Guerra dos Homens Alados por Poul Anderson - Versão HTML

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POUL ANDERSON

A GUERRA DOS HOMENS ALADOS

Tradução de:

AFFONSO BLACHEYRE

EDIÇÃO EM EPUB: EXILADO DE MARÍLIA

Capítulo 1

O Grande Almirante Syranax hyr Urnan, Comandante-em-

Chefe hereditário da Frota de Drak'ho, Pescador do Mares Ocidentais, Chefe do Sacrificio do Oráculo da Estrela Polar, abriu as asas e voltou a fechá-las, em um trovão de espanto. Por momentos aquilo fez os papéis na escrivaninha revoar.

— Não! Impossível! Houve algum engano.

— Como quiser o meu Almirante — disse o Oficial Exec-

utivo Delp hyr Orikan, com mesura sarcástica. — Os batedores nada viram.

A expressão de raiva perpassou o rosto do Capitão

T'heonax hyr Urnan, filho do Grande Almirante e seu herdeiro.

Seu lábio superior ergueu-se, fazendo os colmilhos caninos aparecer em relance branco contra o focinho escuro.

— Não dispomos de tempo para gastar com sua insolência,

Executivo Delp — disse, friamente. — Eu aconselharia meu pai a dispensar o oficial que não demonstrar mais respeito.

Sob as correias bordadas que lhe indicavam o cargo, o

corpanzil de Delp retesou-se. O Capitão T'heonax deu um

passo em sua direção. As caudas se curvaram e as asas se abriram, em presteza para a luta, até que o aposento estivesse cheio de seus corpos e seu ódio. Em movimento calculado, que parecia ocasional, T'heonax baixou a mão para o ancinho de obsidiana que trazia à cinta. Os olhos amarelos de Delp reluziam, os dedos se fechavam em sua própria machadinha.

A cauda do Almirante Syranax bateu no chão. Era

como uma bomba explodindo ali mesmo. Os dois jovens

nobres sobressaltaram-se, lembraram-se de onde estavam

e devagar, músculo após músculo voltando ao repouso,

por baixo da pelagem castanha luzidia, afrouxaram os

corpos.

— Basta! — disse o Almirante, com brusquidão.

— Delp, sua língua ainda haverá de metê-lo em en-

crencas. T'heonax, já me aborreci com seu despeito. Você terá a oportunidade de lidar com os inimigos pessoais,

quando eu for comida de peixes. Enquanto isso, poupe-

me os poucos oficiais competentes que tenho!

Era o discurso mais firme que alguém já o ouvira pro-

nunciar por bastante tempo. Seu filho e o subordinado

relembravam-se agora de que aquela criatura grisalha,

de olhos embaçados, acossada pelo reumatismo, já fora o

vencedor da Armada Maion (mil asas de chefes inimigos

haviam sido dependuradas, em espetáculo sinistro, nos

mastros da Frota). E ainda era o chefe deles, na guerra

contra a Revoada. Tomaram a posição de respeito, de

quatro, esperando que ele prosseguisse.

— Não me interprete de modo tão liberal, Delp - disse

o Almirante, em tom mais suave. Estendeu a mão para

a prateleira acima da mesa e tirou dali um cachimbo de

cabo comprido; começou a encher-lhe a panela com algas

marítimas secas, extraídas da bolsa à cinta. Entrementes, seu corpo velho e endurecido acomodava-se melhor no

banco de madeira e couro.

Foi surpresa para mim, naturalmente, mas supus que

nossos batedores sabiam ainda usar um telescópio.

Descreva-me outra vez, com exatidão, o que ocorreu.

— Uma patrulha efetuava reconhecimento rotineiro a

cerca de trinta obdisai, a norte-noroeste daqui — explicou Delp, com cautela. — Isso seria na faixa geral da ilha chamada... não consigo pronunciar aquele nome selvagem,

senhor; ele significa Bandeiras Desfraldadas.

— Sim, sim — assentiu Syranax. — De vez em quando

eu consulto os mapas, sabia?

Theonax sorriu. Delp não era criatura da corte, daí sua

deficiência. O avô fora simples Fabricante de Velas e o pai nunca atingira mais do que o posto de Capitão de uma

só jangada. Tal ocorrera após a família ter sido enobre-

cida, por serviços heróicos prestados na batalha de Xarif-ha, naturalmente. Mas não tinham sido destacados pares

do reino, eram uma corja de mãos sujas, pouco acima dos

próprios subordinados.

Syranax, que corporificava a resposta dada pela Frota

àqueles dias sombrios de fome e debandada, havia escol-

hido os oficiais na base de capacidade comprovada e nada mais. Assim aquele simplório Delp hyr Orilcan se vira em pouco tempo guindado ao segundo posto mais elevado

em Drak'ho. Sua ascensão, todavia, não aparara as ares-

tas de educação, nem lhe ensinara a lidar com verdadeir-

os nobres.

Se Delp era querido pelos marinheiros comuns, tanto

mais desagradava a muitos aristocratas. Aos olhos destes era ainda um parvenu, um cacete, e tivera a coragem de

casar-se com uma Axollon! Após se fecharem na morte as

asas protetoras do velho Almirante

Theonax saboreava antecipadamente o que sucederia,

então, a Delp hyr Orikan. Seria muito fácil descobrir alguma acusação nominal.

O Executivo engoliu em seco.

— Desculpe, senhor — murmurou. — Eu não preten-

dia.. ainda somos muitos novos em todo este setor do

mar. Os batedores viram o objeto à deriva.

Não se parecia a coisa alguma que conhecessem. Dois

deles voltaram para dar parte e pedir orientação. Fui

pessoalmente examinar o caso. Senhor, é verdade!

