Filosofia do Espiritismo por Luiz Caramaschi - Versão HTML

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FILOSOFIA DO ESPIRITISMO

Quem olha a figura da nossa capa, vê tratar-se de uma espiral. Vai conferir e

descobre: são círculos concêntricos. Com “O Livro dos Espíritos”, igualmente, em

lugar de uma exaustiva e infinita espiral evolutiva, temos a finitude da Evolução

representada nos círculos criacionais.

Editora Sociedade Filosófica Luiz Caramaschi

Praça Arruda, 54 - Caixa Postal 44 - 18800-000 - Piraju - SP

Fone (14) 3351.1900

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PREFÁCIO

Filosofia do Espiritismo é um livro que deveria ter vindo à luz em 1965,

época em que o autor escrevia na "Revista Internacional do Espiritismo", onde

estava publicando os "Serões Bíblicos". As publicações já iam bem adiantadas,

quando o autor, em seqüência de suas idéias, começou questionar "O Livro dos

Espíritos", encontrando a mais viva oposição por parte dos responsáveis pela

Revista, os quais por isso, as suspenderam. Nem por isso o autor parou de

escrever, e todo o material não publicado forma o conteúdo desta obra.

Este livro "Filosofia do Espiritismo" que ora editamos, com 20 anos de atraso,

trata de assunto de real importância para nossos dias. Nele o autor faz luz sobre

o problema mais intrincado de nossa época, que consiste no conflito existente entre

o Criacionismo e o Evolucionismo.

Ocorre que há dois pensadores que são Santo Agostinho e Platão, os quais

apresentam suas mensagens em "O Livro dos Espíritos". Como as

doutrinas desses pensadores são antagônicas entre si, essa contradição quebrou

a unidade da filosofia espírita. Urgia que alguém, espírito ou encarnado, fizesse

a síntese, demonstrando que Santo Agostinho e Platão, estão com meia verdade

cada um, mas que elas se completam, como a tese e a antítese na unidade. Ora, faz

mais de cem anos que "O Livro dos Espíritos" veio à luz, sem que ninguém

se abalançasse a fazer esse trabalho que ora apresentamos.

Quem for estudioso da filosofia espírita encontrará, neste livro, o mais

completo esclarecimento dos pontos obscuros que existem no "O Livro dos

Espíritos". Essa crítica enriquece e reforça as bases da Doutrina, e, pela

amplitude de seu tratado, se recomenda não só aos espíritas, como a todos os

que anseiam por saber, e, consequentemente, por um mundo melhor.

A velha guarda por certo vai opor resistência às idéias novas. É o

misoneísmo que existe desde sempre. Contudo, pesar da resistência, o trabalho foi

executado com grande dedicação e amor, tendo em vista os vindouros que se

beneficiarão desta obra.

Quanto ao livro em si é escrito em forma de diálogo, tornando a leitura leve e

agradável, exibindo mais uma qualidade do autor, a de tornar simples e acessível

assuntos complexos.

OS EDITORES

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APRESENTAÇÃO

A obra Filosofia do Espiritismo é um desafio diante do desafio, porque nela

os atos do filósofo são as suas próprias palavras que fluem com clareza e

lógica no que tange às explicações da gênese do mundo e do Criador. Estabelece

o mais profundo elo de ligação com as épocas mais mundanas, percorrendo os

caminhos da doutrina da Evolução.

A inovação da obra consiste em concatenar os elementos primordiais que

possibilitam a explicação do mundo, até então tumultuado, austeros, pondo-os em

harmonia.

A obra cumpre-se talentosamente, pois abre novos horizontes no campo da

filosofia e torna acessível o mundo das idéias estimulando a percepção do nexo que

a tudo liga e dá sentido.

Esse raciocínio é perseguido implacavelmente com altivez olímpica, indo ao

encontro da mais nobre e mais sublime concepção mental do Cosmos, e

conseqüentemente da essência humana. A maestria do autor consiste exatamente

neste ponto, em desvendar a profundeza do estranho, das trevas e trazê-la à luz.

"A inspiração, disse Puchkin, é o estado de alma disposto a receber, da

maneira mais viva as impressões e as idéias e, portanto, a penetrar-lhes o

sentido".

Os antigos nos ensinaram que do Caos nasceu o Cosmos, e que o Caos é a

desordem e o Cosmos a ordem, a paz; todavia, o caminho que o intelecto

percorre para compreender a ligação entre a desordem e a ordem é árdua. E o

autor nos poupa, com esta obra, deste esforço.

Odair Riberto Fallaci

Sociólogo

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CAPÍTULOS

I - Colocação do problema

II - As duas hipóteses

III - Discussão da Filosofia dos Espíritos

IV - Do quê são feitos os Espíritos ?

V - A substância dos Espíritos

VI - Os dois caminhos

VII - Incoerências da Filosofia Espírita

VIII - Espírito e Matéria surgiram de um elemento comum

IX - Universalidade da Teoria da Queda

X - Solução do mais antigo problema

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FILOSOFIA DO ESPIRITISMO

I - COLOCAÇÃO DO PROBLEMA

Árago Pandagis reside na cidade de Cananéia, desde que se aposentou no

serviço público, como professor. Ali vive ele na sua contemplação metafísica,

na sua visão totalitária, buscando o nexo que a tudo integra e a tudo dá sentido.

Estava ele, certo dia, a retecer sua rede sentado no terreiro de um barraco

que possui na foz do rio Mandira, quando lhe surgiu Chilon Aquilano que o

tirou para a discussão, para o confronto. Desde esse dia começaram as reuniões

em sua casa de Cananéia, que fica próxima ao mar de Cubatão.

Gosta o professor de recitar, de cor, o soneto de Mário Pederneira, e, ao

tempo em que o faz, vai mostrando, nas vizinhanças da casa, suas realizações.

