Já o Tom chama. Meus pais disseram que eu poderia vir visitá-los, já

que a Esmeralda nunca tomou conta de uma adolescente antes.

— Seus pais acharam que seria mais fácil ela cuidar de duas? —Jennifer Ishii não

ergueu as sobrancelhas nem mudou de tom, mas não havia dúvida de que estava

provocando Jay-Tee. Fiquei sem saber se isso seria bom ou ruim.

— Acho que papai e mamãe ficaram ansiosos e quiseram arranjar companhia para

Razão.

— E quanto tempo você vai ficar?

— Não sei.

— Quanto tempo faz que está aqui?

— Não muito. Mais ou menos uma semana. Estou gostando bastante. Lá em casa

está fazendo um frio de rachar. Além do mais, não temos os maiores morcegos do

index-14_1.png

PDL – Projeto Democratização da Leitura

mundo. Adorei esses bichos.

— E onde é “lá em casa”?

— Nova York.

— Deve ser maravilhoso. Sempre quis conhecer.

Jay-Tee deu de ombros.

— É, lá é legal. Tem. . — Ela não concluiu a frase. Fiquei curiosa para saber o que

iria dizer.

— Tem o quê, Jay-Tee?

— Pizza. A pizza de Nova York é muito melhor que a pizza daqui. A daqui tem um

monte de coisa esquisita. E é fininha demais. Tem até pizza sem queijo. Se não tem

queijo, não é pizza.

— Como é que você está se dando com a avó de Razão?

— Gosto dela à beça — Jay-Tee respondeu. — É muito mais legal morar aqui com

ela do que com meus pais.

Jay-Tee mentia sem fazer esforço algum. Seus pais estavam mortos. A mãe morreu

pouco depois que ela nasceu, e o pai, ela acabara de ficar sabendo que falecera. Fugira de

casa, não morava com ele havia mais de um ano. Nenhum dos dois conhecia Esmeralda.

Afastei o rosto antes de piscar novamente. Não queria ver a manchinha de sua magia

outra vez.

Jennifer Ishii tomou mais um gole do suco de laranja.

— E o que você acha de Esmeralda, Razão?

— Ela é legal. — Respondi com certa precaução. Com certeza ela sabia que eu tinha

passado a maior parte da vida fugindo da minha avó, que cheguei a implorar para não ter

de morar com ela. Já nem me lembrava de ter sentido essas coisas. Não era que eu

confiasse em Esmeralda agora. Não totalmente. Mas não havia outro lugar onde eu

quisesse estar agora que não fosse a casa dela. — Não é tão ruim quanto eu pensava.

— Esmeralda é o máximo — Tom entrou na conversa. — Superlegal comigo. Vive

me ensinando um monte de coisas. .

— Um monte de coisas?

index-15_1.png

PDL – Projeto Democratização da Leitura

— Roupas — Jay-Tee respondeu. — Esmeralda ensinou a Tom como fazer roupas.

Ele é bom nisso. Bom mesmo! — Ela apontou para minha calça. — Está vendo? Foi

Tom quem fez. Ele agora sabe mais que Esmeralda.

Jennifer Ishii olhou para minha calça.

— Puxa, muito legal, Tom! Não quer fazer uma igual para mim?

Tom abriu a boca e ela riu. Pareceu um sorriso sincero.

— Estava brincando. Então, onde está Esmeralda?

— Trabalhando — respondi.

— Ela passa muito tempo trabalhando?

— Não — neguei, ao mesmo tempo que Tom disse:

— Sim.

— Não é bem assim — Jay-Tee falou. — Tom está comparando com o pai dele,

que trabalha na universidade.

Vi um sorriso se formando no canto da boca de Jennifer Ishii e logo desaparecendo.

— Mas nunca está lá — Jay-Tee continuou. — Passa praticamente o tempo todo em

casa.

— Estamos no verão agora — Tom protestou. — Papai fica em casa. Quero dizer,

não vai dar aulas, mas trabalha. Está escrevendo um livro.

Jay-Tee revirou os olhos.

— Há quanto tempo ele está escrevendo esse livro, Tom?

— Um bom tempo.

— Há anos — Jay-Tee contou para a assistente social.

— E daí? — disse Tom. — Não é a mesma coisa que escrever uma lista de compras.

— Esmeralda volta na hora do almoço — falei só para calar a boca deles. — Quase

sempre almoça com a gente.

— E traz umas guloseimas, como chocolate. .

— E coisas saudáveis também — Jay-Tee interrompeu. — Você viu as frutas, não

viu?

Jennifer Ishii reprimiu outro sorriso.

index-16_1.png

PDL – Projeto Democratização da Leitura

— Então, o que têm feito nas férias? — perguntou.

