Gastronomia, Interação cultural e Turismo: estudo sobre a dispersão da culinária nipônica na Cida... por Carlos Manoel Almeida Ribeiro, Luciana Paolucci - Versão HTML

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IV SeminTUR – Seminário de Pesquisa em Turismo do MERCOSUL

Universidade de Caxias do Sul – Mestrado em Turismo

Caxias do Sul, RS, Brasil – 7 e 8 de Julho de 2006

Gastronomia, Interação cultural e Turismo: estudo sobre a dispersão da culinária

nipônica na Cidade de São Paulo – 100 anos da imigração japonesa no Brasil1

Carlos Manoel Almeida Ribeiro

Professor Mestre do Curso de Especialização e Graduação em Gastronomia da

HOTEC 2

Luciana Paolucci

Professora Pesquisadora do Mestrado em Turismo e Hotelaria da UNIVALI 3

Resumo

A valorização da gastronomia japonesa no município de São Paulo continua a passar por

um processo que envolve conceitos muitos significativos, tais como: cultura,

globalização, hibridismo e etnia. A aplicação desses conceitos e o grau de influência de

cada um deles sobre os estudos culturais, devem ser ponderados no exame da culinária

japonesa e de sua disseminação na cidade de São Paulo. Dessa forma, esse artigo

pretende apresentar uma análise da dispersão das tradições japonesas, através de seus

hábitos alimentares, e a valorização dos mesmos como atrativo turístico.

Palavras-chaves: Turismo; Gastronomia; Interação Cultural; culinária japonesa; São

Paulo

1

Introdução

1Trabalho apresentado ao GT “Gastronomía y Desarrollo Local ” do IV Seminário de Pesquisa em Turismo do

MERCOSUL – Caxias do Sul, 7 e 8 de julho de 2006.

2 Bacharel em Comunicação Social pela Universidade Federal da Paraíba, Doutorando e Mestre pela USP. Professor

das disciplinas na Hotec: História da Gastronomia, Cozinha Básica, Cozinha Internacional modulo Ásia. E-mail:

cmaribeiro@uol.com.br

3 Doutora e Mestre em Ciências da Comunicação, com ênfase me Relações Públicas, Propaganda e Turismo pela

Escola de Comunicações e Artes - USP; bacharel em Turismo pela mesma instituição. Professora das disciplinas de

Análise Estrutural do Turismo e Planejamento e Organização do Turismo E-mail: lpaolucci@univali.br

São Paulo apresenta-se como o resultado de diversas culturas4. A diversidade é

tão intensa que em cada bairro é possível detectar a influência imigratória predominante

da localidade. Um viajante poderá sentir-se, por instantes, na Coréia ou no Oriente

Médio, se percorrer ruas do bairro do Bom Retiro ou do Brás; a mesma comparação entre

o bairro do Bexiga e a Itália e, o mais marcante é estar no Japão, visitando o bairro da

Liberdade. A cidade de São Paulo, em seus 452 anos de existência, acolheu pessoas do

mundo inteiro e hábitos culturais foram incorporados ao cotidiano do cidadão paulistano,

entre eles: as comemorações, os costumes e a alimentação pertencente a cada povo.

Os constantes movimentos imigratórios foram responsáveis por essa atmosfera

“cosmopolita paulistana”. Ao longo do tempo, as trocas culturais permitiram que se

difundissem importantes costumes ditos “exóticos” em outras partes do mundo, mas que

para a população paulistana são perfeitamente normais e, muitas vezes, itens das

atividades diárias. Essa grande diversidade pode ser observada em muitos bens culturais,

mas em particular a alimentação é um campo aberto para muitos estudos. 5 Não se pode

descartar, ainda, que bares, restaurantes e similares movimentam um capital expressivo

na economia paulista, funcionando, muitas vezes, como atrativo turístico.

