Gideon por Jacquelyn Frank - Versão HTML

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Nightwalkers 02 - Gideon

Gideon

Jacquelyn Frank

The Nightwalkers 2

Disponibilização: DHL

Tradução: YGMR

Revisão: Adma

Revisão Final: Preta

Formatação: Gisa

PROJETO REVISORAS TRADUÇÕES

Como curador, conhece seu corpo. Mas é seu coração o que deseja.

Conhecidos como Nightwalkers, antigos e orgulhosos seres que vivem nas sombras, existindo desde

muito antes do mundo humano. Mas há algo mais perigoso que os humanos que os caçam.. Os

Nigromantes que usam magia negra para manipulá-los. E para um demônio chamado Gideon, a batalha

contra essas forças malignas vai se converter muito em breve em algo pessoal.

Durante mil anos, Gideon tem curado sua gente. E como o mais antigo macho sobrevivente de sua raça,

sua sabedoria sempre foi respeitada sem perguntas. Mas Gideon sabe que inclusive ele é vulnerável ao

poderoso e primitivo desejo que envolve os de sua raça durante as luas Sagradas… E fazem nove anos

que a verdade o golpeou quando se encontrou reclamando Magdelegna, a irmã do Rei dos demônios, em

um selvagem abraço. Horrorizado por sua falta de controle, deixou-a ofegante e furiosa… então exilou-se

por usa prórpia vontade durante a maior parte desses anos.

Agora, com os Nigromantes ameaçando sua gente, e Magdelegna quase sendo vítima deles, Gideon deve

enfrentar a verdade. Ele e a bela e teimosa Magdelegna estão destinados a estar juntos, para

compartilhar um amor tão profundo e antigo como o mesmo tempo. Mas primeiro necessita recobrar sua

confiança perdida… depois terá que lhe salvar a vida.

Nightwalkers 02 - Gideon

Cada noite contém profundos segredos.

PRÓLOGO

“Devemos nos esforçar para sermos mais rigorosos à medida que o tempo se aproxima. Na idade da

rebelião da Terra e o Céu, quando o Fogo e a Água rompiam fazendo estragos sobre todas as terras, o Maior

dos anciões voltará, tomará a sua companheira, e o primeiro menino do elemento Espaço nascerá

companheiro de jogos do primeiro menino do Tempo, nascerão os Executores.”

—A Profecia Demônio Perdida.

O Vampiro olhou o Demônio diante dele, com um olhar azul meia-noite, longo e

contemplativo. O escuro centro de seus olhos era ligeiramente oval, o contorno era só uma

grande peculiaridade para incitar a curiosidade de alguém, atraindo-o mais perto, para olhá-

los e estudá-los com um pouco mais de profundidade, para terminar enredados neles igual a

uma bem tecida teia de aranha. Já que tais tentações não podiam atrair o Demônio, a única

intenção do Vampiro para estudá-lo tão de perto era estritamente para escrutiná-lo enquanto

tentava decifrar o propósito da sigilosa figura.

Com desacostumada paciência e generosidade, o Vampiro se reclinou na cadeira e

cruzou as pernas. Como sempre, o Demônio tomava seu tempo antes de começar a falar sobre

o que tinha em mente, independentemente de ter trazido o Antigo para a guarida do Vampiro.

Sempre estava bem que pusesse tanto cuidado de pensar em seu discurso, refletiu o vampiro,

porque quando este Demônio falava, freqüentemente devia depositar brutais verdades aos pés

daquele com quem conversava. Um traço admirável como aquele, não era possivelmente tão

refrescante como se poderiam esperar, em particular quando este anunciava um giro nos

acontecimentos na vida das raças dos Nightwalkers.

Do começo dos tempos, anos antes que os mortais se estendessem através desta terra

como um inoportuno pandemônio, estavam os Nightwalkers. As Culturas Escuras. Aqueles

que desfrutavam da lua como sua luz de dia, e dormiam ou se ocultavam do sol quando seus

ácidos raios tentavam tocar suas suscetíveis peles ou suas mentes. Os clãs tinham deslocado

com as bestas selvagens da Natureza, seus dons especiais arraigaram em seus caminhos,

mantendo-os conectados a terra, a liberdade das criaturas e a emissão de impulsos

magnéticos, de seu coração. E embora na idade moderna os mortais fossem a população

dominante por uma dramática percentagem, os Nightwalkers ainda viviam. As Culturas

Escuras foram preservadas, cada um com suas maneiras e tradições separadas, e cada um

tinha lavrado nichos naqueles lugares abandonados e pelo geral muito inóspito para os

humanos. Alguns tinham se adaptado e agora viviam à margem das sociedades humanas,

emulando ou desfrutando dos costumes dos mortais… ou um cuidadoso fac-símile. Cada clã

quase tinha imposto cuidadosamente leis e crenças de quão longe podiam ir seus membros

quando tratavam com os humanos.