Um objeto flutuante, seis vezes mais comprido que

nossa maior canoa, semelhante a gelo, mas diferente —

e o Almirante balançava a cabeça de pelos grisalhos. De-

vagar, pôs isca seca na panela do cachimbo, mas foi com

violência desnecessária que enfiou a vareta naquele cilin-dro de madeira. Retirando a vareta, acendeu o fogo e

puxou tragadas profundas.

O cristal de rocha que receber o melhor polimento

possível poderia parecer-se um pouco àquilo, senhor —

sugeriu Delp. — Mas não brilharia tanto. Não teria o

bruxuleio.

E existem animais correndo em volta dele?

Três, senhor. Têm perto de nosso tamanho, são um

pouco maiores, mas sem asas e sem cauda. Ainda assim,

não são apenas animais... ao que creio. Parecem usar

roupas e eu... não creio que a coisa brilhante fosse feita para ser um barco. Navega de modo abominável e parece

estar afundando.

Se não é barco e não é uma tora de madeira largada

de alguma praia — disse Theonax — nesse caso, rogo que

diga de onde vem. Das profundezas?

Dificilmente, Capitão — respondeu Delp, tomado de

irritação. — Se assim fosse, as criaturas em cima seriam peixes, ou mamíferos do mar, ou.. . bem, estariam adapta-dos à natação, e não ocorre isso. Parecem-se a formas terrestres típicas, sem capacidade de voar, a não ser pelo fato de que têm quatro membros.

Devem ter caído do céu, então, ao que presumo —

zombou Theonax.

Para mim não seria surpresa — retorquiu Delp, em

voz baixíssima. — Não existe qualquer outra direção que

reste.

Theonax sentou-se sobre as ancas e se punha

boquiaberto, mas o pai apenas assentiu.

Ótimo — murmurou Syranax. — Estou satisfeito por

ver alguém dotado de um pouco de imaginação, entre

nós.

Mas de onde eles voaram? — explodia Theonax.

Talvez nossos inimigos de Lannach possam explicar

— propôs o Almirante. — Eles podem cobrir uma parte

maior do mundo, a cada ano, do que nós em muitas

gerações; e encontram uma centena de outras Revoadas

bárbaras, nos trópicos, trocam notícias com eles.

E fêmeas — observou Theonax, falando naquela mis-

tura de desaprovação e afetação com que toda a Frota en-

carava os hábitos dos migrantes.

É deixar isso para lá — retorquiu Delp, com aspereza.

Theonax eriçou-se.

Seu cachorrinho esfregador de convés, como se at-

reve...

Cale a boca! — estrugiu Syranax e, após uma pausa,

prosseguiu: — Mandarei fazer indagações entre nossos

prisioneiros. Enquanto isso, é melhor mandar uma canoa

rápida para recolher esses seres, antes que o objeto onde estão flutuando afunde de uma vez.

Eles podem ser perigosos — advertiu Theonax.

De pleno acordo — concordou o pai. — Se forem, é

melhor que estejam em nossas mãos do que, digamos, dos

Lannach'honai, que podem encontrá-los e fazer uma ali-

ança. Delp, tome Neninis com boa tripulação, e ponha

bastante vela. E traga aquele camarada de Lannach que

capturamos, como é que se chama? O lingüista profission-

al...?

Tolk? — e o Executivo encontrara dificuldades para

pronunciar aquele nome estranho.

Sim. Talvez ele possa falar com as criaturas. Mande

batedores de volta para me informar, mas fique bem

longe da frota principal, até termos certeza de que as criaturas são inofensivas a nós. Da mesma forma, até que eu tenha reduzido quaisquer medos supersticiosos a respeito de demônios do mar, existentes nas classes mais baixas.

Seja educado se puder, use a força caso seja necessário.

Sempre poderemos pedir desculpas mais tarde.. ou jogar

os corpos na água. Agora, pule!

Delp pulou.

Capítulo 2

Sentia-se como se a desolação o encerrasse entre quatro

muralhas. Mesmo em cima daquele casco baixo, que oscilava para todos os lados, o resto do cruzador espacial abatido, Eric Wace podia ver uma imensidão de horizonte. Achava que o

simples tamanho daquele anel imenso, onde o sol empalidecido pela geada encontrava-se com o cinzento que eram as nuvens, a espuma da tempestade e grandes ondas, bastava

para apavorar um homem. A probabilidade da morte fora en-frentada antes, na Terra, por muitos de seus ancestrais, mas o horizonte da Terra não era distante assim.

Que ficasse de lado o fato de que se encontrava a cerca

de cem anos-luz de seu próprio Sol. Distâncias assim eram grandes demais para serem compreendidas; tornavam-se

simples números, não assustavam alguém que levava em conta a pseudo-velocidade de espaço-nave em impulso secundário, em parsecs por semana.

Mesmo os 10.000 quilômetros de oceano aberto à coloniza-

ção humana solitária naquele mundo, o posto comercial, constituía apenas mais um número. Mais tarde, se tivesse vida, Wace passaria momentos agoniantes, imaginando como enviar uma mensagem que varasse o espaço vazio, mas no momento

estava ocupado demais em manter-se vivo.

A largura do planeta, entretanto, era algo que ele podia ver.

Ela o impressionara antes, em sua estada de dezoito meses; mas ele estivera isolado, tanto psicológica quanto fisica-mente, por uma tecnologia de máquinas invencível.

Agora, estava sozinho em nave que afundava e era dupla

a distância que tinha de percorrer com o olhar, por cima de ondas geladas, até a orla do mundo, em comparação

ao que sucederia na Terra.

