“Gradiva” de Jensen e outros trabalhos por Sigmund Freud - Versão HTML

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VOLUME IX

(1906 - 1908)

DELÍRIOS E SONHOS NA GRADIVA DE JENSEN (1907 [1906])

NOTA DO EDITOR INGLÊS

DER WAHN UND DIE TRÄUME IN W. JENSENS GRADIVA

(a) EDIÇÕES ALEMÃS:

1907 Leipzig e Viena: Heller. 81 págs. ( Schriften zur angewandten Seelenkunde,

Heft 1.) (Reeditada sem alterações, com a mesma página de rosto, mas com uma nova

sobrecapa: Leipzig e Viena: Deuticke, 1908.)

1912 2ª ed. Leipzig e Viena: Deuticke. Com ‘Pós-escrito’. 87 págs.

1924 3ª ed. Mesmos editores. Sem alterações.

1925 G.S., 9, 273-367.

1941 G.W., 7, 31-125.

(b) TRADUÇÃO INGLESA:

Delusion and Dream

1917 Nova Iorque: Moffat, Yard. 243 págs. (Trad. de H. M. Downey.) (Com uma

introdução de G. Stanley Hall. Omite o ‘Pós-escrito’ de Freud. Inclui a tradução da obra de

Jensen.)

1921 Londres: George Allen & Unwin. 213 págs. (Reimpressão da anterior.)

A presente tradução, totalmente nova e com título modificado, é de James Strachey. O

‘Pós-escrito’ aparece em inglês pela primeira vez.

Esta foi a primeira análise de uma obra de literatura feita por Freud a ser publicada, com

exceção, naturalmente, de seus comentários sobre Édipo Rei e Hamlet em A Interpretação de

Sonhos (1900 a), ver a partir de [1], IMAGO Editora, 1972. Entretanto, ele já escrevera anteriormente

uma curta análise da obra de Conrad Ferdinand Meyer ‘Die Richterin’ [‘A Juíza’], e a enviara a Fliess,

juntamente com a carta de 20 de junho de 1898 (Freud, 1950 a, Carta 91).

Através de Ernest Jones (1955, 382) sabemos que foi Jung quem chamou a atenção de

Freud para o livro de Jensen. Acredita-se que Freud escreveu o presente trabalho especialmente

para agradar a Jung. Isso ocorreu no verão de 1906, vários meses antes do primeiro encontro dos

dois, sendo esse episódio, assim, o prenúncio dos cinco ou seis anos de suas relações cordiais. O

estudo de Freud foi publicado em maio de 1907, e pouco depois ele enviou um exemplar do mesmo

a Jensen. Seguiu-se uma breve correspondência, à qual se faz alusão no ‘Pós-Escrito’ à segunda

edição (ver em [1]). As três pequenas cartas que Jensen enviou a Freud em 13 de maio, 25 de maio

e 14 de dezembro de 1907 foram publicadas em Psychoanalytische Bewegung, 1 (1929), 207-211.

Trata-se de cartas muito cordiais, as quais fazem crer que Jensen tenha ficado lisonjeado com a

análise de Freud, parecendo inclusive ter aceito as linhas principais da interpretação. Declara, em

particular, não se lembrar de ter dado uma resposta ‘um tanto brusca’ ao lhe ser perguntado (parece

que por Jung) se acaso conhecia as teorias de Freud, como relatado em [2].

Afora a significação mais profunda, aquilo que atraiu especialmente a atenção de Freud na

obra de Jensen foi, sem dúvida, o cenário em que ela se desenrola. Já era antigo o interesse de

Freud por Pompéia, emergindo mais de uma vez em sua correspondência com Fliess. Assim, como

associação para a palavra ‘ via‘, em um de seus sonhos, ele fornece ‘as ruas de Pompéia que estudo

no momento’. Isso ocorreu numa carta datada de 28 de abril de 1897 (Freud, 1950 a, Carta 60),

alguns anos antes de ele visitar realmente aquela cidade em setembro de 1902. Freud sentia-se

particularmente fascinado pela analogia existente entre o destino histórico de Pompéia (o

soterramento e a posterior escavação) e os eventos mentais que lhe eram tão familiares: o

soterramento pela repressão e a escavação pela análise. Em parte essa analogia foi sugerida pelo

próprio Jensen (ver em [1]), e Freud desenvolveu-a com prazer neste trabalho, assim como em

contextos posteriores.

Ao ler este estudo de Freud, vale a pena que se tenha em mente seu lugar cronológico entre

as obras do autor. Trata-se de um dos seus primeiros trabalhos psicanalíticos, escrito apenas um

ano após a primeira publicação do caso clínico de ‘Dora’ e dos Três Ensaios sobre a Sexualidade.

Inseridos no exame de Gradiva encontram-se não só um sumário da explanação de Freud sobre os

sonhos, mas também o que talvez seja a primeira de suas exposições semipopulares de sua teoria

das neuroses e da ação terapêutica da psicanálise. É impossível deixar de admirar a habilidade

quase prestidigital com que ele extrai esse material riquíssimo daquilo que, à primeira vista, parece

ser apenas uma história engenhosa. No entanto, seria erro menosprezar o papel que Jensen

desempenhou, embora inconscientemente, nesse resultado.

DELÍRIOS E SONHOS NA GRADIVA DE JENSEN

Um grupo de pessoas, que acreditava terem sido os mistérios básicos do sonho decifrados

pelos esforços do autor do presente trabalho, sentiu, certo dia, sua curiosidade voltar-se para a

questão da classe de sonhos que nunca haviam sido sonhados - sonhos criados por escritores

imaginativos e por estes atribuídos a personagens no curso de uma história. A idéia de submeter a

uma investigação essa espécie de sonhos pode parecer estranha e improfícua, mas de certo ponto

de vista seria justificável. Está bem longe de ser geral a crença de que os sonhos possuem um

significado e podem ser interpretados. A ciência e a maioria das pessoas cultas sorriem quando se

lhes propõe a interpretação de um sonho. Só as pessoas simples, que se apegam às superstições e

assim perpetuam as convicções da Antiguidade, continuam a insistir que eles são passíveis de

interpretação. O autor de ousou, apesar das reprovações da ciência estrita, colocar-se ao lado da

superstição e da Antiguidade. É verdade que ele nem de longe acredita serem os sonhos presságios

do futuro, desse futuro que desde tempos imemoriais os homens vêm tentando inutilmente adivinhar

por toda sorte de meios proibidos. Entretanto, não é capaz de refutar de todo a relação entre os

sonhos e o futuro, pois o sonho, ao fim da laboriosa tarefa de traduzi-lo, revelou-se ao autor como

sendo a representação da realização de um desejo do sonhador; e quem poderia negar que os

desejos se orientam predominantemente para o futuro?

Acabei de afirmar que os sonhos são desejos realizados. Quem não recear os percalços de

um livro obscuro, e não exigir que um problema complicado lhe seja apresentado como simples e

fácil, para poupar-lhe trabalho às expensas da verdade e da honestidade, poderá encontrar provas

detalhadas dessa tese na obra que mencionei. Enquanto isso, seria desejável que ignorasse as

objeções que sem dúvida surgirão contra a equiparação entre sonhos e realização de desejos.