Nós nos entreolhamos. Vejamos, pensei, eu me apaixonei pela primeira vez, pelo

irmão da Jay-Tee, Danny. Transei pela primeira vez, engravidei, descobri que existe

magia, fugi para Nova York, embora na ocasião eu não soubesse que ficava do outro lado

da porta dos fundos da casa da Esmeralda. O que mais? Descobri que minha mãe mentiu

para mim a vida inteira, conheci meu avô do mal, Jason Blake, também conhecido como

Alexander. E, ainda, meu antepassado, morto há muitíssimo tempo, me transformou em

não-sei-o-quê. Pelo que eu saiba, ele bem que poderia estar vivendo dentro de mim,

transformando-me em. .

— Estudando — Jay-Tee falou.

— Isso é louvável. O que têm estudado?

Magia, pensei. Tudo sobre magia.

— Praticamente tudo — Jay-Tee respondeu. — Quase sempre Razão está

ensinando matemática para mim e para Tom, porque nós não temos jeito mesmo.

— Não me meta nessa — atalhou Tom. — Geometria eu sei à beça!

— E — continuou Jay-Tee, ignorando-o — nós estamos ensinando todo o resto

para ela. Falando sério, Razão não sabe nada de nada.

— Eu sei, sim.

— O que é um mórmon, Ra? — Tom perguntou. Fiquei vermelha.

Jennifer Ishii abriu um sorriso largo.

__ Ra? É o seu apelido, Razão?

— É — falei, embora antes de conhecer Tom e Jay-Tee ninguém tivesse me

chamado assim.

— Você prefere ser chamada de Ra ou de Razão?

— Tanto faz, ora. — Não sabia bem se queria qualquer outra pessoa além de Tom

e Jay-Tee me chamando de Ra. Parecia íntimo demais.

— E quando não estão estudando, o que vocês fazem?

Tom deu de ombros.

— Passeamos. Já levei as duas para conhecer Newtown. Elas não conhecem quase

index-17_1.png

PDL – Projeto Democratização da Leitura

nada de Sidney.

De repente, do nada meu estômago deu um salto e minha boca se encheu de bílis.

Corri para o banheiro do andar de baixo que fica pertinho da cozinha. Mal cheguei a

tempo de encher a privada com o café-da-manhã. Por que estaria vomitando? Não estava

passando mal nem nada.

— Você está bem? — Jennifer Ishii perguntou à porta do banheiro.

Soltei um rosnado enquanto esperava mais um pouco antes de levantar a cabeça,

caso viesse mais uma golfada.

— Está passando mal? — Ela se aproximou e colocou a mão na minha testa. —

Não está quente.

Balancei a cabeça. Só grávida, me dei conta. Só podia ser isso. Gravidez não dá

enjôo?

— Ela está nervosa — escutei Tom falando. — E costuma enjoar quando fica

nervosa.

Ergui a cabeça e esfreguei a boca com o dorso da mão.

— Não estou, não. — Levantei-me cambaleante e dei descarga no vaso.

— Deixe que eu ajude. — Jennifer Ishii me levou até a pia. — Está tonta? A barriga

dói? Não seria alguma coisa que você comeu?

Desejei que ela fosse embora. Enxaguei a boca, em seguida lavei o rosto e as mãos.

Meus olhos arderam, de forma que os fechei. Luzes de magia por todo canto. Tornei a

abri-los.

— Deve ter sido alguma coisa que comi. Mas a barriga não está tão ruim agora. —

O que era verdade. A horrorosa sensação de enjôo tinha passado totalmente. Levantei-me

e esfreguei as mãos na toalha.

— Quer se sentar?

— Não, estou bem. Sério. Estou me sentindo muito melhor agora.

— Tem certeza?

— Tenho. Independentemente do que tenha sido, já passou. Estou bem.

— Então, foi nervosismo?

index-18_1.png

PDL – Projeto Democratização da Leitura

Abri a boca para dizer que não e resolvi que concordar seria melhor que admitir a

verdadeira razão. De fato, não daria uma boa impressão estar grávida há menos de duas

semanas sob o teto de Esmeralda.

— Ora, talvez um pouquinho. Não estou acostumada com assistentes sociais.

Ela tornou a sorrir.

— Imagino que não. — Perguntei-me se todos os assistentes sociais recebiam

instruções para rir e sorrir o máximo possível. Talvez achassem que isso relaxava os

clientes. — Mas se acontecer outra vez, vá ver um médico. Vomitar desse jeito não é

normal.

— Pode deixar.

— Está bem o suficiente para me mostrar seu quarto agora?

— Estou.

— Tem certeza de que está se sentindo bem?

Como respondi a essa pergunta?

— Acho que sim — foi o que disse.

— Você sempre costuma vomitar assim, de nervoso? Lancei um olhar arregalado

para Tom.

— Acho que sim.

index-19_1.png

PDL – Projeto Democratização da Leitura

3

Sozinha, não

Jennifer Ishii vistoriou meu quarto devagar. Fiquei observando, tentando não

demonstrar nervosismo, embora depois daquela vomitada eu nem soubesse mais por que

me preocupar. Fiz com que Tom e Jay-Tee ficassem lá embaixo para evitar que sem

querer dissessem alguma coisa errada outra vez.

