Goyaz por Visconde de Taunay - Versão HTML

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Goyaz

Visconde de Taunay

1875

Goyaz

Visconde de Taunay

Instituto Centro-Brasileiro de Cultura

PREFÁCIO

Havendo em 1872 sido eleito deputado por Goyaz à 15ª legislatura e em 1875

reeleito, entendeu o autor deste volume, como preito ao eleitorado que o havia delegado ao Parlamento, escrever uma memória analisando a contribuição da província, que representava, à Exposição Nacional do Rio de Janeiro, preparatória à do Brasil no grande certame universal da Filadélfia, em 1876, comemorativo do primeiro centenário da independência dos Estados Unidos da América.

É esta memória que hoje se republica em segunda edição, mercê do carinho com que os meus prezados amigos os srs. Weiszflog Irmãos1 se têm empenhado em oferecer ao público brasileiro uma edição completa das obras de meu pai, já hoje constante de 32

volumes.

Mereceu o estudo do Taunay largo apreço do público. Há quase meio século esgotou-se a sua primeira edição. Os exemplares que dela andam nas livrarias de obras brasileiras atingem preços significativos do empenho dos candidatos à sua posse.

Freqüentemente vêm as suas páginas citadas na imprensa e em obras que se ocupam do grande Estado central. É um livro, por assim dizer, inédito, pois que hoje tenho a honra de apresentar ao público brasileiro.

Em anexo à obra de meu pai resolvi publicar valioso trabalho oficial referente a um dos maiores problemas de Goyaz e do Brasil Central – o estabelecimento da navegação franca dos dois imensos caudais, o Araguaia e o Tocantins.

Subscreve-o um nome glorioso nos fastos militares brasileiros: o de Antônio Florêncio Pereira do Lago, o heróico soldado que foi uma das mais notáveis figuras da campanha de Mato Grosso, sobretudo da Retirada da Laguna, 2 e mais tarde prestou ainda, valiosíssimos serviços ao Brasil, como proficiente engenheiro militar e sertanista afeito a todas as rudezas da vida.

É-me sobremodo grato associar neste volume as obras de dois companheiros de armas, irmanados por uma amizade que jamais sofreu uma diminuição por pequena que 1 Trata-se de Otto e Alfried Weiszflog, editores originários de Hamburgo (Alemanha), fundadores da Weiszflog Irmãos & Cia., mais tarde Companhia Melhoramentos, ainda hoje em atividade.

2 Episódios da Guerra do Paraguai (1864-70), da qual Taunay participou como engenheiro militar. Sua experiência na campanha do Paraguai rendeu pelo menos duas obras: Diário do Exército (1870) e A Retirada da Laguna (1871).

fosse, e de que meu pai, biógrafo de seu amigo, imenso se desvanecia.

É hoje raro este documento valioso, este relatório de Pereira do Lago ao Governo Imperial, por quem foi publicado na Imprensa Nacional em 1876. Os que amam o estudo das coisas da nossa terra apreciarão certamente estas páginas de tão prestante quanto indefesso servidor do Brasil que foi Antônio Florêncio Pereira do Lago.

S. Paulo, 3 de setembro de 1931

Affonso de E. Taunay

GOYAZ

I

O grande certame universal de Filadélfia em 1876.

O convite dos Estados Unidos ao Brasil

Para comemorar o primeiro centenário de sua heróica e penosa independência, teve a grande confederação norte-americana um pensamento elevado e digno sem duvida daquele memorável dia.

Congregar em tomo de si todas as nações do mundo civilizado para a glorificação, em comum, do trabalho, que tanto a exaltou; fazer das riquezas do globo e das maravilhas da indústria humana auréola à grandiosa recordação; apelidar todos os povos à vasta e incruenta arena, como rememoração de sanguinolentas vitórias: tal foi a realização daquela idéia que o orbe acolheu jubiloso, porque com razão ligou a essa majestosa festa o sentimento consagrador de um dos mais esplêndidos e duradouros triunfos da liberdade.

Na história das duas Américas a exposição universal de Filadélfia por certo marcará era notável. Significa a confiança e a força que a atividade e a união produzem: significa o progresso e a prosperidade do novo mundo que, sem receio do julgamento dos países europeus, os convida a virem dar maior realce às suas festividades.

Para todos os povos destes dois grandes continentes, a ocasião é, pois, solene.

Pela vez primeira voltar-se-ão as vistas da Europa para além-Atlântico, a contemplar não o embate das armas, o encontro de exércitos a se despedaçarem, mas esperando com curiosidade, e talvez sobressalto, o resultado do pleito pacífico em que se empenhou ao lado de povos que ela viu nascer e formou, que são seus filhos e pupilos – crianças quase, a competir com velhos.

Outra consideração de mais vulto ainda se prende também àquela solenidade.

Ali serão, embora em resumido quadro, descortinadas a opulência e possança da natureza americana e como, sem contestação, são eles os mais poderosos auxiliares do homem na aplicação de sua energia, terão, pela admiração que incutirem, decisiva influência na questão hoje vital para qualquer das nacionalidades da América: a emigração.

Ah! Se o Brasil, este dilatado Império que há tantos anos goza os benefícios de sábias instituições e as doçuras de inalterável ordem e tranqüilidade; se este país, regido por libérrima norma, que só pela grandeza territorial logo se impõe à atenção de quem lança os olhos para um mapa-múndi: se ele pudesse aproveitar o ensejo e, ao passo que desdobrasse ante as vistas maravilhadas do mundo a assombrosa magnificência de sua natureza, proclamasse a quantos se achem peados, infelizes, descontentes ou desanimados no seu torrão natal:

– Vinde, vinde! Aqui encontrareis a hospitalidade na sua mais bela e ampla forma – a grande naturalização. Vinde! Aqui achareis todas as leis protetoras, a prática das aspirações generosas do século, a garantia para vossas famílias, a liberdade, a segurança e a paz! Trazei-me o concurso de vossa inteligência, de vossa ilustração, de vossa atividade, de vosso trabalho, e eu, ajudado por esta natureza que vos obumbra, dar-vos-ei riqueza e felicidade, consideração e amor.

Ah! Se o Brasil dissesse isso, a exposição de Filadélfia devera ser abençoada por quantos estremecem a pátria e impacientes quereriam vê-la marchar pujante, como é digna, como pode, entre as primeiras nações do mundo...

II

A exposição nacional brasileira de 1875.

O apelo às diversas circunscrições do país.

A resposta goiana

A falta desse deslumbrante programa que ainda não podemos apregoar, busquemos aparecer de modo condigno na festa a que fomos convidados, mostrando que temos sabido caminhar, senão com pasmosa celeridade, em todo caso com seriedade e tino, na carreira da vida.

