Francisco Carlos: o maior ídolo dos anos dourados por Jonas Vieira - Versão HTML

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Jonas Vieira

Jonas Vieira, jornalista e radialista, biógrafo, brasileiro, natural de Fortaleza, Ceará, nascido no dia 25 de dezembro de 1934, iniciou sua carreira como jornalista na condição de revisor dos jornais Gazeta de Notícias e O Povo, ambos da capital cearense, com a idade de 16 anos.

Fez o curso secundário no Liceu do Ceará, ao mesmo tempo em que comple-tava outro curso, de inglês, no Instituto Brasil Estados Unidos (IBEU), onde passou a lecionar, a partir de 1955, aos 21 anos de idade. Ainda em 1955, empregou-se na Ceará Rádio Clube, como assistente de produção.

Deixou o IBEU em 1958, filiando-se, integralmente, ao jornalismo, na condição de repórter do jornal Correio do Ceará, pertencente à cadeia de emissoras de rádio e jornais, Diários e Rádios Associados. Colunista da seção de rádio do jornal Unitário, sob pseudônimo de J. Júnior.

Viaja para o Rio, em 1959, dando prosseguimento à carreira jornalística.

Primeiramente, como tradutor da antiga Editora Cruzeiro, que publicava inúmeras revistas. Repórter dos jornais O Dia e A Notícia, durante o ano de 1959, e, no ano seguinte, do Diário da Noite e O Jornal. Ainda em 1960, foi contratado pela agência de notícias norte-americana Associated Press, como repórter.

Em 1962, foi admitido como repórter do jornal Última Hora, onde permaneceu até o ano de 1969, retornando, então, aos jornais O Dia e A Notícia. Na época, anos setenta, criou e editou os house organs do Club de Regatas Vasco da Gama, da Associação dos Profissionais da Caixa Econômica do Rio de Janeiro (APCE) e da cadeia de supermercados, Casas Sendas. Redator da agência de notícias Reuters.

Em 1978 e 1979, trabalhou como redator e subeditor da agência de notícias Jornal do Brasil, saindo em 1980 para ingressar na agência de notícias O Globo, também como redator e subeditor. No mesmo período, atuou como produtor e apresentador de programas na Rádio Roquette Pinto AM, do Rio de Janeiro, e, posteriormente, transferiu-se para a Rádio Nacional do RJ, a fim de exercer idênticas funções, além de redator de jornais falados da emissora.

Passagem, como redator, pelo Jornal dos Sports e pauteiro do jornal O Povo do Rio de Janeiro. No começo dos anos 90, foi contratado como pauteiro e redator das rádios CBN e O Globo, e, em 1996, como redator e editor de jornais falados da Rádio Tupi.

Autor de três biografias: Orlando Silva, o cantor das multidões, premiada pela Fundação Nacional de Artes (Funarte), recentemente lançada em terceira edição; Herivelto Martins, uma escola de samba, em parceria com o jornalista Natalício Norberto; e César de Alencar, a voz que abalou o rádio. Por publicar, Francisco Carlos, ídolo do rádio e do cinema nos anos dourados, e Gonzagão e Gonzaguinha, duas vidas.

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Francisco Carlos

O Maior Ídolo dos Anos Dourados

JONAS VIEIRA

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Francisco Carlos

O Maior Ídolo dos Anos Dourados

JONAS VIEIRA

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Sumário

Prefácio 7 Carlos Drummond 9 Cyll Farney 21 Getúlio 22 Francisco Alves 23

Marta Rocha 26 Carlos Manga 27 Sílvio Santos 32 Teresinha Morango 34

Cauby Peixoto 35 Jorge Goulart 37 Laura Alvim 40 Harry Stone 42 Norma Benguell 44

Elis Regina 46 Lupicínio Rodrigues 48 Araguari 49 Ângela Maria 50 Capiba 51

Orlando Silva 52 Gregório Barrios 54 César de Alencar 56 Cearense 59

Belo Horizonte 60 João Gilberto 62 Clube da Chave 65 Carlos Lacerda 72

Grande Emoção 74 Jk e Sarney 77 Vestido de Noiva 78 Flamengo 81

Machado de Assis 82 Noel Rosa 83 Dálmatas e Faisões 84 Sônia Dutra 85

Mara Rúbia 86 Fiorentina 88 Nestor de Holanda 89 Os Cafajestes 90 Cantores 93

Jango e a Vedete 98 Lamartine Babo 101 Ídolo 103 Acontecimentos 105

Aviso aos Navegantes 108 Ângela Maria 112 Nelson Gonçalves 113 Barnabé, Tu és Meu 114

Garotas e Samba 117 1958 121 Rádio Nacional 124 Francisco Carlos Eternamente 138

Francisco Carlos Já 141 Agradecimentos 146 Crédito das fotografias 147

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Francisco Carlos com 6 meses

Com três anos

Com sua irmã Cléa Rodrigues

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PREFÁCIO

Francisco Carlos

Chico Carlos

Olhos verdes tentadores, olhos meigos de criança; são teus olhos dois amores.

E assim brincando de olhos, me olhei no espelho, e ele viu o que eu ainda não sabia: Não o inventei: ele já estava pronto; o mundo já o fizera assim.

Quando o conheci, eu um aluno de um professor de risos Oscarito, (esque-cido pela memória do Brasil), deparei-me com um Carioca não de berço, mas de espírito, cantor de grandes sucessos e com uma enorme veia cômica.

Na ocasião, Cyll Farney estava filmando na Alemanha, e me ocorreu a ideia de lançá-lo como um galã no cinema. Mais uma vez meus Protetores, aprova-ram e ficaram contentes: por não terem de me ajudar: ele já era um vencedor.

Francisco Carlos − Chico − porque todo Francisco, é um Chico − como Francisco Alves − lembrei-me também de Carlos − Roberto Carlos − uma junção de nomes e talentos. Chico Carlos.

Lembrei-me agora do humor contagiante, hilariante de Chico, uma criança como a própria alegria. Quando a noite terminava num bar, lá vinha Chico, contando estórias para os garçons e amigos presentes. Tecia-as encantando a todos. Chico era uma festa de gargalhadas. Ou melhor, uma explosão de alegria, que enchia o ambiente em que estava, prolongava as noites com seu riso e nos trazia manhãs de felicidade.

Modesto, uma vez viajando juntos de avião, ele levantou-se da poltrona, quando o avião aterrissou, e me disse: Manga, estamos em Belo Horizonte, gentilmente deixou que eu fosse à sua frente, cedendo-me a passagem; ao chegar à porta, deparei-me com uma multidão de meninas, brotos que vinham enlouquecidas correndo em minha direção; aos berros, agitando fotos, cartazes, etc. Amedrontado, corri de volta ao avião, ficando escondido no banheiro. Chico Carlos, faceiro, com seus enormes olhos 7

verdes e grande sorriso, desceu calmamente a escada do avião, abrindo os braços como que dizendo: Venham, estou em suas mãos, em seus braços, em seus corações.

Ali entendi por que era chamado O Rei dos Brotos. E eu acrescentei ao meu dicionário: broto, amigo, querido, companheiro, iluminado e muito, muito engraçado.

Francisco Carlos, um perfume que se evaporou, deixando todos aprisionados na alegria de sua voz e na saudade de sua presença. Uma cadeira vazia, não preenchida por ninguém.

