Gardênia por Salomão Rovedo - Versão HTML

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cabeça e ele estava numa cama branca, num quarto de paredes brancas. Tudo

branco...

Aníbal quis dizer alguma coisa para chamar a atenção da mulher, mas a

dor da garganta, bem pior do que pensava, impediu a fala. Além disso, a língua

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parecia presa, tão pesada que não ajudasse de nenhum modo o mecanismo da

fala. Ouviu um grunhido em vez da palavra que pensou emitir, mas isso serviu

para chamar a atenção da moça que largou o que fazia e veio para o lado da

cama. A voz, suave, mas bem límpida, perguntou:

– Olá, seu Aníbal, como vai? Está se sentindo bem? Quer alguma coisa?

Outro gemido, dor na garganta, a língua presa. De repente lembrou-se:

escrever! Tentou mexer o braço direito, mas estava atado com largas faixas de

esparadrapo. Além disso, tinha uma agulha espetada na veia alimentando-o de

gotinhas de glicose. Bateu com os dedos no tampo de madeira onde o braço

estava apoiado e fez o gesto de escrever. Logo depois a enfermeira colocava

esferográfica e papel ao seu alcance.

"CONTE-ME TUDO."

– Bom, recomeçou a voz suave, ontem à noite você teve um avecê e foi

trazido até aqui. Fique tranqüilo, está fora de perigo e já avisamos o seu

trabalho através do telefone que tinha no seu cartão de visitas. Veio alguém de

lá visitá-lo, fez recomendações, está tudo sob controle, fique tranqüilo.

"NENHUMA VISITA, NENHUMA, SEM AUTORIZAÇÃO MINHA,

CERTO?"

"QUE PORRA É ESSA DE A-VE-CÊ?"

– A ponto, vê ponto, cê ponto. A.V.C. Acidente Vascular Cerebral.

Depois o doutor explica melhor o que se passou com você. Teve uma pequena

hemorragia, o que nesses casos é melhor. Fizemos vários exames, os médicos

dizem que o perigo passou. Você tem uma paralisia parcial e temporária do

lado esquerdo. Com uma fisioterapia se recupera rápido. Mas estou adiantando

coisas que não deveria.

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A voz continuava suave e clara, procurando amenizar a situação. Aníbal

não gostou nada de saber dos fatos. Para ovalmente teve a vida em perigo. Ele

detestava hospitais e distritos policiais. Por isso jamais se meteu com eles.

A irritação de que era tomado passava às palavras. Os doentes, por se

encontrarem em situação delicada acham-se – não sem alguma razão – no

direito de extrapolar as convenções. Aníbal já demonstrou isso no palavrão

desnecessário que escrevera.

Agora tentava sem sucesso mover o braço esquerdo como se isso

pudesse desmentir a enfermeira, mas só pôde confirmar a veracidade da

informação. Sequer sentia o braço, era como se carregasse um membro

inexistente.

Olhou com todos os desesperos para a mulher de branco, pedindo

socorro. Ela tinha a pele alva, algumas sardas no rosto e no colo, o corpo

maduro bem feito, boa cintura, bons quadris. Calculou entre trinta e quarenta

anos sua idade.

"VOCÊ ESTÁ MENTINDO! ESTOU MORTO, NO CÉU E VOCÊ É UM

ANJO OU UMA SANTA."

Era um pedido de desculpas. Ela riu, meteu um termômetro sob as

axilas dele, segurou o pulso e ficou olhando o relógio. Depois examinou a

temperatura e anotou tudo num formulário preso a uma prancheta.

"COMO O DEFUNTO ESTÁ?"

– Ótimo, sem febre, pulso normal. Daqui a pouco estará pronto para

outra, brincou. Não vai ser desta vez...

"ESSES TUBOS TÊM QUE FICAR NA MINHA BÔCA E NO MEU

NARIZ?"

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– Por enquanto sim. Quando o médico chegar para ovalmente vai tirá-los

e você vai poder falar à vontade.

"VOCÊ É BONITA. O QUE AFINAL NÃO ESTÁ PARALISADO EM MIM?

MEU PINTO SE MOVE?"

A enfermeira leu, mas não se espantou. Botou as mãos na cintura e

fingiu uma cara amarrada.

– Sei lá – disse com a voz menos suave – e nem me interessa saber!

Mas Aníbal não desistiu da brincadeira. Fazia isso para perder o medo

da morte. Prendendo-a a seu lado, tendo alguém com quem conversar,

despistaria a visita da "marvada".

"ME MOSTRA AS SUAS PERNAS!"

Dessa vez ela se espantou. Parecia coisa séria mesmo, mas a

experiência na profissão falava mais alto. A voz suave não respondeu. A cara

amarrada continuou em seu vai-e-vem, trocando roupas e objetos usados por

outros, prisioneira mecânica de uma série de afazeres que tinha de fazer.

"SEJA BOAZINHA, BOAZUDA, ME MOSTRA ESSES SEIOS LINDOS!"

Aníbal transitava por aquele caminho em que o desespero acaba se

transformando em forma de ataque às instituições. Saía da linha, embrutecia-

se.

– Eu hem! Parece tarado! A voz não estava mais tão suave assim.

Mostrava que podia ser irada, se quisesse. Mas aceitava a brincadeira e

andava para lá e para cá, gostando de se mostrar. Chegava-se ao máximo

próximo do leito, debruçava-se mostrando pedacinhos dos seios, fazia ressaltar

as pernas roliças, o uniforme alvo contrastando com a pele rosada sarapintada

de sardas.

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"GOSTOSA! LINDA! GOSTOSA!"

A voz suave começou a rir, a menear a cabeça olhando para aquela

figura semi-paralisada que não perdia os vícios nem os prazeres da vida.

Admirava gente assim, gostava mesmo.

– Louco, você só pode ser louco. Nem está em condições de ficar

dizendo essas gracinhas. Não se garante! Bobinho! E a continuação fez um

carinho na cabeça de Aníbal.

Ele venceu e aí aconteceu o inevitável. A parte de baixo do lençol

começou a erguer-se sozinho, até que a enfermeira notou e não pôde reter

uma gargalhada, riso franco, grito de espanto.

– Pronto. Agora você já tem a resposta...

"SE VOCÊ QUISER, PROMETO QUE NÃO DIGO NADA A NINGUÉM...

SOU UM TÚMULO!"

Novamente ela sacudiu a cabeça admirada dessa demonstração de

vitalidade, tanto física quanto moral, como a dizer: "esse aí não tem jeito

mesmo, perdeu a razão". Dirigiu-se à porta, tendo acabado todos os afazeres

com aquele paciente, mas antes de sair disse a Aníbal:

– Daqui a pouco o doutor vem ver o senhor taradinho. E saiba que está

tudo anotado na plaqueta. Tudinho!

E foi embora. Não deu dois passos no corredor e voltou, abriu a porta

para um último recado:

– E da próxima vez quem vai atender aos pedidos de Sua Excelência

(disse em tom de galhofa) é um enfermeiro. E recitando bem alto e

detalhadamente todas as sílabas:

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– EN - FER - MEI - RO! VIU? EN - FER - MEI - RO!

Era mentira. Ela mesma – a pedido do paciente – atendeu Aníbal até

que tivesse alta. Foi seu confidente e guardou todos os segredos e confissões

que se faz nesses momentos. Disse que era segredo essa fase de sua vida?

Na verdade era vergonha mesmo. Vergonha de ter sofrido um derrame, de ter

ficado semi-paralítico. Medo e vergonha de ser chamado de inválido o resto de

sua vida. Por isso, pouquíssimas pessoas souberam o que ele sofreu.