Mas estamo-nos adiantando muito. Ainda não se trata de determinar se o significado de um

sonho pode ser sempre interpretado como um desejo realizado, ou se acaso não poderá, com a

mesma freqüência, representar uma expectativa ansiosa, uma intenção, uma reflexão, etc. Ao

contrário, a primeira pergunta que se nos apresenta é se realmente possuem os sonhos algum

significado, e se devem ser considerados como eventos mentais. A resposta da ciência é negativa:

ela explica o sonhar como sendo um processo puramente fisiológico, por trás do qual não há,

conseqüentemente, necessidade de procurar um sentido, um significado ou um propósito. Os

estímulos somáticos, segundo consta, agem sobre o aparelho mental durante o sono, levando à

consciência ora uma, ora outra idéia, desprovidas de qualquer conteúdo mental: os sonhos são

comparáveis a meras contrações, e não a movimentos expressivos da mente.

Nessa controvérsia a respeito do caráter dos sonhos, os escritores imaginativos parecem

tomar o partido dos antigos, da superstição popular e do autor de A Interpretação de Sonhos. Pois

quando um autor faz sonhar os personagens construídos por sua imaginação, segue a experiência

cotidiana de que os pensamentos e os sentimentos das pessoas têm prosseguimento no sonho,

sendo seu único objetivo retratar o estado de espírito de seus heróis através de seus sonhos. E os

escritores criativos são aliados muito valiosos, cujo testemunho deve ser levado em alta conta, pois

costumam conhecer toda uma vasta gama de coisas entre o ceú e a terra com as quais a nossa

filosofia ainda não nos deixou sonhar. Estão bem adiante de nós, gente comum, no conhecimento da

mente, já que se nutrem em fontes que ainda não tornamos acessíveis à ciência. Mas se esse apoio

dos escritores a favor de os sonhos possuírem um significado fosse menos ambíguo! Um crítico mais

severo poderia objetar que os escritores não se manifestam nem contra nem a favor de os sonhos

terem um significado psíquico, contentando-se em mostrar como a mente adormecida se contrai sob

excitações que nela permaneceram ativas como prolongamentos do estado de vigília.

Mas esse pensamento sensato não vem arrefecer nosso interesse pela maneira como os

escritores fazem uso dos sonhos. Mesmo que essa investigação nada de novo nos ensine sobre a

natureza dos sonhos, talvez permita-nos obter alguma compreensão interna ( insight), ainda que

tênue, da natureza da criação literária. Os sonhos verdadeiros já eram considerados como estruturas

imoderadas e arbitrárias - e agora somos confrontados com livres imitações desses sonhos!

Entretanto, há muito menos liberdade e arbitrariedade na vida mental do que tendemos a admitir, e

pode ser até que não exista nenhuma. Aquilo que no mundo externo denominamos de casualidade

pode, como sabemos, ser colocado dentro de leis. Assim também o que chamamos de

arbitrariedade da mente repousa sobre leis das quais só agora começamos vagamente a suspeitar.

Vamos, então, prosseguir!

Podemos adotar dois métodos para essa investigação. Um deles seria examinar um caso

particular, penetrando a fundo nas criações oníricas de uma das obras de um determinado escritor.

O outro consistiria em reunir e cotejar todos os exemplos que pudessem ser encontrados do uso de

sonhos nas obras de diversos autores. O segundo poderia parecer o mais eficaz, e talvez o único

justificável, já que nos liberta imediatamente das dificuldades inerentes à adoção do conceito artificial

de ‘escritores’ como classe. Ao ser investigada, essa classe desagregar-se-ia em escritores

individuais de valor extremamente diverso, entre os quais alguns que veneramos como os mais

profundos observadores da mente humana. Apesar disso, essas páginas serão dedicadas a uma

pesquisa do primeiro tipo. Aconteceu que uma pessoa do grupo onde primeiro surgiu essa idéia

lembrou-se de que a última obra de ficção que prendera seu interesse continha vários sonhos cujas

fisionomias familiares como que o haviam encarado e convidado a tentar aplicar-lhes o método da

Interpretação de Sonhos. Ele confessou que o tema da pequena obra e o cenário em que o mesmo

se desenvolvia haviam, sem dúvida, construído o principal fator de seu prazer. A história situava-se

em Pompéia e tratava de um jovem arqueólogo que abdicara do seu interesse pela vida para

dedicar-se aos remanescentes da Antiguidade clássica, sendo por meios tortuosos e estranhos,

embora perfeitamente lógicos, novamente atraído à vida real. O tratamento dado a esse material

genuinamente poético despertara em seu leitor toda uma série de pensamentos afins e em harmonia

com esse material. A obra era o conto Gradiva, de Wilhelm Jensen, descrito por seu próprio autor

como sendo uma ‘fantasia pompeana’.

E aqui eu pediria a meus leitores que deixassem de lado este pequeno ensaio e passassem

algum tempo familiarizando-se com Gradiva (publicada pela primeira vez em 1903), para que aquilo

a que eu me referir nas páginas que se seguem possa ser familiar a eles. Para os que já leram

Gradiva, farei um breve resumo de sua história, esperando que suas memórias lhe restituam todo o

encanto que ela perderá com este tratamento.

Um jovem arqueólogo, Norbert Hanold, descobrira num museu de antiguidades em Roma

um relevo que o atraíra muitíssimo, tendo com grande prazer conseguido do mesmo uma excelente

cópia em gesso, a qual colocou em seu gabinete de trabalho numa cidade universitária da Alemanha

para admirá-la com vagar. A escultura representava uma jovem adulta, cujas vestes esvoaçantes

revelavam os pés calçados com leves sandálias, surpreendida ao caminhar. Um dos pés repousava

no solo, enquanto o outro, já flexionado para o próximo passo, apoiava-se somente na ponta dos

dedos, estando a planta e o calcanhar perpendiculares ao solo. Provavelmente foi esse modo de

andar incomum e particularmente gracioso que atraiu a atenção do escultor e que, tantos séculos

depois, seduziu seu admirador arqueólogo.