Parece que o mestre tomou o canto poético por esquema do que executou:

"Vem conhecer amigo esta locanda,

Toda aromada de jardins e horta.

Um jasmineiro em flor sobre a varanda

E cantigas de mar chorando à porta".

"O mar fica fronteiro,

À nossa honesta e plácida vivenda.

Um mar de lenda

Apertado em eterna calmaria,

Na mais linda baia,

Na mais linda, talvez, do mundo inteiro".

* * *

Tanto que cai a noite, dona Cornélia, esposa de Árago, abre de par em par as

janelas da biblioteca para refrescar. Os estudiosos que pouco a pouco se vão

ajuntando, ao chegarem à casa, entram, familiarmente, para a sala da biblioteca, e

aí aguardam a entrada de Árago, se é que ele já não os espera, para os serões

costumeiros. Essas tertúlias principiaram a ter mais freqüentadores do que no

tempo dos "Serões Bíblicos". Chilon Aquilano foi o primeiro a procurar o

mestre; depois acercou-se dele o materialista Benedito Bruco ; pouco mais, e

veio Hierão Orsoni, espírita convicto e pescador de profissão. Finalmente,

passaram a ser freqüentadores Basílio Desiró, Bernardo Jasão, Alcino Licas,

Bento Caturi, Frederico Hening, além de outros visitantes fortuitos tais como

Antonio Varrão, Arlindo Helisiano, Virgílio Hurão, Romão Sileno, João

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Iguano, Maurício Scherba e outros.

Muitos destes estavam presentes na sala da biblioteca, conversando sobre temas

variados, quando, à entrada de Árago, ficaram silentes. Depois dos cumpri-

mentos habituais, dirigiu-se Árago a Chilon interrogando-o:

- Hoje terão inicio os nossos "Serões Teológi cos "?

- Sim. Foi o que o Sr. nos prometeu, a exemplo de quando tratou dos "Serões

Bíblicos", em parte publicados na "Revista Internacional do Espiritismo".

- Todavia, esse assunto não me parece muito agradável, observou Benedito

Bruco.

- Por que? - tornou o mestre.

- Porque pressinto que iremos arrazoar sobre os dados da fé... tomando-os

como premissas dos raciocínios. Os mistérios revelados são o ponto de partida

para a teologia. Ora, se me põem o cabresto logo de início, vou dar onde

me levam. Diz Garcia Morente, repetindo São Tomás: "visto que entre a fé

do teólogo e a razão do filósofo não pode haver discrepância, a filosofia

deverá ter por axioma certo que toda suposta demonstração racional da

falsidade de um artigo de fé, há de ser necessariamente falsa e sofistica". Eis,

aí está, uma canoa furada em que não entro! "A verdade racional e a verdade

da fé não podem contradizer-se", diz Morente; e prossegue ele: "ambos os sa-

beres são verdades e não podem contradizer-se, porque os princípios do

raciocínio foram postos em nós por Deus, que é o mesmo autor da revelação

recebida pela fé"

- Ora, essa! Se o autor dos princípios do raciocínio é o mesmo autor da

revelação, e, por isto, ambos não podem contradizer-se, se a razão se opõe à fé,

tanto pode estar errada a razão, como pode estar errada a fé. E de tantas fés

antigas e modernas, qual será a verdadeira? Não é certo que todos os povos

de todos os tempos e de todos os lugares dizem ter recebido suas revelações de

Deus?

- Além disto, prosseguiu Bruco, isso de que Deus pôs no homem a razão, ou

fê-lo racional desde sempre, é próprio da teoria bíblico-criacionista que dominou

a filosofia até há bem pouco tempo. Por esta razão põe-nos em alerta Ortega

ao escrever: "urge que nos oponhamos radicalmente a toda tradição filosófica

e nos resolvamos a negar que o pensamento, em qualquer sentido suficiente do

vocábulo, tenha sido dado ao homem de uma vez para sempre, de forma que este o

encontre, sem mais, à sua disposição, como uma faculdade ou potência perfeita,

pronta a ser usada e posta em exercício, como ao pássaro foi dado o vôo e ao

peixe, a natação". Mais:

- "Longe de ter sido presenteado o pensamento ao homem, a verdade é que,

uma verdade que agora não possa arrazoar suficientemente, mas somente enunciar,

a verdade é que o pensamento se vem fazendo, fabricando pouco a pouco graças a

uma disciplina, a um cultivo ou cultura, a um esforço milenário, de muitos

milênios, sem que se tenha ainda conseguido, nem muito menos, terminar essa

elaboração".

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- Muito bem, prezado Bruco, tornou Árago; essa teologia que São Tomás

chamava de theologia fidei, e que parte dos pontos de fé, dessa não trataremos;

iremos cuidar do que São Tomás chama de teologia natural, e que é o mesmo

que filosofia. O nosso estudo versará sobre a teologia natural, alcançável pelas

vias da razão, à qual Leibniz denominava teodicéia, e que, etimologicamente,

significa justiça de Deus.

E depois de meditar um pouco, exclamou o mestre:

- Coerente com o que acabo de dizer, analisemos a frase: "Primum vivere,

deinde philosophari! Que quer dizer isto, Chilon?

- Quer dizer que primeiro precisamos ganhar a vida, para depois entregar-

nos a especulações filosóficas.

