Gerente Também É Gente por Andre B. Barcaui - Versão HTML

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Nota do Autor

Sou obrigado a confessar que, apesar de ávido leitor, nunca dei muito valor a esta "nota

do autor" nos livros. Isso porque sempre considerei que o que importava mesmo era o

conteúdo do livro em si e não as considerações que o próprio autor fazia sobre sua obra.

Essas notas sempre me soaram de alguma forma narcisistas e ao mesmo tempo cansativas.

Recusava-me a acreditar que qualquer espécie de emoção pudesse ser transmitida ao passar

os olhos por esta pequena introdução. Qual não foi a minha surpresa ao me deparar

preparando este pequeno preâmbulo que agora você está lendo, e me surpreender, ao

descobrir que, em uma obra de ficção, esta é a única hora em que o autor pode de fato falar

direta e abertamente com seu leitor.

Pois aqui estou, quem diria, me explicando a você, leitor, sobre como e por que preparei

este pequeno romance. Tomei contato com projetos mais ou menos como o protagonista deste

livro. Não se trata de forma alguma de uma autobiografia, mas sou obrigado a revelar que

muitos dos acontecimentos que vocês tomarão conhecimento, apesar de caricaturados, foram

de alguma forma, vividos. Depois de algum tempo como gerente de projetos, comecei a dar

consultoria e ministrar aulas nessa área. Tive chance de ler vários livros magníficos a respeito

do tema e recomendar diversos deles para alunos e clientes. Mas sempre senti que existia uma

lacuna a ser preenchida, já que a grande maioria desses livros ou é muito técnico ou muito

metodológico. Existe o guia disso, o corpo de conhecimento daquilo, os famosos e pouco

convidativos manuais e até mesmo livros de autoajuda, estilo: "Gerência de Projetos: seus

problemas acabaram...". Por favor não me entendam mal. Não estou criticando nenhum desses

autores. Muito pelo contrário. São grandes gurus a quem respeito e muitas vezes recorro em

meus estudos e também na vida profissional. São eles que tornaram possível a vasta literatura

que temos hoje disponível na área de gerência de projetos. Um campo recente sob a ótica de

disciplina, mas muito antigo sob o ponto de vista de sua aplicação na história da humanidade.

Esses livros que estou apelidando de técnicos são, sem dúvida, fundamentais. Inclusive vários

de seus princípios estão abordados em partes deste livro que está em suas mãos.

Aliás, foi até bom mencionar isso porque é importante que vocês saibam que alguns dos

autores que admiro tiveram seu pensamento de alguma forma sumarizado e contextualizado em

situações vividas pelos personagens no livro. São eles: Carl Pritchard, David Cleland,

Domênico de Masi, Eliyahu Goldratt, Harry Beckwith, James Lewis, Jeremy Main, Jerry

Wind, Patrick Lencioni, Scott Adams, Scott Thorpe, Spencer Johnson, Stanley Portny, Stephen

Covey, Suzanne Skiffington, Thomas Friedman, Vijay K.Verma, entre outros.

A técnica é muito importante. Mas sempre achei que não era tudo. Não podia ser tudo. E

tinha que haver um jeito mais fácil de explicar isso ao leitor que quisesse introduzir-se ao

tema deste livro. Até porque todos gerenciamos projetos. Sejam profissionais, sejam pessoais.

Estamos expostos a eles até sem sentir. Portanto, quanto mais informação e pontos de vista a

respeito do assunto, melhor. Mas como transformar toda essa abordagem técnica em algo que

seduza o leitor?

Foi daí que surgiu a inspiração para escrever um romance. Ousada e pretensiosa, eu

admito. Mas desenvolvida com muito gosto e zelo. Agradeço muito à Editora Brasport por ter

apostado na ideia. Sempre achei mais fácil ensinar através do humor. Alguns alunos já me

perguntaram se faço uso de alguma técnica de didática especial. Adoraria dizer que sim e de

preferência com um nome bem complicado. A verdade é que não sei fazer de outro jeito. Se

for possível aprender e, ao mesmo tempo, se divertir, por que não fazê-lo? Foi com essa visão

e com incentivo desses mesmos alunos que percebi que existia uma possível abertura para um

livro que abordasse gerência de projetos de uma maneira mais solta, mais livre. Objetivando

ensinar um pouco da técnica sim, mas principalmente preocupado em passar a experiência do

cotidiano de um gerente de projetos. Experiência de quem já acertou, mas também já errou

muito, diga-se de passagem. Uma leitura mais fácil, não necessariamente doutrinadora, e que

incentive você a degustar esta área tão fascinante. Este livro ambiciona, ainda, reforçar a

importância das pessoas nos processos ligados à gerência de projetos. Tudo se resume a elas.

Porém, paradoxalmente, muitas vezes somos levados a achar soluções milagrosas através

apenas da técnica. Depois de algum tempo atuando como gerente, vejo claramente que, no

fundo, não gerenciamos tão-somente projetos. Gerenciamos pessoas! As pessoas são

simplesmente a razão de ser de tudo. Procuro passar um pouco desta ideia também no decorrer

do livro.

Vocês devem estar sentindo falta dos chamados agradecimentos. Será que ele não vai

agradecer nada a ninguém? É claro que vou... Mas como também quase sempre ninguém

conhece as pessoas às quais os autores costumam agradecer, resolvi que faria minhas

homenagens de uma forma diferente. Decidi que faria meus agradecimentos através dos

próprios personagens e situações envolvidas no enredo. Mudei alguns nomes, valores e locais,

para que não se tratasse de uma exposição demasiada. Mas garanto a homenagem através de

referências sutis que fiz no texto. Isso é o que mais importa para mim. Os homenageados irão

se reconhecer quando lerem o livro. E vou garantir que lerão, enviando um exemplar para cada

um deles!

Gostaria então de terminar parafraseando Jack Lemmon, para mim um dos maiores atores

que o cinema já teve. Falecido em 2001, mas com um legado extraordinário de filmes a serem

saboreados eternamente. Pego emprestado uma frase sua que ficou célebre, modifico um

pouco o contexto, mas mantenho vivo o sentido. Sozinha, esta frase é capaz de explicar bem

melhor do que eu as razões que me levaram a escrever esta história:

"Existe apenas uma razão para um escritor escrever um livro, ou uma editora publicar

uma obra ou uma livraria oferecer um exemplar: mexer com as emoções dos leitores."

Espero, humildemente, que de alguma forma suas emoções também sejam afetadas. Boa

leitura e bom divertimento.