O cruzador de espaço sacudiu-se, recebendo impacto

selvagem das ondas. Wace perdeu o equilíbrio e escor-

regou por placas metálicas lisas. Frenético, agarrou-se ao cabo de luz, que prendia as caixas com alimentos à torre de navegação. Caiu para o outro lado, as botas e roupas

serviriam para fazê-lo afundar como se fosse pedra.

Agarrou-o a tempo e, assim, conseguiu parar. Desapon-

tada, a onda esbofeteou-lhe a cara com a mão salgado e

úmida.

Estremecendo de frio, Wace acabou de enfiar a última

caixa no lugar e arrastou-se para a escotilha de entrada.

Era uma porta de emergência, pequenina e horrível, mas

o convés de passeio, com sua superfície luzidia e por

baixo, onde os passageiros haviam passeado enquanto

os raios de gravidade do cruzador tinham mantido a

sustentação pelo céu, estava submerso e o mesmo ocorria

a seu portal ornamentado e feito de bronze.

A água enchera o compartimento de motores,

destruído na queda, quando haviam caído. Desde então

aquilo estivera vazando por tabiques retorcidos e chapas de casco violentadas, até que tudo estivesse prestes a

efetuar um último mergulho profundo ao leito do mar.

O vento passava dedos muito finos por seus cabelos

encharcados e tentava manter aberta a escotilha, quando

ele quis fechá-la, após ter entrado. Teve de travar luta com a tormenta. Tormenta? Com os diabos, não! Tinha apenas a velocidade de uma brisa mais forte, porém com seis

vezes mais pressão atmosférica do que a Terra, caso em

que tal brisa se parecia a uma tempestade terrestre. Que se desgraçasse PLC 2987165 II! Que se danasse o próprio

PL e que se danasse Nicholas van Rijn, e de modo ainda

mais especial que se condenasse Eric Wace, por ser imbe-

cil o bastante para trabalhar na Companhia!

De modo rápido, enquanto lutava com a escotilha,

Wace olhou por cima da espuma, como a procurar so-

corro. Viu de relance apenas o sol avermelhado e grandes nuvens, carregadas de tempestade escura ao norte e alguns pontinhos que eram provavelmente os nativos. Que

o demônio fritasse aqueles nativos em grelha lenta, por

não virem ajudar! Ou, ao menos, que se afastassem de-

centemente enquanto os seres humanos se afogavam, em

vez de adejarem no ar, gozando a cena!

— Tudo em ordem?

Wace fechou a escotilha, trancou-a bem e desceu a es-

cada. Ao pé da mesma, teve de segurar-se por causa das

oscilações fortes. Ainda ouvia as ondas batendo no casco e o vento gemendo.

Sim, minha senhora. Em ordem tão boa quanto antes.

O que não é grande coisa, não? — e a Dama Sandra

Tamarin iluminou-o com a lanterna. Ao lado daquela

fonte de luz ela não passava de outra sombra, na escur-

idão da nave. — Mas você se parece a um pinto molhado,

meu amigo. Venha. Temos, ao menos, roupas secas para

você.

Wace assentiu e despiu a jaqueta encharcada, e com

pontapés no ar livrou-se das botas. Teria regelado lá fora, sem elas — não podia estar a mais de cinco graus C —

mas pareciam ter absorvido metade da água do oceano.

Os dentes estralejavam tiritando, enquanto a acompan-

hava pelo corredor.

Ele era um jovem alto, de raça norte-americana, ca-

belos avermelhados e olhos azuis, traços audaciosamente

marcados e o corpo musculoso. Começara como aprendiz

de armazém, aos doze anos de idade, na Terra, e agora

ocupava o cargo de agente da Companhia Solar de Tem-

peros & Bebidas para todo o planeta conhecido pelo nome de Diomedes. Não se tratava de carreira das mais meteóricas — a política adotada por Nicholas van Rijn era a de promover o subordinado de acordo com os resultados

obtidos, e isso significava que os elementos dotados de es-pírito rápido, arma ligeira e olho cravado na oportunid-

ade maior se viam favorecidos. Mas fora uma carreira boa e estável, tendo por futuro cargos em lugares menos isolados e desagradáveis e, finalmente, uma posição qualquer

de executivo na central, mas de que adiantava, se águas

alienígenas iriam tragá-lo em questão de horas?

Ao final do salão, onde a torre de navegação se erguia,

voltava a ver aquela luz de sol raivosa e cor de cobre, bem baixa no céu coberto de nuvens e fumaça, ao sul do Oeste, ao cair do dia. A Dama Sandra apagou a lanterna e apontou para o macacão estendido na mesa. Ao lado da peça

de roupa havia os complementos externos, acolchoados,

enluvados e protegidos, de que ele necessitaria antes de voltar a arriscar-se naquela primavera equinocial.

Vista tudo — disse ela. — Quando o barco começar

a afundar, teremos de abandoná-lo na maior pressa pos-

sível.

Onde está o Libero van Rijn — indagou Wace.

Fazendo alguns trabalhos de última hora na jangada.

Aquele homem é habilidoso com as ferramentas, não?

Mas acontece que já foi tripulante comum.

Wace deu de ombros e esperou que ela saísse. —

Mude de roupa, já disse — insistiu ela.

Mas...

Ah — e leve sorriso surgiu-lhe aos lábios. — Não sabia

que existe um tabu de nudez na Terra.

Bem... não é exatamente assim, mas, afinal de contas,

a senhora é de nascimento nobre, eu apenas um comerci-

ante...

