Gardênia por Salomão Rovedo - Versão HTML

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Salomão Rovedo

G A R D E N I A

(Romance)

Rio de Janeiro

2006

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Salomão Rovedo

G A R D E N I A

(Romance)

“Em qualquer lugar bate um relógio. Este, porém, não urge nesse tempo que

foge. As horas aqui passam de outro modo. Ali há livros que andaram muitos

séculos antes que suas palavras chegassem aos nossos lábios. Ali estão outros,

jovens, nascidos ontem, gerados na confusão e necessidade de moços imberbes:

falam, porém, uma língua mágica. E uns e outros agitam e aceleram a nossa

respiração. Se nos irritam, também nos consolam; se nos enganam, acalmam ao

mesmo tempo nossos sentidos abertos. E à medida que mergulhamos neles

encontramos em sua melodia, calma e contemplação, abandonado enlevo, um

mundo do outro lado do mundo.”

Stefan Zweig

Capa:

Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses

Barreirinha, MA

Foto © de Marília Boabaid

1ª edição, janeiro 2005

(com o título Ventre das Águas)

2ª edição, novembro 2006

Edição do Autor

Editado no M S Word 2003

Publicado no Adobe (pdf)

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Capítulo 1

Sementeira de lembranças

―É preciso amar as pessoas como se não houvesse

amanhã

Porque se você parar pra pensar, na verdade não há.

Me diz por que é que o céu é azul

Me explica a grande fúria do mundo.

É preciso amar as pessoas como se não houvesse

amanhã

Porque se você parar pra pensar, na verdade não há.‖

Dado Vila-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá

Em tudo, em tudo, em tudo e em todos os cantos exala o cheiro peculiar

de Gardênia. Até mesmo nos altares sagrados da natureza, na quebrada das

ondas, nas areias das praias, mesmo na distância, mesmo nos mares, persiste

o sentimento perene do odor. Aroma, perfume, fragrância, essência, olor,

cabelos, lábios, olhos, nariz, seios, umbigo, em tudo, em tudo, em tudo exala o

cheiro dela. Na distância, na dormência, na constância, até mesmo as coxas e

sobre o sexo, nas nádegas e entre os vales, sobrevive a percepção eterna do

seu frescor.

As luzes inexistentes, o cheiro de maresia, fingem demonstrar ao

navegante que é um regaço tranqüilo. Uma baía formada pelas ondas

traiçoeiras, mas acolhedoras do delta das coxas de Gardênia. O corpo de

Gardênia reluzia à noite entre os lençóis verdes das ondas do mar. O som era

o mar. O odor era a vasa. O ritmo de vai-e-vem eram as ondas que vinham

cintilando parir espuma na areia. E enquanto as nuvens cinzentas sobrevoaram

a praia, tudo era morno e gris. E nenhum dos dois sentiu vontade de saber do

sol aparecer para tirá-los daquele calor.

O cheiro de amêndoa doce guiava o caminhante para a presa favorita. E

qual animal noturno farejava os poros doces e dali tirava sustento para mais

um dia. Nada de pressa, nada de prisão, nada de dominação, a não ser aquela

que liberta e dá asas para voar, como as águias de caça, que vão e vêm

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ensinadas por seus mestres-caçadores. O cheiro de amêndoa doce traduzia

aos amantes a ternura e o contentamento.

Gardênia transformou Aníbal num artista. Antes de ser o agressor era o

agredido, antes de ser o senhor era o escravo, antes de ser o mestre era o

aprendiz. E nessa contínua guerra de carinhos sobreviviam as carícias

espontâneas indicando ao caminhante o caminho do gozo e do prazer.

Transportavam a imaginação pelos caminhos perigosos da aventura

desconhecida, do prazer equilibrado na lâmina da navalha. Resolveram que

seria a vida, não a morte. Que os desconhecidos sequer mereciam saber o

endereço daquele amor. Sem consultar nenhuma cigana soube escrever uma

nova história valente, cuja coragem era o não confronto, cuja luta era o recuar

e por isso a tornava diferente de todas.

Sempre farol, nunca escuridão. O cheiro de amêndoa doce tirava o

apetite pelas coisas banais e frívolas como um raro pôr-do-sol qualquer,

mesmo que o sol fosse um sol dourado de Van Gogh sobre um vale de

girassóis. E a maré vinha e a maré voltava, surfistas flutuando sobre as ondas

em busca daquela que fosse a melhor, para lançar-se para cima e para o alto –

e com ela alcançar as manobras radicais e o êxtase para o qual está preparado

espiritualmente.

O supremo prazer aqui é trazido pelo cheiro de amêndoa doce mesclado

ao suor dos corpos laçados. Aí os corpos de ambos reluziam e tornavam a

negrura do quarto mais visível, como se um repentino luar varasse as cortinas

e banhasse com sua luz difusa os surfistas que não precisavam de pranchas,

não careciam de água, não flutuavam sobre ondas verdes nem voavam no

sonho de campeonato mundiais.

E, no entanto, múltiplos, eram tudo isso por conta do cheiro de amêndoa

doce que impregnava todo o ambiente com a mesmíssima intensidade

estonteante de gozo e prazer das tendas de fumadores de haxixe, dos

consumidores de cocaína, dos bebedores de êxtase nos bares noturnos da

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cidade. Tinha nos lábios o prazer do cigarro de maconha, de cravo e canela

fabricados na Indonésia.

E quando o tempo se esqueceu de tudo e se esqueceu até de passar,

quando as radiolas de reggae calaram os decibéis, quando os tonéis e vidros

de óleo de amêndoa doce esgotaram seus mananciais, quando até mesmo as

odaliscas deixaram de colear a dança do ventre, Gardênia pegou carona num

anjo de aço e atravessou na noite os cinco mil quilômetros que os separavam,

em busca do manancial de palavras, agora não tão ricas em saberes e já

vazias de ilusões, sem nenhuns poderes de persuasão.

E retornou aos braços de seu verdadeiro amante. E colou seu corpo

quase negro no corpo bronzeado de Aníbal. E seus lábios se colavam num

beijo demorado de horas e horas em que os suspiros, gemidos e sussurros

cantavam como as ondas na areia.

Nada havia mudado o encanto: seus olhos e seus lábios ainda se

compreendiam, mesmo sem palavras e quando seus corpos de novo se uniram

o que estava em jogo não era nada irreal, mas o líquido finíssimo e perfumado

do óleo de amêndoa doce.