O tempo não tinha talhado os elos dos Nightwalkers com a lua ou com o sol. Os enganos

e os inimigos tinham diminuído gravemente as filas de todos os diferentes clãs de uma ou

outra maneira, e ainda assim subsistiram… em calma, desconhecidos, principalmente para os

Nightwalkers 02 - Gideon

mortais, e procurando a maneira de encontrar a harmonia em um mundo que mudava

rapidamente. Mas o mundo tinha mudado antes, e mudaria outra vez, e sempre haveria

Nightwalkers dançando sob a lua e dormindo sob o sol.

—Não veio me visitar em muito tempo, Gideon — observou o Vampiro ao modo

caprichoso de sua gente, não desejando esperar mais que o Demônio o visitasse em seu

próprio tempo. —Não tinha esperado vê-lo.

Gideon elevou seus frios olhos prateados do delicioso e raro leite de zebra que tinha

estado revolvendo ociosamente em seu copo. O exótico leite, e outros parecidos, eram um

álcool Demônio. Isto, era a prova que embora os Nightwalkers fossem muito parecidos com os

humanos, geralmente muito atrativos e perceptivos, tinha diferenças marcadas em suas

químicas e fisiologias. Estas distintivas diferenças os poriam à parte como seres sobrenaturais

ao olho comum, obrigaram-se a tomar a decisão de não alardear sobre isso.

Mas os Nightwalkers punham grande cuidado nisto. Os seres humanos podiam voltar-se

muito receosos inclusive com a menor indireta de lenda ou mistério. Estava em sua natureza

temer o que era mais poderoso que eles, um defeito que não mudaria até que amadurecessem

como espécie.

Independentemente do fato de que ele mesmo se gabava de traços excepcionalmente

fascinantes, o Vampiro foi golpeado, como sempre, com o penetrante efeito de mercúrio

fundido dos olhos do Demonio. O aspecto facial de Gideon, eternamente jovem e aristocrático,

em nada mostrava ter existido há mais de um milênio, mas aqueles olhos certamente o faziam.

Os Demonios também tendiam para a tez morena, vendo-se perfeitamente bronzeados, o que

aumentava o alarmante efeito do olhar fixo de Gideon.

O Antigo Demônio também tinha o cabelo de um prata incrivelmente antigo, e bastante

comprido para lhe tocar a clavícula e preso para trás com uma tira fina de suave couro. Nos

humanos, essa cor seria um sinal de idade avançada, mas o Vampiro sabia que Gideon tinha

nascido com essa cor de cabelo e apesar disso, jamais se via nem um dia por cima dos trinta e

cinco. Possivelmente um pouco mais próximo a quarenta quando se fixava naqueles olhos

anciães.

—Se houver se sentido desprezado de qualquer modo, Damien, estendo-lhe minhas

desculpas-disse o Demônio com maneiras distantes, sua rica voz enchia os espaços vazios da

enorme sala.

Damien despediu a idéia com um estalo de língua e um ondear da elegante mão de

compridos dedos.

—Somos criaturas antigas, Gideon. Faz muito que aprendemos a não sentir desprezo

quando um ou outro de nós entra em isolamento por qualquer razão. —Os olhos índigo de

Damien se entrecerraram sobre o Demônio sentado frente a ele—. Mas admito que esteja

curioso do motivo de sua visita depois de tanto tempo.

—Temo que não seja tão social como pudesse ter desejado que fosse-disse Gideon—

estou aqui para servir de advertência.

—Me advertir? —Damien arqueou uma graciosa sobrancelha ante o Demônio.

—Sim. Como o mais antigo de minha raça ao mais antigo da sua.

Damien reconheceu a reverência da distinção de Gideon com uma graciosa inclinação de

cabeça.

Nightwalkers 02 - Gideon

—Apesar das enormes diferenças de nossas raças, Gideon, você e eu sempre tivemos

muito em comum.

—E é uma comunidade o que me traz agora a sua porta. Um inimigo comum.

Esta revelação fez com que a coluna do Vampiro se endireitasse com repentina tensão.

—Nigromantes. —Não era uma pergunta. Ambos tinham vivido muito tempo para não

saber o que era importante para um e o outro— Maldito —, vaiou Damien, ficando

repentinamente em pé e passeando de um lado a outro de sua cavernosa sala— Deveria havê-

lo sabido. Deveria haver sentido que algo não encaixava!

—Como o viu? —Perguntou Gideon, elevando uma inquisitiva sobrancelha.

—Gerad desapareceu. Pensei que possivelmente só se foi clandestinamente como faz

minha gente de vez em quando, mas Gerard recém despertou de um comprido século de

sono, assim me pareceu estranho que retornasse tão rapidamente.

—Ainda é possível que seja isso o que tenha acontecido.