O interesse que o relevo desperta no herói da história é o fato psicológico básico da

narrativa. Não há uma explicação imediata para esse interesse. ‘O Dr. Norbert Hanold, lente de

arqueologia, na verdade nada encontrou no relevo que merecesse uma atenção especial do ponto

de vista da sua disciplina científica.’ (3.) ‘Ele não pôde explicar a si mesmo o que havia nele que

atraíra sua atenção. Só sabia que fora atraído por algo e que desde aquele instante o efeito

permanecera inalterado.’ Sua imaginação não cessava de se ocupar com a escultura. Ele a achava

‘viva’ e ‘atual’, como se o artista houvesse reproduzido uma rápida visão colhida nas ruas. Chamou a

figura do relevo de ‘Gradiva’ - ‘a jovem que avança’. Imaginou que ela era, sem dúvida, filha de uma

família nobre, talvez ‘de um edil patrício que exercia seu cargo a serviço de Ceres,’ e que ela estava

a caminho do templo da deusa. Contudo, tinha dificuldade em situar sua natureza serena e tranqüila

no clima agitado de uma capital, convencendo-se então de que ela deveria ser transportada para

Pompéia, onde atravessava uma via sobre as curiosas pedras com ressaltos descobertas nas

escavações que, dispostas com intervalos para a passagem das rodas do veículo, permitiam aos

pedestres conservar os pés secos nos dias chuvosos. Percebeu em sua fisionomia traços gregos, e

estava convencido de que a jovem tinha origem helênica. Pouco a pouco Norbert Hanold colocou

todo o seu acervo de conhecimentos arqueológicos a serviço desta e de outras fantasias relativas ao

modelo da escultura.

A essa altura, um problema de caráter aparentemente científico, que pedia uma solução,

veio atormentá-lo. Tratava-se de determinar ‘se aquela maneira de pisar de Gradiva fora reproduzida

pelo escultor como na vida’. Ele mesmo achava que não conseguiria imitá-la, e para comprovar a

‘realidade’ desse modo de andar resolveu, ‘para aclarar a questão, observar a vida’. (9.) Essa

resolução, entretanto, levou-o a agir de forma pouquíssimo condizente com seus hábitos. ‘Até então

o sexo feminino não passara para ele de um conceito expresso em mármore ou em bronze, e nunca

prestara a menor atenção às suas representantes contemporâneas’. O arqueólogo sempre

considerara os deveres sociais como um inevitável aborrecimento. No convívio social prestava tão

pouca atenção ao aspecto e à conversa das jovens, que ao reencontrá-las acidentalmente passava

sem um cumprimento, o que certamente não causava impressão favorável. Agora, entretanto, a

tarefa científica a que se propusera impelia-o na rua, especialmente nos dias chuvosos, a observar

ansiosamente os pés de todas as mulheres que encontrava, atividade que lhe granjeava olhares ora

indignados, ora encorajadores dos objetos de sua observação, ‘mas ele não percebia nem uns, nem

outros’. (10.) Essa pesquisa meticulosa levou-o a concluir que o modo de andar de Gradiva não era

encontrável na realidade, o que o encheu de desânimo e consternação.

Pouco depois ele teve um sonho terrível, no qual se encontrava na antiga Pompéia,

testemunhando a destruição da cidade pela erupção do Vesúvio. ‘Estava junto ao foro, ao lado do

templo de Júpiter, quando subitamente viu Gradiva a uma pequena distância. Até aquele momento

nem sequer lhe ocorrera a possibilidade de encontrá-la, mas então isso lhe ocorreu como sendo

muito natural, já que era pompeana e residia em sua cidade natal, na mesma época que ele, sem

que disto ele tivesse a menor suspeita.(12.) Receoso da sorte que a aguardava, gritou para a

prevenir, ao que, sem se deter, a jovem voltou-lhe o rosto sereno, mas continuou seu caminho até

alcançar o pórtico do templo. Ali sentou-se em um dos degraus e curvou-se lentamente até repousar

a cabeça no piso, enquanto suas faces cada vez mais pálidas pareciam transformar-se em mármore.

Ele se precipitou em sua direção, mas ao alcançá-la encontrou-a deitada no largo degrau com uma

expressão tranqüila, como se estivesse adormecida, até que a chuva de cinzas cobriu sua figura.

Quando ele acordou, o surdo arrebentar das ondas enraivecidas e os gritos confusos dos

habitantes de Pompéia, clamando por socorro, ainda pareciam ecoar em seus ouvidos. Mas mesmo

depois que suas faculdades despertadas reconheceram nesses sons o bulício matinal da cidade,

continuou por muito tempo a acreditar na realidade de seu sonho. Quando por fim se libertou da idéia

de que estivera presente à destruição de Pompéia, cerca de dois mil anos antes, ficou-lhe o que

parecia firme convicção de que Gradiva ali vivera e fora soterrada com o resto da população em 79

D.C. Em conseqüência desse sonho, pela primeira vez em suas fantasias sobre Gradiva, lamentou-a

como alguém que tivesse sido perdido.

Absorto nesses pensamentos, chegou à janela e os gorjeios de um canário numa gaiola, na

janela da casa em frente, despertaram sua atenção. Subitamente um sobressalto sacudiu a mente

do jovem, que ainda parecia imerso em seu sonho. Julgou ter visto na rua uma silhueta semelhante

a Gradiva e ter inclusive reconhecido seu andar característico. Sem refletir, correu à calçada para a

interceptar, mas as risadas e chacotas dos transeuntes, diante de seus trajes matinais, fizeram-no

voltar para casa. De novo no quarto, tornou a reparar no canto do canário, o qual sugeria uma

comparação consigo mesmo. Também ele estava preso numa gaiola, embora lhe fosse mais fácil a

fuga. Ainda sob a influência do sonho, e talvez também do suave ar primaveril, formou-se nele a

determinação de empreender uma viagem à Itália. Logo encontrou um pretexto científico para a

excursão, embora ‘o impulso para essa viagem tivesse origem num sentimento que ele não podia

nomear’.(24.)

Vamo-nos deter por um momento nessa viagem, programada por motivos tão fortuitos, e

examinar mais de perto a personalidade e o comportamento de nosso herói, que ainda se nos

apresenta incompreensível e insensato, visto ainda ignorarmos como sua singular loucura se ligará a

sentimentos humanos e assim despertará nossa simpatia. Mas é um dos privilégios do escritor poder

deixar-nos na incerteza! O encanto de sua linguagem e a engenhosidade de suas idéias

recompensam-nos provisoriamente pela confiança que depositamos nele e pela simpatia, ainda

injustificada, que nos dispomos a conceder a seu herói. Veremos que ele foi predestinado pela

tradição da família a dedicar-se à arqueologia e que, quando se achou só e independente, se

absorveu inteiramente nos estudos, afastando-se por completo da vida e seus prazeres. Só o

mármore e o bronze eram para ele verdadeiramente vivos, só esses materiais exprimiam o propósito

e o valor da vida humana. Mas a natureza, talvez com um intuito benevolente, instilara em seu

sangue um corretivo de caráter nada científico: uma imaginação vivíssima que se mostrava em seus

sonhos e também no estado de vigília. Essa divisão entre imaginação e intelecto o predispunha a

tornar-se ou um artista ou um neurótico; ele estava entre aqueles cujo reino não é deste mundo. Daí

resultou interessar-se pelo relevo que representava uma jovem caminhando de forma peculiar e

tecer sobre a mesma suas fantasias, imaginando para ela um nome e uma origem, e situando-a na

cidade de Pompéia, soterrada há mais de mil e oitocentos anos, até que por fim, após um estranho

sonho de ansiedade, sua fantasia da existência e da morte de Gradiva ampliou-se, passando a

constituir um delírio que influenciava suas ações. Tais produtos da imaginação seriam considerados

espantosos e inexplicáveis numa pessoa da vida real; no entanto, como nosso herói, Norbert Hanold,

é uma pessoa fictícia, talvez possamos perguntar timidamente a seu autor se acaso sua imaginação

não terá sido determinada por forças outras que não as da sua escolha arbitrária.