É importante destacar que os meios de comunicação, como revistas, jornais, a TV

e a Internet também são responsáveis pela disseminação das idéias e bens culturais,

inclusive, criando “modas” e ditando quais são os lugares em “alta” para a freqüência

4 Pode-se definir cultura como “um todo complexo que abarca conhecimentos, crenças, artes, moral, leis, costumes

e outras capacidades adquiridas pelo homem como integrante da sociedade.” O que deve ser ressaltado nessa definição é a indicação de que a cultura compreende todas as elaborações resultantes das “capacidades adquiridas pelo

homem como integrante da sociedade”, pois a cultura não decorre da herança biológica do homem, mas de capacidades

desenvolvidas através do convívio social. No caso dos imigrantes, as tradições passadas de geração em geração conservam as características milenares de regiões distantes. WHITE (1982:52).

5 “Na medida em que a cultura compreende uma regulamentação da satisfação de necessidades, estabelece limites a

essa satisfação. Observe-se, por exemplo, a alimentação humana. O homem é onívoro. No entanto, a sua alimentação,

sendo culturalmente regulada, é seletiva. Alimentos tidos como nutritivos e agradáveis ao paladar em uma cultura, em

outras não são sequer incluídos no cardápio, mesmo sendo disponíveis no ambiente natural. Além do mais, a alimentação humana é feita dentro de ritmos culturalmente estabelecidos. Toda cultura não só estabelece que alimentos podem ou não ser apreciados, não só as suas possibilidades de combinação, mas também as horas do dia

em que alguns deles podem ser ingeridos. E isto é artificial. A alimentação humana é um exemplo do quanto à cultura

molda as inclinações animais mais elementares do homem, através da regulamentação da satisfação de necessidades.

E assim ocorre com a satisfação de todas as necessidades humanas”. WHITE, Leslie. Op. cit., p. 182

paulistana. Em São Paulo, a influência da mídia, especializada na divulgação de

restaurantes e similares é bem mais forte, pois publicações como a revista “Veja São

Paulo” e o Guia Semanal do jornal Folha de São Paulo divulgam e estabelecem um

ranking, semanalmente, com os melhores estabelecimentos da cidade.

São Paulo é uma grande encruzilhada: no período colonial, entreposto entre o

litoral e as minas de ouro; no início do século XX, ponto de encontro de diferentes

culturas, de costumes, artes e culinária de descendentes de imigrantes da Europa, do

Médio e Extremo Oriente. Essa reunião de povos faz da culinária da cidade uma

verdadeira mistura de sabores, recebendo o título de “Capital Mundial da Gastronomia”,

concedido em 1997 pela Comissão de Honra do CIATH (Congresso Internacional de

Hospitalidade, Turismo e Gastronomia) (ABRESI, 2006).

Comer em São Paulo é considerado um atrativo turístico. Segundo a SP Turis

(órgão municipal de turismo), “a gastronomia paulistana é famosa em todo o mundo e

oferece aos amantes da boa mesa, aproximadamente, 12.500 restaurantes,

representando 42 etnias. Há anos a cidade é reconhecida internacionalmente como a

maior e mais diversificada capital gastronômica mundial, título conquistado com todo

direito” (PREFEITURA MUNICIPAL DE SÃO PAULO, 2006)

Para alguns autores, o processo de modernidade acelerado, pelo qual passa São

Paulo, acrescentando-se aos fenômenos da aculturação e da globalização são fatores que

contribuem para o desenvolvimento do hibridismo na cidade – elemento considerado,

neste estudo, de essência para as peculiaridades da culinária paulistana.

Para Canclini (1997) essa situação intercultural de hibridação não seria

sincretismo ou mestiçagem, seria uma forma manifestação que nasce da fusão entre o

culto e o popular, das influências das novidades sob a cultura, ou ainda, mudanças que

ocorrem devido à influência da modernidade, da tecnologia, das misturas raciais e

culturais.