É de planetas republicanos como a Terra que vêm os

maiores pretensiosos de todos — foi o que ela disse. —

Aqui, somos todos seres humanos. Depressa, mude de

roupa. Voltarei às costas, se o deseja.

Wace tratou de envergar o traje o mais depressa pos-

sível. A hilaridade da Dama Sandra tinha sido um recon-

forto inesperado. Ele pensou que a sorte sempre parecia

proteger aquele bode velho e barrigudo, van Rijn.

Não estava certo! Os colonos de Hermes tinham sido,

em sua maior parte, gente grande e clara e os descend-

entes haviam saído fiéis — especialmente os aristocratas

— depois de Hermes ter-se instalado como Grão Ducado

autônomo, durante o Rompimento. A Dama Sandra

Tamarin era quase tão alta quanto ele e a informe roupa

de inverno não lhe escondia de todo a feminilidade

flexível e completa. Tinha rosto forte demais para ser be-lo: testa ampla, boca larga, nariz arrebitado, malares sa-lientes, mas os olhos verdes e grandes, de cílios cinzentos, encimados por sobrancelhas grossas e escuras, eram

os mais belos que Wace vira até então. O cabelo era com-

prido, liso, louro-acinzentado, preso em nó naquele in-

stante, mas ele já o vira solto e flutuando, sob uma coroa ducal, à luz das velas.

Terminou, Libero Wace?

Oh... sinto muito, minha senhora. Estava pensando.

Um momento, apenas — e ele envergou a túnica acolcho-

ada, mas deixou aberto o fecho corredio.

Ainda havia algum calor humano no casco do cruzad-

or. — Sim. Peço que me perdoe.

Não foi nada — disse ela, e se voltou. No reduzido es-

paço de que dispunham, seus corpos se roçaram. Ela er-

gueu o olhar para o céu. — Aqueles nativos continuam lá

por cima?

Imagino que sim, minha senhora. Estavam altos de-

mais para que eu pudesse ter certeza, mas são capazes de subir alguns quilômetros sem qualquer dificuldade.

Estive pensando, Comerciante, mas não tive a opor-

tunidade de perguntar. Achei que não podia existir anim-

al voador do porte de um homem, mas ainda assim esses

diomedanos têm envergadura de asas de morcego que vai

a seis metros. Como pode ser?

— E pergunta, em ocasião como esta?

Ela sorriu.

Temos, apenas, de esperar o Libero van Rijn. O que

mais podemos fazer, senão comentar o que é curioso?

Nós... o ajudamos a terminar aquela jangada, ou logo

estaremos naufragados!

Ele me disse que só tem baterias para um maçarico

cortante, de modo que qualquer pessoa por lá atrapalha,

em vez de ajudar. Por favor, continue falando. Os que

nasceram na nobreza de Hermes também têm seus cos-

tumes e tabus, e isso inclui o modo correto de morrer. O

que mais é o homem, senão um conjunto de costumes e

tabus? — e sua voz forte denotava despreocupação, ela

sorria um pouco, mas Wace pensava em que parte de

tudo aquilo era representação.

Ao inferno com a farsa de "sorria-que-isso-não-é-

nada"! Foi o que Wace quis dizer. Estamos no oceano de um planeta cuja vida é puro veneno para nós.

Existe uma ilha a centenas de quilômetros daqui, mas

sabemos apenas vagamente em que direção se acha. Po-

demos completar ou não uma jangada a tempo, jangada

feita de tambores vazios de combustível; e podemos

carregá-la ou não com nossas rações de tipo humano, se

houver tempo; e pode ser que, com ela, agüentemos ou

não o tempo que se forma em tempestade para o norte.

Eram nativos, os que voavam baixo sobre nós, poucas

horas antes, mas desde então passaram a nos ignorar... ou vigiar... tudo, menos oferecer ajuda.

Alguém que te odeia ou ao velho van Rijn, foi o que

teve vontade de dizer. A mim não, não sou tão importante que alguém me odeie. Mas van Rijn é a Companhia Solar

de Temperos & Bebidas, que constitui grande poder na Liga Polosotécnica, que é a grande força na galáxia conhecida. E tu és a Dama Sandra Tamarin, herdeira do trono de todo um planeta — se viveres para tanto — que rejeit-ou muitas ofertas de casamento feitas por homens de tua

aristocracia decadente e endógena, preferindo de modo

público procurar em outro lugar o pai de teus filhos, de modo que o próximo Grão Duque de Hermes seja um

homem, e não um cabide risonho de roupas. E muitos

cortesãos devem sentir pavor a teu acesso ao trono.

Oh, sim, queria dizer, existem muitas pessoas que

sairiam ganhando, se Nicholas van Rijn ou Sandra Tamar-

in deixassem de voltar. Fora atitude cavalheiresca e cal-culada, para que ele te oferecesse transporte na nave particular, em Antares onde os dois conheceram, de volta

à Terra, com paradas em pontos interessantes pelo cam-

inho. Quando nada, ele pode procurar concessões comer-

ciais no teu Ducado. Na melhor hipótese... não, dificil-

mente uma aliança oficial; existe nele uma força infernal demasiada. Tu mesma (que és tão forte, linda e inocente) jamais o deixarias implantar o traseiro rotundo no Alto

Trono de teus pais. Mas uma brincadeira na palha, um ad-

eus berrado de longe e uma cunha enfiada em teu reino,

para que ele possa explorar... não, tu és boa demais para isso!

Mas estou a me afastar do assunto, minha cara, quis

dizer Wace. E o assunto é que alguém, na tripulação da

espaçonave, foi subornado. O plano foi bem preparado.