—Possível - aceitou o Vampiro—, mas não é o único desaparecido, e sabe tão bem como

eu que isto não se assemelha a uma coincidência. Tem alguma idéia de quantos são os que

enfrentaremos esta vez? —O antigo vampiro apurou suas passadas, suas mãos se contraíram

em punhos e seus ferozes olhos flamejaram com claro desprezo para os odiosos humanos que

utilizavam a magia que tinha incomodado às raças Nightwalker durante séculos. — Que

parvo fui ao achar que, já que não tinha havido nenhum Nigromante durante este último

século, tínhamos visto o último deles. Envergonha minha inteligência sequer falar disso agora.

—Não foste nem mais nem menos estúpido que o resto de nós. —Disse Gideon em tom

escuro— Eu sou o mais ridículo de todos eles.

O Demônio guardou silêncio durante um longo batimento, e os sentidos sobrenaturais de

Damien retumbaram bruscamente com a subconsciente consciência dos perturbadores

pensamentos de Demônio. Mais à frente do respeito, de qualquer modo, Damien jamais

pensaria em explorar Gideon para obter aquelas reflexões.

—Com a volta destes Nigromantes — continuou Gideon, sua voz perfeitamente nivelada

e nunca afetada pelas emoções—, temos descoberto que os Druidas ainda existem.

—Druidas?

Agora Damien estava realmente surpreso. Não tinham existido Druidas durante todo um

milênio. Seu renascimento pensou provavelmente era mil vezes menos que estas

perturbadoras notícias dos Nigromantes. Damien era bem consciente de que os Demonios e os

Druidas faziam muito, se viram enfrentando-se em uma guerra terrível, com a história

gravada de que os Demonios tinham erradicado toda a raça Druida da face da terra.

—Como conseguiu essa informação? —Perguntou Damien com curiosidade.

—Encontrei-os. São híbridos, parcialmente descendentes Druídico, parcialmente

humano. Aparentemente os Druidas se esconderam entre os humanos durante todos estes

séculos, para evitar seus Caçadores Demônios.

—E criá-los com eles —acrescentou Damien em repentino entendimento— E são bastante

puros para ter habilidades Druídicas, inclusive depois de todo este tempo?

—Pureza… —Os lábios de Gideon se torceram com a sensação de ironia que o alagou—

Aparentemente, a pureza é menos poderosa que esta particular fusão de raças. Há só duas

Druidisas ativas neste momento, ambas estão sob o amparo dos Demônios, e são

enormemente cobiçadas. —O Demônio inclinou a cabeça ligeiramente— Em geral.

Nightwalkers 02 - Gideon

—Ainda tenho que encontrar uma cultura de perfeita uniformidade em qualquer

matéria. Deveria supor. Ao menos não encontraram hostilidades.

—A guerra se esqueceu faz muito tempo. Os mais velhos de nós que possivelmente

pudessem sentir rancor estão todos mortos, exceto eu, e cresci além de tais impulsos infantis.

—Não duvido, — Damien esteve de acordo sem vacilar.

—O primeiro Druida é a companheira de nosso Executor, a outra é a companheira do

irmão mais jovem do Executor. A primeira fêmea... é poderosa de modos insuspeitados. De

maneira que não estou em liberdade de falar neste momento. Sua irmã desperta suas

capacidades muito mais devagar, mas tenho razões para esperar que seja igualmente única.

Também está claro que elas só são o princípio.

Damien voltou para seu assento, sentando-se muito devagar, tomando tempo para

escovar sua escura e elegante roupa, colocando-a em seu lugar enquanto pensava na

informação de Gideon. Sempre escutava com muito cuidado o modo no qual falavam os

outros, a maneira como redigiam as frases. Gideon já tinha confessado que retinha informação

intencionalmente, mas o Príncipe Vampiro sentiu outras profundidades na história que

prometia ser fascinante e perigosa.

—Confio que estará guiando a estes… Híbridos? Não me agrada a idéia de seres com

poderes sem disciplinar em nosso mundo. O desfile de Nigromantes já é bastante sinistro, por

não mencionar os Nightwalkers menos decentes entre nós.

—Acho estranho que fizesse uma pergunta tão desnecessária, — comentou Gideon

serenamente, sorvendo sua bebida e fazendo rodar o buque sobre sua língua durante um

momento.

—De vez em quando encontro consolo em expressar uma preocupação só para ouvir a

promessa verbal. Sei que fará o que deve. Ainda assim, suspeito, considerando a história que

compartilhaste com os Druidas. —Damien levantou seu próprio copo, inspecionando o

líquido rubi em seu interior durante um pensativo momento— Sempre pensei que a

erradicação dos Druidas foi uma ação mal decidida, Gideon. Mas esse era um tempo, como eu

recordo, quando os Vampiros foram bastante avaros para desfrutar da idéia de que Demônios

e Druidas eliminassem uns aos outros, nos voltando mais poderosos. Inclusive, embora então

fosse jovem, realmente recordo o modo popular de pensar naquele tempo, não era nossa

função interferir nas ações de sua raça como tampouco era a sua para intervir em nossas ações.

—Possivelmente se houvesse tal intervenção neste caso, poderíamos haver economizado

a muitos seres uma enorme quantidade de pena, - especulou Gideon. O Antigo Demônio falou

com total naturalidade, mas Damien era muito velho e muito sábio para não saber o peso que

aquelas palavras cobravam sobre a alma do Antigo.

