Guerra santa : como as viagens de Vasco da Gama transformaram o mundo por Nigel Cliff - Versão HTML

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Guerra santa

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Nigel Cliff

Guerra santa

Como as viagens de Vasco da Gama

transformaram o mundo

Tradução: Renato Rezende

Copyright © 2012 by Editora Globo S. A. para a presente edição

Copyright © 2011 by Nigel Cliff

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta edição pode ser utilizada ou reproduzida — por qualquer meio ou forma, seja mecânico ou eletrônico,

fotocópia, gravação etc. — nem apropriada ou estocada em sistema de banco de dados, sem a expressa autorização da editora.

Texto fixado conforme as regras do Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (Decreto Legislativo no 54, de 1995).

Título original: Holy war

Editor responsável: Aida Veiga

Assistente editorial: Elisa Martins

Preparação de texto: Osvaldo Tagliavini Filho

Revisão: Daniela Mateus, Maria A. Medeiros e Ana Tereza Clemente

Indexação: Luciano Marchiori

Paginação: Crayon Editorial

Design de capa: Andrea Vilela de Almeida

Imagem de capa: Patrick Landmann/Science Photo Library/Latinstock

Produção para ebook: S2 Books

1ª edição, 2012

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Cliff, Nigel

Guerra santa : como as viagens de Vasco da Gama transformaram o mundo / Nigel Cliff ; tradução Renato Rezende. -- São Paulo : Globo, 2012.

Título original: Holy war

Bibliografia

ISBN 978-85-250-5284-1

5.731kb; ePUB

1. África - Descobertas e explorações - Aspectos religiosos 2. África - Descobertas e explorações - Portugueses 3. Cristianismo e outras

religiões - Islã - História - Século 16 4. Gama, Vasco da, 1469-1524 5. Gama, Vasco da, 1469-1524 - Influência 6. Índia - Descobertas e exploração -

Aspectos religiosos 7. Índia - Descobertas e explorações - Portugueses 8. Islã - Relações - Cristianismo - História - Século 16 9. Oriente e Ocidente

I. Título.

12-05901 CDD-909.4

Índices para catálogo sistemático:

1. Vasco da Gama : Viagens épicas : Século 16 : História 909.4

Direitos de edição em língua portuguesa para o Brasil

adquiridos pela Editora Globo S. A.

Av. Jaguaré, 1485 – 05346-902 – São Paulo – SP

www.globolivros.com.br

Dedicatória

Para Viviana

Sumário

Capa

Folha de Rosto

Créditos

Dedicatória

Nota do autor

Prólogo

I Origens

1. Oriente e Ocidente

2. A Terra Sagrada

3. Uma guerra em família

4. O Mar Oceano

5. O fim do mundo

6. Os rivais

II Exploração

7. O comandante

8. Conhecendo as cordas

9. A costa suaíli

10. Cavalgando na monção

11. Sequestro

12. Perigos e delícias

13. Um veneziano em Lisboa

III Cruzada

14. O almirante da Índia

15. Choque e temor

16. Impasse no mar

17. Império das ondas

18. O representante do rei

19. O mar louco

Epílogo

Agradecimentos

Notas

Lista de ilustrações

Bibliografia selecionada

Índice remissivo

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Nota do autor

Esta história abrange três continentes e muitos séculos, e a maioria das pessoas e lugares

desta história ficou conhecida sob diferentes nomes, em diferentes épocas e em diferentes

línguas. Vasco da Gama nunca foi — talvez apropriadamente — renomeado. Eu uso seu

sobrenome Gama à maneira portuguesa, embora alguns historiadores prefiram da Gama ou Da

Gama. Na maior parte dos casos — e não menos no caso do grande rival de Gama, nascido

Cristoforo Colombo, mas chamado Cristóvão ou Cristóbal Colón em Portugal e na Espanha,

países que adotou —, escolhas tinham que ser feitas. Onde existe um nome inglês bem

estabelecido, este é dado; onde não há, nomes ocidentais são adotados de acordo com o uso

privilegiado na língua em questão, enquanto nomes não ocidentais são transcritos em sua

forma mais simples e reconhecida.

Outras decisões foram tomadas para retirar emaranhados de qualificações do caminho

dos leitores. Termos genéricos para épocas ou regiões — “a Idade Média”, ou “o Oriente” —

são, na melhor das hipóteses, alvos móveis; mas, no contexto, são usados como placas de

sinalização necessárias. Datas são apresentadas na forma ocidentalizada, com referência à era

comum. Citações de fontes não inglesas são mostradas de maneira variada, em traduções

antigas, recentes e muito recentes, conforme o sabor ou a clareza do período o exija. Distâncias

no mar são especificadas em léguas, usadas pelos exploradores (uma légua portuguesa é

aproximadamente o equivalente a três milhas modernas). Finalmente, tendo gastado muitos

dias aprendendo quase tudo sobre mastros de bujarrona, espiar a mezena e lançar a âncora,

mantive a terminologia de navegação a um mínimo. Espero que os especialistas não se sintam

muito ofendidos.

Prólogo

A luz estava sumindo quando os três navios estranhos apareceram na costa da Índia, mas os

pescadores na praia ainda podiam entrever suas formas. Os dois navios maiores eram

barrigudos como baleias, com lados salientes que se esforçavam para sustentar pesados

mastros de madeira nas proas e popas. Os cascos de madeira tinham se tornado, com o tempo,

de uma cor cinza raiada, e grandes canhões de ferro saíam para os lados, como os bigodes de

um bagre monstruoso. Imensas velas quadradas cresciam em direção ao céu que escurecia,

cada uma maior do que a anterior e cada uma delas encimada por uma gávea em forma de

barrete, fazendo todo o velame parecer uma família de gigantes fantasmagóricos. Havia algo a

um só tempo excitantemente moderno e pesadamente primitivo nessas visitas estranhas, mas

com certeza nada parecido tinha sido visto antes.

O alarme soou na praia, e grupos de homens arrastaram quatro botes compridos e

estreitos para a água. À medida que remavam mais para perto, podiam ver que grandes cruzes

carmesins estavam estampadas em cada pedaço de lona.

“De qual nação vocês são?”, o líder dos indianos gritou quando eles chegaram ao lado do

navio mais próximo. “Nós somos de Portugal”, respondeu um dos marinheiros.

Ambos falaram em árabe, a língua do comércio internacional. Os visitantes tinham

vantagem sobre os seus anfitriões. Os indianos nunca tinham ouvido falar de Portugal, um

pequeno país na extremidade ocidental da Europa. Os portugueses certamente conheciam a

Índia, e, para alcançá-la, lançaram-se na mais longa e mais perigosa viagem da história.

Era o ano de 1498. Dez meses antes, a pequena frota tinha zarpado de Lisboa, a capital

portuguesa, em uma missão que mudaria o mundo. Os 170 homens a bordo tinham instruções

para abrir uma rota marítima da Europa à Ásia, desvendar os antigos segredos do comércio de

especiarias e localizar um rei cristão, perdido havia muito tempo, que governava um mágico

reino oriental. Por trás deste catálogo de improbabilidades, havia uma tarefa verdadeiramente

apocalíptica: ligar-se aos cristãos orientais, dar um golpe esmagador no poder do Islã e preparar

o caminho para a conquista de Jerusalém, a cidade mais sagrada do mundo. Mesmo isso não

era o objetivo final. Mas se eles fossem bem-sucedidos, isso poderia ser o começo do fim, o

soar de trombetas para a Segunda Vinda e o Juízo Final, que certamente a seguiria.

O tempo diria se essa busca pela Terra Prometida terminaria em algo mais do que castelos

no ar. Por ora, somente — e acima de tudo — a sobrevivência ocupava as mentes da

tripulação. Os homens que tinham se alistado para navegar para além do mundo conhecido

eram de uma variedade ímpar. Entre eles, havia aventureiros calejados, cavaleiros intrépidos,

escravos africanos, escribas literatos e condenados se livrando de suas sentenças. A essa altura,

já haviam se espremido desconfortavelmente durante 317 dias. Quando deram uma grande

volta pelo Atlântico, meses a fio, não viram nada além da costa. E quando finalmente

alcançaram o extremo sul da África, já tinham sido alvejados e emboscados, tendo até mesmo

acostado na calada da noite. Já não havia mais comida e água, e eles foram assolados por

doenças estranhas. Lutaram contra fortes correntes e tempestades que desgastaram os navios e

esfarraparam suas velas. Eles estavam certos de que faziam a vontade de Deus e que, em troca,

seus pecados seriam absolvidos. Ainda assim, mesmo a pele dos marinheiros mais endurecidos

se arrepiava com superstições mórbidas e pressentimentos de ruína. A morte, sabiam eles,

podia ser uma gengiva inchada ou um recife não percebido, e não era o pior destino possível.

Enquanto dormiam sob estrelas desconhecidas e lançavam-se em águas inexploradas que

cartógrafos animavam com monstros marítimos cheios de dentes, não eram suas vidas que eles

temiam perder, mas suas próprias almas.