Deixamos nosso herói no momento em que, aparentemente influenciado pelos trinados de

um canário, se decide, com um propósito que evidentemente não estava claro para ele, a viajar para

a Itália. Descobriremos mais adiante que não tinha nem plano nem roteiro fixos para essa viagem. A

intranqüilidade e a insatisfação internas levaram-no a transferir-se de Roma para Nápoles, e daí para

mais adiante. Viu-se envolvido por uma nuvem de casais em lua-de-mel e forçado a observar os

ternos pares de ‘Edwins’ e ‘Angelinas’, em transportes amorosos que lhe pareciam

incompreensíveis. Chegou à conclusão de que, de todas as loucuras da humanidade, ‘o casamento

é a maior e a mais incompreensível, sendo o ápice dessa imbecilidade aquelas despropositadas

viagens de núpcias à Itália.’ (27.) Em Roma seu sono foi perturbado pela proximidade de um casal

amoroso, e ele fugiu apressadamente para Nápoles, ali deparando, entretanto, outra série de

‘Edwins’ e ‘Angelinas’. Inferindo da conversa destes que a maioria não tinha intenção alguma de

aninhar-se entre as ruínas de Pompéia, estando a caminho de Capri, resolveu fazer uma opção

contrária à deles, e poucos dias depois de iniciar a viagem encontrava-se em Pompéia, ‘contra todas

as suas intenções e expectativas’.

Mas também ali não encontrou a tranqüilidade procurada. O papel até então desempenhado

pelos casais em lua-de-mel, que haviam irritado e mortificado seu espírito, transferiu-se para as

moscas, consideradas por Hanold como a encarnação de tudo que é absolutamente nocivo e

desnecessário. As duas espécies de espíritos atormentadores fundiram-se numa unidade: alguns

pares de moscas fizeram-no recordar os recém-casados, e ele imaginou que também elas em sua

linguagem interpelam-se docemente por ‘meu querido Edwin’ e ‘minha adorada Angelina.’ Por fim

concluiu que ‘seu descontentamento não era resultado apenas de circunstâncias externas, tendo em

parte origem interna.’ (42.) Sentiu que estava ‘insatisfeito porque lhe faltava algo, embora não

pudesse precisar o quê.’

Na manhã seguinte atravessou o ‘ Ingresso‘ de Pompéia e, depois de livrar-se do guia,

percorreu a esmo a cidade, sem que - fato estranho - lhe ocorresse à lembrança o sonho recente em

que estivera presente à sua destruição. Mais tarde, à ‘cálida e sagrada hora do meio-dia, que para os

antigos era a hora dos espíritos, quando os demais visitantes se haviam retirado e as ruínas jaziam

desertas sob a luz do sol ardente, julgou poder transportar-se à vida que havia sido enterrada, mas

não com o auxílio da ciência. ‘Ela ensina uma concepção fria e arqueológica do mundo e faz uso de

uma linguagem filológica e morta, que em nada contribuem para uma compreensão da qual

participem o espírito, os sentimentos, o coração. Quem desejar atingi-la deve permanecer aqui,

solitário, único ser vivente nessa calma abrasadora do meio-dia, entre as relíquias do passado, e ver,

mas não com os olhos do corpo, e ouvir, mas não com os ouvidos físicos. E então… os mortos

acordarão e Pompéia tornará mais uma vez à vida.’ (55.)

Enquanto assim ressuscitava o passado com a sua imaginação, viu subitamente a

inconfundível Gradiva do seu relevo sair de uma casa e atravessar a rua com passos lépidos sobre

as pedras de lava, como no sonho em que ela se deitara nos degraus do templo de Apolo. ‘E com

essa lembrança, pela primeira vez veio à sua consciência que, embora ignorando o impulso interno

que o impelia, se viera à Itália, dirigindo-se a Pompéia sem deter-se em Roma ou em Nápoles, fora

para procurar as pegadas de Gradiva - e “pegadas” no sentido literal, pois com aquele andar peculiar

ela deveria ter deixado impressões inconfundíveis nas cinzas de Pompéia.’ (58.)

Nesse ponto a tensão em que até agora nos mantém o autor transforma-se por um momento

numa dolorosa perplexidade. Evidentemente não foi só o nosso herói quem perdeu o equilíbrio.

Também ficamos desorientados com o aparecimento de Gradiva, que de uma figura em mármore já

passara a figura imaginária. Acaso seria ela uma alucinação do nosso herói, perturbado por seus

delírios, ou seria um ‘verdadeiro’ fantasma, ou ainda uma pessoa viva? Não se quer dizer com isso

que precisemos acreditar em fantasmas. O autor, que rotulou de ‘fantasia’ sua obra, ainda não nos

informou se pretende deixar-nos dentro do nosso mundo, desse prosaico mundo governado pelas

leis da ciência, ou se pretende transportar-nos a um outro mundo imaginário, no qual se concede

realidade aos espíritos e fantasmas. Estamos preparados para segui-lo sem hesitações, como nos

exemplos de Hamlet e Macbeth, e nesse caso encararíamos por outro prisma o delírio do imaginativo

arqueólogo. Na verdade, ao considerarmos quão improvável é a existência de uma pessoa real que

seja a imagem viva de uma escultura antiga, as hipóteses reduzem-se a duas: uma alucinação ou

um fantasma do meio-dia. Um pequeno detalhe na narrativa leva-nos a abandonar a primeira

possibilidade. Um pequeno lagarto, que sobre uma pedra desfrutava imóvel do calor do sol, fugiu

assustado à aproximação do pé de Gradiva. Não se tratava, assim, de uma alucinação, mas de

alguma coisa externa à mente de nosso sonhador. Contudo, a realidade de uma rediviva poderia

perturbar um lagarto?

Gradiva desapareceu em frente à Casa de Meleagro. Não nos deve surpreender que o

arqueólogo tenha prosseguido em seu delírio de que Pompéia tornara à vida ao meio-dia, hora dos

espíritos, e que Gradiva também tenha tornado à vida e entrado na casa em que vivera antes

daquele fatal dia de agosto de 79 D.C. Sua mente constrói as mais engenhosas especulações sobre

a personalidade do proprietário (de quem a casa provavelmente tomara o nome) e sobre sua relação

com Gradiva, demonstrando que sua ciência estava agora inteiramente a serviço de sua imaginação.

Ele entrou na residência e defrontou-se subitamente, mais uma vez, com a aparição sentada em

alguns degraus baixos que se estendiam entre duas colunas amarelecidas, ‘tendo sobre os joelhos

um objeto branco cuja natureza ele não conseguiu precisar, talvez uma folha de papiro…’

Baseando-se na teoria que formulara sobre a origem da jovem, interpelou-a em grego e esperou,

cheio de ansiedade, pela comprovação de que a aparição possuía o dom da palavra. Como não

obteve resposta, interrogou-a em latim, ao que ela retrucou com um sorriso nos lábios: ‘Se desejas

falar-me deves empregar o alemão.’