Ela correu um dedo pelo topo da estante, abriu as portas de vidro e foi para a

varanda.

— Bela vista! — disse, embora só desse para ver a rua e carros estacionados e

algumas casas, sobrando apenas pedacinhos de verde e árvores mirradas plantadas fora do

caminho com raízes cobertas de asfalto.

Ela deu uma espiadela no armário. Mexeu no cabide com o casaco de inverno que

Danny trouxera para mim.

— Acho que não vai dar para você usar isso por aqui. Você não tem muitas roupas,

não é mesmo?

— Não. Esmeralda me disse que vai comprar mais.

— Você sempre a chama de Esmeralda?

— Chamo. É o nome dela. Ainda não nos conhecemos tão bem assim.

— Não — disse Jennifer Ishii, sorrindo. — Imagino que não.

Ela entrou no banheiro.

— Que delícia! Deve ser ótimo ter seu próprio banheiro.

— Verdade. Nunca tive. É ótimo.

— Está feliz, Razão?

Pisquei, enxergando pontinhos de luz de magia e a lacuna escura onde Jennifer Ishii

deveria estar. Estremeci novamente. Ela não estar lá me assombrava. Era como se

index-20_1.png

PDL – Projeto Democratização da Leitura

estivesse morta.

— Você está bem?

Confirmei.

— Sério? Não parece bem. Nem feliz.

— Sinto falta da minha mãe. — Era verdade. Sentia falta da vida que levávamos

juntas. Falta de vê-la sã, ou ao menos que não estivesse maluca de uma forma tão

medonha como estava agora. Sarafina sempre foi estranha. Até o pouco que eu conhecia

das outras pessoas havia me ensinado isso. Sentia falta do tempo em que desconhecia a

magia.

E mesmo tendo passado apenas uma noite, senti falta de fechar os olhos sem ver

aquilo por todo canto. Senti falta de ser quem eu era antes do Raul Cansino ter feito o

que fez comigo. Senti falta de conseguir dormir. E de Danny. Senti falta de Danny, muito

embora só estivéssemos afastados havia um dia. Jay-Tee ligou para ele, mas eu não. Não

quis que Tom nem ela mesma pudessem escutar qualquer coisa.

— Já foi visitar sua mãe?

— Fui, duas vezes, mas ela. . não é mais a mesma pessoa. — Sentei-me na cama.

— Você tem dormido o suficiente?

Abri a boca para falar, mas tornei a fechá-la.

— Está com umas olheiras enormes. E os olhos vermelhos. Como se andasse

chorando por aí, o tempo todo.

Não como se eu andasse chorando... mas como se andasse tentando parar de piscar,

para deixar de ver o mundo do jeito que Raul Cansino via: um mundo de magia.

— Não durmo muito bem. — Não disse a verdade. Normalmente, durmo bem, mas

ontem o velho me deu sua magia e afastou meu sono. Fiquei pensando em que condições

estaria dali a uma semana.

— Sua avó cuida bem de você? — Jennifer Ishii estava espiando bem o meu rosto,

estudando a mancha roxa amarelecida em torno do meu olho.

Levei a mão lá.

— Ah, não, isso não foi Esmeralda. De verdade. Eu tropecei.

index-21_1.png

PDL – Projeto Democratização da Leitura

— No porão?

— É verdade. Esmeralda nunca bateria em mim. — Beber da minha magia, talvez,

mas me bater, não.

— Mas costuma deixá-la sozinha em casa?

— Até que não — falei. — Praticamente não fiquei sozinha desde que cheguei.

Primeiro Tom, depois Jay-Tee. — E Danny. — Nós três estamos sempre juntos. Como

eu disse, Esmeralda quase sempre vem para o almoço. E o pai de Tom está sempre de

olho na gente. Pode ir lá falar com ele, se quiser. — Aí me lembrei de Tom dizendo que o

pai iria passar a manhã toda na biblioteca.

— É o que vou fazer depois de falar com sua avó.

— E, também, nós estamos com 15 anos, não somos mais bebês que não podem

ficar desacompanhados. Minha mãe tinha 15 anos quando eu nasci.

— O que não é recomendável. Mas, Razão, eu me preocuparia com um adulto que

estivesse passando pelo que você está.

Fiquei sem saber o que dizer. Ela não estava se referindo à magia. Tentei pensar no

que poderia estar querendo dizer.

— Deve ter sido horrível você chegar e encontrá-la daquele jeito, e precisar chamar

a ambulância. .

Meus pensamentos deram um salto para minha mãe, coberta de sangue. Tinha

tentado se matar. Pisquei, tentando afastar a imagem, e só vi magia: a de Tom, a de Jay-

Tee, todos os objetos mágicos na casa e na do vizinho, e, um pouco mais longe, Sarafina,

e ainda, acho, a mãe de Tom também, ambas no sanatório, e mais além uma infinidade de

outras luzes mágicas, de quem ou do que eu nem sei. Cambaleei. Jennifer Ishii me firmou.

