Fisiologia, Medicina e Metafisica Do Magnetismo por Jules Charpignon - Versão HTML

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do magnetismo animal, contam-se poucos homens que tenham

trazido importantes esclarecimentos. Isso se concebe facilmente

quando se vê que pela natureza excêntrica dos fenômenos do

magnetismo, muitas pessoas pouco familiarizadas com a ciência

se faziam ardorosamente propagadoras desse sistema. Esse es-

tado de coisas, tornando popular uma descoberta de alta impor-

tância, afastou desde o começo os homens que teriam pronta e

seguramente estabelecido os elementos de um sistema científi-

co.

De Puységur deu, em 1785, uma aparência completa-

mente nova ao sistema de Mesmer, revelando as faculdades

psicológicas que certos magnetizados podem adquirir. A partir

desse momento, para a maioria, as maravilhas do sonambulis-

mo constituíram o magnetismo, e o que havia de físico e de

científico desapareceu. Todos os magnetizadores entraram por

essa via, ávidos de interrogar os novos oráculos.

Simultaneamente, um magnetizador observador, Tardy

de Montravel, se entregava a pesquisas muito doutas sobre o

fluido magnético animal. Infelizmente seus trabalhos foram

-20-

publicados de maneira incompleta; mas esse cientista modesto

abrira a outros praticantes uma via plena de futuro para a ciên-

cia.

Deleuze apareceu, e por seus talentos e seu nome vene-

rável o magnetismo começou a parecer ao mundo uma coisa

séria e científica. Deleuze professou a existência do fluido mag-

nético, mas não fez nenhum trabalho particular que esclareces-

se essa parte prática do magnetismo.

Até 1838, nada de verdadeiramente importante foi pu-

blicado na França sobre o fluido magnético animal. Então saiu

uma obra do doutor Despine, inspetor e diretor das águas de

Aix, na Sabóia. Esse notável trabalho, por observações e expe-

riências do mais alto interesse, estabelecia a existência do fluido

magnético, e oferece dados completamente novos sobre as ana-

logias desse fluido com os outros fluidos incoercíveis 4.

Assim que nos dedicamos ao estudo do magnetismo,

procuramos particularmente achar as provas da existência de

um fluido magnético animal.

Visto que o fluido dos ímãs é invisível, não podíamos es-

perar nenhum sinal visível do fluido magnético animal. Contu-

do, alguns magnetizados, no estado de sonambulismo lúcido,

diziam ver sair de nossas mãos, de nossos olhos, de nossa boca,

rastos de luz que os penetravam e determinavam neles modifi-

cações que variavam segundo suas doenças e os processos de

magnetização que empregávamos. Essa asserção não era de

resto senão a confirmação das que muitos magnetizadores rela-

taram.

4 Observations de médecine pratiques faites aux bains d’Aix, en Savoie, ou de l’emploi du magnétisme animal [Observações de medicina práticas feitas nos banhos de Aix, na Saboia, ou do emprego do magnetismo animal], pelo doutor Despine pai. - 1840. I vol. in-80, Paris, Baillère.

-21-

Para verificar de maneira certa o que a refinada sensibili-

dade nervosa dos sonâmbulos lhes permitia apreciar, fizemos

uma série de experiências cujo resumo vamos relatar.

EXISTÊNCIA DO FLUIDO MAGNÉTICO ANIMAL.

Tendo quatro frascos de vidro branco, magnetizo um

sem o conhecimento do sonâmbulo. Para isso, segurando a

garrafa com uma mão, carrego seu interior de fluido magnético,

mantendo durante alguns minutos os dedos da outra mão jun-

tos em ponta sobre o orifício; depois tampando-o imediatamen-

te, misturo esse frasco com os outros.

Apresentando esses quatro vidros ao sonâmbulo, ele

indica um como estando cheio de um vapor luminoso. É efeti-

vamente o que foi magnetizado.

Esta experiência, repetida muitas vezes com sujeitos dife-

rentes, sempre deu os mesmos resultados.

Para que o fenômeno não fosse somente uma transmis-

são de pensamento, esses frascos foram às vezes magnetizados

por outras pessoas, sem meu conhecimento nem o do sonâm-

bulo.

Os sonâmbulos bastante sensíveis para ver o fluido mag-

nético são raros.

O fluido magnético emitido pelos nervos do braço é pu-

ro, com uma luz brilhante e branca. Aquele que a respiração

emite é menos brilhante. É provável que seja por causa dos ou-

tros gases desprendidos pela expiração soprando dentro do

frasco.

A apresentação dos frascos ao sonâmbulo deve ser ime-

diata, porque o fluido magnético se evapora mais prontamente

do que o fluido elétrico, mesmo através do vidro.

O sucesso dessas experiências depende em grande parte

da habilidade e do cuidado com que são feitas.

-22-

O fluido nervoso ou magnético é mais ou menos brilhan-

te, puro e ativo, conforme a idade, o sexo, a saúde e a energia

moral.

Como os fluidos elétricos, o fluido nervoso pode ser a-

cumulado sobre certos corpos. Há aqueles que o conservam

mais ou menos, mas todos podem ser carregados.

COMPARAÇÃO DOS FLUIDOS ELÉTRICO E

MAGNÉTICO ANIMAL.

Ligando uma máquina elétrica, e pedindo aos sonâm-

bulos para verem o que ocorre, eles declaram ver o cilindro se

cobrir de um vapor bem mais brilhante e mais forte do que o

fluido nervoso. Cada vez que impedimos a acumulação do flui-

do elétrico sobre o condutor, os sonâmbulos cessaram de ver

esse condutor se tornar faiscante. Sabe-se que acumulado sobre

o condutor de uma máquina, o fluido elétrico não é visível para

nós; e os indivíduos com os quais experimentamos estavam

muito longe de conjeturar da teoria da eletricidade.

Tendo carregado uma garrafa de Leyde e apresentando-a

a esses sonâmbulos, eles viram-na cheia de um fogo brilhante

que distinguiam perfeitamente do fluido magnético animal. Se-

guiam a perda gradual do fluido elétrico pela haste e através das

paredes do vidro.

Essas experiências variadas e repetidas deram-nos resul-

tados positivos. Mas para apreciar-lhes o valor, é preciso levar

em conta a eletricidade natural que existe, como se sabe, em

todos os corpos; ora, essa eletricidade é visível para a maioria

dos sonâmbulos lúcidos. Assim, ainda que uma garrafa de Ley-

de não esteja carregada, esses sonâmbulos veem-na cheia de um

vapor ligeiramente luminoso produzido pelas folhas de ouro

que compõem a armadura interna. Entretanto, eles diferenciam

-23-

perfeitamente essa eletricidade do fluido elétrico comum e do

fluido magnético animal, uma vez que os compararam.