Esse alguém aguardou a oportunidade e ela veio quando

tu pousaste em Diomedes para ver, de verdade, como é

um planeta novo e ainda bruto, planeta onde até mesmo

os esboços continentais principais não foram cartografa-

dos, nos cinco ralos anos em que um punhado de homens

esteve aqui. A oportunidade chegou quando me disseram

para levar-te e a meu patrão velho e mau àquelas montan-

has lindas que ficam no meio deste mundo e que tinham

sido observadas como cenário espetacular. Uma bomba

no gerador principal... a tripulação liquidada, os engenheiros e camareiros desaparecidos na explosão, o crânio

de meu co-piloto esfacelado quando batemos no mar, o

rádio estraçalhado. E os últimos destroços vão afundar,

não tarda muito, antes que comecem a preocupar-se no

Pouso de Quinta-Feira, e venham à nossa procura. E na

suposição de que sobrevivamos, existe a possibilidade,

por menor que seja, de que algumas naves pequenas,

percorrendo um mundo quase ainda não cartografado e

duas vezes maior que a Terra, consiga ver três pequeni-

nos seres humanos sobre o aceano?

Assim sendo, era o que tinha vontade de dizer, como

todos os nossos planos e atitudes serviram apenas para

nos trazer a isto, seria ótimo esquecê-los no pouco tempo que resta e vir beijar-me.

Mas a garganta obstruiu-se e ele nada disse do que

pensava.

E então? — o tom de impaciência surgira na voz dela.

— Está muito calado, Libero Wace.

Sinto muito, minha senhora — murmurou ele.

— Acho que não sei manter a conversa sob... bem, sob

estas circunstâncias.

— E eu lamento dizer que não tenho capacidade para

lhe oferecer o consolo da religião — retorquiu ela, o olhar desdenhoso a magoá-lo.

Uma onda de arrastão, comprida e acinzentada na

orla, passou sobre o convés lá fora e subiu à torre. Eles sentiram que o aço e o plástico tremiam sob o golpe. Por momentos, enquanto a água se espalhava, ali ficaram em

escuridão cega e cheia de trovões.

E então, ao passar aquilo e Wace ver o quanto mais

tinham afundado, pondo-se a pensar como poderiam tir-

ar a jangada de van Rijn pela escotilha de carga submersa, surgiu algo branco, que lhe chamou a atenção. Do início

não acreditou, e depois não acreditava porque não tinha a coragem de crer, e logo não podia mais duvidar.

Senhora Sandra — ele falou, com cuidado imenso,

pois não devia gritar-lhe a notícia, como se fosse um Terrestre de baixo nascimento.

Sim? — e ela não arredou o olhar da contemplação

soturna do horizonte setentrional, vazio de tudo, a não ser por nuvens e relâmpagos.

Ali, minha senhora. Um pouco para o sudeste, acho.

Velas, batendo no vento.

O quê? — tinha sido um grito dado por ela. De algum

modo, isso levou Wace a dar uma risada alta.

É embarcação de algum tipo — apontou, para que

visse. — E vem para cá.

Eu não sabia que os nativos são marinheiros

— retorquiu ela, com voz muito baixa.

E não são, minha senhora... em volta do Pouso de

Quinta-Feira — explicou Wace. — Mas este planeta é

grande, tem quase quatro vezes a superfície da Terra, e só conhecemos pequena parte de um dos continentes.

Nesse caso, você não sabe como eles são, esses marin-

heiros?

Minha senhora, não faço a menor idéia.

Capítulo 3

Nicholas van Rijn veio bufando pela passarela, quando eles gritaram a chamá-lo.

— Morte e inferno! — estrugia. — Um barco, é o que dizem?

Melhor ser um tubarão, se estiverem enganados. Com os diabos!

Seus passos fortes levaram-no à torre, de onde espiou pelo plástico incrustado de sal. A luz diminuía, à medida que o sol se punha e as nuvens de tempestade que se aproximavam varriam-lhe o rosto vermelho.

Então, onde está ele, esse barco pestilencial?

Ali, senhor, Aquela escuna — indicou Wace.

Escuna! Schnork! Raios e trovões, seu cabeça de cimento, aquilo é vela de chalupa... não, espere, com os diabos, há uma vela quadrada aberta no mastro principal, também... e, sim, um outrigger. Sim, do modo como vem, deve ter leme bom. Bons santos nos ajudem, é uma canoa de árvore, um troço condenado por todos os demônios!

E o que mais espera em planeta que não tem seres mortais?

— retrucou Wace, os nervos já esgotados em demasia para se lembrar do respeito devido a um príncipe comerciante.

Humm... barquinhos de couro, parece, ou jangadas, ou

catamarãs. Depressa, roupas secas! Faz frio demais neste macacão.

Wace apercebeu-se de que van Rijn estava em pé no

centro de uma poça e que a água frígida do mar escorria

de sua cintura e pernas. O depósito onde van Rijn estivera trabalhando devia achar-se inundado por — santo Deus,

desde horas atrás!

— Sei onde estão, Nicholas — e Sandra partiu célere

pelo corredor que se inclinava de modo ameaçador, mais

e mais a cada minuto, enquanto o mar entrava pela proa

arruinada.

Wace auxiliou o chefe a despir o macacão encharcado.

Nu, van Rijn dava a idéia de um gorila, com dois metros

de altura, peludo e barriga enorme, ombros fortes como

armazém feito de tijolos, berrando indignado contra o

frio, a umidade e a lentidão dos ajudantes. Mas nos dedos grossos brilhavam anéis, braceletes nos pulsos, e uma

pequena medalha de São Dismas pendente no pescoço.