André Barcaui

barcaui@bbbrothers.com.br

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Sobre a obra:

A presente obra é disponibilizada pela equipe Le Livros e seus diversos

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conhecimento e a educação devem ser acessíveis e livres a toda e qualquer

pessoa. Você pode encontrar mais obras em nosso site: LeLivros.Net ou em

qualquer um dos sites parceiros apresentados neste link.

Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando

por dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo

nível.

Prefácio

O Standish Group International (www.standishgroup.com ), uma organização que pesquisa o desenvolvimento de projetos na área de Tecnologia da Informação, publicou no seu

relatório de 2003 o resultado de uma pesquisa realizada em 2002 que envolveu cerca de 40

mil projetos de TI. Essa pesquisa apontou que 15% dos projetos fracassaram, enquanto apenas

34% tiveram sucesso. Outros 51% foram concluídos com algum resultado positivo, mas

falharam em custo, prazo ou funcionalidades. Esses números são ainda melhores do que os

encontrados na pesquisa de 1994, que apontou 31% de fracassos, apenas 16% de sucessos e

53% de resultados relativos. Dentre os fatores críticos de sucesso, a pesquisa aponta três dos

mais importantes: 1. Envolvimento do usuário, 2. Suporte da alta direção e 3. Gerentes de

projeto experientes.

Para atender a necessidade de desenvolver as habilidades gerenciais para a condução de

projetos, surgiram várias iniciativas por parte de associações técnicas, governos,

universidades e empresas que criaram metodologias de planejamento, execução e controle de

projetos. Dentre essas iniciativas está o método PRINCE2 (Projects in Controlled

Environment 2), criado pelo Departamento de Comércio do governo britânico, e o modelo do

PMI (Project Management Institute - www.pmi.org) , que além de ensinar métodos e ferramentas, também possui um exame de certificação de profissionais em gestão de projetos

que já certificou cerca de 170 mil profissionais no mundo inteiro desde 1984, dos quais cerca

de 50% apenas em 2005. Outras entidades, como o IPMA (International Project Management

Association - www.ipma.org) , também criaram modelos próprios, mas na essência eles se assemelham.

Desde meados do século passado a indústria e a academia vêm discutindo e aprimorando

seu conhecimento sobre gestão de projetos com significativos progressos. A vasta literatura

existente na área discute amplamente a metodologia e ferramentas de gestão, mas há pouca

literatura sobre o processo de acumulação de conhecimento e experiências do dia a dia de um

gerente. Parodiando Crosby na sua analogia da qualidade com sexo, podemos dizer que muitos

acham a gerência de projetos parecida com sexo, pois dizem que sabem fazer, e que para dar

certo basta seguir alguns procedimentos. Mas quando algo sai errado a culpa é sempre do

outro, ou da outra.

Neste livro, André Barcaui passa os principais conceitos sobre gestão de projetos na

forma de um romance, desfilando a metodologia já consagrada e discutida em inúmeros livros

técnicos, mas com largas doses de bom humor e fazendo o leitor se sentir no contexto da

história como coadjuvante, como se fosse o copiloto de um jato. Baseado em sua experiência

tanto como profissional da área como de professor e palestrante em diversos cursos de MBA,

Barcaui apresenta as diversas áreas de conhecimento de gerência de projetos, bem como dicas

de planejamento, controle e administração. Não de uma forma exclusivamente técnica, mas

coloquial, vista pela ótica do profissional que vivência suas ansiedades, erros e acertos,

abordando o lado humano e pessoal de um gerente. Ele aborda também como deve ser o

processo de aprendizado de um gerente de projetos através de um mentor, da mesma forma

que um médico recém-formado é orientado por um cirurgião mais experiente. Também discute

o que é um projeto, qual o papel do patrocinador, stakeholders, características do gerente de

projeto, entre outros conceitos.

Sinta-se na pele de um gerente de projetos e desfrute da leitura agradável deste romance

baseado em histórias reais vivenciadas pelo autor, aprendendo sobre a teoria e a sua

aplicação. Se você é um gerente de projetos experiente, vai se encontrar em muitas das

situações descritas e se ainda está no início da carreira vai se preparar melhor para as suas

próximas missões.

Paulo Ferrucio

Executivo de Projetos

1. Nada do que Foi Será…

A vida é importante demais para ser levada a sério.

OSCAR WILDE

Meu nome é Flick. Leonardo Flick. Gosto de me apresentar assim porque me faz sentir

como uma espécie de James Bond pós-industrial. Psicologia, sabe como é... Melhora minha

autoestima. Na verdade todos costumam me chamar apenas de Flick devido à característica

não-usual do sobrenome. A não ser minha mulher, que quando está nervosa, sempre me chama

usando meu nome completo. Sou casado e tenho uma filha, a qual considero meu melhor

projeto. Gosto de acreditar que sou um homem de sorte. Tenho uma boa família, saúde, um

bom emprego e financeiramente.... bom, nem tudo é perfeito. Trabalho em uma grande empresa

multinacional na área de tecnologia da informação. Para aqueles mais antigos como eu,

tecnologia da informação significa "alguma atividade ligada a computadores". Você sabe:

criar coisas novas para resolver problemas que não se tinha antes desta coisa ser inventada,

gerando ao mesmo tempo algum novo tipo de dependência.... Calma! Claro que não penso

assim de verdade. Não poderia, já que sou parte deste mundo novo que ajudo a criar. A

tecnologia sempre foi minha aliada e gosto de acreditar que nutrimos uma atitude de respeito

um pelo outro. Eu e a tecnologia. Mas isso é uma outra estória...

Espero que meu chefe jamais leia este livro. O enredo que estou para compartilhar com

vocês é verídico e diz respeito a minha própria vida. Mais especificamente à minha carreira

profissional. Sou o que se pode chamar de um gerente de projetos. Sei que à primeira vista

pode parecer não muito claro do que se trata esta atividade. Para ser honesto, até para mim

mesmo, durante muito tempo foi muito difícil entender. Jamais vou esquecer o dia que cheguei

em casa e disse que tinha sido promovido. Minha mulher foi só alegria ao dizer:

- Gerente, Amor?! Que ótimo, parabéns!!! Quantos funcionários você vai ter?

-Nenhum...

Sou sempre honesto, não sei mentir. A não ser às vezes...

-E qual o nome do seu departamento?

-Não vou ter departamento.

-Eu não entendi Amor. Você não disse que foi promovido a gerente?

-Gerente de projetos.

-Bom, pelo menos vai ganhar mais?