- É e não é, acudiu o professor. É esse o sentido que sempre se deu a essa

frase latina. Mas essa é a filosofia dos não filósofos. Quem passou a vida

cuidando de arranjar-se, de amontoar bens, para filosofar depois, fica a

amontoar também haveres depois. E o filósofo que o é, por natureza, não

liga a ganhar dinheiro, a amontoar bens, para filosofar depois. Uns buscam ri-

quezas, outros, o poder, outros, a sabedoria; no fim da vida, cada um fica com o

que procurou adquirir. Mas não é esse o sentido que quero dar à frase: quero

dizer que primeiro precisamos viver boa parte da nossa vida, para ter

experiência, para só depois poder filosofar. É por isso que o filósofo,

necessariamente, terá de ser um homem maduro, não tanto, no sentido

cronológico, mas no psíquico e mental. É preciso madureza intelectual e

espiritual. Vocês todos já ouviram sobre gênios precoces das matemáticas,

como Gauss, e da música, como Mozart. Ninguém, todavia, ouviu falar de

filósofos precoces. Conquanto Leibniz fosse chamado "o velho" pelos seus

colegas de estudos, só produziu coisas grandes na maturidade de seus anos e na

velhice. Por que? Porque, "primum vivere, deinde philosophari! É preciso

"vivência", como diz Garcia Morente. Ninguém fará filosofia sem primeiro

ter vivido em profundidade e extensão. Esta experiência vital enriquece a

mente de intuições e de conceitos sem os quais impossível será o pensar

filosófico.

A estas últimas palavras de Árago, interveio, de novo, Benedito Bruco:

- Acho que as lidas, tribulações, vicissitudes e experiências da vida

endurecem o homem dando-lhe constância e firmeza. Logo, o homem vivido,

enrijado pela experiência, deixa de ser plástico e moldável. "Ninguém gosta

de reformar suas idéias depois dos quarenta", diz Fritz Kahn. Sua visão da

verdade, portanto, fica deformada pelas vivências que teve. Schopenhauer,

porque tinha mãe inteligente, que até era escritora, acabou cuidando que

herdamos da mãe a inteligência, e do pai, a força e o caráter. Como foi des-

prezado desde a infância, ficou pessimista, e só pôde achar consolo no budismo

niilista. Eis no que foram dar as suas vivências.

- Está certo, atalhou o mestre. E com isso você me força a declarar outra

qualidade principal do homem filósofo. É preciso vivência, e, juntamente,

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puerilidade.

- Absurdo! acudiu Bruco; como se pode ser infantil e experiente, ao mesmo

tempo?

- Pois a criança é curiosa, interessa-se por tudo, e, conservando sempre a alma

aberta, não se ancilosa na opinião irredutível. É vivaz, perscrutadora, admira-se

de tudo, não se fanatiza, embora seja sugestionável. Este estado de

plasticidade mental, esta capacidade de problematizar tudo, esta admiração ou

surpresa que o homem feito, enrijado, encanecido não possui mais, é próprio da

criança. Cristo chama aos homens definidos, aos que têm opinião formada sobre

tudo, de odres velhos nos quais não se pode pôr vinho novo. "Quem não se tornar

como meninos, sentencia Cristo, não entrará no reino dos céus". Igualmente,

aquele que não puder manter-se pueril, não será filósofo. Como diz Morente,

"aquele para quem tudo resulta muito natural, para quem tudo resulta muito

fácil de entender, para quem tudo resulta muito óbvio, nunca poderá ser

filósofo". Esta é a causa por que "Platão preferia tratar com jovens a tratar

com velhos. Sócrates, o mestre de Platão, andava entre a mocidade de Atenas,

entre as crianças e as mulheres".

E voltando-se o professor para Benedito Bruco, interrogou:

- Está satisfeita sua crítica, com estas considerações?

- Não! Não está. Porque os jovens e as mulheres são sugestionáveis,

guiando-se pelo princípio da autoridade ou da fé, enquanto acho que os

filósofos devem ser persuasíveis. E aí está uma qualidade de velhos que não se

rendem a não ser às persuasões. A idade confere ao homem o senso crítico, a

exigência de rigor. Ninguém, jamais, viu, nos palcos, os hipnotizadores

operarem com velhos, visto que, de ordinário, são resistentes à hipnose, por causa

da auto-análise.

- Você discorreu com acerto, meu caro Bruco, tornou Árago. Afora uma

certa maturidade obtida pelas experiências da vida, vem, depois, a novidade, o

assombro, o interesse, o entusiasmo, próprio das crianças, por uma parte, e, por

outra, a penetração lógica, o espírito crítico e o rigorismo, próprio dos

velhos, de um modo geral. Persuasíveis, e não sugestionáveis, como os velhos;

entusiastas e admirados com tudo, como as crianças. À toa não é que a coruja de

Minerva, a deusa que personificava o poder do pensamento, é o símbolo da

filosofia: essa ave tem o olhar deslumbrado.

- Agora estou contente, replicou Benedito Bruco.

- É assim que, prosseguiu Árago, todo pensador deve ter presente a distinção

entre opinião e conhecimento. Platão chamava doxa à opinião, donde vem que

para doxa, ou paradoxo é o que se opõe à opinião. Esta oposição à opinião é o

que Platão chamava de epistéme que quer dizer ciência. E a dialética é a arte

de jogar com as epistémes que são conceitos e juízos. Por isto, todos os

filósofos da segunda jornada filosófica, que são os da pós-Renascença, a

começar por Descartes, iniciam seus estudos pela epistemologia que é a teoria do

conhecimento.

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- Não seria bom também começarmos por aqui? - acudiu Chilon Aquilano.

- Poderia ser, se não houvesse coisa mais importante, mais premente, a ser

estudada antes da epistemologia.

- E qual é? - inquiriu Chilon.

- A historicidade da filosofia. Todo o filósofo tem de refazer o caminho

da filosofia desde o início, visto que nenhum saber é tão necessariamente

histórico como a filosofia. Filosofia é problematização no tempo; história da

filosofia, pois, é a história dessa problematização. Ontologia e metafísica

através dos tempos, eis o que é a filosofia. Por causa disso, a filosofia é

diálogo, polêmica, pois tem necessidade, todo filósofo, de discutir suas

proposições para que seu pensamento se complete pela participação. O repto que

recebe dos a quem fala é o estímulo indispensável a fazer sua mente

trabalhar. A análise, a dialética e o diálogo são necessários ao desenvolvimento

da filosofia. Assim foi na escola de Socrates, assim na de Platão, assim na de

Aristóteles. A filosofia de Platão foi dada nesta forma de diálogo. A história da

filosofia é a de uma grande polêmica no tempo que vai já para vinte e cinco

séculos, em que os homens- inteligentes da Terra das várias épocas vieram expor

seus pontos de vistas. E nós também iremos ver, de modo rápido, perfunctório, o

que já se fez neste sentido, ao tempo em que iremos expor as nossas conclusões.