Até breve Chico; tenha paciência. Posso demorar mais um pouco? Mas vou, é claro que vou até você, para abraçá-lo e reviver o riso, a voz, os meigos olhos verdes. Até.

Rio de Janeiro, 10 de Março de 2010

Carlos Manga

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Carlos Drummond

Duas marchinhas, lançadas para o carnaval de 1950, não só alegraram milhões de foliões por todo o País. Muito mais do que isso, os seus respectivos títulos passaram a identificar e nomear dois tipos especiais de mulheres: o broto (brotinho), designativo de mocinha, entre 14 e 18 anos (podendo avançar, em certos casos, até os 20 anos) e balzaquiana, em homenagem às mulheres maduras, depois dos 30.

A primeira, Meu Brotinho, de autoria de Humberto Teixeira e Luís Gonzaga, teve como porta-voz um jovem cantor, Francisco Carlos, em início de carreira, com 21 anos; e a segunda, Balzaquiana, de Antônio Nássara e Wilson Batista, consagrou outro jovem cantor, Jorge Goulart, de 23 anos. Por curiosa coincidência, ambas composições deslancharam as carreiras artísticas dos dois intérpretes, que colheram, então, seus primeiros sucessos.

As letras de Meu Brotinho e Balzaquiana são de um preciosismo extraordinário e autênticos hinos de louvor à mulher: Ai ai brotinho/ não cresça meu brotinho/ nem murche como a flor/ ai ai brotinho/ eu sou um galho velho/

mas eu quero o teu amor/ Meu brotinho por favor não cresça/ por favor não cresça/ já é grande cipoal/ veja só que galharia seca/ está pegando fogo neste carnaval.

Balzaquiana foi uma espécie de contraponto ao Brotinho, uma sacada, digamos assim, de dois gênios da MPB, o cartunista e jornalista Antônio Nássara, e o sambista Wilson Batista, inspirada no romance do compositor francês Honoré de Balzac, A mulher de trinta anos: Não quero broto/ não quero não quero não/ não sou garoto/ pra viver mais de ilusão/ sete dias na semana/ eu preciso ver minha balzaquiana/ O francês sabe escolher/ por isso ele não quer qualquer mulher/ papai Balzac já dizia/ Paris inteira repetia/

Balzac tirou na pinta/ mulher só depois dos trinta.

As expressões brotinho e balzaquiana não saíram do uso popular, por muitos e muitos anos, até serem substituídas por gírias mais recentes: gata, em substituição a broto, e coroa, no lugar de balzaquiana. É interessante registrar que a música popular brasileira tornou a focalizar os mesmos temas, a mulher jovem e a mulher madura, por meio de dois sambas, ambos de Luís Antônio, Mulher de trinta, de 1957, e Menina moça.

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Mulher de trinta deslanchou a carreira do cantor Miltinho, até então crooner do conjunto de Djalma Ferreira na Boate Drink, no Rio de Janeiro, para se tornar um dos artistas mais populares do País. Depois ele lançou Menina moça, sucesso tão grande quanto Mulher de trinta, que deu a Miltinho e ao compositor Luís Antônio uma grande alegria e uma inesquecível tristeza.

A historinha merece ser contada, rapidamente, para ilustrar como o Brasil funciona: um candidato a empresário, de nome Geraldo Lima, que frequentava a Boate Drink, revelou a Miltinho que estava inaugurando uma etiqueta de discos para lançamento de jovens valores e quis saber se o cantor se interessaria em inaugurar o negócio como seu primeiro artista. Entre as faixas gravadas estava o samba Mulher de trinta, que estourou de imediato.

− O disco vendeu uma barbaridade. − contou-me Miltinho − Vendeu tanto, que Geraldo pegou todo o dinheiro que ganhou e foi morar na França. Momentos antes do embarque, ele deu dois cheques, um para mim e outro para o Luís Antônio, como pagamento pelo nosso trabalho. Os dois cheques não tinham fundo. Restou o consolo: abriu as portas do êxito para mim e para o Luís, e uma lição de vida.

É interessante destacar que os compositores das décadas de 1930, 1940

e 1950, principalmente os autores de música carnavalesca, costumavam recorrer a expressões e gírias criadas pelo povo do Rio de Janeiro em suas músicas, ou personagens da cidade. Em outras palavras, o povo influencia-va diretamente os compositores.

Humberto Teixeira e Luís Gonzaga, com Meu Brotinho, e Nássara e Wilson, com Balzaquiana, percorreram caminho inverso para o sucesso e ainda de quebra enriqueceram a língua com dois preciosos ditos, sobretudo balzaquiana, um sofisticado neologismo.

Não obstante, os produtores, pesquisadores e escritores Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello, em A canção no tempo, 85 anos de músicas brasileiras, dois volumes, que abrangem composições lançadas pela MPB de 10

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1901 a 1985. Eles garantem que a palavra brotinho surge, pela primeira vez, na música popular brasileira, em 1949, no samba de Benedito Lacerda e David Nasser, Normalista, sucesso gravado pelo cantor Nelson Gonçalves, com a carreira em acelerada ascensão.

De fato, diz a letra de Normalista: Vestida de azul e branco/ trazendo um sorriso franco/ e num rostinho encantador/ Minha linda normalista / rapidamente conquista/ meu coração sem amor/ Eu que trazia fechado/ dentro do peito guardado/ meu coração sofredor/ Estou bastante inclinado/ a me entregar aos cuidados/ daquele brotinho em flor.

Contando a história de Normalista, Jairo e Zuza informam: Este samba é um hino de louvor à normalista, menina-moça que não pode casar ainda, só depois de se formar . E é em seus versos que aparece pela primeira vez na MPB a expressão brotinho em flo r, popularizada pela canção e que até mereceu uma crônica de Carlos Drummond de Andrade, anos depois.

Adiante, historiando o aparecimento de Balzaquiana, os dois autores acrescen-tam: Depois do sucesso de Normalista , quando a palavra brotinho ficou em moda, Wilson Batista resolveu homenagear a mulher mais velha, propondo a Nássara fazerem uma música sobre o assunto. Então, os dois desenvolveram o tema na forma de uma marchinha que, por sugestão de Nássara, recebeu o nome de Balzaqueana (Jairo e Zuza optaram grafar balzaqueana com e ), em alusão ao romance A mulher de trinta anos, de Honoré de Balzac.

O poeta Carlos Drummond de Andrade, em memorável crônica no Jornal do Brasil, de 1984, comenta a origem da palavra broto e reitera que seu emprego como sinônimo de adolescente (moça ou rapaz) não se deu com a marchinha de Humberto e Gonzaga, em 1950, nem tampouco com Normalista, de Benedito e Nasser. Ele cita o próprio JB, de 1932, quando a palavra broto foi usada, pela primeira vez, como sinônimo de adolescente (moça ou rapaz), mas que, na época, acabou não vingando.

Drummond exalta, então, a marchinha Meu Brotinho como responsável pela reinvenção de broto e atribui ao cantor Francisco Carlos, de quem se confessa admirador, a popularidade que a palavra ganhou a partir de sua gravação.