—A guerra descansa pesadamente na memória de todos Gideon - disse o Vampiro

silenciosamente—, eu mesmo, em meu aborrecimento e impulsividade de juventude, arrastei

minha gente contra a tua faz quatro séculos.

—Aprecio seus intentos por me absolver, Damien; entretanto, sua energia estaria mais

bem empregada em outras coisas. —O Demônio depositou o copo sobre a mesa ao lado de seu

braço, o som do cristal ao entrar em contato com o ornamentado copo foi uma ressonante

advertência de que Gideon não se sentia tão indiferente e à altura como projetava a outros ao

seu redor—. Sou extremamente consciente de minha parte nas atrocidades de nossa guerra

com os Druidas, e reconheço o preço que os Demônios pagaram por isso. Pode ser que uma

pequena parte de minha absolvição descanse nas mãos dos outros que virão seguindo os

Nightwalkers 02 - Gideon

passos das duas fêmeas Druidisas, mas meus pecados são muito grandes para serem

perdoados tão facilmente.

—Nenhum pecado que pesa sobre uma alma durante mil anos é muito grande para o

perdão, Gideon. —Seus olhos índigo se obscureceram uma fração mais— Ao menos, essa é

minha própria esperança pessoal.

Gideon não admoestou outra vez o Vampiro. Ambos suportavam uma justa quantidade

de pecado sobre seus ombros, e nenhum podia entregar-se para romper nem sequer a mais

leve parte de esperança do outro. Estranho, que depois de tanto tempo, não conservassem

nenhuma esperança absolutamente. Gideon sempre tinha suspeitado, embora fosse algum

tipo de mecanismo de defesa, do que era essa coisa chamada esperança. Era uma criatura

cínica, da cabeça aos pés, e ninguém que o conhecesse em qualquer grau discutiria isso, mas

possivelmente estivessem um pouco impressionados por saber que podia haver uma parte do

Demônio que ainda aguardasse por uma tênue luz de absolvição. Gideon não era um homem

que estivesse acostumado a dar explicações ou desculpas por suas ações. Era o mais antigo e o

mais poderoso de sua classe, e com aquela distinção vinha o privilégio de fazer mais ou menos

algo que o satisfizesse. Por alcançar uma idade tão avançada, considerava ter aprendido o

suficiente para conhecer o que era melhor.

O exemplo principal seria sua presença na guarida do Príncipe Vampiro que estava

sentado frente a ele. Dentro de sua própria raça, Damien era o espelho da posição e poder de

Gideon. Embora os Vampiros e os Demônios não fossem inimigos, tampouco eram grandes

amigos. Havia ainda aqueles, em ambos os lados de suas raças, que tinham pouca tolerância

uns aos outros, e outros, que ativamente ainda procuravam chatear uns aos outros. Mas isto

tinha sido verdade entre as diferentes sociedades desde que o tempo era tempo. Não haveria

tal coisa como a paz perfeita enquanto houvesse o livre-arbítrio e a obstinada ignorância no

mundo, nem sequer nas raças tão idosas, tão poderosas e assim chamadas por sua grande

inteligência e sofisticado raciocínio.

Eram os defeitos que ambos mencionaram secamente, seus aspectos mais “humanos”.

—E quanto a sua pergunta anterior, Damien, desconhecemos exatamente quantos

Nigromantes estão reunindo neste momento. Entretanto, experiências recentes e

interrogatórios, indicam-me que suas filas estiveram crescendo silenciosamente há algum

tempo até agora. É só em suas atividades mais recentes que se fizeram visíveis para nós.

—Houve Convocações? —Perguntou Damien agudamente. O ato de Convocação,

quando um Nigromante roubava um Demônio e o mantinha cativo, era o destino mais

horrível conhecido para um Demonkind. Uma vez capturado dessa maneira, um Demônio,

sem importar quão inteligente, refinado, poderoso, e controlado fosse, depois de ser

bombardeado pelas mais vis, escuras artes que o tinham capturado, transformando-o em um

horrível monstro, praticamente estúpido… na mesma imagem de demônio extensamente

aceita pela raça humana. Não duvidava que este efeito fosse testemunhado pelos Nigromantes

durante os séculos em que havia imprimido a imagem, em primeiro lugar, na lenda urbana.

Em todo mito, algumas vezes havia mais que um grão de verdade.

A raça dos Nightwalkers era a prova vivente disso.

—Vários - continuou Gideon amargamente. —Não posso sequer começar a explicar as

ramificações que isto causou a minha raça.

Nightwalkers 02 - Gideon

—Não precisa explicá-lo. Os Nigromantes poucas vezes se atem à raça Demônio como

sabe. Não duvido que comecemos a encontrar as cinzas dos de minha classe estacadas ao sol

antes do que esperamos, para não mencionar os sangrentos restos dos Licántropos e outros

Nightwalkers.