- Sim... Quero dizer, não. Não de início. Você sabe. Primeiro vem o trabalho, depois o

aumento; um processo natural dentro da reengenharia pela qual as empresas vêm passando nos

dias de hoje.

É incrível como sempre que não sei como explicar algo para minha mulher acabo

apelando para termos técnicos de mercado esperando que ela engula. Historicamente,

algumas vezes dá certo. Outras ela finge que engoliu para não me complicar... É uma das

razões pelas quais, eu e Tânia, estamos casados até hoje....

- Ah... Bom, estou muito orgulhosa e muito satisfeita assim mesmo. Parabéns!

Esta foi a minha primeira tentativa de explicar o que eu fazia, ou passaria a fazer. Depois

veio minha filha. Para ela, que pensei que seria mais simples... Bem, só o que posso dizer é

que subestimamos demais as crianças...

-Caroline, papai tem uma novidade!

-Qual, pai?

-Seu pai agora é gerente de projetos.

-Pôxa pai, muito legal! Então você vai passar mais tempo comigo, né?

-Bem... Não exatamente, minha filha. É que papai agora vai ter mais responsabilidades.

Papai foi promovido.

-Promovido significa fazer mais coisas do que antes?

-Não Carol. Promovido significa dar um passo à frente na empresa, ser reconhecido.

-Mas se você vai ter menos tempo do que antes, como pode ter dado um passo à frente?

-Sei que parece estranho à primeira vista, minha filha, mas pode ter certeza que vai ser

bom para todos nós.

Vai ser bom para todos nós?! Eu não tinha exatamente a certeza de que isso era verdade!

Queria acreditar que sim, mas não tinha certeza.

São nessas horas que eu gostaria de ter tido uma profissão mais comum, ou pelo menos

mais fácil de explicar em reuniões de escola. Você sabe, aquelas reuniões onde você reúne um

bando de pais e um bando de crianças e cada pai tenta explicar sua profissão para todo o

grupo. Se eu tivesse sido médico como meu irmão ou advogado como meu primo seria muito

mais fácil. Mas não adianta lamentar. O negócio é curtir. Se para uma criança foi difícil

explicar o que eu faço, imagine para trinta ao mesmo tempo!

Outro momento hilário foi na hora em que contei para minha mãe. D. Lúcia tem

aproximadamente 30 anos a mais do que eu. Uma mulher fabulosa (é claro que é fabulosa, é a

minha mãe!). Foi dela que herdei duas das manias que mais admiro em mim mesmo. A

primeira é a leitura. Leio compulsivamente. Na verdade compro até mais livros do que sou

capaz de consumir. Em certas épocas sou capaz de ler três ou até mais livros ao mesmo tempo.

Sem falar que adoro uma livraria. Sem dúvida, um dos meus lugares prediletos. A outra mania

herdada foi o gosto pelo cinema. Como diria Fellini, "o cinema é o modo mais direto de entrar

em competição com Deus". A magia da telona e suas trilhas sonoras exercem profunda

influência em meu estado de espírito, não posso negar. A vantagem do cinema sobre o livro é

a música. A vantagem do livro sobre o cinema é que você imagina tudo (inclusive o rosto da

mocinha...). Passei na casa de minha mãe logo após sair do trabalho no segundo dia pós-

promoção. Seu comentário de mãe foi o seguinte:

- Leo, como estou feliz por você meu filho. Você merece... Sempre batalhou tanto... Já

falou com sua esposa e com seu pai?

- Já, mãe. Com meu pai ainda não, mas vou falar com ele em seguida.

-Você é mesmo um orgulho para todos nós. Sempre foi. Você deve redobrar a atenção

agora. Tomar cuidado com a inveja, o mau olhado. A empresa e seu chefe certamente esperam

mais de você.

- Eu sei mãe, obrigado. Vou me cuidar...

Ela falou durante aproximadamente meia hora sobre todos os cuidados e preocupações

que eu deveria ter. Depois disso, tomou um gole de café e perguntou:

-Agora me diga, meu filho, o que diabos vem a ser um gerente de projetos?

Essa é minha mãe...

Com meu pai achei que seria diferente. Afinal de contas, podemos usar aquela linguagem

machista, "papo de homem para homem", sabe como é... Eu bem que tentei:

-Armando, seu filho foi promovido.

Curiosamente, meu pai nos ensinou desde pequenos a não chamá-lo de pai. Isso mesmo

que você ouviu. Parece estranho, a princípio. Mas a lógica dele era que sempre achou que

devíamos ser tão amigos, que seria preferível evitar qualquer tipo de formalidade. Inclusive

na forma em que nos tratávamos. Em outras palavras, praticamente não usávamos a palavra

pai ou filho. Era sempre Armando e Leo. Demorei um pouco a entender isso. Mas quando

entendi, passei a admirá-lo ainda mais...

-Promovido, Leo!! Parabéns! E o aumento, foi bom?

-É... Mais ou menos...

-Por que?

-Bem, não falamos sobre isso ainda, sabe... Como dizemos lá na empresa, por enquanto o

aumento é só no trabalho...

-Quer dizer que você foi promovido, vai trabalhar mais, mas ganhará a mesma coisa?

- É... Mais ou menos isso...

- Leo, tem certeza que você não quer trabalhar comigo? Nunca pensou em mudar de

profissão?

Só para registrar, meu pai é médico...

Herdei muitas de suas características. Pelo menos é o que dizem as pessoas que nos

conhecem. Escolhemos profissões completamente diferentes, é verdade. Mas a essência de

muitos de nossos sentimentos e pensamentos é parecida. Acho que é por isso que discordamos

tanto...

Estas foram algumas das situações pelas quais passei quando tentava explicar o que um

gerente de projetos fazia ou deveria fazer. Espero sinceramente que ao longo do livro você

possa entender melhor do que se trata esta atividade tão em moda nos dias de hoje. As

alegrias e tristezas de ser um gerente. E de projetos! Espero que você se divirta e quem sabe

até se identifique tentando decifrar o papel do gerente de projetos nas organizações. E por

favor, se assim for, que depois me explique. Só para garantir que não estou com a ideia

errada...

2- Virei Gerente... E Agora?

Todos os homens têm medo. Quem não tem medo não é normal; isso nada tem a ver com

coragem.