Francisco Carlos escreveu uma cartinha ao poeta agradecendo os elogios e foi agradavelmente surpreendido ao receber inestimável cartão de Carlos Drummond, datado de 7 de abril de 84, dizendo:

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Prezado Francisco Carlos: Recebi há pouco sua carta, endereçada para o Jornal do Brasil. Eu não podia ignorar quanto a sua atuação artística influiu na popularidade da expressã o Brotinho . É fato indiscutível. Lembro, entretanto, que as minhas crônicas sobre o assunto registram vários depoimentos, pelos quais se verifica que a palavra Broto , usada como símbolo da mulher adolescente, já era falado por volta de 1932. Cordialmente, o abraço do velho admirador, Carlos Drummond de Andrade. P.S. Obrigado pela foto.

O depoimento de Carlos Drummond de Andrade não deixa dúvida de que foi a marchinha Meu Brotinho que, realmente, serviu para a popularização da palavra brotinho, e a verdade parece caminhar nesse sentido. No samba Normalista, a palavra brotinho é mencionada en passant, ao final dos versos da primeira parte da composição, como um recurso retórico do brilhante letrista David Nasser, que, da mesma maneira que Drummond, conhecia o termo empregado pela primeira vez em 1932, no Jornal do Brasil, como testemunha o poeta.

Meu Brotinho, não. A composição é toda centrada na menina-moça, a adolescente, e não apenas consagrou-se de imediato como um êxito carnavalesco, entrando para o cinema, no filme Carnaval no fogo, como projetou a carreira de Francisco Carlos. Além do mais, Humberto e Gonzaga eram os dois compositores de maior sucesso na MPB, por força do estouro do baião, gênero em primeiro lugar em audição na época, criação da dupla.

Ora, somente em 1950, os dois emplacaram quatro composições (clássicos) entre as mais executadas do ano: Paraíba, Qui nem jiló, Assum preto e Baião de dois. Gonzaga foi mais adiante. Em parceria com Zé Dantas, lançou o clássico Cintura Fina.

O sucesso não tem explicação, mas uma coisa é certa: ele é multiplicador para quem está na crista da onda. Exatamente em 1950, os compositores Humberto Teixeira e Luís Gonzaga formavam a dupla de maior êxito na música popular brasileira, na esteira de permanentes hits colhidos desde 1947, quando os dois lançaram o baião com o clássico Asa branca.

Meu Brotinho era um baião. Como Luís Gonzaga hesitava em gravá-lo, Humberto tratou de procurar um intérprete para a nova composição da dupla. Um dia, ele ouviu, escutando a Rádio Mec, um jovem cantando uma canção sua, Louca ( Louca, nunca houve um amor igual ao meu/ Louca, 13

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Francisco Carlos com Dalva de Oliveira

só você que não compreendeu), num programa de estudantes e calouros.

O jovem cantor, fardado do Colégio Juruena, na Praia de Botafogo, identifica-ra-se apenas pelo nome Francisco.

Ao término do programa, quando saía da emissora, Francisco foi chamado pelo porteiro da rádio para atender um telefonema. Desconfiado, pensando que era seu pai, Francisco de Oliveira Rodrigues, que o flagrara matando aula, o jovem estudante relutou, mas acabou indo ao aparelho:

− Aqui é Humberto Teixeira, autor de Louca. Gostei demais de sua voz e faço-

-lhe um convite. Venha ao meu escritório, na rua México, para conversarmos.

Francisco Carlos, na semana seguinte, compareceu ao escritório do compositor e também advogado: − Fui fardado e meio ressabiado. Para surpresa minha, Humberto deixou-me à vontade e continuou elogiando minha voz e interpretação de Louca. Mostrou-me então uma música que se tornaria pouco tempo depois num sucesso sem precedentes. Era Asa Branca.

A convite do Humberto, na semana seguinte, compareci a um show no Clube da Aeronáutica, apresentado por Haroldo Barbosa, com grandes nomes do rádio na época: Orlando Silva, Dalva de Oliveira, Dorival Caymmi, Os cariocas, Braguinha, entre outros cartazes.

Francisco Carlos com sua mãe Norah

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Francisco Carlos com Humberto Teixeira no Egito

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Haroldo Barbosa, a mando de Humberto, pregou uma surpresa no jovem convidado, pedindo o seu comparecimento ao palco para cantar: − Fiquei nervosíssimo. Aplaudido, fui ao palco e cantei Cabelos brancos, de Herivelto Martins e Marino Pinto. Os aplausos continuaram. No final do show, Braguinha, que era diretor da Continental Discos, fez-me uma proposta para gravar um disco. Humberto Teixeira, porém, cortou-me a proposta de Braguinha, revelando que eu iria gravar na RCA Victor uma marchinha de nome Meu Brotinho, para o carnaval de 1950. Do outro lado do disco, um 78 rotações, Mulher me deixa em paz.

− Não foi minha estreia no disco − relembra Francisco Carlos: − Um pouco antes eu havia gravado uma música do Fernando Lobo, Distância, comple-tando um disco da Orquestra do Russo do Pandeiro. Quando gravei Meu Brotinho, o diretor da Victor, Vitório Latario, antes que eu entrasse no estú-

dio, advertiu-me, com uma franqueza inesquecível: Olha, garoto, reza para que essas músicas façam sucesso. Se não, nunca mais apareça com essa cara de pidão por aqui. Latario, ele próprio, ligou para Francisco Carlos duas semanas depois lhe oferecendo gordo contrato com a gravadora. Meu Brotinho transformou-se, rapidamente, em sucesso nacional, e até música de cinema. Recorda o cantor − A marchinha caiu no gosto, principalmente, das mocinhas e sendo cantada por toda a parte. Foi então que o Watson Macedo, da Atlântida Cinematográfica, mandou-me um convite para participar de uma de suas históricas produções, em preparativos.

− Ele olhou-me firmemente e indagou se eu era o intérprete de Meu Brotinho.

Respondi que sim e Watson antecipou: Vamos fazer com você um quadro no Copacabana Palace, vestindo uma camisa listrada e cercado de mocinhas, tudo brotinho. Eugênio Carlos, O entalhador, era meu rival. Como galã, meu amigo Anselmo Duarte, o queridinho das mulheres na época, fazendo par com Eliana, a ‘namoradinha do Brasil’, minha amada amiga, e José Lewgoy, o eterno vilão das chanchadas da Atlântida. Nome do filme: Carnaval no fogo, um sucessão. Ficou oito semanas no Cine Rian, em Copacabana, batendo todos os recordes de bilheteria e superando E o vento levou, até então imbatível. Com Meu Brotinho e esse filme, começa, de fato, a minha história como artista.

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Francisco Carlos tinha 21 para 22 anos quando a glória abriu suas portas para o seu nome, praticamente num piscar de olhos. É curiosa a maneira como o destino transforma a vida das pessoas, para o bem ou para o mal, dependendo do que está reservado para cada ser. Até o final de 1949, quando teve a chance de gravar Meu Brotinho, Francisco Carlos batalhava por um lugar ao sol sem que nada de relevante lhe acontecesse. De repente, com uma simples música, lançando um modismo que agradou em cheio a multidão, tudo mudou para o jovem cantor nascido no bairro do Grajaú, filho de pais pernambucanos, Francisco de Oliveira Rodrigues e Norah da Silva Ribeiro Rodrigues.