—O único consolo que posso te dar no momento é que desde o seqüestro e recuperação

da irmã de nosso Rei, não houve outros intentos de Convocação - disse Gideon—Os

Nigromantes foram silenciados.

—O silêncio pode ser tão ameaçador como a ação. —Refletiu Damien, o anel em sua mão

golpeava a borda do copo de cristal, agarrava-o como um agudo instrumento.

—Estou de acordo. São uma espécie arrogante, esses humanos, viciados da magia negra.

Não permanecerão quietos durante muito tempo. Só o suficiente para reagrupar-se. É por isso

que estou aqui para adverti-lo, Damien. Sei que retornarão, e todos nós devemos estar

preparados.

—Aprecio. Assegurar-me-ei de alertar minha gente.

CAPÍTULO 1

—Siddah, Siddah Legna!

Quando Magdelegna ouviu a aguda voz chamando-a, mal teve tempo de ver um corpo

jovem passando como um raio junto a suas pernas por trás, quase a fazendo cair de joelhos.

Voltou-se e viu a pequena criatura pendurada em sua saia de gaze como se sua vida

dependesse disso.

—Daniel! Está puxando o cabelo da tia - repreendeu, tirando delicadamente as suaves

mechas frisadas de debaixo do agarre de seus joelhos. Amontoou a massa de cor café em suas

mãos e a jogou sobre o ombro para protegê-la da saudação entusiasta de seu sobrinho.

—Mamãe está zangadíssima comigo. Por favor, não deixe que me dê uns açoites!

Legna suspirou com exasperação tirando seu intrometido sobrinho das pernas e assim

poder baixar sua impressionante estatura para sua perspectiva significativamente menor.

—Sua mamãe é minha irmã, coração, mas isso não me dá direito de contradizer sua

escolha de castigo quando foste mau. A verdade, quando eu era pequena sua mãe, que é

minha irmã mais velha estava acostumada a me castigar quando era má. —Legna tentou

eliminar o sorriso quando a expressão da cara do menino se tornou horrorizada e indefesa.

Seu coração se derrubou nele quando recordou muito bem quão rigorosa podia ser sua irmã—

. De qualquer forma, parece-me recordar que me pediu asilo não faz nem dois dias. Tão cedo

se colocaste em confusões outra vez?

—Mas, tia Legna, você é meu Siddah. Pode lhe dizer que não me dê açoites.

—Daniel, precisamente porque sou sua Siddah deveria alertar sua mãe para que te

inculque disciplina. Quando chegar o momento de que sua Siddah te tutele, será muito

rigorosa contigo. Prometo-te, coração, que serei uma professora muito severa. E a primeira

lição será que deve confrontar as ramificações de seus erros. Todos os homens bons o fazem.

—Mas eu não sou um homem. Sou um menino. Só tenho seis anos.

—É verdade - Legna assentiu com a cabeça—, é só um menino. Mas, quantas vezes me

disse que quer ser um homem tão valente e forte como seu tio? Pretende algum dia ser o Rei

Nightwalkers 02 - Gideon

dos Demônios, como seu tio Noah. Não é? —Esperou que assentisse relutante—. Bem, que

tipo de rei seria se fugir como um covarde de suas próprias travessuras?

—Não acredito que fosse um bom - disse Daniel baixando seus enormes olhos azuis para

o chão para que sua tia não pudesse ver as lágrimas que haviam neles e que faziam jogo com o

tremor de sua voz—. Mas não quis ser mau de propósito.

Legna suspirou outra vez, tendo piedade de seu precoce sobrinho.

—Já sei. De verdade que acredito, que de coração, quer ser um menino bom.

—A gente só pode esperar que meu filho algum dia aprenda a seguir seu coração — a

seca observação veio da entrada do arboretum.

Legna se ergueu em toda sua estatura, sorrindo a sua irmã Hannah quando esta entrou

na habitação para recolher seu errante filho do chão e o colocar sobre o ombro.

—Por agora, não obstante, enquanto se empenhe em ceder a seus travessos impulsos,

como esconder-se sob a mesa do Grande Conselho durante a sessão, deve aceitar seu castigo.

—Ai, Daniel, me diga que não o fez — repreendeu Legna estalando a língua, fazendo que

as rechonchudas bochechas do menino se voltassem de um brilhante escarlate.

—Não queria fazê-lo. Só estava brincando de esconderijo com tio Noah.

—Sim, está bem, talvez da próxima vez devesse começar informando seu tio de que está

brincando contigo antes que se inteire da pior maneira, não é? De momento irá para casa e

para cama. Onde refletirá sobre seu comportamento até que seu pai volte. Depois discutirá o

assunto com ele, porque está claro que discuti-lo comigo não faz efeito. —Hannah pôs o

menino de pé e lhe deu um leve açoite no traseiro para lhe dirigir na direção adequada—

Vamos lá. Encontra seu Li-Li-ni e vá para casa. —Hannah desdobrou seus poderosos sentidos

por um momento procurando a localização da babá— Está no quarto dos meninos com suas

irmãs. Possivelmente se estiver na cama e tranqüilo quando eu chegar a casa, pensarei se devo

dizer a seu pai quão mau foste.