JEAN-PAUL SARTRE

Tudo começou no que parecia ser mais um dia normal de trabalho. Eu estava em minha

baia (sempre detestei este nome: baia. Me sinto como um cavalo preso. Mas é como

chamamos os locais onde cada funcionário da empresa trabalha e, em tese, produz...)

preparando um relatório sobre os bugs1 que descobri em nosso mais novo produto. Eu deveria

ter enviado ontem o relatório para o laboratório de nossa empresa e já estava atrasado. Minha

função? Bem, eu era o que se pode chamar de um analista de sistemas. E até que bem

competente, arrisco dizer. Gostava do que fazia: lidar com máquinas. Acho que para mim

aquilo tudo era no fundo um grande videogame. Eu contra a máquina. Algumas vezes eu

ganhava. Outras, perdia miseravelmente. Desde a faculdade foi assim. Formei-me em

computação e depois de um estágio e dois empregos em empresas menores, acabei vindo

parar aqui. Uma das maiores empresas de solução de tecnologia do mundo: a HAL S/A. Aliás,

acho esta palavra "solução" muito interessante. Cada vez mais o mercado de informática não

fala somente em hardware (máquinas), software (programas) ou rede. Prefere a palavra

"solução", querendo indicar que não importa o seu problema, nós temos o que você precisa.

Ou "não importa o que você precisa, nós criamos o seu problema”...

Mas voltemos a HAL. Sem dúvida uma das maiores empresas do ramo do mundo. Uma

empresa séria e de excelente reputação no mercado. Sempre me considerei um felizardo por

ter conseguido um emprego em uma empresa com tantos recursos e com tantas chances de

desenvolvimento profissional. Sem dúvida, um sonho. Estava trabalhando como analista há

três anos e já havia sido promovido. Entrei como Analista Júnior e orgulhosamente depois de

um ano e meio fui promovido a Analista Sênior. A verdade é que todos que ficam em um

mesmo cargo e após este período são promovidos automaticamente. Mas isso não importa, eu

estava feliz. Minha responsabilidade era testar novos programas produzidos pela matriz da

empresa em situações extremas e considerando as características regionais específicas de

nosso país. Desde que entrei na empresa eu fazia isso. Mas agora eu era Sênior. Tudo estava

indo muito bem em minha carreira. Sentia-me reconhecido tanto pelo chefe quanto pelos

colegas de trabalho. Quando o mundo parecia perfeito (de acordo com a minha experiência,

se nada parece que pode dar errado, você é que não está vendo por todos os ângulos), eis

que meu chefe me liga e pede para ir à sua sala. Estranhei um pouco porque ele poderia ter

usado o chat2, como de costume. Mas preferiu a chamada telefônica. Pedi quinze minutos para

fechar o que estava fazendo e me dirigi à sua sala.

Meu chefe ficava em um escritório de tamanho médio, mas confortável. Tinha uma janela

um pouco desproporcional para o tamanho da sala, um armário com diversos livros (que eu

duvidava de que ele já tivesse lido todos) e alguns troféus. Tinha também uma mesa retangular

onde ele trabalhava e despachava e uma outra, redonda, com quatro lugares para pequenas

reuniões. Era impossível não reparar em uma placa amarela na parede que dizia: "Chefe não é

Deus. Mas trate-o como se fosse". Uma brincadeira com seus funcionários, evidentemente,

mas que acabou gerando diversas piadinhas de corredor. Enfim, uma típica sala de chefe. A

porta estava aberta quando cheguei. Ele me viu e pediu que entrasse e me acomodasse. Seu

nome era Edson Pedreira. Excelente pessoa. Não era de todo careca.... Ainda tinha aquela

penugem, uma de cada lado da cabeça. Mais o meio era completamente liso. Além disso, uma

bela pança que o denunciava mesmo à distância. Uma figura muito parecida com o Frei Tuck,

do clássico Robin Hood. No momento em que sentei, ele se levantou e foi fechar a porta atrás

de mim. Meu coração gelou. Por que meu chefe fecharia a porta para conversar comigo? Será

que meu atraso no relatório poderia ter gerado isso? Não acredito... Já atrasei tantas vezes...

Será esta a razão? Por ter atrasado tantas vezes? De qualquer forma, eu não tinha muito a

fazer. Era esperar para descobrir. Ele fechou a porta e voltou a sentar em sua mesa, bem de

frente a mim. Começou nosso diálogo:

- Flick, você tem alguma ideia da razão pela qual eu o chamei?

- Se for sobre o atraso no relatório para o laboratório chefe, pode ter certeza de que...

-Atraso de relatório?! Não... Não é nada disso. Esqueça o relatório. Chamei você aqui

por uma questão muito mais importante.

Mais importante? Para mim isso era o mais importante! E por que me chamar para

conversar a portas fechadas?

- Ok, chefe. Estou curioso. Vamos ter alguma mudança?

- Mudança? Sim, vamos ter mudança. Uma grande mudança. E a mudança é em você,

Flick.

Será que vou ser demitido? O que diabos eu fiz de errado? Logo agora que estava indo

tudo tão bem... Ele continuou:

- Flick, você sabe que o Petrúcio está indo para uma nova área. Ele vai comandar nossa

fábrica de software no sul do país.

Paulo Petrúcio era um excelente profissional, pelo menos esta era a sua fama. Muito

experiente e bom no relacionamento com pessoas. Uma verdadeira referência na empresa. Não

somos exatamente amigos, porque, como já disse, me interesso mais por máquinas, mas sei

que ele estava muito bem cotado. Eu sabia de sua promoção.

-Sim, estou sabendo. Fiquei muito feliz por ele.

-Pois é. Você sabe o que Petrúcio fazia antes de ser promovido?

- Bem, sei que ele era gerente de alguma coisa. Confesso que não me lembro bem do

nome da área que ele gerenciava.

- Você não se lembra bem porque ele não tinha uma área específica. Ele era gerente de

projetos.

-Ah, sim. Ok...

Eu não tinha a menor ideia do que era aquilo, mas sabe como é... Eu estava na

presença do meu chefe...E de mais a mais, o que eu tinha a ver com isso?

- Você deve estar se perguntando o que você tem a ver com isso, certo? (é incrível o

poder visionário dos chefes...). Pois bem, vou lhe dizer. Você tem sido tão bom técnico e

conhece tão bem nossos produtos, que pensei em lhe dar um novo desafio. Você será o mais

novo gerente de projetos de nosso departamento. Passará a liderar equipes em direção a um

objetivo específico. Não ficará mais preso em sua baia. Passará a interagir diretamente com

nossos clientes, entregando nossas soluções e garantindo sua satisfação. O que você acha

disso, hein?!

Surreal. Não tenho a menor ideia do que é ser gerente, e muito menos de projetos. Não sei

nem se quero ser isso. Pelo menos não me sinto preparado para ser gerente. Estava tão bem

com as máquinas....