De ilustre desconhecido, Francisco Carlos virou celebridade da noite para o dia, entrando no ano de 1950 com o pé direito, na invejável condição de artista mais popular do disco, do rádio e do cinema brasileiro, ou seja, o ídolo maior dos chamados anos dourados, que compreendem a década de 1950, quando o povo brasileiro viveu dias de muito glamour, ditados, sobretudo, pelas chanchadas da Atlântida, que atraíam multidões, e pelo rádio, que reunia extraordinários cantores, músicos, produtores, locutores, radioatores e animadores, e o futebol conquistava a primeira Copa para o País, em 1958.

Apenas dois momentos marcantes interromperam esse idílio do povo com a alegria: no próprio ano de 1950, em pleno Estádio do Maracanã, o Brasil perdia a Copa do Mundo para o Uruguai, depois de esfuziante campanha ao longo da competição; e, em 1954, a nação chorava a morte trágica do então presidente Getúlio Vargas, ao cometer suicídio em seu quarto no Palácio do Catete.

É imperioso observar que, quando se afirma que Francisco Carlos foi possui-dor de um reinado artístico durante a década de 1950, vale ressaltar que sua espetacular ascensão não se deveu a um golpe de marketing − uma espécie de jogada preparada para sublimar o seu nome, como aconteceu, por exemplo, com o cantor Cauby Peixoto.

Cauby (nada a desmerecer seu imenso talento como cantor) surgiu no rádio e no disco em meio a ardiloso trabalho do esperto empresário Di Veras, que, inspirado em vitoriosos esquemas de lançamento e badalação de novos artistas em prática desde os anos 1940, nos Estados Unidos, como foi o caso de Frank Sinatra, garantiu-lhe ondas de fãs gritando o seu nome em programas de rádio e shows em cinemas, teatros e clubes, que culminavam em planejados tumultos a fim de chamar a atenção da mídia e do público.

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Moças arregimentadas exatamente com esse fim, rasgavam as roupas de Cauby (o mesmo estratagema usado para promover Frank Sinatra no início de sua carreira, nos Estados Unidos), enquanto Di Veras telefonava para as redações de jornais e revistas apontando os lugares onde essas demonstra-

ções de paixão pelo jovem cantor ocorriam. Não foi o caso de Francisco Carlos, que, por sorte ou mérito pessoal (ou as duas coisas), deu um único tiro na mosca e acertou em cheio, com a gravação de Meu Brotinho.

A escalada dele em direção ao topo do estrelato nacional verificou-se em dura disputa com numerosos artistas masculinos que surgiram nos anos 1950, como o já citado astro Cauby Peixoto, Luís Cláudio, outro belo cantor, João Dias, sucedendo Francisco Alves, Luís Vieira, Gilberto Milfont, Carlos Augusto, infelizmente morto em trágico acidente de carro, e mais antigos cantores já consagrados pelo povo, como Orlando Silva, Sílvio Caldas, Carlos Galhardo, Nelson Gonçalves, Roberto Paiva, Ciro Monteiro, Jorge Veiga, Moreira da Silva, Gilberto Alves, Dick Farney, Vicente Celestino e Luís Gonzaga, para citar os mais festejados.

Deve-se, ainda, acrescentar a essa constelação de grandes nomes da MPB, na época, outros tantos astros e estrelas estrangeiras famosos mundialmen-te, como os cantores americanos Bing Crosby, Nat King Cole, Dick Haymes e Frank Sinatra, culminando, em meados da década de 1950, com o fenômeno de massas Elvis Presley; as cantoras Doris Day, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, Billie Holliday, as orquestras de Tommy Dorsey, Harry James, Artie Shaw, Benny Goodman e Glenn Miller, que, mesmo com ele morto continuava fazendo sucesso por meio de imorredouras gravações, e mais: a onda do bolero, gênero musical que chegou ao Brasil nos anos 1940, com o cantor Pedro Vargas e que se popularizou em escala impressionante a ponto de atrair para o País magníficos intérpretes, como Gregório Barrios, vindo da Espanha e fixando-se no Rio de Janeiro.

Uma prova de que a ascensão de Francisco Carlos no mundo artístico brasileiro decorre, de maneira espontânea, sem apoio de empresários e de campanhas de marketing, como se tornou comum com numerosos artistas, desde a década de 1960, foi o seu ingresso na Rádio Nacional, na Praça Mauá, Rio de Janeiro. A toda poderosa RN, do Governo federal, que prece-deu em fama e prestígio em todo o País a Rede Globo de Televisão, desde a década de 1970, após sua criação, em l965.

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Na era do rádio, salvo raríssimas exceções, para se tornar conhecido do público e gozar do privilégio de gravar um disco, um aspirante a cantor (ou cantora) precisava fazer sucesso apresentando-se em emissoras de muita audiência, como as Rádios Nacional, Tupi e Mayrink Veiga, no Rio de Janeiro, sintonizadas pela maioria dos ouvintes no Brasil. Entrar para a Rádio Nacional, líder absoluta de audiência, pertencer ao seu rico elenco, então, era a glória de qualquer artista e garantia de imensa popularidade.

Depois de lançar Meu Brotinho e figurar no filme Carnaval no fogo com essa marchinha, Francisco Carlos almoçava num restaurante da rua Duvivier, em Copacabana, com Anselmo Duarte, Jorge Dória e Humberto Teixeira, quando um rapaz aproximou-se da mesa e saudou o cantor: Meu pai assistiu, ontem, ao filme Carnaval no fogo . Não é você quem canta a Marcha dos brotinhos?

Respondi que sim e ele identificou-se como filho do general Leoni Machado, superintendente das Empresas Incorporadas Rádio Nacional. Disse que seu pai também vira o filme e queria fazer uma surpresa a ele, levando-me à sua casa, na rua Mascarenhas de Morais, em Copacabana. Acertamos o dia e fomos, eu e Humberto, à casa do general Leoni, sendo recebidos por sua esposa, Eleonora. Marcelo, filho do general, assim que entramos, chamou seu pai, e anunciou : Olha só quem está aqui! O general Leoni reconheceu-me e deu-me forte abraço, confessando-se meu fã.

O apartamento estava cheio de artistas da Rádio Nacional e alguns jornalistas, como Miguel Cyrl e David Nasser. Os olhares voltaram-se todos para mim, enquanto o general Leoni me pegava pelo braço e me levava para a biblioteca do apartamento, onde, olhando-me carinhosamente, perguntou-me se eu estava cantando em alguma emissora de rádio. Declarei que não e ele indagou-me se queria cantar na Rádio Nacional. Fiquei emocionado e concordei de pronto.

− Fui instruído a procurar, no dia seguinte, o Paulo Tapajós, diretor artístico da Nacional, e assinei de imediato um contrato com a emissora, parecendo um sonho, pois eu era fã de Francisco Alves, Orlando Silva, entre outros cartazes da emissora, e passava a figurar ao lado deles, sem ter recorrido a padrinhos ou favores, pelo contrário, entrando pela porta da frente como convidado.

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Cyll Farney

Com a entrada de Francisco Carlos na Rádio Nacional, sua fama tornou-

-se absoluta. Ele conta, entre outros episódios que passaram a acompanhar a sua carreira, que estava almoçando com Humberto Teixeira e o cantor Nuno Roland num restaurante no centro da cidade, quando se ouviu um alarido na rua.

Humberto foi até a porta do estabelecimento, curioso, para ver do que se tratava e voltou preocupado: Carlos, tem uma pequena multidão aí fora querendo te ver. Acho bom você não sair porque não tem polícia e o assédio a você pode se tornar incontrolável. Mal ele terminou de falar, invadiram o restaurante. Foi um deus nos acuda. Mas eu gostei. Sempre gostei e gosto do assédio do público.