Por outro lado, essa vergonha também serviu (e muito) para alimentar

com o necessário rigor a força de vontade que o faria recuperar-se

rapidamente. Logo estava de novo em atividade e assistido por excelente

fisioterapeuta recuperou-se de todo. Aparentemente não ficaram seqüelas

físicas,, mas todas as horas mortas entre o zumbido e a claridade exuberante

do quarto, se fixaram para sempre, transformadas num enorme vácuo da sua

existência.

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Capítulo 6

A alma cai pelo amor em imensa ruína

―Não acredito nem vou julgar

Você sorriu, ficou e quis me provocar

Quis dar uma volta em todo mundo

Mas não é bem assim que as coisas são

Seu interesse é só traição

E mentir é fácil demais.‖

Dado Vila-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá

Ainda lembro bem a Gardênia do último dia em que a vi antes de viajar.

Pousava os braços cruzados sobre o peitoril da janela e despejava no

deslavado verde dos olhos pressentida saudade. Sentia-me soldado partindo

para a guerra como nos filmes de Hollywood: "a despedida da mulher amada, a

dúvida sobre o regresso com vida, ignorância sobre todas as coisas que

aconteceriam daí por diante", cenas que muitas vezes vimos nas telas.

Uma leve e irreconhecível dureza antevia-se no seu semblante, pois

dizem os astrólogos que aos arianos sãos concedidas, simultaneamente, a

suavidade da pluma e a frieza do aço. Foi um encontro inútil, um papel

desconsolado o meu. Movia-me sem palavras diante dela – sequer fui

convidado a entrar em casa! – e tal e qual diretor que rege a cena, Gardênia

soube com talento deixar minha principal aliada – sua mãe – isolada da

situação.

Pelo menos dona Rosa dava sinais, embora com alguma tristeza

estampada nos olhos, que compreendia a importância do passo que estava

prestes a dar. Mas agora devo friamente reconhecer que Gardênia é quem

estava certa. Com aquela intuição que só às mulheres é concedido ter, ela

tornava profética a despedida, tratando-a como final de tudo, definitivo

rompimento de todos os elos, encerramento de qualquer ligação sentimental.

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Disse-me tudo isso com palavras suaves, de modo claro, o peito arfando

normalmente, sem mostrar quaisquer emoções: dali pra frente, o fim. Sabia

quando ficar fria para proteger-se do ataque emocional.

Daí pra frente todas as tentativas de reaproximação à distância através

de cartas ou telefonemas se tornaram inútil. Consegui manter certa

assiduidade nos cartões comemorativos, aniversário, natal, até mesmo

relembrando certas datas que considerava importantes em nosso

relacionamento, mas apenas obtive repostas isoladas de dona Rosa,

provavelmente ocasiões que Gardênia não conseguira interceptar a

correspondência diretamente das mãos do carteiro.

De princípio não pude atinar com a idéia, levava adiante todos os

planos, mas o carrasco tempo foi passando (a cidade grande realmente engole

todas as sobras de sentimento) e tudo dentro de mim foi imperceptivelmente se

desmanchando. Alguns pedaços ficaram em Espinho, provavelmente

arrastados ao vento, como as ondas da praia arrastam as pequenas

edificações de areia que as crianças fazem.

Era difícil esse pedaço sentimental da vida porque não surgia outra

mulher que pudesse fazer-me esquecer Gardênia. E ela foi ficando por ali

mesmo, residindo nas minhas particularíssimas ruínas, que nem o danado do

tempo com suas ervas daninhas tão úteis não conseguiu jamais encobrir.

Foi ficando, foi ficando, guardadinha num canto, baú de esperanças que

todos e qualquer um particularmente tem, para trasladar-se de repente em

importante segmento de possível retorno, sem mentiras: cheio de ilusões,

erigido sobre a inacreditável possibilidade de poder recuperar o amor por si só

definitivamente destroçado há tantos anos.

Pude ver como a ilusão, a esperança e o amor, aliados e trançados

como peça de crochê, podem medrar imperceptivelmente até chegar ao ponto

de tornar impossível a erradicação sem sacrifício do terreno que serviu de

canteiro. Ou do coração que serviu de estufa, do corpo que serviu de adubo.

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Até do riso e do prazer que se serviram da água a ser derramada para quem

dela precise, sobre os lábios de quem tem sede.

E mesmo aqui, nessa proximidade abrasadora, esse sentimento aflora

desapiedado ao som e olfato da presença de Gardênia, e posso perder-me por

todos os caminhos do mundo, posso ir e vir, tornar e retornar – e sei que ele

estará ali num canto qualquer como vírus que repousa para novo ataque – e

que surgirá desavisado, em horas e locais impróprios.

É um ponto quente, cujo calor às vezes fogo sinto sobreexistir em mim,

sinto surgir em mim em qualquer parte do corpo e sei que é ele, sei que está

vivo, latente, dominador.

Passávamos pelo portão enrugado e podre de uma velha estância. O

mato tomava conta de tudo. Reconheci logo o "Sítio Saudade". Mostrei minha

alegria a Mário, mas ele me desanimou. Era sim, era o "Sítio Saudade", onde

muitas vezes percorremos nos fins de semana. Mas agora estava abandonado,

tombado pelo patrimônio, prometendo ser centro de cultura e folclore.

O Barão morreu, a Duquesa ficou caduca e quase centenária faleceu.

Filhos e netos não chegam a nenhum acordo. Mas todo mal tem seu bem: o

bosque estava intacto e crescia, largado à própria natureza e com esse

abandono ficava mais bonito. A natureza toma conta das suas coisas se o

homem não meter o bedelho. A conversa cheirava confissão:

– Disse-me que quer casar só pela beleza da liturgia religiosa e dar essa

alegria à mãe.

– Já ouvi essa história, meu camarada. Primeiro: não vais encontrar

igreja que case só no religioso, a não ser essas novas seitas que todos sabem

ser picaretagem. E aí não vai ser liturgia, mas palhaçada mesmo – e ela não

vai concordar.

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– Mas ela fala com tanta sinceridade que fico com pena. Afinal a alegria

das mulheres não é essa?

– Segundo: depois do papel passado cria-se essa fantástica fantasia

chamada "comunhão de bens" que na verdade é a comunhão dos corpos e da

própria alma. Quando o padre ou o juiz sentencia o "até que a morte os

separe", não é sobre outra coisa que está falando, mas exatamente sobre a

"comunhão‖... E por ela muitas mulheres mudam radicalmente e ai de ti, meu

mano !

– Concordo que esse negócio de casamento é ultrapassado, falido

mesmo. Não acredito em nada que tire a liberdade e é evidente que o

casamento tira a liberdade de, pelo menos, duas pessoas.

– Estirados no mesmo liame vêm os sogros, cunhados, tios. Depois vêm

os filhos, que por sua vez já nascem prisioneiros e para os quais são

descarregadas todas as porcarias que o casal não conseguiu digerir.

– Vê só as complicações que o casamento dá! Como fui me meter nessa

enrascada? Pior é que não sei como sair dela... E tem mais: praticamente já

estamos casados...

– Complicações como essas são exatamente as que as mulheres jamais

deixam passarem despercebidas, como nós homens fazemos. A gente não liga

pra nada: monta apartamento, convida amigos e inimigos, toma um porre, vai à

igreja e quando acorda está ressacado e carregando na alma as maiores

besteiras que já cometeu na vida. Mas quem sou eu para mudar decisão de

alguém!

– Podia fugir pra África!

Efetivamente foi um erro. O chamado "erro irreparável" porque mesmo

que venha a separação nada é capaz de apagá-lo. Mas casei, definitivamente

casei. E a fuga para a África foi nada menos que a loucura de retornar a

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Espinho. Loucura recôndita, escondida, inconfessável. Loucura que veio com

prazer e doçura, fuga que não tem distância nem medida. Pouco de liberdade

entre elos da cadeia.