-Pôxa chefe, não sei nem o que dizer (e não sabia mesmo....).

-E então, você aceita o desafio?

Ele tinha um sorriso tão seguro e tão largo na boca que dava para ver até suas

obturações...

-Mas por que eu chefe? Digo... o time todo é muito bom e estou só há um ano e meio como

Analista Sênior e...

-Você não aceita o desafio? (fim do sorriso)

-Não, não chefe... Digo, sim, é claro que sim! Adorei, adorei mesmo sua confiança em

meu trabalho. Muito obrigado.

- Então estamos fechados (o sorriso voltou...). Quero que passe hoje mesmo tudo o que

está fazendo para o Farhad e se prepare para o seu primeiro projeto.

Farhad Bolayan era o meu colega da baia ao lado e fazia praticamente a mesma coisa

que eu...

-E que projeto seria este, chefe?

-Fico feliz que tenha perguntando. Estamos falando do projeto SAS501 de um de nossos

principais clientes, a TASA. Eles estão precisando instalar uma nova rede interna para toda

a empresa e nós ganhamos o projeto. A equipe ainda não está totalmente montada, mas com

sua habilidade, certamente vamos ter sucesso! Vou te pedir por favor para procurar o Juvenal

para que você possa dar início imediatamente ao projeto. Estou colocando todas as fichas em

você, Flick! Não vá me decepcionar hein?!

- Vou fazer o melhor possível chefe. Pode contar comigo.

- Claro, sei que posso. Bom, boa sorte. Em breve estarei fazendo um comunicado ao

grupo dizendo que você agora é o gerente do projeto SAS501. Não faço agora porque estou de

saída para um evento muito importante no centro da cidade. E o lançamento de nosso novo

sistema de configuração. A propósito, como está aquele relatório sobre os bugs do produto?

- Ainda não acabei de fazer chefe.

-Não tem importância. Passe tudo para o Farhad. Você agora é um gerente.

E assim foi.... Saí de sua sala sem saber bem se comemorava ou se chorava. Acho que

senti um misto de aflição e anestesia. A única coisa certa era que tinha que procurar o tal do

Juvenal, um de nossos gerentes de venda. Pois muito bem, pensei comigo mesmo, vou encarar

essa de frente. Você é um homem ou um rato?

Mexeram no meu queijo...

Se foi lhe dado um desafio é porque você mereceu este desafio. Afinal de contas você foi

promovido! Comemore! Não se lamente! Estava ali o mais novo gerente de projetos do

mercado. Dizem que nasce um a cada 30 minutos...

E a cada 15 minutos, um também é demitido...

A sorte estava lançada... e a aventura, apenas começando.

3- O Primeiro Projeto a Gente Nunca Esquece...

Existe algo mais importante que a lógica: é a imaginação.

ALFRED HITCHCOCK

Juvenal era um de nossos mais bem sucedidos gerentes de venda. Sua sala era no famoso

décimo andar da empresa, mas conhecido como "olimpo", " porque era dali que saía todo o

faturamento da empresa. Logo, era ali que habitavam os "deuses" que faziam com que a HAL

prosperasse. Nem mesmo a presidência ficava no décimo. Nós, pobres mortais, ficávamos no

quarto andar. Por favor, não me entenda mal. Não tenho nada contra vendedores. Apenas os

considero assim como uma espécie de "lado negro da força"... Mas reconheço que esta é uma

visão errada e estereotipada. Apenas porque passei a vida inteira do outro lado do tabuleiro.

Na verdade até os respeito muito. Afinal são eles que trazem o dinheiro para a empresa e

fazem a roda girar... E eu estava a ponto de conversar com um de seus maiores representantes;

o Darth Vader em pessoa: Juvenal Cardoso.

Assim que saí do elevador me senti em outra empresa. Não é a toa que existem tantas

histórias sobre o décimo andar. Até o cheiro é diferente. A cor do carpete é diferente. As

pessoas são diferentes... Muita agitação para o meu gosto. Procurei imediatamente a secretária

do andar. Ela atendia a toda rede de vendedores e certamente poderia me dizer como

encontrar o Juvenal.

- Bom dia. Estou procurando o Sr. Juvenal Cardoso e...

- Um momentinho, por favor.

O telefone dela tocou na mesma hora... incrível...

Dois minutos depois:

- O Sr. Juvenal? A quem devo anunciar?

- Meu nome é Flick. Leonardo Flick. Sou do departamento de suporte. Vim falar com ele a

respeito do projeto...

- Ok. Mais um momentinho por favor.

O telefone tocou de novo... Já estava começando a ficar com raiva do aparelho...

Neste meio-tempo passou um outro vendedor que eu não conhecia e comentou:

- Lídia, por favor não esqueça de ligar para o departamento de suporte para agendar uma

reunião sobre aquele problema com o nosso módulo de estoque. Já estou cansado de cobrar.

Nunca vi departamento tão ineficiente....

Ineficiente? Era do meu departamento que ele estava falando! Quem ele pensa que é?!

Enfim, foco!

-Pois bem, o senhor dizia que queria falar com?

-Com o Sr. Juvenal Cardoso por favor....

-Ah sim, o Sr. Juvenal está em reunião neste momento. Acredito que deva durar mais uma

meia hora. O senhor gostaria de esperar?

- Sim, gostaria (o que mais eu poderia fazer?). Obrigado....

Sentei-me em um sofá extremamente confortável e esperei. Acho que aqui no décimo eles

medem o tempo de forma diferente. Uma hora não tem definitivamente 60 minutos. Enfim, o

fato é que esperei quase uma hora e meia para ser atendido. Finalmente após esse tempo, a

secretária me chamou e pediu que eu me dirigisse à sala de Juvenal.

A chegada a sua sala foi marcante. Não sou do tipo que gosta de descrever ambientes

detalhadamente. Existem autores que gastam páginas e mais páginas em seus livros

descrevendo o formato da "sombra de uma jarra em cima da mesa lateral inglesa, com

cadeiras Luis XV, em uma sala de jantar colonial, quando bate a luz do sol do meio-dia". Eles

capricham em explicar cada canto do cômodo, o teto de gesso e todos os outros detalhes que

compõe o ambiente. Reconheço a importância disso em determinados enredos. Mais ainda,

reconheço o esforço do autor de tentar traduzir a sua visão para o leitor. Não deve ser fácil...

Infelizmente (ou não...) esse não é meu estilo. Também não acredito que seja importante para a

estória que estou lhes contando. A única exceção que me permito é no caso da sala de Juvenal.