Fotografias nas paredes emolduradas e outras guardadas nos álbuns de

plástico relembravam um passado mantido em segredo, superprotegido por

negações. Ninguém sabia por quais motivos

Gardênia mantinha essas relações infelizes. Os outros casamentos

nunca terminavam e ambos caminhavam pisando pegadas de um passado

recente que insistia em segui-los cotidianamente.

E de novo buscaram uma vila de pescadores para, na solidão da noite e

ao ruído sinfônico das ondas do mar se lascando na areia da praia, encontrar a

poesia dos sons emitidos em surdina.

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Grunhidos que ninguém conseguia traduzir. Arranhões animalescos,

violentos e intermináveis. Beijos que premiavam roxos medalhões.

Desfalecimentos temerosos deixavam sua nuca doendo uma dor profunda, o

braço direito gemendo uma dormência demorada, o peito mais tenso que um

rolo de aço comprimido, o pobre coração como uma britadeira, fazendo acordar

as mais trágicas histórias de taquicardias e palpitações, seguidas de colapsos

fatais que nem mesmo toda a maquinaria cheia de monitores, tubos, unidades

hipermodernas de uma UTI poderia prolongar ou mesmo salvar. Esta era e

estranha e comovida existência, acomodada e pré-programada a viver apenas

cinqüenta e sete anos de vida cigana e atribulada.

Fora isso, se representava um teatro de amores e de fugas avisadas.

Ninguém sabe quantos dias Gardênia passava nos escondidos das praias

desertas escutando as mensagens das cartas de Tarô. Mas as figuras míticas

já não diziam a verdade nem prenunciavam o futuro.

Tudo era dirigido de acordo com o gosto de Gardênia, mesmo que isso

significasse contradizer a realidade mais óbvia. Inversamente não eram as

cartas que adivinhavam como seria o futuro do casal, mas suas vidas é que

direcionavam o significado do Tarô modificando-o ao bel prazer das ilusões, do

que poderia ter sido.

Um mês antes Gardênia e Aníbal nem mesmo se conheciam a fundo.

Hoje partilhavam à mesma cama e detalhavam os sinais e pintas que se

espalhavam pelo corpo. De estranhas criaturas se mudaram em amantes que

sabiam percorrer milimetricamente todas as reentrâncias do prazer. Amados

que sabiam descobrir as mínimas aberrações e ilustravam as cenas de sexo

com prazeres de lojas de artigos eróticos.

É neste exato momento que se inicia uma nova história, uma história

que por ninguém jamais será contada...

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Capítulo 2

Os anos mais felizes

―Amor, meu grande amor

Só dure o tempo que mereça

E quando me quiser

Que seja de qualquer maneira

Enquanto me tiver

Que eu seja o último e o primeiro.‖

Ângela Rô Rô/Ana Terra

Gostaria que esta fosse uma história bem parecida com o nosso século,

neste limiar dos anos 2.000. Acontece que se trata de fatos cujos personagens

são dos dias de hoje, mas viveram a maior parte do tempo despejando da

memória as décadas de 1950 e 1960. E quem caminha por esses anos numa

cidadezinha do interior se sujeita também, embora indiretamente, a transitar

por trilhas do século 19. Isto porque muitos personagens que nasceram nos

últimos meses de 1800 e ainda hoje vivem na memória dos anos e souberam

transmitir aos filhos, netos e bisnetos os ensinamentos que adquiriram de seus

pais e avós.

Na pequenina Vila de Espinho a vida moderna chegou de maneira

fulminante através dos programas, novelas, filmes e noticiários da televisão via

satélite, com as antenas parabólicas. Percorrendo o caminho que vai desde o

nascedouro, o chamado Primeiro Mundo — Europa, América e Ásia — os

vídeos são importados e gravados ao vivo ou copiados em fitas e enviados via

satélite às grandes capitais (Rio de Janeiro e São Paulo), daí são traduzidos,

dublados e finalmente retransmitidos para os estados e, depois, por

repetidoras, para os municípios e cidades ainda menores.

Em cada degrau dessa escala a notícia vai sofrendo alterações,

minguando ou crescendo, abrasileirando-se no que é possível, mas nunca se

torna local de fato, cem por cento o suficiente para adulterar o ambiente

interiorano, a ponto de integrar-se ao cotidiano das cidadezinhas. Na verdade,

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produzidos aqui ou importados, o que sobra desses programas e chega ao

interior é considerado sempre estrangeiro, alienígena — um deturpador

agressivo, mas sem alcançar o sucesso da vida local. É assim que tudo é visto

pelas pessoas que nela nascem e vivem.

As novelas da TV retratam realidades e fantasias que sempre

acontecem bem longe daqui. São sonhos que navegam em iates riquíssimos,

ilusões de uma sociedade de extremos entre a elite rica e a marginalidade

paupérrima, que passam a conviver com a tranqüilidade das casas

assobradadas, das gentes paradas no tempo. As intrusões do progresso são

apenas isso: intromissões.

Veículos modernos, músicas exóticas, missas rezadas com o padre

virado de frente para os fiéis — tudo isso e mais é visto de uma maneira

peculiar, indiferente, sem afetar a vida dos moradores. Isso porque a Vila de

Espinho continua pequenina, só não morreu de vez por conta das gerações

que forçosamente se sucedem, mas a população está cada vez menor. Os

mais abastados, os que podem vão se retirando para as capitais mais

progressistas, generosas em promessa de mais ganhos financeiros, de

sucesso e de aventuras. Ademais, hoje as mães têm menos filhos que

antigamente, os velhos casarões vão ruindo.

A rigor tudo não passa de uma fotografia na parede do passado que,

arrancada da moldura original, passa de mão em mão. Como testemunha viva

daquele exato momento do clique, tento explicar como as coisas ocorreram.

Aqui e ali pode ser que volte inocentemente a meter o bedelho na história — e

isso é impossível de evitar — mas me esforçarei para que não aconteça com

freqüência perturbadora ou, pelo menos, que tudo ocorra da maneira mais

imparcial possível, claro. Mas o fato é que nenhuma memória é imparcial ou

isenta de amores.