A impressão do fluido elétrico nos nervos está em rela-

ção com sua força íntima, ou seja, os efeitos são mais violentos

e menos em harmonia com o organismo do que aqueles de-

terminados pelo fluido magnético animal que é mais puro, me-

nos material e perfeitamente simpático ao organismo. Entretan-

to, acontece às vezes que a comoção elétrica não ocorre mais

quando a descarga se opera num magnetizado suficientemente

saturado do fluido magnético animal. Esse fenômeno ocorre

em virtude de uma combinação de um novo modo que se efe-

tua entre os dois fluidos, ou por causa da insensibilidade na

qual se mergulhou o sistema nervoso? (Ver os fatos citados na

página 48.)

COMPARAÇÃO DOS FLUIDOS GALVÂNICO E

MAGNÉTICO ANIMAL.

A eletricidade desenvolvida pelo contato de substâncias

heterogêneas tem, sobre o corpo humano, efeitos incontestá-

veis.

Submeti esse fluido, que chamaremos galvânico, para

distingui-lo do fluido elétrico, à investigação dos sonâmbulos

apenas em condições em que os meios físicos se tornam quase

insuficientes para apreciá-lo.

Era de resto provável que o fluido produzido pelas pi-

lhas, tendo grande analogia com o fluido elétrico que estudá-

ramos, não teria de particular senão uma atividade mais pro-

funda, uma natureza mais brilhante e menos molecular, se po-

demos exprimir-nos assim.

As experiências que fizemos foram apenas a reprodução

das do doutor Despines; é portanto esse hábil observador que

vamos citar.

-24-

Quando dois metais diferentes estão em contato, os so-

nâmbulos que podem ser impressionados por esse gênero de

experiência veem-nos cobertos de um fluido mais luminoso,

mais ativo e mais brilhante do que o da máquina elétrica ou do

que aquele que eles chamam de natural, e que existe sempre

sobre qualquer metal.

“Dispondo sobre uma mesa 40 discos de cobre e 40 dis-

cos de zinco, sem intercalação úmida (diz o doutor Despines), e

fazendo uma sonâmbula tocar com os dedos as duas extremi-

dades, ela experimenta uma comoção muito forte.

“Carregando uma garrafa de Leyde com essa pilha, colo-

cando o botão e a armadura exterior em contato com cada pó-

lo, a comoção sentida pelos magnetizados é maior do que com

uma carga elétrica.

“Fora do estado magnético, esses indivíduos não sentem

mais do que nós os efeitos do fluido dessa espécie de pilha.”

Aqui, como naquilo que precede, os indivíduos estavam

na mais completa ignorância sobre os efeitos que podiam nas-

cer do contato desses metais. Aliás, quando o Sr. Despines e eu

tentamos, cada um isoladamente, essas diversas experiências,

foi sempre sem saber o que devia acontecer, pois a eletricidade

desenvolvida por esse contato a seco de discos tocando todos

uma superfície não isolante, não impressionava nem os eletrô-

metros nem o galvanômetro.

COMPARAÇÃO DO FLUIDO DOS ÍMÃS E DAQUELE

DO SISTEMA NERVOSO.

Tendo colocado diante dos sonâmbulos quatro barrinhas

de ferro, das quais uma única era imantada, eles assinalaram

sempre a barra imantada. Reconheciam-na pelas duas extremi-

dades que viam envoltas num vapor brilhante. O vapor de cada

extremidade era diferente, um menos brilhante do que o outro.

-25-

Ora, essa diferença na força do fluido magnético correspondia

aos dois pólos, de tal sorte que a extremidade indicada como a

mais luminosa era o pólo austral. Nunca pude fazer esses so-

nâmbulos cometerem um engano, eles reconheciam imediata-

mente a natureza dos pólos, embora fossem absolutamente ig-

norantes sobre esse assunto.

Uma haste bastante longa sendo apresentada horizon-

talmente a sonâmbulos, eles pretenderam vê-la carregada de

um vapor luminoso; era a eletricidade natural do metal. Tendo

levantado e colocado essa barra de ferro, na direção do meridi-

ano magnético do lugar em que eu estava, eles se espantaram

de ver esse fluido brilhante se acumular logo nas duas extremi-

dades da haste metálica, e formar o que haviam notado nos

ímãs.

Esse vapor dos ímãs é mais pálido e menos brilhante do

que o dos fluidos anteriormente estudados, ele se aproxima

muito do fluido nervoso, mas é infinitamente menos ativo e

menos penetrante.

COMPARAÇÃO DOS FLUIDOS ELETROMAGNÉTICO

E MAGNÉTICO ANIMAL.

As descobertas dos cientistas Œrstel, Ampère e Arago

sobre os fenômenos resultando da ação das correntes elétricas

sobre os ímãs, fizeram pensar que o fluido produzido nessa

combinação de efeitos era uma nova modificação dos fluidos

elétricos, e chamou-se a esse fluido eletromagnético.

Esse fluido tem sobre o corpo humano uma ação menos

violenta do que os fluidos elétrico e galvânico; mas essa ação é

mais potente do que as do fluido do ímã e do fluido nervoso.

Para experimentar sobre magnetizados, utilizamos o apa-

relho eletromagnético de Clarke. Os sonâmbulos que subme-

temos ao aparelho experimentavam as mesmas sensações que

-26-

no estado de vigília. Distinguiam muito bem o fluido que desli-

zava sobre os condutores. Pretendiam que se fosse possível a-

niquilar o tremor nervoso que esse fluido ocasionava, poder-se-

ia determinar o sono magnético com uma máquina desse tipo.

Submeti à ação do aparelho de Clarke um jovem de vin-

te e dois anos, habitualmente susceptível de sono magnético

completo, mas sem sonambulismo. Após alguns minutos de um

movimento lento imprimido à máquina, a cabeça curvou-se, o

rosto ruborizou-se mais do que na magnetização, e um sono tão

profundo e tão longo quanto pelo magnetismo se manifestou.

Viram-se, além disso, alguns exemplos de sonambulismo

suscitado pela ação da pilha de Volta5. O Sr. Ducros comunicou à Academia de Ciências, na sessão de 31 de maio de 1847,

que produzira a insensibilidade com a ajuda do aparelho de

Clarke primeiro em animais, depois numa jovem que sofrera a

extração de um dente molar.

Seria então possível que se encontrasse, numa modifica-

ção de um aparelho eletromagnético, um meio de agir sobre o

sistema nervoso que teria o mesmo gênero de influência que o

fluido magnético animal.