E após meditar um pouco, tocou por diante, o mestre:

- A filosofia nasceu na Grécia lá pelos VI e V séculos a. C., em virtude

de os gregos haverem perdido sua fé nos deuses. Decadente a religião, os gregos

entraram numa época de liberdade, visto que esta só existe no começo das ações.

Desencadeadas estas, livremente, o homem se vê preso à cadeia de conseqüências que

aquelas ações geram, criando destarte, um determinismo do qual impossível

será fugir. Ora bem: os gregos viveram condicionados pelos princípios

religiosos, que eram a sua verdade. Posta em dúvida, pelos sofistas e pelos

cépticos, a verdade que os guiara, os gregos entraram numa época caótica em que

cada um se pós a formular a sua "verdade". É a isto que chamo época da

liberdade. Exatamente como aconteceu na Grécia, ocorreu no fim da Idade

Média, na época do Renascimento. Aqui também se duvidou do estabelecido,

entrando o homem em liberdade, e, com esta, principiou uma nova era na história da

filosofia. O chamado Realismo grego cedeu lugar à nova forma mental

inaugurada por Descartes a que se deu o nome de Idealismo ou Filosofia

Moderna.

E encarando o professor os presentes, como a lhes chamar a atenção,

prosseguiu:

- E a hora presente é a de nova liberdade, impondo-se, como tem de ser,

uma nova jornada filosófica igual a primeira, a grega, nascida da polêmica entre

Heráclito e Parmênides, e igual a segunda, nascida de Descartes, e continuada,

até sua exaustão, pelos filósofos pós-kantianos Fichte, Schelling e Hegel. Com

Augusto Comte a filosofia deixou de o ser, por certo tempo, e com Herbert

Spencer, esbarrou ela, pela primeira vez, com os fatos da Evolução,

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colocando-se aqui o problema ainda não solucionado do nosso tempo. Mas

Spencer, não sendo metafísico, não relacionou a Evolução ao problema do

Ser. E a chave da abóbada de seu edifício, em vez de buscá-la na Doutrina

da Evolução, foi achá-la nos "primeiros principios" que não tinham nada a

ver com a matéria que desenvolvia. Quem fez o trabalho de conclusão moral

foi Nietzsche, dando como resultado a moral da força, pelo que "ser justo é

ser forte".

E após pequena pausa, continuou:

- Com a publicação de "A Origem das Espécies", em 1859, Darwin

aplicou o maior e mais formidável repto filosófico de todos os tempos,

obrigando uma reformulação total da filosofia. Por causa disto, o mundo

ficou dividido em místicos, de uma parte, e materialistas, de outra. A idéia

da Evolução, por isto, em descendo da generalidade, mostra-se presente nas con-

versações corriqueiras, em que os participantes, às vezes, nem de leve suspeitam

que se estão referindo à Doutrina da Evolução. O certo é que cada dia mais os

templos de todas as seitas cristãs-criacionistas se esvaziam.

E fazendo uma pausa para esticar as pernas, procurando melhor cômodo na

cadeira, continuou o professor:

- Pouco há, em Registro, um médico ortopedista fez uma palestra sobre

"lombalgia". Principiando ele a falar, disse que a lombalgia é um problema de

sobrecarga da coluna lombar, e que se traduz por "dores nas costas". E tudo

começou quando o homem se pôs na posição ereta. Depois que o médico

discorreu com proficiência sobre o mais importante da matéria, habilmente

adaptada a leigos, chegou o momento em que ele permitiu aos presentes fazerem

perguntas. Da minha parte coloquei o seguinte:

- O senhor falou, em começando sua dissertação sobre lombalgia, que ela teve

causa no fato de o homem ancestral ter-se posto sobre as patas traseiras. Isto nos

leva à conclusão de que o senhor se está referindo à Doutrina da Evolução? Um

aceno de cabeça, afirmativo, foi a resposta do médico. Então, prossegui:

- Ora, se a posição quadrúpede é a ideal para se não sofrer de lombalgia, por

causa do apoio da coluna, em quatro pontos (os pés), e de ela ficar na horizontal, e

não em dois, e na vertical, como é que os criacionistas explicam o fato de o

Senhor Bom Deus haver feito o homem cheio dos sofrimentos próprios da

posição ereta?

- O médico não soube responder, porque o assunto fugia à sua especialidade,

continuou Árago. Contudo, a pergunta fica de pé: todas as complicações que a

posição ereta produz, e são muitas, não se explicam pelo pecado de Adão;

explicam-se pelo fato de o esquema do quadrúpede, ótimo para os quadrúpedes,

não servir para o bípede homem. E se Deus fez o homem como uma criação

especial, e à parte, como foi empregar o mesmo esquema da vaca, do cão e do

porco? Por que não seguiu, por exemplo, o esquema dos insetos, o qual diz Fritz

Kahn, é superior ao dos vertebrados? Imaginemos, diz ele, se o homem

fosse parecido com uma armadura medieval, e os músculos atuassem por dentro

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desse esqueleto externo? Para que, neste caso, se precisaria de coluna cervical e

lombar, com suas respectivas complicações dolorosas? Por que usou Deus para o

homem, ser especial, segundo o Criacionismo, o mesmo esquema dos

quadrúpedes? Depois de meditar um pouco, concluiu o pensador:

- Não se trata de pretender ensinar a Deus como agir, nem de ditar-lhe

normas, como se desabafou irracional e agressivamente, outro dia, Hierão

Orsoni! Trata-se, isso sim, de que o homem não é obra especial de Deus de

maneira nenhuma, e tanto sua posição ereta, como sua razão, são conquistas suas, do

homem. E puxada essa ponta da meada, as coisas não param aí, para os

filósofos... aos quais cumpre resolver os problemas que a Doutrina da

Evolução colocou; por exemplo: se a evolução veio do caos, Deus criou o caos; e

como o caos é a negação do Ser, ou Deus criou a sua negação, ou afirmou-se no que

é: como negação também. Mas isto iremos ver a seu tempo.