Esse é um gozo que nem mesmo essa chuva insistente consegue

apagar. Alegria que veio não só com Mário, mas também ao saber do

"sofrimento" de Gardênia, gorda, desfigurada como um espelho partido,

sozinha com seus bombons, namorando astros de TV. Vê-la assim não deixou

de me dar um desavergonhado e mórbido prazer de rejeitado.

No mar de entulhos, lama e desolação que se transformou Espinho com

a tragédia das chuvas e da enchente me restaram pequeníssimos prazeres.

Sentir que a amizade de Mário confirma-se com determinação de sermos

amigos para sempre.

É justamente assim como a sinto. Prazer em rever Gardênia, tão

dinâmica, casada, mas livre, mulher, bem mulher, que o tempo só faz crescer.

Saber que não era afinal a mulher de mármore que vira no cemitério e que os

rumos das nossas vidas se encontraram numa impossibilidade de paralelas.

Que afinal, afinal nos amamos quando esse sentimento não tem alguns

pejos nem carrega interesses que o chamado "relacionamento oficial" provoca

– é puro sentimento, só tem necessidades.

Tive também a ventura de ver fantasmas de velhos amigos circulando

por ali nos becos estreitos e úmidos, nos casarões abandonados da velha

cidade de Espinho, de azulejos moldurados de limo, parceiros da velha

Duquesa.

Na minha imaginação e sonhos, nas narrativas realistas de Mário,

reviveram os terrores das lendas de bichos fantásticos; dos maus tratos a

escravos que viraram santos e zumbis; das construções cujo barro era

composto com sangue humano para dar melhor e mais durável liga.

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Mortos e vivos, semimortos e desaparecidos, gente que mesmo aqueles

que conviveram sempre ao seu lado se olvidaram, de mim tiveram lembrança e

acenaram com suas mãos nevoentas um afetuoso e sereno adeus.

Ainda assim é difícil falar sobre esse "caminhar para trás" que

mentalmente iniciamos ao pressentir um sinal qualquer que sirva de gancho,

referência, anzol que puxa todo um cardume de memória, pororoca que tudo

arrasta numa torrente sem fim, fatos, pescadores fazendo arrastão. Inexplicável

como o silêncio das fotografias que dizem mais que mil palavras.

Já me vejo pisando o asfalto quente das avenidas no verão que me

farão esquecer definitivamente as ruas tortuosas, becos musgosos, calçadas

de pedras lisas, paredes azulejadas e limosas da velha Espinho. Depois que

tudo isso terminar e a realidade crua mais uma vez tudo encobrir com lençol de

cambraia.

Depois que tiver de voltar ao trabalho sem nenhuns dos sonhos

realizados me vejo por fim gozando a mesma ventura que se abateu sobre o

velho Osvaldo, funcionário exemplar de mais de trinta anos de casa, que

terminou seus dias emborcado sobre a própria mesa de trabalho, vítima de

enfarte fulminante.

É preciso morrer várias vezes para pensar assim.

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Capítulo 7

Neste exato momento

―Meu coração tá batendo

De amor e de cansaço

Saudade do abraço

Do morno regaço

Onde eu deixei

Um pedaço de mim.‖

Samuel Rosa /Chico Amaral

Os noticiários da TV, do rádio e dos jornais constantemente

interrompiam a programação normal para anunciar, com destaque, o

desenrolar da situação dramática provocada pelas enchentes em toda região.

Detalhavam vários desmoronamentos, contavam as vítimas, enumeravam os

desabrigados pelas chuvas. Emissoras mantinham equipes permanentes nos

locais onde a situação era mais grave, expedindo boletins em horário

extraordinário sempre que algum fato mais grave ocorresse. Bombeiros,

equipes de defesa civil e de assistência social trabalhavam com afinco, dia e

noite, em constante revezamento.

Histórica e geograficamente a cidade não favorecia as enchentes, a não

ser nas partes ribeirinhas. Por isso mostrava-se desaparelhada para suportar

tanto volume de água caindo de uma só vez. A população, que sempre teve

uma vida tranqüila, tampouco tinha capacidade de prevenir-se contra tragédias.

Todas essas informações que vinham de um passado distante fazia impossível

alguém prever tal calamidade, que não constava nos anais da história da vila

de Espinho. Somente os ciganos, as videntes e animais de rapina sabiam da

verdade futura.

Como conseqüência o dilúvio criara locais inacessíveis a pedestres e a

veículos comuns. Quem tinha seu barquinho, sua canoa, podia movimentar-se

em busca de alimento, salvando vidas. Os desabrigados já somavam milhares

e estavam alojados temporariamente em barracas, escolas e quartéis. Quando

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a população aumentava muito, por falta de espaço ou em caso de doença eram

mandados para abrigos e hospitais das cidades vizinhas. Em alguns desses

municípios os prefeitos decretaram estado de calamidade, o que provocou

imediatamente a mesma medida por parte das autoridades de Espinho.

Parecia tragicômico que naquela região se clamasse aos céus durante

todo o ano por um poucadito de água e agora as rezadeiras votassem nas

novenas orações fervorosas em favor da seca, da estiagem, esquecidas do

estado lamentável que ficam também nessas ocasiões.

Lágrimas se confundiam com tanta água que caía, jornais e rádios

anunciavam impiedosas notícias que mais chuvas viriam – segundo dados

obtidos nos serviços de meteorologia. Ante tais notícias boatos se espalhavam

levando os mais crédulos a acreditarem, com piedoso fervor, num novo dilúvio

bíblico. E que, portanto, quarenta e cinco dias e quarenta e cinco noites ainda

iam chover abundantemente.

Espinho vivia envolvida por baixas e pesadas nuvens que pareciam

pedaços negros de algodão embebidos em água. Um feto natural e pulsante

envolto no ventre da terra, mergulhado no líquido amniótico da natureza.

A pedido de Aníbal mandaram colocar uma rede de dormir no

apartamento em que ele estava hospedado. Entre uma saída e outra de Mário

– que não podia deixar totalmente de lado seus afazeres profissionais – Aníbal

estirava-se na vastidão macia dos fios de algodão e conseguia descansar um

bocadinho, para logo em seguida levantar-se com dores no pescoço,

provocadas pelo incômodo que a rede causava.

Depois de tanto tempo sem deitar em rede sofria da falta de prática.

Acovardou-se, preferiu refugiar-se no colchão de molas – outro objeto que

Aníbal não mais usava no Rio de Janeiro, aterrorizado pelos ortopedistas com

ameaças quase sempre destinadas a deixá-lo paralítico ou a fazê-lo sofrer da

coluna eternamente! Mas sentiu falta do ranger do gancho que segurava a rede

e que era música de ninar dos tempos de infância.

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De fora vinha o barulho constante que a chuva fazia ao encontrar-se

com as águas do rio. As gotas batendo no chão e na vidraça ecoavam como

aplausos de uma enorme platéia e esse eco parecia deixá-lo bem mais próximo

da tragédia do que realmente estava, fazia-o considerar a situação mais

catastrófica do inicialmente julgara.

Volta e meia repensava o significado da sua presença ali naquele

momento. Que forças misteriosas tinham-no atirado no passado em

circunstâncias tão particulares que resistiam a todas as análises e digressões?

Por que fora levado até Espinho? Aníbal foi levado ou caminhou até ali pelos

seus próprios pés? Contra todas as suas idéias e afetações, de fato atuaram

forças incontroláveis ou não?