Primeiro, ela devia ter pelo menos o dobro do tamanho da sala do meu chefe. Segundo, tinha

uma vista muito mais privilegiada. Juvenal tinha o imenso Parque Nacional bem à sua frente

com um enorme chafariz quase que respingando em sua janela. A sala tinha quatro armários

colossais que na hora julguei que fossem feitos de jacarandá ou peroba. Uma mesa com dois

computadores, outra de reunião, uma televisão de 42 polegadas, um aparelho de DVD, outro

de vídeo, dois quadros negros e alguns vasos de planta bem cuidados. Sua mesa retangular não

estava exatamente arrumada. Nela estavam dois celulares carregando, seu laptop aberto e

vários papéis espalhados. Não chegavam a formar uma pilha, mas passavam a sensação de

desordem. Juvenal estava em pé, de costas para aporta, falando ao telefone, com outro

telefone tocando e várias mensagens piscando na tela do computador a sua frente. Tendo esta

visão pude compreender melhor o sentido da palavra multimídia. Ele pediu apenas com um

gesto que eu me sentasse e aguardasse. Neste meio-tempo continuou no telefone. Quase

ninguém mais usava terno na HAL. Eu mesmo usava apenas uma roupa social há anos. A

empresa, com o sinal dos tempos, também começou a mudar os padrões de vestimenta que

exigia de seus funcionários. Apenas gerentes e diretores é que iam de gravata. Era o tipo da

regra que não estava escrita em lugar nenhum, mas era facilmente perceptível nos corredores.

No meu caso, nunca fui muito fã de terno e gravata mesmo... Aliás, não há nada mais agressivo

do que usar gravata. Meu ódio é tanto, que certa vez fui tentar estudar as razões históricas por

trás da utilização daquele pedaço de tecido que mais parece um babador. Encontrei várias

explicações plausíveis. Umas que atribuíam sua origem ao frio, outras à etiqueta. A que mais

me convenceu foi a que dizia que a invenção era para cobrir os botões da camisa social. Ora,

é preferível ter os botões à mostra do que sujar aquilo toda vez que vou comer...

Enfim, o terno de Juvenal era impecável, seu cabelo tinha alguma espécie de gel

gosmento, mas que, no todo, acabava se justificando. Um vendedor nato... Só o nariz é que era

estranho. Totalmente desproporcional ao corpo. Na minha opinião, aquele nariz deveria pagar

imposto. Certamente respirava mais que os outros. Seu palavreado era uma aula de etiqueta. A

cada três palavras que dizia, uma era aos berros. Não sei com quem ele estava falando, mas

não poderia ser com um cliente. Depois de uns dez minutos de conversa (e eu aguardando...)

ele fez mais um gesto pedindo para que eu aguardasse um pouco mais. Enfim, depois de mais 8

minutos, ele desligou.

- Pois bem, meu caro (pensei que ninguém mais falasse assim, mas estava enganado...).

O que posso fazer por você?

-Bom dia, Sr. Cardoso. Meu nome é Flick e eu estou aqui para...

-Desculpe, como é seu nome?

-Flick... Leonardo Flick. Sou do departamento de suporte.

-Departamento de Suporte? Aquilo é um horror! Ainda bem que você está aqui. Você veio

a meu pedido para conversar sobre os problemas no módulo de estoque não é?

-Não... Quero dizer, não exatamente... Eu sou o novo gerente do projeto SAS501 da

TASA. Estou aqui porque meu chefe pediu que eu...

-SAS501?!!?!? Finalmente alguém veio me dar o status do projeto. Pois muito bem, como

estamos?

-Na verdade eu vim aqui para poder pegar informações sobre o projeto e sobre a TASA.

Você sabe, para poder dar início aos trabalhos.

-Início?!?! Você só pode estar brincando! Este proj eto era para ter sido iniciado há um

mês! Dentro de três meses ele tem que estar terminado. Foi isso que acordamos com o

cliente. Não acredito no que estou ouvindo. Quem é o seu chefe?

-O nome dele é Edson Pedreira. Foi ele quem pediu que eu viesse até aqui conversar com

você e...

-Conversar?! Não temos mais tempo!! Só podia ser coisa do Pedreira mesmo... Como

sempre, atrasados... Olha Lick...

- Não é Lick. E Flick.

-Que seja. Espero que este projeto esteja terminado em três meses. Foi isso que

acertamos e foi isso que foi vendido. Temos que faturar dentro deste período ou vamos ficar

mal com este cliente, que é estratégico para nossa empresa. Não sei o que Pedreira lhe pediu

para fazer ou deixou de pedir. O fato é que quero você e sua equipe dentro daquele cliente

hoje ainda. E gostaria também de um status semanal sobre o projeto. Quero acompanhar de

perto os resultados. Estamos entendidos?

-Mas... existe algum tipo de documento explicando o que é o projeto, ou como está

formada a equipe?

-Meu Deus!! Você não disse que era o gerente? Você já leu o contrato? Não conhece sua

própria equipe? Eu estava preocupado com o projeto. Agora estou muito preocupado! Não

tenho mais tempo para conversas deste tipo. Espero um relatório semanal em minha mesa

todas as segundas pela manhã sobre o andamento do projeto. Você sabe, o básico: andamento

do cronograma, quanto já entregamos, previsto x realizado, posição do orçamento e como

anda o humor do cliente. E por favor, não me decepcione (já tinha ouvido isso

recentemente...). Não quero ter que acionar os altos escalões da empresa por mais um

problema com o departamento de suporte, ok? Até logo...

-Incrível. No momento em que me levantei e saí de sua sala me senti como uma garrafa

vazia jogada ao mar (boiando e esperando encontrar alguém....). Se prepotência tivesse um

nome, este seria: Juvenal. Mas o fato é que eu tinha que começar por algum lugar. Já sabia

pelo menos que tinha três meses para acabar. Isso já era um começo. Precisava ir até o

cliente, mas não poderia ir sem antes saber de que se tratava o projeto. Em outras palavras

precisaria ler o contrato. Tinha esperanças de que ele pudesse me dar mais pistas, mas sua

delicadeza foi tão grande que não tive coragem de perguntar. Tive a ideia de voltar à pessoa

que normalmente mais sabe sobre tudo que acontece em todos os departamentos da empresa:

a secretária. Alguém havia dito que seu nome era Lídia e eu guardei.

-Perdão.... Lídia?! (falei com todo o charme que achava que tinha...)

-Sim?! Conseguiu falar com o Sr. Juvenal?