Realização de tão justo empenho foi sem dúvida a exposição nacional organizada no palácio do Ministério da Agricultura. Ali se reuniram todos os produtos enviados por cada uma das vinte províncias do Império, a fim de serem sujeitos a rigoroso exame e irem depois conjuntamente representar o Brasil no que tem de importante, de útil, curioso e interessante, no que patenteia o seu incremento e justifica as fagueiras esperanças do futuro.

Como todas as outras, foi a província de Goyaz convidada a cooperar com o contingente que em suas forças coubesse; convite obrigatório que, nas circunstâncias especiais em que se acha, trazia-lhe grave o custoso compromisso.

Só de um lado houve logo e devia haver nos seus nobres filhos o desejo patriótico de acudir ao chamado do país, de outro era-lhe natural, e bem desculpável, o sentimento de esquivança em vir entrar em desvantajosa competência com outras porções do Império privilegiadas pela força das coisas ou pelo favor dos homens, e exibir apoucadas amostras daquilo que por si é grandioso e infunde grata surpresa.

Nessa alternativa, a província de Goyaz procedeu com a lealdade e clareza que lhe são costumadas e, com os recursos financeiros de que dispõe, à exposição nacional enviou o que pôde, unicamente como inequívoca prova de boa vontade, e não como representação do que é, do que vale, do que poderá ser e há de valer um dia.

Basta enumerar a soma empregada na aquisição e remessa dos produtos agrícolas e industriais, que deviam viajar por terra centenas de léguas antes de chegarem às prateleiras onde estiveram dispostos, basta enunciá-la para dar plena justificação à singeleza daquela exposição e ver que baldados haviam do ser os esforços dos filhos de tão longínqua zona e do seu digno, probo e estimado administrador: um conto e seiscentos mil réis!

III

Variedade e exuberância dos recursos goianos.

Goyaz e as outras províncias do Império.

O papel civilizador de S. Paulo

E entretanto Goyaz, pela variedade e exuberância, dos recursos naturais que encerra, é uma província imensa, uma região favorecida dos mais opulentos e apetecidos dons da criação.

Grandes rios por toda a parte lhe cortam a extensa área, como que incitando o comércio interno e a permuta: campos ubérrimos se alongam desertos e inaproveitados; metais preciosos jazem ocultos nas entranhas da terra; matas de alentados madeiros orlam os caudais e cobrem o dorso de serras salpicadas de custosos cristais: todos os tesouros, enfim, da natureza acham-se ali espalhados com inexcedível profusão, tão abundante quão abandonados.

Quantas vezes não fica o viajante extasiado ao ver desenrolarem-se ante seus passos dilatadas e verdejantes campinas, esmaltadas de um sem-número de flores silvestres, sulcadas de córregos limpidíssimos, ornadas de majestosos buritis, e ao longe emolduradas por linhas de montanhas caprichosamente recortadas?

Quantas?

É isto que Goyaz não pôde enviar ao palácio da exposição nacional.

Se o painel é mágico, em compensação as sombras são carregadas.

Goyaz, essa região favorecida, é o centro do Brasil, cuja maior vitalidade e civilização concentram-se, como é sabido, na orla marítima, embora se alargue de dia para dia.

Goyaz não tem população para bem povoar uma zona sequer de seu imenso território; não tem hábitos de trabalho constante, pois não vê a retribuição imediata do labor; não sente em si a evolução do progresso; vive vida lânguida e desanimada e, prostrado sobre minas riquíssimas de ouro, não possui um real de seu.

Amazonas e Mato Grosso podem à primeira vista parecer ainda mais mal aquinhoados e infelizes; mas elas [as províncias] têm o Amazonas e o Paraguai, rios francos, navegados sem interrupção e que são outros tantos braços do oceano a levarem ao centro das mais remotas localidades o alento e o comércio.

Sertão no Brasil quer dizer terreno ainda não de todo ganho ao trabalho e à civilização. Todas as províncias limítrofes de Goyaz o têm largo e até mal conhecido; mas agora aos pontos mais extremos do Pará, Maranhão, Piauí, Bahia, Minas Gerais, S.

Paulo e Mato Grosso, somem-se as léguas e léguas que é preciso vencer para chegar à capital de Goyaz e às suas cidades, senão florescentes, em todo o caso não moribundas, e ter-se-á consideração para quem vive tão segregado e talvez esquecido da comunhão brasileira.

Vai nisto uma increpação, uma censura, um queixume?

Não, até certo ponto.

Ninguém pode ser culpado das desvantagens topográficas com que luta a província; ninguém pode de chofre remediá-las. Ela tem irremessivelmente que esperar que as irmãs que a cercam ganhem forças e progridam, a fim de receber a influição externa e, cobrando robustez, concorrer lambem para o engrandecimento da pátria comum.

E, como S. Paulo, relembrado da antiga e assombrosa energia, marcha na irradiação do progresso novamente para o norte, desta feita assinalando seus passos com triunfos mais duráveis, é por aquele lado que, com razão, esperam os goianos mais depressa receber o abalo que os sacuda do entorpecimento de letal prostração.

Chegue, com efeito, uma linha férrea às margens do majestoso rio Grande – e esse dia não está distante –, e logo raiará, se não para a província toda, com certeza para sua parte meridional, mais povoada e laboriosa, uma era de real prosperidade e de esperanças, ainda não conhecida.

Esse dia, esse momento, Goyaz terá tido o merecimento raro de esperá-lo paciente e resignadamente que é triste viver-se em terra que vai em decadência, sem que ao longe se veja luzir promessa de melhores tempos.

IV

A fase da mineração aurífera.

Dias de esplendor. Decréscimo de mineração.

Desmembramento do território goiano

Foi a sede de ouro que trouxe o descobrimento de Goyaz. Aventureiros de toda a casta seguiram as pisadas de Pascoal Paes de Araújo, Manuel Correia, e, sobretudo de Bartolomeu Bueno da Silva – o Anhangüera – e de seu filho, que, varando ínvios sertões, arremessando diante de si hordas de índios, embora pacíficos, e, escravizando-os, foram ter às margens do Araguaia.

As descrições da região [das tribos] dos araés ou aracis, onde eram de ouro as montanhas, de prata o fundo dos lagos encantados e nas rochas viam-se gravados os martírios de Nosso Senhor Jesus Cristo, inflamavam a imaginação daqueles intrépidos exploradores, possuídos todos da febre das riquezas e os impeliam em numerosas e desordenadas chusmas a buscarem as sonhadas maravilhas.