Que humilhação para nós leitores! Então o autor estava se divertindo à nossa custa,

fazendo-nos participar em pequena escala do delírio do personagem, como se sobre nós também

incidisse o escaldante sol de Pompéia, para que julgássemos com maior benevolência o pobre

coitado sobre quem realmente incidia o sol do meio-dia. Agora, entretanto, já estamos curados da

nossa momentânea confusão, e sabemos que Gradiva é uma jovem alemã de carne e osso, solução

que antes estávamos inclinados a rejeitar como altamente improvável. Tranqüilos, superiores,

vamos pois esperar que o autor nos revele a relação existente entre a jovem e sua imagem em

mármore, e como nosso jovem arqueólogo chegou às fantasias que conduziram até a personalidade

real de Gradiva.

Mas o delírio de nosso herói não se dissipou com a mesma facilidade que o nosso, pois

como nos revela o autor, ‘embora feliz em sua crença, era-lhe necessário aceitar muitas

circunstâncias misteriosas.’ (140.). Provavelmente esse delírio tinha em Hanold raízes internas, as

quais são em nós existentes e das quais nada conhecemos. Parece-nos, sem dúvida, que em seu

caso seria necessário um tratamento enérgico para que pudesse ser trazido de volta à realidade. No

momento tudo que estava ao seu alcance era incorporar a seu delírio a maravilhosa experiência por

que acabara de passar. Gradiva, que perecera com o resto da população na destruição de Pompéia,

nada mais podia ser senão um fantasma do meio-dia, o qual voltava à vida naquele breve instante

consagrado aos espíritos. Mas por que, então, ele replicou ao ouvir a resposta dela em alemão: ‘Eu

já sabia como soaria a tua voz’? A jovem também estranhou a réplica, assim como nós, e Hanold

confessou nunca tê-la ouvido antes, embora esperasse ouvi-la em seu sonho, quando lhe falara ao

vê-la deitada nos degraus do templo. Implorou-lhe que repetisse a cena, mas a esse pedido ela se

levantou, olhando-o de forma estranha, e em poucos passos desapareceu entre as colunas do pátio.

Pouco antes uma borboleta revoluteara em torno da jovem, e ele a interpretou como uma

mensageira de Hades, a qual veio lembrar à jovem morta que ela devia retornar, pois a hora

concedida aos fantasmas estava para terminar. Hanold ainda teve tempo de bradar ao vê-la escapar:

‘Voltarás aqui amanhã ao meio-dia?’ Entretanto, podemos permitir-nos interpretações menos

fantásticas e ver na fuga da jovem um sinal de que a mesma, já que desconhecia o sonho dele,

julgara imprópria a observação que lhe fora dirigida por Hanold e se retirara ofendida. Não teria a sua

sensibilidade percebido a natureza erótica da pretensão de Hanold, que este acreditava motivada

somente pelo seu sonho?

Após o desaparecimento de Gradiva, nosso herói passou cuidadosamente em revista os

hóspedes reunidos para o almoço no Hotel Diomède e no Hotel Suisse, assegurando-se assim que

nos dois únicos hotéis que conhecia em Pompéia não existia ninguém que se assemelhasse, ainda

que remotamente, com Gradiva. Teria, naturalmente, rejeitado como tola a idéia de que talvez

pudesse realmente encontrar Gradiva ali. Logo o vinho originário das quentes faldas do Vesúvio

contribuiu para intensificar o turbilhão de sentimentos em que ele passou o dia.

No dia seguinte só uma coisa estava fixa: Hanold devia voltar à Casa de Meleagro ao

meio-dia; e, na expectativa desse momento, penetrou irregularmente nas ruínas de Pompéia,

escalando o antigo muro da cidade. Deparou um pé de asfódelo em flor, coberto de pequenas

campânulas brancas, e colheu para si um ramo ao lembrar-se de que se tratava da flor dos infernos.

Enquanto esperava, a arqueologia começou a lhe parecer a ciência mais inútil e desinteressante do

mundo, pois outro interesse concentrava agora suas atenções: o problema do ‘que poderia ser a

natureza da aparição corpórea de Gradiva, um ser que estava simultaneamente morto e vivo,

embora só ao meio-dia’. (80.) Também receava não a encontrar naquele dia, pois talvez sua volta só

fosse permitida a longos intervalos; ao vê-la outra vez entre as colunas, julgou que a aparição não

passava de um truque de sua imaginação e exclamou em sua dor: ‘Ah! Se ao menos fosses real e

viva!’ Mas dessa vez errara em seu julgamento, pois a aparição dirigiu-se a ele, perguntando-lhe se

a flor era para si, e travou com o desconcertado arqueólogo um longo colóquio.

O autor passa a explicar a seus leitores, para quem Gradiva já interessava como pessoa

viva, que o olhar de desprazer e repulsa que a jovem lhe dirigira na véspera dera lugar a uma

expressão de curiosidade e profundo interesse. Ela na verdade começou a interrogá-lo, pedindo-lhe

uma explicação para sua observação do dia anterior e querendo saber em que ocasião ficara ao lado

dela enquanto ela se deitava para dormir. Ela assim tomou conhecimento do sonho em que teria

perecido juntamente com toda a população de sua cidade natal, assim como também do relevo em

mármore e da posição do pé que tanto atraíra o arqueólogo. Ela então acedeu de bom grado a

demonstrar seu modo de andar, e isso mostrou que a única diferença da escultura de Gradiva era

que em lugar de sandálias a jovem trazia delicadas botas de cor de areia de fino couro - o que ela

explicava como uma adaptação ao presente. Evidentemente ela apreendia a essência do delírio do

arqueólogo, sem contestá-lo uma única vez. Só por um instante pareceu que a emoção a fez

esquecer seu papel, quando ele, pensando na escultura, declarou tê-la reconhecido à primeira vista.

Como a essa altura do colóquio ela ainda não sabia nada do relevo, era natural que se equivocasse

quanto às palavras de Hanold; mas ela logo se refez, e somente para nós suas réplicas às vezes

parecem dotadas de duplo sentido, como se em vez de se cingirem ao delírio, também aludissem a

fatos reais e presentes - por exemplo, quando ela lamentou não ter ele conseguido encontrar nas

ruas alguém que reproduzisse o modo de andar da Gradiva: ‘Que pena! Talvez essa longa viagem a

Pompéia não tivesse sido necessária!’ (89.) Ao saber que ele chamara de Gradiva à escultura, ela

lhe revelou seu verdadeiro nome: ‘Zoe’. ‘Esse nome assenta-te maravilhosamente, mas soa como

uma amarga ironia, já que Zoe significa vida’. ‘Temos de nos curvar ao irremediável’, retrucou ela, ‘e

há muito que me acostumei a estar morta.’ Prometendo estar de volta ao mesmo local ao meio-dia do

dia seguinte, ela se despediu, tendo antes pedido o ramo de asfódelo: ‘As mais afortunadas recebem

rosas na primavera, mas essas flores do esquecimento são mais apropriadas para mim.’ (90.) Sem

dúvida o tom melancólico condiz com alguém há muito tempo morto e que volta à vida apenas por

uns breves momentos.