— Você está bem, Razão?

Confirmei que estava, embora meus olhos tivessem se enchido de lágrimas. Ardiam,

mas, ao mesmo tempo, trouxeram uma sensação gostosa para meus olhos. Não chegaram

a escorrer.

— Tome — disse ela, entregando-me um lenço de papel.

— É bom chorar, Razão. Pode chorar, fique à vontade. Pisquei, vi magia. As

index-22_1.png

PDL – Projeto Democratização da Leitura

lágrimas já haviam sumido.

— Houve alguma oportunidade de conversar com alguém sobre o que você teve de

enfrentar? Sua avó? Seus amigos?

Balancei a cabeça.

— Ainda não. — Havia tantas outras coisas sobre as quais falar: magia e a opção

entre usá-la e morrer jovem ou deixar de usá-la e enlouquecer, a nova magia Cansino, o

bebê que crescia dentro de mim..

— Pode lhe fazer bem, Razão. Conversar com alguém.

— Ela me entregou um cartão. — É uma psicóloga. Minha amiga. A Isabella sabe

ouvir, e também sabe sugerir boas formas de você se cuidar. Vou falar com sua avó sobre

ela. Vai lhe ser útil, Razão. — Jennifer Ishii me olhou como se tivesse feito uma pergunta.

Afastei os olhos para me poupar da estranha sensação de não vê-la quando eu

piscasse.

— Razão, você tem passado por tanta coisa! É compreensível que fique triste, ou

zangada, ou nervosa, ou como quer que você venha se sentindo. É preciso vivenciar esses

sentimentos. É preciso descansar, cuidar de si mesma. Está tudo tão recente. Num

curtíssimo período de tempo, você passou por tanta coisa, inclusive a mudança para uma

nova casa, a nova cidade. Só isso já seria o bastante para muita gente.

— Você não vai me afastar de Esmeralda, vai?

Jennifer Ishii tornou a sorrir, mas um sorriso menor desta vez. . mais verdadeiro,

mais triste também.

— Claro que não. Minha função é zelar para que você esteja bem. A última coisa

que você precisa agora é de uma nova mudança. Eu não recomendaria a menos que fosse

absolutamente necessário. Você tem sorte, Razão. A maior parte das crianças na sua

situação não vai parar numa casa tão bacana. Sua avó tem muito dinheiro, mas devo

lembrar que nem sempre um lar onde há muito dinheiro seja feliz. Crianças podem ser

maltratadas em qualquer lugar. Tento não me deixar distrair pela beleza deste lugar.

Tenho a impressão de que você precisa de mais atenção do que sua avó tem lhe dado.

Ninguém que tenha passado pelas experiências que você passou pode ficar sozinha. Você

index-23_1.png

PDL – Projeto Democratização da Leitura

está com apenas 15 anos, Razão. Precisou cuidar de si mesma e da sua mãe durante muito

tempo. Não é necessário continuar enfrentando tudo sozinha.

Ela olhava fixamente para mim. Fiz que concordei com a cabeça, sem saber o que

dizer. Não estava preparada para que ouvir algo daquele tipo. Será que eu cuidava mesmo

da Sarafina?

— Promete que vai procurar a Isabella?

— Isabella?

— A psicóloga.

Olhei para o cartão na minha mão. ISABELLA SAN-DITON, PSICOLOGIA

INFANTIL. Não pude nem me imaginar gastando tempo com uma desconhecida a quem

deveria contar uma parcela ínfima das minhas atribulações quando eu tinha problemas

muito maiores e assustadores nas mãos, como, por exemplo, o que fazer com essa

medonha forma Cansino de enxergar, o que fazer para evitar que Jay-Tee morresse e o

que fazer para trazer minha mãe de volta à sanidade. Isso sem falar em tornar a ver o

Danny e lhe contar sobre o nosso bebê.

Soltei um grunhido.

— Vou dizer o mesmo à sua avó.

Concordei com um gesto da cabeça apenas.

— Está preparada para a prova? Fiquei feliz em saber que você está se dedicando.

Foi ótima a decisão de entrar para a escola, embora não precise mais.

— Sempre quis entrar para a escola — falei, um pouco confusa. — Que prova?

— Sábado agora. Prova de nivelamento escolar.

— Nivelamento escolar? — Não fazia idéia do que ela estava falando.

— Não é para isso que você vem estudando?

— Hum.

— Não sabe? Deveriam ter lhe contado alguma coisa. Todas as informações têm

sido enviadas para este endereço. Sua avó não disse nada?

Tarde demais para mentir.

— Não que eu me lembre.

index-24_1.png

PDL – Projeto Democratização da Leitura

— Mas deveria ter contado.