Apesar do que encontraram, do muito ouro que o seio das terras freneticamente revolvido, os rios desviados do curso, as montanhas cortadas a talho aberto, desvendaram, tantos foram os malogros, tamanhos os desenganos que as povoações de Goyaz, às pressas constituídas, nunca tiveram, para assim dizer, um período de verdadeiro florescimento.

Já em 1785 o governador Tristão da Cunha3 assinalava seu profundo abatimento, quando [as povoações] apenas datavam de 1726.

3 Tristão da Cunha Menezes, governador da capitania de Goiás de 27 de junho de 1783 a 25 de fevereiro de 1800.

Com efeito, diz um escritor notável, o general Cunha Matos, 4 os anos de 1761 e seguintes foram e têm sido anos diversos dos que haviam decorrido desde a descoberta da província. O ouro diminuiu, as fábricas dessecaram-se, os trabalhos extinguiram-se, e os habitantes de Goyaz sentiram a mão férrea da desgraça ir pesando sobre suas cabeças. Endividados com a fazenda pública, com as praças de comércio de beira-mar, com o juízo dos defuntos e ausentes, com o cofre dos órfãos, e com os particulares que os haviam acreditado, perseguidos pelos inexoráveis agentes fiscais e pelos credores, viram-se eles despojados de suas efêmeras riquezas, e reduzidos repentinamente à última indigência.

As coisas nesse declive foram a pior, e, quando Augusto de Saint-Hilaire, 5 em 1819, visitou a província, pôde nas seguintes palavras reunir o seu passado e o que ele via com os olhos da mais escrupulosa imparcialidade:

Minas de ouro descobertas por alguns homens audazes e empreendedores; uma multidão de aventureiros precipitando-se sobre riquezas anunciadas com a exageração da avidez e da esperança; uma sociedade que ganha hábitos de ordem sob o rigor da disciplina militar e cujos costumes foram se abrandando pela influência de clima abrasador e mole ociosidade; curtos instantes de esplendor e prodigalidade; ruínas e contristador decaimento; tal é em poucas palavras a história da província de Goyaz.

E como consolo, acrescenta:

É mais ou menos a de todas as regiões auríferas.

Naquelas dolorosas circunstâncias, certo parecia o aniquilamento total.

O que, porém, impediu, que todos os arraiais fossem progressivamente se extinguindo, como aconteceu com tantos de que resta tão-somente o nome, que as populações desacoroçoadas para sempre deixassem os lugares que não podiam mais satisfazer suas largas ambições?

Foi uma nobre resolução.

Os filhos daqueles inquietos exploradores compreenderam que era impossível continuar a ingrata mineração que exaure o solo e só enriquece o forasteiro, e então puseram-se não mais a cavar a terra, mas a cultivá-la, e de pronto colheitas feracíssimas, 4 Raimundo José da Cunha Matos, autor de Itinerário do Rio de Janeiro ao Pará e Maranhão pelas províncias de Minas Gerias e Goyaz e Corografia histórica da província de Goyaz, publicados respectivamente em 1836 e 1874. Veja também bibliografia no final.

5 Naturalista francês (1799-1853), viajou por Goiás entre maio e setembro de 1819, autor de Voyages dans líntérieur du Brésil, 3ème partie: Voyages aux sources du Rio S. Francisco et dans la province de Goyaz, publicado na França entre 1847 e 1848. Veja também bibliografia no final.

umas após outras, cada qual mais copiosa, recompensaram o abençoado trabalho.

Tanta fartura, excedente de muito às necessidades do limitado consumo, foi então aos poucos, mas seguidamente, atraindo nova emigração de gente, e esta moralizada e afeita às lidas da agricultura. Foi assim que milhares de mineiros, paulistas e cearenses vieram e vêm sucessivamente vindo povoar e fertilizar os sertões de Goyaz, trazendo para essa nova terra de promissão todos os benefícios da confiança no futuro.

Daquela transformação difícil, que honra a província e que ainda se está operando, surgiu o apego que todo goiano tem à terra em que nasceu. Pode achá-la tristonha, entorpecida, isolada, mas ama-a com todas as forças do coração.

As mutilações que já sofreu e ainda receia, à vista das pretensões das províncias confinantes, doem-lhe fundamente, e não por tacanho egoísmo, que são as mesmas porções destacadas e unidas a corpos mais vigorosos que se queixam e protestam.

Foi por isto, foi inspirado nesse arreigado e veemente sentimento que, como representante de Goyaz na última legislatura, com tenacidade me opus à projetada desanexação da importante comarca da Boa Vista6 em favor do Pará.

Para tais desmembramentos acabou o pretexto sempre renascente. Hoje Goyaz, sobretudo daquele lado, tem limites perfeitamente naturais, limites como nenhuma outra província; deve conservá-los e esperar unido dias mais felizes e a que tem pleno direito.

Ou então, atendendo a considerações de ordem elevada e para ativar aquele resultado, seja pelo Poder Legislativo definitivamente separado em duas vastas zonas, ambas com sobejos elementos de engrandecimento e que de certo progredirão mais ou menos rapidamente: uma ao sul, em contato com a prosperidade de S. Paulo: outra ao norte, por meio de navegação dos rios Araguaia e Tocantins.

V

O sistema hidrográfico goiano.

O que pode dar a navegação fluvial

Depois daquela bela e inesperada transmutação de região metalúrgica em zona meramente agrícola, como causa principal do estado estacionário e de desalento em que 6 Atual Tocantinópolis, no Estado do Tocantins.

ainda se acha a província, assinalam-se as distâncias enormes que se interpõem entre qualquer de seus pontos e o animado litoral do oceano Atlântico.

Quantos, porém, conhecem o seu sistema hidrográfico ponderam conceituosamente “que a natureza parece ter-lhe preparado meios de comunicação, que tão-somente esperam por população mais condensada para fazer florescer o comércio o permitir-lhe enviar seus produtos às duas extremidades do Brasil”, de um lado pela navegação dos rios Meia Ponte, Turvo, dos Bois, Paranaíba e Rio Grande ou Paraná; do outro pelo Araguaia e Tocantins, até a capital do Pará.

Estas linhas fluviais são com efeito de espantoso desenvolvimento; mas, cumpre dizê-lo, cheias de obstáculos, canseiras e perigos, que, se não impediram sua completa exploração, fizeram pelo menos desacoroçoar quantos as seguiram depois dos primeiros descobridores, necessitando em muitos pontos dos melhoramentos embora não custosos da arte.

A do sul, que, pelo Tietê, pôde levar ao coração da província de S. Paulo, foi ardida e desastradamente encetada por Estanislau Gutierres em 1808; depois, com melhor êxito levada em 1816 à conclusão pelos intrépidos José Pinto da Fonseca e João Caetano da Silva, alcançando este com relativa facilidade o povoado de Piracicaba, em S. Paulo.