Para os indianos, os forasteiros, com seus cabelos longos e sujos e seus rostos bronzeados

e sem lavar, pareciam o tipo mais grosseiro de foca. Seus escrúpulos logo foram superados

quando descobriram que podiam vender pepinos e cocos para os estrangeiros a preços

interessantes, e no dia seguinte os quatro barcos retornaram para levar a frota ao porto.

Era o momento de fazer o marujo mais estoico se surpreender.

Para os cristãos, o Oriente era a nascente do mundo. A Bíblia era o seu livro de história;

Jerusalém, sua capital da fé, suspensa entre o céu e a Terra; e o Jardim do Éden — que se

acreditava firmemente florir em algum lugar na Ásia —, sua fonte de maravilhas. Seus palácios

eram reconhecidamente entelhados em ouro, enquanto salamandras à prova de fogo, fênix

autoimoladoras e unicórnios solitários vagueavam por suas florestas. Pedras preciosas corriam

por seus rios e especiarias raras que curavam qualquer padecimento caíam de suas árvores.

Pessoas com cabeça de cachorro se esgueiravam, enquanto outras pulavam em uma perna só

ou sentavam e usavam o seu único pé gigante como um guarda-sol. Diamantes cobriam suas

encostas, onde eram guardados por serpentes e podiam ser recuperados somente por abutres.

Perigos mortais espreitavam por toda parte, o que colocava os tesouros brilhantes ainda mais

atormentadamente fora de alcance.

Pelo menos assim se dizia; ninguém sabia com certeza. Por séculos o Islã havia quase que

bloqueado o acesso da Europa ao Oriente; por séculos uma inebriante mistura de rumor e

fábula tinha circulado no lugar dos fatos concretos. Muitos morreram para descobrir a verdade,

e agora havia chegado o momento. O poderoso porto de Calcutá, um empório internacional

explodindo de riquezas orientais, o centro da rede de comércio mais movimentada do mundo,

desdobrava-se aos olhos dos marinheiros.

Não havia pressa em ser o primeiro em terra firme. A antecipação — ou a apreensão —

era demasiada. No fim, a tarefa foi dada a um dos homens que tinham sido recrutados para

fazer o trabalho perigoso.

O primeiro europeu a velejar por todo o caminho até a Índia e pisar em suas praias era

um criminoso condenado.

Os homens nos barcos levaram-no diretamente à casa de dois mercadores muçulmanos

da África do Norte, o lugar mais ocidental que eles conheciam. Os mercadores vinham da

antiga cidade portuária de Túnis, e para surpresa dos visitantes eram fluentes tanto em

espanhol quanto em italiano.

“O diabo te carregue! O que o trouxe até aqui?”, exclamou um dos dois em espanhol. O

condenado compôs-se. “Nós viemos”, respondeu ele em grande estilo, “à procura de cristãos e

especiarias.”

Na ponte de comando, Vasco da Gama esperava impacientemente pelas novidades. O

comandante português era de altura mediana, com uma compleição forte e atarracada e uma

face corada e angular como pratos de cobre soldados. Por nascimento, era um cavalheiro da

corte, embora a testa saliente, o nariz aquilino, a boca cruelmente sensual e a barba cheia

fizessem-no parecer mais com um chefe pirata. Ele tinha apenas 28 anos quando as esperanças

e os sonhos da nação lhe foram confiados, e ainda que tenha sido uma escolha surpreendente,

seus homens já tinham ouvido falar a respeito de sua coragem e impetuosidade e já haviam

aprendido a temer seu temperamento excêntrico.

Enquanto avaliava seu reino flutuante, os grandes e agudos olhos não deixavam nada

passar despercebido. Uma viva ambição combinada a uma vontade de ferro o fizeram vencer

perigos e distâncias que ninguém tinha conseguido superar antes, mas ele estava bem

consciente de que seu grande empreendimento havia apenas começado.

A questão que motivou este livro me importunou por muitos anos antes que a história

começasse a tomar forma. Como a maior parte das pessoas, eu ficava aturdido com o poder das

guerras religiosas em nossas vidas cotidianas, e à medida que eu descobria mais sobre elas,

percebia que nós estávamos sendo arrastados por um conflito antigo para o qual nós

desenvolvemos uma espécie de amnésia coletiva. A razão, acreditávamos, governava o mundo

no lugar da religião. A guerra diz respeito a ideologia, economia e ego, e não a fé.

Nós fomos pegos cochilando na história. A marcha do progresso é uma fábula que os

vitoriosos contam para eles mesmos; os vencidos têm uma memória maior. Nas palavras dos

islâmicos de hoje — que veem a sua luta não como uma luta para chegar a um acordo com o

Ocidente, mas para derrotar o Ocidente —, a podridão se estabeleceu há quinhentos anos. Isso

aconteceu quando o último emirado muçulmano foi expurgado da Europa ocidental, quando

Cristóvão Colombo chegou às Américas — e quando Vasco da Gama chegou ao Oriente.

Esses três acontecimentos se desencadearam em uma década dramática, e suas raízes

intimamente entrelaçadas mergulham profundamente em nosso passado comum.

Sete séculos antes dessa década crucial, conquistadores muçulmanos tinham avançado

profundamente na Europa. Na sua extremidade ocidental, a península Ibérica, eles fundaram

um Estado islâmico avançado, e tal Estado havia protagonizado um papel vital em tirar a

Europa da “Idade das Trevas”. Tanto cristãos quanto muçulmanos começaram a esquecer que

o Deus que adoravam em formas diferentes era a mesma deidade, e os fogos da guerra santa

foram acesos na península Ibérica. Eles queimaram violentamente à medida que portugueses e

espanhóis buscavam retirar suas nações de dentro das terras do Islã, e eles ainda estavam

queimando quando os portugueses embarcaram em uma missão secular para perseguir seus

antigos senhores pelo mundo — uma missão que inaugurou a Era do Descobrimento na

Europa.

Esse timing não foi coincidência. Por centenas de anos a história veio do Oriente para o

Ocidente, e às vésperas da Era do Descobrimento as batidas dos tambores ficaram mais

rápidas. Em meados do século xv a maior cidade da Europa foi tomada pelo Islã, e soldados

muçulmanos estavam uma vez mais se preparando para avançar em direção ao coração do

continente. Numa época em que ninguém suspeitava que novos continentes seriam

descobertos, as esperanças de salvação da cristandade se voltaram para o Oriente; nas fantasias

frustradas dos europeus, a Ásia tinha se tornado um reino mágico onde uma aliança contra o

inimigo podia ser forjada e o sonho de uma igreja universal podia finalmente ser realizado.

O pequeno Portugal tinha se proposto a uma tarefa verdadeiramente audaciosa: igualar-se

ao Islã, tornando-se o senhor dos oceanos. À medida que o esforço coletivo de gerações levou à

primeira viagem de Vasco da Gama, os espanhóis lutaram para se unir à corrida. Uma vez que

eles tinham uma negociação de terras para ajustar, decidiram tentar um vagabundo italiano

chamado Cristóvão Colombo. Em 1498, enquanto Vasco da Gama navegava para o Oriente

em direção ao oceano Índico, Colombo navegava para o Ocidente, alcançando finalmente o

continente das Américas.

Ambos os exploradores estavam procurando pelo mesmo prêmio — uma rota marítima

para a Ásia —, embora a conquista de Vasco da Gama tenha sido ofuscada pelo erro grandioso

de Colombo. Agora que retornamos ao mundo tal como ele era à época desses homens — um

mundo onde todos os caminhos levavam ao Oriente —, podemos finalmente restabelecer o

equilíbrio. As viagens de Vasco da Gama foram uma importante descoberta em uma campanha

cristã de séculos para derrubar o domínio do Islã sobre o mundo. Essas viagens modificaram

dramaticamente as relações entre Ocidente e Oriente, e dividiram as eras de ascendência

muçulmana e cristã — o que nós, no Ocidente, chamamos de Era Medieval e Idade Moderna.

Elas não foram, certamente, toda a história, mas tiveram muito mais importância do que nós

gostamos de lembrar.

A Era do Descobrimento costumava ser glorificada como uma busca quixotesca para

ampliar os limites do conhecimento humano. Hoje em dia, tende a ser explicada como um

movimento para reverter o equilíbrio global do comércio. Ambas as opções são verdadeiras:

aquela época transformou a percepção da Europa de seu lugar no mundo e deu início a uma

mudança global do poder — que ainda está em desenvolvimento nos dias de hoje. Mesmo

assim, ela não foi apenas uma nova orientação, mas uma tentativa deliberada de acertar uma

dívida antiga. Vasco da Gama e seus homens nasceram em um mundo polarizado pela fé, onde

lutar contra os infiéis era a mais importante ocupação de um homem de honra. Como as

cruzes vermelho-sangue em suas velas apregoavam amplamente, eles estavam embarcados em

uma nova guerra santa. Foi-lhes dito que seriam os sucessores diretos de quatrocentos anos de

cruzados, peregrinos nobres que tinham desembainhado suas espadas em nome de Cristo.