—Sim, mamãe — prometeu Daniel com a cabeça e a voz tão baixa e contrita quanto um

menino podia. Saiu do arboretum arrastando os pés, lançando a sua tia um último olhar

suplicante antes de serpentear pelo Grande Mai, claramente esperando suspender seu

confinamento o maior tempo possível

—Daniel, vi caracóis mover-se mais depressa — arreganhou Hannah sem sequer voltar-

se, sabendo o que seu filho estava tentando.

Os instintos maternais de Hannah maravilhavam Legna. A aparentemente inesgotável

paciência de sua irmã parecia um milagre, considerando que Daniel era o segundo de seus seis

filhos. Hannah e Legna esperaram até que Daniel chegou às escadas do castelo de seu irmão,

bem encaminhado a encontrar a sua Li-Li-ni, antes de olharem-se divertidas.

—É uma boa peça, minha irmã - disse Legna rindo brandamente enquanto se voltava

para o pequeno bonsai que tinha estado podando pacientemente— Espero que tome um

pouco de tempo antes de acrescentar mais a sua ninhada, como tão freqüentemente insiste em

fazer. Não acredito que possa ser Siddah de mais uma de suas crianças.

—Nunca faria algo assim, minha irmã—riu Hannah—. Temo que tenha bastante lidando

com Daniel e Eve durante o próximo século. Regozije-se no fato de que levam seus bons sete

anos. E, além disso, Noah também é seu Siddah. Não estará sozinha com seu treinamento.

Ninguém está.

—Isso o fará mais fácil, com tanto que esteja vivendo sob o teto de nosso irmão, quando

chegar o momento de que nos dê a tutela de ambos.

Nightwalkers 02 - Gideon

Isto fez que Hannah prestasse atenção e a mulher alta com a massa de cabelo negro com

mechas avermelhadas tão parecida com seu irmão, tocou o ombro de sua irmã.

—Legna, está tentando me dizer que está considerando deixar a casa de nosso irmão? É

infeliz aqui?

—Infeliz? Noah é o Rei, o mais reverenciado dos Demônios assim como um dos mais

poderosos Demônios de Fogo de toda nossa história. Sabe bem que apesar da volatilidade de

seu elemento primitivo, é o mais carinhoso e atento, o poder e a responsabilidade lhe fazem

incrivelmente sensível às necessidades daqueles que lhe rodeiam. Estou muito ocupada tanto

por ser sua castelã como pela inestimável diplomacia de sua corte. Nunca poderia ser infeliz

sob o teto de meu irmão.

—Muito bem, então não é infeliz. Mas… ou melhor, esta desejosa? —perguntou Hannah

levantando o queixo de sua irmã para obrigá-la a olhá-la aos olhos—Legna pode ser que eu

não seja um Demônio da Mente e uma grande empática como você, mas conheço minha irmã

bastante bem para saber quando suas emoções estão agitadas.

—De verdade, equivoca-se, Hannah — insistiu Legna deixando que a atenção de sua

irmã se concentrasse de novo na planta que estava estudando, mas que ainda não tinha

começado a podar devido à intervenção do sobrinho— Aqui não me falta nada nem tenho

tremendos desejos de partir. Mas passarão cinco anos, ano acima ano abaixo, antes que Eve

chegue à idade da Tutela e mais ainda, antes que seja o turno de Daniel. Podem ocorrer

grandes coisas, inclusive nesse curto lapso de tempo. Só estava meditando em voz alta. Não é

para que arme confusão.

O insolente som que Hannah fez, expandiu a probabilidade de acreditar nas demandas

de sua irmã mais nova, mas nesse momento Noah entrou no arboretum.

—Hannah juro que se não puser freio a esse seu pequeno descarado, eu o farei.

—Noah, por favor, sabe que Daniel não tem má intenção. É só um menino. —A mãe

defendeu seu filho tratando o tema como se não significasse nada para nenhum deles,

esquecendo rapidamente que ela mesma se preocupou antes.

—Hannah — disse Noah com o tom o mais próximo que se atrevia à reprimenda,

sabendo que sua irmã sendo uma fêmea Demônio de Fogo, tinha um temperamento que

igualava o dele.

Legna passava o olhar de um a outro irmão, perguntando-se como sempre qual dos dois

Demônios, que alardeavam da conexão que tinham com um elemento tão ardente como o

fogo, seria o primeiro em perder os nervos como ocorria freqüentemente quando se encetavam

em um cara a cara. Felizmente os Demônios de Fogo eram escassos. Infelizmente era bastante

volátil ter dois na mesma família.