Agora começamos a compreender e a nutrir alguma esperança. Se a jovem, em cuja figura

Gradiva tornou à vida, aceitou tão plenamente o delírio de Hanold, provavelmente fazia isso para

libertá-lo do mesmo. Não existia outro caminho para tal; contradizê-lo acabaria com todas as

possibilidades. Mesmo o tratamento sério de um caso real de doença desse tipo só poderia ter

seqüência situando-se inicialmente no mesmo plano da estrutura delirante e passando-se então a

investigá-la o mais completamente possível. Se Zoe for a pessoa indicada para esse trabalho, sem

dúvida logo aprenderemos como curar um delírio como o do nosso herói, e também teremos a

satisfação de saber como tais delírios têm início. Seria uma coincidência estranha - mas ainda assim,

nem inédita nem isolada - se o tratamento do delírio coincidisse com a sua investigação, e se

precisamente na dissecação do mesmo viesse à tona a explicação de sua origem. Se assim for,

começaremos certamente a suspeitar que o nosso caso de doença possa acabar numa ‘vulgar’

história de amor. Mas não se pode desprezar o poder curativo do amor contra um delírio - e acaso a

paixão do nosso herói pela sua escultura da Gradiva não possui todas as características de uma

paixão amorosa, ainda que paixão amorosa por algo passado e sem vida?

Após o desaparecimento de Gradiva, ouviu-se à distância como que o pio sardônico de um

pássaro sobrevoando as ruínas da cidade. Agora só, o jovem descobriu no chão o objeto branco que

tinha sido deixado por Gradiva; não se tratava de um papiro, mas de um caderno de esboços, com

vários desenhos a lápis de cenas de Pompéia. Inclinamo-nos a considerar esse esquecimento do

caderno como um penhor do retorno da jovem, pois acreditamos que ninguém esquece alguma coisa

sem uma razão secreta ou um motivo oculto.

O resto do dia proporcionou a Hanold uma série de confirmações e descobertas estranhas,

que ele entretanto não conseguiu sintetizar num todo. Na parede do pórtico onde Gradiva

desaparecera, descobriu uma estreita fenda, suficiente no entanto para dar passagem a uma pessoa

muito esbelta. Reconheceu que Zoe-Gradiva não teve necessariamente de sumir nas entranhas da

terra - idéia que agora lhe pareceu tão insensata que se envergonhou de ter acreditado nela; a jovem

pode ter utilizado a fenda para retornar a seu túmulo. Ele julgou perceber uma tênue sombra

desaparecer em frente à Casa de Diomedes, no fim da Via dos Sepulcros.

No mesmo atropelo de sentimentos da véspera, absorto nos mesmos problemas, ele

percorreu a esmo os arredores de Pompéia. Perguntou-se qual seria a natureza corpórea de

Zoe-Gradiva. Acaso se sentiria alguma coisa se se tocasse sua mão? Um estranho ímpeto o induzia

à determinação de tentar tal experiência, ao mesmo tempo que relutava fortemente a admitir

semelhante idéia.

Numa colina ensolarada deparou um cavalheiro idoso que, pelos seus apetrechos, só podia

ser um botânico ou um zoólogo empenhado em alguma busca. O indivíduo virou-se para ele e disse:

‘O senhor também está interessado no faraglionensis? Eu não acreditava, mas é provável que, além

das ilhas Faraglioni perto de Capri, também ocorram no continente. O método inventado pelo nosso

colega Eimer é realmente muito bom. Já o utilizei várias vezes com excelentes resultados. Por favor,

fique bem quieto…’ (96.) Nesse ponto o zoólogo calou-se e colocou um laço feito de um longo talo de

erva em frente a uma fenda nas pedras, por onde espreitava a pequena cabeça azul iridescente de

um lagarto. Hanold deixou o caçador de lagartos com um sentimento crítico de que era quase

inacreditável que pessoas empreendessem longas viagens para chegar a Pompéia impelidas por

propósitos tão estranhos e tolos. É desnecessário dizer que nessa crítica ele não se incluía, assim

como não incluía sua intenção de procurar as pegadas de Gradiva nas cinzas de Pompéia. A

fisionomia do indivíduo idoso que interpelara como a um conhecido era familiar ao arqueólogo, que

talvez já o tivesse visto de relance em um dos dois hotéis.

Continuando seu passeio, chegou por uma estrada lateral a uma casa que ele ainda não

tinha descoberto, e que se mostrou como um terceiro hotel, o ‘Albergo del Sole’. O proprietário,

ocioso no momento, aproveitou a oportunidade para exibir seu estabelecimento e sua coleção de

relíquias encontradas nas escavações. Afirmou ter estado presente à descoberta junto ao foro de um

jovel casal de namorados que, ao compreenderem seu inevitável destino, aguardaram a morte

estreitamente abraçados. Hanold já ouvira antes essa história, considerando-a uma invenção

fantasiosa de algum narrador imaginativo; naquele momento, porém, as palavras do hoteleiro

encontraram nele um ouvinte crédulo, cuja receptividade aumentou ao lhe ser mostrado um broche

de metal coberto de pátina verde, o qual teria sido encontrado nas cinzas junto aos restos da jovem.

Sem qualquer dúvida crítica, comprou o broche e, ao deixar o albergo, viu numa janela aberta um

ramo de asfódelo florido, tendo interpretado a visão das flores fúnebres como uma confirmação da

legitimidade de sua nova aquisição.

Mas, com o broche, um novo delírio apoderou-se dele, ou melhor, o antigo recebeu um novo

acréscimo - o que não parece de bom augúrio para o tratamento que fora iniciado. O par amoroso

abraçado fora desenterrado perto do foro, e foi em suas cercanias, no templo de Apolo, que em seu

sonho o jovem vira Gradiva deitar-se para dormir (ver em [1]). Não seria possível que mais tarde ela

se tivesse dirigido para o foro e encontrado alguém, tendo os dois então morrido juntos? Dessa

suspeita surgiu um sentimento atormentador comparável ao ciúme. Refletindo sobre a

improbabilidade da hipótese, tranqüilizou-se parcialmente e recuperou o equilíbrio suficiente para

cear no Hotal Diomède. Ali sua atenção voltou-se para dois hóspedes recém-chegados, um rapaz e

uma moça, julgou serem irmãos devido a certa semelhança física, apesar dos cabelos de cores

diferentes. Foram essas as primeiras pessoas que encontrou em sua viagem a lhe causarem uma

impressão favorável. A moça trazia uma rosa vermelha de Sorrento que lhe despertou uma

recordação imprecisa. Afinal ele se recolheu e teve um sonho singularmente absurdo, embora sem

dúvida provocado pelas experiências do dia. ‘Sentada em algum lugar no sol, Gradiva confeccionava

um laço de um longo talo de erva para capturar um lagarto, e disse: “Por favor, fique bem quieto.