A testa de Jennifer Ishii se contraiu e seus lábios se arquearam para baixo antes que

ela se lembrasse de sorrir.

Mais uma mancha negra contra minha avó.

Não foi nem o fato de ela não ter tido tempo para me passar as informações. O

primeiro dia eu fiquei trancada no meu quarto sem falar com ela, depois passei pela porta

e fui parar em Nova York. Não houve sequer um momento de tranqüilidade em que

pudéssemos conversar sobre meu futuro. Certo, houve sim, mas foi sobre o futuro mais

imediato e premente: Não use a magia, senão você vai morrer; sua mãe é uma mentirosa;

seu avô, um homem muito mau. Nem uma menção sequer sobre minha prova de

nivelamento escolar.

— Você não tem histórico escolar, Razão. Vai precisar fazer um teste para que

possamos saber em que turma colocá-la. Obviamente, seria ótimo se você conseguisse se

classificar para a turma da sua idade, para ficar igual aos colegas de classe, mas você teve

uma vivência muito fora do comum. Não temos como saber se vai conseguir acompanhar

o currículo da série.

Concordei.

— Faz sentido.

Ela abriu a mochila e retirou de lá uma pilha de papéis.

— Sua avó já deveria ter essa papelada, mas deixo tudo aqui caso ela não tenha. A

prova é no sábado. Venho pegá-la meia hora antes. Tudo bem?

Concordei novamente.

— Você pode falar comigo através desses números. — Ela apontou para o topo de

uma das folhas que carregava e me entregou um cartão. — Pegue o meu cartão. As

mesmas informações, num formato menorzinho. Pode me ligar, a hora que quiser. Estou

falando sério, Razão. Mesmo que precise de ajuda às 4h da madrugada, quero que me

ligue, está bem? — Jennifer Ishii perdeu novamente o sorriso e me olhou fixamente

como se. . não sei direito. Como se estivesse com pena de mim.

— Ligo, sim — falei, pegando os papéis. Tive a sensação de estarem escorregadios.

index-25_1.png

PDL – Projeto Democratização da Leitura

— E se continuar vomitando desse jeito, vá consultar um médico. Certo?

Concordei.

— Acho que vi tudo que precisava ver. Você ajudou bastante, Razão. Sei que isso

deve lhe parecer estranho.

Há coisas bem mais estranhas, pensei.

index-26_1.png

PDL – Projeto Democratização da Leitura

4

Potes e panelas

— Então, você vai para um lar adotivo? — Jay-Tee perguntou, o que fez Tom

sentir vontade de espancá-la. Não dava para perceber que Razão estava abalada? Mas deu-

lhe apenas um cutucão.

— O que foi? — Jay-Tee se virou, olhando para ele com os olhos arregalados. —

Ela sabe que estou brincando, Tom.

Tom não achava isso. Razão vinha agindo de forma estranha desde que voltou do

cemitério. Ficava olhando para o infinito como se conseguisse enxergar coisas que eles

não conseguiam. Esquisito, aquilo! Não era surpresa alguma esse comportamento maluco

dela: afinal, aquele monstro horroroso tinha feito coisas indizíveis com ela no cemitério.

Muito bem, talvez não exatamente indizíveis. Tom seria capaz de dizer o que tinha

acontecido: aquela coisa ancestral dos Cansino engravidara a Razão usando magia. Ele

não sabia se conseguiria agüentar aquilo sem explodir. Que espécie de bebê seria? Se

estivesse no lugar de Razão, faria muito mais do que fitar o infinito.

— Estou bem — disse Razão. — Não foi tão ruim assim. A Jennifer Ishii até que é

legal. Pois é, para uma assistente social..

— Para uma pessoa cujo trabalho é fuxicar a vida de outras pessoas — disse Jay-

Tee. — Ela sorri demais.

Tom não conseguiu deixar de concordar. A moça realmente exagerava.

— Apenas gentileza — falou Razão em tom monocórdio, como se falar a levasse à

exaustão. — Provavelmente o emprego dela exige sorrir muito. Para mostrar que não vai

fazer mal. Deve ser por aí.

Tom ficou pensando se ela não estaria cansada por causa da gravidez. Por acaso não

seria ainda mais cansativo estar gerando dentro de si um estranho bebê filho da magia?

index-27_1.png

PDL – Projeto Democratização da Leitura

Ou seria talvez cedo demais para que isso tivesse algum efeito? Mesmo sem o fato da

gravidez, o dia de ontem fora exaustivo. Razão poderia estar acabada por ter lutado

contra o avô, por toda a magia que usou, por tudo isso junto. Tom levou o dedo ao

curativo no próprio rosto. Sabia que ele mesmo ainda estava abalado.

— Pode ser — disse Tom. — Contanto que não a leve daqui.

— Não vai levar.

O que Tom queria era ter certeza disso. Achava que eles não tinham dado uma boa

impressão.