Iludido pela distância e pelo lusco-fusco deixado pelas gotas, Aníbal

imaginava ver objetos – camas, cadeiras, mesas, cadáveres inchados de cães,

gatos e outros animais – passarem flutuando nas ondas violentas da

corredeira, para encalhar em qualquer canto por aí, apodrecendo e sujeitando

a população a doenças inimagináveis. Esse temor refletia a imagem do boi de

enormes chifres, morto pela enchente, com o corpo enormemente aumentado

pela inchação, que passou um dia no noticiário da TV, deixando-o com medo

de tragédias maiores.

Ver aquelas casas tomadas pelas águas raivosas, ocupantes sendo

inexplicavelmente expulsos, trouxe a Aníbal de volta uma antiga impressão

religiosa, de provável antepassado bíblico: alguém da comunidade tinha

cometido pecado grave, que hoje toda a população estava pagando. Pelas

razões que todos conhecem, a parte pobre da população é a que mais sofria,

entregando-se às dores provocadas pela tragédia com a lassidão e passividade

dos fiéis. Deus quis assim. Imaginava Aníbal, sobrepondo-se ao tempo e ao

espaço, como deve ter sido terrível para a inocente mentalidade dos antigos o

castigo do dilúvio universal!

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Olhando o teto de onde linhas enverdecidas surgiam como a veia do

corpo, deixava vagar o pensamento atropelando inconformismo, respostas

incoerentes, questões inanimadas. Cochilou e imaginou estar mergulhado,

respirando com dificuldade, como se dentro de água grandes bolhas de

oxigênio flutuassem entre o líquido. Água e óleo, essa a imagem: água e óleo

agitados num frasco. As bolhas de óleo fragmentam-se e não podendo se

misturar ficam flutuando no corpo todo. Só que não era óleo, era oxigênio, ar, o

que permitia nadar-se eternamente mergulhado, sem voltar à tona, vivendo

imerso para todo o sempre. Com essa sensação Aníbal voltou è realidade.

Ficou nesse meio termo, entre o sono e o despertar, bastante tempo.

Vinha de longe, varando toda a chuva, de bem longe, passando por cima

de toda a miséria do desabrigado, o cheiro do manguezal que recebia o rio

bem lá embaixo, antes de jogá-lo no mar. Era formado por uma restinga que

abrigava milhares de aves aquáticas: garças, jaburus, guarás, maçaricos, que

faziam daquele local seu santuário, seu abrigo. Ali vinham se alimentar de

pescados, mariscos, caranguejos, siris. Tudo arborizado pelos pés de mangue

de folhagem verde e raízes que eram como pernas vermelhas entrelaçadas,

muitas vezes intransponíveis, enterradas na lama negra.

Quando a maré enchia em preamar as águas do rio represadas faziam

subir o nível até alcançar as calçadas das casas dos pescadores. As águas

depositavam ali pedaços daquele manguezal. As cabanas eram construídas

bem na margem, de tal modo, era possível os moradores deixarem os saveiros

ancorados no atracadouro ao longe e descer navegando comodamente de

canoa até a porta da casa, onde ficavam atreladas como se fossem animais de

cavalgadura.

As mulheres e crianças mantinham permanente vigília mirando ao longe

aquela viagem que as água doces faziam rastejando, rastejando, de mansinho

até chegar a seus pés, calmas e carinhosas. Esse passado parecia distante e

bem diferente do que acontecia hoje. Os olhos das mulheres diziam tristezas e

uma leve esperança da chuva parar, das águas finalmente baixarem para

poderem contar os prejuízos, voltar para casa.

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Dia após dia, noite após noite, nas moradas improvisadas em barracos

militares montados em fila no alto do morro, rezavam essa esperança, não

voltada para os céus nem para santos específicos (embora soubessem que era

São Pedro o encarregado da torneira do céu...), apenas esperando

pacientemente que a natureza se calasse, as águas se acalmassem e o rio

voltasse a ser rio, deixasse aquela besteira de se fazer de mar.

Que o rio se fizesse bonzinho e perdoasse as gentes da terra terem

invadido seu território, tomado posse de suas margens – que é próprio do

homem ser pirata de si mesmo, aventureiro na sua própria terra, mas pescador

nas águas alheias.

Assim mergulhado nesse ambiente viveu Aníbal grande parte da manhã

onde esperava iniciar os almejados tempos que iriam permitir desfrutar

fantásticas férias num paraíso de sol, praias e mar. Mas tudo agora parecia se

transformar num sonho, o mesmíssimo sonho que o levou à agência de

viagem, ao pecado do retorno violando aquela antiga promessa (seria essa a

causa do castigo?). Apenas o amigo, o velho amigo Mário, conseguiu furar

essa barreira e chegar até ele. Agora era Mário também a única esperança de

que um pedacinho mínimo daquele projeto se salvasse.

Todas as demais notícias ele sabia por saber, por ouvir dizer. Mário

mesmo sendo seu amigão não deveria ser explorado, apesar de não se queixar

do pouco tempo que tinha para dedicar a Aníbal.

Havia dito que com chuva ou sem chuva, com dilúvio ou sem dilúvio, o

tiraria do ninho para rever as pessoas, os amigos de infância, aqueles lugares

que tinham percorrido juntos – e tudo faria para cumprir a promessa. Sendo

fatalista com suas amizades (PARA OS AMIGOS, TUDO! PARA OS

INIMIGOS, O FOGO DOS INFERNOS! Costumavam berrar os dois em

uníssono aquele grito de guerra), Aníbal aceitou a interferência dispensando,

porém, algumas visitas desimportantes. Numa dessas idas e vindas Mário

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deixou claro que não acreditava que Aníbal tivesse vindo a Espinho somente

para ver a chuva...

– Queria mesmo era te falar dela, de Gardênia, ainda te lembras? Tipo

de pergunta que não deveria fazer, bem sei. Como poderias esquecê-la?

Ninguém consegue esquecer uma mulher daquelas.

Aníbal conseguiu dar um sorriso. Aquele Mário! Bem que sabia levar as

coisas e sendo amigo incondicional tinha toda liberdade do mundo para tratar

sem melindres qualquer assunto. Quando jovens foram confidentes, todos os

problemas eram passados de um para outro. Até mesmo questões de família,

dúvidas sexuais, difíceis naquela época de se comentar, eles discutiam

abertamente.

Amores, nem se fala! Cada conquista, cada paixão, cada sensação nova

era imediatamente levada ao conhecimento do outro para que pudessem os

dois gozá-la juntos. Difícil também algum deles tomar decisões sem consultar o

outro. E isso valia para qualquer questão, mesmo no âmbito da família. Bem

verdade que a vida sem prévio aviso os separou, jogando cada um pro seu

lado, mas quando precisava alguma comunicação ocorria.

– Ainda mora junto com a mãe, solteira – dizem as más línguas que

enviuvou virgem. Mas tem tanta coisa que eu poderia te contar, mas não quero

estragar teu prazer. Te levo lá, preparo antes a visita, depois te pego e trago de

volta para o hotel. Nenhum toró, nenhum dilúvio universal vai impedir de rever

a tua paixão. Concordas comigo?

Aníbal nem pensou em se defender do amigo, tantas eram as evidências

que denunciavam nele o desejo de rever Gardênia. Foi só Mário pronunciar a

primeira palavra mágica e de repente seus olhos começaram a brilhar com

maior intensidade. Afinal aquela visita era um dos motivos subliminares que

tanto estimularam a viagem. Imperdível.

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E Mário num ponto tinha razão: nenhum dilúvio iria impedi-lo de rever

Gardênia. Mas não conseguia por na cabeça sobre qual fato Mário se referia.

Decerto acontecera algo que o amigo não queria antecipar, já que Aníbal iria

saber diretamente. Isso aguçou ainda mais a vontade de reencontrar Gardênia.