Diversamente de Wace, que achava mais práticos o cabelo

cortado à escovinha e rosto barbeado, van Rijn deixava

as madeixas oleadas e negras encaracoladas e compridas,

perfumava-se de acordo com a última moda, exibia a bar-

bicha no queixo triplo e bigodes cerrados e assustadores, por baixo do grande nariz adunco.

Ele vasculhou o armário do navegador, arfando, até

achar uma garrafa de rum.

— Ahh!... Eu sabia que esta porcaria estava guardada

em algum lugar — disse, levando o gargalo à boca de

sapo e sorvendo diversos goles seguidos. — Ótimo. Muito

bom! Agora talvez a gente possa começar a se parecer de

novo a seres humanos, com amor próprio.

Voltou-se, majestoso e redondo como um planeta,

quando Sandra regressou. As únicas roupas que encon-

trara e que serviam para van Rijn eram as suas próprias, um vestido à la pavão, camisa de renda, colete bordado,

culotes e meias de seda luzidia, sapatos dourados, chapéu de plumas e desintegrador no coldre.

Obrigado — disse ele, secamente. — Agora, Wace, en-

quanto me visto, apanhe no salão uma caixa de Perfectos

e uma garrafinha de aguardente de maçã. Vá depressa e

depois saia para receber nossos salvadores.

São Pedro, Rei dos Santos! — gritou Wace. — O salão

está debaixo de água!

Ah? e van Rijn suspirou, desalentado. — Nesse caso,

precisa apenas apanhar a aguardente de maçã. Vá de-

pressa! — e ele estalava os dedos.

Wace apressou-se a dizer.

Não há tempo, senhor. Ainda tenho de preparar nossa

última munição. Esses nativos podem ser hostis.

Se já ouviram falar de nós, é possível — concordou

van Rijn, e começou a envergar a roupa de baixo, feita de seda natural. — Brrrr! Cinco mil velas, é o que eu dava

para voltar a meu gabinete em Amster-dam!

A que santo você faz a oferta? — indagou a Dama

Sandra.

São Nicholas, natural! Meu xará, patrono dos viajantes

e...

É melhor que São Nicholas mande oferecer por escrito

— observou ela.

Van Rijn se pôs rubro, mas não se retruca à herdeira

de uma nação que tem importantes concessões comerciais

a oferecer. Desforrou-se, berrando desaforos para Wace,

que se afastava.

Passou algum tempo até que estivessem lá fora. Van

Rijn ficou entalado na escotilha de emergência e foi preciso puxá-lo, enquanto seus palavrões angustiados, em

voz de baixo profundo, faziam-se mais altos que o trovão a se aproximar. O período de rotação de Diomedes era de

apenas doze e meia horas e aquela latitude, trinta graus ao norte, ainda se achava no lado hibernal do equinó-

cio. Assim o sol se punha com velocidade temível. Eles

se agarraram às amarrações e deixaram que o vento os

mordesse, que as ondas caíssem sobre seus corpos. Nada

mais podiam fazer.

— Não é lugar para um pobre homem velho e gordo

— queixava-se van Rijn, com voz fanhosa. A ventania

arrancava-lhe as palavras, jogava em frangalhos, por cima do mar agitado. Suas madeixas, que iam até o ombro,

batiam como se fossem galhardetes abandonados. — Eu

fazia melhor se ficasse em casa na Holanda, onde há calor, sem perder meus últimos e pobres anos de vida por aqui.

Wace esforçou os olhos, fitando a penumbra. A canoa

se aproximara. Até um marinheiro de água doce como ele

podia apreciar a habilidade da tripulação, e van Rijn ergueu louvores em voz alta.

— Eu o nomeio para o Sunda Yacht Club, com os di-

abos! Sim e registro o camarada na próxima regata; vou

ganhar muito dinheiro apostando nele!

Era uma embarcação grande, com mais de trinta met-

ros de comprimento e pé de mastro bem feito, mas di-

minuída pela extensão fantástica das velas tingidas de

azul. Tendo ou não balancim, Wace contava vê-la virar

de borco a qualquer momento. Era claro que uma espécie

voadora tinha menos com que se preocupar, caso tal ocor-

resse, do que. ..

— Os Diomedanos — e o tom de voz de Sandra era

calmo, sob o vento estridente e as águas em rugido. —

Você lida com eles há ano e meio, não? O que podemos

esperar deles?

Wace deu de ombros.

O que poderíamos esperar de qualquer tribo de seres

humanos ainda na Idade da Pedra? Podem ser poetas,

canibais ou as duas coisas. Conheço apenas a Revoada

tyrlaniana, que são caçadores migratórios. Ainda se atêm à sua lei escrita; não são muito escrupulosos quanto ao

espírito dessa lei, está claro, mas de modo geral formam uma tribo decente .

Você fala a língua deles?

Tão bem quanto o meu palato humano e a cultura

tecno-terrestre permitem, minha senhora. Não me es-

tendo a dizer que compreendo todos os conceitos deles,

mas nós nos damos.

O casco partido deu uma guinada. Ele ouviu que al-

guma parede interna, muito forçada, acabara de ceder

de uma vez, a entrada de mais água do mar, sentiu a

lentidão aumentar por baixo dos pés. Sandra cambaleou,

esbarrando nele. Wace percebeu que o borrifo de água

congelava-se nas sobrancelhas dela.

— Isso não quer dizer que vou compreender a língua

daqui — completou. — Estamos mais longe de Tyrlan do

que a Europa da China.