— Quer sentar? — perguntou. — Você parece exausta.

— É mesmo — disse Jay-Tee. — Não seria melhor deitar um pouco?

— Para falar a verdade, estou um pouco cansada.

Subiram todos para o quarto de Razão. Ela se deitou sobre a colcha e fechou os

olhos. Tom não conseguiu deixar de pensar em como estava bonita. Razão abriu os olhos

e ele enrubesceu.

— Você está bem? — perguntou.

— Estou. Não estou. — Ela soltou um suspiro profundo. - Não sei, Tom. Estou

confusa, exausta, tonta.

— Eu também — disse Tom. — Bem, tonto não, mas confuso estou. Será que. . —

Calou a boca.

— Será que o quê? —Jay-Tee perguntou, sentando na beira da cama.

— Nada — falou Tom, puxando uma cadeira e se sentando. Ia perguntar se Razão

sabia que Esmeralda tinha roubado um pouco da magia dele. Mas não sabia se isso ainda

tinha importância; além do mais, era egoísmo ele se preocupar com isso quando havia um

monstro crescendo na barriga de Razão.

Continuaram agindo normalmente a manhã inteira. Tom nao sabia ao certo se queria

ser o responsável por romper o encanto. Durante o café-da-manhã, ninguém mencionou

nada do que tinha acontecido: nem o velho esquisitão engravidando Razão, nem a nova

magia envenenada que ele dera para ela, nem Esmeralda nem o velho cara de sapo Jason

Blake; nem o fato de que Jay-Tee tinha quase morrido. Jay-Tee só estava viva porque

index-28_1.png

PDL – Projeto Democratização da Leitura

Tom tinha lhe dado um pouco de sua magia.

Tom sentia pairando no ar à volta deles todas as coisas sobre as quais não estavam

falando. Se fechasse os olhos, provavelmente as enxergaria como hexágonos, trapézios e

paralelepípedos. Não que fosse tornar a usar sua magia. Pelo menos não durante a

próxima semana.

Na semana passada, usou mais magia do que nunca: deu um pouco a Jay-Tee, depois

usou boa parte perdendo a paciência com Esmeralda e mais ainda ajudando-a na luta

contra Jason Blake. Quanta magia teria gastado? Estaria tão perto da morte quanto Jay-

Tee? Não sentia nada de diferente. Mas nunca tinha usado tanta magia antes. Não fazia

idéia de quantos dias, ou semanas, talvez anos teria consumido ali.

E quem saberia o que estava para acontecer com Razão? O que exatamente aquela

magia nova faria? Será que ela poderia explodir por uma sobrecarga de magia? Mais um

pensamento que ele quis afastar.

Pelo jeito, nenhum dos três queria pensar em tais coisas; sequer falavam a respeito.

Razão olhava fixamente para o teto, Jay-Tee, para as mãos, e Tom, para as duas.

— Quer um pouco de água, Razão? — Tom acabou falando.

— Isso — disse Jay-Tee. — Água: a cura mais conhecida para a confusão.

— Eu estou com sede.

Tom lançou-lhe um olhar de eu-não-disse? e foi até o banheiro encher o copo.

Entregou-o para Razão e ela lhe deu um meio sorriso.

— Está precisando de mais alguma coisa? — perguntou. Queria fazer alguma coisa.

— Posso preparar um sanduíche — ofereceu Jay-Tee. — É minha especilidade.

Razão balançou a cabeça.

— Não. Estou legal. Acho que só preciso descansar um pouco.

— Posso imaginar — falou Tom. — Dá canseira só de pensar no que aconteceu.

Jay-Tee soltou um suspiro prolongado.

— Pois é.

— Hum, pois é — disse Razão. — Eu estava pensando em ficar sozinha.

Descansando, sabe?

index-29_1.png

PDL – Projeto Democratização da Leitura

— Ah, claro. — Tom deu um pulo e se levantou, empurrando a cadeira para trás.

— Desculpe — Jay-Tee falou, levantando-se. — Estamos indo.

***

— Ela vai dar um jeito em tudo — Jay-Tee disse para Tom na cozinha. Os dois

estavam colocando as coisas no lugar lentamente, como se os eventos da semana anterior

estivessem exercendo um peso tão grande sobre eles que mal os deixavam se mexer. Tom

precisou fazer várias viagens para conseguir guardar na geladeira a manteiga, os três tipos

de geléia e o Vegemite. Tinha perdido a habilidade de empilhar coisas. Jay-Tee demorou o

mesmo tanto para colocar tudo no lava-louças.

— E isso, não entra? — disse ele, ressentindo-se por estar falando igual à

Esmeralda. — Nada de madeira. Nem potes ou panelas, nem as facas boas. — Esmeralda

era um pouco exigente com a cozinha e tudo mais ali dentro. Por que não era igual com

as roupas? Tom parou para pensar na bagunça ensandecida que era o quarto dela. Como

é que alguém pode se preocupar mais com objetos de cozinha do que com as próprias

roupas? Na sua casa, colocavam tudo na lava-louças.. por outro lado, eles não tinham

nenhuma faca “boa”.