No ano de 1824, Antônio Leite, desceu os rios Turvo e dos Bois, entrou no Paranaíba e, navegando-o águas acima, foi, depois de subir durante seis dias o rio das Velhas, ter à povoação de Santa Ana, na província de Minas Gerais. 7

Ultimamente, em fins de 1873, um juiz de direito, o dr. Aguiar Whitaker, explorou o rio Meia Ponte, que na ocasião pela extrema seca não dava navegação, mas que, em tempo de cheias presta-se perfeitamente ao movimento de vapores. Entrou no majestoso Paranaíba, subiu os rios dos Bois e Turvo, que dão ótimo trânsito em qualquer tempo e voltou ao Paranaíba, cujo curso sulcou a montante e a jusante. Diz ele: Em nenhum ponto por onde passei deixa esse grande rio de dar fundo para uma nau, nem tão pouco o canal se estreita a menos de vinte braças. A não ser em alguns lugares sinuoso e rápido, fora de navegação franca e cômoda, circunstância, porém, que não impede de modo algum a passagem de embarcações menores e de fácil governo. Principalmente para cima pode-se estabelecer sem risco nem incômodo algum uma linha de vapores desde o canal S. Simão até a cachoeira Dourada, 25 a 30 léguas.

7 Na época, o topônimo rio das Velhas era usado para diversos cursos d´água. Na região, designava tanto um afluente do Paranaíba como outro do rio Grande, ambos em Minas Gerais .

Só serão, contudo, devidamente auferidas todas as vantagens dessas largas vias de comunicação, depois de melhoradas e apropriadas ao comércio, quando uma estrada de ferro tiver, como eu já disse, alcançado ou a barranca direita do rio Grande ou a vila de Santa Ana do Paranaíba. 8

A linha fluvial do norte consta de dois gigantescos caudais, que, depois de colherem o tributo de inúmeros confluentes, vão em comum levar as águas ao Guajará, braço mais meridional do grandioso Amazonas.

Para o incremento do Norte da província de Goyaz, e reflexamente de toda ela, bastará a navegarão seguida e fácil de um só desses dois rios; mas a natureza, parecendo pródiga em suas dádivas, salpicou-os ambos de tantas cachoeiras, itaipavas e penedias, que só a poder de muita constância e perícia podem ser aproveitados.

Apesar de tudo, tem sido essa navegação de todo o tempo considerada como um dos mais valiosos elementos da prosperidade da terra goiana e representa uma soma enorme de esforços feitos pelos homens que consagraram e consagram àquela bela província amor e interesse.

Afluente do Tocantins, nasce o Araguaia (ou Ara-raguaya), aos 19 graus de latitude S. na serra do Caiapó, corre mais de 200 léguas de S.S.O. a N.N.E. e antes de perder, talvez injustamente, o nome, absorve o contingente de 16 caudalosos rios e de um sem-número de tributários de menor importância.

O Tocantins, primitivamente chamado Paraopeba, e formado de três grandes ramos – o Uru, o das Almas e o Maranhão – recebe, no seu curso de 370 léguas, o cabedal de 40 grossos feudatários, alguns dos quais imensos como o Paraná, 9 o do Sono, o Manoel Alves, etc.; toma por algum tempo direção quase paralela ao Araguaia; inclina-se depois como que a formar um ângulo agudo e afinal descreve um extenso arco de círculo, que vai findar no ponto de confluência, onde se levanta o presídio10 de S. João das Duas Barras. 11

8 Atual cidade de Paranaíba, no Mato Grosso do Sul.

9 Trata-se na verdade do rio Paranã.

10 Nesta acepção designa sede de guarnição militar.

11 Atual São João do Araguaia, no Estado do Pará.

VI

A navegação do Araguaia e do Tocantins.

Primeiras expedições fluviais. Esquisita pretensão de Castelnau

Deixando de lado a singular pretensão de Castelnau, 12 que, por ter viajado o rio Araguaia no ano de 1844, como que chama a si as glórias de primeiro explorador, a ponto de declará-lo à peu près inconnu13 e querer batizá-lo, vemos que sua navegação, com fins de buscar ouro ou catequizar indígenas, data dos tempos dos mais remotos descobrimentos na zona central do Brasil.

Em 1669, Manoel Brandão e Gonçalo Paes, vindos do Pará, subiram o Tocantins e, vencendo os óbices da zona encachoeirada, entraram no Araguaia, cujo curso, porém, só foi conhecido até a ilha do Bananal, depois da viagem do capitão Diogo Pinto de Gaya, em 1720.

Com vistas comerciais foi o Tocantins o primeiro navegado, pois em 1772 o governador de Goyaz, José de Almeida e Vasconcelos, 14 incumbiu Antônio Luiz Tavares Lisboa de levar um carregamento de gêneros de permuta a Belém.

Concluída a arriscada empresa, viu-se Lisboa, contra suas esperanças, maltratado pelo governador do Grão-Pará, ficando-lhe terminantemente proibido voltar por onde viera, o que o obrigou a passar para o Maranhão, donde por terra seguiu para Goyaz.

Entretanto, só no ano de 1791 foi que Tomás de Souza Villa Real desceu, no governo de Tristão da Cunha e Menezes, 15 o Araguaia, com destino a trocar na praça do Pará alguns couros, e muitas arrobas de cristal de rocha.

Desta vez, porém, o fato pareceu de tal importância e tamanhas as conseqüências, que o governo português por carta régia de 1798 recomendou ao capitão 12 Francis Castelnau (1812-1880), naturalista francês. Viajou por Goiás entre fevereiro e dezembro de 1844, autor de Expedition dans les parties centrales d lÁmérique du Sud, publicado em Paris em 1850. Veja também bibliografia no final.

13 Em francês: meio desconhecido.

14 Governador da capitania de Goiás de 26 de junho de 1772 a 17 de maio de 1778.

15 Governador da capitania de Goiás de 27 de junho de 1783 a 25 de fevereiro de 1800.

general nomeado para Goyaz, d. João Manoel de Menezes, 16 se dirigisse em pessoa pelo rio Araguaia a tomar conta da administração em Vila Boa de Goyaz, o que na verdade foi cumprido.

Apesar da expressa indicação real para favonearem-se aqueles ardidos cometimentos e de algumas tentativas feitas no sentido de ajudá-los eficazmente, quem procurou dar verdadeiro impulso à navegação do Araguaia e Tocantins, desviando ainda mais os povos do mister ingrato da mineração para incliná-los ao moralizador empenho do lavramento das terras, foi sem dúvida alguma d. Francisco de Assis Mascarenhas, 17

posteriormente Conde e Marquês de S. João da Palma.