No contexto paulistano, as referências territoriais perdem a força, dando lugar a

novos costumes adquiridos através da aculturação. Seria como se a modernidade tentasse

conviver harmoniosamente com o tradicional. Isto transforma a cidade de São Paulo em

uma plataforma para diversas experimentações culturais. Convém observar que a história

da gastronomia se nutre das trocas de informações culturais e religiosas, dos conflitos,

desavenças e reconciliações entre “cozinha comum” e a “arte de cozinhar”. Nesse

sentido, São Paulo apresenta-se como objeto potencial para a análise da hibridação na

área gastronômica.

Maria Leonor Moraes (1998), em A História da Gastronomia, mostra que toda

cozinha tem a marca do passado, da história, da sociedade, do povo e da nação à qual

pertence. A autora afirma que: “Cozinhar é uma ação cultural que nos liga sempre ao

que fomos, somos e seremos e, também, com o que produzimos, cremos, projetamos e

sonhamos”.

É importante ressaltar que o hibridismo está presente em todas as manifestações

culturais: artes, gastronomia, linguagem, vestuário, entre outras. Em São Paulo

concentram-se pessoas de origens diferentes, num processo migratório intenso, que

trazem consigo a sua cultura, seus costumes. Ao mesmo passo, os migrantes e imigrantes

convivem diariamente com os “naturais da terra” e assimilam a cultura paulistana. Todos

esses elementos são transformados em um intenso e contínuo movimento de interação

cultural, na qual já não existe mais o isolamento de uma única cultura, ocorrendo a

permanente interação que altera comportamentos sociais e emerge novas visões de

mundo.

Em solo paulistano, convivem “mil povos”, entre estes, talvez, um dos casos mais

relevantes no que concerne à questão da hibridação, seja o exemplo da comunidade

nipônica. A convivência, hoje harmônica e respeitosa, teve um árduo início. Desde o dia

em que o navio Kasato-Maru atracou em Santos, os japoneses-imigrantes sentiram as

diferenças culturais que separam o Brasil do Japão. Além disso, as condições que

encontraram nas fazendas de café do interior de São Paulo não correspondiam ao sonho

de construir nova e melhor vida.

Assinala-se que entre as grandes dificuldades, estava a adaptação ao novo regime

alimentar. Não era difícil encontrar o arroz, cereal básico de sua dieta. Mas os peixes

eram raros, da mesma forma que legumes e verduras não eram comuns na dieta local.

Acrescentando esses obstáculos, ao estranhamento com relação aos pratos brasileiros que,

sempre com muita gordura, e temperos diferentes, eram insuportavelmente pesados para

os hábitos japoneses.

A situação era bastante difícil para esses imigrantes. Nas fazendas, os

trabalhadores recebiam uma provisão de alimentos que ignoravam totalmente. O arroz, de

tipo diferente do japonês, era difícil de ser preparado no ponto e sabores desejados; as

farinhas, de mandioca ou milho, eram um mistério; o feijão era conhecido, mas seu uso

prestava-se ao preparo de doces; o charque não apetecia, pois parecia cheirar mal; o

bacalhau seco, desconhecido, era inicialmente consumido sem antes ser demolhado - e,

naturalmente, ficava salgado. Não sabiam preparar o café e não se equiparava ao chá,

inexistente nas fazendas; a banha, o toucinho, o óleo vegetal pareciam-lhes agressivos.

Em contrapartida, aos brasileiros parecia, no mínimo exótico, o hábito dos japoneses em

consumir verduras cruas.

2

A Culinária Japonesa

A incessante “descoberta” do Japão pelos brasileiros possui longa história. Os

primeiros contatos ocorreram entre os anos de 1850 e 1945, quando a Europa foi palco de

guerras e revoluções que alteraram o contexto mundial e o Japão, cercado de tradições e

com um sistema econômico arcaico, realizou uma série de reformas para promover a

industrialização e a modernização do país. Ao final da década de 1860, o Japão criou

pesado imposto sobre as propriedades rurais e, principalmente, sobre os produtos

agrícolas. Com isso, os pequenos e os médios agricultores, em grandes dificuldades,

acabaram por deixar as suas terras. A exemplo da Europa, as medidas tomadas pelo

governo japonês provocaram uma onda de desemprego e de escassez de alimentos.