COMPARAÇÃO DA ELETRICIDADE NATURAL DOS

CORPOS E DO FLUIDO NERVOSO.

Todos os corpos contêm um fluido particular que se po-

de considerar como a eletricidade natural admitida pelos físi-

cos. Esta eletricidade, que não é apreciável comumente, vem a

sê-lo para os magnetizados suficientemente impressionáveis.

Observáramos que os sonâmbulos que viam o fluido elé-

trico condensado numa garrafa de Leyde, pretendiam vê-lo a-

inda quando a garrafa não estava carregada. Essas asserções

5 Carta do doutor Koreff, no fim da instrução prática de Deleuze.

-27-

opostas fizeram-nos crer algum tempo que os sonâmbulos eram

enganados por sua imaginação, dizendo a verdade quando o

acaso os favorecia. Entretanto, tendo multiplicado nossas expe-

riências, achamos que os sonâmbulos distinguiam perfeitamen-

te o fluido elétrico, do fluido naturalmente espalhado sobre as

folhas de ouro da garrafa, e que um fluido semelhante existia

sobre todos os corpos no estado natural.

Apresentamos a esses sonâmbulos peças de ouro, de pra-

ta, de cobre, de zinco, de ferro, de madeira, e cada um desses

objetos foi reconhecido sem que a visão ordinária ou o toque

dos dedos fossem usados. A distinção ocorria pela natureza do

vapor luminoso que cercava cada objeto. Esse vapor era mais

ou menos brilhante, de acordo com tal ou qual metal, de ma-

neira que fiquei muito surpreso de ver esses sonâmbulos colo-

carem o ouro em primeiro lugar e a madeira em último, inter-

calando na ordem a prata, o cobre, o ferro e o zinco. Era a ver-

dadeira ordem eletromagnética dos metais.

Os sonâmbulos que eram menos lúcidos não viam nada

para a madeira, a pedra, o ferro, o cobre, e distinguiam somen-

te o fluido natural do ouro e da prata.

COMPARAÇÃO DA LUZ E DO FLUIDO

MAGNÉTICO ANIMAL.

Experiências rigorosas feitas por hábeis físicos demons-

traram que a luz solar não decomposta determina efeitos elétri-

cos, e que o mesmo acontece quando ela é decomposta.

Ora, se a luz pode influenciar os corpos inorgânicos de

tal sorte que decompõe a eletricidade natural deles, era de pre-

sumir que ela agiria também sobre a eletricidade de certos sis-

temas nervosos. O princípio essencial dessas duas potências é

efetivamente idêntico, segundo as induções sintéticas cujos dife-

rentes termos colocamos, induções que se puderam seguir.

-28-

Convencemo-nos, portanto, da ação do fluido luminoso sobre

o sistema nervoso.

Observamos vários indivíduos que, em estado de so-

nambulismo magnético não podiam suportar a menor nuança

de luz natural ou artificial. Precisavam de escuridão completa, e

então as faculdades sonambúlicas adquiriam um desenvolvi-

mento tão completo que a visão se tornava possível apesar da

oclusão dos olhos. Os objetos eram iluminados, para esses so-

nâmbulos, pelo fluido magnético e pela eletricidade natural

desses objetos. Eles os viam como num nevoeiro mais ou me-

nos claro, mas a visão era sempre dificultada, lenta, e não abra-

çava ao mesmo tempo todos os pontos do objeto. Para cinco

sonâmbulos nos quais observamos essa faculdade, a interposi-

ção de um corpo opaco entre seus olhos e o objeto não impe-

dia a visão; esse obstáculo apenas a tornava mais lenta e mais

laboriosa.

No estado atual da ciência cremos impossível explicar es-

se fenômeno a não ser pelo fluido magnético e a eletricidade

natural dos corpos interpostos e daqueles a ver: esses fluidos

sendo luminosos e atravessando todos os corpos, tornam sem-

pre iluminado o objeto que acreditamos sem luzes.

Outro fenômeno, talvez mais extraordinário, veio au-

mentar nossas observações sobre a influência ainda tão pouco

conhecida da luz. Convencemo-nos de que a luz fixada nos

corpos, ou seja, a cor, agia sobre esses sistemas nervosos excep-

cionais com o mesmo modo de ação que a luz ambiente. As-

sim, as cores vermelha e violeta impressionavam realmente es-

ses doentes, despertos ou adormecidos.

Nós observamos esse fenômeno, de que estávamos longe

de suspeitar, vendo uma sonâmbula se queixar da cabeça, a-

tormentar-se e ficar muito agitada sem que pudéssemos achar a

causa disso. Ela acabou, porém, pegando um lenço que lhe en-

volvia a cabeça e o pescoço, e, jogando-o longe, disse-nos que

-29-

era ele a causa de seu mal-estar. Ora, esse lenço não era de se-

da e não tinha nada de extraordinário. Repetimos a experiência

com lenços diferentes, e cada vez que a cabeça foi envolvida

num lenço vermelho, o mal-estar voltou. Tentamos obter esse

resultado com outros magnetizados, mas achamo-los quase to-

dos completamente insensíveis a todos os tecidos e a todas as

cores. Entretanto encontrei alguns que ofereceram o mesmo

fenômeno quando usavam algum tecido de cor vermelha, e que

me preveniram que essa cor os fatigava.

O doutor Despine, que se conduzira nessa estrada expe-

rimental da física do magnetismo bem antes de nós e com mais

cuidados, devia ter algo análogo sobre essa singular influência

das cores. Com efeito, eis o que se lê em suas importantes Ob-

servações de medicina prática.

“A impressionabilidade pelas cores é também um fenô-

meno digno de nota. O vermelho papoula punha em crise nos-

sa jovem de Neuchâtel. – Annette Roux entrou em crise um

dia num veículo público, porque um dos viajantes tinha um

guarda-chuva de seda vermelha carmesim encerrado num gran-

de garrote que lhe servia de bengala. Ninguém sabia disso no

carro, a não ser o viajante ao qual ele pertencia, e foi a jovem

que o indicou, quando seu condutor lhe perguntou, pondo-se

em relação com ela, por que ela entrara numa crise que não

anunciara...

“O violeta constantemente fatigou muito todas as minhas

doentes6. Este fato parece dever-se em parte à classe dos fenô-

menos galvanometálicos. Voltarei a isso numa outra circunstân-

cia para indicar tudo o que já obtive de minhas pesquisas, e o

6 A maioria dos doentes do Sr. Despine era de catalépticos que entravam naturalmente nas crises letárgicas ou sonambúlicas.