Achando no desembargador Joaquim Teotônio Segurado, 18 primeiro ouvidor da comarca de S. João das Duas Barras, um auxiliar precioso, encarregou-o do promover o aproveitamento do rio Tocantins e voltou exclusivamente sua atenção para o Araguaia, em cujo vale enxergava auspicioso futuro.

Para realizar seus planos escreveu antes de tudo ao governador do Grão-Pará, pedindo-lhe auxílios e cooperação.

Não teve resposta, ou se a teve foi seca e desanimadora. Malgrado tal frieza, mais um empecilho aos tantos com que lutava; malgrado um naufrágio no rio do Peixe ou Tesoura, que lhe ia custando a vida, não sentiu arrefecidos os impulsos do zelo, e, em maio de 1806, conseguiu fazer partir do porto de Santa Rita uma monção de cinco canoas, a que se agregaram mais quatro pertencentes a particulares, tripuladas por 94

pessoas, e levando um carregamento de 1.640 arrobas em açúcar, couros, algodão, quina, fumo e vários outros gêneros.

No ano seguinte, pela mesma época, novo comboio, com carga quase igual, foi despachado para o Pará, a cujo governador, d. Francisco, como prova do quanto interessava à população de todo o interior do Brasil o prosseguimento regular dessas expedições, escreveu extensa carta, na qual se liam as seguintes linhas: Esta capitania toda de Goyaz tem colocado única e exclusivamente as esperanças de seu futuro melhoramento na adoção dos planos oferecidos por mim ao ministério, porém unanimemente aprovados pelos interessados deles.

16 Governador da capitania de Goiás de 25 de fevereiro de 1800 a 27 de fevereiro de 1804.

17 Governador da capitania de Goiás de 27 de fevereiro de 1804 a 28 de novembro de 1809.

18 Autor de Memória econômica e política sobre o comércio ativo da capitania de Goyaz, publicado na cidade de Goiás em 1806.

Em 1808 ainda saiu outra esquadrilha, mas já com muito menor carregamento, e, o que mais triste era, levando em seu seio o desânimo e o receio. Os riscos da navegação eram avultados, exagerados ainda mais pelos tímidos e descontentes; as cachoeiras extensas; as itaipavas contínuas; as febres mortíferas e as margens numa extensão de mais de 300 léguas completamente desertas ou antes cheias de traições e ocultos perigos, pois não raro se transformavam os selvagens, de índole embora pacífica, em denodados defensores da ínvia região para onde haviam sido rechaçados.

Além disto nenhuma das risonhas e um tanto precipitadas previsões de d.

Francisco se tinha realizado. Como dantes continuaram despovoadas as vizinhanças do grande rio; ninguém as procurou para fixar residência; nenhum núcleo de população corajosa e trabalhadora se formou, ficando sem execução as bondosas promessas da carta régia de 7 de janeiro de 1806, a custo alcançada, que por dez anos isentava de todos os dízimos a quantos fossem organizar lavoura nas margens do Tocantins, Maranhão e Araguaia.

Também a 26 de novembro de 1809, de Goyaz partia d. Francisco de Assis Mascarenhas para tomar as rédeas do governo de Minas Gerais, e a navegação do Araguaia, que jubilosamente sobressaltara o coração dos goianos, caiu novamente no círculo das grandes empresas tão ambicionadas quão difíceis de ser realizadas.

VII

Ainda a navegação do Araguaia.

Reforma dos hábitos das populações

E o que fizeram os sucessores de d. Francisco? – pergunta Alencastre na sua história da província de Goyaz. 19

Quase nada, para destruir os preconceitos populares, para prosseguir com coragem na obra tão bem começada, e dar-lhe o último remate: o que estava feito, desapareceu. O governo matou a navegação do Araguaia, condenando-a por impossível; o povo repetiu o anátema, e os selvagens, mansos e pacíficos nas suas aldeias, nunca mais viram nessas águas descer as canoas dos ousados aventureiros carregadas de mercadorias, nunca mais foram perturbados em seu tranqüilo repouso.

19 Veja bibliografia no final.

A censura não cabe a quem a faz, pois José Martins Pereira de Alencastre, quando presidente da província de Goyaz, 20 voltou, durante o proveitoso período de sua curta administração, as vistas para o Araguaia e Tocantins, devendo-se às suas perseverantes reclamações o restabelecimento do presídio de Santa Maria, 21 cuja destruição importara o total abandono da navegação para o Pará.

A quem cabe, porém, a glória incontestada de ter completado a obra de d.

Francisco, conseguindo mais do que ele, mais do que ninguém, é ao dr. José Vieira Couto de Magalhães, um dos nomes mais justamente conhecidos e populares não só no interior do país, como em todo o Brasil.

Tomando a navegação do Araguaia, desde os dias de sua presidência (1863-1864)22 em Goyaz, para motivo de constante e verdadeiro apostolado: arriscando por vezes a vida nos inúmeros parcéis dos dois grandes rios; viajando de contínuo e sempre a estudar, ora as raças aborígines, seus costumes, índole, tradições, ora os meios mais certos de desenvolver a grande zona central deste Império; fazendo entusiástica propaganda já na Corte, já no fundo dos sertões, teve por fim a felicidade de ver coroados tantos esforços, tanta dedicação e fadiga pelo decreto legislativo de 20 de agosto de 1870, que autorizou o governo para mandar estudar a região encachoeirada do Araguaia e Tocantins e abrir estradas marginais, auxílio poderoso à navegação a vapor que, apenas estabelecida, foi subvencionada com a quantia anual de 73:000$000, dos quais 40:000$000 fornecidos até 30 anos, pelo cofre geral, sendo o resto preenchido pelos do Pará e Goyaz.

Esta província, ao receber tão assinalado beneficio, cuidou chegada a hora da ressurreição. O porto de Leopoldina, 23 sito na confluência do Araguaia e do rio Vermelho e a 29 léguas da capital, manifestou vivo incremento; os presídios todos, de Itacaiúnas, Monte Alegre, Santa Maria, S. José dos Martírios e S. João das Duas Barras, estabelecidos à margem do grande rio, só reanimaram; a catequese tomou impulso novo, e a vida como que se infundiu naqueles inanimados desertos.

Ainda porém desta feita os resultados ficaram muito aquém da expectação.

20 Entre 21 de abril de 1861 e 26 de junho de 1862.

21 Atual Araguacema, no Estado do Tocantins.

22 Couto Magalhães foi presidente da província de 8 de janeiro de 1863 a 5 de abril de 1864. É

autor de Viagem ao Araguaia, publicado na cidade de Goiás em 1863. Veja também bibliografia no final.