(RIBEIRO, 2005)

A imigração para outros países apresentou-se como solução e a vinda para o

Brasil é uma alternativa. Viajando em trens, carroças e até mesmo a pé, milhares de

famílias abandonaram suas casas e percorriam enormes distâncias até os portos de

embarque para o Brasil. No Japão, o porto de Kobe era um dos mais importantes pontos

de distribuição de imigrantes. A primeira leva de imigrantes japoneses ao Brasil veio a

bordo do vapor Kasato-Maru6.

Após penosa viagem, os imigrantes japoneses desembarcavam no porto de

Santos e de lá seguiam caminho para a Hospedaria dos Imigrantes, na cidade de São

Paulo.

Na Hospedaria conseguiam empregos nas lavouras de café, quase sempre no

interior do Estado. No decorrer da década de 1920, muitos japoneses trocaram o cultivo

do café pela atividade do setor hortifrutigranjeiro. Os embates culturais ocorriam, nesse

período, pois as reminiscências escravocratas persistiam no cenário das fazendas,

enquanto que os hábitos nipônicos eram considerados “estranhos”.

Na cidade de São Paulo, ainda em meados de 1920, já havia uma tendência de

imigrantes da mesma nacionalidade concentrarem-se em bairros específicos: italianos no

Brás, Bexiga, Belém e Mooca; japoneses na Liberdade; alemães no Brooklin e em Santo

Amaro; árabes na região do mercado; judeus no Bom Retiro; russos, letões, poloneses e,

especialmente, lituanos na Vila Zelina; iugoslavos na Mooca e no Belém; armênios na

Luz; e outros. Também era visível a divisão do trabalho urbano de acordo com a origem

imigrante: os árabes, judeus e armênios dirigiam-se para o pequeno comércio, enquanto

os italianos eram grandes artesãos. Por sua vez, os japoneses especializaram-se na

prestação de serviços, tais como: lavanderias, alfaiatarias e vendas de hortaliças.

Depois do fim da II Guerra Mundial, ocorreu um segundo surto de imigrações.

Mais uma vez milhões de japoneses e europeus, auxiliados por organismos

internacionais, deixariam sua pátria para se fixar em outros países. O Brasil voltava a

abrir suas portas para acolher estrangeiros.

A convivência entre as culturas brasileira e nipônica nem sempre foi pacífica.

Existiram muitos conflitos em decorrência da I e II Guerras Mundiais, assim como, por

motivos que levavam em conta a política de “branqueamento” adotada pelo governo

brasileiro em certos momentos. Porém, pode-se dizer que a tensão existente sempre foi

6 “Em 28 de abril de 1908 partia do porto da cidade de Kobe (Japão) rumo ao Brasil o vapor Kasato-Maru. Depois

de viajar quase dois meses, aportou na cidade de Santos no dia 18 de junho de 1908, trazendo os primeiros 781

imigrantes japoneses destinados ao trabalho na lavoura cafeeira no interior do Estado de São Paulo.

(http://www.hokkaido.org.br/imigracao.php)

cultural: os hábitos e tradições japoneses, mantidos com orgulho e dedicação pelos

emigrados e seus descendentes, foram permanentemente razão para a manutenção de

posturas que partiam da incompreensão total ao “exotismo”.