A canoa quase encostara. E era tempo: os destroços

que tinham flutuado até então iam mergulhar a qualquer

instante. A canoa veio, de velas abaixadas, a porta marí-

tima foi jogada e braços fortes enfiavam remos na água.

Com rapidez, em seguida, um diomedano veio voando,

com a corda. Dois outros pairavam por perto e eram, do

modo mais evidente, guardas a proteger o primeiro. Este

pousou, fitando os seres humanos.

Tyrlan, estando mais ao norte, seus habitantes ainda

não haviam regressado das zonas tropicais, e era aquele

o primeiro diomedano que Sandra vira. Ela estava, en-

tretanto, molhada, resfriada e cansada demais para ad-

mirar e graça sobre-humana de seus movimentos, mas

olhou-o atentamente. Talvez tivesse de viver com aquela

raça por muito tempo, se não a matassem.

Ele era do tamanho de um homem de estatura

pequena tendo, além disso, cauda grossa, de um metro de

comprimento, terminando em leme carnudo e as formidá-

veis asas quirópteras, dobradas ao comprido das costas.

Os braços encaixavam-se por baixo das asas, perto do

meio de um corpo luzidio e parecido ao de uma lontra,

e assemelhava-se surpreendentemente a um ser humano,

até as mãos musculosas e de cinco dedos. As pernas eram

de forma menos conhecida, inclinadas para trás, com pés

de quatro esporas, que podiam ser os de uma ave de

rapina. A cabeça, encimando pescoço que teria sido duas

vezes mais comprido do que o humano, era redondo,

com testa alta, olhos amarelos, membranas nictitantes por baixo de orlas de sobrancelhas grossas, a cara de nariz

negro e focinho comprido, com bigodes de gato, boca

grande e dentes ursinos de um comedor de carne que se

tornara onívoro. Não exibia ouvidos externos, mas uma

elevação muscular na cabeça ajudava a controlar o vôo.

Pelos curtos, castanhos e macios o cobriam. Era, de modo evidente, um mamífero do sexo masculino.

Tinha duas correias em volta dos "ombros", uma ter-ceira em torno da cintura e um par de bolsas de couro

volumosas. Um punhal de obsidiana, o machado fino com

ponta de sílex e o conjunto de bolandeiras estavam à

vista, dependurados na correia. Em meio ao crepúsculo

que se espessava, era difícil perceber o que seus camaradas utilizavam como armas — alguma coisa comprida

e fina, mas, com certeza, não era uma carabina, naquele

planeta que não dispunha de cobre ou ferro.

Wace inclinou-se à frente e obrigou a língua a formar

as sílabas grunhidas do tyrlaniano:

— Nós. .. somos.... amigos. Vocês... me... compreen-

dem?

Um jato de palavras inteiramente estranhas, eis o que

obteve em resposta. Deu de ombros, pesaroso, abrindo as

mãos com desânimo. O diomedano movimentou-se pelo

casco, bípede, o corpo inclinado à frente para equilibrar asas e cauda, e encontrou o pino a que se achavam presas as amarrações dos seres humanos. Com rapidez, atou sua

própria corda naquele lugar.

— Um nó direito — observou van Rijn, e sua voz era

quase sossegada. — Isso me dá saudades de casa.

Na outra extremidade da corda, começavam a puxar

a canoa para mais perto. O diomedano caminhou para

Wace e apontou sua embarcação. Wace assentiu, com-

preendeu que o gesto provavelmente não tinha signific-

ado e deu um passo cauteloso naquela direção. O

diomedano apanhou outra corda que os companheiros

lhe haviam atirado, apontou para ela e para os seres hu-

manos, fez gestos.

— Compreendo — disse van Rijn. — Mais perto que

isso eles não se atrevem. Com facilidade o barco deles

bate no nosso e quebra. Temos de passar essa corda no

corpo e eles vão puxar de lá. Meu bom São Cristóvão, que coisa precisa fazer um pobre velho, de ossos doloridos!

— Mas existe nossa comida — observou Wace. O cruz-

ador celeste saltava e afundava cada vez

mais. O diomedano saltitava, tomado de nervosismo.

— Não! Não! — berrou van Rijn, que parecia ter a

impressão de que apenas berrando bastante poderia at-

ravessar a barreira lingüística. Seus braços pareciam um moinho de vento a se movimentar. — Nunca! Compreendeu, seu miolo de farinha? É melhor afogar neste

oceano dos infernos que tentar comer o que vocês comem.

Nós morremos! Dor de barriga! Suicídio! — e ele apon-

tava a boca, batia no abdómen, fazia gestos na direção das rações.

Sombrio, Wace refletia que a evolução era algo

miseravelmente flexível. Ali estava um planeta com ox-

igênio, nitrogênio, hidrogênio, carbono, enxofre, uma

bioquímica de proteínas que formava genes, cromos-

somas, células, tecidos — protoplasma, a julgar por

qualquer definição razoável — e o ser humano que ten-

tasse comer alguma fruta ou carne de Diomedes morreria

em dez minutos, tendo sofrido mais de cinqüenta reações

alérgicas mortíferas. As proteínas não eram do tipo certo.

Na verdade, apenas doses de imunização impediam que

os homens contraíssem febre de pólen crônica, asma e ur-

ticária, só por respirarem o ar ou beberem a água dali.