23 Atual Aruanã.

Embora fosse o silvo dos vapores acordar os ecos daquelas impenetráveis solidões, tão difíceis de serem devassadas, embora lutasse pertinazmente o dr. Couto de Magalhães, escassearam as viagens; as sezões assolaram tudo; apagou-se o curto entusiasmo; os carregamentos faltaram e, mal encetada a carreira comercial entre Goyaz e Pará, ficou ela interrompida por mais de três anos.

É o que nos diz o último relatório do atual presidente, o dr. Antero Cícero de Assis, 24 o qual, tendo necessidade de formar um comboio para o Pará, viu-se em sérias dificuldades para achar quem o dirigisse, conseguindo a custo fazer partir, a 29 de março de 1875, diminuta esquadrilha que, além de cargas do governo e passageiros, levava 28 animais muares, 400 couros de boi e 650 arrobas de cristal de rocha.

Sem dúvida alguma a navegação do Araguaia é um grande passo, mas ao mesmo tempo medida parcial e que não se prende a um sistema bem travado de indispensáveis providências. No estado de completo abandono em que jaz a imensa bacia daquele caudal, no pé desordenado dos presídios militares que são núcleos de vícios e desmandos e nunca centros de onde possa irradiar população amiga do trabalho, cumpriria concomitantemente tratar de colonizar o ubérrimo vale, de atrair gente e prendê-la à terra.

A linha do Alto Tocantins, seguida, se não ativamente, pelo menos quase sem interrupção, desde que foi explorada, por iniciativa particular e sem auxílios nem melhoramentos, essa linha que tende a desenvolver-se apesar de muito mais penosa pelas cachoeiras e itaipavas, além de escassez de pescado, é prova evidente de que, apenas se congregue alguma população na bacia do Araguaia, serão derrocados todos os tropeços e devidamente utilizadas as facilidades que oferece em seu longo curso.

De importação estrangeira não se formarão decerto os pontos coloniais.

Será preciso reunir com jeito e persistência, dirigir e educar com firmeza e benevolência, a gente esparsa, inativa, indolente, que é uma das pragas do interior do Brasil e de Goyaz; essa gente que, como diz Cunha Matos, tem os paióis debaixo da cama, que é numerosa, superior a todo cômputo. Será preciso ativar a catequese, aproveitando a brandura natural dos índios e ensinando-lhes outros hábitos de existência, e, antes de tudo, reformar a organização das colônias militares, conservando-as para segurança da vida e bens dos raros que já por lá se acham e dos muitos que talvez forem se estabelecer, mas modificando radical e salutarmente o plano que as 24 Presidente da província de Goiás de 25 de abril de 1871 a 25 de junho de 1878.

criou, e cortando de raiz as conseqüências perniciosas que gradualmente se originaram do isolamento e da impunidade.

VIII

Couto de Magalhães – Pereira do Lago,

dois beneméritos de Goyaz

E como conseguir isto?

De um único modo.

É o governo imperial entregar a tarefa a meia dúzia de homens patrióticos, inteligentes, de reconhecida prática, de energia comprovada, acostumados às labutações do sertão, fornecer-lhes meios amplos, atender a todos os seus pedidos e neles depositar durante convencionado prazo, ilimitada confiança.

Um, o país em peso o aponta; é o dr. Couto de Magalhães.

Outro, se me fora dado indicá-lo, o major Antônio Florêncio Pereira do Lago.

Na escola destes dois homens da luta, verdadeiros guerreiros, pois a existência para eles tem sido um perene labutar, formar-se-iam quantos fossem precisos.

O major Florêncio do Lago foi o engenheiro encarregado de estudar a zona encachoeirada do Tocantins e Araguaia; preparou os belíssimos desenhos e projetos que, expostos na seção de obras públicas da Exposição Nacional, tem merecido o aplauso dos entendidos; palmeou aqueles lugares dois anos e meio; possuiu-se do valor agrícola e produtor daqueles vales, e com o espírito prático de que é dotado calculou os meios que deveriam concorrer para torná-los dos mais ricos em todo o Brasil.

No ponto a que cheguei, se bem veja alongar-se esta ligeira notícia de sua natureza deficiente e resumida, não posso ter mão25 no desejo de tirar do relatório, importantíssimo e ainda inédito, 26 daquele meu distinto amigo e companheiro, vários e curiosos dados sobre o Araguaia e Tocantins, considerados como vias de comunicação.

Servirá de desculpa à transcendência do problema para o engrandecimento e felicidade da província de Goyaz.

25 Ter mão no desejo = conter o desejo.

26 O relatório foi publicado em 1931, na 2ª edição de Goyaz, como se pode ler no prefácio àquela edição.

IX

A navegação do Araguaia.

As duas seções do grande rio

Em sua linha de navegação oferece o Araguaia duas seções; uma franca, excelente, nuns 1.040 quilômetros desde Itacaiú, presídio mantido pela província de Mato Grosso e situado 5l quilômetros acima do de Leopoldina, ponto mais próximo da capital de Goyaz, até a colônia militar de Santa Maria, outra desde aí, mais ou menos encachoeirada, nuns 600 quilômetros até ao ponto de confluência com o Tocantins, em S. João das Duas Barras.

Unidos os dois rios, continua o Tocantins, já na província do Pará, cheio de cachoeiras, por 448 quilômetros até próximo a Santa Helena de Alcobaça, que dista de Belém 279 quilômetros e donde pode começar uma linha regular de vapores.

Em toda esta região encachoeirada, o leito do rio é de pedra xisto argilo-talcosa e gneiss, diz Castelnau, e cortado de travessões perpendiculares à correnteza, que têm a denominação local e particular de itaipavas , palavra que substitui perfeitamente o termo técnico francês barrage.

Esses bancos de rochas são de origem eruptiva, de cor verde-escura, consistência tenaz e compostos de diorito e fonólito, de onde lhes vem tal ou qual sonoridade. São prolongamentos das colunas, que se levantam de um lado e dentro da corrente e formam um sistema orográfico, talhado em direção perpendicular pelas águas a buscarem o mais fácil declive para seu escoamento. Nessa imensa sucessão de extensíssimos e suaves degraus originam-se perigosos rápidos ou corredeiras , quedas, rebojos, contracorrentes e maresias, onde as ondas se encapelam furiosas.

Entre as águas baixas e altas é a diferença em todo o rio extraordinária, pois não raras vezes sobe a 10,17 m.

Em duas seções divide-se também a região encachoeirada do Araguaia e Tocantins.