Depois de Darwin, ou de "A Origem das Espécies", não houve mais

filosofia, continuou Árago. Refiro-me a filosofia sistemática, isto é, que nos

mostrasse tudo em globo unitário. Houve a de Spencer, mas sem conclusão no

plano moral; e as conclusões dela, tiradas por Nietzsche, foram desastrosas para

o mundo. Como o refere Ortega, "desde 1880 acontece que o homem

ocidental não tem uma filosofia vigente. A última foi o positivismo. Desde

então só este ou aquele homem, este ou aquele mínimo grupo social tem

filosofia. O certo é que desde 1800 a filosofia vai deixando progressivamente de

ser um componente da cultura geral e portanto, um fator histórico presente. Ora,

isto jamais aconteceu desde que a Europa existe".

- Discordo disso! - exclamou Benedito Bruco. Como pode Ortega sem mais

nem menos subestimar o esforço de todos os que estão elaborando a chamada fi-

losofia contemporânea? Acaso o próprio Ortega não é filósofo? e, pois, como

assim, sem mais aquela, ele a desconsidera?

Voltando-se para Bruco, retrucou-lhe o mestre:

- Ora, prezado Bruco!, Ortega se refere a filosofias sistemáticas. É certo que

o pensamento novo, em filosofia, é muito agudo, muito claro, muito convincente

mas não forma sistema nenhum sobre o qual apóie a moral e o social. "Sobre isso

devia meditar incansavelmente Dilthey quando baralhava sem descanso as

filosofias e concluía, melancolicamente, que não pode haver outras senão as que

foram". Ora, como diz Ortega, "imobilizar-se no passado é o mesmo que mor-

rer".

- Logo, estamos morrendo? - interveio Bruco.

- Estamos. Nossa civilização está morrendo. Esta morte pouco a pouco vai

invadindo todos os setores do corpo do social.

- Como o senhor prova isso? - tornou Bruco.

- Provo-o com os fatos do nosso contorno social. O esvaziamento dos

templos; os velhos tabus que se desmantelam, com tornar-se a sociedade cada vez

mais transigente. Há dezenas de grupos terroristas espalhados pelo mundo,

defendendo os mais variados princípios. O índice de criminalidade cresce cada dia

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mais, ao lado da corrupção de que nos dão conta os jornais diários. Os moços

rebelam-se e cantam na televisão e no rádio suas músicas de protesto. Sob a

rubrica de realismo, o que se lê nas revistas e nos livros é obscenidade crua. A

censura cinematográfica e televisionada afrouxou-se, permitindo a exploração

do que outrora era considerado pornografia. Os costumes e a moda tornaram-se

livres, ousados, possibilitando todas as extravagâncias próprias duma sociedade

do vale-tudo. "Estamos vivendo numa sociedade babilônica", diz o historiador

e jornalista Max Lerner. "Dá-se ênfase aos sentidos e à liberação da

sensualidade. Os velhos códigos foram todos revogados"). Os moços de hoje,

contumazes em sua rebeldia, tacham os da velha geração de quadrados; afirmam

que essa velha geração fracassou, visto que legaram a eles um mundo antes pior que

melhor. No entanto, eles não se preocupam em criar padrões novos nem morais

nem sociais. A missão vandálica dos modernos é pôr abaixo todos os valores. A

mediocridade e a extravagância de puros homens massas é ovacionada nos

palcos de televisão, onde os valores nulos, menos que nulos, negativos, fazem às

vezes de gênios da música e do teatro, acontecendo o mesmo com a literatura

e a pintura. Estamos vivendo o Apocalipse.

Dito isto, passou o pensador a remexer, numa pasta, uns recortes de jornais

velhos, depois do que continuou

- Para vocês terem uma idéia de para onde caminha o mundo, leiam o

jornal "Folha de S. Paulo", de 9 de maio de 1968. Aqui está o recorte: trata-se

do relato do casamento do pintor Waldomiro de Deus que se casou de mini-

saia, comendo banana, com Miamaria - Maria Aparecida -, ao som da música de

Caetano Veloso. O casamento foi celebrado por um outro pintor - Piero Luisi.

E concluiu o filósofo:

- Mas tudo está certo: para que se possa construir o novo, alguém deve impor-se

o ingrato trabalho de destruir o velho. O terreno tem que ser alimpado e prepa-

rado para novo plantio: eis a função social da mocidade moderna. Pensando neste

sentido, poder-se-ia dizer: quanto pior, melhor... Por enquanto, ainda, todos se

mostram muito acomodados. Chegará, porém, o momento do desespero em que

todos quererão saber como solucionar o problema. Problema que é o mesmo que o

repto de Toynbee ou desafio cuja resposta ou réplica consiste em a filosofia

digerir e incorporar numa síntese a Doutrina da Evolução. Nenhuma filosofia

pôde haver-se com o evolucionismo até hoje, exceto a de Spencer que não chega

a ser filosofia ou metafísica, não passando ela de aplicação do

evolucionismo à sociologia. Assim mesmo, não concluiu no plano moral,

deixando este trabalho para Nietzsche, o que resultou na moral anticristã do forte e

do astuto.

A estas asseverações de Árago, obtemperou Hierão Orsoni:

- O senhor disse que nenhuma filosofia pôde haver-se com o evolucionismo.

