Fugindo do Medo por Shannon K. Butcher - Versão HTML

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Envio e Tradução: Gisa

Revisão Inicial/Formatação: Joelma

Revisão Final: Táai

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Fugindo do Medo

Guerra dos Sentinelas-03

Tiamat-World

Comentários

Revisora Joelma:

Revisora Táai: Amei de paixão este! Para variar, o livro

começa lentinho e dando voltas e voltas (como é normal

nessa autora), mas depois o negócio engrena e as coisas

começam a ficar interessantíssimas! Muitas novidades e

revelações são feitas. E, de bônus, ainda tem um trechinho do

livro quatro no final! Aproveitem! Beiiijos!

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Fugindo do Medo

Guerra dos Sentinelas-03

CAPÍTULO 1

Texas, 29 de Julho.

Depois de um tempo fugindo dos caçadores, Lexi Johns já não é uma

presa.

É quem ataca.

Zack estava ali. Podia senti-lo perto, aproximando-se mais a cada pulsar

de seu coração, como se de algum modo tivesse se convertido em parte dela.

Ainda não estava preparada para se encontrar com ele. Necessitava de mais

tempo para preparar-se para o que tinha que fazer e o que isso poderia lhe

custar.

Os cabelos finos caíam ao longo de seus braços levantados e sentia um

formigamento percorrendo sua pele. Havia sentido isso antes, na noite em que

Zach marcou sua pele, e sabia o que significava. Zack estava se aproximando.

Lexi não tinha certeza de poder fazê-lo — mentir de maneira que ele

viesse a ela — mas não tinha escolha. O destino de toda raça humana dependia

de sua habilidade para enganá-lo, fazendo-o pensar que precisava de sua ajuda,

que acreditava na mentira que dizia, que era um dos mocinhos. Sabia melhor

que ninguém. Sua mãe se assegurou disso.

No que a ela concernia, a maioria das pessoas não mereciam o

problema que estava trazendo para si mesma, mas Helen Day sim. E os

Sentinelas a tinham. Zack era seu único caminho para entrar no complexo onde

Helen era mantida prisioneira, sua única maneira de ajudar Helen a fugir.

As mãos de Lexi tremeram enquanto limpava as mesas de madeira. O

bar onde trabalhava tinha acabado de fechar e estava quase vazio. O único

homem que restava, estava limpando a pequena cozinha. Podia ouvi-lo

cantando em espanhol enquanto trabalhava. Gus, o proprietário do bar, estava

no caixa, fazendo a recontagem dos lucros da noite. Pelo sorriso em sua cara e

a maneira que seus pés e costas doíam, tinha certeza que estava tendo um

lucro terrível.

O volume das gorjetas no bolso de seu avental não era tão grande

quanto esperava que fosse. As pessoas já não pagavam tanto em dinheiro como

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costumavam fazer, e Gus gostava de agarrar-se ao dinheiro tanto quanto

pudesse, assim não veria aquelas gorjetas até o dia de pagamento. Não que

fosse ficar ali o suficiente para pegá-lo. Tinha certeza que Zack a encontraria

antes.

A ideia fez que sua pele se aquecesse e sua boca secasse; ele a fazia

tremer de medo e algo mais, algo quente e ilusório que não podia nomear.

Era uma pena. Era hora de aceitar isso. Helen precisava dela. Lexi tinha

que libertar sua amiga e encontrar uma maneira para desfazer qualquer

lavagem cerebral que Helen tivesse sofrido. Graças a Deus tinha os Defensores

da Humanidade do seu lado. Aqueles rapazes enormes e rudes pareciam saber

o que estavam fazendo, mesmo sendo um pouco… Exagerados a respeito disso.

Se alguém podia desprogramar Helen, esses seriam os Defensores.

Lexi virou as cadeiras em cima da mesa de modo que pudesse varrer e

passar o rodo. Justo quando acabou de virar a última cadeira sentiu o

formigamento na pele, na parte de trás de seu pescoço, ante a intensa

sensação de ser observada. Olhou por cima do ombro para ver quem estava

olhando para ela. A cabeça de Gus estava inclinada sobre uma calculadora. O

espelho detrás dele refletia a sala na penumbra. Captou o brilho dos claros

olhos verdes no espelho e congelou de pânico durante uma fração de segundo,

seu coração pulsando como se urgisse seus membros a se moverem. Então

percebeu que não era Zach. Eram só os olhos da tatuagem de leopardo em seu

ombro que a olhava fixamente por debaixo da borda de sua camiseta velha.

Zach ainda não estava ali. Ainda tinha tempo para fazer uma pausa.

O alívio a fez dobrar-se contra a mesa. Ia ter que encontrar uma

maneira para controlar-se antes que ele aparecesse realmente. E baseando-se

no formigamento de sua pele onde a marca dele brilhava sob a tatuagem, não

estava muito longe. Desta vez quando ele aparecesse, não fugiria.

Lexi passou a maior parte de sua vida fugindo, e estava cansada disso.

Queria um lar real com uma cama de verdade, não o assento de trás de seu

carro e uma parada no banheiro, ou talvez um quarto em um motel barato se

tivesse sorte. Se não podia ter uma casa de verdade, então o mínimo que podia

fazer era conseguir que os Sentinelas sofressem tanto quanto eles a fizeram

sofrer. Depois do que fizeram a sua mãe, Helen e a muitas outras, mereciam

tudo o que receberiam. E algo mais.

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Lexi se virou para pegar o rodo da cozinha e captou outra vez aqueles

olhos verdes de leopardo, só que desta vez, não estava olhando fixamente sua

tatuagem.

Zach estava ali. Contemplando-a.

Lexi congelou, incapaz de mover-se, ou mesmo respirar.