É sinal de admiração e carinho.

Não demorou muito e Francisco Carlos

foi eleito rei do rádio, além de conquistar

também o papel de galã em dezenas de

filmes nacionais, onde já brilhavam os

bonitões Cyll Farney e Anselmo Duarte.

− Eu e Cyll éramos muito amigos −

recorda Francisco Carlos −, não havia

despeito, ciumeira entre nós. Certa vez,

Cyll convidou-me para ir com ele numa

festa em Ipanema. A casa estava cheia e

a nossa chegada causou alvoroço. Havia

muito assédio e Cyll, não demorou, virou-

-se para mim e disse: Carlos! Agora que

eu me toquei. Eu e você juntos somos

um espetáculo para milhões. A gente

não vai ter paz. Que tal sair de fininho

e jantar em outra freguesia? Foi o que

fizemos, aproveitando uma distração

dos donos da casa. Foi pior. O mesmo

problema repetiu-se no restaurante.

Francisco Carlos com Cyll Farney

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Getúlio

O sucesso de Francisco Carlos foi tão fulminante, que já no segundo ano de sua carreira ele desbancava, nada mais, nada menos, que o seu xará, Francisco Alves, o Rei da Voz, tomando-lhe o cetro de Rei do Rádio. Todo ano, a Revista do Rádio promovia o concurso para eleger o rei e a rainha do rádio, envolvendo a maioria dos ouvintes e fãs dos artistas, que votavam nos seus ídolos.

Era uma iniciativa da Associação Brasileira de Rádio.

− Houve uma grande festa na entrega das medalhas do concurso e todos os artistas foram levados ao Palácio do Catete, onde fomos recebidos pelo presidente Getúlio Vargas. Foi uma grande emoção para mim, naquele ano, 1952, pois eu acabara de vencer um dos meus ídolos, o fabuloso Francisco Alves, e, de quebra, era recebido pelo presidente Vargas, que me dedicou uma atenção especial, em meio ao numeroso grupo de colegas recebidos por ele. O presidente estava ligado em tudo que acontecia no meio artístico.

Fiquei impressionado e ainda mais seu fã.

Francisco Carlos com Gétulio Vargas

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Francisco Alves

Vencer Francisco Alves, um dos cantores mais populares, senão o cantor mais popular do Brasil até sua morte, em 1952, não era façanha para qualquer um.

O próprio Francisco Carlos recorda que logo depois desse concurso, deu-se a inauguração da Rádio Nacional de São Paulo, para onde acorreu grande caravana de artistas da Rádio Nacional do Rio: − Fui dos mais cortejados pelos fãs paulistas, mas fiquei impressionado com o cartaz de Francisco Alves. Terminado o espetáculo de inauguração, com a presença do governador, fomos todos para o Hotel Excelsior, na Avenida Ipiranga, e terminamos a noitada num jantar no Brás. Fazia muito frio, mas, mesmo assim, havia muita gente esperando por nós. Ninguém me contou, eu assisti. Francisco Alves era puxado, abraçado, como se fosse um Deus. Não foram poucos os que fizeram questão de beijar suas mãos.

− Depois, eu e o grande Chico ficamos bons amigos. Lembro de um momento memorável na minha carreira, quando ele adoeceu da garganta e não pôde apresentar o seu famoso programa no domingo, na Rádio Nacional, no quadro Quando os ponteiros se encontram. Chico sugeriu o meu nome para substituí-

lo. Quase não acreditei e confesso que fiquei nervoso no instante em que a locutora Eloísa Helena anunciou o meu nome. Era muita responsabilidade.

Depois, ele me procurou e fomos juntos, em seu automóvel, até o Largo do Machado, onde o Chico mostrou-me algumas músicas e falou da sua admiração por mim.

Uma leitura atenta do século 20 conduz a algumas conclusões bastante significativas. Esse século foi polarizado por intenso romantismo e histórica violência, com duas guerras mundiais, as de 1914 – 1918 e 1939 – 1945, uma guerra localizada, a da Coréia, e a longa ameaça de uma guerra nuclear capaz até de acabar com a vida no planeta, ou seja, a Guerra Fria iniciada entre os Estados Unidos e a antiga União Soviética, mas que, felizmente, ficou somente na ameaça.

Apesar de todos esses conflitos, a humanidade, pelo menos no Ocidente, cantou e dançou ao som da velha valsa e do foxtrot, do tango, da rumba e do bolero. No Brasil, além desses gêneros, os brasileiros brincaram e se esbaldaram, como se nada estivesse acontecendo, no carnaval, embalados 23

pelo samba e a marchinha. Pelo menos até o final da década de 1950, a primeiros anos da década de 1960, violência nas ruas mostrava-se reduzida a brigas comuns. Não havia assaltos a mão armada, arrombamentos, sequestros de pessoas, arrastões, com pouquíssimas categorias de ladrões, também chamados de amigos do alheio: os punguistas, que procuravam agir na maior discrição, os oportunistas, e os chamados ladrões de galinha, que atacavam residências, mas que fugiam em pânico (imagina) quando eram flagrados pelos donos da casa.

Em outras palavras, os antigos ladrões (inclusive os ladrões dos cofres públicos) tinham vergonha de serem flagrados e apontados como ladrões, bem ao contrário dos seus sucessores e demais criminosos que passaram a agredir a população a partir dos anos 1970, coincidindo com a dissemina-

ção do consumo de tóxicos.

A mesma leitura indica que a década de 1950 foi a mais romântica de todas, aquela que inaugurou a moderna sociedade de consumo, promovendo incomparável liberdade de ir e vir e de agir das pessoas, sobretudo as mulheres.

A explicação mais razoável parece estribar-se nos seguintes fatos: terminada a Segunda Guerra Mundial, em 1945, o mundo, liderado pela principal potência vencedora do conflito, os Estados Unidos, mergulhou no sonho de uma era de paz duradoura na Terra, e estimulado por larga produção de bens e novas tecnologias, trazendo o aperfeiçoamento de antigas invenções, como o rádio, o cinema, o disco, os veículos, os aviões, os eletrodomésticos, e introduzindo revolucionárias novidades, como a televisão.

A década de 1950 produziu o crescimento da comunicação e da propaganda, alteração de hábitos e costumes, diversificação da moda e a valorização da mulher, tendo como artífice os festejados concursos de miss realizados no Estádio do Maracanãzinho, no Rio, com os arrojados (para a época) maiôs Catalina, para a escolha de Miss Brasil, quando se destacaram candidatas-modelo como Marta Rocha, Adalgisa Colombo e Maria Emília Correa Lima.

Selecionada a candidata brasileira, ela ia em seguida concorrer ao título máxi-mo da beleza mundial, o Miss Universo, em Miami, nos Estados Unidos.

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Francisco Carlos com Francisco Alves

Francisco Carlos figurou entre os nomes que mais brilharam nessa década repleta de acontecimentos, personagens, surpresas e mudanças. O Rio de Janeiro polarizava as atenções do país, como capital da República e do prazer, por oferecer todo tipo de diversão e atrações: no rádio, com famosos programas de auditório nas Rádios Nacional, Tupi e Mayrink Veiga; no teatro, exibição de peças estreladas por grandes nomes da dramaturgia brasileira, destacadamente o maior ator brasileiro, Procópio Ferreira; badaladas revistas da Praça Tiradentes, a maioria assinadas por Walter Pinto, com vedetes de alto porte, como Mara Rúbia, Virgínia Lane, Marly Tavares, Anilsa Leoni, Norma Bengel e Elizabeth Gasper.