Cobraram-lhes que lançassem uma contraofensiva total de encontro ao Islã e inaugurassem

uma nova era — uma era na qual a fé e os valores da Europa seriam exportados por toda a

Terra. Essa foi, acima de tudo, a razão de umas poucas dezenas de homens velejarem em

algumas banheiras de madeira para além das fronteiras do mundo conhecido em direção à

Idade Moderna.

Para entendermos as paixões que levaram os europeus a mares distantes — e que

definiram nosso mundo —, precisamos voltar ao princípio. A história começa entre as dunas

de areia esculpidas pelo vento e as cordilheiras ressecadas da Arábia, com o nascimento de

uma nova religião que invadiu com velocidade espantosa o coração da Europa.

I

Origens

1. Oriente e Ocidente

Quando Maomé Ibn Abdallah ouviu pela primeira vez a palavra de Deus no ano de 610 — ou

por volta desta data —, não tinha a intenção de fundar um império mundial.

Ele não tinha nem mesmo certeza se era são.

“Agasalhe-me!”, disse o comerciante de quarenta anos, tremendo miseravelmente

enquanto rastejava em direção à sua esposa, que jogou uma capa em volta dele e o abraçou,

afagando seu cabelo enquanto ele chorava. Ele estava meditando em sua caverna habitual, fora

de Meca — um luxo que lhe foi permitido pelo casamento com uma rica viúva quinze anos

mais velha do que ele —, quando o anjo Gabriel apareceu, lançando-o em um transe doloroso,

extático, e lhe disse as palavras de Deus. Maomé ficou aterrorizado com a possibilidade de

estar enlouquecendo e pensou em jogar-se da montanha. Mas a voz continuou falando, e três

anos depois Maomé começou a pregar em público. Gradualmente, a mensagem surgiu: a fé de

Abraão e Jesus era a fé verdadeira, mas ela tinha sido corrompida. Havia um Deus, e Ele exigia

islam — rendição completa.

Essa era uma má notícia para os governantes de Meca, que tinham engordado graças ao

turismo religioso à cidade dos 360 santuários. Meca surgira em torno de um oásis cheio de

palmeiras na região de Hejaz, uma barreira costurada de montanhas que se estende ao longo

da costa do mar Vermelho na península Arábica. Sua autoridade irradiava da Caaba, o

santuário quadrado, assentado no seu centro, que abrigava os principais ídolos dos árabes.

Todos os anos, hordas de peregrinos vinham do deserto, desciam ao local sagrado e circulavam

o cubo de pedra sete vezes, esforçando-se para beijar cada canto antes que a pressão dos

corpos empurrasse-os de volta ao redemoinho. Ao longo do tempo, uma tribo, os coraixitas,

organizaram a guarda Caaba de forma que a essência do comércio de Meca fosse sufocada, e a

princípio as revelações de Maomé estavam focadas especificamente neles. Os coraixitas

gananciosos, acusou ele, tinham cortado os fios igualitários da sociedade árabe; eles tinham

explorado os fracos, escravizado os pobres e negligenciado o seu dever de cuidar dos

necessitados e oprimidos. Deus havia tomado nota disso, e todos eles iriam para o inferno.

O que enfureceu os coraixitas não foi tanto a conversa de Maomé sobre um Deus

misericordioso, ou mesmo sua alegação de ser o porta-voz de Deus. No norte, um reino de

árabes cristãos tinha existido por séculos, e na própria Caaba as figuras de Jesus e Maria

permaneciam, orgulhosas, entre os ídolos. Migrantes judeus que foram para a Arábia tinham

sido influentes por mais tempo ainda; os árabes consideravam-se descendentes dos judeus de

Abraão através de seu filho primogênito, Ismael, e muitos identificavam seu deus elevado com

o deus dos judeus. No tempo de Maomé, poetas-pregadores perambulavam perpetuamente

pelos desertos, exortando suas tribos a renunciarem à idolatria e retornarem ao puro

monoteísmo de seus antepassados. Nada poderia ser menos controverso: a única coisa

intolerável era que Maomé era uma pessoa de dentro. Seu clã familiar, os hashemitas, era um

ramo menor dos coraixitas. Ele era um respeitado homem de negócios e um pequeno, mas

sólido, pilar da comunidade, e tinha se voltado contra seu próprio grupo.

Os coraixitas tentaram de tudo — desde subornos até boicotes — para desacreditar o

pregador perturbador, e finalmente tentaram um assassinato à meia-noite. Maomé saiu de sua

casa a tempo, escapou da lâmina da espada e fugiu para um assentamento em um oásis

distante que se tornaria conhecido como Medina, a Cidade do Profeta. Lá, à medida que seus

seguidores aumentavam, ele punha em prática a sociedade radicalmente nova com a qual tinha

apenas sonhado em Meca: uma ummah, ou comunidade de iguais, unidos não por nascimento,

mas por fidelidade, limitados por leis que davam direitos inauditos às mulheres e redistribuíam

a riqueza entre os mais necessitados. Como as revelações continuaram, ele começou a

acreditar que Deus o tinha escolhido não apenas para dar um aviso à sua tribo, mas para ser

um mensageiro para a humanidade.

Para que sua mensagem se espalhasse, ele teve primeiro que considerar Meca. Oito anos

de guerras ferozes com os coraixitas ensanguentaram a fundação do Islã. Num dos momentos

mais obscuros, Maomé, com o rosto esmagado e manchado de sangue, foi retirado do campo

de batalha por um de seus guerreiros, e somente o rumor de que estava morto salvou os

remanescentes de seu exército. A moral da ummah foi pulverizada, e foi nessa hora que

Maomé fez aos seus guerreiros uma promessa que ecoaria através da história. Aqueles que

foram assassinados na batalha, foi-lhe revelado, seriam levados ao mais alto nível do Paraíso:

“Eles serão alojados juntamente, em paz, entre jardins e fontes, vestidos em ricas sedas e finos

brocados [...] Nós os casaremos com as houris de olhos negros”.

Os muçulmanos — “aqueles que se submetem” — uniram-se; e unir-se contra as

querelas em si parecia um sinal da benevolência divina. O momento decisivo não foi uma

vitória no campo de batalha, mas um espetacular golpe de publicidade. No ano 628, Maomé

apareceu inesperadamente perante Meca com mil peregrinos desarmados e afirmou seu direito

legítimo como árabe de adorar na Caaba. À medida que ele desempenhava solenemente os

rituais — e os coraixitas permaneceram por perto, mal-humorados —, os governantes de Meca

ficaram parecendo mais tolos do que invencíveis, e a oposição começou a se desintegrar. Em

630, Maomé retornou com fileiras cerradas de seguidores. Ele novamente circulou o santuário

sete vezes, entoando “Allahu akbar!” — “Deus é grande!” —, e então entrou, carregou os ídolos

e esmagou-os em pedaços no chão.

Dois anos mais tarde, quando já estava morto, Maomé foi responsável por uma proeza

que nenhum líder na história jamais tinha imaginado: ele fundara uma nova fé florescente e

um novo Estado em expansão, um inseparável do outro. Em pouco mais de um ano, os

exércitos do Islã esmagaram as tribos árabes que estavam contra a nova ordem, e pela primeira

vez na história a península Arábica estava unida sob um governante e uma fé. Impulsionados

pelo zelo religioso, por um recém-descoberto propósito comum e pelas alternativas felizes de

amplos despojos na vida ou eterna bênção na morte, o mais novo povo escolhido de Deus

olhava para fora.

O que eles viam eram dois superpoderes que haviam feito o máximo para suprimir um ao

outro da face da Terra.

Por mais de um milênio, Oriente e Ocidente tinham se enfrentado no rio Eufrates, na

Mesopotâmia, a terra fértil conhecida havia muito como o berço da civilização, e hoje território

do Iraque. No lado oriental estava o ilustre império persa, guardião de uma cultura antiga,

refinada, e da primeira religião revelada do mundo, a fé monoteísta do sacerdote visionário

Zaratustra — uma fé conhecida a partir do seu nome latinizado, Zoroastro, como zoroastrismo

—, que falava sobre criação, ressurreição, salvação, apocalipse, céu e inferno e um salvador

nascido de uma jovem virgem séculos antes do nascimento de Cristo. Liderados por seus

grandes shahanshahs — “reis dos reis” —, os persas tinham sido inveterados inimigos dos

gregos, até que Alexandre, o Grande, esmagara seus exércitos. Quando o poder da Pérsia

reviveu, eles simplesmente transferiram sua hostilidade para os sucessores dos gregos, os

romanos. A antiga luta foi o choque formativo entre o Oriente e o Ocidente, e em 610, quando

Maomé estava recebendo suas primeiras revelações, finalmente explodiu uma guerra total.