No presente momento Aníbal — personagem que vocês vão conhecer

mais intimamente que este que o apresenta — pela primeira vez em muitos

anos surpreendeu-se a fitar sua imagem detalhadamente refletida no pequeno

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espelho do apartamento do hotel e de repente ficou admirado de ter flagrado

uma intimidade jamais suspeitada. Aproximou-se ao máximo do espelho para

se ver em close, reparou nos seus cabelos que estavam cada vez mais

grisalhos e escassos.

Por enquanto essa mistura de tonalidade dava uma boa aparência (não

era um velho ainda), mas dava para perceber que dentro em breve os cabelos

brancos acabariam por superar os castanhos em quantidade e, ao consolidar a

dominação, cobririam sua cabeça com um incômodo telhado de neve. As rugas

substituíam aos poucos os vincos naturais como se determinassem o passar

do tempo — e atraíam miríades de pequenas linhas em volta delas e que, ao

seu modo, também iriam se transformar em enrugados e profundos canais.

Com a descoberta de um novo olhar e a proximidade em big-close com

que mapeava o rosto, deu para reparar nos novos sinais particulares e novas

pintas que manchavam sua pele, que o tempo acabou por transformar a marca

registrada que o riso franco alargava. Somente com essa visão cinematográfica

pôde notar também que esses detalhes há muito tempo haviam mudado de

forma ou de todo desaparecidos. Indagou-se há quantos anos deixara de sorrir

e qual a razão dessa sisudez que acampara para sempre em sua face.

Afastou-se um pouco para trás dando conta de que realmente o homem

refletido no espelho era outro, completamente diverso daquele que existia em

sua cabeça, que sobrevivia na pré-história da sua imaginação. Ensaboou as

mãos e lavou o rosto com bastante água. Sentiu a água fria bater forte, como

um violento tapa, uma chicotada, para acordá-lo daquele hipnótico marasmo.

Passeou os dedos por sobre os contornos do nariz aquilino, acariciando

as olheiras escuras que acompanharam os olhos tristes desde a infância

(herança dos avós segundo foi informada). Seu olhar parecia cansado e mais

triste ainda. Os lábios, que muitos elogios receberam das mulheres, cerravam-

se como portas centenárias de um velho mosteiro. Agora quase não tinha

palavras para dizer nem carinhos para dar.

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Diante do espelho amarelecido, assim despido de vaidades, conheceu

pela primeira vez aquelas rugas, cujo nascimento a vida agitada escondeu e

não deu tempo de perceber. E a cada passeio pela face seus dedos

magicamente descobriam novas geografias até então desconhecidas.

Por isso, tenham sempre em conta que os espelhos são traidores da

realidade, servem somente para uma mirada rápida, descompromissada. Ou

para fazer a barba, escovar os dentes e os cabelos, vez ou outra dar um nó de

gravata (quem ainda usa esse aparato), porque aí a ação dura o tempo

suficiente para não ultrapassar a fronteira do detalhe. Não, jamais confiem num

espelho. Nada de confissões, de troca de intimidades, de conversas fiadas com

ele.

Vejam as mulheres, por exemplo: elas sofrem mais diante do espelho

porque precisam desesperadamente dele. Não se deixam levar pelos

movimentos rápidos e apressados que os tempos modernos exigem. São

iludidas pelo reflexo luminoso, violentadas pela paisagem de um ângulo que,

sem o espelho, não é visto. Traídas pelo brilho aparente dos olhos e atacadas

pela sensualidade invencível dos lábios, demoram-se na maquiagem, aparando

aqui e acolá, entulhando as rugas de base e desesperando-se diante do mais

novo vinco que a natureza pespegou da noite para o dia. E não podendo fugir

desse ritual sofrem...

Aníbal era desses que jamais haviam parado diante de si mesmo assim

disposto a constatar e suportar as marcas do tempo. Seu cuidado com a

aparência limitava-se a um barbear bem feito, cabelos bem cortados e

penteados conforme a moda, roupas e calçados da época. Nunca teve tempo

de vigiar a idade, de se imaginar um coroa ou mesmo um velho. Agora,

sozinho na vida e prisioneiro involuntário de um quarto do hotel, diante de um

espelho acusador, podia fazer sem grandes esforços essa projeção.

Depois dessa constatação a sangue frio, percebeu que o rosto ficava

mais pálido, sentiu mesmo um calafrio percorrer todo o corpo, descendo da

cabeça aos pés. Mas a realidade, a realidade que o espelho denunciou o

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atingiu como um golpe de boxe bem colocado, um direto na ponta do queixo,

um cruzado sobre a têmpora e não era, não, não era bem essa a realidade que

ele queria para si.

Vivia um sonho nessa fase da vida. Que malditas ilusões procurava?

Que esperava ver e encontrar? O tempo estacionado numa estação de trem?

O passado pendurado na parede como um quadro? Uma fotografia antiga em

preto e branco colada num álbum? Uma fila imóvel de passageiros num ponto

de ônibus ou bonde?

Aníbal olhou com estranheza, como se fosse um vago objeto a mala

aberta sobre um cômodo, meio desarrumada, as roupas que mal conseguiu

mexer nem usar atiradas a esmo sobre a cama e que em breve voltariam a

serem guardadas limpas e dobradas.

Aníbal, além de não usar as dependências do hotel como se fosse sua

casa, se deu conta que tomou um banho morno demorado, como que para

limpar-se das coisas locais que entranhavam em sua pele. Todas essas

imagens que vieram após a "crise do espelho", transformavam-se em coisa

nova, alheias ao mundo que sempre o cercou. Atacavam-lhe agora as cenas

como se fossem figuras de filme de terror que subitamente criavam vida. O

guarda-roupa do hotel permanecia com os cabides sem uso, um pouso

provisório, as gavetas guardavam apenas roupas de cama, no banheiro havia

somente um pente e uma escova de dentes.

Sentia-se deprimido, vencido pelo cansaço e pela angústia de ver

terminado algo que nem bem começara, sabia que o sentimento dominante

naquele momento era de frustração, por não ver acontecido tudo aquilo que

imaginara. Bem ou mal essa decepção o acordara para uma realidade mais

crua e verdadeira que existia oculta pelo dia a dia, escondida por camuflagens

criadas, ora conscientemente ora instintivamente, por ele mesmo.

Preferiu divagar o olhar mais além da janela embaçada pela chuva.