— É para lavar na mão, então?

Tom confirmou com um gesto da cabeça, embora não entendesse que importância

tinha isso. Percebeu que estava à beira de um ataque de “dane-se”. Jay-Tee colocou o

tampão na pia e ligou a água quente. Despejou um pouco de detergente. A pia se encheu

de borbulhas.

— Quer usar luvas?

— Luvas?

— Ué, porque a água está quente.

— Hã, tudo bem.

Tom se abaixou e abriu o armário embaixo da pia. Por que Esmeralda teria mentido

para ele? Por que teria sugado sua magia sem lhe pedir?

— Uau! — Jay-Tee admirou-se. — Até embaixo da pia está arrumadinho.

— É a Rita — disse Tom. — A faxineira de Esmeralda.

index-30_1.png

PDL – Projeto Democratização da Leitura

Entregou-lhe o par de luvas. Ela as vestiu e começou a lavar uma das facas boas.

Tom pegou um pano de prato e se pôs a postos para secar. As facas boas precisavam ser

as primeiras. Porcaria de facas boas!

— Razão vai dar um jeito nisso tudo — Jay-Tee tornou a dizer.

— Jeito? — Tom perguntou, tentando imaginar o que estaria se passando com Jay-

Tee. Ela sequer reclamou quando ele disse que precisavam arrumar a cozinha. Não era

bem o que ela gostava.

Jay-Tee olhou para Tom como se ele estivesse maluco.

— Um jeito nisso! Razão vai dar um jeito de não deixar que a gente fique maluco, de

não deixar que a gente morra cedo.

— Ela o quê?

Jay-Tee confirmou com um aceno de cabeça e um ar de certeza absoluta.

— Ele sonhou com isso. — Sua voz soou esquisita, estranhamente contida.

— Quem sonhou com isso?

— Você sabe. Ele. — Ela fez um gesto com a mão, jogando água e borbulhas para

fora da pia. — Em Nova York.

— Seu irmão?

— Não! O avô de Razão.

— Ah, desculpe. Jason Blake. Ele sonhou com o quê?

Jay-Tee soltou um grunhido.

— Sonhou que Razão conseguia dar um jeito na magia, no que ela faz conosco.

— Tudo bem — disse Tom, fingindo que Jay-Tee estava sendo coerente. — Vai ser

o máximo.

— E eu não vou usar minha magia novamente até que ela consiga —Jay-Tee falou,

elevando a voz. Entregou a faca para Tom secar, com as mãos trêmulas, e começou a

lavar a frigideira. — Guardei meus objetos de magia. Não estou mais usando a pulseira de

couro da minha mãe.

— Você. .

— Provavelmente vou enlouquecer logo, mas Razão vai me trazer de volta. Não vou

index-31_1.png

PDL – Projeto Democratização da Leitura

morrer jovem. Não vou.

— Tudo bem — disse Tom. — Se é o que você. .

Jay-Tee caiu em pranto.

Pela primeira vez, a frase fez sentido para Tom. Um som estremecido, rasgado de

dentro do peito dela, como se as lágrimas lhe estivessem sendo arrancadas do corpo. Jay-

Tee estremeceu junto. Pelo seu rosto correram filetes d‟água, encharcando a camiseta dela

(de Esmeralda, na verdade).

Jay-Tee deixou-se cair ao chão, recostando-se na bancada da cozinha, sem tirar as

luvas de lavar louça nem largar a frigideira ensaboada. Encostou os joelhos no peito, de

forma que a panela ficou presa ali no meio, e continuou chorando.

Tom ficou parado, olhando para ela, com o pano de prato numa das mãos e a faca

boa na outra, sem a menor idéia do que fazer. Não tinha se dado conta de que Jay-Tee era

capaz de chorar. Ela sempre dava a impressão de que. . de que chorar não era com ela.

Precisava fazer alguma coisa.

Jay-Tee chorou ainda mais alto, com lágrimas e catarro escorrendo-lhe pelo queixo.

Tom colocou a faca e o pano de prato em cima da bancada, pegou um lenço de papel e

dirigiu-se para Jay-Tee, mas ela ainda estava com as luvas emborrachadas cheias de sabão

nas mãos de forma que ele mesmo limpou-lhe o rosto. Numa questão de segundos, o

lenço estava encharcado. Tirou a frigideira do colo dela e a colocou de volta dentro da

pia, pegando em seguida mais lenços e limpando-lhe o rosto e o queixo, tomando o

cuidado de não fazer pressão em cima da mancha roxa. Ela não parava de gemer nem de

tremer.