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Pintura a óleo Francisco Carlos

Marta Rocha

A prova do prestígio de Francisco Carlos estava por toda a parte aonde ia.

Certa vez, quando da escolha de Miss Bahia para o concurso nacional de Miss Brasil, em 1954, ele foi convidado a fazer uma apresentação no Iate Clube de Salvador. Terminado o desfile e a escolha de Marta como candidata baiana, FC cantou, mas antes teve que atender, pacientemente, o assédio de todas as candidatas a lhe pedir autógrafo, à frente, a própria vencedora, que, posteriormente, tornou-se sua grande amiga e também pintora.

− Anos mais tarde, consagradíssima, Marta ia gravar Na Baixa do Sapateiro comigo, mas, lamentavelmente, ela engessou a perna por causa de uma queda e a gravação foi cancelada, porque no estúdio da RCA Victor, perto da Central do Brasil, o estúdio ficava na parte de cima de um prédio e o acesso era por uma escada em caracol. Com a perna engessada, Marta não podia subir e a gravação foi feita sem a sua participação. Ela gravou uma música para o carnaval com a Emilinha Borba.

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Carlos Manga

O elevado prestígio de Francisco Carlos na época pode, ainda, ser aferido em dois outros casos, envolvendo duas figuras que se tornaram celebridades no país, uma no cinema, Carlos Manga, e outra no rádio e na televisão, Sílvio Santos.

FC conta: − Eu estava no aeroporto Santos Dumont, no Rio, esperando avião para São Paulo, quando um jovem magrinho, usando uniforme de trabalho da antiga empresa aérea Cruzeiro do Sul aproximou-se de mim. Identificou-se e caminhamos pelo hall do aeroporto, enquanto ele se dizia diretor do fã clube do cantor Dick Farney e que gostaria de me prestar uma homenagem. Era Carlos Manga.

− Na volta de São Paulo, fui ao local anunciado, repleto de jovens, onde se realizou um show. Após o espetáculo, Manga revelou-me que tinha um sonho, o sonho de fazer cinema e que precisava de uma oportunidade. Gostei da conversa dele e ficamos amigos. Eu era contratado da Atlântida e havia feito vários filmes com Watson Macedo e José Carlos Burle, principais diretores da companhia. Aproveitei uma visita de Luís Severiano Ribeiro, o todo poderoso distribuidor de filmes no Brasil, aos estúdios da Atlântida, onde seria rodado um musical dirigido por Macedo.

− A produção do filme estava parada por causa de desentendimentos com Macedo e eu então sugeri o nome do Manga para fazer o trabalho de direção.

Manga foi muito elogiado pelo seu desempenho e, a partir daí, consagrou-se como um dos maiores diretores de cinema do Brasil, sendo responsável por inúmeros sucessos de bilheteria, dirigindo cartazes como Oscarito, Grande Otelo, Cyll Farney, Adelaide Chiozzo, Miriam Teresa, filha do Oscarito, Margot Louro, Zezé Macedo, Renato Restie, Augusto César Vanucci, entre outros.

Eu mesmo fiz vários filmes com ele, como Garotas e samba, Colégio de Brotos e Esse milhão é meu. Pelo visto, acertei na mosca apadrinhando, digamos assim, o Manga no início de sua brilhante carreira.

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Cena do filme Colégio de brotos com Oscarito

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Cena do filme Esse Milhão é Meu

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Filme Esse Milhão É Meu

Filme Aviso aos Navegantes

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Sílvio Santos

O outro cartaz que ganhou uma mãozinha inestimável de Francisco Carlos, foi o comunicador e depois bem sucedido empresário Sílvio Santos, que se tornou dono de canal de televisão, o SBT, deixou o Rio de Janeiro, onde atuou como modesto locutor e não conseguiu se firmar, até ir para São Paulo tentar a sorte e coroou-se na área de negócios e da comunicação.

Francisco Carlos estava no bar que funcionava no antigo 22º andar da Rádio Nacional do RJ, na companhia do compositor Valzinho, quando chegou-se a eles o compositor paulista José Roy. Pouco depois, aproximou-se do grupo um locutor ainda em início de carreira na emissora, trabalhando num programa dirigido ao homem do campo, dizendo uma vinheta do patrocinador, Óleo de Lima. A vinheta era Viva o Óleo de Lima e o locutor, Sílvio Santos.

Sílvio dirigiu-se a José Roy e revelou que gostaria de trabalhar em São Paulo.

Roy respondeu-lhe que quem tem prestígio em São Paulo é o Francisco Carlos.

É que o diretor da Rádio Nacional de São Paulo, Osmar Campos Filho, era muito amigo do cantor. Ali mesmo, Francisco Carlos fez um bilhete para Osmar e entregou-o a Sílvio Santos, recomendando-o ao amigo Osmar.

Naquele mesmo dia, à noite, Sílvio embarcou para São Paulo, indo procurar Osmar Campos Filho na Rádio Nacional paulista. Com o tempo, engajou-se com Manoel da Nóbrega, que possuía o Baú da Felicidade, tornando-se seu sócio e deslanchando, afinal, sua vitoriosa carreira no rádio e na televisão de São Paulo.

Francisco Carlos conta que, anos e anos depois, surpreendeu-se ao ver Sílvio Santos na televisão, à frente de um programa de crescente sucesso, no qual figurava um quadro, Porta da Esperança, onde alguém da plateia era sorteado e manifestava um desejo. Sorteada, uma fã do cantor disse que gostaria de revê-lo. Convidado pela produção do programa, Francisco Carlos (levando um quadro seu para a fã) foi a São Paulo apresentar-se no Porta da Esperança, e reencontrou-se, depois de muitos anos, com Sílvio. Os dois, então, confraternizaram-se em pleno programa e relembraram os antigos tempos da Rádio Nacional e o bilhete a Osmar Campos Filho.

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Francisco Carlos com Silvio Santos no programa Porta de Esperança. Atendendo o pedido de uma fã

− Não conto isso para me gabar − insiste Francisco Carlos: − Mas são episódios importantes da minha carreira e tenho muito orgulho em contar que, assim como fui ajudado, também dei minha contribuição, na medida do possível, para os que me procuraram em busca de apoio. Nos casos do Manga e do Sílvio, a satisfação é dupla, porque eles foram além de qualquer expectativa.

− Posso alinhar outros nomes, sem falsa modéstia, como meus extras (figurantes) em filmes. Lembro bastante de Daniel Filho, grande ator, que pedia-me participação no filme Colégio de Brotos, ou então gente maravilhosa que incentivei no começo da carreira, como Augusto César Vannucci, Ed Lincoln, Fausto Guimarães (o apresentador), Noel Carlos, Coleneh Costa, o cômico Badaró, e Teresinha Morango (ex- Miss Brasil).

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Teresinha Morango

− Falo com muito carinho da Teresinha − acrescenta Francisco Carlos.