Tudo começava a embatucá-lo, deixá-lo mais confuso ainda, mas na

verdade nada iria mudar: ia reencontrar, depois de longo tempo, seu "grande

amor". Outra realidade é que logo depois teria que repetir o gesto, virar as

costas e a página na qual o destino tinha escrito aquele capítulo da vida dele.

Aníbal gastava os pensamentos procurando imaginar como Gardênia

estaria. Mais gorda? Mais magra? Teria rugas no rosto outrora tão liso e

macio? O sorriso seria o mesmo? Os olhos, esses não mudariam, tinha

certeza. No entanto nada conseguia desenhar além da imagem indelével que

ficara há vinte e tantos anos atrás, quando a viu nua no banho, a água morna

despindo a roupagem de espuma que escorria pelo corpo rumo ao chão

formando nos seios, no ventre, na bunda, desenhos geométricos, plantando

mapas nas reentrâncias como a mostrar quais as regiões mais desejáveis,

relevos e recantos escondidos. Nunca Aníbal havia acariciado alguém à

exaustão, sem nada tocar, somente os olhos vidrados de prazer. Pois esse

retrato foi o que ficou de Gardênia e nada seria capaz de apagá-lo.

O amor entre Aníbal e Gardênia refletia o próprio sentido da vida, que

ambos arriscavam e que podia ser desenhada assim: marca-se um ponto em

algum lugar inimaginável e em seguida inicia-se o traçado de uma reta. O traço

que sai à mão livre é sempre irregular, mas o ponto de onde a ponta do lápis

partiu é fixo, é o presente. O traço que segue vai se transformando em vida

vivida e logo em seguida em passado. A linha que ainda não veio é o futuro. À

medida que o traço avança mais distante fica o ponto e a fonte da linha que

continua a crescer a cada instante.

O presente é aquele ínfimo momento em que a grafite passa deixando a

marca: é um fragmento atômico extremamente efêmero. E o futuro, bem, este

está tão próximo do riscado que virá quanto distante da linha que ainda não se

49

fez. Uma cigana diria que não foram feitos um para o outro. Ademais, eram

ambos arietinos e – dizem astros e astrólogos – os arietinos não se entendem

jamais.

Desencontros. Quando os tempos foram dominados pelos torturadores,

o corpo humano era a maior vítima dos abusos absurdos. Mas vendo a doçura

das linhas do corpo de Gardênia, uma brancura de seios em dunas, de coxas

de areias alvas, nádegas banhadas pelo mar, jamais ninguém contestaria o

fato de que o corpo nasceu para ser acarinhado e beijado à exaustão. Não dá

para esquecer nem mesmo a violência dos novos centuriões, xerifes de um

mundo que podem invadir e massacrar a qualquer momento. Somente o corpo

nu pode rebelar-se contra tudo.

50

Capítulo 8

O outro lado da vida, entre as juçareiras...

―Ah, quem me dera ser

como nos meses passados

como nos dias

em que tu me guardavas!

Quando fazia resplandecer

a tua lâmpada

sobre minha cabeça

quando eu, guiado por tua luz,

caminhava pelas trevas.‖

(Adaptado do livro de Jó)

O que dizer de um homem que, por vontade própria, perdeu o

sentimento da emoção? O que falar de quem toda vida cultivou um jardim de

frialdade e mais a coleção completa das suas ervas daninhas? Que falar de

alguém que em toda a sua existência procurou despistar radicalmente todos os

sentimentos? O que criticar daquele que de tal maneira se tornou insociável

que a ninguém, fosse humano ou inumano, nem a nada deste mundo ou do

outro se apegava?

Esse era o Aníbal vitimado pelo choque que o expulsara de N.S. de

Espinho ―para nunca mais voltar...‖ o retrato exato de um Aníbal revestido na

armadura medieval dos cavaleiros da Idade Média ou na couraça natural que é

a pele de um rinoceronte, supondo que assim estaria imune ao que chamava

de ―as fraquezas da vida‖.

Essa roupagem só o tornaria mais famoso entre seus amigos, que se

admiravam da frieza com que ele recebia as notícias trágicas. Essa atitude

fazia lembrar a história milenar que seria a própria história da nossa Terra.

Pensar em quantos bilhões de seres humanos já transitou pelos espaços

siderais ou mesmo pelos limites efêmeros do Planeta Terra. Nas tragédias que

marcaram o dia a dia da existência desses seres, mesmo aqueles que tiveram

os feitos narrados em epopéias pulverizadas no tempo.

51

Baseado nessa imensidão trágica que é a servidão humana, Aníbal

considerava que esses pequeninos grãos de areia que ocorriam à sua volta

não mereciam sequer uma gota de lágrima dos seus benditos olhos. Nem o

sacrifício das lamentações. Virava o fato como quem passava adiante a folha

de uma agenda diária e olhava somente para o dia seguinte.

Intimamente se vangloriava dessa circunstancial armadura que plantou

em volta de si, mas quando se via surpreendido pela catástrofe da solidão,

essa companheira desagradável que não desgruda da gente, aí sim Aníbal

lutava com todas as forças para esconder as fraturas da alma. Por baixo da

pretensa couraça latejava um coração mole no peito sensível. A batalha que se

travava tinha como objetivo esconder o velho sentimento com a máscara da

frialdade.

Aníbal sentia o quê de prazer e literalmente inflamava os seus amigos

com a ditadura da interrogação, sempre que a conversa caminhasse para o

lado que ele chamava ―a face misteriosa do homem‖. Baixava o espírito

filosófico, com o qual costumava superar os amigos no diálogo. Todos sabiam

que ele tinha suas leituras e quando falava tinha conhecimento de causa.

Citava todo um cabedal de nomes famosos e tirava do pensamento de

artistas e escritores as teses que garantiam a vitória. Sade e o fantasma da

violência na libertinagem. Mozart e a inata, precoce e talentosa genialidade.

Beethoven e a música nascida do silêncio. Os gênios precoces do jogo de

xadrez: Morphy, Capablanca, Reshewsky, Najdorf, Mecking. A memória

pianística fantástica de Arthur Rubinstein. No meio das discussões conseguia

estraçalhar o cientificismo religioso e armar uma carapaça contra qualquer tipo

de religião. Criou um dilema-chave para encerrar de uma vez por todas as

discussões sem fim: A Hipótese Deus.

Ria com a descoberta de que os cientistas conseguiam sempre montar

um quebra-cabeça inventando todas as explicações possíveis, mesmo para os

problemas inventados apenas para desmoralizá-lo. Aníbal estabelecia regras

para que a conversa fosse diminuindo até liquidar um problema

52

definitivamente. Como o círculo tornava-se vicioso, lá voltava ele com a

―ditadura da interrogação‖, segundo a qual sempre há uma pergunta sem

resposta. E ele maravilhava-se sempre com esse começar de novo...

Era notório entre seus amigos: podia-se contar nos dedos todas às

vezes em que Aníbal reagiu como um ser humano normal, sem atropelar

ninguém. Uma dessas raras vezes foi quando do enterro de Anita.

Conhecida de uma maneira absolutamente fortuita (um telefonema que caiu

por engano no número dela), Anita se transformou logo numa grande

camarada. Um telefonema errado, outro telefonema errado – e graças ao

atraso tecnológico da companhia telefônica nasceu uma grande amizade.

Passaram tempos e tempos se falando apenas por telefone e esse

contato era suficiente para incrementar a conversa, a amizade, até mesmo a

necessidade de ter um outro lado para desabafar. No entanto, mal um dos dois

se ausentava da cidade, por qualquer motivo – férias, viagem de negócios ou

não – imediatamente o outro reclamava da ausência. Fazia falta o tilintar do

telefone, mesmo para conversa fiada, mas na verdade o avanço foi tão grande

que as ocorrências, por mais íntimas que fossem, só encontravam um

interlocutor. A opinião do outro era fundamental e necessária.