Uma, da colônia militar de Santa Maria ao Seco de S. Miguel, menos penosa e cortada de nove cachoeiras, que se transpõem sem perigo; outra, desde aquele ponto até ao entroncamento dos rios e Santa Helena de Alcobaça, na província do Pará, na qual se amiúdam as dificuldades e em muitas ocasiões correm iminente risco as vidas dos viajores.

Em primeiro lugar apresenta-se a carreira Comprida , de 9.246 metros de extensão, toda pejada de cachopos e pontas de rochedos, de encontro às quais arrebentam as águas em espumantes cachões, cujo estrondo e alvura deslumbram e tonteiam o inexperiente viajante, ao passo que os pilotos, proeiros e remadores das canoas, a poder de varejões e sirgas, fazem prodígios de perícia, destreza e sangue frio.

Depois se alcança o tão falado ponto dos Martírios, onde o perpassar da correnteza em rochas estratificadas deixou curiosos lavores, em que os primeiros navegantes e a imaginação do povo viram os emblemas sagrados do sacrifício divino.

Estreita-se o rio numa linha de 6 léguas e leva à cachoeira Grande , cuja violência e vertiginosa carreira põem em prova o valor das tripulações e a solidez das canoas, não raro irresistivelmente impelidas contra grandes penedos. Em seguida é varada a corredeira de S. Bento dividida em dois sinuosos canais e mais além a itaipava do Carmo.

Dominado pelo presídio de S. João do Araguaia ou das Duas Barras, o qual certamente pertence a Goyaz, mas está ocupado por gente do Pará, e salpicado de ínsuas e coroas de areia, é o ponto de junção do Araguaia com o Tocantins, que desemboca por três braços.

Pouco abaixo da confusão das águas, fica o seco de Mãe Maria , adiante o Tauirizinho , o seco Grande e a cachoeira de Tauiri , a qual obriga a três descarretos em uma extensão de 14 léguas e é vencida ao descer, em 10 horas e, subindo, em 12 dias.

Então vão crescendo os óbices, que preparam o navegante para os três saltos do canal ocidental do furo de Itaboca – a cachoeira Grande e as do Portinho e de José Correia.

Aí de altura imensa atira-se a massa principal do rio, formando temerosa catadupa, que já foi contudo transposta por homens de modo milagroso e em circunstâncias terrivelmente dramáticas.

Em uma viagem de descida o capitão de dragões da província Miguel de Arruda e Sá teve graves desavenças com o seu primeiro piloto, a quem por vezes maltratou.

Este, sopitando os ímpetos da cólera, guardou a ocasião da passagem da Itaboca para exercer vingança certa: e, no momento crítico, em lugar de tomar o canal lateral, dirigiu a canoa que montava para o centro da grande correnteza. Mas Arruda, de pronto, conheceu-lhe o negro desígnio. Antes que se atirasse a nado, precipitou-se sobre ele, subjugou-o, puxou pela espada e pondo-lha aos peitos, intimou-o que voltasse. Já era, porém, tarde.

O barco, envolvido no torvelinho de medonhos redemoinhos, girava vertiginosamente. Impelido aqui, acolá, pelo desencontro das correntes, de repente disparou como seta desferida de possante arco e desapareceu no nevoeiro que envolve a catadupa.

O pulo foi enorme: a salvação espantosa, atribuída logo à proteção especial dos céus.

Após Itaboca, em que se gastam quatro dias de insana canseira, apresentam-se as cachoeiras do Tortinho e Arrependidos , o seco de Canaúa , novas cachoeiras de Tacamanduba, Oronhangüera e afinal, a última, de Vitam Eternam , que pelo nome expressivo parece resumir em si todas as fadigas da viagem, preparando o exausto navegante para a tranqüilidade da existência que não tem fim.

Depois chega-se a Santa Helena de Alcobaça ou a Arroios, que lhe fica fronteira, e daí o rio Tocantins corre largo e desimpedido até ir se lançar no grande Oceano, a não querer considerá-lo como tributário do Amazonas, com o qual, por meio de largos canais mistura as volumosas águas.

X

A navegação do Alto Tocantins.

Os trabalhos de Pereira do Lago

A navegação do Alto Tocantins é feita numa extensão de 1.218 quilômetros desde a cidade da Palma27 até sua junção com o Araguaia. Em todo aquele desenvolvimento há só duas porções de mais cômodo trânsito: 154 quilômetros do ponto da confluência à vila da Imperatriz, na província do Maranhão, e 174 quilômetros da cidade de Boa Vista, cabeça da comarca goiana do mesmo nome, à cidade da Carolina, no Maranhão.

O mais é una série de cachoeiras, rápidos, corredeiras, torvelinhos, rebojos, maresias, saltos, um fervedouro sem fim de águas, uma arrebentação de furiosas ondas, um lutar incessante, um fugir perene de cachopos, uma fadiga insana de todas as horas, 27 Atual Paranã, no Tocantins.

todos os minutos.

É de ver-se a intrepidez com que são superados tão terríveis obstáculos.

O piloto, de quem tudo depende, leva a frágil embarcação ao meio das embravecidas águas. Atento aos menores indícios, ora parece atirá-la sobre as rochas, das quais de repente se desvia com admirável rapidez, ora a mantém no eixo da corrente, cuja violência é tal que a vista se turva e o vento açoita dolorosamente o rosto.

Os proeiros, vigilantes ao mais leve aceno, manejam pesados varejões e, segurando em grossos cabos, ora se lançam à água, ora galgam ligeiros os cabeços das penedias.

Em relação às possibilidades, não são os naufrágios freqüentes; entretanto às vezes é acima das forças humanas impedir que a canoa vá despedaçar-se em mil fragmentos de encontro a grandes rochedos. A tripulação, arremessada violentamente ao rio, nada, mergulha, agarra-se às pedras e, caso não haja algum baque mortal, é logo recolhida pelos companheiros dos outros botes, tratando todos em comum – ímprobo serviço! – de salvar o carregamento, que se afundara num borbulhar de espumas.

Apesar de tudo isto, apesar de não se haver nunca tratado de melhorar tão fadigosa navegação, nem ainda quebrado uma só pedra em tantas cachoeiras, o trânsito, como acima indiquei, não tem cessado desde 1774, em que foi encetado.

Presentemente o número de barcos que nele se empregam é de 40 a 45, podendo alguns carregar mais de 25.000 quilogramas e entretendo uma tripulação superior a 700

homens. O tempo de viagem redonda ao Pará é, para os pontos situados acima de Carolina, de 3 a 6 meses e para os outros até a cidade de Palma, de 8 a 11.

É o que tanto anima em relação ao Araguaia; é o que deve ser, à saciedade repito.