Freqüentemente, custava trabalho a Legna, a empática e consumada diplomática,

discernir qual dos dois se avivaria sob a literal e proverbial gola da camisa antes de acalmar a

situação. Hannah e Noah se amavam intimamente, mas freqüentemente o amor era mais forte

quando não estavam perto um do outro e definitivamente muito mais forte quando não

estavam discutindo em lados opostos em um duelo de vontades.

—Hannah, o menino pode ter ouvido coisas que o perturbem — disse Noah mudando de

tática e adotando um acento de amável advertência que apelava aos mais fortes instintos de

Hannah, os maternais.

—O que aconteceu, Noah? —perguntou Hannah rapidamente levando a mão à garganta

e puxando nervosamente a adorável gargantilha de rubis que seu marido lhe tinha

Nightwalkers 02 - Gideon

presenteado em sua noite de bodas. Não era das que se alarmavam facilmente, mas o

manuseio da adornada gargantilha delatava sua preocupação.

Cada um dos três Demônios que estavam no florescido arboretum era consciente dos

recentes problemas que tinham começado a cair como uma praga sobre a raça dos

Nighwalkers. A mesma Legna tinha sido vítima desses fatos quando tinha sido convocada por

quatro nigromantes que tentavam roubar seus poderes e os de seus companheiros Demônios

para seus próprios fins e propósitos. Se não fosse pela intervenção da divina providência e as

habilidades recentemente adquiridas de uma amiga Druidisa, Legna teria morrido. Ou pior. O

temor de Hannah estava bem baseado dadas as circunstâncias.

—Desta vez não há notícias novas pelas quais possa se sentir ameaçada, Hannah. Assim

não se inquiete em demasia. De qualquer forma - continuou Noah— estamos discutindo

métodos para lutar com os nigromantes com os que nos encontraremos no futuro. Não preciso

dizer que escutar os debates dos Executores e os guerreiros sobre táticas para nos desfazer

desta ameaça, não é algo para um menino de seis anos.

—Sim, tem razão, meu irmão. Sinto muito. Vou com Daniel agora mesmo.

—Hannah - Noah a agarrou pelo braço ao passar depressa diante dele, a virando

brandamente para poder passar um dedo carinhosamente por sua face e beijá-la calidamente

na testa— Amo meu sobrinho, sabe não é? Estou preocupado por ele. Não queria ser severo.

—É o Rei, Noah. É seu dever preocupar-se por todos nós. E sei que desta vez, é uma

pesada carga. Vou encarregar-me de Daniel.

—E no futuro, olharei debaixo da mesa do Conselho antes de começar as reuniões. —

acrescentou Noah, piscando o olho com bom humor fazendo-a rir. Hannah beijou seu irmão

na face e depois, com um repentino turbilhão das linhas de sua figura estatuária, começou a

girar sobre si mesma em uma massa de fumaça que rapidamente se esfumaçou do castelo pelo

espaço aberto em uma das vidraças de cores do Grande Vestíbulo.

Noah se voltou para sua irmã mais nova arqueando uma sobrancelha a uma altura mais

que presunçosa. Legna lhe devolveu o gesto arqueando suas sobrancelhas lhe dando uma

delicada ameaça de aplauso.

—E eu que temia que nunca aprendesse a arte da diplomacia — exclamou com os lábios

franzidos em um sorriso— Só levou dois séculos e meio de minha vida. Mais na realidade.

Leva alguns séculos de vantagem.

—É divertido ver que só parece recordar que sou muito mais velho que você quando

enquadra com seus argumentos, minha irmã—burlou dela puxando-a pelo cabelo como tinha

feito desde que era uma menina.

—Bom, posso dizer com toda honestidade que é a primeira vez que o vi deixar passar

uma boa discussão com Hannah pelos altares da paz. Estou começando a me perguntar se é de

verdade meu irmão. Talvez seja um impostor…

—Tome cuidado, Legna. Fala com palavras de traição - tomou o cabelo, puxando suas

mechas outra vez e fazendo que se voltasse para lhe dar um tapa na mão.

—Não entendo como convenceu o Conselho de que foi o suficientemente amadurecido

para ser Rei. Noah! É como um menino — se retorceu para que não pudesse voltar a lhe puxar

o cabelo—. E juro que se voltar a me puxar o cabelo outra vez como um garotinho de colégio,

vou te pôr para dormir e rasparei sua cabeça.

Nightwalkers 02 - Gideon

Imediatamente, Noah levantou as mãos em gesto de paz, rindo ao ver que Legna se

ruborizava de exasperação. Porque apesar de toda a graça e as maneiras de grande senhora, a

irmãzinha de Noah era bastante capaz de cumprir qualquer ameaça que lançasse.

—Vai a sério, Noah. Tem perto de setecentos anos. Poderia se pensar que pelo menos,

agisse conforme sua idade.

—Legna, todos estes meses atrás estive agindo de acordo com minha idade. Você é a

única que me alivia dessa carga. Tenho a crença de que não deveríamos renunciar

completamente a essa parte infantil, divertida e travessa. E… — disse aproximando-se

suficiente para lhe colocar atrás da orelha uma mecha de cabelo despenteado por suas

brincadeiras, com o carinho que sentia por ela brilhando nos olhos—. Tanto tempo quanto me

mantenha jovem de coração, tanto tempo que não deixarei que esqueça que você também tem

que se manter assim, irmãzinha.