As relações culturais, mantidas pelos imigrantes japoneses, possuem como cerne

o grupo familiar, que por sua vez possui funções antagônicas, pois, simultaneamente,

conservaram os costumes, mas também, impediram a entrada de agentes sociais

“estranhos” ao grupo e, dessa forma, bloquearam a compreensão das tradições pelos

ocidentais. A “abertura” somente aconteceu após a constituição de novas gerações de

descendentes nipônicos. Nascidos em solo brasileiro, educados nas tradições orientais e

ocidentais, esses agentes culturais conseguiram transitar entre “dois mundos” com certa

facilidade.

Com uma cultura rica e bem particular (incluindo uma maneira própria de tratar

os alimentos), os japoneses saíram de seu país em busca de trabalho em terras brasileiras.

Para os imigrantes japoneses, o Brasil significou a descoberta de um “mundo novo”. O

mesmo sentimento de estranhamento era compartilhado com os brasileiros que os

recebiam.

Os nisseis e sanseis (filhos e netos de japoneses imigrantes) abriram as

possibilidades para a “redescoberta” do mundo japonês. Porém, tem-se que destacar o

papel das mídias nessa nova relação estabelecida com culturas diversas, em especial a

japonesa. A divulgação da cultura milenar japonesa logo conquistou adeptos à procura de

maior qualidade de vida. A disseminação do modus vivendi dos nipônicos coincidiu, nos

anos de 1990, com a busca incessante por saúde e equilíbrio mental, em um cenário

cercado de stress por todos os lados, oferecido pela aceleração da vida moderna.

A região de São Paulo recebeu enormes contribuições com a imigração japonesa.

O bairro da Liberdade é uma pequena parte do Japão em solo brasileiro. Lá, o comércio

de artigos de todo tipo, inclusive alimentícios, é intenso, sendo freqüentado por

paulistanos de múltiplas procedências. Os produtos ligados à mesa vão desde as lascas de

peixe seco, tão importantes no caldo básico das sopas, até apetrechos para moldar

rapidamente os bolinhos de arroz dos sushis.

Um dos fatores mais importantes desse comércio é a observação de que não são

apenas os japoneses ou seus herdeiros, nisseis e sanseis, que circulam pelos mercados e

lojas orientais, na busca de raiz-forte ou de pastéis. Atualmente são muitos os brasileiros

que se misturam aos rostos orientais nas lojas e mercados, já iniciados nos segredos

destes sutis sabores trazidos do extremo oriente.

A valorização da cultura japonesa atinge outros Estados brasileiros, além de São

Paulo. Porém em nenhum local a receptividade aos restaurantes japoneses equipara-se ao

da capital paulistana. A clientela de muitos desses locais, em sua maioria, ocidental mais

abastada, que manejam com desenvoltura o hashi7; outros locais atraem um público de

poder aquisitivo mediano, mas igualmente interessado, que os procuram nas imediações

dos mercados ou no próprio bairro japonês.

Contudo, é preciso retroceder a um passado recente e perceber as dificuldades

sentidas pelos primeiros imigrantes japoneses em se adaptarem, culturalmente, a nova

terra. Após a experiência nas fazendas cafeicultoras, muitos trabalhadores japoneses

conseguiram transformar-se em pequenos colonos. Em suas pequenas propriedades os

japoneses dedicaram-se a culturas como o café, o algodão e o arroz, além de verduras e

legumes, frutas e avicultura. Desde a década de 1930, exploram as possibilidades de

introdução de novas culturas no país, como o caqui, a pimenta-do-reino e o chá preto,

entre quase trinta itens de frutas, verduras hortaliças e especiarias.

Esses pequenos hortifrutigranjeiros são responsáveis pela produção e

aperfeiçoamento de frutas, tais como abacate, abacaxi, goiaba, mamão, melão, maçã,

pêra, morango, uva; verduras e hortaliças como alface, alho, batata, berinjela, alcachofra,

cenoura, pimentão, vagem, repolho, couve-flor, abóbora japonesa, acelga japonesa,

cebola, gengibre, broto de bambu e muitas outras.