Os anos se passaram alimentando esse diálogo fecundo e seria normal

que algum dia se conhecesse pessoalmente, mas nenhum dos dois tentou uma

aproximação física. Aníbal e Anita só conseguiram se encontrar no dia do

enterro. Ao dar um telefonema Aníbal soube da triste notícia do outro lado da

linha. Anita era pálida, olhos azuis, porte mediano, magra. Dissociava-se

totalmente da imagem que dela faz Aníbal. Alguns sinais no rosto indicavam

que Anita já fizera alguma plástica para assegurar os últimos resquícios de

juventude. A grosso modo poderia se estimar a idade em 50 anos, mas

mantinha um ar juvenil que sua voz denunciava.

Pela quantidade de gente que participava do enterro notou o quanto ela

era muito querida. Vendo tantos amigos e amigas em volta, lamentando a

perda e fazendo comentários sobre sua vida, Aníbal não deixou de perceber

53

quão singular fora conhecer essa pessoa, de maneira tão incomum. Ali,

emoldurada numa palidez que só se reconhece na morte, Anita refletia a

madureza de um espírito esplêndido. Agora, ali estirada num caixão, o corpo

todo envolto em flores, parecia a Aníbal que Anita o espreitava com os olhinhos

miúdos, finalmente reconhecendo o companheiro dos telefonemas solitários.

Podia Aníbal imaginar até ouvir o riso alegre de quem soube tirar da vida todo o

sabor.

Esse conhecimento que se manteve secreto até então teve grande

importância na vida afetiva de Aníbal. O tempo, a confiança e a amizade,

transformaram Anita num contato precioso para suas conquistas femininas.

Não obstante pertencer a uma igreja protestante, Anita não se importava em

servir de aliciadora voluntária e volta e meia apresentava novas mulheres para

encontros amorosos. E delas Anita só exigia que contassem tudo, não só o que

havia ocorrido amorosamente, mas o principal: como era Aníbal, o que

pensavam, qual a opinião sobre a personalidade dele. E juntando esse puzzle

peça por peça Anita finalmente elaborava o retrato de Aníbal.

Eles se amavam mantendo essa atividade secreta: ela satisfazendo

todos os seus gostos e zelando pelas amizades femininas, ele enchendo-a com

as narrativas amorosas que detalhavam os encontros, as paixões, os

desencantos.

Por exemplo, foi Anita quem manteve acesa a magia do azul-e-branco,

que Aníbal trouxe desde a juventude. Habituado a ver as estudantes

normalistas saírem da escola ao lado da sua amada, Aníbal chegou trazendo

num esconderijo da alma o pecado de uma paixão impossível por uma garota

de 11 anos. Estudante ainda, conhecera-a na saída do colégio.

Aquele uniforme formado com a saia azul e blusa branca mexeu com

seu coração adolescente. E a partir desse dia jamais faltou a esse ―encontro‖

unilateral, transformando-o de casual em definitivo e daí numa provocação ao

namoro. Era Gardênia. Filha de família tradicional, que naturalmente seria

preparada para vôos mais altos que os limites de Aníbal.

54

E numa idade que ninguém a julgaria prepara para qualquer aventura

amorosa, muito menos ainda com um pirralho qualquer. Mesmo assim – ou até

pela incapacidade de julgar as coisas de maneira formal – Aníbal não se

conteve e tentou realizar-se na paixão. Agindo sem pensar (e pensar nessa

altura seria desastroso), Aníbal se jogou de corpo e alma a esse primeiro

grande amor da sua vida e tudo enfrentou para ganhar o carinho dos olhos

negros de Gardênia, poder acariciar os cabelos escorridos de Gardênia, sentir

na sua boca a maciez dos lábios naturalmente vermelhos de Gardênia, opor

seu corpo moreno à brancura da pele de Gardênia...

Para aumentar seu desespero, descobriu que era correspondido.

Evidentemente tudo não aconteceu, a não ser uma troca de olhares e um ou

outro encontro fortuito, até que a família descobrisse o segredo. Esperança,

ilusão, tudo não realizado, antes de serem separados. Mas se nem se uniram,

por que essa sensação de separação?

Olhares, desejos, longos apertos de mão nas despedidas, bocas que

não se queriam desgrudar ao calor das separações nos encontros furtivos.

Flagrados no amor de demorados abraços, os corpos seminus abrasados se

tocando. A tática da época no amor, a estratégia na separação: Gardênia foi

mandada para longe, a um lugar não conhecido, para casa de parentes. Aníbal,

o que ficou, foi ameaçado, agredido, discriminado na escola. E em que pese

toda fantasia do que foi e do que não foi, para Aníbal aquele foi o ―grande amor

da sua vida‖. Essas circunstâncias o obrigaram ao mesmo exílio involuntário.

E quando chegou ao Rio de Janeiro só que carregava daquele pesadelo

era o sonho do azul-e-branco. Também no Rio a grande maioria das

estudantes usava esse tipo de uniforme e Aníbal as via passar em grupos

saindo da escola e essa presença era tão forte que ele chegava a ouvir mesmo

o farfalhar da anágua sob a saia. Coisa de cinema...

E foi Anita quem mais entendeu a sua obsessão: o ―grande amor das

nossas vidas‖ existe, não é uma ficção de novelas e romances, de cinema ou

55

televisão. Profundamente abalada com a gravidade do estado de Aníbal,

encontrou uma solução sui generis: procurou entre as amigas aquelas que

ainda estudavam e fazia questão de apresentá-las usando o tradicional

uniforme azul-e-branco. E, voluntariamente ou não, foi Anita quem o curou, se

não do trauma do ―primeiro amor‖, ao menos da obsessão do ―azul-e-branco‖...

Aníbal um dia descobriu que as normalistas de Anita não eram

verdadeiras. Ela, para agradá-lo ou para curá-lo, chegou ao cúmulo de inventar

estudantes e vesti-las de azul-e-branco para apresentar a ele! Aníbal descobriu

a calou: era um segredo que ela não quis participar e ele respeitou essa

circunstância.

O enterro de Anita foi um dos raríssimos casos que afetaram o

sentimento de Aníbal com a emoção que ele mesmo qualificava de ―barata‖.

A não ser isso, costumava guardar todo sentimento numa masmorra

privada, um canto qualquer da alma que imitava aqueles lugares escuros das

salas de cinema onde um melodrama também se mostrava capaz de arrancar

algum sentimento dele. Volta e meia, num cinema ou teatro, Aníbal permitia

que algumas lágrimas furtivas enchessem seus olhos e corressem pela cara

abundantemente, como se furassem uma bola de gás cheia de água.

De tais dramalhões em geral costumava fugir, temendo as piores

conseqüências, imaginando suicídios e catástrofes. Mas não conseguindo

evitar que todos os casos terminassem como ele esperava, volta e meia

esbarrava com os dramas do cotidiano. Agora ele a via ali à sua frente, as

mãos juntadas, hirtas, os dedinhos alvos entrelaçados repousando sobre o

peito chato e tinha uma esperança absurda de vê-la abrir os olhos e,

reconhecendo-o, cumprimentá-lo efusivamente como a um velho amigo.

Era inexplicável que isso acontecesse, mas acho que é um sentimento

comum a todos que vão a enterros: a esperança de ver o peito ofegar no ritmo

normal e cadenciado da respiração.

56

Mas a realidade era outra. Nada se movia naquele corpo, nem mesmo

para espantar a mosca que insistia em incomodá-lo.

Aquela imagem, incompleta, mas respeitada, que tinha de Anita, foi

corrigida com os comentários elogiosos ouvidos entre os presentes ao redor e

deu a Aníbal a chance de adicionar algumas peças à imagem que tinha

daquela grande e insubstituível amiga que tinha perdido.

Antes de fecharem o caixão, colocou uma vez mais os dedos sobre as

mãos ossudas serenamente repousadas de Anita e não mais se moveu. Ficou

estático vendo o féretro seguir até perder-se entre as aléias do cemitério.

57

Capítulo 9

Eu sou a água

―Se tu quiseres saber quem eu sou...

Me dá a tua mão

Vem viver, vem lutar lado a lado

Desarme as armadilhas, não me peça

explicação

O filme favorito, o time do coração.‖

Humberto Gesinger/Paolo Casarim

As pessoas nos miravam e ficavam imediatamente hipnotizadas com

aquele espetáculo da natureza. Era uma quarta-feira. Ou seria segunda-feira?

Aquele show improvisado, enfeitando o ambiente lá fora, muito som, ruídos

entranhados de suspiros, tudo se transformava num caminho legal inventado

às pressas.

Ao mesmo tempo o casamento do casal pequeno se realizava no porão.

Sem dinheiro, o jeito era comer em pensões caseiras, o China, o Japa, o

Patrício — e todos compreendiam que o que tínhamos mal dava para pagar o

almoço, que vinha com um copo de refresco e um pedaço de goiabada com

queijo minas como sobremesa.

A chuva caía fartamente pela vidraça. Na rua a água imitava veios que

se mexiam loucamente em várias direções, fazendo pequenos rios desenhados

assimetricamente descerem pelo meio-fio numa incontrolável carreira. A

esquadria da janela, feita nos moldes antigos, de madeira, estava praticamente

encharcada e da pintura saíam pequenos filetes verdes de musgo.

Da janela do apartamento de fundos do hotel (exigência de Aníbal), dava

para ver toda a rua lá embaixo. Era uma ladeira velha conhecida, bem que ele

se lembrava, porque incontáveis foram os dias que ali percorrera na infância e

na juventude. Descia íngreme e tornava-se perigosamente escorregadia nos

dias chuvosos pelo limo que acumulava. Intercalada por escadarias de largos

58

degraus, feita em pedra de cantaria, decerto já carregando alguns centenários

de anos.

Aos primeiros sinais de chuva a ladeira ficava gosmenta, perigosa,

intransitável, capaz mesmo de provocar sério acidente a quem não conhecia

seus segredos. As pedras lisas viravam sabão literalmente e os tombos,

quando não eram graves, provocavam cenas ridículas de cinema mudo.

Para descer a rua sem se acidentar o pedestre tinha que se esgueirar

pelas calçadas bem rentes às paredes, coladinho ou então saltar de pedra em

pedra, pisando nas partes sem limo, menos atingidas pela água.

Naquele momento, a correnteza formada mais parecia cena de cascata

— Sete Quedas, Paulo Afonso ou Niagara em miniatura — tal a velocidade e

as quedas de água provocadas pelos altos degraus. Se não fosse realmente

perigoso, era bonito de se ver...

Aníbal lembrou-se que passava ali, mas com que destino? Com que

finalidade? Não encontrou de imediato a resposta. Mais parecia-lhe desses

passeios sem destino que adolescentes costumam fazer por locais onde

alguma aventura pode acontecer. Mãos nos bolsos, bolas de gude, atiradeira,

livros escolares carregados por obrigação com desdém. Sim, essas figuras

pareciam-lhe possíveis, mais próximas da realidade.

A rua ia dar lá pelas bandas da Praia Grande, que na verdade era uma

enseada formada pelo areião onde o rio fazia uma curva. Lá havia certamente

o comércio primário atacadista de gêneros alimentícios, verduras e frutas.

Pescadores também desaguavam ali produtos e estórias do mar. Mais adiante

tinha um velho cais de pedra onde atracavam os barcos trazendo gente e

produtos do interior mais distante: cachaça, farinha, juçara, milho, mandioca,

arroz.

A paisagem era aquela, a mais bonita e típica daqueles lugares: barcos

com velames enroladas, enfileirados lado a lado, práticos ajustando serviços e

59

derrotas, marinheiros recuperando velas costurando aqui e ali, calafates

tapando as frestas que as ondas do mar abrem com seu martelo de água a

bater constante e indefinidamente.

Os pintores de ocasião improvisavam uma demão extra e escreviam

caprichosamente, com rudimentar arte, as letras do nome de batismo da

embarcação: ESTRELA DO MAR, FLOR DE ROSARIO, REI DE RIBAMAR,

FILHO DE SÃO PEDRO. À vista dos mestres, os ajudantes atiravam baldes de

água em toda a cobertura do saveiro, para que a madeira não ressecasse sob

o calor do sol a pino do meio-dia. Ali mesmo alguns marinheiros desocupados

fumavam cachimbo à espera da próxima aventura.

Aníbal reviu através da vidraça embaçada pelas lágrimas do tempo esse

mesmo menino andando por ali, descendo as ruas assoviando uma canção

qualquer, as mãos roçando nas paredes enverdecidas de limo, caminhando

despreocupado da vida. Parava num canto qualquer, para, de longe, olhar todo

esse quadro de estivadores movimentando-se com a sacaria de arroz, paneiros

de farinha de água nas costas suadas, soltando gritos e palavrões, cantando

quadrinhas imorais e picarescas. Parecia um quadro de Portinari.

Lembrou-se à continuação que esse garoto presenciara uma ou várias

brigas entre esses homens de natureza forte, de braços e músculos

acostumados ao peso de sessenta quilos que cada saca de arroz

representava. E de repente entre os valentões surgia uma faca peixeira

riscando o chão a soltar faíscas no seu caminho. Agora a memória fugidia

misturava fatos e fantasias, não se lembrava dos detalhes. Forçava a cabeça

para reconstituir aquelas cenas de sangue. Pareceu que algum dos

contendores fora esfaqueado e logo uma multidão de gente surgiu para separá-

los.

A polícia habitualmente mantinha-se à distância, não costumava

freqüentar aquele reduto peculiar, deixando-o com suas próprias leis de

natureza perigosa. Mas foi chamada e como sempre acontece teve que intervir

60

com violência levando-os, agora vítima e agressor, presos para o distrito.

Geralmente um era hospitalizado e o outro, já de sangue frio, solto sob fiança.

A roda que assistia a luta se desfazia, não antes de iniciarem-se novas

discussões sobre quem tinha ou não razão, quem foi mais valente e honrado.

Desta vez entre os torcedores de um lado e outro, poderia acontecer novo e

sangrento confronto. Prevalecia, porém, o bom senso — a polícia não

costumava ser generosa ao enfrentar dois problemas idênticos e no mesmo

local. Acreditava-se desafiada, desobedecida, com todo o direito, pois, de agir

mais violentamente ainda.

Aníbal não conseguiu ver mais nada. Provavelmente misturava essa

com outras brigas e tudo se confundia na sua lembrança. O menino deve ter se

afastado daquele local, mas tais brigas e vinganças eram vistas como coisa

comum entre aquela gente bruta, desacostumada de finuras e gentilezas.

Pessoal rude que mesmo o tom de brincadeira era enfurecido e grosseiro.

Nunca se sabia quando eles estavam brincando ou brigando. Muitos lutavam

entre si apenas para exercitar os músculos, mostrar agilidade e destreza, por

isso muitas vezes o que começara como divertimento desembocava em briga

feia.