Nossa colega tem razão, esse método é realmente ótimo e ela já o utilizou com excelentes

resultados.”’ Ainda adormecido, defendeu-se do sonho com o pensamento crítico de que o mesmo

era totalmente insensato, conseguindo libertar-se dele com a ajuda de um pássaro invisível que,

emitindo um pio sarcástico, chamou e carregou o lagarto em seu bico.

Apesar desse tumulto, ele acordou num estado de espírito mais lúcido e mais equilibrado.

Uma roseira com flores semelhantes às que vira na véspera no peito da nova hóspede o fez lembrar

que, durante o sono, ouvira alguém dizer que era costume oferecerem-se rosas na primavera. Sem

refletir, colheu algumas rosas e o ato exerceu um efeito tranqüilizante em seu espírito. Sentindo-se

liberto de seus sentimentos anti-sociais, dirigiu-se pelo caminho regular para Pompéia, com a mente

entretida em problemas referentes a Gradiva e levando consigo as rosas, o caderno de esboços e o

broche de metal. O antigo delírio começou a apresentar fissuras; ele conjeturou se acaso não

poderia encontrar Gradiva em Pompéia, não somente ao meio-dia, mas em outros momentos

também. Os últimos elementos acrescentados ao delírio, entretanto, adquiriram maior força, e os

ciúmes decorrentes dos mesmos atormentavam-no sob vários disfarces. Ele quase desejaria que a

aparição permanecesse visível somente a seus olhos, escapando à percepção dos demais; assim,

poderia considerá-la sua propriedade exclusiva. Enquanto caminhava sem destino, aguardando o

meio-dia, teve um encontro inesperado. Na Casa del Fauno deparou num canto um casal que,

julgando-se ao abrigo de olhares, trocava abraçado um demorado beijo. Assombrado, reconheceu

no par o simpático casal da noite anterior, cujo procedimento, entretanto, não coadunava com o de

dois irmãos, pois para ele o abraço e o beijo pareceram muito prolongados. Tratava-se, afinal, de

mais um casal amoroso, provavelmente em lua-de-mel - mais um Edwin e Angelina.

Surpreendentemente, dessa vez a visão dos mesmos só lhe causou satisfação. Reverentemente,

como se houvesse interrompido algum secreto ato de devoção, retirou-se sem ser percebido.

Recuperou uma atitude de respeito, há muito perdida.

Ao chegar à Casa de Meleagro, tornou a sentir um medo tão violento de encontrar Gradiva

em companhia de mais alguém, que quando ela apareceu as únicas palavras que lhe ocorreram

foram as seguintes: ‘Estás sozinha?’ Foi com dificuldade que a jovem conseguiu fazê-lo perceber

que ele colhera as rosas para ela. Ele lhe confessou seu último delírio: ser ela a dona do broche

verde, ser ela a jovem encontrada nos braços do amante no foro. Com um leve toque irônico, ela

perguntou se acaso ele encontrara o objeto no sol (e ela empregou a palavra [italiana] ‘ sole‘), pois o

sol fazia coisas semelhantes. O rapaz confessou estar-se sentindo um pouco tonto, e ela sugeriu

como cura que ele compartilhasse da merenda dela. Ela lhe ofereceu a metade de um pãozinho que

trazia embrulhado num papel de seda e comeu a outra metade com óbvio apetite. Seus lábios

entreabertos deixavam entrever dentes perfeitos, que produziam um leve rangido ao penetrar na

côdea do pão. ‘Sinto como se já tivéssemos compartilhado certa vez de uma refeição semelhante, há

dois mil anos atrás’, disse ela, ‘não te recordas?’ (118.) Nenhuma resposta ocorreu a ele, mas a

melhora de sua cabeça, decorrente do alimento, e as muitas indicações da presença real da jovem

começaram a produzir seu efeito. A razão fortalecida o fez duvidar do delírio de que Gradiva não

passasse de um fantasma do meio-dia, embora ela mesma tivesse acabado de afirmar que tinha

compartilhado com ele de uma refeição há dois mil anos. Para solucionar tal conflito, ocorreu-lhe

uma experiência que imediatamente levou a cabo com habilidade e renovada coragem. A jovem

descansava sua mão esquerda, de delicados dedos, sobre os joelhos e uma das moscas, cuja

inutilidade e impertinência tanta indignação haviam provocado nele, pousou sobre ela. Num

movimento súbito, a mão de Hanold elevou-se no ar para se abater com vigor sobre o inseto e sobre

a mão de Gradiva.

Essa experiência atrevida teve dois resultados: primeiro, a eufórica convicção de ter, sem

dúvida alguma, tocado uma mão humana, real, viva e quente, mas logo em seguida uma reprimenda

que o fez levantar-se num sobressalto da escadaria onde estava sentado, pois, passado seu

primeiro espanto, Gradiva exclamou: ‘Perdeste mesmo o juízo, Norbert Hanold!’ Como todos sabem,

o melhor método para acordar um sonâmbulo, ou um indivíduo adormecido, é chamá-lo pelo seu

próprio nome. Contudo, infelizmente, não se terá oportunidade de observar os efeitos produzidos em

Norbert Hanold pelo fato de Gradiva ter proferido seu nome (nome que ele não revelara a ninguém

em Pompéia), pois nesse momento crítico surgiu em cena o simpático casal amoroso da Casa del

Fauno, e a jovem senhora exclamou em tom de grata surpreza: ‘Zoe! Estás aqui também? E em

lua-de-mel como nós? Nunca me escreveste uma única palavra a respeito disso!’ Diante dessa nova

prova de que Gradiva era um ser vivo e real, Hanold fugiu.

Zoe-Gradiva também não acolheu com grande prazer essa visita inesperada que a

interrompeu numa tarefa aparentemente importante. Todavia, ela logo se recuperou e respondeu

com naturalidade, explicando a situação à sua amiga - e também a nós -, de forma a livrar-se do

jovem casal. Congratulou-os, e negou estar em lua-de-mel. ‘O rapaz que acabou de se afastar

abriga, como vós, uma notável aberração. Parece acreditar que existe uma mosca zunindo em sua

cabeça. Bem, talvez todos tenhamos uma espécie de inseto aqui. Como entendo um pouco de

entomologia, posso ser de alguma ajuda nesses casos. Meu pai e eu estamos hospedados no Sole.

Alguma coisa também aconteceu com a cabeça dele, pois teve a brilhante idéia de me trazer, sob a

condição de que me distraísse sozinha em Pompéia e nada exigisse dele. Eu disse a mim mesma

que seria capaz de desencavar algo de interessante aqui, sem a ajuda de ninguém. Naturalmente eu

não contava com a descoberta que fiz… isto é, não contava encontrar-te, Gisa.’ (124.) E acrescentou

que precisava apressar-se, pois o pai a esperava para almoçar no ‘Sol’. Assim afastou-se, após

haver-se apresentado a nós como filha do zoólogo caçador de lagartos e após ter admitido por toda

sorte de alusões ambíguas, sua intenção terapêutica e também outros propósitos secretos.

