Guerra em Exu por Jorge de Palma - Versão HTML

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Guerra em Exu

Jorge de Palma

O autor

Jorge de Palma é filho de Carmo de Palma e

de Adelina Candian de Palma. Nasceu em

Iracemápolis-SP, Brasil, em 20 de dezembro

de 1952. Trabalhou muitos anos como

jornalista, atuando nos jornais Diário de

Limeira, Diário de Pernambuco, Diário de

Americana, O Liberal (Americana) e Tododia

(Americana), entre outros.

Reside em Americana-SP, Brasil

Contato pelo e-mail:

jorgepalma@bol.com.br

Guerra em Exu

No dia 31 de outubro de 1977, cheguei ao Recife,

após uma viagem de três dias. Vinha desiludido com a

vida e ao mesmo tempo com novas esperanças, uma vez

que em São Paulo tivera dissabores.

Recife representava algo novo. Mesmo com pouco

dinheiro no bolso tinha expectativas de conhecer aquilo

que já vira nos calendário turísticos: Recife das igrejas

seculares, dos velhos sobrados e modernos edifícios, do

sarapatel, da galinha-de-cabidela, da carne-de-sol, do

Pátio de São Pedro, da Praia de Boa Viagem, das

cirandas, do frevo, do Carnaval enfim, todo um mundo

novo para mim.

Desembarcando no então Terminal Rodoviário de

Santa Rita, percorri pela primeira vez a rua do mesmo

nome, pela qual passaria milhares de vezes. Ali decidi

entrar em uma das inúmeras pensões. Severino, um

jovem magrinho e que depois se mostraria um bom

amigo, olhou-me por detrás de um pequeno balcão e

sorriu me atendendo servilmente.

Depois de cobrada a importância de três dias de pouso

ele indicou-me o quarto, um cubículo, dividido por

madeira, com apenas um metro e meio de largura, por

três de comprimento, onde cabia uma cama de solteiro e

uma pequena mesa. Naquele quartinho comecei vida

nova. Só não imaginava a estranha história com a qual

acabaria me deparando.

Nas próximas horas, aproveitei para conhecer as

proximidades da pensão. Estive no famoso Mercado de

São José, que guardava, ainda na época, os traços

originais de sua construção. Planejado pelo arquiteto

francês Luiz L. Walter, foi construído à imagem e

semelhança do Graniele de Paris. Com 377

compartimentos, era formado por dois pavilhões, onde

se vendia de tudo desde alimentos, utensílios até

artesanato e outras expressões da arte folclórica do

Nordeste.

Quando voltei à hospedaria, encontrei Severino

conversando com um rapaz alto e magro, de cabelos

encaracolados, pele morena, barba bem feita e um

bigode bem aparado.

-Este é o Carlos Amaro, ele é seu vizinho de quarto –

disse Severino.

Estendi a mão para Carlos e ele retribuiu, falando no

sotaque nordestino, acentuando as primeira sílabas e

reforçando os “erres”.

-Muito prazer, espero que fique bom tempo por aqui.

Assim terá oportunidade de conhecer bem o Recife.

-Pretendo ficar mesmo! - respondi. E ele replicou:

-Pois então, se precisar de mim para qualquer coisa,

pode contar comigo.

Ficamos por ali conversando mais algum tempo e

depois, enquanto subia para meu quarto, ele continuou

conversando com Severino. Pela nossa conversa fiquei

sabendo que ele trabalhava nos escritórios de uma firma

exportadora. Era solteiro e se encontrava no Recife há

alguns anos.

Mais tarde, no pequeno quarto, passei a ler o jornal

que havia comprado durante o passeio pelo bairro São

José e uma reportagem chamou-me a atenção. Segundo

o texto, o prefeito de Exu, José Aires de Alencar, ou

Zito Alencar , como era mais conhecido, defendia-se de

uma série de acusações de crimes e acusava membros

da família Sampaio de serem os provocadores e

praticantes dos crimes a ele imputados.

Mal sabia eu que dentro de alguns dias estaria

pesquisando o assunto. Mas foi exatamente o que

aconteceu. Em busca de um emprego, acabei entrando

no prédio do velho Diário de de Pernambuco, o jornal

mais antigo em circulação na América Latina. Ao sair

dali já fazia parte de seu quadro de repórteres.

Mas voltando ao dia primeiro de novembro, quando o

futuro ainda era incerto para mim, encontrava-me no

quarto, preparando-me para dormir, quando ouvi ruídos

no quarto ao lado. Era Carlos chegando.

Revivendo as emoções do dia, o sono demorou a

chegar e, de vez em quando ouvia Carlos remexer-se na

cama, pois a divisão de madeira não isolava os sons do

quarto ao lado.

Já era mais de meia noite quando ouvi Carlos

resmungando: “Você de novo!”, pareceu-me ouvi-lo

dizer. Várias outras palavras foram pronunciadas a

seguir, mas ele falava baixo e eu não pude entender o

sentido.

Porém, depois ele ficou mais exaltado e elevou a voz:

-Vai embora seu demônio. Eu já disse que tenho nada

com você.

Naquele momento ouvi forte ruído, como se ele tivesse

dado um murro na divisão de madeira. Assustei-me,

porém fiquei quieto e depois tudo se tornou silêncio, até

que adormeci.

No dia seguinte encontrei Carlos na hora do almoço.

Ele me convidou para almoçarmos numa lanchonete nas

proximidades e lá fomos nós. Conversamos sobre

diversos assuntos como as festas de fim de ano no

Recife, o carnaval, que já tinha sido rotulado como o

melhor do mundo, mas agora estava em decadência,

apesar de manter ainda as suas tradições, etc.

Pareceu-me que ele não se referiria ao fato ocorrido

durante a noite contudo, depois de algum tempo disse:

-Espero que você não tenha se assustado ontem à

noite. Tive um pesadelo e acabei esmurrando a parede.

-Ah sim – repliquei – confesso que me espantei um

pouco, mas isso não tem importância porque eu tenho

sono pesado e logo adormeci.

Ele sorriu e não disse nada.

Então, para continuar o assunto perguntei:

-Mas que sonho foi esse? Parece que você viu o

diabo...

O sorriso morreu em sua boca. Por um momento ele

ficou tenso e nada disse como se tivesse receio de falar.

Depois, um tanto forçado, sorriu novamente e

comentou:

-Pois é, a gente tem cada sonho besta. Eu sonhei

mesmo com o bicho. Sabe eu acho que não é bom

assistir muitos filmes de terror.

Concordei com ele e logo em seguida mudamos de

assunto.

Nos dias seguintes não encontrei-me mais com Carlos.

Ele havia viajado para Alagoas, a serviço da firma e só

voltaria em dezembro.

Famílias em guerra

Um mês depois, trabalhando no Diário de

Pernambuco, e sentia ambientado em meu local de

trabalho e numa quinta-feira à noite, o chefe de

reportagem me chamou e e apresentou a um homem

dizendo:

-Este moço é membro da família Sampaio. O pessoal

dele está reunido e quer fazer algumas declarações para

a imprensa. Vá com ele e leve bastante papel, porque

vai ser uma reportagem arretada.

E foi assim que, de repente me vi em um automóvel,

rumando pela Avenida Conde da Boa Vista, para meu

primeiro contato com a família Sampaio.

O carro não rodou muito porque o encontro seria em

um bar-restaurante na própria avenida. Os Sampaio

estavam bebendo e conversando mas tão logo fomos

apresentados, todos se dirigiram a um apartamento onde

poderiam falar com mais liberdade.

Expulsos de Exu, eles estabeleceram-se no Recife,

onde possuíam estabelecimentos comerciais. Agora,

depois de uma entrevista de José de Alencar à imprensa

pernambucana os Sampaio estavam exaltados e queriam

contar as suas versões dos fatos.

Na realidade, aproximavam-se as eleições e Zito

Alencar que em 1949 havia iniciado a guerra entre as

duas famílias, ao assassinar o patriarca da família

Sampaio, regressara a Exu depois de ficar muito tempo

escondido em outros estados nordestinos. Ao se

pronunciar à imprensa, ele provocou novamente a ira

dos Sampaio.

E foi assim que tomei meu primeiro contato com

aqueles que participavam de uma guerra que já havia

feito dezenas de mortos de ambos os lados.

Naquela entrevista em que participaram Maurício

Sampaio, Avelar Sampaio, Vitor Bacoral Soares e outros

integrantes da família Sampaio, eles me contaram coisas

horríveis como por exemplo o caso de um membro da

família que foi assassinado e enterrado em uma cova

rasa no município de Exu. O crime só foi descoberto

porque um cão, farejando comida, acabou aparecendo

com um braço do defunto na boca.

Aquela entrevista me fez também procurar mais dados

sobre Exu. Foi quando fiquei sabendo que a povoação a

se formar com a amizade entre vaqueiros da Fazenda

Torres, que ficava na circunvizinhança e a tribo Ançu.

Onde os ídios viviam, no outro lado da encosta do

Araripe, havia fontes e o terreno era propício à

agricultura. Mudaram-se os fazendeiros para o local e

logo depois os padres e jesuítas instalaram-se fundando

um abrigo e uma capelinha em homenagem ao senhor

Bom Jesus dos Aflitos. Em 1734, estava constituído o

núcleo da população. Outro dado, só para ilustrar, é que

em Exu nasceu o rei do baião, Luiz Gonzaga.

Em primeiro de dezembro a reportagem foi publicada

e foi justamente naquele dia que voltei a encontrar

Carlos.

-Fiz a pergunta porque sabia que ele nascera em Exu e

acompanhara de perto certos acontecimentos

convivendo mesmo com alguns membros das famílias

envolvidas.

-De fato – comentou ele – muitas coisas aqui são

verídicas, mas é lógico que os Sampaio tentaram

mostrar-se santos, pois só falaram dos crimes imputados

aos Alencar, mas não citaram nada do que eles também

fizeram.

Tive que concordar com ele e continuamos a falar

sobre o assunto.

Já fazia alguns dias que Carlos tinha voltado mas eu

ainda não tivera oportunidade de conversar com ele.

Entretanto, em noite anteriores ouvira estranhos ruídos

em seu quarto. Conclui que o seu demônio continuava

perturbando-o em seus sonhos, mas como ele não tocou

no assunto, achei melhor não falar também.

Estávamos no momento sentados a uma mesa de um

bar do Pátio de São Pedro, assistindo às tradicionais

cirandas pré-natalinas. Eu estava admirado, pois em São

Paulo só conhecia as cirandas infantis. Mas Pernambuco

é um dos poucos estados do Brasil onde a gente vê esta

dança folclórica em que participam os adultos.

Ali, no Pátio de São Pedro, crianças pobres e ricas,

velhos, moças e rapazes dão-se as mãos e durante horas

dançam em círculo, enquanto o cirandeiro canta bonitos

versos populares. Lembro-me de uma composição que

ouvi naquele dia:

“Hoje cedo no Recife

Um moço me perguntou

Se na ciranda quéu estou

Tem muita moça bonita

E eu lhe respondi

Tem loira, mulata, morena

Que a morte mata

E depois fica com pena”.

Carlos olhava para tudo aquilo como quem já se

acostumara a ver a mesma coisa ano após ano. Mas eu

notei que ele não estava muito calmo. Parecia inquieto e

ao mesmo tempo sonolento.

Vendo que os estava observando, comentou:

-Sabe, Jorge, já que você está mesmo interessado e

Exu, eu me lembrei de que há muitos anos li uma boa

reportagem sobre o assunto. Não sei mesmo se foi no

Diário que eu vi, mas lembro-me que o jornalista

contava resumidamente toda história ocorrida lá nos

últimos 30 anos . Seria bom você procurar no arquivo

por esta reportagem e assim já teria meio caminho

andado.

-De fato é uma boa ideia – disse eu – acho que

amanhã mesmo vou fazer isso, mas tem mais uma coisa

que eu queria falar com você. Eu queria saber como é

Exu, pois ainda não tive oportunidade de ir até lá.

-E nem vale a pena – retrucou ele – a viagem é uma

tristeza e lá só há um punhado de casas e tristes

recordações. Não, não vale a pena...

Notei que ele ficou pensativo e ao mesmo tempo uma

pergunta nasceu em meu cérebro: “Tristes recordações...

para todos ou só para ele?” Mas não disse nada a

respeito. Ficamos por ali bebericando mais um pouco e

assistindo as

cirandas.

De repente Carlos ficou pálido. Segui seu olhar e notei

que ele dirigia os olhos esbugalhados para a roda de

ciranda. Balbuciou algumas palavras que não entendi;

olhou para mim em seguida e vendo meu espanto,

perguntou:

-Você acredita em demônio?

-Acho que não – respondi.

-Pois eu estou vendo um...

-Mas é o diabo mesmo ou você está falando

figurativamente?

-Acho que estou maluco, mas é o diabo mesmo.

Olhei para a mesma direção que ele, mas não vi nada

de anormal. O cirandeiro continuava cantando e as

pessoas dançavam em círculos de mãos dadas.

-Onde está o diabo – perguntei incrédulo.

Bastante assustado ele respondeu com outra pergunta:

-Você está vendo aquele rapaz de azul e aquela moça

de amarelo?

-Sim, estou vendo mas não vejo nada de espantoso.

-Eles estão de mãos dadas com alguém?

-Com pessoas normais, ora bolas, ela está segurando a

mão de um velho e com a direita tenta alcançar o moço

que lhe estende a mão esquerda.

-Quer dizer então que há um espaço entre eles?

-Sim – repliquei – mas não estou entendendo onde

você quer chegar.

-Neste espaço caberia outra pessoa? - continuou

perguntando ele.

-Sim.

-Pois então, ali está o diabo que eu estou vendo. É ele

que segura a mão direita da moça e a esquerda do moço.

Ele está brincando de ciranda.

-Quase dei uma gargalhada, mas me contive. Ainda

não conhecia Carlos profundamente e não saberia dizer

qual a sua reação se zombasse do que ele estava

falando. No entanto fiquei olhando para ele com uma

expressão que por certo, denotaria dúvida ou

incredulidade. Depois disse:

-Você não está zombando de mim?

Ele me olhou sério.

-Não, não estou, mas agora já não tem importância.

Ele foi embora.

Olhei para a roda de pessoas que brincavam e agora

havia uma diferença. O moço de azul e a moça de

amarelo estavam de mãos dadas...

Voltamos a seguir para a pensão e naquela noite, pelo

menos até 3 horas da madrugada, a visão do diabo não

mais perturbou Carlos, pois durante todo o tempo eu

fiquei ouvindo uma história incrível que ele me contou e

que confesso, meu deu muito o que pensar.

Na tarde seguinte eu estava novamente na redação do

Diário. Lá mais de 30 repórteres e fotógrafos

aguardavam as pautas do dia para iniciar o trabalho.

Lembro-me que um deles comentou algo sobre um

incêndio, mas não dei maiores atenções. Tinha, para

aquele dia, uma boa reportagem sobre os favelados do

Coque um dos mais pobres e problemáticos bairros do

Recife e estava apenas aguardando a escala de um

fotógrafo para me acompanhar. Tão logo isso foi

resolvido, saí a trabalho e só voltei mais tarde, quando

me pus a escrever o que havia apurado.

Lembro-me que naquele momento um colega escrevia

apressadamente uma nota sobre um incêndio que

destruíra o depósito de uma firma exportadora e cujos

prejuízos remontavam a mais de 10 milhões de

cruzeiros, conforme o dinheiro da época. Durante a

tarde também ouvira no rádio da perua do Jornal, algo a

respeito deste incêndio. Conforme a note havia uma

vítima que, até aquele momento, não havia sido

identificada.

Para inteirar-me do assunto perguntei ao colega ao

lado:

-Já identificaram a vítima?

-Sim - respondeu-me ele – é um tal de Carlos Amaro,

funcionário da empresa.

O que senti naquele momento foi inexprimível. Pensei

ter ouvido mal e repeti a pergunta. Devia ter uma

expressão angustiada porque meu colega parou de

escrever e deu-me mais atenção.

-Carlos Amaro – repetiu e perguntou – era amigo seu?

-Sim, era meu amigo, mas como aconteceu isso?

-As causas do incêndio ainda não foram apuradas.

Pode ter sido um curto-circuito, como ocorre sempre.

-E ele, como pode ser morto assim?

-Ele estava no depósito, conferindo uma lista de

mercadorias. O incêndio deve ter inciado do lado da

porta e o encurralado. O interessante é que o corpo

ficou quase que totalmente queimado, com exceção do

peito e da mão direita onde ele apertava um crucifixo.

Deve ter passado momentos horríveis este seu amigo.

Senti-me mal. O que tinha comido na hora do almoço

parecia não querer mais parar no estômago. Levantei-

me apressadamente e sai correndo. Não voltei mais ao

jornal naquele dia. Fiquei vagando como um bobo pelo

centro da cidade, até que entrei em um barzinho e tomei

uma bebida forte. Depois fui para a pensão.

Ali o ambiente era constrangedor. Carlos era muito

conhecido e amigo de todos. Os comentários eram os ais

diversos e Severino, além de triste parecia mesmo meio

assustado.

-Dá para entender uma coisa destas? - perguntou

olhando para mim.

-A morte é sempre um mistério – repliquei.

-Sim – disse ele – mas é que estou com umas ideias na

cabeça. Um dia ele me contou uma história estranha e

agora ela não me sai do pensamento, pois acho que pode

haver uma relação, mas ao mesmo tempo julgo que é

uma idiotice minha.

-Eu também sei da história, Severino, mas estou em

dúvida e não sei o que pensar.

-Então ele lhe contou?

Sim, Carlos havia me contado sua história na noite

passada e agora eu a estava reconstruindo mentalmente.

Não posso afirmar que suas palavras foram exatamente

estas, mas tentarei dar uma visão global de tudo o que

ele me contou.

A história de Carlos

Há anos este medo me acompanha. Vejo em cada

sombra, em cada chama, o rosto zombeteiro desta

criança a me ludibriar, a me amaldiçoar a caçoar de

mim. Vejo chispas de fogo em seus olhos, palavras

obcenas saírem de sua boca e me contraio, fujo mas

para onde? Ele me persegue a cada instante e se torna

bonito, às vezes. Tem então a aparência de um anjo e

seu sorriso é algo celestial, mas de repente se torna

malicioso, seu rosto se transfigura e eu me perco em

desespero. Ele gargalha, dá saltos, cambalhotas e me

xinga de “cabra safado”. Depois lança-me chispas de

fogo que a cada dia são maiores, parecendo querer me

engolir. Eu já tentei agarrá-lo, mas ele sobe pelas

paredes pendura-se no telhado e fica rindo de mim.

Depois desaparece em qualquer sobra para reaparecer,

quando menos espero, em qualquer outro lugar.

Há anos isso ocorre. Tudo por causa daquele dia em

que fui fraco e deixei que o desejo me dominasse.

Era uma tarde ensolarada como tantas outras em Exu e

eu aguardava ansiosamente por Mariana a bela morena

que morava na mesma rua onde nasci e cresci.

Ela apareceu de repente, toda de amarelo, com um

vestido leve e um alvo sorriso, mostrando uma fileira de

dentes perfeitos. Seu sorriso tinha mesmo um leve toque

de sensualidade e eu não podia vê-la sem ficar excitado,

com uma vontade louca de beija-la inteirinha.

Tão logo se aproximou beijei-a apaixonadamente,

mas ela se afastou dizendo:

-Cuidado Carlos, estamos no meio da rua.

De fato estávamos no meio da rua e sorrindo de mãos

dadas fomos até o calçamento de minha casa.

Já há mais de um mês estávamos de namoro e eu sabia

que naquele dia teria de acompanhá-la a uma sessão de

Umbanda.

A mão dela metera-lhe na cabeça que ela tinha

mediunidade, ou sei lá que outro dote religioso e, por

ser muito mística, Mariana ia, todas as sextas-feiras até

um “terreiro” num local ao sul da pequena cidade, para

ali receber as entidades.

Naquele dia fui com ela e o que vi não gosto nem de

comentar. Durante algumas horas foi um tal de baixar

espíritos em uns e outros e as mais diversas cenas

aconteceram, como pessoas rolando pelo chão, falando

coisas inteligíveis . Instrumentos de couro, atabaques ou

pandeiros, não sei bem, marcavam o ritmo durante todo

o tempo. Eu olhava para tudo bastante interessado e ao

mesmo tempo cético. O que queria realmente é que

acabasse logo para que pudesse passar mais uns

momentos a sós com Mariana.

Quando a sessão terminou já devia ser mais 23 horas

e resolvemos voltar para casa. As pessoas foram saindo

todas e nós ficamos ainda mais um pouco enquanto

Mariana se despedia de seus amigos. Depois, em vez de

se dirigir para a porta da frente, ela saiu pelos fundos,

que dava para um descampado e ali, a sós, pude abraçá-

la e dar-lhe um longo beijo.

Estávamos abraçados quando, de repente, ela

estremeceu. Revirou os olhos e começou a balbuciar

palavras estranhas enquanto gesticulava como se

conversasse com alguém. Depois jogou-se para trás e só

não caiu de costas ao chão porque amparei-lhe a queda.

Tentei levantá-la, mas ela tinha uma força incrível.

Deitada no chão, tremia-se toda, mostrando as penas

morenas, bonitas e bem torneadas.

Tentei ajudá-la a levantar-se mais uma vez, mas ela

deu-me um de seus sorrisos, que desta vez pareceu-me

mais sensual do que nunca e recusou-se a levantar.

Recomeçou a contorcer-se.

Lutei, lutei comigo mesmo para não me aproveitar

dela durante o que julgava ser um ataque doentio, ou

induzido por sugestão pelo que ocorrera durante a

sessão do “terreiro”.

Mas naquele momento ela passou a tremer e a

retorcer-se mais agarrando-me com força. Rolei com ela

no chão do sertão.

Não tenho noção exata de quanto tempo ficamos ali.

Quando acordei ela estava chorando para suas roupas

rasgadas e sujas. Devia se mais de meia noite, mas o

ambiente estava claro, pois do céu, uma lua cheia e

límpida iluminava tudo.

-O que aconteceu? - perguntou-me com voz

embargada

-Você não se lembra – retruquei.

-Não, não me lembro.

-Mas faz uma ideia, não – disse zombeteiro.

-Eu só me lembro de quando ele chegou – disse ela ,

séria.

-Ele quem?

-Exu – respondeu e, levantando-se, saiu correndo.

Tentei alcançá-la, mas ela continuou correndo e

gritando: “Vá embora”.

Desisti da perseguição e fui andando para casa. Lá,

meus pais dormiam sossegadamente. Tomei um banho e

fui para cama. Porém, naquela noite não consegui mais

dormir, pois a visão do que acontecer repetia-se

milhares de vezes no meu cérebro.

No dia seguinte levantei-me cedo e bastante

preocupado. Estava fazendo testes para obter emprego

em uma empresa do Recife e teria que viajar. Procurei

ver Mariana, mas não consegui. Defronte à sua casa

tudo estava quieto, e embora eu esperasse por mais de

meia hora, nem ele e nem sua mãe saíram à rua.

Por fim resolvi bater à porta e a mãe dela atendeu.

-Bom dia, Carlos.

-Bom dia, dona Ermínia -

respondi e continuei – olha, eu vou viajar hoje e gostaria

de saber como está a Mariana. Ontem à noite nós

tivemos um problema e gostaria de saber se ela está

bem.

-Ah sim, ela me contou que recebeu a visita de uma

entidade espiritual enquanto estava com você, mas

agora ela está bem. Ela está dormindo.

-Está bem, eu vou tomar o ônibus daqui a pouco, mas

a senhor diz pra ela que daqui a alguns dias estarei de

volta e venho procurá-la.

Viajei para Recife mais tranquilo, pois certamente

Mariana não contara para sua mão tudo o que

acontecera e isso, talvez não tivesse maiores

consequências.

Mas estava enganado. Na semana seguinte ela não

mais quis me ver e depois disso comecei a passar mais

tempo no Recife do que em Exu, o que tornou difícil o

nosso encontro. Uma única vez que a encontrei na rua,

ela passou a correr tão logo me viu. Eu não entendia sua

atitude e passei a sofrer muito, pois o que sentia por ela

era um grande amor, tanto que, depois disso nenhuma

mulher me interessou.

Três meses depois soube que ela estava grávida e

numa noite, enquanto tomava um aperitivo num boteco,

um amigo aproximou-se de mim e disse:

-Escuta Carlos, acho que tu precisa tomar cuidado.

Andam comentando por ai

que a Mariana tá prenha e que foi tu quem fez ela

porque era com você que ela saia. Eu não tenho nada

com isso, mas como sou seu amigo, vim te avisar

porque o irmão dela é u pistoleiro desses contratados

para fazer serviço de morte. Dizem que ele estava

refugiado na Paraiba e agora está vindo para cá porque a

mãe dela o chamou. Se eu fosse tu me mandava daqui,

logo , logo”.

Fiquei aturdido e depois me decidi. Fui até a casa de

Mariana. Dona Ermínia abriu a porta e logo em seguida

fechou. Logo depois ouvi Mariana gritando:

-Vai embora daqui. Vai embora daqui eu não quero ver

você. A criança não é sua.

Vendo que não adiantava insistir, fui embora e, no dia

seguinte embarquei para o Recife. Agora já estava fixo

no meu emprego, e não podia voltar a Exu

constantemente, pois muitas vezes viajava para a firma,

indo mesmo até o sul do país.

Procurei esquecer Mariana, mas nunca consegui. Os

meses passaram-se e uma noite estava dormindo, no

quarto de hotel, em São Paulo quando tive um pesadelo

incrível. Revi novamente Exu com suas casas pobres e

as ruas de terra. Havia gente correndo e um homem

dava tiros para todos os lados como se estivesse louvo.

Ao mesmo tempo outra imagem aparecia. Era a de um

menino deitado num berço, sorrindo e seus olhos

brilhavam como fogo. Mariana olhava para ele

assustada. De repente saiu correndo também e ao atingir

a rua, uma bala disparada pelo pistoleiro a atingiu no

peito. Naquele momento eu revi seu rosto lindo como

sempre fora e parecia que ela queria dizer alguma coisa.

Fez várias tentativas e depois, num sopro de

voz,murmurou:

-Carlos, Carlos, volte e mate o menino. Ele é filho do

diabo.

Naquele momento acordei assustado. Meu corpo

estava totalmente molhado de suor e as imagens do

sonho estavam bem nítidas na minha mente. Eu fechava

os olhos e revia novamente toda a cena: o tiroteio, os

olhos de fogo e Mariana implorando a morte da criança.

Continuei o meu trabalho fazendo contatos com várias

firmas, mas durante todo o tempo que estava em São

Paulo, não tive mais sossego. A cada instante revia

Mariana à beira da morte.

Voltando para Recife, pedi uns dias de licença e fui

para Exu. Precisava saber a verdade e se tudo não

passara de um simples pesadelo.

Mas não fora. Mariana realmente estava morta e os

comentários na cidade eram os mais desencontrados.

Uns diziam que seu irmão se embriagara e depois de

muitos tiros acertara-lhe o peito, matando-se a seguir.

Outros, porém, disseram que ele não tinha bebido nada

naquela noite, mas que gritava ter visto o demônio e

ficara como um louco, tendo os olhos totalmente

queimados, dando tiros às cegas.

Procurei o delegado e a explicação dele também não

foi satisfatória:

-O que sabemos – disse ele – é uma declaração de

dona Ermínia. Ela disse que seu filho se queimou com o

fogareiro ficando cego e depois, louco e enraivecido,

saiu atirando pela rua e uma das balas atingiu Mariana.

Depois ele deu cabo de sua vida, com um tiro na cabeça.

O que aconteceu dentro da casa , realmente nós não

sabemos, mas a morte de Mariana e o suicídio isto sim,

foi testemunhado por várias pessoas”.

-E dona Ermínia e a criança? - perguntei.

Ora, eles continuam morando na mesma casa, mas

dona Ermínia está muito abatida. Ela quase não sai mais

à rua e parece ter muito medo de tudo e de todos.

Quando à criança, é muito bonita. Eu mesmo vi quando

estive fazendo as diligências necessárias para arquivar

o caso.

Nada mais tinha a comentar com ele. Sai da delegacia

e me dirigi para a casa de dona Ermínia. Ao me atender

ela tentou bater a porta, mas eu a impedi. Ela estava

com uma aparência horrível. Parecia ter envelhecido

muito desde a última vez que a vi.

-Vai embora – gritou – você não tem nada a ver com a

nossa vida.

-Tenho sim, o menino é meu filho – retruquei para ver

a reação dela. Ele não é é seu filho, é filho do... - mas

sua voz morreu na garganta e ela não disse mais nada.

-Filho de quem ? - peguntei

-Não interessa, mas ele não é o seu filho.

Estávamos discutindo, mas eu jã havia tomado uma

resolução. Queria ver o menino. Precisava tirar aquela

dúvida que me atormentava. Dona Ermínia tentou

impedir a todo custo que eu me aproximasse do berço,

mas eu a empurrei com força e avancei em direção a um

pequeno quarto.

Ali estava ele! Era lindo, o mais lindo menino que já

vi. Era meu filho, eu tinha certeza. Seu olhos negros

vivos e brilhantes pareciam me reconhecer. Senti uma

vontade imensa de acariciá-lo, de beijá-lo e de embalá-

lo em meus braços.

Mas naquele instante dona Ermínia aproximou-se de

mim, como uma fera lutando para defender seu filhote.

Tinha uma faca na mão...

-Vai embora, já disse, esse menino é meu neto e você

não tem direito algum. Vai embora, senão o mato.

Bastante a contragosto retirei-me da casa. Estava

confuso. Eu revia o menino lindo e robusto como um

anjo e ao mesmo tempo via Mariana morrendo e

pronunciando aquelas palavras horríveis. Revia também

aquela noite enluarada e a canção ao som de atabaques

voltava aos meus ouvidos.

Afastando-me da casa ouvi um riso estranho. “Essa

mulher deve estar louca”, imaginei e rumei para minha

casa. No dia seguinte enviei algum dinheiro para dona

Ermínia, para ajudá-la nas despesas e voltei para o

Recife, mas daí o inferno começou.

Desde então o menino me persegue. Já se passaram

sete anos e embora no início eu pensasse que tudo não

passava de uma alucinação agora sei que não é isso. É

algo muito mais real do que sonhos e imaginação.

Voltei muitas vezes a Exu e perguntei pela velha e o

menino, mas as informações eram imprecisas. Uns

diziam que eles deixaram a cidade. Outros, que estão

pelas redondezas, mas ninguém sabia ao certo.

Uma vez encontrei um velho que me disse coisas

horríveis. Contou-me que viu certa vez a velha e o

menino andando pelo sertão e enquanto a criança

carregava uma cobra nas mãos, alguns animais ferozes

os seguiam.

-De outra feita – disse ele – enquanto havia um

tiroteio entre membros de duas famílias em uma fazenda

das redondezas, eu vi o menino dando horríveis

gargalhadas. Parece que ele gosta de fogo e sangue...

Procurei esquecer tudo isso e colocar um manto no

passado, mas ele não deixou. De início, raramente,

durante as noites. Aparecia de repente, quando eu menos

esperava e senta-se aos pés da cama. Sorria para mim

como se fosse um menino bonzinho e depois me dava

cutucões nos dedos dos pés. Depois dava uma

gargalhada e desaparecia. Uma noite apareceu com uma

cobra e jogou-a em minha cama. Seus olhos às vezes

serenos e límpidos, mas depois se tornavam duas bolas

de fogo e com tal intensidade que um dia, uma toalha

que eu tinha nas mão incendiou-se. Várias vezes tentei

agarrá-lo mas ele desaparecia gargalhando. Agora

passou a aparecer até mesmo durante os dias em

qualquer lugar. Não me dá mais sossego. Está me

enlouquecendo. O que ele quer de min, não sei, mas

tenho a impressão que ele quer me matar...

De volta à guerra

Isto foi o que Carlos me contara na noite anterior e

agora estava morto. Pensei muito no assunto, mas

confesso que não cheguei a conclusão alguma. Quis

continuar pesquisando o caso de Exu, porém depois de

alguns dias houve mudanças no meu horário de

trabalho e meu tempo livre passou a ser escasso.

Depois, aos poucos fui perdendo o interesse, uma vez

que já tinha uma visão global sobre o assunto e, talvez

até soubesse demais...

O que aconteceu com o filho de Carlos nunca fiquei

sabendo, mas alguns repórteres, meus amigos, que em

Exu estiveram tempos depois, me informaram que lá

não estava acontecendo nada de anormal, isso se

assassinatos pudessem ser considerados como fatos

dentro da normalidade.

Soube também que Zito Alencar foi morto com dois

tiros na cabeça no dia 12 de maio de 1978, defronte a

uma farmácia, no centro de Exu. Segundo os jornais,

naquela sexta-feira, ele se encontrava em uma

caminhonete C-10, acompanhado de José Adilsom de

Souza, João Alves Bezerra e Fernando Alencar, quando

apareceu um sujeito moreno, forte e baixo, trajando

calça preta e camisa azul, empunhando um revólver

calibre 38. Ele fez dois disparos atingindo o prefeito no

ouvido e no rosto, matando-o instantaneamente.

Chovia muito e não foi possível reconhecer o

pistoleiro, que correu para uma matagal distante 50

metros perseguido pelos acompanhantes de Zito, que

deram-lhe 12 tiros. O pistoleiro reagiu, atirando três

vezes e atingindo em uma das orelhas de João Alves.

Quase dez dias depois, um pistoleiro e presidiário,

Gerson Ferreira, o “Joinha” foi acusado como o homem

que matou Zito Alencar. Entre 40 detentos, colocados

em fila no presídio de Juazeiro (BA) ele foi reconhecido

por pessoas que presenciaram o assassinato. Recolhido

em regime de prisão albergue, o pistoleiro apenas

dormia no presídio e na sua ficha constava que ele se

ausentou na quarta-feira, dia 10 de maio, somente

apresentando-se na segunda-feira, dia 15.

Além destas mortes e de muitas outras, resquícios da

guerra entre as duas famílias nada de sobrenatural

aconteceu em Exu. Pelo menos que eu saiba.

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