Nos anos de 1960, a produção de alimentos por japoneses estava concentrada em

núcleos em São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro, e alguns locais da Amazônia. Os

imigrantes e seus descendentes integraram-se à população urbana brasileira, destacando-

se em outras áreas da atividade econômica. Ao fim da I Guerra Mundial, a derrota do

7 Hashi é o tradicional talher oriental, usado por povos desde a antiguidade, por volta do século 4 A.C. No início, o

hashi era dobrado como se fosse uma pinça, representando o bico de um pássaro.

(http://www.acbj.com.br/alianca/palavras.php?Palavra=82)

Japão, provocou a imigração de moradores das grandes cidades. Todos esses

acontecimentos contribuíram para familiaridade dos brasileiros aos hábitos e costumes

nipônicos.

Segundo Koichi Mori, pesquisador do Centro de Estudos Nipo-Brasileiros em São

Paulo, a comida e a cultura japonesa, até meados dos anos 70, eram restritas ao próprio

grupo étnico japonês. "A história dos restaurantes japoneses, na cidade de São Paulo,

começou na década de 10, dentro de pensões, onde os imigrantes japoneses se

hospedavam. A partir dos anos 20, esses estabelecimentos já se concentravam em torno

da rua Conde de Sarzedas (Liberdade), e no Mercado Municipal Central, na Cantareira,

locais em que grande número de japoneses mantinha contato devido às suas funções de

produtores e intermediários. E, ainda, instalados em bairros como Pinheiros e Lapa,

com maior concentração secundária de imigrantes", explica Mori. (Sushi magazine,

2006).

Após a Segunda Guerra, as áreas de moradias e de trabalhos dos nikkeis8 foram

ampliando-se, acompanhando a intensificação de sua migração para a cidade de São

Paulo, em busca de ascensão sócio-econômica e melhor educação para seus filhos. “À

caça de nikkeis, os restaurantes japoneses não só aumentavam de número como se

espalhavam por várias regiões" , afirma Mori (Sushi magazine, 2006).

Em 1954, os restaurantes japoneses já se concentravam no reduto da Liberdade, e

nas regiões de Pinheiros e do Mercado Municipal. Em 62, se expandiu para o bairro da

Bela Vista, e em 79 concatenou a região dos Jardins, Cerqueira César e Ceasa. De lá para

cá houve um aumento do interesse pela comida japonesa

Na década de 1980, o consumo de comer peixe cru, nos sushis e sashimis, ganhou

maior expressividade, fazendo com que os leves pratos japoneses, quase sem gorduras,

moderadamente temperados, adquirissem uma aceitação desde gourmets até os adeptos

de vida saudável.

8 Nikkei

Pessoas de origem japonesa e seus descendentes, que tenham imigrado para outros países e criado comunidades e

estilos de vida com características únicas dentro do contexto das sociedades em que vivem. São considerados nikkeis

aqueles que voltaram ao Japão, onde passaram a constituir identidades distintas da população japonesa.

(http://www.janm.org/projects/inrp/portuguese/index_po.htm)

De fato, a cozinha japonesa é diferenciada em seu preparo, seus sabores e sua

apresentação. Cercado de mar e cortados por rios, o Japão tem em seus pratos a forte

presença de seus pescados. O peixe cru é raro na mesa cotidiana, mas usam-se muitos

peixes secos, principalmente nos temperos e caldos. Os legumes são talhados em

pequenos formatos e preparados em cozidos ou conservas. O elemento básico da

alimentação é o arroz, tão importante que, na Idade Média, era utilizado como moeda de

pagamento de impostos. O molho (shoyu) e a pasta de soja (missô) dão um sabor

característico à cozinha de todo o país.

3

Gastronomia: Interação Cultural?