Não estava preparada. Ainda não estava forte o suficiente para

enfrentá-lo. A urgência de começar a correr aumentou nela, e lutou contra o

pânico desesperado, apertando os dentes e os punhos.

Zach não fez nenhum movimento para atacá-la. Em vez disso,

permaneceu na soleira da porta, com o ombro largo apoiado displicentemente

contra o batente da porta. Olhava-a com a misteriosa calma de um predador.

Sua pele bronzeada se misturava com as sombras que caíam sobre os painéis

da parede, fazendo que os brilhantes olhos se destacassem ainda mais.

O coração de Lexi vacilou, embora não tivesse certeza se era porque a

surpreendeu ou porque isso era tudo o que ele estava fazendo. Inclusive, em

seus sonhos, tinha a habilidade de fazê-la suar com seu olhar ardente.

Era maior do que ela se lembrava, ou talvez, tenha sido aquela

lembrança equivocada, a única maneira de sua mente ajudá-la a enfrentá-lo,

tornando-o menos ameaçador. Seus cabelos pretos e lisos estavam diferentes

do modo que estiveram na última vez que o viu — amarrados para trás, como

se estivesse preparado para entrar em uma batalha.

Talvez estivesse. Lexi não tinha nem ideia do que esperar agora. Por

tudo o que sabia, estava ali para matá-la apesar de suas palavras encantadoras,

e todos os planos que havia feito com os Defensores poderiam não servir para

nada.

Preciso de você, carinho. Disse a ela há dois dias. Disse isso de uma

forma que dissolveu sua resolução.

Tinha que permanecer calma e agir normalmente. Mover-se lentamente.

Ele era como animal selvagem e predador e ela tinha medo de que se ela se

movesse muito rápido, ele a atacaria repentinamente.

Lexi o olhou fixamente, deixando-o saber que o tinha visto. Fingindo que

não estava assustada.

Zach sorriu, mostrando seus brilhantes dentes brancos. Aquilo não era

um sorriso de saudação. Era um sorriso de conquista. Vitória.

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Lexi engoliu com dificuldade, tentando levar um pouco de umidade de

novo a sua boca.

— Gus, vou sair cedo. — disse a seu chefe, mantendo os olhos fixos em

Zach, procurando movimentos repentinos.

— Infernos que o fará. Não até que limpe o piso.

— Sinto muito. Tenho que ir. — disse. — Emergência familiar.

— Você não tem família alguma.

— Agora ela tem. — respondeu Zach.

Com seu belo tom de barítono afundando-se em sua pele, fazendo-a

tremer.

— Quem diabos é você? — perguntou Gus. — E como entrou aqui? As

portas estão fechadas.

Zach não respondeu. Em vez disso afastou-se da parede com um

poderoso agrupamento de músculos e caminhou diretamente para ela. Lexi se

manteve firme no chão à base de força de vontade. Não fugiria. Desta vez não.

— Relaxe. — disse Zach. — Agora está a salvo.

Seus olhos verdes ainda sustentando-a, cativando-a como se fosse

alguma espécie de presa, um tímido coelhinho congelado de medo. A imagem a

aborreceu o bastante para fazê-la deixar um pouco de lado esse medo.

Agora ele estava perto. Muito perto. A respiração de Lexi se tornou mais

rápida até o ponto de dar voltas em sua cabeça, e tinha certeza que ela

permanecia quieta.

— Precisa de ajuda, Alex? — Perguntou Gus.

— Alex? — perguntou Zach, elevando uma sobrancelha marrom como

que perguntando.

Lexi tentou dar um indiferente dar de ombros para ele, mas sua coluna

parecia rígida e enferrujada.

— Nova cidade, novo nome.

— E também um novo visual. — disse, seus olhos vagando por seu

corpo como se o território lhe pertencesse. — Eu gostei.

Ela tinha os cabelos loiros e arrepiados quando o conheceu. Depois

tornou a pintar os cabelos de volta a sua cor natural — um tom castanho médio

comum. Também os usava longos, caindo sobre a nuca, finos como os de um

bebê e completamente longos.

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— Você parece… Suave. — disse ele como se isso fosse algo bom, e Lexi

repentinamente desejou não ter tirado as pontas dos cabelos. Ao menos poderia

os usar para tirar um olho dele caso se aproximasse muito.

O que estava fazendo agora.

— Alex? — perguntou Gus novamente, desta vez com mais força. Tinha

uma arma na parte de trás do balcão e não tinha medo de utilizá-la. O típico

texano.

— Estou bem. — disse a Gus, mentindo através de seus dentes

cerrados. — É apenas um velho amigo.

O sorriso de Zach se alargou.

— Vim unicamente para recuperar os velhos tempos.

Estendeu a mão para ela, e Lexi sabia que não podia saltar para um

lado. Gus saberia que algo estava acontecendo, e embora Gus não fosse

exatamente o cara mais encantador sobre a superfície do planeta, tinha dado

um trabalho a ela quando ninguém mais o tinha feito. Não podia lhe pagar com

problemas. E Zach era definitivamente isso. Um problema andante e falante de

mais de um metro e oitenta e três de altura e noventa e dois quilos.

A longa mão rodeou seu pulso, e puxou-a para ele. Lexi foi,

assegurando-se que a arma de Gus se mantivesse segura em um lugar

afastado. Deixou Zach envolvê-la em seus braços. Não tinha certeza de que ele

ia fazer. Estrangulá-la? Agarrá-la e jogar seu traseiro pela porta? O céu sabia

que ele era grande o bastante para jogá-la em seu ombro e sair correndo antes

que qualquer um pudesse detê-lo.

Mas não fez nada disso. Tudo o que fez foi devorá-la em um abraço.

A mente de Lexi atrapalhou-se, tentando buscar sentido para sua ação.

Seus braços caíam curiosamente em seus flancos. Não podia nem mesmo

encontrar a presença de espírito para afastá-lo. Tentou convencer a si mesma

que isso era porque não queria que Gus saísse ferido, mas parte dela sabia

melhor. Tanto quanto temia o que Zach poderia fazer a ela, tanto quanto odiava

a ele e aos de sua espécie por arruinar sua vida e as vidas de muitas outras

pessoas, ainda havia algo nele que a atraía, algo que acalmava os desenfreados

cantos de sua alma. Talvez fosse apenas seu belo rosto ou seu corpo que lhe

dava água na boca. Ou talvez já tivesse lavando seu cérebro e não sabia. Era

assim que funcionava a lavagem cerebral, não é mesmo?

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Suas mãos vagaram por suas costas e desceram pelos braços nus. Sua

pele estava quente contra a dela, cheia de calos e completamente máscula.

Estava pressionada fortemente contra ele, consciente de cada devastadora

polegada dos músculos de seu peito, abdômen e coxas. Suas mãos formigavam

para esticar-se e ver se seria tão bom senti-lo sob seus dedos quanto era senti-

lo contra seu corpo, mas se conteve.

Ele era seu inimigo. Lexi não podia esquecer isso. O problema era, que

nesse momento era fácil se esquecer disso. Não conseguia se lembrar da última

vez que foi abraçada, mas tinha certeza que não tinha sido nada parecido a isto.

Sua essência a envolveu, deslizando dentro dela a cada respiração que

tomava. Sentiu seu corpo relaxar e soube que isto devia ser algum tipo de

truque que os Sentinela utilizavam para subjugar sua presa. Uma arma química.

Uma que funcionava igual a um encantamento.

Contra seu melhor julgamento, sua face descansou sobre o peito dele e

pôde ouvir o forte e constante batimento de seu coração. O brilhante colar que

ele usava pulsava colorido, redemoinhando em um compasso quase hipnótico.

Os braços eram fortes e duras faixas que a sustentavam no lugar, prendendo-a

contra ele, mas não estava machucando-a, como tinha temido. De fato era

justamente o oposto. Podia sentir uma sutil vibração correndo através de seus

membros, como se ele estivesse tendo cuidado para não amassá-la.

Lexi recuou, esperando pôr fim ao abraço, mas Zach não a deixou ir.

Seu aperto era desesperado. Inquebrável.

Enterrou o nariz em seus cabelos e respirou profundamente.

— Está bem. — sussurrou como se tivesse se preocupado com ela. —

Não cheguei muito tarde.

Aquelas não eram as palavras de um assassino lunático, mas Lexi tinha

um melhor critério para ser enganada.

— Helen também está bem? — perguntou a ele.

Zach se afastou então, apenas o suficiente para baixar seus olhos para

ela.

— Está bem. Feliz. Como você ficará, quando eu a levar para casa.

Meu Deus, estava virtualmente admitindo que ia lavar seu cérebro. Não

podia deixar que isso acontecesse. Helen precisava dela.

— Diga-me o que aconteceu. — disse Zach. — Quando a ligação foi

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cortada a semana passada. Tive certeza que estava morta, certeza que

chegaria muito tarde.

Lexi rogou que não pudesse ver o rubor de culpa que podia sentir

espalhando-se por seu rosto. Aquela ligação telefônica da semana anterior tinha

sido totalmente uma fraude, planejada pelos Defensores para fazer Zach vir

correndo. Fingiu estar em apuros, pedindo ajuda. Sua voz aterrorizada, as

batidas na porta de seu quarto no motel, a maneira que ela cortou a ligação.

Tinha sido tudo uma mentira cuidadosamente planejada para atrair Zach para

ela.

E isso funcionou igual a um encantamento.

Passou as mãos ao longo de seus braços como se verificando se

estavam feridos, ou talvez tentando se convencer que ela estava bem.

Não sabia o que fazer com ele, e isto a deixou totalmente confusa.

— Atacaram você? Está ferida? — ele perguntou.

Lexi sabia que ele faria perguntas, e tinha ensaiado a mentira uma e

outra vez, mas com suas mãos correndo sobre ela, tão cálidas e carinhosas,

dificilmente podia recordar a linha.

— Não. Eu estava em um quarto barato de motel. Era só um bêbado

procurando sua namorada. Não deveria ter ligado e incomodado você, mas

estava assustada.

Os olhos de Zach se abriram com alivio por um breve momento, e viu

como movia a boca como se oferecesse uma silenciosa prece de

agradecimento.

— Desculpem-me. — disse Gus. — Odeio interromper sua pequena

reunião, mas este chão não vai se limpar sozinho.

— Sinto muito, senhor. — disse Zach. — Mas os dias de Lexi — Alex —

passar o rodo terminaram. Ela vai para casa comigo.

Gus entrecerrou os olhos com suspeita.

— Isso é verdade? — perguntou a ela. — Vai com este cara?

Melhor sair dali rápido antes que alguém pudesse sair ferido. Quanto

mais adiasse o inevitável, pior seria.

— Sim, Gus. Vou com ele.

— Você estava fugindo de algo. — disse Gus. — Era dele?

— Não. — mentiu. — Ficarei bem.

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Zach ainda não a tinha soltado. Sua mão estava estendida cruzando a

parte inferior de suas costas, sustentando-a perto de seu calor. Baixou os olhos

para ela e seus felinos olhos verdes virtualmente brilharam de antecipação.

— Hora de ir, carinho.

Carinho. Sempre a chamava assim, como se ele se importasse com ela.

Como se não estivesse planejando lavar seu cérebro e matá-la por seu sangue.

Então novamente, Lexi imaginou a mudança radical no jogo. Sua

caminhonete estava equipada com explosivos, graças ao plano dos Defensores.

Quando Zack a levasse de volta à comunidade onde vivia, e tirasse Helen, ia

detonar todo o C-4 e matar todos os Sentinelas que pudesse. Incluindo Zach.

CAPÍTULO 2

Lexi estava a salvo. Zach mal podia acreditar nisso, mesmo ela estando

ali, bem na frente dele, tão bonita que fazia seus olhos arderem. Quase tinha

paralisado de alívio quando chegou à entrada do bar e a viu sã e salva. A

esquadria da porta impediu que caísse, e permaneceu ali durante um minuto

completo, apenas observando-a mover-se, aliviando-se ao vê-la inteira e a

salvo. Qualquer que fosse o apuro em que esteve, o que quer que tivesse

ouvido na semana passada por telefone, não a tinha machucado.

Ele a tinha encontrado a tempo.

Zach levou outro minuto completo para estabilizar sua respiração e

conseguir o controle suficiente sobre suas emoções para sequer pensar em

aproximar-se dela. Não podia estragar tudo agora. Não podia assustá-la e fazê-

la fugir. Outra vez não.

Quando teve certeza que não a machucaria com seu desespero por tê-

la em seus braços, finalmente se permitiu ir para ela. E agora estava ali,

pressionada contra ele, exatamente aonde pertencia.

Ele acariciou seus braços, tentando afastar os calafrios que percorriam

sua pele. Não tinha certeza se esses calafrios vinham do frio ou do medo, mas

de qualquer maneira, ia se encarregar disso por ela. Qualquer coisa que ela

quisesse, qualquer coisa que precisasse, tudo que estivesse em seu poder para

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lhe dar seria dela.

Era bom senti-la sob suas mãos. Talvez demasiadamente bom. Seus

dedos se fecharam ao redor de seus braços magros e teve que recordar a si

mesmo ser cuidadoso. Ir lentamente. Não assustá-la de modo que fugisse outra

vez.

Zach tinha planejado este momento durante semanas — todos os dias

desde que a conheceu em 27 de junho, um dia que sempre celebraria como o

começo de sua salvação. Tinha pensado em seu reencontro uma e outra vez —

um milhão de diferentes situações encheu seu cérebro até que se afogou com

as possibilidades. Em todas elas, ela tinha permanecido ao seu lado porque isso

era o que ele queria.

Baseando-se na maneira que ela se mantinha imóvel em seus braços,

aparentemente, a realidade não ia ser tão fácil.

Ele a tinha perdido uma vez. Ela tinha fugido. A marca de sangue que

ele deixou não tinha funcionado corretamente e não tinha podido encontrá-la.

Embora se pensasse que isso era impossível, ela tinha conseguido encontrar

uma maneira de esconder-se dele. Isso podia acontecer outra vez se não

tomasse cuidado.

Zach planejava ser muito cuidadoso.

— Comprei algo para você. — disse a ela.

Ele remexeu em seu bolso traseiro e tirou uma pequena bolsa

aveludada. Demorou algum tempo para conseguir para abrir a coisa com

apenas uma mão, mas não ia deixá-la sair de sua outra mão. Se dependesse

dele, nunca deixaria de tocá-la outra vez.

Tirou uma delicada corrente de ouro da bolsinha e a balançou na frente

dela. As luzes de néon do bar cintilaram nos elos, dando-lhes um tom brilhante.

— O que é isso? — perguntou ela.

— Um presente. Para você.

Um que podia garantir a ele que não a perderia de novo.

— Não posso aceitá-lo. — disse Lexi.

Seus olhos escuros se fecharam sobre a coisa como se fosse uma

serpente venenosa.

— Claro que pode. Foi feita só para você. Não quer ferir meus

sentimentos, não é mesmo?

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Ela levantou o queixo e o olhou. Aqueles agridoces olhos chocolate

estavam cheios de perguntas e mais que um pouco apreensivos, mas Zach se

ocuparia disso muito em breve. Tudo o que precisava era um pouco de tempo a

sós com ela para lhe explicar e tudo ficaria bem.

Tinha que ficar. Zach já estava quase fora de tempo.

— Por favor, Lexi. Apenas me deixe colocá-lo em você. Se você não

gostar, obterei outra coisa.

Ela olhou novamente para o bracelete, lambendo os lábios e os

puxando em uma forte respiração. Seu peito vibrou com silencioso temor.

Ela estava com medo.

Zach lutou ante a urgência agasalhá-la em seus braços outra vez e

sustentá-la até que se acostumasse a ele e soubesse que nunca a machucaria.

Infelizmente, essa não era a forma que as coisas funcionavam. Ela necessitava

de tempo. Necessitava que demonstrasse a ela que não só não a feriria, mas

também mataria a qualquer um ou qualquer coisa que o tentasse.

Se as coisas funcionassem, teria uma vida para lhe mostrar o que ela

significava para ele. Várias, de fato.

A dor atormentava seu corpo, e a necessidade de proclamar sua

reclamação gritava que ele agisse, mas se conteve. Ainda tinha mais alguns

dias — os suficientes para fazer isso corretamente. Já tinha vivido com a dor

durante décadas, podia viver com isso mais alguns dias. Lexi merecia isso.

Lentamente, ela estendeu seu braço. Seus braços tremiam, mas Zach

fingiu não notar. Ela era uma mulher pequena — de apenas um metro e meio de

altura — mas sua independência era tudo menos pequena. Lexi era uma

lutadora, e ele ainda tinha cicatrizes que provavam isso.

Todas as vezes que via a pequena cicatriz do ferimento em seu braço, o

fazia sorrir. Quando a acalmasse e mostrasse a ela como usar seu poder, ia ser

incansável. Uma feroz mulher guerreira. Lexi, A Vingadora. Material para as

lendas.

Zach segurou o bracelete ao redor de seu pulso, adorando a sensação

de sua pele acetinada roçando contra as pontas de seus dedos. Tinha ossos

delicados, embora nunca se atrevesse a dizer isso em sua cara por medo de

mais cicatrizes.

Fez que o joalheiro a fizesse duas vezes de modo que se ajustasse a ela

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perfeitamente. E ele o tinha feito. Estava bastante folgada para ser confortável,

mas não pendurava para que a tirasse dessa maneira. Mais importante ainda,

não era bastante folgada para que deslizasse de sua mão.

Fingiu ajustá-la, puxando as duas extremidades que se conectavam

enquanto extraía pequenas gotas de poder do ar que os rodeava. Doía como o

inferno absorver mais energia, mas não tinha escolha. Precisava ativar a magia

que Gilda tinha imbuído no bracelete — a magia que tornaria impossível Lexi

fugir dele.

Com um clique sutil, sentiu o poder que dormia dentro das

extremidades de ouro ganhado vida, enviando uma cascata de brilhos subindo

por seu braço e descendo por sua coluna.

Assim como também o fez Lexi.

Seus olhos escuros se abriram desmesuradamente e lutou contra ele,

tentando se afastar.

— O que está fazendo comigo? — exigiu.

O barman elevou os olhos de sua correspondência. Seu rosto duro e

sombrio e seu corpo esticando-se. Estava procurando a arma detrás do balcão.

— É hora de ir, carinho. — disse Zach.

Pegou-a pelo pulso e puxo-a para a porta.

— Fique onde está. — disse o barman. — Ela não vai a nenhum lugar

com você a menos que seja isso o que ela queira.

— Mantenha-se fora disto, Gus. — disse Lexi. — Só conseguirá que o

machuque.

— Eu o ensinarei o que é ferir.

O homem moveu a escopeta em suas mãos, parecendo tão confortável

com aquela coisa que provavelmente dormia com ela à noite. Não era um bom

sinal. Um disparo a queima-roupa doía como o diabo, e um tiro pelas costas

poderia arrancar seu braço ou pior. Zach não podia dar-se ao luxo de ficar

incapacitado agora. Especialmente quando isso queria dizer que seu sangue

seria derramado, o aroma atrairia todos os demônios Synestryn a milhas em

volta, deixando Lexi desprotegida.

Isso não ia acontecer.

Moveu Lexi para trás dele e levantou as mãos.

— Calma, agora. — disse ele. — Eu não vou machucá-la.

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— Alex, volte aqui. — ordenou Gus.

— Estou bem. — disse Lexi. — Realmente. Ficarei bem.

— Basta ligarmos para o xerife e deixarmos que ele resolva isto. —

disse Gus. — Nós nos certificaremos aqui que, seu galã, não tem nenhuma

história desagradável.

Envolver a polícia humana só ia tornar as coisas mais sujas. E,

certamente, ele não tinha tempo para sentar-se na prisão enquanto as folhas de

sua marca de vida murchavam e morriam.

— Estamos com um pouquinho de pressa. — disse Zach.

Gus se esticou para o telefone, nenhuma só vez afastou os olhos de

Zach.

— Sinto ouvir isso.

— Não faça isso, Gus. — disse Lexi. — Apenas deixe-o ir.

— Ele é um cara enorme, Alex. Eu não gosto da ideia de você ficar

sozinha com ele.

— Eu não vou machucá-la. — disse Zach através dos dentes cerrados.

— Morreria antes de deixar que algo acontecesse com ela.

— Eu quero ficar a sós com ele. — a empática1 declaração de Lexi fez o

coração de Zach cantar.

Não tinha certeza se era isso que ela queria dizer ou se estava agindo

por causa de Gus, mas de qualquer forma, era válido para ele.

— Tem certeza? — perguntou Gus.

Lexi deu um duro empurrão em Zach, afastando-o para um lado, de

modo que pudesse passar para frente dele. Zach mal manteve as mãos para si

mesmo. Então viu a tatuagem de um leopardo sobre o ombro dela e se acalmou

instantaneamente pela surpresa. Cipós e folhas estilizadas começavam no

ponto onde ele tinha colocado sua marca de sangue em seu bíceps direito e

subia por seu braço e sobre seu ombro. O leopardo observava fixamente da

folhagem, olhando diretamente para ele por debaixo da alça de sua camiseta.

Zach tinha visto seu reflexo no espelho vezes suficiente para

reconhecer seus próprios olhos quando os via.

Era estranho vê-los no crânio de um animal — igual a algum valente

tipo de caçador. O que era mais estranho ainda era o fato de Lexi marcar-se

1 Empática – que se identifica totalmente com a do outro.

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permanentemente com uma imagem que lembrava a ele. A última vez que a

viu, ela tentou matá-lo.

Gostava de pensar que as poucas conversas que tiveram por telefone,

desde então, a convenceram a abandonar seus impulsos violentos, mas tinha

certeza de não ter sido tão doce falando com ela para algo como isso.

— Tenho certeza, Gus. — disse Lexi. — Apenas nos deixe ir em paz. Não

o incomodaremos mais.

Agora era ela quem falava. Queria beijá-la por desarmar a situação

antes que as coisas pudessem estender-se e complicar ainda mais.

Infernos, queria beijá-la, constantemente.

Infelizmente, isso teria que esperar até que a tirasse dali. Ao menos,

até que a tivesse em sua caminhonete.

— Tem meu número de telefone? — perguntou Gus a Lexi.

— Sim.

— Use-o. Ligue se precisar de mim. Estarei aqui à noite toda.

— Obrigado, Gus. Desculpe-me pelo piso. Fique com o que me deve.

Os olhos de Gus se entrecerraram e olhou com cenho franzindo para

Zach.

— Você fala como se não fosse voltar.

Lexi olhou para Zach e houve uma profunda tristeza sombreando seus

olhos. Queria afastá-la, destruí-la de modo que não pudesse voltar a espreitá-la

nunca mais. O problema era que estava convencido de que a maior parte

daquela tristeza era de algum jeito sua culpa.

— Eu não vou. Adeus. — disse Lexi, então levou Zach através da porta

entrando na noite.

O ar noturno era quente e espesso, e encheu os pulmões de Zach com

o aroma da terra e do asfalto. Duas luzes velhas se elevavam sobre sua cabeça

desenhando uma nuvem de insetos e iluminando o estacionamento deteriorado

o suficiente para destruir sua visão noturna e criar profundos poços de sombra

ao redor dos poucos carros que restavam.

Lexi se dirigiu para seu Honda e Zach se apressou em seus

calcanhares. Não tinha esquecido o bonito traseiro que ela tinha, ou como sua

boca enchia de água com a necessidade de sentir suas mãos cobrindo suas

bochechas enquanto a beijava até deixá-la sem sentidos. Mesmo odiando,

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arrancou os olhos de tão encantadora visão e fez uma varredura da área e dos

arredores em busca de Synestryn. Não ia deixar que um só daqueles

asquerosos os pegassem de surpresa e estragassem sua chance de satisfazer

cada uma de suas fantasias com Lexi.

E depois de tantas semanas, tinha um montão delas. Agora tudo o que

tinha que fazer era conseguir que ela concordasse com seus planos.

— Não vou subir no carro com você. — anunciou ela caminhado para

seu carro.

Ela não sabia que o bracelete que usava agora impediria que se

afastasse mais que poucos metros dele, mas não acreditava que fosse

diplomático dizer isso a ela ainda. Se tentasse fugir, saberia. E se tentasse fugir,

merecia descobrir da maneira difícil.

— Por que não? — perguntou a ela.

— Não confio em você.

Suas palavras o feriram, mas ignorou a dor. Estava acostumado.

— Por que não?

— Você sabe por quê.

Zach segurou seu braço e puxou-a gentilmente para que parasse.

— Não. Não sei.

Ela ficou olhando-o durante um longo tempo. Com raiva apertava a

boca, fazendo que ele quisesse beijá-la para afastá-la.

Enfiou um dedo em seu peito. Com força.

— Marcou-me e me perseguiu por todo país, tornando quase impossível

para mim ficar em um único lugar tempo suficiente para encontrar um trabalho.

Tem ideia de quanto custa o combustível? Tive que gastar quase tudo o que

possuía para manter meu carro em movimento para que você não pudesse me

pegar.

Pensar nela sofrendo dessa maneira o adoeceu. Essa não era sua

intenção. Ela fugiu; ele a seguiu. Como não ia segui-la quando necessitava tanto

dela?

— Por que fugiu?

Essa era uma pergunta que esteve morrendo de vontade de fazer. Por

que estava com tanto medo dele? Nunca a tinha machucado.

— Por que fugi? Fala sério?

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Fugindo do Medo

Guerra dos Sentinelas-03

Zach assentiu.

— Sequestrou Helen. E a Senhorita Mabel. Não queria ser a seguinte.

— Sequestrar? — bom, pensando bem, Zach imaginou que

provavelmente pareceu isso. — Drake necessitava Helen. E não podíamos

deixar a Senhorita Mabel para trás para que se arrumasse sozinha uma vez que

os Synestryn apareceram.

— Eles apareceram por sua culpa. — disse ela, apontando outra vez

para ele.

Neste ritmo, ia feri-lo.

— Bem, sim, mas não é como se pudesse evitar isso.

Ela revirou os olhos e colocou a mão no bolso de seu avental para

pegar as chaves.

— O que seja. Só me diga aonde vamos e o seguirei.

— Isso não vai funcionar

— Estou doente e cansada de fugir, Zach. Acabou. Você ganhou.

Rendo-me.

Ele foi até ela, querendo aliviar a dor que via nas linhas de seu rosto. A

fadiga. Na penumbra do bar, não foi capaz de ver o quanto parecia cansada,

mas agora o fazia. Tinha círculos escuros debaixo dos olhos e estavam

vermelhos, como se ela não tivesse dormido há dias.

Zach sabia como ela se sentia. Ele nem sequer podia recordar a última

vez que tinha dormido. Esteve muito ocupado procurando Lexi desde aquela

aterrorizante chamada telefônica.

Antes que pudesse tocá-la, ela se afastou e deu um grande passo para

trás, batendo em seu carro.

— Pegue o quiser trazer com você e o porei em meu carro. — disse ele.

— Não. Eu conduzirei.

Zach não ia lutar com ela. Agora eles eram uma equipe — ou ao menos

seriam quando ficasse a sós com Lexi e explicasse tudo. Certamente ela não se

negaria a ele. Necessitava muito dela inclusive para considerar essa

possibilidade.

— Seu carro parece preste a se despedaçar.

Ela baixou a cabeça e olhou fixamente para o asfalto rachado.

— É minha casa. — sussurrou ela.

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Guerra dos Sentinelas-03

Zach olhou para dentro da janela escura e viu um travesseiro e lençóis.

Aninhado na janela de trás estava um esfarrapado urso de pelúcia ao qual

faltava um olho. Grudadas na parte de trás do assento do passageiro havia

meia dúzia de fotos de uma mulher que Zach supôs ser sua mãe. Lexi estava

em alguma delas, jovem e sorridente. Sua mãe não estava sorrindo em

nenhuma das fotos.

Ela havia dito isso literalmente. Vivia em seu carro.

O coração de Zach se partiu. Há quanto tempo estava vivendo dessa

maneira? E quanto disso era sua culpa por não tê-la encontrado antes?

Não havia lugar para que ela se afastasse dele agora com o carro a

suas costas. Ele poderia tê-la abraçado e dado consolo, mas se preocupou que

isto só ferisse seu orgulho. Assim, fingiu que não se importava e disse:

— Tudo bem. Você conduz. Eu irei com você.

Seu coração disparou e lhe dedicou um cético cenho franzido.

— Fará isso?

Zach deu de ombros.

— Claro. Não me importo. Não me matará deixar meu carro aqui por

uma noite.

CAPÍTULO 3

O carro de Lexi não quis dar a partida. Usou cada truque que conhecia e

nenhum funcionou. Doze anos e quase duzentas mil milhas2 e aquela era a

primeira vez que seu confiável Honda tinha falhado quando mais precisava dele.

Talvez a coisa soubesse que estava planejando explodi-lo.

Lexi apertou a palma da mão contra o volante e deixou escapar um

grunhido frustrado.

— Tudo bem, carinho. — disse Zach, sua profunda voz constante e

calma. Estendeu a mão sobre o assento do copiloto e apertou seu ombro,

acariciando-a com quentes e suaves círculos sobre sua nua pele. — Procurarei

alguém que o reboque de volta a casa. Tenho um amigo que sabe como

arrumar toda maldita coisa. Você o terá em pé e ronronando outra vez em

2 Aproximadamente 321.868,80 quilômetros.

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Fugindo do Medo

Guerra dos Sentinelas-03

pouco tempo. Você vai ver.

Ele estava tentando fazê-la se sentir melhor. Por que estava sendo tão

amável quando ela estava planejando matá-lo eventualmente? Isso não tinha

nenhum sentido e fazia Lexi querer gritar.

— Não deixarei meu carro. — teimou ela.

— Ele ficará bem. Não se preocupe.

Lexi tinha muito C-4 no carro para não se preocupar. Repetiu, desta vez

mais enfática.

— Não vou deixar meu carro.

— Bem, não está se movendo e eu não vou deixar você dormir nele.

Não é seguro.

Girou a cabeça de repente e o fulminou com os olhos, agradecendo

uma razão para estar zangada — para expressar um pouco de sua frustração e

medo para ele.

— Não vai me dizer o que tenho que fazer. Dormirei em meu carro se

me der vontade e não há nada que possa fazer para me deter.

Zach deixou escapar um resignado suspiro e assentiu mais uma vez.

— Posso ver que não vai facilitar as coisas, certo?

Lexi o fulminou com os olhos.

— Certo, tudo bem. Façamos da sua maneira. Não posso dizer

exatamente que esteja surpreso.

Ele saiu do carro e foi direto para um pequeno carro escuro estacionado

a poucos metros deles.

Quando estava a uns três metros, Lexi começou a inquietar-se. Sentia-

se agitada e nervosa. Queria sair dali e ir atrás dele, embora não tivesse ideia

do por quê. Talvez fosse seu senso de dever que a instigava — se ela não fosse

com ele, não poderia conduzi-la ao complexo dos Sentinelas. Nunca encontraria

Helen para resgatá-la.

No momento em que ele ficou a uns seis metros de distância, ela sentiu

como se seu interior estivesse coberto de picadas de mosquitos e estava sendo

difícil respirar. Coçava em todos os lugares, mas não podia imaginar onde coçar

para fazer parar. Seus olhos continuaram seguindo Zach e suas longas e

poderosa passadas.

Tinha que segui-lo. Manter-se perto.

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Guerra dos Sentinelas-03

Aos nove metros, Lexi parou de se preocupar sobre por que precisava ir

até ele e simplesmente foi. Saltou para fora do carro e pegou sua mala no piso

do assento de trás. Cada passo que dava para ele afastava com facilidade um

pouco do desassossego que ardia em seu interior.

Olhou para o bracelete de ouro que resplandecia sobre seu pulso e

franziu o cenho. Ele tinha feito outra vez. Tinha marcado-a, só que desta vez,

não havia como cobrir com uma tatuagem para mascarar seu poder, da

maneira que sua mãe sempre a ensinou a fazer.

Lexi tentou tirar a coisa, mas não conseguia abri-lo — como se tivesse

sido soldado. Puxou-o, mas tudo o que conseguiu foi arranhar a pele. Maldição!

Zach esperava em seu carro, sustentando a porta de passageiros

aberta para ela. Ele sabia que isso aconteceria. Podia ver a satisfação brilhando

em seus olhos.

— Fez algo comigo, não é mesmo? — exigiu ela.

— Não me deu outra opção.

— Podia ter parado de me perseguir.

Seus dedos fortes tiraram a mala da mão dela e a colocou no piso da

caminhonete. Quando ele se inclinou mais, ela captou o aroma de sua pele,

quente pelo ar noturno. Tinha um cheiro picante e completamente delicioso.

Sua cabeça deu voltas e ela resistiu ao impulso de segurar em seus enormes

ombros para estabilizar-se.

— Não. Não podia fazer isso. — disse ele.

— Mentiroso. — disparou ela de volta.

Isso foi um grande erro.

Zach se virou e pegou-a pela cintura. Elevou-a sobre o assento alto e

não a deixou sair. Ele manteve seu domínio sobre ela, suas enormes mãos

quase envolvendo sua cintura. Seus dedos curvados em sua pele e seus olhos

verdes brilhando com raiva e algo que ela não podia nomear. Algo sombrio e

desesperado.

— Preciso de você, Lexi. E não estou querendo dizer no sentido de

precisar de você para não ficar sozinho ou alguma merda como essa. Preciso de

você para viver. Preciso que me ajude a manter o restante de minha gente com

vida. Estou ficando sem tempo, e você é a única que pode me salvar de

converter-me em um monstro. Não vou dar nenhuma chance para você se

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Fugindo do Medo

Guerra dos Sentinelas-03

afastar de novo, mesmo que isso signifique encadear você a mim.

Caramba. Certo. Não estava preparada para aquele tipo de confissão.

Nem estava preparada para a maneira que a fazia sentir-se… Importante.

Necessária. Não tinha família e poucos amigos, e sempre se assegurou de

desaparecer sem que ninguém notasse realmente. Talvez estivesse equivocada.

Então, outra vez, talvez aquela fosse a forma que os Sentinelas

pegavam suas vítimas, dizendo a elas o que queriam ouvir.

Lexi endireitou a coluna e reforçou sua resolução de permanecer imune

aos seus encantos. Levantou o pulso e a dourada conexão brilhou sob a luz de

segurança.

— Já me encadeou.

Sua boca se elevou em um leve sorriso cheio de desejo explícito.

— Nem de perto tão estreitamente como quero fazê-lo. Estou tentando

dar tempo para você se acostumar à ideia, mas que fique bem claro. Planejo

fazê-la minha. Planejo amarrá-la a mim tão perto quanto uma mulher pode

estar. Não estou brincando e não aceitarei um “não” como resposta.

— Escravidão. Mamãe tinha razão sobre vocês. Escravizam humanas e

as obrigam a fazer sua vontade.

Ele deu uma risada rouca.

— Dificilmente. Você esteve escutando muitas histórias na hora de

dormir.

— Sei o que é, Zach. Não pode me enganar.

Ele deslizou as mãos ao longo de sua coluna e se inclinou mais perto.

Rodeou-a com seu calor e sua força, e pela primeira vez em muito tempo, ela se

sentiu a salvo. E totalmente confusa.

Sua boca estava nivelada com a dela e ela não pôde deixar de notar o

quanto parecia suave. Aquela louca parte sua, a que ele já devia ter feito uma

lavagem cerebral, queria que a beijasse. A parte sã estava gritando que fugisse

antes que fosse muito tarde.

— O que pensa que sou, carinho? — perguntou a ela.

— Um assassino.

Que a fazia sentir-se a salvo, embora soubesse que isso era apenas um

truque.

— Isso é bastante correto. — admitiu. — Mas tento ser seletivo sobre as

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coisas que mato.

— Está me dizendo que só mata humanos maus?

— Nunca. Nunca feriria de propósito um humano, Lexi. Não enquanto

permanecer sendo eu mesmo.

Ela não tinha certeza do que ele queria dizer com isso, e estava muito

distraída pela sensação de seus dedos quentes acariciando sua nuca para

imaginar. Cada vez que a tocava, era tão bom. Se não tomasse cuidado, ia

perder-se. Esquecer sua missão.

Tinha que levar seu carro para o complexo onde ele vivia. Não se

atrevia a pegar os explosivos de seu carro por medo que ele imaginasse o que

eram e arruinasse seus planos.

— Permanecer sendo você mesmo? O quê, você é como Jekyll e Hyde3

ou algo assim?

Ele ficou olhando para sua boca e lambeu os lábios. Tinha certeza que

estava pensando em beijá-la. E Deus a ajudasse, agora ela também estava

pensando nisso.

— Algo parecido com isso. — disse ele. — É hora de ir. Não é seguro

ficar aqui fora em plena vista. Sinto como se estivessem nos observando.

Os Defensores. Quase tinha se esquecido deles. Provavelmente

estavam vigiando-os agora, certificando-se que ela havia dito o previsto.

Certificando-se que não teriam que matá-la também. Eles a advertiram sobre o

que aconteceria se ela se virasse contra eles… Se os Sentinelas também

lavassem seu cérebro.

— Aonde vamos? — perguntou ela.

— Para um lugar seguro. Onde possamos ficar a sós.

A sós com Zach. A sós com sua beijável boca e seu corpo sexy. A sós

com sua causal força e mentiras tentadoras.

Lexi estava bem fodida.

3 O estranho caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde. Em Jekyll, há I kill (eu mato, em inglês). Esta

tendência humana pecaminosa estaria oculta por Jekyll e viria a manifestar-se em Hyde ( hidden

— oculto em inglês). Quando Hyde surge, atos como o de assassinar surgem também. O

protagonista deve lidar com os seus dois "eus": um inclinado para o bem (Jekyll), e outro para o mal (Hyde). Hyde sofre por ser reprimido por normas de conduta baseadas em ética e moral, princípios e valores, aceitos por Jekyll; já Jekyll sofre pelo remorso de ter praticado o mal, ação

de Hyde. Logo, existe uma dualidade na pessoa: uma propensa ao bem e outra ao mal. O ideal

seria que cada uma das partes da alma fosse independente uma da outra.

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Jake Morrow observou Lexi afastar-se com o Sentinela, deixando seu

carro e todos os explosivos cuidadosamente preparados para trás. Seu pai não

ia ficar feliz.

Jake se retesou enquanto esperava o explosivo temperamento de seu

pai. Depois de quase trinta anos de vigilância, aprendendo quando se esquivar

dos golpes, Jake sabia que este não demoraria a chegar.

Héctor Morrow contemplou os homens reunidos na pequena casa do

outro lado da rua do bar onde Lexi estava trabalhando. Suas sobrancelhas