- Consegui sim. Obrigado. Agora eu estaria precisando de um documento e o Sr. Juvenal

sugeriu que eu tentasse conseguir com você (uma mentirinha bem colocada não faz mal a

ninguém...). Estou falando do novo contrato que temos com a TASA. Você por acaso sabe

como eu poderia obter uma cópia?

- TASA? Espere um momento, por favor...

Ela consultou seu computador e em 1 minuto ela localizou o arquivo do contrato.

-Está aqui! Se você quiser, eu posso lhe enviar uma cópia eletrônica.

-Isso seria excelente. Obrigado.

Saí do décimo andar com uma sensação muito interessante. Tinha um objetivo, mas não

sabia direito de que se tratava. Tinha um prazo e um orçamento que eu deveria respeitar, mas

que não fui eu que planejei. Tinha até provavelmente um time, mas não conhecia ainda

ninguém. E já havia pelo menos três pessoas com expectativas altíssimas e me cobrando em

relação ao resultado (Juvenal, meu chefe, e, muito provavelmente, o cliente). Muito legal esse

negócio de gerenciar projetos...

Um homem ou um rato? Um homem ou um rato? Decidi que era melhor não me lamentar

e seguir adiante. Uma promoção não cai do céu todos os dias... Recebi a cópia do contrato por

e-mail. Lídia era, sem dúvida, muito eficiente. Li e reli com cuidado. Pude ter uma ideia um

pouco melhor do escopo do projeto proposto. Existiam vários detalhes que não estavam claros

e outros que eu não tinha competência técnica suficiente para entender. Comecei a achar que

não era a melhor pessoa para gerenciar aquele projeto específico.

Será que conhecer tecnicamente em detalhes a solução oferecida não faz parte do papel

do gerente?

Precisava conhecer minha equipe. Precisava conhecer o cliente. Liguei e marquei uma

reunião com a pessoa que assinou o contrato no dia seguinte. Tentei conseguir mais

informação internamente na HAL, mas foi impossível. Todos estavam muito atarefados para

poder ajudar. Mesmo meu companheiro de baia, Farhad, não tinha ideia do projeto... Não o

culpo. Eu também não teria.... Aliás, estranhei um pouco o modo como o Farhad conversou

comigo. Parecia que não estava entendendo bem meu novo papel. Ele não aceitou ficar com a

parte do trabalho que me cabia (o famigerado relatório com os bugs...) e isso acabou ficando

comigo também, como um último legado a ser feito em paralelo.

Nem reclamei... Na verdade era isso que eu gostava de fazer. Era isso que eu sabia

fazer... Gerenciar projetos?! Quando? Onde? Como? Por quê?

Na manhã seguinte fui ao cliente. Com pouca informação, mas muita disposição. Sentei

para conversar com a pessoa que assinou o contrato, mas que depois de meia hora de conversa

descobri que se tratava apenas do chefe de compras da TASA. E que não tinha a menor ideia

do andamento do projeto. Ele sugeriu que eu conversasse com o verdadeiro demandante. O

setor de administração central. Por sorte ele foi muito cordial e objetivo. Levou-me

diretamente à pessoa certa: a secretária do departamento de administração.

Dona Helena era uma senhora muita bem apessoada (eu queria dizer conservada, mas

acho agressivo), por volta dos 60 anos de idade, mas que pareciam 55... Vestia-se muito bem,

conforme meu paradigma de secretárias executivas, e usava óculos da cor rosa. Ela recebeu-

me de maneira muito formal e ao me apresentar, deu-me a melhor dica que alguém havia dado

até agora:

-Sr. Flick, posso lhe dar uma sugestão?

-Claro que sim. E pode me chamar de Flick apenas.

-Desculpe me meter. Mas sabe como é... Conheço este contrato desde que foi assinado. O

Sr. Marcondes (chefe do departamento de administração central) está, digamos, muito

infeliz com o andamento do projeto e não vai gostar de saber que o senhor, como gerente,

não está cem por cento informado sobre a situação do mesmo. Na verdade, ele esperava um

status atualizado do projeto hoje pela manhã.

-Ok, Dona Helena, mas nós não temos uma equipe alocada aqui trabalhando?

-Veja bem, Sr. Flick. Vocês têm e não têm. Já estiveram dois rapazes aqui analisando

nossos sistemas e fazendo diversas perguntas. Mas até agora, de concreto, nada foi feito. E

mesmo estes dois rapazes sumiram depois de um tempo. Não sabemos nada sobre o

andamento do projeto e o Sr. Marcondes está um pouco tenso a respeito. Talvez seja

interessante o senhor voltar para sua empresa, pegar mais informações, trazer a equipe de

volta e depois fazer novo contato. O que o senhor acha?

-D. Helena, acho que a senhora tem toda a razão. Muito obrigado por seus conselhos. Vou

fazer exatamente o que a senhora acabou de sugerir. Só lhe peço apenas uma coisa: a senhora

poderia, por favor, informar ao Sr. Marcondes que estive aqui, que o projeto estará entrando

nos trilhos e que no início da semana faço questão de me apresentar para lhe passar uma

posição?

-Claro que sim. Pode deixar.

-Muito obrigado.

Incrível... Quanto mais eu cavava, maior ficava o buraco (melhor parar de cavar? Por

que mesmo aceitei este cargo?). Pelo menos tinha descoberto um novo anjo da guarda: Dona

Helena....

Voltei para a HAL da mesma forma que tinha saído. Mas desta vez sabia o que tinha que

fazer. Precisava conhecer a equipe. Entender qual a situação do projeto. Fui falar com meu

chefe. E com outros chefes de departamento também. Dois dias depois de peregrinações em

diversos andares e departamentos (agora sei como se sente uma bola de ping-pong...),

descobri que a equipe fora formada há um mês por dois profissionais de setores diferentes e

que não estavam integralmente alocados no projeto. Em outras palavras, eles estavam no

projeto, mas mantinham também suas funções regulares em seus respectivos setores. Como o

projeto começou sem um gerente oficial, ambos voltaram para suas atividades do cotidiano,

deixando o projeto abandonado.

Fantástico! Que belo começo! Agora sim eu estava satisfeito de ter aceitado este cargo!