Se a linha do Alto Tocantins é tão freqüentada, guardadas as proporções com os recursos do seu vale, malgrado os obstáculos que parece deveriam desalentar os mais pertinazes, o que não será da bacia do Araguaia, logo que se forem estabelecendo em suas margens alguns núcleos de laboriosa população?

O relatório do dr. Florêncio do Lago aponta todas as providências que mais depressa poderiam trazer aquele resultado. Para citá-lo, fora necessário reproduzi-lo. A linguagem é a do homem do trabalho: concisa e seca. Não há palavra que desperdiçar.

E bem patentes deixam sua energia e amor à luta as seguintes frases, quando trata da salubridade da zona, que estudara:

Por certo o solo, coberto de dunas ou de rochedos graníticos e revestido de alguma vegetação, traz clima saudável, porém ninguém irá colonizar agricolamente um lugar desses, unicamente por ser conveniente à saúde dos emigrantes.

Em conclusão, parece claro que o engrandecimento progressivo de Goyaz por meio do Araguaia e Tocantins, embora custoso e demorado, será seguro e amplamente compensador de todos os sacrifícios.

Cumpre aproveitar as grandes despesas feitas nestes últimos anos; sustentar com perseverança a carreira já iniciada de vapores; proteger eficazmente a quantos se estabeleçam naqueles pontos; ajudá-los com algum dinheiro e privilégios; enviar missionários para moralizar a gente que se diz civilizada e chamar ao grêmio da religião e do trabalho as 25 hordas de selvagens que se ocultam nas matas; empregar os catecúmenos em serviço brando e prontamente remunerado; regularizar as relações dos brancos com os indígenas, vítimas aí como em Mato Grosso, como em qualquer parte onde existam, da prepotência, da má-fé e da ganância; melhorar os presídios e colônias militares; fundar outros; dar-lhes organização mais consentânea com o fim proposto; manter barcos de passagem nos lugares em que as estradas cruzam os rios; conservar os 387.497 metros de caminho marginal que o dr. Florêncio do Lago abriu para desvio das grandes cachoeiras, que importaram em 134:000$000 e que o mato vai invadindo e fechando; ligar pontos do Alto Tocantins com outros do Araguaia e estes com o Coxim, no entroncamento do Taquari, a fim de entrelaçar o comercio goiano com o do grande rio Paraguai, impedindo, enfim, patrioticamente e com medidas relativamente de ordem inferior, que fiquem totalmente perdidos os esforços já feitos, que tanto custaram, mas também tanto conseguiram a bem do porvir daqueles belos, vastos e fecundíssimos vales.

XI

A fauna de Goyaz.

O grande rebanho da província

Indicadas as causas da modéstia e escassez dos produtos naturais e de indústria remetidos pela província de Goyaz, naquilo mesmo que ela conseguiu reunir e enviar ao palácio da Exposição Nacional, podia, sem dúvida alguma, o observador atento encontrar assunto não limitado para interessantes e seguidos estudos.

Na ala esquerda do edifício do Ministério da Agricultura ocuparam esses produtos, em número superior a 170, nove prateleiras de uma das salas do primeiro pavimento, na qual se viam também representadas duas grandes e adiantadas províncias do Império, de modo, porém, tão falto e descuidoso, que ressaltava logo um confronto, em todas as hipóteses, favorável à longínqua terra goiana.

Não querendo, entretanto, fazer cabedal da vantagem de comparação entre coleções incompletas e deficientes, qualquer que fosse o motivo, convém agora examinar e apreciar um tanto individuadamente o que foi exposto em nome de Goyaz.

Como mostra de sua fauna de ordem mais elevada, vieram nove peles, das quais três indicadas no catálogo da exposição debaixo da especificação comum de onças.

Uma mereceria, contudo, assinalamento especial, pela valiosa razão de que pertence a um dos animais mais raros das florestas brasileiras; e como evidente prova aparece única em seu gênero nas profusas coleções de peles que as vinte províncias remeteram.

É a da onça preta, mais particular e comumente chamada tigre, variedade da onça ou jaguar – variedade acidental , diz Cuvier28 – fera de difícil caçada, pela raridade, e muito temida pela braveza e ferocidade dos instintos.

Relata Azara29 que “na costa superior do rio Paraná, em quarenta anos, só duas tinham sido agarradas”, e na própria província de Goyaz, onde há ainda extensas e mal devassadas matas, não podem ser encontradas senão nos lugares mais ínvios e recônditos dos vales do Araguaia e Tocantins.

A pele exposta tem 1,58 m de comprimento fora a cauda. À primeira vista d’olhos é uniformemente preta, mas, fitada com atenção e, sobretudo de encontro à luz, mostra malhas miúdas, anulares, simetricamente dispostas e de um preto carregado e luzidio, que sobressaem em fundo todo escuro, mas com reflexos ligeiramente

alourados.

Embora não esteja perfeita, faltando-lhe pelo em alguns pontos, merece de certo 28 Georges Cuvier (1769-1832), zoólogo, um dos criadores da anatomia comparada, defensor da invariabilidade das espécies. Suas teorias eram contrárias ao evolucionismo, defendido entre outros por Saint-Hilaire e mais tarde por Darwin.

29 Dom Félix de Azara (1742-1821), espanhol, viajou a América do Sul, principalmente o vale do Prata. Publicou várias obras com suas observações, entre as quais Viajes Alrededor del Mundo y por la América Meridional. Incentivador da ocupação espanhola da região, fundou a cidade de São Gabriel, hoje no Rio Grande do Sul.

a honra de ser enviada a Filadélfia, como espécime único da primeira e menos abundante das cinco castas em que, segundo Ayres do Casal, 30 se dividem as onças do Brasil, a saber:

Tigres Completamente negros ou malhados.

Onças ou panteras Têm pintas simétricas sobre fundo branco ou amarelo.

Leopardos – Têm malhas miúdas.

Canguçus – Têm malhas grandes e a cabeça mais desenvolvida do que as outras.

Suçuaranas – São avermelhadas, puxando para louro; têm o lombo preto e dimensões menores.

Diz Castelnau que em Cuiabá viu uma pele de tigre mais larga que o maior couro de boi, e que o limite meridional, da habitação dessa fera, de que os índios têm muito receio, é aos 18° de latitude, ficando encerrada nas zonas mais quentes, ao passo que se encontram onças até na Louisiania [nos Estados Unidos] e o puma ou leão da América do Norte, do Canadá ao estreito de Magalhães, na Patagônia.

À pág. 59 do 2º volume de sua obra sobre o Brasil, refere o dr. Pohl31 a respeito deste animal: