Forma do romance e processo social na Balada da praia dos cães, de José Cardoso Pires por Carlos Rogerio Duarte Barreiros - Versão HTML

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fossem enformadas por aqueles modelos. Ao contrário: o ponto de partida desse autor

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sempre foi a matéria histórica portuguesa que, pela sua especificidade e pelas

contradições e assimetrias que lhe são inerentes, obrigava a fugir às formas literárias

típicas das nações centrais europeias. A altercação das vozes dissonantes produz aqui

fricções nas quais fulgura o conteúdo de verdade do romance, em que repousa, por sua

vez, a experiência portuguesa: “As obras de arte sintetizam momentos incompatíveis,

não-idênticos, que têm entre si pontos de fricção. [...] O que nas obras de arte crepita é o

ruído da fricção dos momentos antagónicos que a obra de arte procura conciliar”

(ADORNO, 2011, p.268-269). Eduardo Lourenço (2007, p.35) afirma que o

Neorrealismo português nacionalizou-se em populismo – expressão a que, certamente,

também fogem as obras de nosso autor. Finalmente, pode-se dizer, de forma geral, que,

distanciando-se do modelo neorrealista – especialmente a partir de O Delfim – Cardoso

Pires primou pela imersão na experiência portuguesa de seu tempo, cujo conteúdo de

verdade reside precisamente na não identidade entre a vida ideológica, orientada pelas

ideologias emprestadas às nações economicamente centrais da Europa, e a vida concreta

ou material, a situação econômica intermediária de Portugal, centro de um império

ultramarino, mas periferia da Europa – apontada na obra de Boaventura de Sousa Santos

(1990, 2002a, 2002b, 2011)2. O conteúdo de verdade do princípio da não identidade

conferirá fôlego a sua obra como um todo, especialmente aos romances escritos a partir

de 1968 – O Delfim, desse mesmo ano; Balada da Praia dos Cães, de 1981; e

Alexandra Alpha, de 1987.

Em homologia rigorosa com a obra que pretendemos investigar, deixemos claro

desde estas primeiras linhas que o termo verdade será tomado aqui no sentido que

assume no próprio romance – em que o fato, cujo teor de veracidade se obtém por meio

de documentos, guarda duplo caráter, oposto ao ficto, cujo cariz verossímil é calibrado

por meio de relação com o fato. Retenhamos, por enquanto, o fragmento final da

Balada, seu último parágrafo, da “Nota Final” assinada por J.C.P., em setembro de

1982:

De modo que entre o fato e a ficção há distanciamentos e

aproximações a cada passo, e tudo se pretende num paralelismo

autônomo e numa confluência conflituosa, numa verdade e numa

dúvida que não são pura coincidência. ( BPC, p.364)

2 A hipótese referente ao descompasso entre vida material e vida ideológica foi inspirada na pesquisa de

Roberto Schwarz (1992, 1997, 1998) a respeito da obra de Machado de Assis.

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O sentido do termo verdade será dissertado do próprio romance: fato e ficto

aproximam-se, da mesma forma que verdade, de um lado, e mentira ou ilusão, de outro.

Trata-se de conceitos articulados em “paralelismo autônomo” – porque a feição factual

do romance confere extensão à sua feição ficcional – e em “confluência conflituosa”,

porque, embora sejam correlatos, são ainda distintos e opostos. Em termos bastante

simples: fato e ficto compõem um par de conceitos que guardam, cada um, em si, duas

dimensões igualmente opostas – uma referente ao princípio da não identidade e outra ao

da identidade 3.

O duplo caráter de cada um dos conceitos que compõem um par guarda raízes

em obras anteriores do mesmo autor e já foi observado pelos críticos mais sagazes de

Cardoso Pires. Maria Lúcia Lepecki (1977, p.88), ao analisar O Delfim, verifica que a

varanda e o pátio da casa do Engenheiro Palma Bravo opõem-se rigorosa e diretamente

à janela do quarto do Escritor e à praça da Gafeira que ele pode divisar em perspectiva

privilegiada. Aqui, o olhar elevado perscruta o espaço de circulação dos homens

comuns – que, como sabemos, se apropriarão da lagoa historicamente pertencente à

família Palma Bravo. É da varanda de sua casa que o Engenheiro vislumbra (sem a

volição do conhecimento, ao contrário do Escritor) o pátio em que trabalha cegamente o

Domingos, mais animal do que homem. Alto e baixo, em cada uma das imagens,

constituem um sentido e seu oposto – fugindo ao maniqueísmo fácil das formas pré-

determinadas, ao “populismo” apontado por Eduardo Lourenço (2007, p.35) e às

“eventuais componentes moralizadoras” citadas por Maria Lúcia Lepecki no fragmento

acima. Em Adorno, (BUCK-MORSS, 2011, p.146-147) o caráter duplo dos conceitos

frustra a mentalidade categorizadora, dada a definições – exatamente por isso é

oportuno à análise da obra de Cardoso Pires.

O conteúdo de verdade da Balada da Praia dos Cães será investigado por meio

do “processo por cujo intermédio a realidade do mundo e do ser se torna, na narrativa

ficcional, componente de uma estrutura literária, permitindo que esta seja estudada em

si mesma, como algo autônomo” (CANDIDO, 2010, p.09). Verificaremos, portanto, em

que medida as opções formais de José Cardoso Pires contêm residualmente a

experiência histórica portuguesa do descompasso entre vida ideológica e vida material.

3 O duplo caráter dos conceitos, inferido dos textos de Adorno (2003a, 2003b, 2011a, 2011b) e de Walter

Benjamin (1989, 1994a, 1994b, 1994c, 2011, 2012a, 2012b), está sumariado na obra de Susan Buck-

Morss (2011, p.145-153), fundamental para a redação de nossa pesquisa.

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Em poucas palavras, esse autor distanciava-se do conceito luckasiano do intelectual

como vanguarda do Partido Comunista e aproximava-se do modelo antiautoritário,

experimental e desafiador de dogmas da avant-garde revolucionária de Adorno (BUCK-

MORSS, 2011, p.96), isto é, aproveitava-se das possibilidades criativas da

desintegração da forma do romance, exatamente porque o chão histórico sobre o qual se

erigiu a forma clássica do romance inglês do século XVIII e especialmente do romance

realista do século XIX alterou-se ao longo do século XX e porque Portugal nunca

ingressou rigorosamente nos confins desse chão, mas pertenceu antes ao que se

convencionou chamar periferia europeia. Ao conferir forma literária específica à

realidade portuguesa, Cardoso Pires também trouxe à tona os limites e as contradições

das formas literárias oriundas do centro. Sua ficção guarda em si, portanto, no que diz

respeito às formas correntes, uma dimensão de não identidade, fugindo a elas e

revelando-lhes o caráter de mercadoria, e outra, de identidade, que lhes é

correspondente, para subvertê-las na passagem seguinte. A cada fragmento em que a

dupla face da ficção se manifesta e aponta para o fato, ilumina-se o interstício em que

fulgura efêmera a verdade que se quer dar a ver.

É necessário perscrutar, de forma abrangente, o lugar que a Balada da Praia dos

Cães ocupa na obra de José Cardoso Pires, observando processos internos de ordem

formal que nela culminaram, pontilhando a análise com apreciações dos críticos mais

agudos da obra do autor. Concluiremos que esse romance se constituiu de matéria que

trazia à luz uma nação menos simples do que se poderia supor, pois, embora fosse

atrasada em relação às centrais, era avançada em relação a boa parte do chamado

terceiro mundo. Em uma expressão: à nação semiperiférica, nos termos de Boaventura

de Sousa Santos (1990, 2002a, 2002b, 2011), centro de um império e periferia da

Europa, corresponderá uma forma literária específica. Mais precisamente: “a cultura

portuguesa é uma cultura de fronteira. Não tem conteúdo. Tem sobretudo forma e essa

forma é a fronteira, a zona fronteiriça” (SANTOS, 2002a, p.25). Na Balada da Praia

dos Cães, a forma fronteiriça ganhará expressão no ponto de vista a partir do qual o

romance é narrado – a que chamaremos Instância Intersticial. Uma pesquisa completa

de todos os textos de Cardoso Pires, em todas as estruturas narrativas, estaria além de

nosso alcance e de nosso objetivo, cujo cerne é a análise da Balada. Como julgamos que

nessa obra é a partir do ponto de vista do narrador que se erige o edifício literário, é esse

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o aspecto fundamental que investigaremos nas que lhe são anteriores. A posição

específica dos narradores da Balada, que emula no plano literário a condição

semiperiférica de Portugal, talvez constitua um dos pontos mais elevados do projeto

literário de Cardoso Pires.

A hipótese de que haja coerência interna suficiente entre os romances do autor a

ponto de constituírem um projeto literário não é formulação nossa. Maria Luiza Scher

Pereira (1994, p.25) cunhou a afirmação de que talvez seja “possível [criar] através

deles [dos romances do autor] uma história das formas do romance, dos anos 50 para cá,

a partir das especificidades de cada um”. Associe-se a essa coerência interna da obra

uma outra, referente à temática, “a intenção manifesta de pensar criticamente a realidade

de Portugal e discutir o perfil de sua identidade”. Também na mesma pesquisa está

sugerido o caráter de avaliação proposto na Balada, cujo contexto histórico, livre das

perseguições do passado, não só permitia como pedia investigação e reconstituição da

memória portuguesa recente (PEREIRA, 1994, p.128) – aspecto já encontradiço em

análise de Maria Alzira Seixo (1986, p.81): “[na Balada], o passado é restituído para um

julgamento implícito do presente”.

Em pesquisa que será uma das referências fundamentais de nosso trabalho,

Marlise Vaz Bridi (2012, p.70) lança imagem de que nos valeremos em diversos

momentos: a de que a recorrência de metáforas encontradas na obra de José Cardoso

Pires, desde seus primeiros contos, até às últimas obras, alcançará primeiramente o

efeito de adensamento do potencial significativo da narrativa. Ainda antes, Alexandre

Pinheiro Torres (1967) pôs em relevo a estranheza que terá causado a obra de Cardoso

Pires ao “Leitor Distraído”, cuja expectativa é frustrada – a de que os contos e o

romance tenham por matéria a intriga e não as personagens. Também Maria Lúcia

Lepecki (1977, p.29) alude ao leitor “acostumado ao imprevisto e ao excepcional”, que

se “tranquiliza” frente aos textos de Cardoso Pires, já que neles nada de extraordinário

acontece. A apreensão dos sentidos do texto só ocorrerá se aquela recorrência

metafórica, que compõe as cadeias semânticas que subjazem ao suposto texto “em que

nada acontece”, for reconhecida – e é essa codificação, somada à constituição da

narrativa em homologia com a realidade para além da obra, que conduzirá à apreensão

do sentido do texto, nos termos que apresentamos anteriormente. De forma sumária,

uma metáfora guarda em si a senha de iluminação de outra, em jogo de espelhos cuja

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lógica interna é bastante nítida quanto mais for observada com distanciamento. Assim,

se cada metáfora é autônoma na passagem do texto em que se insere, também carreia

consigo uma imagem das outras metáforas, do todo do romance e, algumas vezes, do

conjunto da obra de Cardoso Pires – em constelação, conceito que emprestamos, aqui, a

Walter Benjamin (2011), a partir da leitura esclarecedora de Susan Buck-Morss (2011,

p.245-277). Marlise Vaz Bridi usa o termo sugestão metafórica; Maria Lúcia Lepecki

(1977, p.31) refere-se ao “valor imagístico da palavra em Cardoso Pires”, em que as

informações do texto se organizam “para produzir o próprio sentido e coadjuvar a

produção do sentido de outras”, ou à “reiteração sistemática de significações” (1977,

p.60-61).

Eis aí a senda analítico-interpretativa que seguiremos para apresentar

brevemente a obra de José Cardoso Pires: primeiramente, as metáforas e os recursos

fundamentais que convergem para a Balada, em cada um dos romances anteriores e no

ensaio Cartilha do Marialva, a partir do ponto de vista do narrador, serão reconhecidos

e codificados; se nossa hipótese estiver correta, cada um deles apontará para elementos

externos à narrativa. Reconhecidos esses elementos, poderemos esboçar, de forma geral,

o projeto literário de José Cardoso Pires, em que a Balada da Praia dos Cães – e, antes

dela, a Cartilha do Marialva, de 1960, e O delfim, de 1968 – cumprem papel

fundamental, seja pela proposição do debate a respeito dos limites do gênero literário no

contexto português, seja pelo adensamento do ponto de vista do narrador e as

consequências desse processo: ambos aspectos sugeridos pela experiência histórica

portuguesa ímpar, que – tomando gratuitamente a Cardoso Pires a expressão – será

dissertada a partir das obras. De certa forma, todas elas culminam na Balada da Praia

dos Cães – que, por sua vez, ilumina a leitura do romance que virá a seguir, Alexandra

Alpha, em constelação, como propusemos.

Essa trilha analítico-interpretativa, além de asseverar a importância da Balada da

Praia dos Cães na obra de Cardoso Pires, também guarda a finalidade de verificar,

aprofundar e atualizar a validade da seguinte hipótese – proposta em termos gerais por

Maria Lúcia Lepecki na obra já citada anteriormente e que doravante temos a pretensão

de atualizar por meio dos termos da pesquisa de Boaventura de Sousa Santos (1990,

2009, 2011): a hipótese de que a ficção cardosiana, se tomada como um todo, pode ser

encarada como viagem ao espaço semiperiférico português, no qual o desenvolvimento

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desigual e combinado do capitalismo deixou raspas de avanços tecnológicos e

ideológicos sobrepostos a restos de propriedades, famílias, relações e objetos de

extração pré-capitalista4 e de formas intermediárias – que, ao contrário da Casa de

Üsher, na obra de Edgar Allan Poe, ponto de fuga de toda obra literária dos séculos XIX

e XX, não vêm abaixo a despeito de clivagem profunda na estrutura. Não terá sido à toa

que Lisboa, Livro de Bordo: vozes, olhares, memorações (1998) seja uma das últimas

obras de Cardoso Pires: Portugal é a nação intermediária por natureza, centro de um

império e periferia da Europa.

Partamos do pressuposto de que a unificação nacional e a centralização política

de Portugal – cujas bases estão fundadas na crise de 1383, na qual “se criam os pré-

requisitos sociais e políticos da expansão ultramarina” (NOVAIS, 1995 , p.20) –

garantiram-lhe o adiantamento no período específico da Expansão – que vai de 1480-

4 Para Sedi Hirano (1988, p.18), aceitar o chamado Capitalismo Mercantilista como etapa já capitalista é

“aceitar a etapa de acumulação primitiva/originária de capital como sendo, embora não o seja,

capitalista”. Na página seguinte ( Ibid. , p.19): “o montante de capital-dinheiro acumulado na esfera da

circulação, por ser originário/primitiva, é uma acumulação não capitalista de capital, portanto, pré-

capitalista”. O autor faz essa afirmação com base no Capítulo 24 de O Capital (MARX, 2013, p.785-835),

“A assim chamada acumulação primitiva”: “na medida em que o mercantilismo elabora as condições para

o surgimento do capitalismo, ele, enquanto uma fase da acumulação originária de capital, não é

capitalista” (HIRANO, 1988, p.29). Armando Castro (1987, p.60) assinala em Portugal, no final do século

XV e início do XVI, sob a dominância do modo de produção feudal, “a coexistência de modos de

produção residuais”, combinando manifestações arcaicas de comunitarismo primitivo, formas comunais

geradas pelas relações feudais, escravismo, pequena produção artesanal e expressões iniciais do

mercantilismo. De forma geral, a acumulação primitiva do capital, em Portugal, não resultou no

crescimento das relações capitalistas a ponto de colocar em risco as “estruturas dominantes cristalizadas

no modo de produção feudal” ( Ibid. , p.60). Os gestos mais significativos do processo de acumulação

primitiva, em Portugal, só ocorrerão mais efetivamente na segunda metade do século XVIII –

precisamente o período em que Cardoso Pires localiza a formação da mentalidade marialva, resistente,

acreditamos, à inevitabilidade, posto que tardia, da erosão do modo de produção feudal. Segundo

Armando Castro, é somente em meados do século XIX que se efetiva a transição portuguesa para o

capitalismo, sempre ressalvada pela “sobrevivência de expressões residuais das relações feudais” ( Ibid. ,

p.70). Em análise marcadamente delineada pelo mesmo Capítulo 24 de O Capital de Marx, o economista

conclui que “assalariados, relações mercantis e mesmo nódulos capitalistas podem coexistir com plena

dominância das relações feudais” ( Ibid. , p.72) – o que ocorreu em Portugal do fim do século XV e o fim

do XVIII. Preferimos, portanto, adotar em nosso trabalho o termo pré-capitalista para referirmo-nos ao

mercantilismo em Portugal que ainda deixa traços, pelo menos, no imaginário coletivo, especialmente no

das aldeias. Esses traços pré-capitalistas são precisa e minuciosamente resgatados e preservados pelo

marialvismo para a manutenção de privilégios, senão econômicos, pelo menos simbólicos, de matriz

remota, claramente medieval. Também é necessário salientar que o mercantilismo corresponde a um

momento histórico de passagem, a despeito da polêmica referente à classificação desse período como

capitalismo ou pré-capitalismo – passagem alargada em Portugal, até ao século XIX. A insistência

histórica de retenção e de reprodução da autoimagem portuguesa nas façanhas desse período, por meio da

literatura, já sugere o prolongamento e a consolidação das formas intermediárias nas obras literárias,

especialmente as mais afeitas à hibridização – como é o caso da prosa de ficção. Fica sugerido aqui um

desdobramento de nossa pesquisa, que pretendemos levar adiante: a investigação dessas obras em

diferentes períodos históricos, especialmente o das Grandes Navegações, que parece ser, para falar com

Antonio Candido (1975, p.23-25), o momento de formação e de consolidação do sistema literário

português.

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1490 até às duas primeiras décadas do século XVII, já sob a União Peninsular. Embora

possa ser chamada, ao longo desse curto intervalo de tempo, de nação empreendedora,

Portugal tornar-se-á, em poucos anos, contudo, nação atrasada ou periférica exatamente

por seu caráter intermediador ou intermediário, do ponto de vista econômico. Na

mesma medida em que reforçaram internamente o sistema feudal, as conquistas

ultramarinas contribuíram para acelerar a transição de nações como Holanda e

Inglaterra para o capitalismo (CASTRO, 1987, p.61).

Tudo parece indicar que Portugal encalhou no mercantilismo, ainda pré-

capitalista, em que figurara como nação precursora, mas logo superada por outras. Eis o

duplo movimento: de um lado, a dinâmica da circulação e da intermediação, trazendo

das colônias os produtos demandados pelo mercado interno europeu, acentuando e

aprimorando a circulação desses produtos, com o porto de Lisboa como grande ponto de

troca de mercadorias e riquezas, espaço de encontro dos mercadores dos mares e de

troca de suas culturas: “trade has been a major force of integration, not only economic

but also cultural and political” (PERSSON, Kindle Edition); de outro, a imobilidade do

encalhamento, se quisermos usar uma pequena metáfora, para aludir ao largo, mas

dispendioso e fútil, usufruto das riquezas geradas pelas especiarias, fortalecendo apenas

os setores dominantes, cuja riqueza estava fundada na exploração do agricultor

sedentário e nos benefícios que angariava: o Estado, que controla o sistema e que lhe

assegura a reprodução, por meio da redistribuição de larga parcela dos lucros mercantis

ultramarinos pela classe feudal, já assume, desde esse período, a feição de

intermediador dos conflitos sociais (CASTRO, 1987, p.60). Esse semblante, apesar das

alterações ao longo dos séculos, guardará sempre uma dupla face, a que Boaventura de

Sousa Santos (1990, p.17) chamará Face de Janus, exatamente por arbitrar a favor de

alguns setores dominantes sem deixar de contemplar os interesses de outros, que

eventualmente tenham obtido relevância de quaisquer naturezas nas diversas

conjunturas históricas. Eduardo Lourenço registra igualmente que o papel que as

empresas portuguesas não podem assumir será cumprido pelo “Estado salazarista como

elemento protector, e em parte dinâmico, da nossa incipiente indústria” (LOURENÇO,

2007, p.32). A um Estado paternalista correspondem conquistadores menos enérgicos,

ainda excessivamente apegados à terra:

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Os nossos famosos conquistadores não são “marinheiros”, à

Drake, são nobres cavaleiros que “em navios” que comandam se

comportam como se fossem fronteiros em Ceuta ou Arzila,

indiferentemente. Mas a “conquista” – e esta é uma das raras verdades

da clássica e reacionária versão do nosso colonialismo – é uma

excepção da nossa epopeia “imperial”, uma espécie de acidente

inevitável: o comércio, a troca, bastavam-nos, actividade pacífica por

excelência, maneira suave de tirar a lusitana e magra barriga da

miséria. (LOURENÇO, 2007, p.44, itálico do autor)

No período das Navegações e ainda depois, o Estado intermediou conflitos, mas

não contribuiu para a formação de uma burguesia empreendedora, que propusesse a

manufatura das matérias-primas (CASTRO, 1987, p.60). O capital metaforicamente

encalhava na praia, diluído aos poucos, como a vaga que se aproxima e que se afasta,

distribuído à coroa, aos fidalgos e aos burocratas por meio de impostos, sem destinação

que o fizesse multiplicar-se e ser acumulado e que permitisse a modernização dos meios

de produção portugueses.

De um lado, o empuxo inovador do tempo, o navio que singra os mares, fazendo

tranar mercadorias e circular riqueza; de outro, a retenção perdulária, que faz Portugal

perder espaço no cenário mundial em menos de um século – perda já apontada por

Camões no Epílogo de Os Lusíadas, em que a pátria, “está metida / No gosto da cobiça

e na rudeza” – tudo sob a intermediação do monarca. O espírito português pende ao

universo da circulação dos produtos, promovendo a “intermediação entre quatro

continentes” (COSTA, LAINS e MIRANDA, 2011, p.105), impulsionado pelo mercado

internacional, servindo para avultar a receita da monarquia. “A função de entreposto

caracterizou as relações externas seguramente até o século XVIII” ( Ibid. , p.105, grifo

nosso). Do ponto de vista econômico, já apontamos: a fartura dos produtos oriundos das

colônias, associada ao pacto entre a coroa e setores mais tradicionais e conservadores,

impede que haja recrudescimento de uma burguesia forte, que modernize a economia

portuguesa. Finalmente, nas palavras de Boaventura de Sousa Santos, a conclusão

plausível, acrescentando a influência das próprias colônias nos processos sociais que

ocorreram em Portugal:

A zona colonial garantiu a independência política de Portugal

na zona europeia ao mesmo tempo que impediu a constituição de uma

burguesia nacional e de um projeto nacional de desenvolvimento

capaz de garantir uma presença central na zona europeia. (SANTOS,

2011, p.42)

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A condição intermediária de Portugal, de que a Instância Intersticial é redução

estrutural, parece guardar raízes nesse momento, em que o país se restringe à condição

de mediador, o middleman na expressão de língua inglesa, uma grande nação mercante,

que faz circular, mas que não acumula trabalho em suas mercadorias – exatamente o

oposto do que será moderno fazer, nos séculos seguintes. Assim, no plano da vida

ideológica, Portugal estendeu tanto quanto pôde – até o século XIX e talvez até o XX –

a imagem empreendedora que tinha de si devido ao arrojo de sua burguesia comercial-

marítima e à extensão do império que se formou e que só esboroou na década de setenta

do século XX. Com o mesmo afinco, também foi escamoteada, por tanto tempo quanto

foi possível, a natureza do atraso português – afinal, o que foi ousado no século XV

deixou de sê-lo em poucas décadas, para se tornar ocupação subalterna, ao menos na

perspectiva das nações que se tornariam centrais. A afirmação do atraso e sua

consequente ressignificação, em que assumirá a forma de caráter identitário nacional,

terá sua feição mais cruel na campanha salazarista de valorização do português

empobrecido e inculto.

Mística da terra, vocação de pobreza (“Somos um país pobre

que, tanto quanto se enxerga, no futuro não pode aspirar a mais do que

à dignidade de uma vida modesta” – palavras ainda de Salazar), isto e

a consciência de uma resignação atávica seriam, para o camponês, os

laços que o prendem à comunidade... Numa estrutura feudal-agrária o

camponês aceita temerosamente a ordem cósmica como

temerosamente aceita a ordem terrestre (divinização do chefe), ambas

de poderes misteriosos. ( CM, p.32)

O pacto primevo que articulava a burguesia comercial-marítima aos setores

agrários mais arcaicos foi perpetuado, de certa forma, por meio de ideologias

dominantes como a mística da terra e a vocação da pobreza – versões do discurso

salazarista para a justificação do atraso português e para a intermediação dos interesses

em conflito na constituição do Estado Novo. Depois de séculos, o messianismo

sebástico será materializado na liderança de Salazar – ela própria a merecer pesquisa

específica sobre as representações de que se investiu e de que foi revestida ao longo do

século XX, em textos literários e não literários. O discurso oficial fabricará uma

“lusitanidade exemplar”,

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uma ficção ideológica, sociológica e cultural mais irrealista

ainda do que a proposta pela ideologia republicana, por ser ficção

oficial, imagem sem controlo nem contradição possível de uma país

sem problemas, oásis da paz, exemplo das nações, arquétipo da

solução ideal que conciliava o capital e o trabalho, a ordem e a

autoridade com um desenvolvimento harmonioso da sociedade.

(LOURENÇO, 2007, p.33)

O sentido de ideologia aqui é correspondente ao proposto por Marilena Chaui

(2011, p.15): é primeiramente “a representação imaginária do real para servir ao

exercício da dominação em uma sociedade fundada na luta de classes”; é também “a

inversão imaginária do processo histórico no qual as ideias ocupariam o lugar dos

agentes históricos reais”. É finalmente

a maneira necessária pela qual os agentes sociais representam

para si mesmos o aparecer social, econômico e político, de tal sorte

que essa aparência (que não devemos simplesmente tomar como

sinônimo de ilusão ou falsidade), por ser o modo imediato e abstrato

de manifestação do processo histórico, é o ocultamento ou

dissimulação do real” (CHAUI, 2011, p.15)

Izabel Margato já percebia que as proposições de Marilena Chaui eram férteis

para a compreensão da Balada da Praia dos Cães: “O olhar agudo e crítico de Cardoso

Pires soube desvendar e desfazer internamente os mecanismos de ocultamento desse

discurso [o discurso competente], analisando seus mitos de identidade” (MARGATO,

2001, p.218). É exatamente o estilo oficial dos “Autos” registrados no romance que

guarda o traço discursivo da aparência que dissimula o real e corresponde ao “discurso

competente” – “que pode ser proferido, ouvido e aceito como verdadeiro e autorizado

[...] porque perdeu os laços com o lugar e o tempo de sua origem” (CHAUI, 2011,

p.19), diretamente associado, na Balada, ao Inspetor Otero, ao chefe de brigada Elias

Cabral Santana e ao agente Silvino Roque, todos eles personagens delineadas nos

termos das aparências do real e do estilo oficial, burocrático, em que predomina a Voz

Superior – que detalharemos a seguir, a partir da análise da Cartilha do Marialva. O

efeito geral da Balada é a desconstrução da ideologia e do discurso oficial, em cujo

cerne repousa a mitologia arcaica e reacionária do salazarismo.