Passara muitas horas frias daquele dia, amontoando os

abastecimentos alimentícios do cruzador ali fora, para

que fossem transferidos depois à jangada. Aquela nave atmosférica de luxo fora levada na espaçonave de van Rijn, pronta para piqueniques de duração extensa, quando lhe

desse na telha. Havia bastante pão de centeio, manteiga, queijo, lox, peru defumado, picles, conservas de frutas, chocolate, pudim de ameixa, cerveja, vinho e só Deus

sabia que mais, para manter três pessoas vivas durante

meses. O diomedano estendeu as asas, batendo-as para

poder equilibrar-se naquele chão incerto. À luz fraca e

tempestuosa, os polegares transformados em garra, na

beira da frente, pareciam desfilar diante do rosto bicudo de van Rijn, como se fosse u'a máquina segadeira operada por alguma Morte modernista. O comerciante plantou-se

em espera estóica, de vez em quando apontava o dedo

para as caixas empilhadas. Afinal o diomedano entendeu,

ou simplesmente desistiu. Restava pouquíssimo tempo.

Ele partiu para a canoa, em vôo que riscou o ar com assobio. Um enxame de seus camaradas aproximou-se então,

desatou as amarrações e começou a transportar as caixas.

Wace ajudou Sandra a amarrar a corda em volta do

corpo.

— Receio que vai ser um arrastão molhado, minha

senhora — e tentou sorrir.

Ela espirrou.

— Aqui temos, então, o corajoso trabalho dos pioneir-

os, entre as estrelas! Vou trocar uma ou duas palavras da corte, quando voltar para casa... se voltar.

Após ter atravessado e a corda voltado, van Rijn fez

sinal para que Wace seguisse em frente. Achava-se ele

próprio ocupado em discutir com o chefe diomedano.

Como aquilo se efetuava, sem que uma só palavra de

idioma verdadeiro pudesse ser entendida por ambos,

Wace não sabia, mas haviam alcançado o ponto em que,

indignados, os dois berravam um com o outro. No exato

instante em que Wace cerrou os dentes e se jogou na água van Rijn, em atitude de rebeldia, sentou-se.

Quando o homem mais jovem fez sua chegada à

canoa, inteiramente encharcado, tornou-se evidente que

o comerciante saíra vencendo. Um diomedano podia sus-

pender no ar cerca de cinqüenta quilos, por distâncias

curtas. Três deles improvisaram uma cadeirinha e carre-

garam van Rijn ali, por cima da água.

O comerciante ainda não chegara à canoa, quando o

cruzador afundou.

A canoa agüentava cerca de cem nativos, todos eles

armados, alguns com capacetes e peitorais de couro lam-

inado e endurecido. Uma catapulta, que na escuridão mal

dava para ser vista, achava-se montada na proa. A popa

ostentava uma cabine, feita de troncos novos, amarrados

com sargaços, que tinha quase a altura de um castelo

em caravela medieval. Em cima do teto, dois timoneiros

lutavam com o leme comprido.

— É fácil ver que encontramos um navio da Armada

— resmungou van Rijn. — Não é tão bom. Com comer-

ciantes eu sei falar. Com algum oficial dos infernos, de tranças douradas no cérebro, só dá para gritar.

Ele ergueu os olhos pequenos, cinzentos e próximos

um do outro, vendo o céu noturno onde o relâmpago se

desencadeara.

— Eu sou um pobre e velho pecador — berrou. — Mas

isso, não mereci! Está me ouvindo?

Após algum tempo os seres humanos foram levados,

em meio a corpos demoníacos e ágeis, na direção da cab-

ine. A canoa começara a correr diante do temporal,

usando duas velas maiores e outra menor. A oscilação

e o sobe-desce, o estrondo das ondas, vento e trovão,

haviam esmaecido na consciência de Wace. Ele só queria

descobrir um lugar seco, tirar as roupas e jogar-se em alguma cama, dormir por cem anos a fio.

A cabine era pequena. Três seres humanos e dois

diomedanos quase não deixavam mais espaço para sen-

tar. Mas estava quente, e uma lâmpada de pedra pendia

do teto, fazendo iluminação fraca, cheia de sombras que

se moviam de modo grotesco.

Ali encontraram o nativo que fora primeiramente a

seu encontro. Empunhava a adaga de vidro vulcânico,

desembainhada, e estava acocorado como um leão à es-

preita; mas metade de sua atenção parecia dedicada ao

outro, que era mais magro e mais velho, com faixas gris-

alhas no pelo e se achava atado a um poste, por laço de

couro cru.

Sandra estreitou os olhos. O desintegrador que van

Rijn lhe dera deslizou discretamente para seu regaço, enquanto se sentava. O diomedano com punhal relanceou o

olhar pela arma e van Rijn praguejou:

— Cabeça de vento, deixou que ele visse a arma?

O primeiro autóctone disse algo ao que estava amar-

rado. Este último emitiu uma resposta com grunhido, de-

pois voltou-se para os seres humanos. Quando falou, não

parecia a mesma "língua.

— Ah, intérprete! — observou van Rijn. — Você falar

angli, hem? Ah-ha! — e batia nas coxas, satisfeito.

— Não, espere. Vale a pena tentar — interveio Wace e

passou para o tyrlaniano. — Compreendeu? Só nesta lín-

gua podemos nos entender.

O cativo ergueu a crista da cabeça, sentou-se sobre as

mãos e ancas. Quando respondeu, era quase inteligível.

— Fale devagar, por favor — pediu Wace, e sentiu que

a sonolência o abandonava por completo.

O significado, ainda que espesso, foi percebido.

Você não usa uma versão do Carnoi que eu tenha

ouvido antes.

Carnoi?... — sim, espere um pouco, certo tyrlaniano se

referira a uma confederação de tribos muito ao sul, com

nome assim. — Estou usando a língua da gente de Tyrlan.

Não conheço essa raça. Eles não hibernam em nossas

terras. Nem os Carnoi, de modo costumeiro, mas de vez