Legna lhe sorriu brandamente, aproximando-se para lhe beijar calidamente na face

devolvendo assim a ternura e o apoio. Tinha estado lhe aporrinhando e de repente se

arrependeu de havê-lo feito sabendo que ele levava uma pesada carga fazia longo tempo

devido às necessidades da raça. Deixar-lhe-ia que puxasse cada um de seus cabelos se isso lhe

proporcionasse um pouco de paz e felicidade para equilibrar o estresse e o dever.

—Diz-me isto e outras coisas parecidas diariamente, meu irmão. —Fez uma pausa

bastante longa para agarrar a mão que apoiava em sua face e enredá-la com as suas— De fato,

foste mais que cortês estes últimos cinco meses.

—Não há nada mal que um irmão mostre a sua querida irmã a medida de seu carinho-

comentou seguindo-a enquanto a levava fora da brumosa estufa.

—É verdade. E você sempre foi cortês comigo ao longo dos anos — assentiu—.

Entretanto, Noah, da Convocação…

Noah parou, tirando abruptamente a mão de entre as suas.

—Não quero discuti-lo - sua voz caiu várias oitavas com um que de raiva entrelaçado

atrás dos tons baixos—. Acabou-se. Os monstros que ousaram te roubar de mim estão mortos.

Está a salvo e acabou o assunto.

—A quem pensa que protege ao não querer discuti-lo? —De repente Legna sentiu que

tinham evitado muito o assunto e lhe fez frente—. Para mim? Como disse, agora estou a salvo,

então o que importa? Ainda pensa que me escondo atrás de Isabella, a que me salvou de me

converter em uma Transformada? Devemos proteger Isabella. Isabella é um artigo muito

prezado. Isabella, a Executora e seus poderes especiais de híbrido Druida e Humana! OH, não

devemos revelar como me salvou ou daria falsas esperanças a outros e isso poria a nossa Bela

em perigo. —O tom de Legna tendo chegado a este ponto ia mais à frente do sarcasmo, seus

olhos cinza esverdeados cintilavam de frustração—. Noah, aqui só estamos você e eu.

Ninguém mais! Quero que se vire e me olhe e fale comigo sobre por que está evitando esta

discussão quando aqui não há ninguém salvo eu.

—Legna — Noah fez uma pausa, agüentando em silêncio enquanto algum tipo de luta

interna se refletia atrás dos olhos cinza esverdeados que igualavam os seus em expressividade

tanto como na cor—. As palavras nunca descreverão satisfatoriamente a profundidade da

perda que senti no dia em que se dissolveu em um nada ante meus olhos. Naquele momento

jurei que, se por algum milagre voltava a estar ao meu lado a salvo, nunca permitiria que nada

pusesse sua existência em perigo outra vez. Se não discuto estas coisas contigo é porque não

posso suportar reviver a dor daquele momento nem posso contemplar o medo de que volte a

Nightwalkers 02 - Gideon

acontecer outra vez sem me paralisar. —Finalmente a olhou, enfrentando seus grandes

olhos—. Esta família, assim como o reino, não pode funcionar sob o comando de um Rei

paralisado por um medo e uma dor de tal magnitude. Rogo-te que esqueça este assunto deste

momento em adiante, Magdelegna. Se não por sua segurança e a dos outros implicados, por

minha paz mental.

Legna ficou silenciosa por um momento, seus sentidos naturais percebiam a aguda

angústia de Noah, seu coração pulsava no mesmo ritmo ligeiramente nervoso dele. Seu medo

era evidente e tão estranho. Noah era o macho mais valente e firme que conhecia e a

perturbava sentir nele as emoções que o debilitavam. Mas o que mais punha em perigo seus

sentimentos era dar-se conta que estava guardando algo para si mesmo.

Em efeito, era como se estivesse mentindo a ela. Inclusive se não fosse capaz de

empatizar com seus sentimentos, a forma em que lhe dilatavam ligeiramente os olhos

acompanhados pela aceleração de seu pulso e a pressão sangüínea, o teriam traído.

Acrescentado ao feito de que podia sentir muito facilmente uma forte ansiedade jazendo sob

seu medo e Legna tinha a certeza de que o percebia.

Não se ofendeu que Noah estivesse mentindo ou ocultando dela algo acrescentado às

questões que tinha mencionado porque ele sempre havia sentido essa fraternal necessidade de

protegê-la, não importa quão mais velha se fez ou quão poderosa pudesse chegar a ser. Ele era

muito consciente de que ela era mais que suficientemente forte para penetrar inclusive em

seus formidáveis intentos de esconder seus sentimentos. Simplesmente esperava que ela

passasse por cima esta ocultação menor da verdade por amor a ele. Ou possivelmente por seu

amor a ela.