Ela candidatou-se a um concurso de beleza patrocinado pela revista Radiolância, onde eu tinha uma página à disposição. Pediu o meu apoio e eu dei a maior força, além de levá-la para fazer uma ponta no filme Colégio de Brotos.

Ficamos grandes amigos, até que Teresinha foi eleita Miss Brasil, confirmando nossa expectativa sobre a sua imensa beleza. Ela e eu posamos para a capa da revista O Cruzeiro, publicação de maior popularidade na época.

− Apostei no sucesso de Aguinaldo Timóteo, ainda completamente desconhecido, ouvindo-o cantar uma noite, e fui o primeiro a gravar Adelino Moreira.

Gravei dele o samba Ela hoje é diferente, acompanhado por Jacob do Bandolim.

Lancei Aroldo Eiras como compositor, gravando duas músicas que ele me ofereceu, Adorável como um sonho e Minha prece.

− Outra figura querida a quem

fiz questão de ajudar foi Sônia

Mamede, que, um dia, abordou-

me declarando-se minha fã e

pedindo um autógrafo. Iniciamos

forte amizade. Sônia passou a

me acompanhar nas filmagens

da Atlântida e, uma tarde, o

diretor Watson Macedo, vendo-a

conversar comigo, indagou se

ela era do Norte. Com muita

presença de espírito, Sônia

retrucou: Sou não, meu bichim.

Watson adorou e contratou-a.

Não preciso comentar, agora,

que Sônia tornou-se uma das

maiores estrelas brasileiras.

Francisco Carlos com Terezinha Morango

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Cauby Peixoto

− Certo dia, recebi um telefonema do empresário Di Veras, pedindo-me que o visitasse em seu escritório, pois tinha um bom negócio para me propor. Logo que cheguei, ele foi direto ao assunto: Gostaria de promover uma rivalidade entre você e o Cauby, igual a de Marlene e Emilinha. Ele então revelou que a ideia era um desfile meu em carro aberto pelas principais avenidas e encerrar o desfile cantando num espetáculo com o Cauby.

− Respondi: Ouvi o Cauby cantar uma vez e gostei. Mas o cartaz sou eu, Di Veras. O que eu ganho com isso? Disse-me que tinha reservado boa quantia em dinheiro para mim e fez uma oferta. Recusei. Ele dobrou a oferta e eu aceitei, desde que a promoção não fosse no Rio de Janeiro. Ficou combinado que seria Belo Horizonte e que haveria uma tentativa de briga entre mim e o Cauby, apartada por Russo do Pandeiro, um dos acompanhantes de Carmem Miranda nos Estados Unidos. Com esse cachê que o Di Veras me pagou, comprei um apartamento em Copacabana.

Copacabana assumiu, a partir dos primeiros anos da década de 1950, a primazia da diversão noturna na cidade, com a inauguração de dezenas de boates, várias delas se tornando notórias como pontos de encontro da sociedade carioca, de artistas, intelectuais e turistas, como as Boates Arpege e Drink, e as internacionais revistas montadas por Carlos Machado, no Copacabana Palace.

A música estava presente por toda a cidade, o carioca cantava de dia e de noite, principalmente à noite, nos programas de rádio, nos dancings do Centro e da Lapa, nas boates de Copacabana. Nos dancings e boates atuavam cantores chamados de crooners (palavra inglesa designativa de pessoas que cantam baixinho, discretamente), à frente de conjuntos de poucos músicos que tocavam ininterruptamente um variadíssimo repertório contemplando os gêneros musicais mais populares, como o samba, o bolero, o foxtrot, etc.

Dancings e boates revelaram-se excelentes escolas de aprendizado do canto popular, como prova a consagração de magníficos intérpretes da MPB, cujas carreiras foram forjadas em longas noitadas como crooners de conjuntos ou pequenas orquestras que animavam a noite carioca das décadas de 1940 e 1950, Luís Gonzaga, Luís Vieira, Elisete Cardoso, Tito Madi, Miltinho, Jorge 35

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Goulart, Ângela Maria, Jamelão,

Helena de Lima, Elis Regina, João

Gilberto, entre outros. Francisco

Carlos lamenta não ter passado por

essa escola musical:

− O sucesso despontou cedo na

minha vida e eu sinto que me faltou

mais cancha, como se dizia antiga-

mente, mais experiência, para

desenvolver a minha arte. Trabalhar

como crooner ajuda muito a tempe-

rar a voz e a enriquecer repertório.

Cito o caso do Miltinho, por exem-

plo, que começou cedo na vida

artística, mas que forjou sua arte

cantando na noite durante vários

anos, o mesmo sucedendo com

minha amiga Elisete Cardoso. Fui

bem, mas fui obrigado e aprimorar-

me com o bonde andando, o que

requer redobrado esforço para não

decepcionar os fãs.

De fato, ao contrário de numerosos

Francisco Carlos com Cauby Peixoto

cantores que ralaram muito até firmar

prestígio e ganhar popularidade,

Francisco Carlos iniciou carreira pelo

alto e logo transformou-se no maior

cartaz brasileiro dos anos 1950, no rádio, no disco, no cinema e na linha de shows, constituindo um fenômeno único no País. Veja-se o caso de sua contratação pelo Copacabana Palace, que apresentava uma linha de espetá-

culos noturnos, principalmente para turistas, e que, para isso, a direção do famoso hotel escalava Caribé da Rocha, tido como uma pessoa muito gros-seira no trato com os artistas, para selecionar e cuidar das atrações para o exigente público que comparecia, todas as noites, ao Copa.

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Jorge Goulart

Francisco Carlos era a principal atração do show Varig, a dona da noite, na boate Meia-Noite, apresentado pelo locutor Murilo Néri: − Não sei por que, mas o Caribé gostava muito de mim. Na verdade, eu era muito querido pela família Guinle. O velho Otávio, que nunca dava palpite nos shows do Copa, tinha especial atenção comigo e recomendava ao Caribé a renovação do meu contrato. Cheguei a ser padrinho de casamento do Eduardo Guinle.

Certo dia, durante um almoço, Caribé me propôs novo contrato.

− Disse-lhe, sinceramente, que não dava mais para continuar, porque estava tendo prejuízo. Chovia convites para cantar no Rio e fora do Rio e não podia atendê-los por causa do Copa. Mostrei, então, recibos de shows, como o de São José do Pinhal, em que eu ganhava numa noite o que o Copa me pagava o mês inteiro. Comprometi-me a levar outro cantor para o meu lugar e apresentei Jorge Goulart, que foi aprovado e levou, de quebra, a minha amiga Nora Ney, formando uma dupla de muito sucesso, como eu esperava.

De acordo com Francisco Carlos, o Copacabana Palace foi responsável pela compra do seu primeiro carro, um Peugeot, zero quilômetro: − Ao renovar meu primeiro contrato com o Copa, o Caribe, para surpresa minha, concordou em adiantar o dinheiro que eu ia ganhar naquela temporada, permitindo a compra do automóvel. Ele não fazia isso com ninguém. Anos depois, troquei o Peugeot por um Oldsmobile, Star Fire, que custava uma fortuna.

Só havia dois Star Fire no Rio, o meu e o do milionário Raza Gaballa. Era o máximo da esnobação.

Um dos aspectos mais interessantes da carreira de Francisco Carlos, é que ele não tinha em mente transformar-se num cantor quando chegasse a vida adulta. O seu sonho de menino era o desenho: − Eu nasci no dia 7 de abril de 1925, no Grajaú, mas com oito anos fui com meus pais e irmãos para o Recife, por problemas financeiros. Papai era corretor financeiro, tinha uma casa bancária e perdeu tudo. Fomos nos refugiar numa fazenda próxima do Recife, a Fazenda Dois Irmãos, em 1934, onde ele passou a criar gado.

Três anos depois, contudo, estávamos de volta ao Rio, indo morar na Gávea.

Foi quando ganhei meu primeiro prêmio como artista.

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Ele arrebatou o primeiro lugar num concurso de desenho do jornal O Globo, para a revista Gibi, concorrendo com centenas de candidatos: − Entusiasmado com o prêmio, procurei aprimorar-me com o prof. Oswaldo Teixeira, grande mestre do desenho e da pintura, que ensinava numa casa da rua Paulino Fernandes, em Botafogo. Nas horas vagas, exercitava-me na Sociedade Brasileira de Belas Artes, onde conheci pintores renomados como Guinhar, Vicente Leite e Manuel Santiago. Era muita coisa para um menino de apenas 13 para 14 anos, minha idade então. A partir daí dei início à minha carreira como pintor.

A carreira de pintor de Francisco Carlos passa por Paris, onde ele viveu dois anos, por conta própria, deixando praticamente de cantar durante todo esse período. Diz ele: − Ainda gravei uns poucos discos, na França, versões de músicas brasileiras em francês. Foi um tempo muito proveitoso para mim, embora tenha me custado um bom dinheiro. A ideia surgiu por ocasião de uma excursão de artistas brasileiros pela Europa, organizadas por Humberto Teixeira, a Caravana do baião, com a finalidade de divulgar a MPB pelo mundo.

Na volta dos outros artistas, decidi ficar e fazer um curso de pintura nos melhores ateliers franceses.

− O grupo em que fui, liderado pelo Humberto, tinha o Waldir Azevedo, Dalton Vogeler, Poly, o percussionista King, Orlando Silveira, Hoana, Lombardi Filho, o jornalista Eugênio Lira Filho, Darlene Glória, a cantora Marta Kelly e a bailarina Lúcia. Quando nos preparávamos para deixar Roma com destino à Grécia, o motor do avião pifou e ficamos aguardando nova partida no aeroporto. A tensão era grande e o Valdir Azevedo e eu, que não éramos de beber, decidimos tomar uns uisquinhos para tomar coragem. Foi uma graça. Parecia um filme de comédia a nossa entrada no avião, cheio de árabes vestidos a caráter. O que dissemos de bobagens foi uma grandeza, mas serviu para descontrair a nós e o grupo.

− O avião seguiu para Gaza, onde desembarcamos. Aproveitamos para visitar o túmulo de Sansão e Dalila e ainda fizemos shows para os soldados brasileiros da força de paz da ONU estacionados no Egito. Valdir Azevedo e eu, 38

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Francisco Carlos com Francisco Alves, Dircinha, Jorge Goulart, Linda Batista e João Dias uma tarde, saímos atrás de presentes e lembranças e encontramos um bazar onde havia de tudo. O vendedor abriu um baú e de lá tirou uma caixinha para nos mostrar. Assim que a caixinha abriu, tocou uma música. Qual?

O baião Delicado, do Waldir. Surpresa geral. Quem cedera os direitos? Ninguém sabia. Ficou por isso mesmo. Na volta à Europa, gravei dois LPs, um na França, lançado em vários países, e outro em Portugal, onde realizei demorada temporada no Cassino Estoril e era saudado como o Rei do Rádio do Brasil.

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Laura Alvim

− Decidi permanecer na França, como já disse, por conta própria, estudando pintura durante dois anos. Graças a isso, minha pintura ganhou maturidade e proporcionou-me, ao retornar ao Brasil, firmar minha carreira como pintor e realizar exposições. Uma delas foi muito marcante. Recebi da Socila um convite para expor meus quadros em sua galeria. O convite foi prefaciado por Ricardo Cravo Albim e atraiu grande público, destacando-se o pintor Osvaldo Teixeira, um dos maiores do Brasil, e uma mulher encantadora, Laura Alvim, que se declarou minha fã.

− Ela me contou, então, que era proprietária de uma mansão na Avenida Vieira Souto e surpreendeu-me revelando, particularmente, que precisava de ajuda. Disse-me que atravessava fase financeira bastante crítica e esforçava-se para não se desfazer da mansão da família na Avenida Vieira Souto, para a qual havia recebido inúmeras propostas de construtoras.

Argumentou que amava a memória do pai e, a convite dela, visitei a mansão em Ipanema. O lugar estava em precárias condições. Prontifiquei-me a ajudá-

la e, posteriormente, com a sua morte, tive a satisfação de ver que a casa não tinha sido demolida e se transformara num centro cultural, a Fundação Casa das Artes Laura Alvim. Acredito que, de certa forma, contribui para esse auspicioso fim.

− Por falar, ainda, em pintura, não posso deixar de fazer um registro histórico sobre um grande pintor, o também cantor Gastão Formenti, que eu ouvia com a maior admiração ainda menino, no rádio e por meio de suas gravações.

Certa tarde, na Rádio Nacional, vieram me dizer que ele estava a minha procura, no corredor da emissora. Fui ao seu encontro e nos cumprimen-tamos efusivamente. Levei-o a um estúdio, onde Gastão explicou que tinha um filho, César Formente, que havia composto uma música e gostaria de vê-la gravada.

− Declarou-me que, se quisesse, ele mesmo poderia gravá-la, ou então poderia recorrer a Francisco Alves ou outro cantor, porém o autor tinha uma grande preferência: queria que a música fosse lançada e gravada por mim.

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Gastão, então, cantou a composição, deixando-me emocionado. Eu ouvia, com exclusividade, na minha frente, uma voz demasiadamente familiar aos meus ouvidos nos tempos de infância. Chamava-se Abandono. Gostei e gravei. No dia da gravação, Gastão compareceu ao estúdio da Victor. Os quadros dele, atualmente, são considerados uma raridade e somente são encontrados com ricos colecionadores. Gastão era um pintor de cavalete e pintava ao vivo.

Francisco Carlos em Paris 1964

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Harry Stone

Francisco Carlos atribui a íntima amizade que estabeleceu com o promoter norte-americano Harry Stone, que durante décadas viveu no Rio de Janeiro representando os interesses da indústria cinematográfica dos Estados Unidos no Brasil, preciosa abertura para realizar lucrativa incursão naquele país, além de conhecer de perto e até fazer amizades com algumas celebridades da música e do cinema dos EUA, como Louis Armstrong, Jane Mansfield, Ivone de Carlo, Errol Flynn, Jeanette Mc Donald, Nelson Neddy, Nat King Cole, Merle Oberon, Rita Hayworth e o maestro Xavier Cugat.

− Harry Stone oferecia grandes recepções em seu luxuoso apartamento no Flamengo quando da passagem pelo Rio de artistas norte-americanos, e eu era permanentemente convidado por ele para participar desses encontros que ele promovia. Cito, principalmente, Rita Hayworth, Merle Oberon, Nat King Cole e Xavier Cugat, que me fez insistente convite para que eu excursionasse com ele e sua orquestra em vários países. Recusei, porque na época a minha agenda de compromissos no Brasil não me dava espaço.

Foi uma pena.