No entanto, no frontispício de "O Livro dos Espíritos" de Allan Kardec, onde

está escrito: "Filosofia Espiritualista", aí está tratado o problema da Evolução.

O que o senhor nos diz a isso?

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Árago pôs-se a meditar, tendo o olhar perdido na distância, dando visos de

grande elucubração em que concatenava todo um corpo de idéias. Depois, pegando

da estante "O Principiante Espírita" de Allan Kardec, para tê-lo à mão, da Editora e

Encadernadora Lumen Ltda., que traz uma biografia do Codificador do Espi-

ritismo, rompeu o silêncio reinante na sala com estas palavras:

- Denizard Hippolyte Léon Rivail, nascido, em Lião, em 3 de outubro de 1804,

embora se tivesse diplomado em medicina., ocupou-se, sob este nome de Denizard

Rivail, só de educação, tendo sido discípulo ardoroso de Pestalozzi. Nesta fase de

sua vida exerceu o ofício de contador para três firmas, e ainda escreveu

gramática, aritmética e também sobre estudos pedagógicos, além de traduzir obras

inglesas e alemãs. Ainda nesse tempo organizou cursos de física, de química e de

anatomia comparada, tudo, como se pode ler nesta obra "O Principiante

Espírita". Em lugar nenhum, porém, está escrito que Denizard Rivail se tivesse

ocupado de filosofia. Embora seu biógrafo, Henri Sausse, considere Kardec como

aquele "que fundou a filosofia espírita” e o chame mais adiante de “sábio

filósofo clarividente e profundo”, a filosofia de "O Livro dos Espíritos”

vem dos Espíritos, e, não de Kardec. Pelo que se lê em sua biografia, ele é

mais cientista e educador que filósofo.

- Na segunda fase de sua vida, continuou Árago, Denizard Rivail adotou o

nome de Allan Kardec, porque, como lhe relatara seu Espírito protetor, ele

tivera esse nome no tempo em que um e outro viveram nas Gálias, como druidas.

"O Livro dos Espíritos" veio à luz em 18 de abril de 1857, dois anos, portanto,

antes de Darwin publicar sua obra "A Origem das Espécies". Embora, no tempo

de Kardec a Teoria da Evolução fosse uma idéia que pairava no ar, estava ainda

muito crua, para que o Espiritismo pudesse fazer a síntese entre ela e o

Criacionismo, como, de fato, não o fez.

- Afora este dado, prosseguiu o mestre, há outro no “Prolegômenos” de “O

Livro dos Espíritos” onde estão assinalados os Espíritos que deram os ensinamentos

a Kardec. Ora, considerando que a morte não significa renovação radical para

ninguém, menos ainda a entrada do desencarnado para o reino da sabedoria e da

virtude, podemos tirar disto duas conclusões: a primeira é que os Espíritos, mesmo

os da mais alta hierarquia, vivem em mundos contingentes e cercados de relativi-

dade, não se lhes fechando, jamais, nunca, seus campos de perquirições. A

segunda é que o desenvolvimento, seja no que for, é muito lento: o que

costumamos chamar talento e gênio não são dons nem dádivas indébitas, gratuitas,

mas conquistas anteriores, doutras existências, duramente merecidas. O corolário

final de tudo isto é que, pelo conhecimento da doutrina que o Espírito esposava

quando estivera encarnado, podemos identificar-lhe a pessoa, quando ele,

agora, desencarnado, dá respostas a Kardec. Assim Kardec pergunta, e o

Espírito responde. Só que, ora esse Espírito é São João Evangelista, ora é

Santo Agostinho, ora é Platão. Sócrates, por exemplo, é filósofo sem

doutrina, e sua pregação era moralista semelhante a de Confúcio. Os demais

relacionados, exceto "O Espírito da Verdade" que não é conhecido, não foram

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filósofos. São Vicente de Paulo era místico; São Luiz ou Luiz IX, rei de

Franca, no século XIII, era político, embora muito piedoso; Fénelon,

prelado e literato francês, viveu entre 1651 a 1715; Franklin, foi cientista,

descobridor do pára-raios e político; Swedenborg, embora havido como filósofo e

místico, não deixou doutrina conhecida; seus escritos referem-se a visões que

tinha do mundo espiritual com o qual, segundo dizia, mantinha relações.

Quanto a São João Evangelista, embora místico, embora não filósofo, tratou

da tomada de ser inicial, cuja intuição funciona como postulado. E dessa tomada

de ser inicial, como se fora uma espécie de "cogito" cartesiano, podemos

deduzir toda uma filosofia. Ora, nem São João Evangelista, nem Platão

afirmou, como o fez Santo Agostinho, que o mundo foi feito, em primeira

instância, a partir do nada ou do caos. Suas doutrinas, por isto, são contraditórias,

e essa contradição está dentro de "O Livro dos Espíritos". De maneira que,

como esse livro colocou as duas doutrinas antagônicas, mas não resolveu o

antagonismo pela síntese entre Criacionismo e Evolucionismo, o problema que a

Doutrina da Evolução suscitou no mundo ficou em pé. Isso é o que havemos de

ver, querendo Deus, só que não pode ser hoje.

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II - AS DUAS HIPÓTESES

O ambiente de Cananéia e arredores é propício aos pensadores. O burburinho

humano das grandes cidades fica distante e sem significação para quem tem

pela frente o oceano que nos dá a imagem do infinito. Chilon passava o seu

tempo junto de Árago, exceto quando este ficava dias e dias a escrever em sua

biblioteca da casa de Cananéia, ou no telheiro da foz do rio Mandira. Esgotada a

verve literária, voltava o mestre ao ramerrão de só ler e pescar, repartindo o

tempo entre esses dois quefazeres: geralmente, lia pela manhã, e, à tarde, pescava.