De modo geral, tem-se que o consumo de alimentos é orientado por regras

particulares, desvelando a natureza dos agrupamentos sociais. A comida representaria

simbolicamente os modos dominantes de uma sociedade, pois revelaria e preservaria os

costumes, localizando-os em suas respectivas culturas, trazendo ao grupo social

estabilidade. As análises sobre a modernização dos países subdesenvolvidos que

estiveram em vigor nos anos de 1950 e 1960 sublinhavam este aspecto, quando

consideravam os hábitos alimentares como “barreiras culturais para a mudança”, ou seja,

um obstáculo ao progresso. 9

Para Renato Ortiz (1998), na configuração globalizada dos últimos tempos, o

alimento decola de sua territorialidade para ser distribuído em escala mundial. Com a

industrialização da cozinha, se tende a romper com a relação existente entre lugar e

alimento. A comida industrial não possui nenhum vínculo territorial. Isto não quer sugerir

que os pratos tradicionais desapareceram com a cozinha industrial. Mas que esses

alimentos regionais possam perder sua singularidade10.

Observa, ainda, que a refeição estruturada (entrada, prato principal, sobremesa)

cede lugar a uma alimentação fragmentada. Contrariamente à refeição tradicional, que se

fazia em horários fixos, come-se agora em horas variadas. Ocorre, então, a

dessincronização entre o tempo e o lugar, no qual os alimentos são ingeridos. Há,

9 ORTIZ, Renato. A moderna tradição brasileira – Cultura brasileira e indústria cultural. São Paulo:

Brasiliense, 1998, p. 76.

10 Idem, p. 77.

também, uma deslocalização do ato de comer, pois a instituição refeição que se

concentrava em lugares fixos (copa ou cozinha), hoje, possui novas modalidades

alimentares que favorecem a mobilidade (restaurante, cafés, cantinas, automóvel, entre

outros lugares).

A cidade de São Paulo oferece as mais variadas opções, no tocante, a alimentação.

Os fenômenos de industrialização, dessincronização e deslocalização dos hábitos

alimentares são fortemente explícitos no contexto paulistano. Ao longo do tempo, as

trocas culturais ocorridas na cidade permitiram grande diversidade nos seus bens

culturais, mas, em particular, a culinária apresenta-se como um campo inovador para

diversos estudos. Vale ressaltar que bares, restaurantes e similares que movimentam um

capital expressivo na economia paulista, funcionando como atrativo turístico, sendo que

os restaurantes japoneses, juntamente com lojas de produtos orientais atraem um grande

número de turistas que visitam a capital paulista.

4

Algumas Considerações

Nessa perspectiva, a culinária japonesa representa um diferencial nos serviços, na

área de restaurantes e similares na cidade de São Paulo. Com grande aceitação entre a

população paulista, a cozinha japonesa tem atraído adeptos - tanto de descendência

nipônica quanto outros de etnia distinta. Há apontamentos indicando que os

freqüentadores dos estabelecimentos especializados em pratos japoneses são

heterogêneos com relação a sua procedência. As relações culturais, mantidas através da

alimentação, marcam os interesses dessa pesquisa. É relevante para o estudo a reflexão

sobre a trajetória da imigração japonesa, calcada no grupo familiar, que, ao mesmo

tempo, conserva os costumes, mas também, impede a entrada de agentes sociais

“estranhos” ao grupo, bloqueando a compreensão das tradições pelos ocidentais.

A disseminação da cultura japonesa e, por conseqüência seus hábitos alimentares,

somente tomam força após a consolidação da descendência em solo brasileiro. Nisseis e

sanseis, educados nas tradições orientais e ocidentais, são agentes culturais conseguem

transitar entre “dois mundos” com certa facilidade, abrindo a possibilidade de

compreensão da tradição japonesa.

A cidade de São Paulo, até o momento obteve muitos benefícios através do

processo híbrido e essa dispersão das tradições, desde as atitudes mais rotineiras até a

gastronomia, tornando a presença da culinária japonesa, em seus diversos aspectos

(restaurantes, casas de abastecimento, produtos) um diferencial que a cidade oferece aos

seus visitantes.

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