Maria Luiza Scher Pereira (1994) sumariou oportunamente as “mitologias

portuguesas”, isto é, a naturalização de objetos, práticas e normas sociais nacionais por

meio da diluição do peso histórico de que estariam investidas – o que corresponde ao

conceito de ideologia proposto acima. Os mitos portugueses da predestinação à

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salvação do mundo, o do passado heroico da fidalguia e das tradições da província,

além, é claro, o da vocação atlântica, por meio da qual o pequeno país transcende os

próprios limites e se estende para além-mar; o do nacionalismo “laudatório e delirante”

(PEREIRA, 1994, p.13) do século XX, que desaguou na identidade do português com a

raça equiparada à nação e ao povo; finalmente, a “identidade mítica” dos portugueses,

o topos referente a um “momento de universalidade”, em que eles se veem “ao mesmo

tempo maiores e mais pequenos do que são” (LOURENÇO, 1999, p.10-11) – eis aí os

mitos por meio de cuja aparência, no contexto português, a transitoriedade da realidade

material fica escamoteada.

Para falar com Roberto Schwarz (1992), o processo histórico que descrevemos

anteriormente guarda as matrizes da comédia ideológica que regerá a vida literária

portuguesa. Assim, de um lado, a nação grandiosa e ousada das Navegações – imagem

que terá de cair por terra no século XIX e cuja revisão profunda será feita ao longo do

século XX, especialmente, para nós, na Balada da Praia dos Cães – e de outro, a nação

pré-capitalista das aldeias e das propriedades rurais. Essa dupla face, sempre mediada

pelo Estado centralizador, permeará a história de Portugal.

É curiosa a perspectiva a partir da qual o historiador José Hermano Saraiva, por

exemplo, apresenta o interesse dos portugueses por produtos estrangeiros nos séculos

XVII e XVIII:

O apreço pela moda estrangeira tinha-se entretanto difundido

em Portugal, o que aumentava a importação. Tudo quanto exigisse

uma técnica mais evoluída tinha de se importar, porque não se

fabricava em Portugal. Os economistas da época viam nesse

progressivo desequilíbrio da balança comercial portuguesa uma causa

(e não um efeito) da pobreza nacional: para pagar a importação saía

ouro, e isso deixava o País mais pobre. (SARAIVA, 2005, p. 233)

Chama a atenção que Saraiva atribua ao “apreço pela moda” o aumento da

importação. Certamente haverá outras variáveis desconsideradas pelo historiador –

como a qualidade e o preço dos produtos estrangeiros – que terão levado à

intensificação do consumo dessas mercadorias; mas é curioso que Saraiva aceite quase

sem hesitações a hipótese de que o gosto pelos importados seja generalizado e de que se

equipare às causas econômicas do desequilíbrio da balança comercial portuguesa.

Parece subjazer ao texto do historiador uma outra hipótese – a de que os portugueses

tenham se “degenerado” pelo apreço a produtos estrangeiros desde períodos bastante

29

remotos em sua história, desvalorizando o produto nacional. As duas páginas seguintes

da mesma obra se debruçam sobre esse suposto desvio quase inerente: “Os Portugueses

procuravam vestir-se à europeia, viver exteriormente à europeia. Mas à europeização do

gosto não correspondia uma mudança nas técnicas de produção” (SARAIVA, 2005,

p.234). Acreditamos que o suspiro dos portugueses pelas mercadorias manufaturadas

estrangeiras tenha origem não num “desvio” inerente à alma portuguesa, nem numa

espécie de “baixa autoestima” nacional, muito aventada pelo senso-comum, que dataria

da derrota em Alcácer-Quibir ou da União Peninsular, mas naquele movimento que

vimos flagrando desde o início deste capítulo: as bases econômicas nacionais estavam

aprumadas num arranjo específico, a associação da estrutura agrária tradicional à

circulação de produtos promovida pela burguesia comercial, com o Estado forte como

mediador entre os setores dominantes. Sem ingressar na esfera da produção de

manufaturados – a despeito de algumas iniciativas citadas pelo mesmo Hermano

Saraiva ( Ibid. , p.235-236), todas malogradas em pouco tempo –, os portugueses não

deixam de tomar contato com produtos, modas e ideologias das nações que se adiantam

do ponto de vista econômico e que alcançam os mercados portugueses devido à feição

nacional de entreposto comercial. De certa forma, quando afirmava que a zona colonial,

ao mesmo tempo, garantia a independência política portuguesa e impedia à nação a

constituição de uma burguesia nacional, Boaventura de Sousa Santos talvez se referisse

a momentos específicos como aquele que acabamos de pormenorizar: as matérias-

primas brasileiras davam sustentação e sobrevida aos resquícios pré-capitalistas da

estrutura agrária e social portuguesa. Desse modo, fica garantida a independência

política de Portugal, sempre sob a condição do atraso econômico, isto é, da inexistência

de fomentadores da manufatura e da indústria nacional.

Apenas a título de exemplo, observe-se comentário referente a algumas

tentativas de introdução de manufaturas em Portugal, no fim do século XVII e no início

do XVIII. Sem mergulhar nos detalhes, nota-se, mais uma vez, que essas iniciativas

tinham o Estado como forte intermediador:

na disseminação do tecido empresarial industrial e, até, na

geografia da produção persiste uma fisionomia antiga. Mas um

aspecto assume nessa centúria [o século XVIII] particular relevância.

Pelas políticas de fomento do sector, o Estado assumiu um forte

protagonismo. [...] Em qualquer destes casos, a iniciativa e o

investimento financeiro de particulares, entre técnicos estrangeiros e

30

homens de negócios nacionais, concretizava-se com a obtenção do

apoio do Estado, expresso sob a forma de isenções fiscais e exclusivos

de fabrico. (COSTA, LAINS E MIRANDA, 2011, p.240-241, grifos

nossos)

Já estão delineados em linhas gerais os traços que, a despeito das convulsões

sociais e políticas dos séculos XIX e XX, demarcarão a matéria histórica sobre a qual se

erige a Balada da Praia dos Cães: economia semiperiférica; Estado como

intermediador entre os interesses dos diferentes setores dominantes e como tutor ou

repressor dos setores não-dominantes ou pauperizados; no plano ideológico, apreço

pelas ideias e pelo gostos que vêm de fora, sem interferência imediata nas relações de

base, garantidas, como temos insistido, pelo Estado – especialmente por meio dos

Aparelhos Ideológicos de Estado (ALTHUSSER, 1996) ou pelos órgãos de repressão.

Quanto mais se alonga no tempo a condição semiperiférica de Portugal, mais se vinca,

na organização político-administrativa, nas leis, nas instituições e consequentemente nas

formas de convívio, certa miopia nacional – que distorcia as percepções a respeito do

país e da “Europa”.

Com a aceleração da Revolução Industrial na Inglaterra e a eclosão da

Revolução Francesa, entra em colapso o Antigo Regime. Portugal será invadido pelas

tropas francesas e a Corte se transferirá para o Rio de Janeiro. Talvez se possa

considerar a data de 28 de janeiro de 1808 como o marco final da condição de middle

man de Portugal, ao menos nos moldes em que se configurara a nação desde o período

da Expansão: nesse dia é decretada a abertura dos portos brasileiros aos navios

estrangeiros, na condição de igualdade com os navios portugueses. Na década de 1820,

têm início as sublevações políticas que refletem a crise em que se via o país e que, de

certa forma, perduram até hoje.

Se Portugal se pode caracterizar como nação intermediadora desde as fases

iniciais do capitalismo – tendo estacionado aí, desde então; se o sustento da nação

sempre esteve associado ao comércio e à circulação de mercadorias, especialmente no

período áureo da história nacional; se os fluxos migratórios têm caracterizado cada vez

mais o delineamento da população portuguesa – então a viagem será figura recorrente

na literatura – arriscamos dizer na arte como um todo – aí produzida, especialmente na

de Cardoso Pires, não apenas no sentido literal do trajeto de um lugar a outro, mas em

outro, mais abstrato, de translação incessante – a que chamaremos nesta pesquisa de

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Perimorfose, como se fosse o próprio moto-contínuo o sentido mesmo de Portugal.

Maria Lúcia Lepecki já reconhecia esse processo na obra de Cardoso Pires, cuja

coerência interna sempre esteve arrimada sobre essa experiência histórica concreta. A

autora brasileira radicada em Portugal tomava emprestado à Teoria da Relatividade o

conceito de espaço como propriedade essencial da matéria em movimento, motivada

pela feição específica da realidade concreta portuguesa, que foge à linearidade e que

ganha, portanto, na obra literária de Cardoso Pires aquele delineamento: “[...] todos os

objectos (personagens), enquanto matéria, espaço e tempo, estão sempre a tomar novas

formas, a assumir propriedades materiais diferentes” (LEPECKI, 1977, p.51).

A ficção de Cardoso Pires obriga o leitor à visita de espaços interditos ou

clandestinizados (BRIDI, 2012; LEPECKI, 1977), a que chamaremos de espaços

semiperiféricos, ou entre-espaços na esteira de Boaventura de Sousa Santos (2011,

p.22), partindo do pressuposto de que o fato mais rico em consequências na história

portuguesa é sua condição ambígua de periferia da Europa e de centro de um império

colonial. Para Maria Lúcia Lepecki, cada um desses espaços é composto (e compõe) de

um campo semântico confinado por outro – campos entre os quais circulam

personagens em confronto. “Na deambulação forçada [do leitor], quem lê aprende a

percorrer o caminho típico do conhecimento dialético”, afirmará a autora (1977, p.27),

confirmando a hipótese de que a ficção de José Cardoso Pires convoca o leitor à

visitação do que lhe é, aparentemente, alheio. Em poucas palavras, a própria razão

espaço-tempo é desencontrada, em Portugal, ao menos se comparada com essa mesma

razão nas nações centrais. Daí, por exemplo, a “síntese alegórica” proposta por Nelly

Novaes Coelho (1973, p.151) para esses elementos em O Delfim: no romance, “passado

e futuro nivelam-se e anulam suas diferenças dentro de uma circularidade cíclica

irredutível”. Trata-se, de certa forma, da contradição fundamental da experiência

portuguesa. Ocorre que, especificamente nesse romance de 1968, José Cardoso Pires

terá avançado formalmente em seu projeto no que diz respeito ao ponto de vista do

narrador, importando a ambivalência mesma da experiência portuguesa para a

perspectiva a partir da qual se narra. De certa forma, o laboratório literário que resultará

na Balada da Praia dos Cães está contido nessa experiência formal e no exercício do

ensaio, na Cartilha do Marialva.

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Não nos esqueçamos, também, de que, se o objeto de investigação de Cardoso

Pires ao longo de toda sua obra é a experiência histórica portuguesa, então as alterações

que são inerentes a essa experiência – em que o autor também está imerso – poderão ser

percebidas se a obra for observada no conjunto. O horizonte cardosiano sempre foi o de

desvelamento do descompasso português entre vida ideológica e vida material, com o

fito do esclarecimento crítico, isto é, o de tomar ao presente sua justificação ideológica

e desmascará-la (BUCK-MORSS, 2011, p. 102) – mas o malogro das experiências mais

radicais da Revolução dos Cravos e o progressivo abandono do projeto português de

nação em nome da adesão ao projeto europeu da União Europeia (SANTOS, 2011,

p.50) obrigaram, em 1982, a um balanço da crise do salazarismo, cujo autoritarismo, de

certo modo, não só não foi superado, como ganhou sobrevida no Portugal pós-1974 na

forma da morosidade do Estado (SANTOS, 1991. p.61), base concreta da justaposição

de tempos e de espaços no universo ficcional. As vivas manifestações de

conservadorismo e imobilidade entrepostas à vida democrática, que ainda se iniciava e

que, ao menos em termos teóricos, se avizinhava do progressismo, requereram do artista

uma obra ainda mais radical, em termos formais, do que as anteriores.

Também Maria Lúcia Lepecki alude à ambiguidade portuguesa, mas em outros

termos. Essa pesquisadora organiza as personagens de O Anjo Ancorado segundo os

espaços que ocupam – de um lado, os burgueses João e Guida, urbanos; de outro, os

camponeses, o miúdo e o velho – e as ultrapassagens desses espaços – entendidos, como

já propusemos anteriormente, como matéria, espaço e tempo, em Perimorfose,

assumindo propriedades materiais distintas. Quando em atividade ou circulação, cada

uma das personagens ativará o espaço, o que as põe em conflito. A caça erige-se, no

primeiro romance de Cardoso Pires, na justaposição de lazer (para João) e

sobrevivência (para o velho), em espaços distintos que se tocam: “Fazendo do lazer

trabalho, o caçador submarino d’ O Anjo Ancorado contamina-se a si mesmo do valor do

espaço proletário”. (LEPECKI, 1977, p.37). O velho pertence à “multidão dos pequenos

agricultores semiproletarizados”, chamados genericamente de campesinato pobre

(ROSAS, 1994, p.50). Sobre a classe operária portuguesa, Boaventura de Sousa Santos

afirma: “o operário português típico é ainda hoje um semiproletário, pluriactivo, isto é,

obtém simultaneamente rendimentos do trabalho industrial e da agricultura” (SANTOS,

2002, p. 60). Agricultor semiproletarizado, semioperário agrícola, “camponeses-

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operários” ( OD, p.80): de forma geral, as classes exploradas a que Maria Lúcia Lepecki

chamou de proletariado assumem, em Portugal, como não poderia ser diferente, forma

intermediária, entre o trabalhador rural e o operário urbano. Essa constatação não

invalida a obra e as conclusões da pesquisadora, ao contrário: estende-as e contribui

para uma de suas hipóteses de fundo – a de que a especificidade da obra de Cardoso

Pires, bem como seu longo alcance para além das terras portuguesas, se devia à

sondagem de estruturas abissais que seguem salvaguardando a experiência nacional tal

como ela se dá.

Outrossim, em ensaio já citado aqui, anterior à publicação de O Delfim,

Alexandre Pinheiro Torres (1967, p.269) sumaria um efeito fundamental da obra de

Cardos Pires: o de choque de valores de mundos distintos, cujo significado profundo

sugere as contradições sociais, “visto que os conflitos no espírito dos homens não

existem por si, reflectem, como é óbvio, os conflitos que existem no mundo que os

cerca”. Personagens em conflito dão a ver os conflitos de valores no mundo em que se

inserem. Trata-se de verificar em que medida os recontros entre personagens refletem

conflitos sociais. O sobrevoo da obra como um todo revelará, entretanto, um

deslocamento significativo do ponto de vista a partir do qual aqueles embates ocorrem.

Também em linhas gerais, é possível afirmar que em O Anjo Ancorado, de 1958, e O

Hóspede de Job, de 1964, o narrador está distanciado da matéria narrada (a despeito de

intervenções pontuais), especialmente se for comparado com o narrador de O Delfim,

cuja imersão nessa matéria representa o ponto de virada na obra de Cardoso Pires que

resultará nos narradores (o Narrador e o Autor Interno Explicitado) da Balada da Praia

dos Cães.

Com efeito, nos dois primeiros romances – e também nos contos, sobre os quais

nos debruçaremos muito sucintamente neste trabalho – há procedimentos estilísticos

que já pressagiam a multiplicidade discursiva da Balada, mas que são menos explícitos

nessas obras iniciais e que só alcançarão a riqueza completa de efeitos nos dois últimos.

Importa observar, igualmente, que o deslocamento do narrador em terceira pessoa para

o de primeira é apenas um desses recursos – mas fundamental, sem dúvida, espécie de

pedra de toque da obra do autor, por meio da qual, em vez de narrar a respeito de

Portugal, o narrador cardosiano narrará a partir de Portugal.

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Marlise Vaz Bridi (2012) afirma que o deslocamento a que nos referimos acima

é fundamental para a compreensão do andamento do projeto literário cardosiano. Nos

contos de Cardoso Pires, o narrador caracteriza-se, de forma geral, embora haja

exceções, por certo distanciamento. É sobre as personagens excluídas e marginais que

recai o olhar do leitor, especialmente devido ao recurso da técnica fílmica da edição e

do predomínio do diálogo. Em O Anjo Ancorado, grosso modo, amplia-se o campo de

visão do narrador, o que também ocorrerá em O Hóspede de Job: no espaço da praia –

que será de grande importância para a compreensão da Balada – confinam-se e

confrontam-se sentidos e ações distintos (emprestamos a expressão a Maria Lúcia

Lepecki). Grosso modo, ainda: a dimensão portuguesa da obra está dada no confronto

das personagens das classes dominantes (João e Guida) com as das classes exploradas,

composta por trabalhadores cuja ocupação lhes foi tomada pelas empresas de pesca (os

moradores de São Romão, aldeia à beira-mar, que não podem mais pescar por causa da

pesca de arrasto de Peniche) ou cujo trabalho é iminentemente artesanal e caseiro (a

irmã do menino, que faz rendas de bilro). Trabalhadores como estes serão chamados

aqui de camponeses-operários, nos termos do próprio Cardoso Pires, em O Delfim. Sua

feição semiperiférica é oriunda exatamente do caráter instável de sua ocupação: são

trabalhadores simultaneamente urbanos e rurais, em deslocamento dos centros urbanos