Chilon, sempre que podia, acompanhava Árago nas suas pescarias, e enquanto

esperava viesse o peixe à isca, contemplando o mar, ao longe, perdia-se em con-

templações metafísicas. Ficava ouvindo o bramido das águas cujas vagas se

quebravam nas praias, ou nalgum rochedo próximo. Alguns pássaros faziam a

melodia para essa harmonia de fundo. Os olhos viam o panorama aberto, onde

oceano e céu se uniam à distância, como se o céu representasse a imagem do Deus

transcendente, diáfano, azul e luminoso, a dar-se naquela grande esfera líquida,

cuja curvatura só se via com os olhos da imaginação...

E dentro do mar a vida pululava, sendo a luta ali desapiedada. Já neste

ponto o quadro se mudava, começando Chilon a enxergar a fealdade dentro da

Beleza, a desarmonia dentro da Harmonia, a desordem dentro da Ordem, o mal e a

dor, dentro da Alegria de viver e do Bem. Duas visões da realidade, Chilon

tinha, ali, ambas portentosas, ambas certas, e, contudo, polarmente opostas. Se

olhava o geral, o todo, o distante, via a Ordem, a Harmonia, o Bem, o Belo;

se, contudo, concentrava a atenção no rumo do particular, do pormenor, já

enxergava a luta sem compaixão, desordem, desarmonia, fealdade, mal. Bem

certo andara Schopenhauer para perguntar: "Então o mundo é uma lanterna

mágica? Certamente que o espetáculo é esplendido à vista, mas representar aí um

papel, é outra coisa".

Relembrando a doutrina da queda das almas do topos uranos platônico,

semelhante à da subversão dos espíritos segundo a Bíblia, grandes religiões e

mitos, esposada por Árago, sentia que ali mesmo estava a sua comprovação. A

luta e a dor são para apurar a inteligência que domina o caos, criando a ordem,

a harmonia, a integração, primeiro pela força disciplinadora, depois pela

compreensão dos fins, e, finalmente, pelo amor, por esse cimento único deveras

poderoso, que espontaneamente integra sem fazer violência as partes.

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Via, então, que Deus criara as almas amorosas, e, só por isto, integradas, sábias

e felizes, no topos uranos ou mundo celeste, para que tais filhas saíssem ao Pai.

Mas algumas, em perdendo o amor..., este por sua própria natureza livre, se

quiseram livremente partir no rumo do desconhecido o qual, positivamente, se

evidenciou ser o caos ou o nada formal. Quiseram autonomia, e autônomo (autos,

próprio; e nomos, lei) quer dizer que o ser se fez a si mesmo lei. Este, o livre-

arbítrio no qual se fragmentou a liberdade. A liberdade é estar conforme com

a lei e dela gozar; o livre-arbítrio é fazer-se a si mesmo a lei, contra quaisquer

outras leis; o resultado desta não anuência à lei é sofrer o peso desta, correndo

o risco de até ser esmagado por ela. Foi o que aconteceu aos espíritos rebeldes. E

dizia o filho ao Pai, na imaginação de Chilon:

- Já não quero viver mais em tua casa, obediente à ordem tua, à tua Lei. Quero-

me dono de mim mesmo, para correr mundo, e amar à minha maneira. Dá-me,

pois, a parte da fazenda que me toca a mim, por direito de filho. Não mo

poderás impedir que me vá, porque me fizeste livre para estar conforme com

teu atributo do amor. Visto que não se pode forçadamente amar, e já não te

quero mais, dá-me o que é meu, que já me vou em busca doutros amores. Por esta

causa não quero a união do comum e nosso, mas, a divisão de que saia o particular e

meu, só do qual posso dispor a meu talante, livre da sujeição que todo o co-

letivo impõe.

E o Pai repartiu com os filhos a fazenda (Luc 15, 12).

Chilon estava absorto nestes cismares, quando o chamou à realidade presente

o grito de Árago que o convidava a ir embora... por já ser tarde.

* * *

Reunidos todos na biblioteca esperavam, numa gostosa expectativa, pela

entrada de Árago que se demorava, lá dentro, ocupado em fazer algumas

recomendações à dona Cornélia. Pouco mais, e eis Árago junto dos presentes,

cumprimentando-os, prazerosamente. Após sentar-se em sua cadeira, voltou-se

para Benedito Bruco, dizendo-lhe:

- Embora Hierão gostasse que entrássemos logo no estudo de "O Livro dos

Espíritos", eu apreciaria discutir as proposições que você me fez muito antes dele

e hoje mesmo mas relembrou. Vejamos como você as expõe.

- A primeira dificuldade é aquela dos que dizem: por que Deus não criou o

mundo perfeito e sem males? Mas não me venha o senhor dizer, como o fez

Huberto Rohden, ao afirmar "que o objeto dum ato criador de Deus é sempre

algo, e não o nada, nem Tudo. Ora, qualquer espécie de algo, por maior que

seja, é finito, limitado, imperfeito".

- Você está certo, caro Bruco. Essa doutrina de Huberto Rohden foi,

primeiro, proposta por Leibniz. Se Deus só pode criar coisas limitadas,

finitas, imperfeitas, segue-se que perfeito só pode ser o infinito, o ilimitado.

Ora, Deus não pode ter-se criado a si mesmo, porque qualquer criação tem

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começo e fim, e de Deus se postula que não teve começo nem terá fim;

portanto, como não pode criar o Tudo que é si mesmo, nem o nada, que isso não é

criar, sobram-lhe a ele as coisas como únicas possíveis de serem criadas. Assim é

que perfeito é só o Tudo, o infinito. Por este modo de definir (perfeito é o

infinito), salta, inexoravelmente, a conseqüência de que Deus não pode

fazer obra nenhuma perfeita, visto como só pode criar um "algo", no dizer de

Leibniz e Rohden, e por maior que seja esse "algo", é imperfeito, porque

limitado. Pois então, se Deus é incapaz de executar obra perfeita, em que

reside sua perfeição? E se nem o Todo-poderoso Deus pode executar obra

perfeita, quem a executaria? Se é impossível uma obra perfeita, até mesmo

para Deus, que veio fazer esse termo em nossos vocabulários?

- Mas, perfeito, atalhou Romão Sileno, já ficou explícito no enunciado de

Huberto Rohden, é o infinito. Deus, logo, não é perfeito pelo que fez, senão pelo

que é. É infinito, e, só por isto, perfeito.

- Por conseguinte, concluiu Árago, as palavras perfeito e infinito se

equivalem, donde vem que há seres mais perfeitos que outros, sendo mais

perfeitos os que acercam do infinito, como o universo, e menos perfeitos aqueles

que estão mais próximos do nada, como os elétrons, ou as partículas nucleares dos

átomos. É assim, Sileno?

- Essa conclusão se impõe, necessariamente, do que afirma Rohden.

- Quer dizer, então, que a pedra-de-toque com que se há de avaliar a perfeição

é a infinitude, a grandeza espacial, o volume, o tamanho, visto como infinito se

refere ao espaço do mesmo modo que eternidade, ao tempo?

- Impossível será fugir a essa conseqüência, tornou Sileno.

Logo, inferiu o mestre, a Terra é mais perfeita que um homem, o sistema

planetário solar o é mais que a Terra, e galáxias, mais perfeitas que os sistemas

estelares. Ocorre, porém, que o homem, com sua inteligência, compreende a Terra,

o Sol e as estrelas, e não, vice-versa.

Fazendo ar de hesitação ante o inesperado da conseqüência, Romão Sileno

tentou outro caminho, dizendo:

Então, de certo, não há de ser em sentido espacial que se deve entender o

infinito. Tem que ser em sentido conceptual, donde se segue, por exemplo, que

um gênio, compreendendo o universo, é maior que este. Compreender é abarcar, é

conter, concepcionalmente. O mesmo Deus, se dermos que é imaterial, não pode

ser espacial, e o ser infinito dele não se refere a espaço, e sim, a concepção. Deste

modo, o grande, porém, inconsciente, é pequeno. Perfeita seria, então, a mente

capaz de compreender tudo; seria a sabedoria infinita, e essa só pode ser achada

em Deus. Só esta é a perfeição absoluta, e todas as demais, por maiores que

sejam, relativas, isto é, imperfeitas.

- Este modo de conceber a perfeição, Sileno, não me desagradaria, se ele não

implicasse com a idéia de todo-poderoso. Neste caso, o mal e a dor que derivam da

ignorância, seriam o resultado final da impossibilidade ou impotência divina em

fazer o grande, o "Tudo". Não podendo (então como é todo-poderoso?); não po-

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dendo fazer Deus o grande, o sábio, fez o miserável, o anão, o ignorante,

decorrendo disto, o sofrimento, a dor. Com isto, retornamos ao argumento

anterior, com outras palavras: se Deus não tem como criar o sábio, em que reside,

então, a sua sabedoria?, se não pode criar o perfeito, em que se cifra a sua

perfeição?

Neste ponto da discussão interveio Chilon Aquilano, propondo outra

solução.

– Todavia, se concebermos perfeição em termos de funcionalidade,

qualquer criação divina é perfeita, porque possui, em si, infusa, tanta sabedoria

quanto o exige a função que exerce no seio do sistema. As células do fígado, do

pâncreas, as neurônicas são sábias, uma vez que desempenham suas tarefas

complicadíssimas sem errar. Nisto reside suas perfeições; e saber mais seria saber

demais, visto como seria serem sábias para nada, isto é, fora do que têm a fazer.

- É como penso, concordou Árago; perfeito é o funcional, o executivo, e

desde que um algo qualquer atingiu a sua plenitude de função, ou seja, tornou

atualidade toda a sua potência (em sentido aristotélico), já ficou perfeito, não

podendo ir além. Assim, o elétron, o átomo, a molécula, a célula viva, o

diamante, a flor, o colibri, o gênio, tudo são perfeições, conquanto não sejam

iguais, nem estejam no mesmo nível hierárquico. Cada um representa obra prima

no seu grau específico.

E pondo-se o mestre a meditar um tanto, prosseguiu:

- Deus teria criado almas como ato completo, e, por isto, perfeitas e máximas

no sistema divino. Fazia parte desta perfeição o serem livres. Uma parte delas,

trocando a liberdade necessária à perfeição do amor, no arbítrio coexistente

com o egoísmo, caiu até o caos, de onde ressurge, agora, o universo evolutivo,

como uma volta para Deus. Se religião vem de "religio", derivado de

"religare ", e tem a função de religar o indivíduo humano finito com a

Realidade suprema, segue-se, logo, que esse indivíduo esteve ligado com ela

antes, pois re-ligar quer dizer tornar a ligar. Portanto, quem o desligou? Se

foi o mesmo Deus, então que o religue ele mesmo, agora, que para tanto tem

poder, e não imponha essa injustíssima subida dolorosa, feita, toda, de sangue,

suor e lágrimas, a seus filhos fracos e ignorantes. No entanto, como a ascensão

evolutiva ou religativa (religiosa, então, neste sentido), corre por conta do

criado, segue-se, e não pode ser de outro jeito, que o desligamento fê-lo a

criatura, e não, Deus.

- De fato, reargumentou Sileno, Deus não pode ser injusto; por

conseguinte, é justa a evolução. Contudo, a evolução faz o criado, subindo-se,

integrando-se, religando-se, e não, Deus, pelo menos diretamente. E se Deus não

pode ser senão justo, segue-se que a ascensão dolorosa, feita pelo filho,

necessariamente, é justa, não tendo sido provocada por Deus, porque, se tivesse, e

obrigasse, agora, a volta dolorosa, seria mais que injusto; seria injustíssimo!

Fez ponto Sileno; e Árago que o acompanhava, maneando a cabeça, continuou