De posse destas constatações, minha primeira providência foi marcar uma reunião com os

dois. Mas, para isso, tinha que convencer seus chefes de que eles deveriam participar desta

reunião. Para tanto, decidi convocar seus chefes também. De forma a aproveitar o momento,

achei por bem convocar também meu chefe (nunca é demais buscar apoio...). Pois bem,

marquei a reunião. Nunca havia feito isso antes. Nunca tinha precisado. Não se faz reunião

com máquinas... Mas já participei de tantas reuniões na vida, que organizar uma não poderia

ser tão diferente. Reservei uma sala para sete pessoas. Uma a mais do que necessário. Mas é

sempre bom ter espaço... Pedi também um lanche para o caso de atrasarmos um pouco e

mandei o convite por e-mail para todos. Título: "Reunião sobre o projeto SAS501. Urgente.

Não faltem".

A reunião estava marcada para começar às 14h. Tudo estava preparado, exceto eu. Não

sabia exatamente o que abordar ou como abordar. Sabia que precisava decifrar o status do

projeto, precisava conseguir de volta os recursos, mas não sabia exatamente como conseguir

isso.

As 13h30 eu já estava na sala (para o caso de alguém chegar mais cedo). Minha

ansiedade ia crescendo à medida em que os minutos iam passando. As 14h eu comecei a andar

pela sala. Ninguém ainda havia chegado. Às 14:15h ouço um barulho na porta. Levanto-me

para receber... Era o pessoal da manutenção pedindo para ver um problema com o ar

condicionado. As 14:30h chegou o lanche... Comecei a comer os biscoitos... Se você esteve

no planeta nos últimos 10 anos, certamente viu ou pelo menos já ouviu falar da série

"Friends". Pois bem, naquele momento me senti como um mistura de Joey e Phoebe,

completamente sem saber como proceder.

Até às 15:30h eu permaneci dentro daquela sala. Não me levantei nem para ir ao

banheiro. Ninguém dos cinco convocados compareceu. Simplesmente ninguém.

Será que me enganei e marquei a reunião em outro horário? Em outro dia? Será que eu

sou de Marte? E todo o resto do mundo é de Vênus?

Fui checar o e-mail que eu havia enviado. Não tinha dúvida, eu marquei corretamente.

Mas quem eu quero enganar? Nem meu próprio chefe apareceu.... O que poderia ter

acontecido? Porque ninguém dava a mínima para este projeto? Eu tinha marcado uma reunião

que era fundamental, tinha convocado as pessoas corretas; onde foi que eu errei? Isso não

podia continuar assim... Eu tinha que tomar uma providência. Meu novo cargo estava em jogo,

meu futuro como gerente de projetos estava em jogo (e eu ainda nem acabei aquele

relatório....). Para o mundo que eu quero descer...

4. Conhecendo Meu “Guru”

Mestre não é quem sempre ensina. Mas quem de repente, aprende.

GUIMARÃES ROSA

Depois do ocorrido, resolvi parar e repensar tudo que havia acontecido desde o início.

Minha pseudo-nomeação, meu encontro com Juvenal todo-poderoso, minha ida ao cliente sem-

falar-com-o-cliente e finalmente a reunião-que-nunca-houve. Minha conclusão era que a única

coisa válida, até então, tinham sido os biscoitos que comi sozinho naquela sala. Resolvi

conversar com minha mulher. A única pessoa capaz de encontrar explicações para o

inexplicável. Foi dela a ideia mais sensata que ouvi.

-Por que você não pede ajuda? Por que ser tão autossuficiente? É um cargo novo, você

ainda está aprendendo....

-Pedir ajuda? A quem? À Deus? Não é um problema técnico que tenho que resolver. Não

estou decifrando um código de computador. Estou praticamente em uma situação de "game

over".

-Calma, meu Amor.... Vamos pensar juntos. Quando você era analista e tinha uma dúvida

técnica, a quem você recorria?

-Para um analista com mais conhecimento naquele assunto técnico específico... Ou até

mesmo para o laboratório do produto.

-Pois então... É a mesma coisa... Você tem que pedir ajuda para quem tem mais

experiência que você em gerência de projetos. Devem existir outros gerentes na empresa,

não?

-Espere um momento... Eu poderia conversar com o antigo gerente de projetos de nosso

departamento. Ele também foi recém-promovido. E todos gostam dele. Ele tem que poder me

ajudar a decifrar esse quebra-cabeça... Obrigado, querida!

Como é que não pensei nisso antes? Tive que ouvir o óbvio de minha mulher... Precisa

de ajuda? Peça ajuda! Foi o que fiz... No dia seguinte liguei para o Paulo Petrúcio. Sabia que

ele ainda não tinha se mudado para o sul para assumir seu novo cargo. Apresentei-me

rapidamente, por telefone, e disse que precisava conversar com ele. Ele aceitou me encontrar

às 15h do mesmo dia. Minha sobrevida na empresa poderia depender deste encontro...

Cheguei em sua baia no horário marcado, ansioso e ao mesmo tempo esperançoso. Ele

estava de mudança e portanto cheio de caixas de papelão sendo cuidadosamente arrumadas.

Ele preparava tudo com muita calma e isso chamou minha atenção.

Como era possível alguém trabalhar como gerente, ser recém-promovido e estar calmo

daquele jeito?

Devia ter alguma coisa por volta dos 50 anos. Não mais do que isso. Era magro, tinha

algumas mechas de cabelo branco que disfarçavam uma discreta careca que começava a se

formar. O mais importante: um sorriso largo no rosto. Sugeriu que fossemos tomar café no

terceiro andar, onde fica o restaurante da empresa. Disse que era mais agradável conversar ao

ar livre e tomando alguma coisa. Ele mesmo fez questão de pagar o café. Pedi desculpas pela

interrupção em seu dia e agradeci pela gentileza. Jamais poderia imaginar naquele momento o

quanto seria importante aquele encontro para minha vida. Às vezes, estamos diante de

momentos preciosos que só percebemos muito tempo mais tarde. Fazer o quê? É assim que

funciona.... Recordo-me, como se fosse ontem, desse nosso primeiro diálogo:

-Sr.Petrúcio, muito obrigado por me receber.

-Ora, o que é isso Flick! Por favor, me chame apenas de Petrúcio. Esse é meu nome de

guerra! Estou curioso, como posso ajudá-lo?

-Você prefere a versão simples ou completa?

-Como achar melhor.

-Ok, então vamos lá....

Contei minha estória como quem conta uma novela. Na verdade, um drama. Desde do

momento em que fui chamado à sala do meu chefe, até minha recém-tentativa frustrada de

tomar o controle do projeto. Também falei de como o considerava um expert na área (na

verdade ainda não tinha certeza disso, mas tinha uma sincera esperança), e, portanto, capaz

de me ajudar. Disse-lhe que seria muito importante para mim sua opinião e que estava

começando a lamentar o fato de ter sido promovido a gerente de projetos.