— Vai dar tudo certo — Tom falou, mesmo sabendo que era a afirmativa mais

capenga que pôde arranjar. Não havia como dar tudo certo. Jay-Tee acabaria

enlouquecendo e iria parar em Kalder Park junto a sua mãe e a de Razão. Isso se eles a

aceitassem por lá, já que ela era americana e tudo o mais. Quando descobrissem que não

se tratava de uma australiana, era até possível que Jay-Tee fosse parar numa cela de

detenção como imigrante ilegal, e aí ela usaria magia para sair e acabaria morrendo.

Agora quem estava com vontade de chorar era ele.

index-32_1.png

PDL – Projeto Democratização da Leitura

Limpou as lágrimas dela um pouco mais, tomando cuidado com a monstruosa

mancha vermelha, azul, verde e roxa na maçã do rosto, já pensando se não deveria pegar

outra caixa de lenços de papel. Deu-lhe tapinhas no joelho, disse-lhe que parasse de

chorar porque tudo acabaria bem e contou-lhe várias mentiras deslavadas com a voz mais

acalentadora de que foi capaz.

As lágrimas de Jay-Tee começaram a escorrer mais devagar, como se ela fosse um

balão deixando o ar escapar por um furo pequeno. Tom deu-lhe uns tapinhas no ombro

e, em seguida, abraçou-a. Ela deitou a cabeça no ombro dele. E soltou um suspiro, em

seguida um soluço.

— Desculpe — disse, e soltou outro soluço. Lágrimas ainda rolavam dos seus olhos.

Tom sentiu o ombro ficando molhado, mas pelo menos ela não estava mais tremendo.

— Não se preocupe — disse. — Droga!

Ela fez que sim com a cabeça ainda apoiada no ombro dele.

— É. E pode pôr droga nisso!

Tom levou a mão aos cabelos dela para acariciá-los.

— Não faz sentido não chorar.

Jay-Tee fez um barulho esquisito. Tom levou algum tempo para se dar conta de que

ela estava rindo.

— É isso aí — disse ela, erguendo-se ainda sentada e esfregando os olhos. — Não

nos resta nada a fazer a não ser chorar e berrar e entregar nossas vidas nas mãos de Deus.

É hora de entrar para um convento.

— Ei, não estou nessa, não.

Jay-Tee riu outra vez.

— Ou um mosteiro.

— Pare com isso. Nem tenho religião.

— Não tem? — Jay-Tee ficou espantada.

— Claro que não. Nem acredito em Deus.

— Não acredita? Como é que pode? Ora essa; você é mágico! De todas as pessoas

no mundo, você é uma das poucas que sabe que Deus existe.

index-33_1.png

PDL – Projeto Democratização da Leitura

— Espere aí — foi a vez de Tom se espantar. — Como é que se chega a essa

conclusão?

— Magia — Jay-Tee falou. — Você sabe que existe. Tudo na Bíblia: água virar

vinho, os peixes e os pães, reviver os mortos. Você sabe que tudo isso é possível. Mais

que possível.

— Reviver os mortos?

Jay-Tee fez um gesto afirmativo com a cabeça.

— Meu pai me falou isso. Dá para fazer. Só que não é uma boa idéia. Ele queria

trazer minha mãe de volta. .

— Epa!

— Pois é. Mas não quando o filho de Deus é quem faz. Aí é diferente.

— Você está dizendo que Jesus fazia magia igual a nós? Está dizendo que sou igual a

Jesus? Isso não é uma blasfêmia, sendo ele o filho de Deus e tudo mais?

Jay-Tee ficou zangada.

— Claro que não. Jesus não fazia magia como qualquer um. Os milagres dele eram

coisa totalmente diferente. Estou dizendo que nós já vimos... caramba, nós já fizemos

coisas que a maior parte das pessoas consideraria milagres. E sabemos que milagres

existem. Sabemos que dá para transformar água em vinho. Então, por que é tão difícil

para você acreditar que Jesus tenha feito todas as coisas que fez? Por que não acha que

Deus existe?

Tom abriu a boca, tornou a fechá-la. Jay-Tee estava certa. Estava certa mesmo. Seu

pai era ateu, assim como sua irmã. Pelo que lhe constava, sua mãe também, embora

pudesse ter mudado de opinião agora que perdera o senso. Ele não conseguia nem

imaginar o pai casado com alguém que não fosse ateu. Da mesma forma que não se

casaria com alguém que votasse nos liberais.

Tom sempre achou essa história de Deus muito mal contada, um conto da

carochinha. Para que as pessoas precisavam de ter alguém lá no céu em quem acreditar?

O mundo por si só já não era legal, complicado e espantoso o bastante? Nunca lhe

ocorreu que fosse realmente possível haver um Deus; entretanto, a magia ele aceitou de

index-34_1.png

PDL – Projeto Democratização da Leitura

imediato.

Ora, claro: ela estava bem ali, na sua carne e no seu osso! Ele tinha provas. .

caramba, ele era a prova. E qual era a prova de Deus? Por que a existência da magia