Entretanto, não tomou a direção do Hotel do Sol, onde o pai a esperava. Pareceu-lhe

também ver uma sombra que, à procura de seu túmulo, desapareceu por trás de um dos

monumentos funerários perto da Casa de Diomedes. Isto a levou a encaminhar-se para a Via dos

Sepulcros, flexionando os pés quase perpendicularmente a cada passo. Hanold fugira para o mesmo

local, confuso e envergonhado, e ali caminhava sem parar, de um lado para outro, no pórtico do

jardim, empenhado em solucionar a parte ainda obscura do seu problema através de um esforço

intelectual. Um fato tornara-se inequivocamente claro para ele: fora insensatez ou loucura sua

acreditar que se estava associando com uma jovem pompeana tornada à vida numa forma mais ou

menos física. Essa clara compreensão interna ( insight) de seu delírio era, sem dúvida, um passo

essencial para a volta à razão. Por outro lado, essa mulher viva, com quem outras pessoas se

comunicavam como se fosse fisicamente tão real quanto elas, era Gradiva, e conhecia o nome dele.

Sua razão recém-despertada, porém, não era suficientemente forte para decifrar esse enigma, nem

ele possuía a tranqüilidade emocional necessária para enfrentar tão árdua tarefa, pois preferia ter

sido enterrado há dois mil anos, na Casa de Diomedes, de modo a estar certo de não ter de se

encontrar com Zoe-Gradiva novamente.

Todavia, um violento desejo de tornar a vê-la lutava contra os últimos ímpetos de fuga.

Ao dobrar um dos quatro ângulos da colunata, recuou sobressaltado. Num fragmento da

alvenaria de pedra estava sentada uma das jovens que morrera ali na Casa de Diomedes. Esta,

entretanto, é sua última tentativa, logo repudiada, de refugiar-se no reino do delírio. Não, era

Gradiva, que evidentemente viera para lhe ministrar a última parte do seu tratamento. Ela interpretou

corretamente o primeiro movimento instintivo dele como uma tentativa de deixar o prédio, e

mostrou-lhe que no momento era impossível retirar-se, pois desabara uma chuva torrencial.

Implacável, ela iniciou o interrogatório perguntando-lhe o que tentara fazer com a mosca pousada

em sua mão. Ele não teve mais coragem de usar um pronome particular, mas ousou algo mais

importante: fazer-lhe a pergunta decisiva.

‘Como alguém já disse, minha cabeça estava muito confusa, e devo desculpar-me por ter

batido na mão… não entendo como pude agir tão desarrazoadamente… mas também não entendo

como a dona da mão, ao repreender-me por minha… insensatez, pôde declinar meu nome.’ (134.)

‘Vejo que há coisas que teu entendimento ainda não alcançou, Norbert Hanold. Não posso

dizer, porém, que isto me surpreendeu, pois há muito me acostumaste com isto. Eu não precisava ter

vindo a Pompéia para descobri-lo, e poderia tê-lo confirmado bem mais perto, a uns mil quilômetros

daqui.

‘Sim, a uns mil quilômetros daqui’, ela insistiu ao ver que ele ainda não compreendera, ‘do

outro lado da tua rua, na casa da esquina. Na minha janela há uma gaiola com um canário.’

Essas últimas palavras, à medida que as ouvia, despertaram nele uma longínqua

lembrança. Devia tratar-se do mesmo pássaro cujo canto pro- vocara nele a idéia de viajar para a

Itália.

‘Naquela casa mora meu pai, Richard Bertgang, o catedrático de zoologia.’

Assim, como Zoe era sua vizinha, conhecia-o de vista, além de saber seu nome.

Sentimo-nos decepcionados; a solução é desinteressante e parece não estar à altura de nossas

expectativas.

Norbert Hanold mostrou que ainda não reconquistara uma total independência de

pensamento ao replicar: ‘Então vós… vós sois Fräulein Zoe Bertgang? Mas ela tinha um aspecto tão

diferente…

A resposta de Fräulein Bertgang revela-nos que entre os dois já houve outra relação que não

a de simples vizinhos. Alegando antigos direitos, ela reclamou um tratamento mais familiar, aquele

du‘ que ele usava tão naturalmente ao interpelar o fantasma do meio-dia, mas que repudiara ao

dirigir-se a uma jovem de carne e osso: ‘Se julgais ser esse tratamento cerimonioso mais apropriado,

eu também o adotarei. Mas o outro sai mais espontaneamente dos meus lábios. Não sei se meu

aspecto era diferente em nossa infância, quando costumávamos brincar juntos amigavelmente ou

nos atracar de quando em quando para variar. Mas se vos tivésseis dignado a olhar-me com atenção

pelo menos uma vez nos últimos anos, poderíeis ter percebido que há muito tempo tenho a

aparência de agora.’

Então já houve entre os dois uma amizade infantil - talvez mesmo um amor infantil - que

justificava o du‘. Essa solução poderia parecer-nos tão trivial como a que de início suspeitamos.

Verificamos, entretanto, que desce a um nível muito mais profundo, ao constatarmos que essa

relação infantil explica de forma inesperada alguns pormenores do seu contato de agora.

Considere-se, por exemplo, a pancada na mão de Zoe-Gradiva, explicada de forma muito

convincente por Norbert Hanold pela necessidade de uma resposta experimental para o problema da

realidade física da aparição. Acaso isso não parece ao mesmo tempo demasiadamente com um

renascimento do impulso para brincadeiras violentas, constantes na infância dos dois, segundo as

palavras de Zoe? Considere-se também quando Gradiva indagou ao arqueólogo se este não se

recordava de há dois mil anos ter compartilhado de sua refeição. Essa pergunta incompreensível

logo parece adquirir sentido, se mais uma vez substituirmos o passado histórico por um passado

pessoal - a infância - do qual a jovem retinha lembranças vívidas, mas que parece ter sido esquecido

pelo rapaz. De repente, surge-nos a descoberta de que as fantasias do jovem arqueólogo sobre

Gradiva talvez sejam um eco dessas lembranças infantis esquecidas. Assim sendo, não se trata de

produtos arbitrários de sua imaginação, tendo sido essas fantasias determinadas, sem que ele

soubesse disso, pelo acervo de impressões infantis esquecidas, mas ainda nele atuantes. Seria

possível para nós, ainda que só possamos conjeturar sobre elas, mostrar em detalhe a origem

dessas fantasias. Ele imaginou, por exemplo, que Gradiva devia ser de origem grega, filha de uma

alta personagem, talvez de um sacerdote de Ceres. Isso se ajusta com perfeição ao seu

conhecimento do nome grego da jovem, Zoe, e ao fato de ela pertencer à família de um professor de