Sabia que lá adiante havia uma casa de ambiente soturno, morno, úmido como

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esse tempo que não secava nem mostrava o sol. Que existia uma sala na meia

obscuridade, decorada com um sofá macio cheio de almofadas, uma cristaleira

com vários objetos de porcelana e cristal que jamais seriam usados. Uma

estante cheia de livros infantis, enciclopédias colecionadas em fascículos e

uma coleção encadernada das Viagens Maravilhosas de Júlio Verne

completavam o imaginado ambiente. Num canto, alojada sobre uma mesinha

improvisada, uma televisão ficava a maior parte do tempo ligada, desde os

programas infantis da manhã até a última novela da noite.

Aquela casa atualmente era habitada apenas por duas mulheres: Maria

Rosa e Gardênia — mãe e filha. Transitavam também pelos cômodos uma gata

sem raça definida e a empregada, considerada pessoa da família, que

trabalhava sazonalmente das oito da manhã até quando quisesse ir embora

(isso acontecia sempre depois da novela das sete). Naquele sofá macio e entre

as almofadas Gardênia demarcava seu reino.

Estava na verdade bem mais gorda do que no tempo em que ela e

Aníbal estiveram de namoro, (que veio a se transformar depois de três anos

num noivado oficioso). Ademais, Gardênia se entregava agora de corpo e alma

à televisão e às caixas de bombons que a mãe trazia todos os dias. Infeliz,

infelicitada para sempre. E tudo por causa de um amor jamais curado: quando

Aníbal partiu para o Rio de Janeiro ela não ousou confiar nas promessas dele

— e só Deus sabe como tinha razão.

Com medo de ficar solteirona, Gardênia logo se agarrou ao primeiro

pretendente, noivou, marcou casamento. Esquecida de Aníbal esqueceu o

amor antigo. À noitinha, num dia qualquer, Maria Rosa ouviu soluçante a

notícia trágica que veio encerrar tudo: um acidente de automóvel, uma

derrapagem, um raspão numa carreta na estrada, o carro deslizando

descontrolado por uma ribanceira até despedaçar-se totalmente.

O noivo ficou em estado de coma por várias semanas até não resistir

mais. Gardênia sobreviveu com várias fraturas e um olho perdido perfurado por

estilhaços de vidro. Sobreviveu é modo de dizer — na verdade o que restava

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da sua vida ficou enferrujado com as sobras retorcidas do carro que nunca

retiraram do despenhadeiro.

Depois, já sozinha com a mãe, desiludiu-se de tudo e de todos.

Transformou a vida num monastério, o namoro com Aníbal numa lembrança de

tudo que poderia ter sido, mas não foi e o casamento um desastre

premonitório. Fez plástica para tirar as cicatrizes, implantou uma prótese de

acrílico no lugar do perdido, verde como aquele que a natureza lhe presenteou,

imitação quase perfeita da ciência moderna e descontrolou-se do peso.

Quem a visse não acharia que o olho fosse artificial, apenas notaria o

falso olho lacrimejar um pouco no cantinho, como se ela chorasse sempre.

Ademais disso, apaixonou-se pelos programas de televisão, escrevia cartas

para os concursos, mandava rótulos, selos, frases — mais de uma vez ganhou

brindes e prêmios — e tinha as mãos sempre sujas de chocolate.

Aníbal ali esteve rapidamente. Deixou a chuva lá fora, tentou enxugar os

pés inutilmente e, encostando o guarda-chuva que pingava sem parar,

entregou a caixa de bombons de Gramado que trouxe para Gardênia. Foi uma

conversa franca e inútil. Cheia de alegrias, mas prisioneira de lembranças do

passado. Maria Rosa achou um jeito de arrastar Aníbal até a copa, onde

preparava um lanche para o inesperado visitante.

Na sala ouvia-se a voz da apresentadora de TV anunciando as

maravilhas e receitas da culinária moderna, que Gardênia — entre um bombom

e outro — anotava cuidadosamente. Na cozinha, numa fala macia e

semitonada, entre presuntos e queijos, Maria Rosa narrava os acontecidos

depois que Aníbal partira. Contou como Gardênia ficou magra e pálida demais,

como confessou a descrença nas promessas do viajante e finalmente como fez

o noivado repentino, apressado, de quem tem pavor do futuro, medo de ficar

solteira.

O visitante não procurou desculpar-se nem justificar qualquer coisa.

Aceitou o lanche e fez sala às duas mulheres solitárias, viúvas de verdade,

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viúvas do destino. À saída, porém, Aníbal não se furtou a um comentário breve

e lacônico:

— A vida no Rio de Janeiro é muito difícil. Tive de trabalhar durante o

dia, fazer hora extra e ainda por cima estudar à noite. Tantos anos se

passaram antes que pudesse chegar aqui de volta! E tudo por falta de tempo,

falta de dinheiro, necessidade de estudar, trabalhar mesmo durante as férias.

Agora mesmo estou aqui, mas com o pensamento fixo que terei de voltar ao

Rio em breve, que algumas coisas imprescindíveis me esperam.

Era um modo de outra vez dizer adeus. Aníbal, com uma entonação

vigorosa, fez soar as palavras, não como se fossem meras desculpas, mas a

tomada de uma decisão importante. Contava também um pouco da vida de

emigrante, que luta, luta e acaba vencido. Explicou — e aqui não tentou

esconder o tom de confissão — como não conseguiu se casar, como não

encontrara a famosa alma gêmea que todos procuram. Era também, de certa

maneira, viúvo do primeiro amor.

Depois desse agarramento ao passado, depois de narradas as partes da

vida desconhecida dessas pessoas, partes de uma corrente de muitos elos

separados, o ambiente ficou tenso, sem palavras. Com exceção de Gardênia,

que continuava mecanicamente a comer bombons, havia um ar de

constrangimento, todos com os olhos fixos na televisão, hipnotizados vendo a

apresentadora tirar do forno uma travessa apetitosa, fumegante, cheia de

molhos coloridos.

Antes de se despedir de vez Aníbal ainda comentou sobre as chuvas e

os estragos que estavam fazendo na cidade. Maria Rosa contou uma meia

dúzia de ocorrências — dava um tom de noticiarista policial na voz — todas

elas escondendo uma tragediazinha particular. Eram vítimas da enchente,

todas as pessoas do conhecimento da família, de encontrar no dia-a-dia, na

mercearia, na farmácia, na missa. Fulano perdeu isso, sicrano morreu, beltrano

safou-se como por milagre da Vila de Espinho...

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Encheu assim bem um quarto de hora, encerrando as frases sempre

com um não sabe, não sabe? Aníbal ouviu a buzina do jipe de Mário e

aproveitou para a despedida final. Explicou a gentileza máxima do amigo que

corriam riscos para trazê-lo até a residência delas. Foi até Gardênia e deu um

beijo demorado no rosto sentindo o hálito de chocolate e fez um carinho nos

cabelos longos. Maria Rosa acompanhou-o até a porta, trocaram um abraço

forte, os tradicionais até a próxima, felicidades — e Aníbal novamente

mergulhou na chuva.

Suez, o Canal, o deserto.

Uma tempestade de areia que não finda nunca.

Um tempo que julgou estar sendo vítima de feitiçaria, de experimentos.

Os redemoinhos flutuavam em sua cabeça, dentro do seu cérebro,

arraigados à sua alma.

Ele experimentara a dor de arrancar de bem dentro as raízes dos ciúmes

doentios.

Gostava de provocar perversões, mesmo ocasionais, que causavam

violentos abalos nas suas convicções mais serenas.

Ventos, nuvens, trovoadas.

O som intermitente das gotas de chuva interpenetrado na rigidez dos

corpos fatigados.

O reggae, o tambor de mina, as crioulas circulando suas saias alvas.

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Aníbal conseguiu, antes de sumir na noite, entrever a imagem de

Gardênia, os olhos verdes, a boca espraiada para os lados, os lábios sujos de

bombom, um sorriso quase, um pequenino riso ameaçado.

A prótese ocular, o olho falso, parecia chorar uma lágrima solitária.

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Capítulo 3

No templo do aqui agora

―No fim dos dias úteis

Há os dias inúteis

Que não bastam pra lembrar

Ou pra esquecer de quem se é.‖

Herbert Vianna

Escadas, serpentes enlevadas com o som doce da flauta. A Índia dos

Vedas, de Krishna, Xiva ou Brahma, de Naipaul e de Tagore. O Rio Ganges

onde as pessoas se purificam espiritualmente numa água poluída

materialmente. Novecentos milhões de habitantes que se cruzam numa terra

vasta de pequenos dialetos e religiões que se diferenciam apenas por um sinal

ou traço desenhado no rosto. Tatuagens. Tradições milenares trespassadas

pela cultura colonialista ocidental. Bombaim é aqui...

Quando Aníbal saiu da vila de N. Sª. do Espinho – ou simplesmente

Espinho, cidadezinha que tinha no nome e na cruz da igreja as maiores coisas

existentes – e se mudou para o Rio de Janeiro, foi empurrado pela

circunstância de não mais ter familiares ou outras pessoas afins que vivessem

à sua volta. Estava só, sem quaisquer outros motivos e atrativos que

justificassem continuar vivendo no lugar.

Isso fazia bem mais de vinte anos, tempo em que rapazes cheios de

emoções ainda se consideravam destinados à causa da política social e da

poesia que revolucionariam o mundo. Por isso, com ódio e com amor,

emocionado e desesperado com aquela partida, que não planejara, mas que

parecia definitiva, escreveu versos cuja temática se resumia no seguinte

quarteto:

"Espinho,

sou daqueles que,

18

quando partem,

não se voltam jamais..."

Não reparou que chovia quando partiu. Tudo em redor tinha se

transformado numa grande confusão, sua própria cabeça era também uma

grande balbúrdia.

Repensou a vida dali para frente como uma declaração de

independência que pudesse dirigir conforme seus desejos, mas que teria – da

mesma forma como Adão, expulso do Paraíso – de prover com muito suor o

seu sustento. Lutar como qualquer que fosse jogado ao mundo sem privilégios

ou recursos para sobreviver.

Mas chovia. E pareceu que chovera durante toda a noite véspera da

viagem e mesmo durante todo o percurso. Quando desembarcou no Rio de

Janeiro – depois do longo dia no vôo turístico – (assim chamado de maneira

jocosa por ser mais barato, oferecer menos comodidade e fazer mais escalas),

ainda chovia. As pistas reluziam ao reflexo da luz. Mas também não deu a

mínima para a chuva do Rio de Janeiro, porque, afinal, todas as chuvas são

iguais.

Saindo do Aeroporto Santos Dumont percorreu de táxi parte do Aterro

do Flamengo até chegar ao bairro da Glória, para onde ia por indicação de

amigos.

O ano de 1963 agonizava – era setembro – também o povo e o país

agonizavam sob o peso da catástrofe que causara a recente renúncia de Jânio

Quadros à Presidência da República. O Rio de Janeiro política e

economicamente mantinha ares de Capital Federal. A cidade fervilhava com as

notícias sobre a posse de João Goulart, que saltaria, vindo de visita da China,

no Rio Grande do Sul para assumir o cargo em Brasília. Nesse fogareiro

político Aníbal fora atirado pelas forças do destino, que regem todas as

existências, cheio de vontade de "salvar a pátria da miséria e implantar uma

sociedade mais justa", utopia de todo jovem dos anos sessenta.

19

Agora, passado tanto tempo, fazia memória daquele dia. Lembrava do

último ato político na cidadezinha quando acompanhou emocionado o protesto

dos alunos da Faculdade de Direito contra o golpe desfechado pelos militares,

praticamente depondo o presidente Jânio Quadros. Trepado na estátua do

mártir Tiradentes ouvia e estimulava com brados e "apoiados" discursos dos

colegas da Faculdade de Direito contra o golpe militar. A velha faculdade, que

sobrevivia num prédio carcomido pelo tempo, manchado pelo sangue da

história, sempre teve fama de rebelde e, geralmente com o apoio do corpo

docente e pelos alunos, fazia-se representar em todos os acontecimentos

políticos da cidade.

Naquela ocasião, após alguns dias de greve, cercados pela polícia os

alunos saíram cantando o hino nacional. Alguns veteranos se enrolavam na

bandeira do país e do estado, se julgando protegidos assim das porradas do

cassetete e do gás lacrimogêneo.

Vadiando a memória entre tantas coisas do passado, Aníbal lembrou

também daqueles últimos versos que fizera antes de abandonar a terra natal e

ser envolvido por uma realidade bem mais dramática, embebida de selvageria

crua, escondendo mistérios e violências que aquela vidinha provinciana não

fazia perceber. A poesia tinha outros versos igualmente pobres, é verdade,

mas estes já haviam sido esquecidos.

A própria poesia tinha sido esquecida, sufocada pelas exigências da

nova ordem e o prazer de fazê-las e recitá-las havia morrido dentro dele.

Tinha a impressão que se distanciavam séculos da sua memória os

pequenos saraus informais (ainda existiam naquele tempo), improvisados nas

esquinas e nas praças com os colegas que sempre traziam alguma

composição, novidade escrita ou memorizada para declamar. Românticos e

modernistas, cantores populares e compositores clássicos, Camões e Leandro

Gomes de Barros, freqüentavam a mesma emoção, hoje folha seca esquecida

no parque prazer que ninguém mais tinha tempo de cultivar.

20

Mas aquilo no texto do poemeto que semelhava uma promessa, uma

jura que era mais difícil de esquecer. E essa dor provocada pela lembrança, em

respeito a uma palavra empenhada consigo mesmo bateu-lhe forte por muito

tempo, todos esses anos, ora postergada pela luta do dia a dia, ora

abandonada pelo feliz reencontro de novas esperanças.

Já não ligava mesmo para a Espinho esquecida e fez dessa experiência

uma nova vida. Embora não tivesse plantado nenhuma árvore, não tivesse

escrito nenhum livro nem sido pai de alguma criança, sentia-se realizado e

tomara consigo mesmo a responsabilidade de bloquear o máximo possível

aquele passado que considerava desastroso. Isso o diferenciava dos

emigrantes que tinha diante de si, encontrados no dia a dia. Virou carioca de

vez e de tal maneira que os nativos o respeitavam e o encontraram desde logo

um dos seus. Amava a terra adotiva como se fosse a sua: as praias, os

subúrbios mais distantes, a vida noturna, as escolas de samba, o restinho da

velha Lapa romântica que ainda encontrou.

Mas os outros emigrantes, japoneses, italianos, portugueses, espanhóis,

faziam-no pensar como seria sofrido deixar a terra natal bem longe, com toda a

magia das pessoas e coisas que a envolvem naturalmente desde a infância e

vir para uma aventurosa região onde falavam uma língua diferente, onde os

hábitos não tinham qualquer semelhança com os que costumavam praticar

desde a meninice, sem parentes e amigos. Embora Aníbal nunca tivesse

provado dessa experiência, pois nunca lhe pareceu que a terra natal estivesse

tão distante que não pudesse alcançá-la a qualquer momento, não desdenhava

tal tipo de infelicidade, de coragem, e se via hora e outra colocado naquela

posição desafiadora.

Se quando chegou ao Rio de Janeiro não sentiu impacto emocional, foi

porque a imediata luta pela sobrevivência encarregou-se de introduzi-lo numa

nova realidade onde o choque pela mudança sequer teve vez.

21

Carioquizou-se, era um novo homem, obstinadamente sem passado,

sem parentes, sem memória, que pegava os sentimentos fortemente abalados

e propositadamente levava-os para um canto da cabeça onde não pudessem

perturbar aquela nova vida, mantinha-os escondidos num subúrbio da alma tão

afastado e remoto como a ruazinha solitária no bairro da Glória onde foi morar.

Ali enterrou também as tolas pretensões poéticas e literárias, inatas nos

brasileiros. Lembrava, a respeito, o pai que costumava adaptar um velho

provérbio às circunstâncias da pequena Espinho: "Quando alguém nasce aqui

a parteira joga na parede: se grudar é poeta, se cair é político ou comerciante."

Trinta anos depois Aníbal, tendo à frente alguns dias de férias ganhos

por uma licença-prêmio, Aníbal se viu atacado por súbito e incontrolável desejo

de voltar à cidade natal. Todo esse tempo que tinha para gastar já prenunciava

uma breve aposentadoria e foi então que resolveu (ou foi forçado) abrir as

compotas daquele passado mumificado, deixar fluir em cascata as águas

represadas.

Mas num mecanismo subconsciente inexplicável lembrou-se dos versos

impeditivos, isto é, de parte deles, justamente daquela frase que mais parecia

um juramento. Vivia dizendo para si mesmo – "Jurei que não voltaria, eu jurei!"

Mas constatou que não era bem isso e tranqüilizou a sua consciência.

Não, não era uma jura e por isso não teve pejo, animou-se. A partir de

então começou uma longa busca de notícias de parentes e amigos distantes,

conhecidos de infância, gente que na verdade poderia já estar enterrada,

alguns verdadeiramente mortos, outros em sepultura no céu aberto do

esquecimento, sem esperança de serem encontrados, de serem reconhecidos,

o que equivale a outro tipo de morte.

Não obteve logo nenhum resultado positivo. As notícias de um tempo

abandonado são difíceis de encontrar, mas o ânimo era tanto que nem isso o

preocupou. Além do mais, procurava agora ler os jornais vindos do interior, não

só de Espinho, mas das cidadezinhas próximas, onde pudesse ler nomes

conhecidos. Alguns haveriam de estar lá, sem dúvida, sobrevivendo – como ele

22

conseguiu sobreviver – a todas as catástrofes que habitam os seres humanos.

Haveria de encontrá-los, sabia sim, haveria de esbarrar nos mesmos lugares

que percorreu na infância, desfrutar os mesmos sabores das frutas, bebidas e

comidas regionais, respirar o ar das vasas que vinham do mar lá longe onde o

rio que margeava a cidade desembocava entre manguezais.

E nessa expectativa uma emocionante sensação atropelava o tempo,

fazendo Aníbal pensar que talvez achasse também aquelas pessoas que lá

deixou bem velhinhas recontando sob a ramagem de algum tamarineiro ou sob

a fronde das mangueiras as histórias de outro passado bem mais longínquo.

Tinha esperança sim de mergulhar nos rios de águas claras e sob as

árvores, livres da poluição, quem sabe, ou nas águas verdes das praias que

sabia existirem mais distante, envolvidas por colares de dunas alvas.

Imaginava que talvez as praias ainda estivessem desertas e poderia escorregar

nu rolando nas dunas de areia preparando-se para aquele salto mortal da

infância, executado com a majestade de um trapezista, cuja queda final era um

mergulho diretamente nas águas frias do rio. Essa magia eterna que é a

imaginação enchia todos os espaços de muitos "talvez", transformava um

quarentão numa criança cheia de ilusões.

Com esse ânimo e toda essa fantasia em torno de assunto que parecia

tão banal, Aníbal ainda teve a cabeça fria de fazer uma preparação mental para

retornar a Espinho. Afinal, trinta anos de ausência pesam muito! E só aí nesse

momento pôde resumir os pedaços partidos desses trinta anos que passou no

Rio de Janeiro. Como um homem só tinha conseguido quase tudo, mas não

tinha família, não tinha uma mulher nem filhos e conseqüentemente não tinha

cunhados, sogros, sobrinhos. Mulheres ele tivera até demais, graças à

estabilidade conseguida na vida.

Tinha-se estabelecido socialmente numa classe média, onde com certa

facilidade se arranja companhia, mas uma indefinida obsessão o fazia fugir dos

longos compromissos, das dívidas sentimentais assumidas impensadamente,

das promissórias e armadilhas do amor. Aníbal se considerava um coração

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fraco, um sentimentalóide, ressentimento remanescente da primeira, grande e

única paixão que deixara para trás e por isso construiu uma carapaça, em volta

de si ergueu uma muralha, um castelo da Idade Média com fosso e tudo, para

protegê-lo contra o que considerava uma debilidade e impedir o acesso de

pessoas que quebrassem ou abalassem aquela segurança, aquela vida de

eremita que escolheu gozar. E certamente isso lhe valeu o título e a fama que

acompanham sempre o celibatário: de solteirão convicto, conquistador

inveterado e outros lugares comuns.

Por esse retrato os leitores podem ir formando a personalidade de

Aníbal. Por que não se contou tudo de uma só vez ? Como qualquer pessoa

esse personagem tem mais de uma vida – como o destino faz com que todos

nós tenhamos. Com Aníbal não é diferente: tem a vida do cotidiano "tudo bem"

e do subtendido "nada bem", tem o médico e o monstro dentro de si como

dizem que temos o lado masculino e feminino vivendo em contumaz e

interminável guerra. Um caso se passou e não foi narrado, mesmo porque é

segredo de pouquíssimos. Não, não se trata do outro lado, de uma vida sexual

– isso pode até vir lá pra frente, quem há de afirmar que não?

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Capítulo 4

Os olhos da solidariedade

―A paixão quer sangue e corações arruinados

E saudade é só mágoa por ter sido

Feito tanto estrago

E essa escravidão e essa dor não quero mais.‖

Renato Russo

A cigana olhou a palma da minha mão com indisfarçável desdém. Mirou

as linhas e virou a palma para baixo sem dizer palavra. Estávamos os três

casais todos alegres, quase bêbados, vindos de um bar com show e música ao

vivo.

Na saída alguém sugeriu que fôssemos ouvir a cigana e agora

estávamos ali debochando das previsões que ela fazia a cada um de nós.

Devido à minha oposição e resistência, fui o último a fazer a consulta. A cigana

mesmo riu muito com o que ela dizia de cada um, mas na minha vez ficou séria

e não quis dizer nada.

Depois que ela abandonou a leitura das linhas da minha mão,

dominando minha impaciência, permiti que ainda jogasse cartas do Tarô

Cigano. Jogou e recolheu as cartas umas três vezes sem nada falar.

Novamente ela fez uma careta com os lábios tortos e me disse desiludida:

– Vá embora meu filho, vá com Deus.

A saia comprida e a blusa de mangas fofas recoberta com lenços

coloridos ocultavam um corpo de vastos seios e quadris enormes. Esse retrato

me acompanhou pelo resto da vida...

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– Pelo menos você vai almoçar em minha casa.

– Mas...

– Nem mais, mas, nem mais menos. Não é essa chuva que vai nos

impedir. Esse hotel está uma chatura só. Assim tu aproveitas para almoçar

uma comidinha caseira e ao mesmo tempo vais conhecer a patroa.

Mário falou decidido. Aníbal não teve como nem fez força para resistir.

No mais, seria uma grande indelicadeza para com o amigo. Imperdoável.

Gostava até arredar o pé dali daquele ambiente opressivo. Estava precisando.

Havia uma pressão no ar que parecia contaminar tudo ao redor. Não se opôs.

Aceitou usar botas de vinil que Mário trouxe, vestiu roupas capazes de resistir à

chuva e lama.

– Vou ter que dar umas voltas para chegarmos a casa sem nos afogar...

Enquanto me distraio com buracos e poças de água tu ficas olhando a

paisagem. E vê se te lembras dos lugares, se reconheces alguma coisa.

Entraram no jipe e logo depois percorriam ruas mal traçadas, onde os

buracos provocavam violentos solavancos, como vácuos no avião. De princípio

a Aníbal nada pareceu familiar e Mário confirmou essa suspeita:

– Aqui não conheces nada. Bairro novo é mato, se é que se pode

chamar esses aglomerados cheio de desordem e sem infra-estrutura de bairro.

Está mais próximo de uma favela...

De fato. Não havia alinhamento nas construções, as casas não eram

casas e sim barracos com paredes de tijolo e taipa, as coberturas também

eram improvisadas com restos de vários materiais, telhas de amianto e zinco.

Com a chuva torrencial certamente estariam sofrendo com a umidade e com

vazamentos nos telhados. Era a imagem nebulosa da vida dura dos pobres

26

cheios de filhos e contas para pagar, sem ter quase o que comer, que passava

à sua frente diante do pára-brisa embaçado.

O jipe continuava vencendo a lama, a correnteza e os valões que a

chuva construía na estrada descalça. Volta e meia encarava com vigor o

lamaçal que parecia intransponível.

Numa dessas vezes o veículo quase capotou e o tombo, justamente no lado do

carona, provocou enorme torção no pé direito de Aníbal deixando-o dolorido e

inerte. Mário foi habilidoso o suficiente para evitar que o desastre fosse mais

grave.

Preocupou-se com o estado do amigo:

– E aí meu velho. Sobrevivemos à catástrofe? Machucou alguma coisa?

Aníbal respondeu com um palavrão dedicado às ruas maltratadas e

ambos riram.

Lá mais adiante já dava para perceber os bairros adjacentes ao centro,

mais antigos e aquelas cenas pareceram mais familiares a Aníbal. Começaram

a surgir os casarões azulejados, os pequenos sítios que ainda resistiam ao

tempo, as quitandas peculiares, as igrejas seculares.

Quando se deu conta não mais era o olhar do quarentão que estava ali e

sim o menino de outrora. Viu bem longe entre árvores o prédio secular do

Colégio Marista. O velho tamarindeiro – sob o qual Aníbal deitava na relva para

fugir do cotidiano – ainda reinava entre outras árvores: mangueiras,

pitombeiras, amendoeiras, ingazeiras e um velhíssimo pé de fícus.

Cercando uma horta comunitária – na qual os irmãos trabalhavam nos

fins de semana – várias goiabeiras faziam fila com seus troncos pelados

suportando o peso de trepadeiras, principalmente os pés de maracujás.

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Mas não foi só o lado feliz que Aníbal enfrentava naquele momento.

Também suportou a lembrança dos castigos de uma educação rigorosamente

draconiana: pegou suspensão por ter comido frutos dessas árvores.

Rezou ajoelhado em grãos de milho por um busto caricatural que

desenhara do irmão Gregório, mestre de Geografia e Religião. Cumpriu

castigos à moda antiga, repetiu milhares de vezes em voz alta e escreveu nos

cadernos frases consideradas pecaminosas que não deveria ter jamais

pronunciado, decorou páginas e páginas de textos por ter interrompido aula por

motivo fútil – e assim por diante.

Um dia seu pai foi chamado à direção da escola e convidado a retirar o

filho de lá, pois era dinheiro jogado fora, encerrando assim prematuramente a

educação religiosa.

Mário olhava de banda o amigo e sem necessidade de adivinhar o

semblante denunciador, respeitoso daquelas memórias, mantinha o necessário

silêncio. Uma coisa é relembrar o passado, outra bem diferente é caminhar

para trás, caminhar sobre suas próprias pegadas, percorrer caminhos do

passado.

– Tcham-tcham-tcham-tcham! O Solar da Baronesa!

Mário anunciou, imitando uma voz soturna, o velho casarão que se

aproximava e logo estavam lado a lado com suas paredes azulejadas, portais

de mármore, bandeiras carcomidas. Um musgo de verde bem escuro traçava

entre os azulejos linhas, figuras imitando vermes, lesmas. Entre a parede e a

calçada, na junção entre as lajes de granito, cresciam pequenas ervas, quebra-

pedra, pega-pinto.

Na sua meninice Aníbal circulou muito naquele casarão.

– Estive aí muitas vezes. E pelo tom de voz Aníbal parecia mesmo

querer caminhar sobre as pegadas do passado.

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– Eu era bem pequeno, molequinho ainda. Tinha o quê? Quatro ou cinco

anos, se tanto. Minha mãe sempre ia visitar a irmã caçula, casada com um filho

da Baronesa.

Após os cumprimentos de praxe, me deixava sentado numa cadeira de

espaldar alto, de couro com botões dourados polidos à exaustão. Eu, que já

era magro e mirrado, me sentia mais pequenino ainda. Invariavelmente, logo

depois ouvia os passos arrastados soando no assoalho de madeira.

Nossa natureza está no movimento, não no repouso – era a incansável

Baronesa que vinha fazendo sua ronda diuturna pelo longo corredor.

A figura, que à distância parecia bem pequenina, aos poucos ia

crescendo, crescendo, até agigantar-se diante do menino, alta como a Estátua

da Liberdade, ereta, de porte nobre e altivo, a bengala na mão.

Os cabelos de neve formavam um coque preso por enormes

prendedores e grampos de marfim, sobressaltando os olhinhos azuis, muito

azuis, dominadores, que se fixavam no menino profundamente, antes de

perguntar:

– É filho de quem?

O garotinho respondia o nome inaudível, com a voz sumida no temor, o

medo das faces encovadas, do corpo magro e alto que jamais repousava.

Depois de resmungar um longo e reticente, hhuuummm, hém-hém,

como se maquinasse saber quem era a mãe dele, a Baronesa seguia a rotina

da caminhada circulando pela sala enorme.

Espiando as cristaleiras uma a uma em minucioso exame, a Baronesa

passava em revista toda a sala, os dedos ossudos detectando a poeira

invisível.

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Repousava o olhar sobre os quadros de pintores muito antigos, sobre os

retratos da família, sobre as peças de cristal rigorosamente arrumadas nos

armários, sobre os móveis negros.

Depois do exame retomava a caminhada arrastando os chinelos no

mesmo ritmo, no contraponto da bengala e a música temerosa ia se perdendo

no corredor oposto até tudo se transformar em silêncio.

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Capítulo 5

A imensa brancura do cosmos

―O mundo bem diante do nariz

Feliz agora e não depois

Me sinto só, me sinto só, me sinto tão seu

Me sinto tão, me sinto só e sou teu.‖

Samuel Rosa /Chico Amaral

Liberdade. Muitas das vezes estamos livres nas ruas e podemos andar

para onde quiser, mas que'dê liberdade? A liberdade está dentro de nós,

dentro de uma prisão ou solto pelas avenidas, ou prisioneiro de uma cama de

hospital. Escolher um modo de ser livre é na realidade escolher um meio de

fugir da vida real. Fome. Mesmo prisioneiro a fome virá, virá a sede, a vontade

de urinar e de defecar. Todo esse sentimento de culpa que carregaremos ao

estar prisioneiro jamais impedirá a força dos sentidos.

Aníbal primeiro ouviu um zumbido percorrer toda a cabeça, depois sentiu

uma dor intensa como se lhe fizessem uma punção no cérebro. A dor foi

aumentando, aumentando, até se transformar numa insuportável agulhada. A

última coisa que pensou foi em dar um grito, mas da boca saiu apenas um

soluço gutural.

Quando de novo tomou conta dos sentidos estava deitado numa cama,

sentindo a garganta arder horrivelmente. Alguém – por enquanto apenas um

vulto – se movimentava para lá e para cá. Aos poucos a visão foi clareando

como uma máquina fotográfica entra em foco e ficou branco de vez: era uma

mulher branca, vestida com uma roupa branca, com uma touca branca na