Animava-se Aníbal nesse exercício de memória e lembrou-se que de

fato muitas vezes freqüentou aquele lugar. Andou por ali perdido em

pensamentos, pensamentos que agora não lhe vinham à cabeça, coisas que

faziam parte de um passado definitivamente esquecido, mas que estavam

gravadas na sua mente.

Nessa confusão, acontecidos surgiam através da chuva: Aníbal se

lembrava vagamente de uma igreja velhíssima, quase em ruínas, da qual as

águas do rio vinham beijar os degraus todas as manhãs na preamar. Mas era

uma lembrança apenas, sem qualquer indício de veracidade. Talvez

devêssemos julgar que essa proximidade física com o passado era

responsável por levar Aníbal a lembrar vivamente de tudo aquilo,

61

transformando em realidade o que era apenas sonho e — porque não — o

sonho em realidade.

Ele procurava inutilmente varar com o olhar a torrente de água que eram

aquelas chuvas parecidas, mas bem piores, com as chuvas de verão no Rio de

Janeiro, tentando encontrar lá adiante o velho porto com seus barcos à vela

atracados, saveiros, lanchas, pesqueiros, pois tinha certeza que seus passos

levavam-no até lá nas caminhadas da infância. Mas via somente telhados,

sombras, vultos de casarões.

O rio defronte continuava raivoso, apressado como o menino que fugia

do castigo da escola para não ser visto. As águas desciam fazendo marolas, o

tempo aborrecido sob o cobertor chuvoso, abraçando, com ruído que mais

pareciam urros, as ilhotas que as barrancas montavam atravessadas no seu

caminho. Mas Aníbal ainda não conseguia ver nada além dos telhados antigos

e lodosos.

Depois foi matar a curiosidade e soube pelo pessoal do hotel que aquela

parte que procurava localizar fora toda aterrada. O velho cais ainda existia, isto

é, havia se transformado em atracadouro com pequena estação coberta e

recebia lanchas que faziam a travessia do rio com passageiros e carga para o

outro lado da cidade. O demais fora derrubado pelo progresso...

Aníbal deixou de lado a janela e as recordações no quarto. Criou

coragem, desceu e caminhou para a parte da frente do hotel de onde viu

poucas pessoas se movimentando nas ruas. Apenas um ou outro teimoso

ousava enfrentar a chuva forte, pois nem os guarda-chuvas resistiam à água e

ao vento nem as capas impermeáveis evitavam que se molhassem. Alguns, por

serem excêntricos ou pobres, passavam sem usar qualquer proteção contra a

chuva e pareciam caminhar tranqüilos, sem medo de pegar doença, vestidos

com a roupa encharcada, cabelos desgrenhados pingando goteiras caindo

sobre a testa.

62

Decerto, tratava-se de gente acostumada a encarar com naturalidade

aqueles contratempos. Gente que não provocava briga com a natureza e

aceitava o que dela vem com conhecimento e passiva humildade. As pessoas

que nasceram ali não conhecem outro modo de sobreviver senão esse

cotidiano, para o qual a natureza não poupa um minuto da existência. Era

assim fatalmente e ponto final.

Volta e meia passavam grupos de desabrigados carregando em carretas

improvisadas as trouxas de roupas, móveis, pequenos objetos. Sobras e

salvados, enfim, do que as águas destruíram. Esses não mais se preocupavam

com a água que caía de cima, mas olhavam temerosos para o rio que estava

ali a seus pés, com suas torrentes barrentas arrastando tudo à sua frente. O

perigo estava nas correntezas traiçoeiras.

O corpo literalmente encharcado, os olhos marejados de lágrimas e de

chuva, a mão sobreposta na boca para reter as rezas, pragas, bênçãos,

maldições. Aníbal pensou que a seca e a enchente afinal acabam pintando o

mesmo quadro.

Mas um tempo adiante os sinos da Matriz começaram a bater lentas e

chorosas badaladas, música que Aníbal já havia esquecido, dolente, piedosos.

A torre da igreja deixava o sino exposto ao tempo e assim molhado emitia um

som rachado e opaco. Aníbal imaginou os fiéis caminhando contritos para a

confissão para, depois de cumprir a penitência, assistir a missa matinal e

receber na boca o corpo de Deus, a hóstia sagrada. Fariam o mesmo itinerário

sob a chuva intensa? Pensava ouvir, mesmo de longe, violinos acompanhando

cantos litúrgicos.

Na verdade poucas vezes Aníbal freqüentou aquela igreja porque era

distante de onde morava (no centro da cidade) e não fazia muitas festas, festas

alegres, como as outras igrejas dos bairros mais pobres e cidades afastadas:

São Judas Tadeu, Santa Terezinha do Menino Jesus, Nossa Senhora do

Espinho, que deu nome à cidade e agora vivia abandonada quase em ruínas,

tombada pelo Patrimônio Histórico.

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Quando o garçom tirou a xícara vazia da sua frente Aníbal já acostumara

com o ruído da chuva que vinha abafado lá de fora. Reconhecia o silêncio das

ruas sem o barulho excessivo do escapamento e das buzinas, sem as pessoas

caminhando para lá e para cá.

O dia não clareou nem dava mostras disso, antes se transformara numa

eterna madrugada. Aníbal chegara ali lá pelas cinco da manhã e até agora não

sentira o calorzinho do sol — a não ser um fiozinho de luz que atravessou as

brumas nas pouquíssimas vezes que varara o horizonte na vinda do aeroporto.

Depois foi como se o dia tivesse desistido de aparecer e voltado para o calor

do leito, a fim de continuar a sesta ao embalo hipnótico do som das gotas no

telhado.

Além de se enfeitiçar com as lembranças das ladeiras, dos mercados,

das igrejas, de ver o povo tipicamente madrugador, Aníbal distinguia as casas

bem mais distantes, ajuntadas no bairro do Castelo, num morrote mais

elevado. Era o outro lado da cidade no qual se chegava, nos dias normais,

atravessando uma ponte de concreto e piso de madeira que não tinha mais de

vinte metros de comprido.

Antigamente poucas pessoas moravam ali, só mesmo os mais antigos,

pois dizia-se que naquele local é que nascera a Nossa Senhora do Espinho. O

arraial foi crescendo, crescendo até atravessar o rio. Hoje nada mudou. O lado

mais novo continuava a mostrar-se mais favorecido ao comércio e foi lá que, no

passado, os viajantes se acostumaram a dar uma paradinha para

abastecimento, compara e venda, uma bebidinha, um pernoite.

Assim, como costuma acontecer nesses casos, a parte velha da cidade

perdeu a vida própria, ficou abandonada aos moradores mais antigos,

destinada a guardar relíquias para a posteridade.

Entre aqueles casarões tradicionais ficava a casa da família de

Gardênia, que Aníbal queria visitar a qualquer custo. Mas jeito não via como

64

chegar lá, como cumprir um dos propósitos mais secretos desse retorno aos

locais de infância.

Apesar da boa vontade e do otimismo do amigo Mário, a chuva

continuava a cair, ora furiosa ora impertinente, na sua invariável intermitência e

segundo os especialistas locais não ia parar tão cedo.

Era assunto do momento, ninguém iniciava conversa sem comentar as

chuvas e noticiar algum fato novo, algum desastre, as providências que

estavam sendo tomadas, notícias de gente desaparecida, isolada pelos

interiores...

O que desanimava mais Aníbal de alcançar o seu objetivo era essa

impassividade obrigatória. Mário, apesar de não confessar, concordava com a

opinião daqueles que diziam que aquilo era chuva para um mês no mínimo e

entristecia-se pelo amigo.

65

Capítulo 10

Sob o luar em Mangue-Seco

―Chamo a ti e não me respondes

estou em pé

mas apenas olhas para mim.

Tu foste cruel comigo.