Enquanto ondas de bárbaros espalhavam a desordem pela Europa ocidental, o imperador

Constantino construíra uma nova Roma na parte oriental da Europa. A brilhante

Constantinopla olhava por sobre o Bósforo, uma faixa de água estratégica que vai do mar

Negro em direção ao Mediterrâneo, rumo à Ásia. Escondidos atrás dos muros inexpugnáveis

da cidade, os sucessores de Constantino observavam indefesos os persas que varriam suas

ricas províncias orientais e se dirigiam para a sagrada Jerusalém. Muito tempo antes, os

romanos tinham demolido completamente a Jerusalém judia, e uma nova cidade cristã se

levantara sobre os locais identificados com a paixão de Jesus. Constantino, o primeiro

imperador cristão, construiu a igreja do Santo Sepulcro sobre os lugares atribuídos à

crucificação, sepultamento e ressurreição de Jesus. Assim, para a angústia quase apocalíptica

dos cristãos, os persas carregaram a Cruz Verdadeira na qual Jesus teria morrido, junto com a

Esponja Sagrada e a Lança e o patriarca da cidade, deixando o Santo Sepulcro esvaziado e

ardendo contra um céu escurecido.

À beira do esquecimento, os romanos resistiram e saíram triunfantes, e a Pérsia implodiu

em uma guerra civil. Mas os vitoriosos também estavam exaustos. As cidades romanas tinham

sido deixadas em péssimo estado e foram dominadas pelos refugiados; os agricultores haviam

sido arruinados e o comércio fora destroçado; todos estavam profundamente cansados das

taxas esmagadoras que pagaram pela libertação imperial. Em uma época de disputas cristãs

agitadas, o pior de tudo era a tendência impiedosa de Constantinopla de obrigar que se

cumprisse em suas terras sua versão ortodoxa do cristianismo. Tendo primeiramente

alimentado leões com cristãos, os romanos passaram a perseguir qualquer um que se recusasse

a seguir a linha oficial. Através de uma extensa faixa do Mediterrâneo oriental, da Armênia no

norte até o Egito no sul, dissidentes cristãos estavam felizes com a perspectiva de um novo

regime.

Com uma bravata de tirar o fôlego, os árabes atacaram ambos os impérios antigos de uma

só vez.

Em 636, onze séculos de poderio persa terminaram com uma manada de elefantes

berrando próximo ao futuro local de Bagdá. “Amaldiçoado seja este mundo, este tempo, este

destino”, lastimaria a épica nacional do Irã. “Aqueles árabes não civilizados chegaram para me

tornar muçulmano.” O caminho do Islã se abriu ao norte para a Armênia; a nordeste, para as

estepes asiáticas, fazendo limite com a China; ao sudeste, para o Afeganistão; e mais adiante

para a Índia. Nesse mesmo ano, o exército árabe esmagou uma força romana bem maior na

batalha de Yarmuk e anexou a Síria, onde Paulo de Tarso havia sido convertido no caminho

para Damasco e onde, na Antióquia, tinha fundado a primeira igreja cristã organizada. No ano

seguinte, Jerusalém morreria à míngua até se submeter e abriria seus portões para o novo

grupo de conquistadores, apenas oito anos após os romanos terem restaurado triunfantemente

a Cruz Verdadeira ao seu devido lugar. A cidade despedaçada pela fé era sagrada para o Islã,

assim como para o judaísmo e o cristianismo, e séculos de lutas entre romanos e judeus por

causa dos lugares sagrados deram lugar a séculos de embates entre muçulmanos e cristãos.

Quatro anos depois, o fértil e belo Egito, a mais rica de todas as províncias romanas, caiu

em poder dos árabes. Enquanto Constantinopla assistia impotentemente, os truculentos

homens das tribos do deserto, pejorativamente rotulados de sarracenos — “o povo das tendas”

—, tomaram todas as terras que eles haviam tão recentemente reconquistado, e a um custo tão

grande. Enquanto reinos e impérios foram rebaixados e caíram, até mesmo bispos começaram

a imaginar se Maomé tinha sido comandado a partir do alto.

Do Egito, os exércitos do Islã marchavam para o oeste através das margens mediterrâneas

da África — e lá, de forma muito inesperada, suas investidas, que pareciam incapazes de ser

interrompidas, paralisaram-se.

Parte do problema era interno. Maomé tinha morrido sem denominar um herdeiro, ou

mesmo sem deixar instruções claras sobre como um sucessor deveria ser escolhido. Velhas

rivalidades logo voltaram à tona, aguçadas pelo butim da conquista que serpenteava em

caravanas sem fim pelos desertos e que invariavelmente terminava nos bolsos dos coraixitas, as

mesmas tribos cuja ganância monopolista Maomé tinha atacado tão severamente. Após alguns

logros nas tribos, os primeiros quatro califas — “sucessores” do Profeta — foram selecionados

entre os companheiros mais próximos de Maomé e família, mas mesmo aquele alto status não

conseguiu protegê-los. Um soldado persa irado enterrou uma adaga na barriga do segundo

califa, estripou-o e esfaqueou-o nas costas enquanto ele rezava. Uma conspiração de soldados

muçulmanos atiçados pelo estilo de vida exuberante e pelo nepotismo flagrante do terceiro

califa levou-o a uma morte a pauladas, e a ummah entrou em guerra civil. Ali, o quarto califa —

primo, genro e mais íntimo confidente do Profeta — foi ferido por uma espada envenenada nos

degraus de uma mesquita, por estar muito desejoso de negociar com seus companheiros

muçulmanos. Ao final, seus seguidores, que tinham sempre sustentado que Ali era o sucessor

divinamente untado de Maomé, juntaram-se como o Shiatu Ali — “o partido de Ali” — ou

Shia, abreviadamente, e se separaram irrevogavelmente da maioria pragmatista, que, a partir do

termo para o caminho mostrado pelo Profeta, se tornou conhecida como Sunnis.

Fora da confusão, o primeiro califado surgiu na forma dos Omíadas, que tiraram a capital

do ninho de serpentes da Arábia e governaram por quase um século a partir da antiga e

cosmopolita Damasco. Ainda assim, a oposição continuava a afligir o jovem império, desta vez

de fora. Na África do Norte, os exércitos árabes estavam atolados, durante décadas, por hordas

de berberes de olhos azuis, os antigos povos nativos da região. Os berberes desciam

furiosamente de seus redutos nas montanhas cada vez que ondas anteriores de conquistadores

faziam visitas a eles, e não estavam inclinados a adaptar seu comportamento simplesmente

porque professavam estarem convertidos à nova fé. À frente da carga berbere estava uma

terrível rainha-guerreira judia, conhecida pelos árabes como Kahina, ou “a Profetisa”, que

galopava com seus fogosos cachos vermelhos para a batalha e empurrava os invasores para

longe, em direção ao leste, até que foi finalmente perseguida por um grande exército árabe e

morreu lutando, de espada na mão.

Ao raiar do século xviii, as revoltas dos berberes esgotaram-se, e muitos engrossaram as

fileiras de seus conquistadores. Em um pouco mais do que o espaço de uma vida, os exércitos

lançados por Maomé tinham varrido um crescente ininterrupto em torno da bacia do

Mediterrâneo em direção à costa do oceano Atlântico.

A partir daí eles miraram a Europa.

Com velocidade surpreendente, o mundo tinha dado uma volta completa. Uma religião

que surgira nos desertos do Oriente estava prestes a irromper em uma Europa ocidental

aturdida. Mas, para os berberes rebeldes, esta poderia bem ter eclodido por todo o continente

antes que as tribos guerreiras da Europa tivessem se levantado para responder.

Com o tempo, ela voltaria. Quando a cristandade ocidental finalmente se recuperasse do

choque, uma luta de fé se tornaria encarniçada no continente da Europa — uma luta que

levaria Vasco da Gama ao coração do Oriente.

Desde a era das lendas, dois picos de pedra tinham marcado o fim ocidental do mundo

conhecido. Os antigos chamavam-nos de os Pilares de Hércules, e as lendas contavam como o

poderoso herói os tinha construído em seu décimo trabalho impossível. Hércules foi mandado

para as longínquas costas da Europa para roubar o gado do monstro de três cabeças e seis

pernas, Gerião; e, para abrir seu caminho, partiu uma montanha em dois. Através da fenda, as

águas do oceano que circundavam o mundo correram para o Mediterrâneo. Para além estava o

reino do encurvado Velho Homem do Mar, de aparência imprecisa, e a civilização submersa de

Atlântida, fragmentos de antigas lendas perdidas nas brumas do tempo que aterrorizavam os

marinheiros havia um milênio.

Por mais de 2 mil anos, uma cidade portuária chamada Ceuta permaneceu à sombra do

pilar sul de Hércules. Ceuta ocupa uma curva de terra situada nas praias ao nordeste da África

por uma cordilheira denteada de montanhas, conhecida como os Sete Picos. O pequeno istmo

se espalha para o Mediterrâneo até que um grande monte chamado Monte Hacho — Monte

do Farol — leva-o a um enfático fim. Do seu topo, o punho de calcário da rocha de Gibraltar é

facilmente visível na costa espanhola. Gibraltar é o pilar norte de Hércules, e nomina o estreito

turbulento que se abre para o oceano Atlântico. Ali a África e a Europa são separadas por

meras nove milhas de água, e ali, através dos tempos, a história tem feito sua travessia.

Hoje, imaginamos que a África e a Europa são dois continentes completamente

diferentes, separados por um abismo de civilização, mas até bem pouco tempo essa distinção

não faria sentido. Por muitos séculos, bens e homens se moveram mais facilmente na água do

que por terra, e o comércio e o império reuniram os povos do Mediterrâneo. Os fenícios, que

eram um povo desbravador, exploravam minas de prata na Espanha e estanho em diferentes

lugares, como a Inglaterra. Onde a Sicília se projeta em direção à África, eles construíram a

fabulosa cidade de Cartago, e, cientes do valor estratégico de Ceuta, a elegeram seu posto

avançado, a oeste. Colonos gregos vieram, fundando colônias da Espanha à Sicília e

empossando os descendentes do guarda-costas de Alexandre, o Grande, tal como os faraós

ptolomaicos do Egito. Em seguida vieram os romanos, que nivelaram Cartago e fortificaram

Ceuta como o campo militar no fim do mundo. O termo Mediterrâneo vem do latim “o centro

da Terra”, mas a realidade política, assim como o orgulho imperial, induziu ao nome romano

mais comum Mare Nostrum — “Nosso Mar”. Este sentido de direito tornou o fato ainda mais

intolerável quando os bárbaros vândalos passaram pela França e Espanha, pelo estreito de

Gibraltar, marcharam em direção ao oriente, atravessando as províncias africanas de Roma, e

se lançaram no Mediterrâneo, onde ocuparam suas maiores ilhas, especializaram-se em

pirataria e terminaram saqueando a própria Roma.

Nenhum tráfico marítimo, entretanto, poderia ter preparado as costas do nordeste do

Mediterrâneo para os acontecimentos de 711. Nesse ano, a armada muçulmana reuniu-se em

Ceuta, velejou através do estreito e deu início aos 781 anos de domínio islâmico na Europa

ocidental. O líder da expedição era um berbere convertido chamado Tariq ibn Ziyad, e a rocha

embaixo da qual ele desembarcou foi chamada a Montanha de Tariq — em árabe, Jebel al-

Tariq, ou, para nós, Gibraltar.

Por aquela época, a Espanha — nome que a Europa utilizava para denominar toda a

península Ibérica, incluindo a futura terra de Portugal — era governada pelos bárbaros godos,

que a tinham apanhado dos vândalos, que, por sua vez, tomaram-na de Roma. Em pouco mais

de três anos, os godos foram escorraçados para as terras altas do norte, onde tiveram muito

tempo para contemplar a ruína de seu Estado como uma punição divina pela maldade

pecaminosa de seus governantes. Tendo assegurado a maior parte da península, os

comandantes árabes e suas tropas berberes seguiram em direção ao nordeste para além do

colar montanhoso dos Pirineus, dirigindo-se para a França.

Estava em jogo nada menos do que a própria cristandade.

Por duas vezes, no primeiro século do Islã, exércitos árabes colossais cercaram

Constantinopla, mas não conseguiram penetrar em suas muralhas monumentais. Por duas

vezes, a cidade no Bósforo avistou enormes frotas de navios de guerra árabes em meio a mares

ensebados com uma nova mistura letal chamada fogo grego. Constantinopla era o bastião

oriental de uma cristandade diminuída, frágil, mas que não mostrava sinais de desabamento.

Em contraste, a Europa ocidental sitiada era um desastre, esperando para ser conquistada. A

invasão da Espanha começara como um audacioso oportunismo, mas logo passou a ser

orientada pelo coração do império islâmico. Seus líderes planejaram marchar rumo à Europa,

anexar as terras abandonadas por Roma e atacar Constantinopla a partir de sua retaguarda nos

Bálcãs. Se eles fossem bem-sucedidos, o quarto crescente que o Islã mapeara em torno do

Mediterrâneo se tornaria um círculo completo.

Dezenas de milhares de árabes e berberes irromperam na França, atravessaram a

Aquitânia, queimaram Bourdeaux e seguiram pela antiga estrada romana que levava de Poitiers

à cidade sagrada de Tours. Um século depois do ano seguinte à morte de Maomé, um exército

muçulmano marchava a apenas 150 milhas dos portões de Paris.

Na confusão da guerra que envolveu a Europa da Idade das Trevas, os acontecimentos

importantes que tomaram as praias distantes do Mediterrâneo vieram carregados nos ventos

incertos do rumor. A ideia de que aqueles distantes ribombares de trovão pressagiavam um

relâmpago no seio da cristandade era tão remota que chegava a ser incompreensível. No

entanto, estava ali um exército de turbante, direcionado por uma estranha fé, cavalgando sob

flâmulas desconhecidas, anunciado pelo soar de trompas esquisitas e pelo estrépito chocante

de címbalos, gritando pragas arrepiantes em uma língua estrangeira e ganhando velocidade nos

campos outonais da França.

O cabo de guerra entre o Islã e o cristianismo mudou de curso naquele dia de 732. Na

estrada fora de Poitiers, os exércitos do Islã bateram em um muro irremovível de francos

desgrenhados, mas resolutos — os povos germânicos ocidentais que tinham se instalado muito

tempo atrás no território romano —, liderados por Carlos Martel, que era conhecido por seus

homens como o Martelo. As linhas de infantaria curvavam-se como redemoinhos de esquadras

de cavaleiros árabes esmagados nas fileiras da frente, embora se recusassem a ceder. As

famosas táticas árabes que durante um século conseguiram resultados espetaculares — o corte

da linha de frente, dispersar enquanto se soltam as flechas, enxamear à volta de amontoados

confusos e pegá-los um a um — falharam pela primeira vez, e corpos muçulmanos

empilhavam-se na frente de escudos francos. Lutas esporádicas continuaram durante a noite,

mas pela manhã os invasores que sobreviveram se dispersaram e voltaram para a Espanha.

Durante décadas, grandes exércitos islâmicos continuariam a marchar pelos Pirineus; em

breve alcançariam os Alpes e mandariam Martelo de volta para o combate. Quando as invasões

finalmente se esgotaram, isso aconteceu muito mais graças às lutas rancorosas de poder entre

as dezenas de milhares de imigrantes árabes e berberes que tinham começado a se espalhar

pela Espanha do que às proezas militares de parte da cristandade ocidental. Mesmo assim,

salteadores muçulmanos controlariam as passagens alpinas — o maior saque deles foi a abadia

de Cluny, o monastério mais rico da Europa, que deu a eles o resgate de um rei — e piratas

muçulmanos assaltariam os mares até que os cristãos “não pudessem nem mesmo colocar uma

prancha dentro da água”, conforme regozijou-se um chefe do staff do califa. Ainda no

Ocidente, a batalha de Poitiers seria lembrada como o ponto de virada.

Foi para descrever os homens de Martel que um cronista cunhou pela primeira vez o

termo europenses — “europeus”.

Esse povo não existia até então. As linhas de divisão geográfica entre os continentes foram

desenhadas primeiro pelos gregos, que para sua conveniência nomearam as terras a leste como

Ásia, as regiões ao sul como África e todo o resto como Europa. À medida que exploraram mais

adiante, tentaram resolver qual rio do norte marcava os limites entre a Europa e a Ásia, ou se a

África começava nas margens do Egito ou no rio Nilo, questionando o sentido de separar uma

única massa de terra em três partes. Para todos os outros povos, a divisão era perfeitamente

arbitrária. Quando o norte da Europa ainda era uma província de selvagens de rosto azul e o

Mediterrâneo era o lago da civilização ocidental, os povos do continente não sonhavam com

uma identidade compartilhada; tampouco as províncias de Roma na Ásia e na África eram

menos romanas pelo fato de estarem fora da Europa. Quando os ensinamentos de Jesus de

Nazaré viajaram em todas as direções fora da Judeia romana, ninguém previu que a fé dos seus

seguidores seria reivindicada como uma religião europeia. A Etiópia foi uma das primeiras

nações a adotar o cristianismo, uma vez que santo Agostinho, o pai da Igreja que influenciou

profundamente a evolução do pensamento cristão, era um berbere da Argélia. Foram os

exércitos do Islã e o império que eles espalharam por três continentes que reduziram o

cristianismo, com poucas e dispersas exceções, a uma fé europeia.

Nem mesmo existia um único cristianismo europeu. A princípio, a maioria dos bárbaros

adotou o arianismo, um credo popular que ensinava que Jesus era puramente humano. Uma

tribo ariana, os barbas longas ou lombardos, decidiu ter por missão matar todo sacerdote

católico que cruzasse seu caminho. Os papas, muitos deles filhos de antigas famílias de

senadores, abraçavam-se uns aos outros, escondidos em meio às enormes ruínas de Roma até

que Clóvis, um rei dos francos do século vi, viu a luz durante uma batalha especialmente dura

com os godos. Os francos fizeram um pacto com Roma que deu a seus reis legitimidade e

proteção militar ao papado, e o acordo foi selado no dia de Natal do ano 800, quando o neto de

Carlos Martel, Carlos Magno, subiu de joelhos os degraus de São Pedro, prostrou-se perante o

santo padre e foi coroado Augusto, imperador dos romanos. O outro imperador em

Constantinopla irritou-se impotentemente. O papa, mero bispo de Roma, tinha efetivamente

organizado um golpe, e o palco estava montado para a cisma com a Igreja ortodoxa do Leste

Europeu.

Enquanto o breve império de Carlos Magno se desintegrava, os vikings lançavam da

Escandinávia ondas de ataque devastadoras e no campo estéril brotavam castelos de pedra com

sua parca população amontoada atrás dos muros, a Europa se tornava uma península atrasada,

precariamente empoleirada entre o oceano e o mar verde do Islã. Nisso, por querer muito mais,

ela encontrou sua identidade. O conceito moderno de Europa nasceu não somente da

geografia, nem simplesmente de uma religião compartilhada. Ele emergiu lentamente de uma

colcha de retalhos de povos rebeldes que encontraram um propósito comum na sua luta contra

o Islã.

Havia uma exceção notável nessa identidade emergente: a Ibéria ainda era dominada por

um Estado islâmico imponente. À medida que a contraofensiva cristã começava, seria lá que

nasceriam as nações mais zelosamente católicas de todas. A razão era espantosamente simples.

O cristianismo e o islamismo são religiões irmãs, e na Ibéria elas viveram lado a lado por muito

tempo. Se você está prestes a expulsar sua irmã de casa, precisa estar muito mais imbuído de

um frenesi farisaico do que se estivesse expulsando um estranho.

Na extremidade ocidental do mundo conhecido, as forças do fundamentalismo estavam

prestes a se soltar tanto entre cristãos quanto entre muçulmanos. As repercussões seriam

sentidas amplamente pelos séculos seguintes.

Tudo poderia ter sido muito diferente. Em árabe, a Espanha islâmica era chamada al-Andalus

— o nome seria transmitido para a região espanhola da Andaluzia —, e por três séculos al-

Andalus foi o lar da sociedade mais cosmopolita do mundo ocidental.

Desde os primeiros anos do Islã, os muçulmanos tinham classificado cristãos e judeus

que se submetiam à regra islâmica como dhimmi, ou “povos protegidos”. Pagãos eram objeto

de escárnio — foram dadas a eles as duras alternativas de conversão ou morte —, mas o

próprio Maomé proibira seus seguidores de interferir na liberdade religiosa de seus

companheiros, os Povos do Livro. Os primeiros conquistadores árabes foram ainda mais longe:

tornaram tão difícil quanto fosse possível a conversão de judeus e cristãos, não menos porque

qualquer um que se juntasse à elite muçulmana estaria absolvido do pagamento da jizya, uma

taxa destinada aos infiéis e cobrada por indivíduo. No entanto, à medida que as conversões em

massa se tornaram a norma, a tolerância provou ter seus limites. Um califa do século ix, com

um gosto para pequenas humilhações, ordenou que judeus e cristãos pendurassem imagens de

madeira do diabo em suas casas, vestissem amarelo, mantivessem suas sepulturas niveladas

com o chão e montassem apenas em mulas e jumentos “com selas de madeira marcadas por

duas bolas em forma de romã na patilha de sela”.

Em al-Andalus, não muçulmanos não eram classificados como iguais — e isso vai contra

os ensinamentos islâmicos —, embora raramente fossem requeridos para fazer mais do que

gestos simbólicos de submissão. Em vez disso, um conceito radical nascia: convivencia, ou

pessoas de fés diferentes vivendo e trabalhando conjuntamente. Judeus e até mesmo cristãos

começaram a ter papéis importantes no governo como escribas, soldados, diplomatas e

conselheiros. Um judeu urbano, letrado e devoto tornou-se o ministro do Exterior não oficial,

mas muito poderoso, do Estado islâmico, enquanto um bispo era um de seus embaixadores.

Poetas judeus reviviam o hebraico como uma língua viva após séculos de dessecação litúrgica,

e os judeus sefardis — assim chamados por causa de Sefarad, o termo hebreu para al-Andalus

— foram libertados de uma longa era de perseguições bárbaras em direção a uma idade de

ouro. Os cristãos aderiram alegremente à cultura árabe; além de vestirem-se, comerem e

banharem-se como árabes, chegavam até mesmo a ler as Escrituras e recitavam a liturgia em

árabe. Isso rendeu a eles o apelido moçárabes, ou “querendo ser árabe”, por causa de um

punhado de refuseniks (“aquele que recusa”) que tinham como missão insultar o Islã. Um

deles, um monge aristocrata de nome Eulógio, alegou entre seus insultos pitorescos que

Maomé vangloriara-se de deflorar a Virgem Maria no Paraíso. A maior parte deles conseguiu a

morte do mártir que buscavam, e vários pedaços de seu corpo foram levados secretamente para

fora da fronteira para se tornar atrações disputadas em grandes cidades cristãs. Al-Andalus

nunca chegou a ser propriamente um amálgama multicultural, e mesmo que diferentes

tradições se renovassem e se misturassem umas às outras e que a própria diferença fosse

louvada em lugar da conformidade reforçada por sociedades menos confiantes, indivíduos com

percepções e desejos próprios surgiam das sombras de um mundo rigidamente hierárquico.

Este era um fenômeno marcante na Europa da Idade das Trevas, que tinha mergulhado

em uma depressão comum a todo o continente, convencida de que o mundo estava ficando

velho e que fogos apocalípticos chamejavam no horizonte. A Espanha, ao contrário, vibrava

com as novas culturas vindas do Oriente, embriagada pelo cheiro de flor de laranjeira que

pairava em suas terras. Córdoba, a capital islâmica às margens do rio Guadalquivir, foi

transformada na metrópole mais magnífica a oeste de Constantinopla, com mercados

apinhados de delicadas sedas e tapetes, e avisos oferecendo serviços de advogados e arquitetos,

cirurgiões e astrônomos em suas ruas pavimentadas e brilhantemente iluminadas. As estantes

da biblioteca principal — uma das setenta na cidade — gemiam com o peso de 400 mil livros,

mil vezes o número alardeado pelos maiores acervos do Ocidente cristão. A Grande Mesquita

— em espanhol, a Mezquita — era uma igreja gótica transformada em uma ilusão de ótica, um

espaço de sonhos em mutação com colunas de mármore delicado apoiando arcos sobre arcos,

em listras como em um doce vermelho e branco. Com uma população de quase meio milhão,

Córdoba foi, durante um tempo, a maior cidade na Terra; ela era, escreveu uma freira saxã, “o

ornamento brilhante do mundo”.

Al-Andalus alcançou o máximo de seu poder no século x, quando seu governante

descobriu que tinha crescido demais para tolerar o status de mero emir — ou governador — e

proclamou-se o verdadeiro califa, o herdeiro à linha legítima de sucessão de Maomé e o líder de

todos os muçulmanos. Para demonstrar sua magnificência, Abd al-Rahman iii construiu para

si uma cidade palaciana que se espalhava para fora de Córdoba. Repleta de tesouros, ela era

uma declaração resplandecente da intenção dinástica. Tinha portas esculpidas em marfim e

ébano que se abriam para jardins rodeados de fossos com zoológicos exóticos, esculturas

espalhafatosas moldadas em âmbar e pérolas, e gigantescos lagos de peixes, que eram

alimentados com 12 mil pães recém-assados por dia. A longa fila de embaixadores que davam

rasteiras uns nos outros para oferecer presentes ao novo califa era recebida em um salão de

mármore translúcido, onde, no centro, embaixo de uma gigante pérola pendente, uma piscina

cheia de mercúrio os deslumbrava quando era movimentada no momento operativo.

Depois de três séculos, porém, a potência islâmica no continente europeu desfez-se em

nada, em um histórico estalar de dedos. Como toda nação que se deixa levar pelo complexo de

superioridade, ela tinha se tornado muito complacente para perceber os sinais de perigo. O

conto de fadas que culminou com o orgulhoso califa isolado em seu palácio de maravilhas

chegou a um apropriado fim nas mãos de um palaciano maléfico chamado Abu Amir al-

Mansur — “o Vitorioso” —, que, de fato, era tão vitorioso que venceu 51 das 52 batalhas em

que lutou. A maior parte delas foi combatida com um fanatismo sem precedentes contra os

descendentes dos godos, que tentavam se manter nas fortalezas do nordeste da Espanha, e a

fama de al-Mansur granjeou-lhe o nome ocidentalizado de Almanzor. Almanzor encarcerou o

jovem califa, construiu para si uma cidade palaciana rival no lado oposto de Córdoba,

transformou al-Andalus em um Estado político e ofendeu seus cidadãos ao arrebanhar rudes

berberes e até mesmo mercenários cristãos em suas campanhas militares. Na ocasião de sua

morte, em 1002, a Espanha muçulmana implodiu em uma guerra civil; poucos anos depois,

tropas berberes ressentidas despedaçaram o lar exemplar dos califas, apenas setenta anos após

seu surgimento que deslumbrou o mundo.

Al-Andalus fragmentou-se em uma colcha de retalhos de cidades-Estados concorrentes, e

os reis cristãos do outro lado da fronteira finalmente viram sua chance.

O reavivamento cristão na Espanha é um assunto longo e ruidoso, e a agitação sem fim

de seus reinos em miniatura é uma questão tediosa. Pela antiga tradição tribal, os governantes

deixavam seus territórios para serem divididos entre seus filhos, e estes tolamente se lançavam

em orgias fratricidas. Enquanto as perturbações da guerra redemoinhavam, monarcas rivais

faziam alianças de conveniência tanto com assaltantes muçulmanos quanto com seus irmãos

de religião. Além disso, gradualmente eles foram se mudando para o sul, para as enfraquecidas

cidades-Estados e, de repente, estava ao alcance deles reordenar a história.

Por volta da virada do milênio, a Europa ocidental finalmente começou a se desvencilhar

de seu manto de escuridão manchado de sangue. Os vikings passaram a fixar residências e a se

converter ao cristianismo. A França emergiu das partes ocidentais do antigo império de Carlos

Magno, ao passo que o Santo Império Romano, precursor da Alemanha, permaneceu firme em

suas terras orientais. A Igreja romana havia se recuperado de um vergonhoso momento de

baixa e acalentava novamente o sonho de aumentar seu rebanho. Ela viu sua chance na

Espanha.

Em 1064, o papado avalizou a guerra contra os muçulmanos de al-Andalus — a primeira

guerra cristã abertamente deflagrada contra um inimigo que era definido por sua fé. A partir

daí, os espanhóis marcharam — protegidos, mas não propriamente unidos — sob a insígnia

papal. Eles foram para a batalha armados com a inflexível garantia de que, enquanto

representantes de Cristo na Terra, podiam distribuir indulgências em massa para os que

morriam, o que os absolvia de pagar penitência por seus pecados e lhes garantia admissão

imediata no Paraíso.

A luta logo ganhou um nome — Reconquista — que deixava de lado o fato inconveniente

de a maior parte da península ter sido por mais tempo território muçulmano do que cristão.

Uma agitação casual de batalhas por glória pessoal e expansão territorial se transformou em

uma guerra de libertação religiosa, exibindo seu próprio santo patrono na forma do apóstolo

Tiago. São Tiago — Santiago em espanhol — foi decapitado em Jerusalém alguns anos depois

da morte de Jesus, mas um eremita guiado por uma estrela desenterrou miraculosamente seus

ossos em um campo espanhol. Em sua improvável vida após a morte, o companheiro de Jesus

foi transformado de Santiago Matamoros — “São Tiago, o Mata-Mouros” — em Moro, que veio

do nome romano para os berberes, sendo este o termo genérico que os cristãos ibéricos davam

aos muçulmanos, berberes e árabes. O Mata-Mouros emprestou seu nome para a Ordem de

Santiago, uma das muitas irmandades militares que nasceram para fazer a guerra contra o Islã,

e a ordem adotou um lema perturbador: “Que a espada seja vermelha de sangue árabe”. A

partir daí o apóstolo regularmente aparecia no calor das batalhas vestido em armadura

brilhante, cavalgando um cavalo branco e estimulando seus seguidores a permanecerem

perseguindo o Infiel.

Mesmo nesta época, nem todos os cristãos da Espanha sabiam muito bem a quem eram

leais. Esta era a época de El Cid, que mereceu uma reputação brilhante como herói espanhol,

a despeito de ser um soldado pago tanto por muçulmanos quanto por cristãos. Em 1085, o

eventual chefe de El Cid, o astuto e ambicioso Alfonso, o Bravo, de Leão e Castela, induziu

seu caminho em direção ao controle da velha cidade fortaleza de Toledo, e a Toledo cristã

assumiu o controle de uma Córdoba arruinada como a capital europeia da cultura. Em uma

sinagoga desenhada por arquitetos muçulmanos, cristãos, muçulmanos e judeus celebravam

seus ritos uns ao lado dos outros. Na Escola de Tradutores, muçulmanos e judeus

colaboravam para traduzir textos médicos, científicos e filosóficos do árabe para o latim.

Viajantes cruzavam os Pirineus, introduziam a cultura e o ensinamento islâmicos para o resto

da Europa e transformavam a vida intelectual com seus estilos decorativos, receitas, moda e

canções. Com o enfraquecimento dessa convivência, os espanhóis se tornaram os mestres da

modernidade.

Toledo era um último arroubo brilhante do que poderia ter sido, uma explosão final e

caótica de criatividade. À medida que exércitos cristãos seguiam adiante, em direção ao sul, os

governantes muçulmanos que restavam na Ibéria começaram a temer que seus dias estivessem

contados. Quando o entusiasmo de Alfonso, o Bravo, o levou longe demais e ele se proclamou

prematuramente imperador de toda a Espanha, al-Andalus finalmente resolveu chamar ajuda

de fora.

Foi um erro fatídico.

Os almorávidas eram uma seita muçulmana feroz do deserto do Saara, que haviam

surgido em torno de um missionário severo que insistia em disciplina rigorosa e em acessos

regulares de flagelação. Eles já tinham se expandido para o sul até a África subsaariana e ao

norte até o Marrocos, e estavam prontos para atravessar o estreito de Gibraltar em direção à

Espanha. Assim que chegaram, os almorávidas decidiram que seus correligionários eram um

bando de sensualistas podres, e voltaram para casa a fim de se armarem com uma fatwa, ou

opinião legal, confirmando seu direito de depô-los. Quando retornaram, os orgulhosos árabes

de al-Andalus respiraram fundo e cederam à pressão. O novo califado reuniu devidamente as

cidades-estados em disputa e enfrentou os cristãos até que também ficasse instável e fosse

tirado do poder pelos almôades, outra dinastia berbere, que a tudo conquistava, vinda de

Ceuta.

Os almôades eram fundamentalistas ainda mais fanáticos do que os almorávidas, e

partiram para transformar al-Andalus em um Estado jihadista.

Há muito tempo, quando o Islã tinha se expandido para muito além da Arábia, seus

estudiosos dividiram o mundo em dar al-Islam, a Casa do Islã, e em dar al-Harb, a Casa da

Guerra. De acordo com essa doutrina, a primeira tinha o dever de pressionar a segunda até que

esta desaparecesse. A jihad armada — jihad, em si, significa somente “luta”, e frequentemente

se refere a um esforço interior para alcançar a graça — era o instrumento divinamente

sancionado de expansão. Enquanto a Casa do Islã se partia e muçulmanos lutavam contra

muçulmanos, o braço forte da guerra santa tinha desaparecido. Embora os almôades não

tolerassem tal fragilidade, e ainda impusessem severas restrições a seus companheiros

muçulmanos, declararam uma jihad eterna contra os cristãos e judeus espanhóis. Na fé

desenraizada e raivosamente podada dos almôades, os cristãos não eram melhores do que os

pagãos: como adoradores de uma divina trindade mais do que o Deus uno e verdadeiro, eles

não mereciam mais o status de povo protegido. Aos dhimmi que ainda viviam em al-Andalus

foi dado um ultimato: morrer ou converter-se. Em vez de escolher, muitos fugiram.

A cristandade ocidental sofreu uma transformação semelhante. O cristianismo começou

como um movimento humilde de sectários judeus, mas quando foi adotado como a religião

oficial do Império Romano, logo fez as pazes com a guerra. As legiões de Roma marcharam

para a batalha sob a cruz, e assim também o fizeram sucessivas ondas de bárbaros, muitos dos

quais convertidos ao catolicismo na ponta de uma espada. Santo Agostinho, o primeiro

pensador cristão a conceber o conceito de uma guerra justa, condenou batalhas por poder ou

riqueza como não melhores do que um furto de grandes proporções, embora reconhecesse que

a violência tinha de ser paga com violência, de modo a manter a paz. A jornada de Agostinho

perpassou bárbaros que faziam pilhagens e vikings, através de grandes sonhos papais e de uma

Europa ofuscada por campos militares, até que a luta pelo cristianismo fosse vista como uma

luta nobre contra o Anticristo. À medida que os teólogos católicos finalmente começaram a

deslindar os mistérios do Islã, qualquer acomodação entre as duas crenças não fazia sentido

doutrinal nem prático: ao passo que os muçulmanos ao menos reconheciam os cristãos,

conquanto enganados, como seus precursores na fé, para os cristãos a religião mais nova lhes

dizia, intoleravelmente, que eles tinham entendido tudo errado.

Apesar de todas as diferenças, foram as semelhanças que mais dividiram as duas crenças.

Diferentemente de qualquer outra religião importante, ambas reivindicavam posse exclusiva da

revelação final de Deus. Ao contrário da maioria, ambas eram crenças missionárias que se

empenhavam em levar sua mensagem aos não crentes, a quem rotulavam como infiéis. Como

adeptos de religiões universais e vizinhos geográficos, eles eram rivais naturais. No Ocidente,

essas rivalidades tinham sido postas em xeque por um punhado de governantes iluminados,

pela extensão de difícil deslocamento do império islâmico e pela introspecção cruel da Europa.

Mas o vislumbre final de tolerância diminuía rapidamente, o mundo islâmico tinha começado a

se estilhaçar em cacos mais afiados e a Europa estava finalmente em movimento.

O papa chamou os guerreiros da cristandade ocidental às armas. Dezenas de milhares de

soldados cristãos marcharam em direção ao sul através da Espanha, a postos e cheios de fervor

vingativo para tirar o Islã da Europa.

Na margem ocidental do mundo, a guerra santa foi desencadeada ao mesmo tempo em

ambos os lados de uma divisão cada vez mais inviolável. Não era coincidência que os

descendentes dos lutadores pela liberdade da Ibéria iriam correr pelos oceanos para conquistar

terras extensas em nome de Cristo. Lutar contra o Islã estava no sangue deles: esta era a real

missão fundadora de suas nações.

Enquanto a batalha pelo Ocidente se aproximava do clímax, uma Europa energizada

voltava os olhos para o Oriente. O contra-ataque ao Islã que tinha começado na Espanha se

voltou para a própria Jerusalém, e agora vinha com um nome que assombraria os séculos

vindouros: Cruzada.

2. A Terra Sagrada

No calor abrasador do verão de 1099, milhares de soldados cristãos crestados pelo sol

marcharam pela Europa, cruzaram-na em direção à Ásia e convergiram em Jerusalém.

Chorando de alegria, cantando orações e tendo visões no céu, eles atiraram-se sob uma

tempestade de mísseis muçulmanos e deslocaram suas armas de cerco de madeira até os altos

muros brancos da cidade sagrada. Quando ultrapassaram as ameias, cortaram caminho por

ruas gastas pelo tempo até que as próprias pedras parecessem sangrar. Vindos da matança,

cambaleantes sob o peso de seus saques, eles se reuniram na igreja do Santo Sepulcro e

rezaram na sepultura de Cristo. Jerusalém era cristã novamente, 461 anos depois de ter se

tornado muçulmana.

O jorro de fervor europeu que lançou a Primeira Cruzada havia começado quatro anos

antes, bem ao longe, nas florestas montanhosas do centro da França. Lá, em um dia frio de

novembro, treze arcebispos, noventa abades, 225 bispos e um comboio barulhento de nobres e

cavalheiros juntaram-se para escutar um importante anúncio feito pelo papa. A igreja era

pequena para abrigar a todos, e a assembleia foi a um campo próximo para ouvir o toque de

chamado às armas que estava prestes a disparar séculos de guerra santa no Oriente.

O papa Urbano ii, nascido Odo de Châtillon, era o rebento de uma família nobre de

Champagne. Seu grande plano era inspirado na Reconquista ibérica, mas ele tinha sido levado

à ação por um pedido urgente de Constantinopla.

Seis séculos após a queda de Roma, Constantinopla ainda via a Europa ocidental como

uma terra imperial ocupada temporariamente pelos bárbaros, e recusava rudemente

reconhecer o papa como líder supremo da cristandade. Apenas quatro décadas antes, os

legados do papa tinham espreitado sob as atordoantes cúpulas empilhadas da basílica de Santa

Sofia, a grande catedral de Constantinopla, e tinham excomungado o patriarca no local — um

ataque de ressentimento que separou definitivamente a Igreja ortodoxa oriental e a Igreja

católica romana. Pedir ajuda a Roma era uma perspectiva mortificante, mas Constantinopla

não tinha muita escolha.

Com praças e ruas cheias de esculturas da Grécia e Roma antigas, o hipódromo cercado

de estátuas equestres adornadas e assentos para centenas de milhares de pessoas, suas igrejas

sendo um esplendor dourado de mosaicos e oficinas apinhadas de ícones e sedas requintados,

Constantinopla tinha apenas um rival para o título de metrópole mais glamourosa no mundo

conhecido. A cidade rival havia sido construída pelos abássidas, um clã árabe que expulsara os

califas omíadas do trono em Damasco e dera o golpe final ao convidar oitenta de seus primos

depostos para um banquete no qual eles figuravam como o prato principal. No século viii, os

abássidas tinham desertado da inimiga Damasco para um local no rio Tigre, no seu ponto mais

próximo do rio Eufrates e a vinte milhas das altas ruínas da velha capital persa em Ctésifo. A

nova capital era otimistamente chamada Madinat al-Salam, ou a “Cidade da Paz”, e foi mais

tarde renomeada Bagdá.

Como herdeira de séculos de esplendor cultural persa e o ponto de cruzamento das

correntes de conhecimento que varriam o vasto império islâmico, Bagdá tinha rapidamente se

tornado a potência intelectual do mundo. Estudiosos internacionais se reuniam em sua Casa

da Sabedoria a fim de traduzir para o árabe o amplo corpus de escritos gregos, persas, siríacos e

indianos sobre ciência, filosofia e medicina, e estudiosos islâmicos testavam o Alcorão contra

Aristóteles. Os matemáticos importavam e melhoravam o sistema de números decimal

posicional da Índia e desvendavam os mistérios da álgebra e dos algoritmos. O segredo da

feitura do papel foi extraído dos prisioneiros chineses, e bibliotecas de empréstimos faziam

circular o corpo crescente do conhecimento. Engenheiros e agrônomos aperfeiçoavam a roda-

d’água, melhoravam a irrigação e criavam novas culturas; geógrafos mapeavam a Terra e

astrônomos faziam a carta do céu. A renascença do conhecimento de Bagdá repercutiu pelo

mundo — e apesar disso, mesmo nesse momento, ela estava apodrecendo por dentro.

Os califas abássidas construíram Bagdá como uma cidade perfeitamente redonda, e em

seu centro estava um monumental complexo palaciano, o Portão Dourado. À medida que seu

estilo de vida se tornava firmemente mais monárquico, o Portão Dourado se tornou uma

cúpula de prazer com vinhos, mulheres, música e festas espetaculares. No mundo captado nas

Mil e uma noites, cortesãos beijavam o chão quando se aproximavam do califa, que era seguido

por toda a parte por um carrasco e escapava de seus deveres públicos para um vasto harém que

ecoava com os passos leves de uma seleção internacional de concubinas e cantoras astutas e

graciosas. No ano de 917, uma embaixada de Constantinopla foi recepcionada por tropas

montadas em selas de ouro e prata, elefantes revestidos de brocados e cetim, uma centena de

leões, 2 mil eunucos brancos e pretos e garçons oferecendo água gelada e suco de fruta. O

palácio estava adornado com 38 mil cortinas feitas de brocado de ouro e acarpetado com 22 mil

tapetes, enquanto quatro barcos de ouro e prata flutuavam em um lago revestido de estanho.

De outra piscina brotava uma árvore artificial onde se viam joias em forma de fruta, com

pássaros de ouro e prata empoleirados em seus ramos igualmente de ouro e prata; atendendo a

uma ordem, a árvore começaria a balançar, as folhas de metal fariam um ruído e os pássaros de

metal chilreariam. Era bem diferente da ummah igualitária de Medina, e à proporção que o

insulto aumentava, os califas construíam para si uma política de segurança na forma de um

exército pessoal de mamelucos, escravos turcos arrancados das tribos selvagens que

perambulavam pelas estepes da Ásia Central. A solução provou ter vida curta. Os turcos se

converteram ao Islã, adotaram a cultura local e arquitetaram uma série de golpes militares: em

nove anos, ao menos quatro de cinco califas foram assassinados. Assim como os cidadãos

ofendidos de Bagdá entraram em rebelião, os turcos queimaram quarteirões inteiros da cidade.

O centro de Bagdá não se manteria, e tampouco o centro do extenso império islâmico. A

oeste, uma seita xiita tirava o controle da Tunísia e do Egito; sua dinastia governante, que se

intitulava fatímidas, após ter alegado descendência da filha de Maomé e da esposa de Ali,

Fátima, expandiu seus domínios para a Síria, Palestina e grande parte da própria Arábia, e por

dois séculos governou como califado rival a partir de sua nova capital no Cairo. A leste, o poder

persa reviveu durante um tempo até que a expansão ocidental da China empurrasse tribos

turcas inteiras para o Irã, onde elas construíram reinos independentes e apenas diziam palavras

vazias aos califas. Em 1055, os seljuks, uma dinastia turca nomeada a partir de seu primeiro

líder, finalmente tomaram Bagdá, instalaram seu líder como sultão, ou “detentor do poder”, e

relegaram os califas ao status honorário de representantes religiosos.

Ao longo dessas rebeliões, Constantinopla observara satisfeita. Ela tinha retomado

algumas de suas terras perdidas havia muito, e seus exércitos tinham quase alcançado os