-30-

que observei de mais positivo e de mais curioso sobre esse as-

sunto7.”

O objetivo dos estudos físicos e fisiológicos que acaba-

mos de fazer foi estabelecer:

10 Que um fluido da natureza dos imponderáveis circula-

va no sistema nervoso do homem;

20 Que esse agente, assim como os outros fluidos, seus

análogos, eram apenas modificações de um único e mesmo

princípio, modificações operadas, como vimos, sob a influência

das agregações e das combinações moleculares. De forma que

o princípio etéreo, ou universal, é primeiro vivificador da maté-

ria inerte, e depois, por uma elaboração que se eleva em razão

da progressão ontológica, ele se torna produto da organização,

cujos primeiros elementos ele agrupou em virtude das leis de

afinidade depositadas nos átomos materiais pelo criador.

Esta doutrina era a de Mesmer o qual, como mostramos,

compreendera que o princípio universal não era mais o princí-

pio de vida próprio do homem. Assim, relendo o aforismo que

citamos, vê-se uma ideia completamente diferente daquela dos

antigos filósofos, e entre outros de Maxwel, o qual, dois séculos

antes, escrevera um tratado de magnetismo universal no qual

Mesmer se inspirara.

Maxwel diz: “É pelo espírito universal que tudo é manti-

do em seu estado. Nada daquilo que é corpo ou matéria tem

atividade, se não for animado por esse espírito, e se ele não lhe

servir de algum modo de forma e de instrumento. O espírito de

vida universal que desce do céu, puro, inalterável, como a luz, é

a fonte da vida que existe em cada coisa, pois é ele que as for-

ma, as multiplica e lhes dá o poder de se propagar.”

7 Viu-se em Antuérpia, diz Huyghens, um prisioneiro cuja vista era tão penetrante e tão viva que ele descobria, sem nenhum auxílio de instrumentos e com facilidade, tudo o que estava escondido e coberto sob algum tipo de tecido, exceto, somente, os tingidos de vermelho. (História das superstições, Lebrun.)

-31-

Embora os progressos da ciência tenham conduzido a

operar, entre as diferentes potências imponderáveis que presi-

dem como causas segundas à vida da matéria, uma síntese que,

reunindo todos esses agentes de ação, parece fazê-los sair de

um único fluido imponderável, existe contudo uma profunda

demarcação entre as duas doutrinas.

Com efeito, admitir que o princípio de vida é absoluta-

mente o mesmo em todos os seres criados é consagrar a influ-

ência mútua de todos os corpos da criação. E como entre as

criaturas, o homem tem o poder, como veremos em breve, de

agir sobre o imponderável que vivifica sua espécie, seria preciso

crer que ele pode agir também sobre os outros seres da nature-

za. Ora, esta opinião é um erro grosseiro. Ela foi a consequên-

cia dos princípios da doutrina do princípio universal visto como

vivificando tudo, e afligimo-nos vendo-a professada pelo Sr.

Ricard, em seu tratado de magnetismo. Este autor diz que o

homem dotado de uma vontade enérgica pode atrair ou repelir,

afastar ou reunir, abaixar ou elevar, dissipar ou acumular as

nuvens que dele se avizinham, e imprimir-lhes uma direção

determinada. Com o apoio desta pretensão, relata que duas

vezes, exposto à chuva de nuvens agrupadas acima do jardim

em que se encontrava, ele saiu do lugar que ocupava, de modo

que uma folha de papel colocada no chão não estava mais mo-

lhada, ao passo que outra estava molhada um pouco mais lon-

ge.

Há entre toda a natureza uma dependência manifesta;

mas isso não é senão esta influência que torna a parte solidária

do todo, sem que essa parte possa se isolar e agir à sua vontade

sobre o todo, de outro modo a harmonia seria perturbada por

um capricho da vontade humana. Então, Mesmer disse, todavi-

a, uma grande verdade neste aforismo: “Existe uma influência

mútua entre os corpos celestes, a Terra e os corpos animados.”

-32-

A experiência de todos os dias demonstra essa influência.

Um céu tempestuoso fatiga certas pessoas, outras pressentem

de antemão uma mudança na atmosfera. O começo da noite e

a aproximação da aurora têm uma influência positiva e muito

oposta sobre os paroxismos das doenças, e essas mudanças di-

versas coincidem com as oscilações da coluna barométrica. Mas

há uma grande distância entre isso e esse magnetismo universal

tal como Maxwel, Wirdig e o próprio Mesmer o ensinavam.

Sabemos que se pode objetar à nossa maneira de ver a

ação que algumas vezes o homem tem sobre o animal e sobre

os vegetais; mas essa ação, de que voltaremos a falar, é muito

limitada e depende acima de tudo da disposição individual do

operador, cujo fluido nervoso é mais análogo ao dos aparelhos

vitais sobre os quais ele age. Isso não é, pois, senão uma exce-

ção bem rara, que todavia se liga a uma faculdade particular da

qual o homem era dotado em sua vida primitiva.

Da analogia que reconhecemos existir entre as diferentes

forças motrizes da vida de todos os seres e o princípio etéreo,

resulta evidentemente um certo grau de solidariedade entre

cada parte da natureza, solidariedade que faz com que nenhum

corpo possa se encontrar na presença de outro sem que se de-

senvolva um efeito tendendo, mais ou menos, a operar a fusão

dos dois corpos, ou então a destruí-los, a fim de poder em se-

guida refazer uma nova combinação.

Com o auxílio do princípio que admitimos, a solidarie-

dade pela qual todas as partes da criação reagem uma sobre a

outra dentro de certos limites, explicam-se os fenômenos das

atrações e das repulsões, das combinações e das decomposi-

ções químicas, das simpatias e das antipatias.

A videira plantada perto do olmo cresce com força e en-

laça-o com seus galhos; o aloés procura apoio na oliveira, a fi-

gueira no plátano; os acônitos, as solanáceas crescem muito

-33-

bem à sombra do teixo; a papoula gostaria de ser da família das

gramíneas.

Por outro lado, a videira morre perto do loureiro, a oli-

veira enfraquece junto do carvalho, a cicuta perece junto da

videira e da arruda, o que fazia J.-B. Porta dizer que a cicuta

não seria mais um veneno caso se bebesse arruda.

Os vegetais, que se convém mais ou menos entre si, tam-

bém estão submetidos à influência dos astros de maneira bem

notável. Recordamo-nos que o pessegueiro cujas folhas foram

dirigidas para a terra torce seus galhos e volta sempre outra vez

suas folhas para o céu? Os folíolos da acácia, assim que a noite

cai, formam uma linha horizontal sobre seu eixo, e de dia tor-

nam-se verticais. O céu fica nublado? As flores da calendula

pluvialis fecham-se e anunciam uma tempestade, ao passo que

as do sonchus sibericus se abrem à tempestade e se fecham as-

sim que os nevoeiros se vão. Esta ação da atmosfera e dos as-

tros sobre as plantas é tão regular, que Lineu classificou as flo-

res com os instantes em que elas experimentam essa mudança

simpática, e pôde fixar assim cada hora da revolução diurna da

Terra; é o que ele chamou de o relógio da Flora.

No reino animal, seria bem mais fácil ainda encontrar es-

ses tipos de influências; mas elas começam a ser submetidas a

certas condições. A família dos ofídios goza de um poder terri-

ficante muito ativo, desde as enormes serpentes da América,

que paralisam o animal que elas percebem, até a víbora que,

toda contraída sobre si mesma, fixa com seus olhos faiscantes a

rã ou o rouxinol, e força este pobre pássaro a cessar pouco a

pouco seu canto alegre para lançar um grito agudo e descer de

galho em galho até cair nos dentes assassinos. A serpente por

sua vez é escrava do cervo; se este a encontrar, pára, levanta-se

diante do réptil, o qual, se contraindo convulsivamente, é enfim

forçado a rastejar sob os pés de seu inimigo. Em vão a ágil do-

ninha quisera fugir, se seu olhar encontrou o de um sapo! O

-34-

próprio sapo é vítima da aranha, que o envolve com sua teia

sem temer que o réptil hediondo escape. A perdiz não pode

mais voar assim que os olhos fascinadores do cão lhe causaram

vertigem.

Esta influência mútua das diferentes partes da criação fo-

ra observada desde a mais alta antiguidade e dera lugar a muitos

sistemas. Estudada com uma espécie de predileção pelos filóso-

fos da Idade Média, este conjunto de fenômenos recebera deles

o nome de magnetismo.

Foi a comparação dos fenômenos de atração e de repul-

são, produzidos pelo ímã, com os efeitos de simpatia e de anti-

patia observados nos diferentes seres da criação, que levou a

englobar sob uma mesma denominação fenômenos que pareci-

am se referir à mesma causa8.

Lançamos uma olhada rápida a todos os tipos criados

que precedem nossa espécie, e encontramos aí esses curiosos

fenômenos de influência que os antigos chamaram de magne-

tismo, reunindo-os com razão sob uma mesma lei de causalida-

de física. Resta-nos abordar o estudo dos mesmos fenômenos

na espécie humana, e pesquisar se estão submetidos à mesma

lei.

Este estudo constitui o que Mesmer chamou de magne-

tismo animal, e o que com mais conveniência e lógica chama-

remos, de acordo com alguns autores modernos, de magnetis-

mo humano.

8 Magnes-imã. – Magnetismo mineral. – Magnetismo sideral. – Magnetismo universal. – Magnetismo animal. Denominações criadas antes de Mesmer.

-35-

CAPÍTULO SEGUNDO

MAGNETISMO HUMANO. – AÇÃO MAGNÉTICA – FENÔMENOS

NERVOSOS.

Deleuze definiu o magnetismo: a faculdade que o ho-

mem tem de exercer sobre seus semelhantes uma influência

salutar, dirigindo sobre eles, por sua vontade, o princípio que o

faz viver.

Delausanne diz: “O magnetismo animal é a ação da inte-

ligência sobre as forças conservadoras da vida.”

O Sr. Ricard aceita o mesmo pensamento e assim o ex-

pressa: “O magnetismo é a manifestação da faculdade volitiva

que todos os seres possuem.”

O Sr. Dupotet dá o nome de magnetismo animal à influ-

ência oculta que os seres organizados exercem à distância um

sobre o outro.

Estas definições restringem os fenômenos magnéticos,

fazendo-os depender sempre da vontade, pois há uma ordem

de fenômenos completamente independentes da vontade, e

que todavia pertencem ao magnetismo animal; ou então elas

confundem efeitos que diferem demasiado em sua causa gera-

dora para serem agrupados sob o nome de magnetismo animal.

A palavra magnetismo deve ser consagrada para exprimir

a grande lei que estabelece entre toda a criação as relações de

solidariedade e de influências de que falamos no primeiro capí-

tulo. Pode-se acrescentar a isso, para mais clareza, o epíteto de

universal.

A influência dos corpos celestes entre si e sobre as outras

partes da criação é o magnetismo sideral.

A do ímã sobre os metais, sobre o animal ou sobre o

homem é o magnetismo mineral.

-36-

A dos animais entre si, ou a ação do homem sobre essas

criaturas, deve somente levar o nome de magnetismo animal.

E parece-nos conveniente e lógico formar um grupo par-

ticular dos fenômenos que resultam da influência do homem

sobre sua espécie ou sobre as outras, e chamá-lo magnetismo

humano. Neste grupo se acharia, caso se quisesse levar mais

longe a exatidão lógica, o magnetismo animal, como dissemos

no parágrafo precedente, depois o magnetismo vegetal, quando

o homem procura influenciar os vegetais, e enfim o magnetis-

mo inorgânico, quando ele magnetiza a matéria bruta.

Qualquer que seja essa subdivisão, insistimos em com-

preender sob a denominação de magnetismo humano toda in-

fluência que tem seu centro de ação no homem.

É necessário, para estudar com facilidade tudo o que o

magnetismo contém, estabelecer certas divisões em seus fenô-

menos. Assim consideramos: um estado nervoso, fenômeno

fisiológico, compreendendo todos os efeitos magnéticos sob o

sonambulismo;

Um estado fisiológico e psicológico, compreendendo o

sonambulismo e o êxtase.

Cada uma dessas ordens de fenômenos pode nascer por

uma influência estranha, refletida ou não refletida; pela influên-

cia do indivíduo sobre si mesmo, e pela influência de uma cau-

sa material qualquer, agindo como excitante do fenômeno fisio-

lógico.

Digamos uma palavra sobre cada uma dessas causas, que

são capazes de trazer modificações mais ou menos intensas ao

estado habitual do homem.

A influência refletida e deliberada é a magnetização, ou o

ato pelo qual se traz, por seu próprio poder, uma modificação

qualquer ao organismo de um indivíduo que se quer submeter

a essa ação. A vontade é o princípio virtual dessa magnetização,

e como querer é determinar-se e tomar uma direção de ação,

-37-

decorre daí que a ação é o poder de querer reduzido em ato; a

vontade leva portanto necessariamente à ação sobre um sujeito

que a recebe; donde, em magnetismo, deve haver dois seres em

dois estados diferentes, um ativo, outro passivo. Se ambos for-

marem uma vontade oposta, as condições de magnetização não

existem; é uma luta em que o mais fraco sucumbirá por vezes.

O magnetizador deve portanto solicitar a ausência dos

movimentos voluntários e a calma do espírito, porque de outro

modo o sujeito secretaria ele mesmo eletricidade, saturaria dela

sua organização, a exalaria mesmo, e estaria bem longe de po-

der recebê-la.

A imaginação do magnetizado está então longe de ser fa-

vorável à aparição dos fenômenos magnéticos; ela é ao contrá-

rio prejudicial, porque a alma, fazendo trabalhar os órgãos do

pensamento, excita-os e faz circular por todos os nervos um

fluido nervoso abundante que aumenta a resistência vital, e se

opõe, algumas vezes completamente, à invasão do sistema ner-

voso por um fluido estranho.

Mostramos que o homem possuía uma espécie de eletri-

cidade particular, e é com a ajuda deste imponderável que a

alma age sobre o corpo, e percebe as sensações deste.

Todo movimento voluntário é produzido pela contração

dos músculos, sob a influência do agente nervoso acionado pela

vontade. Há nesses atos da vida de relações o germe dos fenô-

menos magnéticos, pois eles se realizam sob o poder da mesma

lei.

Com efeito, assim como a vontade basta para enviar o

fluido nervoso ao dedo e modificá-lo de maneira a produzir tal

ou qual movimento, igualmente basta querê-lo para que esse

fluido chegue com maior abundância à superfície cutânea, e

fazê-lo sair pelos filetes nervosos que aí vêm ter.

Há certas partes da periferia do corpo rumo às quais a

concentração e a emissão do fluido nervoso é mais fácil que em

-38-

outras; esta diferença encontra sua causa em disposições ana-

tômicas particulares.

Desde que os magnetizadores experimentam, era reco-

nhecido que a emissão do fluido era mais ativa pelas mãos, de-

dos, cabeça, epigástrio e dedos dos pés; ora, os trabalhos poste-

riores e recentes sobre os corpúsculos de Pacini 9 demonstraram um pequeno aparelho nervoso muito complicado existin-

do, como terminação dos filetes nervosos, no tecido celular

subcutâneo da polpa, dos dedos, dos dedos dos pés, do epigás-

trio e outras partes periféricas do corpo. Existem também no

mesentério; o objetivo desses últimos se vincula à dinamização

do grande simpático, que possui, como se sabe, propriedades

independentes do cérebro, e que para isso deve modificar o

fluido nervoso do centro cérebroespinhal.

Concebe-se agora como o corpo humano não perde toda

a eletricidade que se forma em seu interior, visto que esse flui-

do é levado até a periferia por condutores que terminam num

tubérculo esférico, e que são ainda recobertos pelo invólucro

epidérmico, substância muito pouco condutora da eletricidade.

Apesar desta disposição, que até hoje pouco atraiu a a-

tenção dos fisiologistas, há circunstâncias que favorecem a exa-

lação do fluido nervoso, tais como a transpiração cutânea, que

acompanha comumente uma sobreexcitação da vitalidade, os

corpos ao redor que podem agir por atração, e a vontade, aci-

ma de tudo.

9 Os corpúsculos de Pacini são pequenos corpos esferóides, um pouco menores do que uma cabeça de alfinete, transparentes, atravessados por um canal que se prolonga em forma de pedículo, o qual aloja um filete nervoso. O

pedículo é composto de lamelas, como imbricadas, lamelas que encerram um líquido. A fibra nervosa termina em botão.

Este aparelho nervoso, posto à superfície tátil, desempenha, como se pode imaginar, um grande papel nos fenômenos de eletricidade humana. A analogia é espantosa com o aparelho dos peixes elétricos, que são compostos de tubos cilíndricos com paredes lamelares e terminação esférica.

-39-

Uma organização poderosa, unida a uma grande ativi-

dade cerebral, são causas de uma produção abundante de flui-

do magnético, e de uma irradiação involuntária desta força. As-

sim, as pessoas dotadas destas disposições naturais dão ensejo a

estes inúmeros fenômenos de simpatia e de antipatia, até hoje

tão pouco compreendidos. Na presença de certas pessoas não

se sente uma perturbação desconhecida, uma espécie de domi-

nação, ou então algo suave e inexplicável? Outras vezes fica-se

excitado, as ideias se exaltam no sentido daquelas do estranho,

as forças físicas são aumentadas ou deprimidas. E se a inteli-

gência daquele que impressiona assim os que o cercam fica ex-

citada e desejosa de convencer pela palavra, então a ação torna-

se extraordinária e invade as massas. É esta a alavanca com a

ajuda da qual os grandes gênios, as almas fortemente penetra-

das do que dizem, transformam com suas vozes a multidão que

os escuta.

É por esta lei fisiológica que se comunicam as paixões,

as emoções, os terrores, as convulsões.

Aqueles que explicam estes fenômenos pela imitação,

não explicam nada, pois resta-lhes dizer por que o organismo

humano imita os atos de outra organização.

Todo homem que tem a faculdade de querer pode en-

tão magnetizar. Para isso, ele deve procurar saturar com o flui-

do que sabe emanar de si o indivíduo que ele quer magnetizar.

Este efeito constitui a magnetização ordinária, e sua causa é

mista, visto que dois agentes concorrem para isso: a vontade e o

fluido. Fazemos desta magnetização um grupo distinto, porque

veremos que há casos em que um destes dois agentes não é

necessário para a produção dos fenômenos. Vamos então estu-

dá-lo separadamente.

Efeitos sobre o homem. – A disposição para ser mag-

netizável está longe de ser a mesma em todos os homens. Há

mesmo alguns, embora muito poucos, que não experimentam

-40-

absolutamente nada. Estas variações de sensibilidade devem-se

a mil causas, seja à constituição, ao temperamento, às doenças,

à idade, ao sexo, ao clima, à hora da experiência, ao estado mo-

ral, aos assistentes. Muitas destas causas podem vir da parte do

magnetizador, de modo que um nada obtém, ao passo que ou-

tro magnetizará a mesma pessoa refratária.

Consagramos um capítulo ao estudo dos procedimentos,

nada diremos deles aqui, e passamos imediatamente aos efeitos

nervosos que resultam da magnetização.

Nos indivíduos magnetizáveis, as sensações e as mudan-

ças sentidas são muito variáveis; mas vê-se que o sistema nervo-

so tende a operar uma crise que deve mudar seu modo funcio-

nal habitual. Os olhos lacrimejam, a pele fica quente, seca ou

úmida; o suor às vezes é abundante; bocejos se sucedem; uma

impaciência geral, formigamentos nas extremidades, sobressal-

tos nos membros, vontades de dormir ou movimentos intesti-

nais se manifestam; o pulso fica acelerado, mais raramente fica

lento; os olhos ficam pesados, as pálpebras colam-se, uma cal-

ma benfazeja toma o magnetizado; outras vezes arrepios correm

ao longo da espinha dorsal; eles seguem a mão do magnetiza-

dor; algumas vezes, aparecem convulsões gerais ou parciais, ou

então a respiração parece sufocada; há uma espécie de delírio.

Vê-se por oposição certos indivíduos caírem numa espécie de

letargia; atingidos por catalepsia, não podem mexer-se nem fa-

lar; ouvem por vezes sem poder faze-lo compreender; se lhes

arranjarem os membros numa posição, ela se manterá por si só.

Abalos semelhantes aos provocados por um corpo eletrizado se

manifestam à aproximação do dedo do magnetizador.

Se houver disposição para o sonambulismo, então o cé-

rebro sente primitivamente a ação. Os nervos motores do olho

se contraem, e se o sujeito luta para manter os olhos abertos,

esta tensão frontal, orbital e temporal torna-se dolorosa. A ca-

beça entorpece, as pálpebras piscam, o corpo todo sucumbe.

-41-

Ao mesmo tempo, na maioria das vezes, ou como nos fenôme-

nos cerebrais, a mesma ação ocorre no grande simpático. Os

plexos se fecham, o diafragma se contrai; há ansiedade, pertur-

bação da respiração, às vezes um riso convulsivo, soluços, uma

agitação barulhenta dos intestinos; enfim, logo há perda de

consciência, e a passagem ao sonambulismo operou-se. Os dois

aparelhos do sistema nervoso recebem a partir daí um mesmo

fluido.

Esses diversos fenômenos nervosos são levados às vezes

a tal grau de intensidade que assusta aqueles que não estão ha-

bituados ao magnetismo, e, em consequência de sua inquieta-

ção, a intensidade aumenta. Então, nunca se deve esquecer que

se é sempre capaz de impedir o menor mal, e que, tão logo se

queira, se recoloca o sujeito no seu estado primeiro; isto, de

resto, demanda certas precauções que só a experiência ensina.

Ocorre o mesmo com o período que os magnetizados atraves-

sam para chegar ao sonambulismo; ele pode ser inquietante;

mas sabendo dirigi-lo e ajudá-lo, se realizará facilmente, ao pas-

so que no caso contrário não trará o sonambulismo, e deixará

um cansaço geral. A crise sonambúlica se declara, como aca-

bamos de dizer, após esta perturbação nervosa; entretanto, isto

está longe de ser constante, e em muitas pessoas ela se manifes-

ta após um sono calmo e profundo, de modo que é bastante

difícil saber em que momento ela ocorre. Só o hábito pode en-

siná-lo e dar o tato necessário para não questionar e forçar a

falar antes do tempo, pois agir prematuramente é deter o efeito

desejado, e assim se desperta o magnetizado.

Os fenômenos dos quais acabamos de falar se apresen-

tam sem ordem, isolados ou reunidos, efêmeros ou persisten-

tes, durante toda a duração da magnetização. Contudo, o mag-

netizador tem sobre sua aparição, seu grau e duração, um po-

der positivo, de maneira que quase sempre ele obtém os que

ele quer, e anula os que considera inúteis.

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Entre estes fenômenos nervosos há alguns que se quer

produzir por motivos particulares, como para favorecer o sono,

para excitar alguma crise, ou para levar à convicção.

Estes efeitos são principalmente a paralisia das pálpebras,

ou a de um membro;

A atração de um membro ou de vários juntos pela mão

colocada à distância;

A catalepsia ou a persistência da posição dada a um dos

membros;

A insensibilidade às dores físicas.

Esses fenômenos são produzidos pela invasão do sistema

nervoso do sujeito e de todos os seus órgãos pelo fluido do

magnetizador.

Acreditou-se por muito tempo que a paralisia, a catalep-

sia e a insensibilidade podiam ser determinadas apenas em su-

jeitos que tinham alcançado o período de um sono magnético

completo e mesmo do sonambulismo. Mas a experiência de-

monstrou que esses fenômenos podiam ser produzidos em pes-

soas que permaneciam acordadas.

Todavia, esses efeitos magnéticos não atingem seu ápice

de intensidade e de frequência senão nos indivíduos eminen-

temente predispostos ao sonambulismo, e mesmo com mais

frequência somente neste estado particular.

A insensibilidade às grandes dores não pode, a nosso ver,

ser produzida a não ser em sujeitos capazes de sonambulismo e

quase sempre neste estado. Quando se age sobre uma destas

pessoas despertas, pode-se tornar insensível uma parte qualquer

do corpo.

Mais raramente pode-se ainda produzir uma insensibili-

dade local em pessoas despertas que não parecem susceptíveis

a nenhum efeito magnético importante. O doutor Viancin crê

mais explicitamente do que nós neste poder de localizar a in-

-43-

sensibilidade em quase todo o mundo; mas embora tenhamos

obtido alguns sucessos, restringimo-nos à nossa maneira de ver.

Diremos a mesma coisa para a insensibilidade à eletrici-

dade das máquinas, das pilhas ou dos ímãs rotativos. Para que

ela se estabeleça, é preciso que o sistema nervoso do sujeito seja

completamente invadido pelo fluido magnético, e que um sono

magnético profundo tenha sido provocado. Somente em so-

nâmbulos é possível manter o estado de vigília no cérebro, en-

quanto o corpo magnetizado é submetido ao choque de uma

bateria elétrica sem sentir nada.

As experiências mais espantosas sobre este assunto per-

tencem ao Sr. Lafontaine. Deixemos que ele mesmo fale:

“Em Caen, no gabinete de Física da Academia, submeti

meu sonâmbulo Eugene a uma pilha das mais fortes. O Sr. De-

lafoy, professor de física, dirigia as experiências.

“.......O doutor Lebidois se distinguia por sua increduli-

dade; duvidava até mesmo da lealdade do Sr. Delafoy, e acusa-

va-o de não dar abalos bastante fortes.

“Para convencê-lo, propus-lhe suportar os choques com

o sonâmbulo; ele aceitou: pegou com uma mão um dos cilin-

dros, com a outra uma corrente segurada igualmente por Euge-

ne, o qual com a outra mão segurava um cilindro.

“O Sr. Delafoy, ofendido porque se duvidasse de sua le-

aldade, e convencido pelas experiências precedentes que Euge-

ne era completamente insensível, deu um choque tão forte que

o Sr. Lebidois foi derrubado no chão, e ficou alguns momentos

sem conseguir se restabelecer. Eugene pelo contrário permane-

cera calmo, impassível, e não sentira absolutamente nada.

“Não era mais possível duvidar da insensibilidade, e a

maior parte dos médicos da cidade, que estava presente, ficou

convencida de que pelo magnetismo se podia tornar insensível

todo o corpo de um indivíduo.

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“Fiz mais, quis provar-lhes que completamente desperto

se podia paralisar a sensibilidade de uma parte do corpo mes-

mo à eletricidade.

“Depois de ter despertado Eugene, eu cataleptisei seus

os dois braços; agi fortemente sobre o peito, sobre os ombros,

sobre os trajetos dos músculos e dos nervos, e submeti-o desta

maneira à eletricidade.

Recolocaram-se os dois cilindros nas mãos de Eugene,

depois de lhe ter molhado as mãos previamente com água aci-

dulada, como nas experiências precedentes; o Sr. Delafoy deu

um abalo elétrico; Eugene, que inicialmente estava muito ame-

drontado, restabeleceu-se logo sem ter sentido nada, e foi o

primeiro a pedir outros ensaios que foram executados.

“Fiz a experiência nos membros inferiores, cataleptisei as

pernas; e, depois de lhe ter molhado os pés descalços, amarra-

mos neles os cilindros, e deram-se abalos; o que divertia muito

Eugene, o qual, até esse momento, não acreditava em tudo o

que lhe diziam das experiências feitas durante seu sono.

“Fiz esta prova de insensibilidade em muitas pessoas, e

sempre a vi como a mais convincente. Eis um caso em que

produzi suficiente insensibilidade, para que, logo na primeira

vez, pudesse submeter o sujeito a uma bateria.

“Em Dublin, numa sessão pública, magnetizei o Sr.

Ford; em alguns minutos ele foi adormecido, cataleptisado e

insensibilizado. Submeti-o a uma bateria galvânica, e ele aguen-

tou o choque sem provar a mínima sensação10.”

Magnetização sobre si mesmo. – Visto que o fluido ner-

voso pode ser acumulado, transvasado, e dirigido pela vontade

sozinha ou ajudada por movimentos dos membros que servem

de condutores ao agente magnético, é indubitável que estes efei-

tos podem se produzir em nós por nós mesmos. Não é mais

10 Loco citato, página 96.

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uma saturação de um fluido estranho que determinamos, é um

simples deslocamento. Por esta razão, os efeitos devem ser in-

finitamente inferiores na ordem fenomenal, pois para obter a

insensibilidade ou a catalepsia, ou o sonambulismo, seria preci-

so que se operasse uma congestão do fluido próprio do opera-

dor no aparelho cerebral, o que traria uma perturbação séria às

suas funções fisiológicas.

Têm-se exemplos de sono magnético e mesmo de so-

nambulismo provocado dessa maneira, e todos foram acompa-

nhados por acidentes.

Quando é necessário magnetizar-se, deve-se então não

procurar provocar o sono por passes ascendentes; é preciso

limitar-se a agir sobre a economia por correntes gerais, e sobre

as partes doentes por todos os procedimentos aplicáveis aos

outros, como acumulação, subtração, estabelecimento de cor-

rentes. Pode-se assim obter efeitos sensíveis e salutares, quando

se opera num estado de sofrimento que não reage de maneira

intensa sobre as funções cerebrais.

Efeitos sobre os animais. – Haveria muito a dizer sobre o

poder do homem sobre o animal. Cremos que ele era inerente

à sua natureza, e podemos fazer ideia disso, refletindo sobre

esses fenômenos oferecidos aqui e ali por alguns homens que

puderam, seja com conhecimento de causa e voluntariamente,

seja por natureza e por instinto, reconquistar alguma coisa dos

restos do nosso poder primitivo.

Qual é o alcance deste versículo da Bíblia: “Dominarás

todo animal que se move na terra!...” O filósofo Bautain se ex-

pressa assim: “Foi à luz de uma alta filosofia que reconheci que

tudo o que existe, vive e se move na terra está subordinado ao

homem, rei deste mundo por um direito verdadeiramente divi-

no, e manifestando seu poderio e sua autoridade por seu porte,

por seu olhar e por sua fala. Sim, eu o vi, vi um de meus seme-

lhantes, um homem ignorante, mas fortalecido por sua vontade,

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fechar-se sozinho dentro da jaula de um leão faminto, e aí, pela

energia de seu olhar, dominar a ferocidade do animal mais fe-

roz, e obrigá-lo com um sinal a deitar-se a seus pés como um

cordeiro.”

A magnetização pode produzir nos animais os maiores

efeitos, quando é praticada por certos homens, pois não acredi-

tamos de modo nenhum na ação de todos aqueles que são, ali-

ás, excelentes magnetizadores.

O cão, o gato, o macaco, o esquilo, a serpente, a aranha,

o cavalo, o leão, a hiena, foram magnetizados, e sentiram o po-

derio do homem em graus extraordinários. Assim, não men-

cionando essas paradas súbitas, essa fascinação que muitos ho-

mens obtêm sobre cães irritados, essa sonolência e essa agitação

que se provocam no gato, lembrando somente a atração dos

encantadores de serpentes do Egito sobre as pequenas serpen-

tes, citaremos os efeitos obtidos pelo Sr. Lafontaine, em sessões

públicas, em cães magnetizados a ponto de ficarem insensíveis

às picadas e aos golpes; o sono de dois leões, sob sua ação, e a

insensibilidade desses reis do deserto às picadas nas patas e nos

focinhos; o furor da hiena, sob esse poder desconhecido, furor

se renovando unicamente pela presença, e tão medonho que o

dono dos animais, temendo que a fera quebrasse a jaula, pediu

ao Sr. Lafontaine que nunca mais aparecesse.

A influência magnética do homem sobre os animais é,

pois, incontestável, e pode ser utilizada em seu proveito como

ao dos animais que o cercam, quando têm alguma doença.

Efeitos sobre os vegetais. – Não temos a intenção de falar

aqui da magnetização que se pode operar nas árvores, para tor-

ná-las condensadores de fluido magnético, não, é da ação mag-

nética do homem sobre a vitalidade dos vegetais que queremos

dizer alguma coisa.

De nosso lado, acreditamos pouco nisso; mas se as expe-

riências que vamos citar se renovarem nas mãos de diferentes

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